Blog de Lêda Rezende

Janeiro 25 2010

 

Nem acredito no que estou vendo.


Não é que é ele ali?

 

Nunca venho aqui e justo hoje tivemos que vir os dois. E ainda tem esta fila que não anda. Nem a minha nem a dele. Queria saber mais geometria.

 

Estamos num paralelo ou numa perpendicular? Já esqueci disso tudo. Também vê se isso é lá pensamento para me deter. Pior é encontrá-lo aqui, assim, ao vivo e de corpo inteiro. Sempre o vi pela metade.

 

Será que o mundo foi construído no tempo em quem um caixa digitava as compras?

 

E pensar que nem Roma foi construída em um dia! Devia ter caixa e computador lá também. E duas, provavelmente.

 

Ele continua olhando. Será que me reconheceu ou está pensando que sou outra pessoa? Ou pensando que sou outra e se também vizinha dele?

 

Deve ter mais vizinhas que ele fica olhando, afinal, tem que revezar o turno e as pessoas.

 

Todos trabalham, acho que só ele não.

Será que aquela senhora vai demorar muito retirando as compras do carrinho? Talvez eu devesse ir ajudá-la, mas vai lá que ele pensa que eu estou desfilando para ele.

 

Deve ter mil taras, sempre soube que uma tara puxa outra.

 

Ainda bem que aqui está bem cheio de gente, se ele se atreve a alguma coisa dou um escândalo.

 

Ele iria adorar se soubesse que enfim eu dei um escândalo por me sentir ameaçada.

 

Mas será que eu daria mesmo? Acho que as ameaças acabam por me paralisar. Belo diagnóstico: ela sofre de paralisia de ameaça. Ridícula mesmo eu. Na minha idade e com uma paralisia destas. Devia era me envergonhar.

 

Ele está olhando de novo, agora sinto o olhar em meu cabelo. Que vontade de passar a mão na cabeça, mas ele vai achar que estou sabendo para onde ele está olhando. Tenho mania de pegar meu cabelo. Desde pequena faço isso.

 

Ele tem razão quando fala que não cresci.
É verdade. Ou cresci conservando o que não devia. As manias, os medos.
Queria que ele estivesse aqui comigo, mas ele não viria, não quer que sejamos vistos fazendo compras como casal casado. Mas bem que eu gostaria de mostrar a ele o tal vizinho.

 

Essa fila parece que vai durar a vida toda. Ele está agora bem atras de mim, acho que de uma perpendicular...ou seria uma diagonal? De nada adiantou estudar tanta geometria, numa emergência de descrição, sumiu tudo.

 

Quem mandou aquela moça desistir do lugar? Agora sim, estamos mesmo perto.

 

Será que tem algo de errado com meu sapato?
Ou será que a outra tara dele é podofilia?

 

Será que não tem gerente aqui? Alguém tem que vir ver o que se passa com este computador. Será mesmo tão difícil vencer de uma máquina?

 

Então ele gosta de comer saladas, não é? Só tem salada naquele carrinho, parece a selva. Deve ser para não engordar e não cair da janela.

 

Quase ri agora pensando nele gordo se espremendo na janela para olhar a vizinhança.

 

Sim, porque agora tenho certeza de que ele faz isso com toda a vizinhança.
É um tarado público. Um tarado com olhar promíscuo.

 

Pronto, agora ri mesmo.

 

Ele nem vai acreditar quando eu contar que fiquei tão perto do vizinho. Pior que vai me perguntar como o reconheci tão rápido se é ele quem me olha e não eu para ele. Agora ele está ficando meio ciumento. Ou finge, não sei. Ele é tão seguro.

 

Acho que vou desistir desta fila. Mas sempre tem aquela coisa de quando se troca de fila ela anda e a que vamos para. Ele agora está também olhando para o meu carrinho. Vai pensar que sou alcoólatra, porque só tem bebidas. mas estavam na oferta e não quis perder, afinal o inverno está chegando.

 

Mas o que estou eu fazendo? Me explicando para ele em pensamento? Compro o que eu quiser e que cada um pense o que quiser.

 

Ele iria dizer que sou desaforada. Adoro quando ele me diz isso. Me sinto tão corajosa. Acho que ele fala para me estimular, ele bem sabe que sofro daquela paralisia que não quero repetir o nome nem em pensamento mais.

 

Até que enfim a fila começou a andar. A dele ainda não. Ótimo, assim saio antes dele e desapareço. Ele não vai saber por onde vou. Que bobagem. Se ele sabe onde moro por que iria querer saber um simples roteiro de acesso?

 

Adorei meu Português agora. Preciso falar sempre assim.

 

Mas que azar o meu. Agora é ele que está na frente.
Pronto.
Ele já se vai agora.
Vou fingir que não vi que ele está olhando para trás.
Pronto.
Se foi.

 

Voltou. Voltou? Porque será que voltou?

 

Ah! Esqueceu um pacote. Está falando com a moça do caixa.
Ficou de frente para mim.
Me olhou. Devolvi um olhar bem sério.

 

Mas... não acredito no que estou vendo, todo esse tempo eu aqui indignada e:
o “vizinho” não é o vizinho!

 

 

publicado por Lêda Rezende às 23:59

Janeiro 23 2010

 

 

É. Estou muito cansada.


Tanta coisa a fazer e não consigo me mover daqui. Deitada na cama, janela aberta.

 

Olha o que descubro. Bem ali. Pendurado e disfarçado. O vizinho.

 

Esgueirado. De olho em meus movimentos. Como se algum movimento eu fosse fazer. Vai ver está esperando eu mudar a roupa. Eu que nem consigo trocar sequer a perna de lugar.

 

Vai ter muito que esperar.

 

Algo se moveu. Será que o vizinho percebeu. Movi os músculos do rosto pensando: é essa “ansiedade bancária”. Toda vez que vou ao Banco, lá se vai mais cansaço. Duplo. Com direito a juros.

 

E a gerente. Ela vai começar a fumar dia desses. Vive esperando depósito e só recebe expósito. Expósito foi perfeito. Sorri de novo.

 

Desta vez acho que ele viu porque levantou um pouco o corpo. Vai ver acha que tem mais alguém aqui alem de mim. Aguarda alguma sessão de sexo explícito.

 

Já estou começando a ter pena dele. Está em pior situação que a minha. Eu, ao menos, sei porque estou aqui imóvel, rindo e pensando. Ele depende de mim para se mover, rir ou pensar.

 

Depende do espaço da janela e do alcance da visão. Vive da expectativa da oferta do outro. Que nem para ele é!
Coitado.

 

Lembrei dele. Será que está pensando onde estou. Me supondo a descer e subir de prédios. E eu aqui. Deitada. Com vontade de fazer nada.

 

Ri novamente.

 

Ele e o vizinho estão a esperar meus movimentos. Nunca pensei que um dia alguém iria esperar os meus movimentos. Justo os meus. Eu que nem dançar bem sei.

 

Até um frango morto espera meus movimentos. Está lá. Esperando os temperos para se re-transformar.

 

Aquela pia da cozinha está me irritando já. Pratos e copos se espremendo. Cheiro de alho. Facas. Hoje tudo está a depender dos meus movimentos. Assim vou acabar paranóica.

 

Ainda bem que o telefone avisa que tem zero recados. Se ninguém se movimentou para mim, não preciso me movimentar para os outros.

 

Quero me arrumar. Para quando ele chegar à noite. Gosto quando ele chega. Vai me pedir um vinho e vai me dizer que o serviço está cada dia pior. Aí vou rir solta. Vou levantar e trazer a taça com aquele líquido que tem a cor do calor do deserto. Ri de novo: eu a as minhas metáforas. Desde quando calor de deserto tem cor.

 

Pena que a esta altura, quando ele chegar, o vizinho já se foi.

 

E se ficou, vai se assustar. Vai pensar que de tanto eu ficar aqui deitada nasceu barba e pelos nas minhas pernas.

 

Ri de novo e desta vez olhei sério para ele.

 

Deixa só ver quando der com a testosterona substituindo a inércia.

 

Acho que eu deveria colocar uma música. Nada me ocorre agora além de um canto gregoriano. Não consigo encontrar. Também vivo trocando disco e capa. Que nem faço com a vida. Quando uma coisa pode ser encaixada, falta a caixa. Quando acho a caixa, a coisa já se foi.

 

Caixa me lembra o austríaco, objeto bem feminino.

 

Ele quer me dar uma caixa de música. Adoro caixa de música. Mas ainda não me deu. São tantas as caixas que já tenho sem nada para colocar dentro. Pelo menos esta já viria com a música colocada.

 

Bom, mas isso não dá pra resolver agora. Ainda tem o frango. O vizinho. O canto gregoriano. As pernas para mover.

 

Depois decide-se o que mesmo se coloca dentro. Ou se deixa de fora. Anda tenho que escrever um texto. E nem quero pensar em arrumar letras e frases. Citar filósofos. Imaginar o outro lendo. Me submeter ao olhar do outro com humildade mais que cristã.

 

Será que existe essa humildade. Talvez menos que cristã seja mais que cristã.
Pronto. Nem eu entendo mais o que penso.

 

O vizinho ainda está lá. Agora que vejo que ele não é tão jovem.

 

Trocamos de posição. Eu que o estou a observar. Tem cabelos grisalhos. A camisa colorida até que dá a ele um brilho de movimento. Ele se incomodou com a troca de posição. Está desconfortável e disfarça.

 

Mas vou ter mesmo que ir fazer o frango ficar feliz. Lamento, vizinho, mas um frango ficará feliz por ter morrido para ser comido gostoso e você vai ficar infeliz por ser deixado sem gosto em meio à vida.

 

Parei em meio ao levantar: coitado do frango. Precisou morrer para ser comido gostoso. Bom, melhor ir cuidar da felicidade do frango e deixar as digressões para depois. Já está na hora dele chegar.

 

E aí quem vai ficar feliz e bem viva sou eu.

 

 

publicado por Lêda Rezende às 12:21

Setembro 11 2009

 

O cenário era o mais - .

 

Parou na palavra mais. Faltou palavra. Sobrou questão. Faltou frase. Sobrou pontuação.

 

Assim. Como uma poesia invertida. Lembrou até do dramaturgo Frances. Ele estava correto. E atual. Era verdadeiro o teatro do absurdo. 

 

A caminhada era em direção à música. A um concerto. Conhecia a orquestra. Conhecia o local. Garantia de prazer com certeza absoluta.

 

Lembrei dela. Íamos muito. A última vez foi com ela. Ainda não tinha optado pelo teatro do além mar. Já acordei enviando recadinhos. Malvada - escrevi rindo. Adivinha para onde vou hoje.

 

O dia estava frio. O céu de um belo azul turquesa. Um ventinho tranqüilo percorria as pessoas e as árvores. Em volta do Teatro - prédios antigos restaurados davam um quase sofisticado toque de elegância - ao antes envelhecido e descuidado. Poucas pessoas passavam caminhando. Só um ou outro que parara o carro mais distante do local do concerto.

 

Foi nesse percurso que surgiu uma esquina.

 

A caminho do concerto.  E foi na virada da esquina que pareceu virar o mundo. Ao avesso. Ou ao direito. Isso nunca se sabe mesmo. Mas parecia que tinha virado. Talvez até coubesse um túnel. O do tempo.  Tudo isso me veio à mente. Aos borbotões. Pode até ter faltado palavra ou frase. Para completar o mais. Porém não faltaram - mais.

 

Ali poderia caber tudo. O começo. O meio. Até o fim. Do mundo. Parecia que espaço e tempo tinham se desordenado de repente. Onde era para ser centro – se transformara no final. Onde era para ser contemporâneo - se transformara em medieval. Mais ou menos assim.

 

Passível de se dizer - assombroso. Ou pavoroso. Ou deprimente. Ou assustador. Ou melancólico. Tudo com um mais na frente de cada adjetivo.

 

Ela vinha. Caminhava seminua. Devagar. Parecia completamente à vontade. Aliás. Termo realmente adequado. Não ria alto. Não chorava.

 

Tinha o sorriso mais tranqüilo – outro mais – que se poderia supor. A roupa suja e rasgada cobria-lhe as partes escolhidas pelo tecido. Não por ela. O que expunha e o que ocultava era um mero detalhe aleatório. Onde não tivesse furos ou faltas – estava coberto o corpo.

 

Olhou para mim. Com aquele mesmo sorriso-tranquilo-social. Fez um aceno com a cabeça.

 

Lembrei do ar sofisticado dos prédios envelhecidos. Só que ao contrário deles - não fora restaurada. Muito menos acolhida. Morava onde deitasse. E sua casa era uma sacola que segurava com a mesma tranqüilidade que sorria.

 

Era jovem. Deveria nem ter chegado à terceira década.

 

Alguns ainda dormiam pelas calçadas. Outros comiam. Outros simplesmente restavam ali. Não olhavam nem para ela - nem entre si.

 

Estanques no particular de cada história. De cada destino.

 

Depois do aceno que me fez, virou-se para o céu. Olhou. Conferiu. Não sei bem o que. Mas pareceu encontrar o que buscava. Fez uma volta sobre si mesma – sentou num degrau da calçada. Displicente com as roupas e seus rasgados permissivos – abriu a sacola. E se concentrou.

 

Quem sabe - uma Pandora de si mesma. Moderna portadora das aflições antigas. Ou o contrário.

 

Mas esta não é uma avaliação fácil - nem confiável.

 

Na esquina seguinte - outro cenário. Surpreendente - não fosse a certeza do procurado.

 

Mudava tudo. Desde cores a cheiros. Desde passantes a ocupantes. Dava até para uma confusão mental. Como se os atores desta peça urbana e a construção apropriada para a encenação - estivessem em desencontro.

 

Lá estava o belo Teatro. Suntuoso. Imponente. E com a fachada em restauração.  Incrível.

 

Até olhei para trás. Ela não estava. Esta não era a esquina dela. Ou ela não era desta esquina.

 

Nas escadarias as pessoas aguardavam. Excessos de tecidos cobriam os corpos. Meias e botas. Sorridentes e falantes – muitos aguardavam a abertura.  O dia frio convidava a agasalhos coloridos. E era um –mais – de delicada sobriedade. Quase uma celebração.

 

Veio o primeiro aviso. O segundo. A orquestra começou.

 

O regente ergueu a batuta.  Excessos e faltas se igualaram e se diferenciaram.  A música preencheu espaços. Enfiou-se em cantinhos. Aguçou sentidos. Liberou emoções. Como se despisse a cada um por inteiro. E cobrisse a cada um por partes.  

 

Na saída voltei pelo mesmo caminho. A Pandora de si mesma e a sua caixa - dormiam aconchegadas.

 

Estava assim – mais - marcado o domingo.

 


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