Blog de Lêda Rezende

Maio 22 2009

Decidira assim. De repente. Abriria uma vaga na rotina. Até riu depois que assim nomeou.

 

Toda arrumada para sair. Desistiu. Voltou. Nunca na vida tinha feito algo sequer parecido. Era rigorosa em sua rotina. Não faltava ao trabalho. Não chegava atrasada. Uma metódica compulsiva. Vai lá saber o que lhe dera naquele dia. Mas decidiu por acatar a sua vontade. Que seja feita, então.

 

Ficaria o dia em casa.

 

Telefonou para o escritório. A faxineira atendeu. Avisou que não iria. Estava adoentada. Riu de novo. Estava mesmo. Doente de vontade de ficar em casa. O marido sairia logo depois. Tiraria o dia para si. E dentro da sua própria casa. Quando a diarista chegasse, pediria para não incomodá-la.

 

Que fizesse de conta que ela não estava ali.

 

Assistiria a um filme. Dormiria mais um pouco. Tinha que organizar uns documentos. Faria isto no final do dia. Quando o tédio ou a culpa ameaçassem substituir o prazer do ócio. Ai uma tarefa seria útil. Na casa tinha um pequeno escritório. Embaixo da escada. Com um pequeno sofá.

 

Colocou um dos seus clássicos preferidos bem baixinho. Tirou a roupa formal e deitou. Recurvada sobre si mesma, cobriu-se com uma manta. E começou a ler um livro.

 

Escutou uma voz. Era a voz da diarista. Falava com alguém ao telefone. E dizia que já estava tudo certo. Sairia sim. No final do mês. Não. Não tinha avisado ainda. Tudo de última hora. Falou assim. Tudo de última hora. Não queria mais. Trabalhar em lugar com terraços e jardins. Lá para onde ia era um apartamento. Nem vasinho de planta tinha. Só as salas necessárias e vazias. Riu. Fez algum outro comentário que ela não entendeu. E desligou.

 

Se sentiu espiã em sua própria casa.

 

Nem bem pensou isso e escutou outra voz. Também ao telefone. Era a voz do marido. Combinava algo. A voz estava suave. Gentil. Combinava um encontro. No final da tarde. Sim. No de sempre. Eu sei que você adora. Nada de última hora. Falou assim. Nada de última hora. Outro carinhoso para você. Riu. Fez algum outro comentário que ela não entendeu. E desligou.

 

O no de sempre a fez sentir um frio. Congelou. Pior que o outro carinhoso. Pior que a tal ausência do vasinho de planta. Tudo ou nada - de última hora. Quase pegou um agasalho que estava pendurado num cabide junto à porta.

Mas ficou com uma dúvida. Entre pegar o agasalho. E se enrolar. Ou pegar dois agasalhos. Um para cada um. A diarista. E ele. Porque eles é que ficariam congelados. Quando a vissem.

 

Optou pelo efeito assombração. Saiu debaixo da escada.

 

Falou um bom dia. Atrás dela. Da diarista. Ela se virou. Pele pálida. Parecia cristalizada. Avisou calmamente. Já está liberada. Pode ir.

Ela se desculpou. Chorou. Disse que estava arrependida. Que adorava ela. Que adorava trabalhar para ela. Que tinha sido um mal entendido. Perdão. Coisas de imaturidade. Nada resolveu.

 Liberou a diarista lecorbusierista.

 

Subiu as escadas.

 

Falou um bom dia. Atrás dele. Do marido. Ele se virou. Pele pálida. Parecia cristalizado. Avisou calmamente. Já está liberado. Pode ir.

Ele se desculpou. Chorou. Disse que estava arrependido. Que adorava ela. Que adorava morar com ela. Que tinha sido um mal entendido. Perdão. Coisas de imaturidade. Nada resolveu.

 

Liberou o marido dongiovannesco.

 

Tomou mais uma decisão. Telefonou para o escritório. Confessou a mentira que inventara. Ele a liberou. Deste e de todos os dias futuros. Diferente dos outros libertados, disse apenas obrigada. Passaria lá a qualquer hora para os acertos.

 

Abriu os olhos. Ficou paralisada. Depois deu um pulo. O marido estava diante dela. Arrumado para sair. Até riu quando a viu assustada daquele jeito. Parecia um sono tão bom. Não quis lhe acordar. Desculpe se assustei.

Devia ter subido. Lógico que não iria me incomodar. E ainda ficaríamos um pouco mais juntinhos. Fez bem em ficar em casa. Você anda muito cansada.

 

Pegou o livro que estava caido no chão. Deu um beijo nela. Desejou bom dia, querida. Jantamos fora hoje, não esqueça. Já fiz as reservas. Nada de última hora. E no de sempre.

 

Passou um tempo até compreender. Depois sorriu. Muito feliz.

 

Da janela cumprimentou a diarista que, cantarolando, regava as plantas do jardim.

 

 


Março 22 2009

A noite era de festejo.

 

Ele estava lá. Parecia cansado e feliz. Não sei se na mesma dose. Mas sorria. Era também a noite dele. Seus símbolos estavam inseridos num contexto onde se faziam decifráveis - em sua maioria. Tapinhas nas costas. Risos. Sinceridade. Insinceridade. Tudo que faz parte do cotidiano social saudável. Noite de autógrafos. Cada um regendo sua letra. Cada um lendo seu mérito. Cada um se sentindo ilimitado em seu espaço.

 

De repente os encontro.  Ela sempre gentil. Delicadinha. Pode ser alta, muito alta, mas o estilo e o riso são da delicadeza de uma miniatura. Sempre sorridente. Atenta a quem gosta. Ele faz o par perfeito com ela. Irreverente. Foi logo poupando o peso da bolsa no ombro dela. Colocou em seu próprio ombro. Sabe bem o Lugar que ocupa. Não precisa de valise de rótulos. Já se livrou disso. Faz tempo. Sábio.

 

Começamos a rir por causa de um coelhinho. Nunca poderia imaginar que ela conhecia a revolta do coelhinho. A minha revolta do coelhinho. Então fora mesmo verdade. Ela custara a crer. Sim. Porque o coelhinho dele morreu - deram o meu. Para que ele não ficasse triste. Que idéia. Que forma de lidar com a tristeza. De um. Em detrimento da alegria. Do outro. Mas acho que é sempre assim. A alegria acaba sempre perdendo para a tristeza. A disputa tem sempre o lado certo para pender. Igual a mocinha que mudou de lugar por causa do riso. E isso nos trilhos da bondade.

 

Não acreditei quando ele começou a me contar. Novo festival de sustos. E esse seqüencial. Nem bem eu tomava um e já vinha outro. Incrível como o susto percorre todos os espaços.

 

Ele adorava este escritor português. Um ponto em comum forte. Entre nós. Este foi o primeiro susto. Em geral o acham monótono. Prolixo. Tem gente até que já dormiu em meio à leitura. Tratou o coitado do escritor como um edredom. Dormiu enrolada nele.

Mas ele não. Igual a mim. Idolatria. Total. Absoluta. Irrestrita. Indicou um livro dele. Não conhecia. Saímos para comprar o livro. Voltamos. E lá se veio outro susto. Começou a me contar o incidente. Ou acidente. Linha de separação difícil esta.

 

Ele havia encontrado uma vez com este autor. Este mesmo autor. Idolatrado. Lá estava ele. O autor. Sentado numa mesinha no aeroporto. Ele o viu de cima. Parece uma disparidade. Alguém vê-lo de cima. Ele embaixo. Mas foi assim que o viu. Sentado. Numa mesinha de aeroporto. Lendo sozinho. Desceu pelas escadas. Rapidamente. Postou-se diante dele. Apresentou-se. Humilde. Falou da admiração. Da emoção. E colocou as mãos meio trêmulas em cima da mesinha.

 

Agora sim. Susto geral. O escritor sentado. Sossegado. O visitante emocionado. Agitado. E a mesa caída.

 

Sim. Caíra tudo no chão. Pelo chão. Acho que até a emoção caiu espatifada. Coberta pela vergonha. Onde já se viu. Encontrar com um autor homenageado pelo mais importante prêmio no mundo e derrubar tudo por cima dele. Ao lado dele. Aos pés dele.

 

Vai lá saber. Não há geometria exata para definir estas situações. Mas há a certeza da crueldade da lei da Gravidade. Por um fragmento de segundo lembrou que sempre quis nascer em Plutão. Lá essa lei não existe. Quase riu. Aqui vale uma exclamação. Não para a mesa. Nem para a queda. Mas - novamente - para o decorador!  De onde saiu a idéia. De uma mesa com apoio apenas central. Tinha que culpar a alguém. Culpou o decorador. Me senti aliviada. Não sou apenas eu que vivo de bronca com os pobres decoradores. Achei um parceiro para esta empreitada já longa.

 

Pediu desculpas. O autor foi incisivo. Tranqüilizou. Perguntou pelo corporal. Se havia se machucado. Pelo emocional ele já sabia. Não precisava perguntar. Era admirável até diante das quedas. Das derrubadas. Entendia da cegueira diante do real. Das intermitências de uma emoção. Sabia entender. Afinal vivemos todos em nossas ilhas. Tentando conhecer as dos outros. O duplicado de cada um na simplicidade de uma mesa derrubada. Não podia ser diferente.

 

Na saída comentamos os nossos objetivos. As nossas idéias. E ficamos os três rindo. De coelhinho doado a um fã perdoado ficamos nós a entender os símbolos que a tecnologia tentava decifrar. E não há código - ou magia - maior que o olhar da imaginação de quem escuta. Pela descrição de quem relata.

 

Do coelho ao autor estendeu-se a nossa ilha mais um pouco conhecida.

 

Sem roncos de motor. Sem sandálias no tapete. Sem números da Gravidade.

 

Mas com muito mais barulho e levantamento de taça que a mais vã Olimpíada poderia supor.

 

 


Março 22 2009

A noite começara cedo. Logo depois das tarefas nossas de cada dia. Eram os últimos dias das férias dela nesta cidade. Apenas um mês de férias. As celebrações se repetiam Depois de tanto tempo, tudo que se podia pedir era mais comemoração. Ela estava feliz. Parecia ao menos bem feliz. Não sei se pelo passado. Não sei se pelo presente. Ou se pelo tempo que voava em meio ao tempo que ficava. Não importa. Importa que estávamos todos ali. Os amigos mais próximos. Felizes.

 

O cardápio exato. Qualificado. Menu com nome e sobrenome. E adjetivo. Espiritual. Procede. O espírito mais alimentado que o corpo. Embora este tivesse muito bem acariciado pelo sabor.

 

A sala linda. Belos tapetes aqueciam o ambiente envolto na noite fria. A luz morna desenhava os contornos na parede. Os bibelôs marcavam o tempo ido. Nas fotos as idas e vindas no tempo. Tudo em acordo com a idéia. De afeto. De festa. De acolhimento. A mesa colorida. O vinho sombreava o toque gentil dos excessos. Entre pratos, taças e talheres os risos abençoavam a cena. Lembrei daquele filme. Lindo.

Onde a beleza e os prazeres são cantados em volta da mesa. E todos erguem um brinde. Ao amor. Linda cena. Que me perdoem os que discordam. Direção de italiano é diferente. Mas deixemos os italianos. E a direção.

 

A festa é lusitana. Lusitana de estilo lusitano. Agora me confundi. Vai ver o espiritual está contorcendo meu espírito. Ou torcendo. Por causa do pensamento anterior. Ou do acontecido anterior. Melhor tomar mais cuidado.

 

Ela também estava. E surpreendia com seus comentários rápidos. Parecia bem à vontade. Embora com um jeito mais tímido.

 

Agora dava para ser tudo saboreado. Com parcimônia. Com suavidade. Bem diferente da minha chegada. Cheguei um pouco mais atrasada, mas nem por isso menos acelerada. Foi o que transpareceu. Explicitamente. Tivesse uma pilastra e teria também transparecido. Ri. Agora dá para rir. Na hora, não.

 

Parecia cena de filme. Esta por certo não seria do tal diretor italiano. Nada tinha de requintado. Tropecei. No tapete. No tal tapete que aquecia a sala.

 

Mas enfim. Sempre tenho algo a ver com os decoradores. Um dia é uma pedra. Outro, um foco de luz. Desta vez um tapete. Tropecei. Justo na hora que ia cumprimentá-la. A borda do tapete virou. Prendeu no salto da minha sandália. O que seria uma entrada elegante se transformou. Quase tragédia. Digo quase porque toda tragédia sempre poderia ser pior.

 

Lembrei mais uma vez de minha sábia avó. Veja onde pisa menina, veja onde pisa. Nada. Mais uma vez. E lá se foi meu educado cumprimento.

 

Tropecei. Fui de vez em cima dela. Lembro-me dos olhos dela. Esbugalhados. Um passinho para trás. A mão erguida tentando salvar o vinho. Ou a taça. Ou o tapete. Ou a vida. Não sei. Foi tudo muito rápido para tecer filosofia. Ou desenhar telas. Foi de uma só vez. Cai por cima dela. Que me sustentou. Salvou a taça. O vinho. O tapete. Juntas nos abraçamos naquele afã eufórico, diriam os desavisados. E acabamos de encontro dorsal ela, frontal eu, no aparador. Que graças-a-Deus-estava-ali. Bendito seja agora o decorador. Vou levar flores no sindicato. Vou postar mais textos. Tudo em homenagem aos decoradores. Até ao inventor do aparador. E lá nos estiramos. As duas atracadas. Uma de braço pro alto erguendo uma taça e a outra com as pernas trocadas tentando segurar a mesma taça. Amparadas pelo dito móvel. Que ainda bem assim não se entendeu. Ficou imóvel. Portava os bibelôs. Um murmúrio geral fazia a cena quase olímpica. Todos com respiração suspensa. E nós duas com pernas e braços trocados. Ela erguendo a taça.

 

Fosse presente o mestre austríaco e mais um volume seria escrito.

 

Enfim acabamos o tal cumprimento. No alvoroço. Senti que todos respiraram de volta. Quase faltou oxigênio. Na sala. No prédio. Nos recompomos. Ela mais que eu. Ela tentava colocar os olhos no espaço correto da face. Re-encaixar o braço no ombro. Pousar a taça no aparador. Dobrar os dedos para avaliar o funcionamento. Eu tentava – simplesmente - entender direito e esquerdo. Pensando em meus pés e pernas. Lembrei de um filme. A ajuda vem de cima. Algo por aí. Porque escutei uma vozinha delicada atrás de mim.  Oferecendo um vinho. Aceitei. Mas antes sentei. Acredito que por prudência, ela se sentou mais afastada. Bem mais afastada. Segurei minha taça.

 

Desta vez com os braços na posição correta. Prendi o riso. Com tanta força que até me vi com o mesmo esgar da moça ruiva dos lábios preenchidos. Acho que fiquei igual a ela. Só que menos orgulhosa. Mas me contive. Também era o mínimo. Depois de tanta expansão.

 

Voltamos ao proposto. Fomos para a mesa. Ela se sentou ao lado dele. E ficou meio espaço atrás. Vai ver ele também resolvia ser efusivo. Ficou mais atenta ainda.

 

Fomos para casa. Oferecemos carona. Ela nos olhou. Senti uma dúvida. Ia recusar, mas aceitou. Sentou atrás dele. Na descida fez um pedido. Não precisam descer para me acompanhar. Fiquem tranqüilos. Fiquem no carro.  Obrigada. Boa noite. Ordenou. Nos despedimos aqui dentro mesmo, do carro.

 

Na calçada, atrás dela, tinha uma árvore com galhos baixos. Vi um filme de terror. Obedeci.

 

Tirei as sandálias no carro. Relembrei a cena do encontro. Da despedida.

Enfim pude rir relaxada.

 

publicado por Lêda Rezende às 15:46

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