Blog de Lêda Rezende

Dezembro 17 2009


Não dá tempo.

 

Esta ficou a frase oficial. Tomou como acessório. No final do ano. Entre o trabalho e as férias dela. Dela. Mais uma vez tivera esta idéia. Não aprendia mesmo. Já era a terceira vez que dava férias a ela nesta época. Devia ter um traço masoquista. Pensou. Melhor agendar um especialista nesse tipo de patologia. Porque só poderia mesmo ser uma patologia.

 

Mas enfim. Agora não tinha mais jeito. Era fazer de conta. De conta que não estava cansada. De conta que daria conta. De conta que sozinha se faz mais rápido. De conta que não queria chorar de arrependimento. Tanto fez de conta que acreditou. Não reclamou. Sequer comentou.

 

E lá se foi organizar a festa. Quase chorou. Não dava mais tempo para a árvore. Nem um só lugar tinha mais. Para vender. Alugar. Até emprestar.

 

Imaginou mil soluções. Mas todas dentro do inviável. Nada de arrancar galhos das ruas. Muito menos das casas. Ou sair correndo com as árvores das vitrines. Ou tirar da sala da vizinha. Não sabia como fazer.

 

Lembrou da avó de uma amiga. Só na falta brota criatividade, menina, só na falta brota criatividade. E resolveu usar a própria. Criatividade.

 

Nada de sair por aí pegando a dos outros. Aliás, nem pode. Nem serve. Criatividade é igual uma impressão digital. Cada um com a sua. Até para copiar tem que ter criatividade.   

 

Caminhava há um tempo. Em busca da tal solução criativa. A falta estava já em posição antagônica. Porque era o que mais sobrava. Estava até com vontade de se zangar com a avó da amiga. Mas seria uma briga desleal. Desistiu.

 

Vai lá saber por que, virou-se para a vitrine daquela lojinha. Assim. De repente. De forma despretensiosa. Até poderia dizer desesperançada. Em meio à avenida. Em meio ao tumulto. E viu. A solução para sua festa de Natal. Até olhou para o céu. Ou para o espaço que os prédios permitiam - para ver o céu. Olhou. Deu uma piscadinha. Agradeceu.

 

Saiu de lá feliz. Não saltitou porque o cansaço não permitia. Mas a emoção saltitava pelo corpo. Muitas vezes isso funciona. E muito bem. A emoção faz o que o físico já não obedece.

 

A sacola não era grande. Nem pesada. Mas cabia toda uma festa dentro dela. Esta foi outra coisa que aprendeu. Naquela hora. Naquela situação. De imediato.  Volume e finalidade cumprida não são sinônimos.

 

Já em casa nem deixou o tempo passar. Logo iniciou sua tarefa. Foi tão divertido que nem assim denominou. Dividiu por todo o ambiente. Colocou em lugares nunca dantes imaginados. Não faltou cantinho. Pontinha. Cabeceira de cadeira. Pé de mesa. Abat-jour. Moldura. Porta retrato. Corrimão de escada. Puxador de porta. Até torneira de lavabo. Castiçal. Fio de telefone. Galhinho de planta.

 

Com calma organizou - o jantar. Já nem se cobrou pelas férias dela.

 

Quando eles chegaram - só riam. Adoraram. E cada um descobria em mais um lugar bizarro. Mais um. Que o outro não tinha visto.  

 

Concluíram. A sala toda era uma árvore de Natal. Contaram sessenta lacinhos vermelhos. Com miolinho dourado. Por toda a sala. E sorriram felizes com a surpresa. A cada momento se escutava um gritinho. E uma risada. Com decibéis de surpresa acoplados.  Avisando – mais um ali. Mais outro lá. Ele achou maravilhosa. A idéia. E a composição da idéia. Ganhou muitos abraços e beijinhos. Pelo ato. Pelo fato.

 

No circular pelo ambiente teve uma sensação. De escutar um “eu não disse”. Nada comentou.

 

Olhou a casa toda. Achou linda. Gostou. A mesa posta. O colorido vermelho. A alegria de todos em volta. A cumplicidade. A solidariedade. A afetividade. Brindaram felizes. Sorriu satisfeita.

 

Feliz Natal. Disseram todos. Entre abraços e risos. Feliz Natal. Respondeu. Sorriu. Também em direção onde supôs escutar a advertência.

 

Acrescentou um brinde aos amigos.Palpáveis. Virtuais. Recentes. Antigos. Presentes. Ausentes. Distantes. Próximos.

 

Feliz Natal!

 

 


Junho 06 2009

Acordei hoje lembrando lá. Deste período lá.

 

Sim. Já comprei tudo. De supermercado também. Fica difícil ir ao supermercado agora. Ou falta tudo. Ou se encontra nada. Sem falar nos acessos. Que são alterados. A cidade fica muito cheia. Sim. Do mundo todo.

 

Muitos sotaques. Muitos idiomas. Uma Babel dançante. Ótimo. É verdade.

 

Um povo hospitaleiro. Disso não se discorda.

 

Acorda. Acordei já. Sim. Este ano começou mais cedo. Cada ano isso muda.

 

Começa mais cedo. E acaba mais tarde. Deve ser. É  verdade. Este circuito cada vez mais divulgado. Se pagam caro os hotéis têm esse direito. De ver da janela. Maravilha. Para eles. Para os hotéis. Até para as janelas.

 

Não escutei. Fala mais alto. Não escutei ainda. Fala mais alto ainda. Não.

 

Não consegui sair de casa. Está tudo bloqueado. Sim. E ainda tem aqueles vendedores. Isso sem falar nas cozinhas nas ruas. Parece que todas as cozinhas do mundo estão na minha rua. Tem cheiro e fumaça de todo tipo.

 

Daria para fazer uma enquete. Se alguém se interessasse. Por enquetes. Mais do que pelas frituras. Sim. Tudo aqui é frito. Muda só a cor. Mas é frito. O cheiro de fritura pode até ser tocado. Fica denso.   

 

Sim. Também pensei a mesma coisa. Achei que ia cair para dentro da sala. A porta da varanda. Que trepidação. Tive até uma confusão mental. Como se estivessem tocando aqui na sala. A noite toda. O dia todo. A porta só trepida.

 

E faz um barulhinho fino. Do metal. Do vidro. Vai lá saber. Nem sei mais.

Impossível. Se deixar aberta - arrisco uma ruptura de tímpano. Se fechar - o calor fica insuportável. Sim. Tem que ligar o ar condicionado. O tempo todo.

 

Mas daí a trepidação parece que aumenta. Fosse eu Física diria que tem um novo efeito.  Aqui. O efeito tampão. Ou efeito sucção. Ou efeito dobrado. De tudo isso ao mesmo tempo. Sei lá. Também não sou Física. Só está me dando desespero. Porque se fecha e liga o ar - parece que a trepidação aumenta. E o cheiro das frituras - entram. Sei lá por onde. Só entram e ficam. Aqui dentro. Perene.

 

O telefone. Não escutei. Não dá para escutar mesmo. Nada além do ritmo. E dos convites. Milhões de vezes repetidos. Tira o pé do chão, galera. Se realmente obedecessem tantas vezes quanto solicitados - teríamos um novo espaço. Aéreo. Levitação. Nem indiano conseguiria. Tantos.  

 

Há quatro dias. Sem parar. Devem parar. Mas não aqui. Aqui nem bem passa um, já vem chegando outro. E a ordem prossegue. Tira o pé do chão, galera.

 

Você queria descer a ladeira. Para ver de perto. Ver o que exatamente.

 

Porque se não souber tirar o pé do chão - corre risco. De ficar com o pé no chão. Por uns dois anos. Com fraturas. Cominutivas. Nem pensar.

 

Não me diga. E ele correu. Por isso acabou no hospital. Dizem que não se pode correr. Tem que ficar parado. Procurando um cantinho. Para deixar passar a onda. Que onda. Ou melhor, que passar. Não passa. Só nas Cinzas. E cinzas de todo o tipo.

 

Tira o pé do chão, galera. Pela milionésima vez. Em quinze minutos.

 

PeloamordeDeus. Tirem logo esse raio de pé do chão.  A voz era de homem. Agora mudou. É de mulher. Não de homem. Não. De mulher. Não importa. Só a ordem importa.

 

Porta. Acho que vai quebrar a vidraça. Tem muita trepidação. Será que alguma vez me livro disso. Vou pedir para o Universo. Alguém tem que me ajudar. A tirar o pé – fora daqui.

 

Que silêncio. Absoluto. E os passarinhos mais ousados - cantando o seu refrão. Reconheci. É um bem-te-vi. A brisa está leve. Sim. Vou tomar um pouco de sol. Dar um mergulhinho. Está tão lindo o dia. E a cidade tão calada. Há apenas o som forte - do silêncio.

 

Aqui é só em determinado lugar. Ou pré-determinado. Estabelecido. Tem Lugar para isso. Nem sei se aqui mandam tirar o pé do chão. Vai quem gosta. E só quem gosta vai. Vai-Vai.

 

Liguei a televisão. No canal que retransmite de lá. A mocinha gritou no microfone. Tira o pé do chão, galera.  

 

Sorri. Leve. Solta. Voltamos para o sol. E para o nosso adorado silêncio – optativo.  

 

Com os pés – relaxadinhos – no chão.

    

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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