Blog de Lêda Rezende

Novembro 08 2009


Eis o estilo dela. Pontualidade.

 

Talvez mais que um estilo – uma necessidade.  Para o tipo de atividade profissional. Complicada. Dificultada -  por ser mulher. Não importam as feministas. As machistas. Ou contestadores de conceitos. Ou de preconceitos.

 

Há limites que permanecem até se apagados. Isso pode não ser provado. Mas por certo é comprovado.

 

Mas enfim. Sabia disso. Por isso era exigente. Mas consigo mesma. As barreiras eram muitas. As críticas estabelecidas. Chistes e slogans circulando. Quase ameaçadores em volta dos atos e decisões. Mas não introjetava tais textos. Lia e dispensava. Digamos assim.

 

Os colegas - todos do sexo masculino. Só ela ali. Sentadinha. Aguardando os chamados. Fingindo agrupamento. Mas se sabendo solitária.

 

Avisara pelo telefone. Ainda estou presa no trânsito. Chegarei dez minutos atrasada. Concordei. Sem problema. Ainda estamos dentro do horário.

 

Ela chegou. Sorrindo. Como sempre se apresentava. Feliz. Como sempre aparentava.

 

Viera de outro Estado. Do sul. Nem se lembrava do período de vida que não trabalhara.

 

O pai tinha uma pequena fazenda. Um roçado como se dizia de onde vinha. Enorme – sob os olhos infinitos das crianças. Talvez sem exagero – sob os olhos limitados dos adultos.

 

Viviam do plantado e criado. E por vezes do vendido. Assim passara toda a infância – sem consumismo. A adolescência - sem rebeldia. A juventude – esta já com muita fantasia.  Seis crianças. O pai e a mãe. Esse o seu universo por muitos anos. E a terra.

 

Ainda escuro o pai os acordava. A mãe os aconchegava. Não com beijos. Muito menos com afagos. Mas com o acolhimento – metaforizado - do calor.

 

O calor que já vinha da cozinha. Antes mesmo de saírem das caminhas - a casa já estava aquecida com o fogo aceso. O barulho das panelas de alças de ferro fazia coro aos galos e aves madrugadoras.  E estes aos pequenos bocejos das carinhas sonolentas.

 

A mãe fazia o pão. O pai fazia as linguiças. O irmão mais velho trazia o leite - ainda quente da recente ordenhada. Quando o dia trazia a claridade do sol – já estavam alimentados e a caminho da suas tarefas com a terra.

 

Faz uma expressão quase visionária. A terra a encantava.

 

A parte dela era cuidar das sementes. Jogava com sua mãozinha as bolinhas. E algum dos irmãos jogava a terra por cima. Riu. Sempre empurrava um pouquinho mais com o pé. Como se para ter a certeza de que não fugiriam.

 

Vai lá saber. O que pensa uma criança diante da terra e suas sementes. Mas assim fazia. O irmão já habituado - esperava. E só depois que ela repetisse o gesto - seguiam para o próximo cavadinho.

 

Adorava ver as sementes. E aguardar as plantas se erguerem do chão. Ficava fascinada. Por um tempo acreditou numa magia. Uma criação própria.

 

Tinha um duende lá debaixo. Que recebia os grãozinhos. E devolvia as plantinhas. Por isso tinha que agradá-lo com as sementes. Era o almoço do duende.

 

Nunca soube de onde tirara esta idéia. Mas também nunca comentou com a família. Esta sua idéia de Agricultura. Riu.

 

A vida se fazia em torno das estações do ano. Dos nascimentos. Lembra de temores. Se choveria muito. Se demoraria de chover. Se a geada impediria uma boa colheita.

 

Isso sim. Faz parte até hoje de alguns sonhos noturnos.

Mesmo já tão distante. No tempo e no espaço.

 

Agora estava aqui. Cercada de asfalto. De concretos. A vida mudara. Não tinha mais os pais. Os irmãos casaram. Novos núcleos se estabeleceram.

 

Somente ela viera para cá. Por motivos de casamento. Agora já desfeito. Preferia não falar sobre o ocorrido. Cuida de uma filha e dois netos.

 

O desjejum até hoje é um momento especial para ela. A única refeição do dia que sente enorme prazer. Ainda acorda cedo. Antes do sol nascer já está a caminho do ponto. Em seu carro. Ao serviço dos seus inúmeros passageiros.

 

Chegamos ao local combinado. Ela ressaltou. E no horário exato.

 

Ainda senti o cheiro do pão.

 

O orquestrado barulho das panelas substituiu buzinas e freadas. Vi o duendezinho recebendo as sementes pela terra úmida. Me surpreendi com o verde da planta nascendo.

 

Lamentei. O percurso fora curto para tão bela história.

 

Olhei para ela. Uma mulher jovem. No corpo. Na expressão. Mas principalmente - na emoção. Ainda estava com o sorriso que o relato associara. E conclui. Algo se mantivera. Ela continuava plantando. Semeando.

 

Olhei para o céu. Choveria. Sorri tranquila. Os duendezinhos por certo entregariam as plantinhas.

 

Assim iniciei a minha rotina. Assim ela prosseguiu com a dela.

 

 


Outubro 29 2009

 

Lembro o dia em que a conheci.

 

Iniciava o trabalho no Projeto. Logo no primeiro dia. O grupo já estava há mais tempo. Não conhecia os membros da equipe. Mas fui lá. No local de encontro.

 

Assim me avisaram. Chegar a tal hora. Em tal lugar. Com seu material próprio para o atendimento. E lá se identifique com tal pessoa. Seu crachá estará já no local. De lá sairiam os profissionais para as áreas de atuação. Simples assim.

 

Compreendido.

 

Ela chegou - sorridente. Falando com todos. Caminhando apressadinha. Parecia ser muito delicada. Atenciosa. Todos ficavam em torno dela. Os que iam chegando – já iam fazendo círculo. E ela no meio do círculo. Sorridente.

 

Nesse dia específico falavam sobre postura. Uma observação sobre alguém do grupo. Ou sobre algum estilo. Nunca soube ao certo. Algo por aí. Lembro que respondeu. Num tom mais alto. Porém não ríspido. Quando se é carente – procura-se ser simpático. Eu sou carente. Trato todos muito bem. E riu.

 

Como se a carência fosse um adereço. E como tal devesse ser tratada.

Perfeito.

 

Me apresentei. Ficamos amigas.

 

Não eram daqui. Nem ela. Nem o marido. Estavam casados há pouco tempo. Viera por um convite profissional para ele. Parceira – aceitou. E estava se entendendo com a cidade. Já conhecia mais lugares que os nascidos e criados aqui. 

   

Continuamos em nosso trabalho. Um Projeto social. Nos reuníamos uma vez por semana - o dia todo. Contou sobre o projeto particular. Queriam um filho. Logo.

 

Sempre festejada – acabou reunindo torcida. Todos participavam. Se sim. Se ainda não. Alguns mais afoitos até do por que não. Outros mais discretos – aguardavam as mudanças que denunciassem.  Ela respondia. Acolhia. Escutava. Silenciava. Aguardava.

 

Era um tal de – este mês ainda não. Ou – não foi desta vez. Mais exames. Mais aconselhamentos. Mais pesquisas. A ciência e a tecnologia a serviço- da fertilização.

 

Não faltaram ideias. Ou sugestões. Ou indicações. Ou dados. Da Imunologia à Fisiologia – tudo visto e revisto.

 

Um dia tomou a decisão. Cansei. Chega de temperatura. De ciclos. De emergências. De privacidade alterada. De papel. De regras. De estatísticas. De relatos psicológicos. Cansei. Vai ser estilo artificial. Pragmático. Vamos dar uma força à natureza. Para isso existe a evolução. Da ciência. Da pesquisa. Dos resultados. Para ser utilizada. Vamos utilizar. Certo. Então em duas semanas.

 

Quando nasceu – já não trabalhávamos mais juntas.

 

Olhei para as fotos. Linda. Moreninha - como a mãe. Linda - como a mãe. Olhar decidido - exatamente igual à mãe. Mas ela foi logo avisando. É idêntica ao pai. Linda - como ele.

 

Contou rindo. Depois que marquei o artificial - ela veio natural. Nem conheci a equipe. Quando estava já agendado – desmarquei. Ela já estava fazendo parte da nossa vida. Da Vida. 

 

A torcida continuara. Desta vez de forma métrica. Está maior. Esta crescendo. Está sem cintura. Está com jeito de silicone. Cada um construindo nela uma nova anatomia. Com as palavras. Com o olhar. Até com a mímica.

 

E muitos risos. Sempre. A cada encontro do grupo. Todas as manhãs. 

   

Minha avó tinha uma ideia para o riso. Só é realmente feliz quem sabe compartilhar o riso, menina, só é realmente feliz quem sabe compartilhar o riso.

 

Procedia. Procede.

 

O riso compartilhado é uma das mais belas cenas de um grupo. E era assim com ela. Continuavam todos em volta. E ela feliz.

 

Lembrei o comentário sobre a carência. Transformara-se num adereço dispensável. Ou até ignorado. Não era mais uma questão. Nem um símbolo. Ou muito menos uma situação. Não importava se não era daqui. Ou se era de lá. Ela agora era duas.

 

Fiquei emocionada quando li o recadinho. Nasceu. É maravilhosa. Estamos muito bem.

 

E adivinhei o sorriso dela. O primeiro olhar para a filha desejada. O toque delicado na pele suave e rosada. O gestual protetor e acolhedor. As lágrimas fáceis da intensa atividade emocional.

 

As primeiras dificuldades para quem se inaugura - mãe. As pequenas dúvidas. Será que está certo. Será que é assim mesmo. Mas segura diante de uma certeza absoluta - o apaixonamento imediato. 

 

Lá estava. Na tela. Colorindo. Toda enfeitadinha para a foto – a Laurinha.

 

Bem vinda. Bem Vida.

 

 


Outubro 25 2009

 

Olhei o relógio.

 

Pela diferença de fuso já é aniversário dela. Lá. Além mar.

 

Fiquei pensando o que dizer a ela. Como explicar em palavras escritas - toda a nossa cumplicidade. Como dar entonação à letra. Todos esses anos que participamos de nossos aniversários. E os outros tantos que deixamos de compartilhar a data.

 

Desde que ela se mudou para lá. Há muitos anos. Nunca mais parabéns para você de pertinho. Cantado. Abraçado. E que agora estou eu aqui. Lembrando. Saudando. Num silêncio de um teclado. Ou - na musicalidade que o teclado também permite. Como uma sinfonia particular. Onde o ritmo acelera ou acalma – de acordo com a emoção a ser descrita.Um Allegro e um pianissimo simultâneos.

 

Ultimamente está virando rotina. Comemorando de cá. E os aniversariantes de lá.

 

Ri. Impossível conter o riso. Festejo é assim. Sempre um riso vem conjugado. Um pretérito perfeito.

 

Lembrei a última vez. Ela estava aqui. Morávamos perto. A casa dela se preencheu de amigos. Ninguém sabe organizar uma festa do jeito dela. Prática. E linda. A festa. Ela também. Lógico.

 

E as comidas. Maravilhosas. Descobri que manga em cubinhos entrelaçada com couve refogada em tirinhas é quase um símbolo. Ou uma natureza bem viva. De prazerosa refeição. Nacionalista. Ingredientes combinados. Adequados ao paladar e à digestão. Perfeito.

 

E o bacalhau. A linha entre o espiritual e o material fica tão apagada.

 

E as sobremesas. Inesquecíveis.

 

Às vezes disfarçava. Burlava a confiabilidade alheia. Tudo que ela fazia era perfeito. Portanto podia transgredir. De vez em quando falsificava. E - de um bolo qualquer comprado – uma obra de arte surgia. E negava a receita. Coisas da minha mãe. Ela quem me ensinou. E ria da própria transgressão.

 

A mesa impecável. Toalhas lindas recebiam a louça delicada. Compunham uma vista alegre. As taças. Os vinhos. O champagne. Um banquete para os amigos queridos. E a energia afetiva a fazia parecer descansada. Como se num SPA estivesse toda a tarde. Para receber os convidados na noite.

 

E o riso - sempre feliz. E os braços - sempre acolhedores.

 

Lembro de uma vez em especial. Logo que vim morar aqui. Ela tranquila me apresentava. Aos mais supostamente esquecidos. E desconsiderava perguntas indelicadas. Ou impedia que chegassem até a mim. Não queria saber de constrangimentos. O período era difícil. Ela sabia. Não possibilitaria mais dor. Ou invasões de privacidade.

 

Sempre respeitou. Nunca questionou. Não iria permitir o contrário. Fosse de quem fosse.

 

E todos acatavam. E acataram. Sempre. Até que desistiram de questionamentos.

 

E o tempo passou.

 

O último aniversário dela aqui.

 

Sabíamos que seria um longo tempo assim. Ela além mar. E nós todos aqui. Comemorando o dia dela – sem ela.

 

Mas deixou para nós muita sabedoria.

 

 

Na delicadeza do trato. Na organização de uma reunião informal. Na formalidade de afetos. Na disposição emocional de acarinhar.

 

Premiava a cada um com seu sabor preferido. Separava até os lugares. Sabia onde cada um gostava de sentar. E deixava o espaço já quase que nomeado. Deixa para ela este cantinho. É mais tímida. Ela não gosta de calor. Deixa perto da janela. E por ai seguia.  

 

 

Ensinou que as festas são para os amigos. Importa o que eles gostam. Não entendia festa com egoísmo. Festa não é para o dono da casa. É para os convidados.

 

Hoje. Não estou lá. Mas sei exatamente como está seguindo. A programação. O festejo. O cardápio. As flores. O cheiro percorrendo a sala.

 

E mesmo com muitas pontinhas de inveja – fico feliz por todos eles.

 

Estão diante dela. Podendo conviver na rotina. Cantando os votos da data querida de lá. Que são diferentes dos cantados de cá. Mas com a mesma intenção. Por certo. Ora, pois.

 

E adivinho o riso dela. Os agradecimentos.

 

O olharzinho sorrateiro de vez em quando esticado - em direção a todos nós. Que aqui estamos. Deste lado de cá do descobrimento. Celebrando e cantando de dentro do nosso coração. Enviando para alguma estrelinha que passe. Para que ela receba de lá.

 

Parabéns - Lia querida. Muitas saudades. Muitas felicidades. 

 

 


Outubro 24 2009

 

O telefone me acordou. Um aviso protocolar. A rotina começava - já.

 

Nem sei bem como desci as escadas. Erro - sei. Rápido. Muito rápido.

 

Até lembrei o dia que dancei abraçada ao corrimão. Um ballet exótico. Nada sensual. Numa tentativa de não me fragmentar no chão da sala. Tentativa e êxito. Mesmo que durante uma semana negasse. Nada de estranho com o meu caminhar. Como se não vissem. Faz de conta que tenho nada. Faz de conta que acreditam. Assunto encerrado.

 

Enfim. Desci as escadas já informando. Estou com pressa. Tenho uma sequência a ser seguida. Antes de chegar lá. No trabalho. Onde mais seria.

 

Lógico. Você não tem que entender. Se eu não disser. Tudo bem. Depois discutimos semântica. Deixa para lá. Depois explico. É mal educado falar durante a mastigação.  Sim. Amanhã falamos.

 

E já fui quase empurrando o elevador. E reclamando com as correntes lentas.

 

Nestas horas me lembro de lá. Da brisa do mar serenando ânimos. Do cheiro de café da manhã com tapioca. Da relativa calma diante do inevitável. Até o barulhinho da rede no prendedor. Lembro tudo. Mesmo que em segundos. Como uma viagem da matéria. Transcendental. Dá até para suspirar.

 

Mas enfim. Estou cá. Foi para cá que vim. Melhor deixar de cheirar o carro. Nunca terá cheiro de maresia. Até ri.

 

Ainda bem que não é longe. Este o primeiro pensamento. Parada com o trânsito emperrado. Não andava para lado nenhum. E quase foi o último pensamento. A buzina delicada me fez virar para o lado.  Abri o vidro.

 

Pois não. Um simpático senhor sorria para mim. Até ai tudo bem. Vai ver queria se socializar. Mas não. Avisou com a fala e com o dedo. Apontou. Está muito baixo. Deve ter furado. Vá rápido a um posto.

 

Não sabia se ria. Se chorava. Ou se descia do carro e torcia o dedo dele. E a idéia dele de cidadania solidária. Como assim rápido. Não tinha saída. O trânsito parado. E ele vem me apontar um pneu furado de emergência. Não deveria ter família.

 

Mas agradeci. Muito obrigada. Muito gentil. Uma lady. E eu que dizia que não era nem lady nem santa. Contradição total. Exatamente o oposto. Uma verdadeira santa inglesa. Ou inglesa santa. Certo. Mais semântica. Hoje deve ser o dia Nacional da Semântica.

 

Mas consegui. Eis um posto.

 

Então tem um prego. Vai poder trocar. Espero sim. É verdade. Coincidência existe sim. Então ele chegou com o mesmo problema. E por um segundo eu seria primeira. Não faz mal. Espero. Sim. Sou bem calma. E ele deve ser cego. Pensei. Mas calei.

 

Não. Ela já foi. Sim. Ela achou que você chegaria no horário. E eu achei que chegaria a tempo. Opiniões combinadas em agendas descombinadas. Quase um poema.

 

Sim. Você é a segunda pessoa que me fala isso hoje. Sobre mim. Devo ser mesmo. Muito calma. Ou só tem cego por aqui. Nada. Deixa para lá. Sem problema. Entregue em meu nome. Não esqueça. Por favor.

 

Sim. Nem sei como consegui chegar. E na hora. Pode mandar entrar. Ainda bem. Se me chamasse de calma – eu ia descer. Como assim. Sou uma Lady. E Santa. E com letra maiúscula. Ia descer para me internar. Depois lhe conto o que foi. Esta manhã. Mas pode mandar entrar. Rimos.

 

Ele entrou junto com eles. Tinha uma covinha exposta por um mal disfarçado sorrisinho. As mãos estavam enfiadas no bolsinho da calça.

 

Eles avisaram. Ele estava todo feliz porque ia lhe ver hoje. Tem uma novidade para lhe contar. Verdade. Ele que quer falar.

 

Ele me olhou. Chegou mais perto. E disse como um segredinho. Mas com muita seriedade. E firmeza na voz.

 

Tirou a mão do bolsinho da calça e ergueu o dedinho para me informar.

- apendi a fasser cici em pé –

 

Olhei para ele. Lindo. Feliz. Envaidecido com seu aprendizado. Orgulhoso de si mesmo. Dei um beijo de parabéns. E celebramos na sala esta grande – e verdadeira – conquista.

 

Diante daquela frase - tudo o mais ficou tão banal. Pneus. Furos. Horários.

Ficou tudo isso tão superficializado. Diante da alegria de quem se entende crescendo – e sabe já fazer xixi em pé.

 

Pode parecer tão simples. Mas não é.

 

Poucas vezes entendi com tanta objetividade – o progresso. Ou me ensinaram com tanta suavidade - a evolução.

 

O crescimento. Isto sim - é importante.

 

Agradeci ao Universo o privilégio da escuta. E o dia se fez completamente válido.

 

 


Outubro 19 2009

 

O dia não fora dos mais fáceis.

 

Tudo já começara de véspera. Mudança de horário. Troca de agendamento. Alteração no local. O simples transformado na contramão.

 

A ordem se oferecendo contra a lei. A lei se fazendo firme. Para recompor a ordem. Mais ou menos assim. Nada de filosófico. Uma organização de ritmo. Sem dança. Sem compasso. Apenas uma exaltação ao – impossível.

 

Durara um dia inteiro. A dissolução da linha entre o permitido e o pertinente. Até entre a consideração e a menos importância. E custara o pensamento da noite. Não diria uma noite em vão. Este termo só existe em notas de rodapé.

 

Lembro de uma frase da minha avó. É o escuro da noite que interrompe o sonho, menina, é o escuro da noite que interrompe o sonho. Estava certa.

 

Mas o dia veio - e a solução junto com ele. Enfim.

 

Foi nesse agenda-e-troca que o de repente se autorizou. Uma cena realmente inesperada. Pelo menos a parte que me coube na cena. E justo eu que tanto admiro as vozes. Fui perder logo a minha. E no momento que mais precisei dela.

 

O que saiu da minha garganta não podia jamais ser chamado de voz. Acho que nem a primeira sonorização da humanidade foi daquele jeito. Um gutural som estranho. E uma imensa alegria única. Vai ver é assim. A primeira parceira.

 

Eu olhava em busca de um presente. O livro que ela poderia gostar. Com a falta de horário livre lá se ia um mês de atraso. E ela sempre fora pontual nas comemorações. Resolvido o tal agendamento – melhor também resolver as pendências. Talvez uma opção para relaxar.

 

Estava diante das prateleiras. Tentava pegar um livro. Por sorte lá as prateleiras são fixas. Senão o mundo teria vindo abaixo.

 

Segurei o volume escolhido. Achei adequado a ela. Adora poesias.

 

Foi ai que notei alguém do meu lado. Ele me olhou atento. Perguntou. Se eu era eu. Assim. Falou meu nome com tranqüilidade. Até aí eu ainda possuía uma voz normal. E o cérebro ainda funcionava. Aparentemente – ao menos. Confirmei. Polidamente. E curiosamente.

 

Fez um cumprimento formal – mas sorridente.

 

E continuou. Reconheci pela foto. Leio seus textos. Admiro muito sua escrita. Que bom poder lhe dizer isso pessoalmente. Que coincidência lhe encontrar aqui. Diante de uma mesma estante. Quando este espaço é enorme. E só estantes.

 

Riu. E comentou sobre um ou outro texto que mais gostara. Riu de mais algum outro. Falou de um estilo diferenciado. Esta foi o último termo de que me lembro. Estilo diferenciado.

 

Quis responder. Quis relatar minha enorme alegria. Minha surpresa. E avisá-lo de que ele fora o primeiro a me reconhecer. Que eu nem sabia que era reconhecível. Nem poderia imaginar. Não faltaram ideias. Ou discursos. Ou metáforas.

 

Mas estava já na fase dois. Eu. Já não tinha um som adequado na voz. E acho que até o encéfalo ficou catatônico.

 

Nunca me acontecera algo sequer parecido. E nunca previ que pudesse me acontecer.

 

Ele continuou falando. Comentando. Fez até algumas sugestões. Exigiu uma maior exposição da minha parte. Fez gracinhas. Deveria ter uma seta indicando os meus caminhos. Algo por aí. Falou que eu estava escondida. Bastante desenvolto. E seguro da sua apreciação.

 

Fez uma observação sobre o livro que eu escolhera. Recomendou ficar atenta às sugestões dele. Respondi um - obrigada. Obrigada de novo.

 

Até me esforcei por um terceiro - obrigada. Mas a voz já em contraponto com o entusiasmo – se isolou. Belas companheiras. Cordas vocais tímidas. Não me faltava mais nada.

 

Ele saiu. Eu fiquei ali. Com o tal livro de poesias nas mãos. O presente dela atrasado. As palavras dele me circulando - a pele.

 

Olhei em volta. Parecia que de repente só eu estava ali. O lugar havia esvaziado. Deve ser assim nessas situações. Preciso saber de alguém experiente.

 

Coloquei o livro de volta na prateleira. Ela esperaria mais um dia. Aquele momento se tornara muito meu. Não tinha como dividir. Ou ser pragmática. Não sabia se tinha entrado numa bolha. Ou saído dela.

 

Voltei feliz para casa. Ri. Com a alma. Com as mãos. Eis enfim o terceiro – obrigada. Tomara que ele leia. E compreenda. A rouquidão - e a feliz emoção que causou.

 

A noite me pareceu tão clara.

 

 


Outubro 17 2009

 

O almoço fora programado com antecedência.

 

Os convites distribuídos em tempo dito hábil.  As agendas adequando-se a uma quebra da rotina.

 

Assim foi durante a semana. A comemoração antecipada visava uma homenagem. Aos que lá trabalham. Cumprindo suas funções. Minimizando dores. Provocando risos. Acalmando angústias. Acolhendo aflições.

 

Sejam quais forem as incertezas. Partindo de onde partirem. Há toda uma metodologia para diminuir ou impedir sofrimentos.

 

Um almoço comemorativo. Assim ficou acertado. Em tal dia. Em tal hora.

 

O salão foi aberto pontualmente. Como deve ser. Uma disciplina é sempre requerida. Seja no festejo. Seja no cotidiano. Não importa. Disciplina também é uma das formas de expor respeito. E dispor hierarquia. Enfim. Na hora exata - abriram o salão.

 

As mesas estavam lindas. Toalhas vermelhas sobre forro branco davam um brilho de alegria. As taças avisavam cores e sabores. Os mais próximos se agrupavam em volta de lugares escolhidos. O riso e o murmurinho lembravam que nem só de pão.

 

A camerata se postava em frente. E ao suave e doce som dos acordes – foi iniciado o ato festivo. E daqui e de lá se escutavam cumprimentos e confraternizações.

 

Convidado – ele subiu para o pronunciamento.

 

Lembrei dos milhares de discursos que já escutei. Das inúmeras falsas analogias e eufemismos que sempre os discursos carregam. E das muitas e muitas delongas que tanto desconfortam.

 

Mas não desta vez.

 

Assim começou. Com citação em Latim. Primo non nocere. Primeiro não prejudicar. Primeiro não ferir. A frase atribuída ao primeiro de todos – foi repetida diante de todos nós. Seguidores no juramento e no trabalho.

 

Foi um belo discurso. Adequado ao fato. Identificado com o ato. Qual um recordatório. Mas sem demandas.

 

Fiquei pensando na frase de abertura.

 

Nos que ali estavam. Ocupando e agilizando o próprio Lugar. E nos que já se foram. Mas que de vazio deixaram apenas o espaço. A memória preenche muitas falas. Como disse o poeta. Ressuscitar começa pela palavra – do outro. E ao escutar os nomes dos que se foram – senti uma presença não da matéria. Essa já não importa. Mas do contexto. Do trabalho exercido. Sem a nítida separação de dia e noite. De casa e trabalho. De segunda ou feriado.

 

Convocados em seus nomes – deixavam a força do seu profissionalismo exposto. Perfeito.   

 

Enfim. Passeei pelos caminhos das escolhas. Olhei para ela que estava ao meu lado. Vi que – emocionada com a escuta- disfarçava uma lágrima afoita.

 

As expressões mudavam. Cada um convivendo com o próprio registro.  Com a vocação descoberta sabe-se lá como. Por isso mesmo - misteriosa. Não há resposta satisfatória para quando alguém requer uma explicação objetiva. Um porque.

 

Não se sabe exatamente a época. Não se entende perfeitamente os motivos. Vai muito além do pragmático. E de repente a decisão surge. E uma elaboração prossegue. E todo um novo equilíbrio se faz necessário. Desde a primeira aula. Desde o primeiro aviso. Desde o primeiro morto que ensina.

 

E uma vez diante de quem pede alívio – nunca mais se desprende do ato em si.  

 

Lembrei de um comentário que ele me fez. Há muitos anos. Num daqueles dias de final exaustivo de trabalho que se ameaça um – para mim chega. Ri. Ele me viu organizando um jantar. Um simples jantar.

 

Olhou para mim. E muito sério falou. Ou, melhor, fez uma observação. Com tom de voz calma. Uma vez pertencente a esta categoria – jamais se libera. Você está arrumando um jantar. Mas não apenas organizando pratos e talheres. Você está organizando como quem cuida. É isso que faz de você – a sua escolha.

 

Lembro que fiquei em silêncio. Uma espécie de siga a seta. Mas me senti acalmada. E feliz.

 

Primeiro não ferir. Primeiro não prejudicar. Seja no que for. Seja da forma que for. Mas é preciso estar em estado de - para entender. Para introjetar. E acatar. Há todo um sentimento não esclarecido. Mas nem por isso menos estabelecido.

 

Aplaudi a fala do colega que discursou – com batimentos felizes de aurículas e ventrículos. E sinceras sístoles e diástoles.

 

Voltei na hora certa para cuidar da agenda. Subi rindo as escadas. Foi uma bela comemoração.

 

 


Outubro 16 2009

 

É passional. Muito passional.

 

Sempre agiu assim. Já o conheci assim. Com o vermelho da emoção sobrecarregada – colorindo o rosto de linhas bem marcadas. Belo. Contrastando com o grisalho dos cabelos e o esverdeado do olhar. Um colorido explícito. Denunciava a alma – sem texto. Incrível. Foi a primeira palavra que me veio à mente.

 

Algumas vezes até o senso de justiça ficava um pouco de lado. Mas era atento. A injustiça lhe feria até a alma. Tentava sempre uma parceria. O passional com o racional. Nem sempre conseguia. Mas nunca desistia. E com o passar dos anos – foi ficando cada vez mais atento.

 

Tem um dom. Especial – como todo dom. Tem uma sensibilidade ímpar. Enxerga além do previsto. Ou até do malvisto. Mas só se expõe quando quer. Quando não – comporta-se como um trabalhador braçal. Enche-se de tarefas e silêncios. E age como se nada importasse. Assim se ampara. Assim se enfrenta.

 

Divide um estilo entre a timidez e a ousadia. Não sem alguma dificuldade na dosagem certa. A balança pode pender para um lado mais afoito. Ou menos objetivo. E – muitas vezes – o resultado foi negativo. Errou talvez mais do que acertou. Ou o contrário. Nunca se sabe mensurar com a certeza. Venceu grandes batalhas. Perdeu boas oportunidades. O tempo é autoritário.

 

Descobriu também depois. Mas aprendeu a conviver com o que não pode ser resgatado.

 

Este é mais um dos seus traços. Acata. Não se rebela se a luta é desleal. Lutar contra o Tempo – já se entra perdendo. Lutar contra as perdas – impede as novas conquistas. Nisso é um sábio. Nada de ficar correndo atrás de prejuízos. A vida caminha para frente.

 

Expõe a alegria pessoal com recato. Impõe solidão nos momentos de grande tristeza. Sobreviveu a dores e amores. Aos possíveis erros de avaliação. Às possíveis punições da credulidade da juventude. Agora – bem mais cuidadoso – se preserva. Melhor um pouco de charme bem dosado do que o coração aberto por inteiro.

 

Não perdeu um mínimo que fosse da característica sedutora. Ou da sensualidade. Sedução e sensualidade. Para ele – forças vitais.

 

Tem um olhar curioso sobre o Universo de uma forma geral. E um olhar disfarçado sobre as belas particularidades do mundo. Divide o que sente – com quem sabe escutar. Cala-se diante do desatento. Ou do seletivo. Não quer ser apenas instrutor. Quer mais. Quer talvez ser provocador. Provocar projetos. Provocar futuros.  

 

Tem ternura na alma. O desconforto do outro lhe causa dor. Enfim. É suave e forte. Como um poeta. Como um músico. Muito mais lhe importa a sonoridade das palavras. O brilho das cores. Ou o simbólico dos detalhes.

 

Aprendeu que nem tudo que é belo é real. E nem tudo que é triste é sofrimento.

 

E assim vai seguindo o caminho. Perseguindo os objetivos. Contornando as imperícias. Regozijando-se com as conquistas.

 

Foi o que pensei ao vê-lo hoje. Decidido. Já foi logo avisando. Desde cedo.

 

Não importa o Tempo. Muito menos a temperatura. Não importa se aquece. Não importa se esfria. Vou relaxar diante das águas. Vou ficar diante do vento. Vou buscar o equilíbrio. É só o que permite que se fique numa vertical. Assim. Entre o vento e a água. Vou dominar com os braços. Vou firmar com os pés.  Vou vencer sem contradizer. Vou entender a favor – estando contra. Ou vice-versa. Tanto faz. Vou aprender a ser. Muito mais do que a estar.

 

No começo pode-se cair. Músculos e pensamentos nem sempre andam de mãos dadas. Podem até se desentender. Mas assim é em qualquer aprendizado. Para cada código há uma leitura específica.

 

Por um segundo ainda olhou para trás. Ainda pensou em voltar. Mas este também não era o estilo dele. Uma vez diante de uma criação – seguia. Confirmava.

 

Quando uma ideia chegava de súbito – respeitava.

 

E esta viera assim. De repente. Num amanhecer cansado. Ou por um dormir angustiado. Vai lá saber. Mas viera. Isso o que importa. Iria sim. Buscaria os meios. Transformaria ideias em atitudes. Este outro dos seus traços.

 

E de traço em traço – como que deliberadamente – vai se compondo. Refinando a sinfonia interior. Tentando desenhar seu próprio destino. Cuidadoso. Como se utilizasse um pincel com um único pelinho. Pintando com delicadeza e sutileza. Mas com firmeza - e vontade própria - no risco.

Sempre fiel e leal – consigo mesmo. Com o vermelho no rosto. Ocasionalmente.

 

Inegável e proporcional. Além do sentimento afetuoso - o admiro tanto quanto o invejo.

 


Outubro 12 2009

 

Fiquei escutando o relato.

 

Ela falava de um acontecimento do passado. Da própria família. Ele escrevia. Muito. E lá um dia optou por publicar.

 

Lembrava da época. Não em relação ao tempo. Mas em relação às dificuldades. Estavam com dificuldade financeira. Era ainda muito pequena. Não tinha noção exata do significado. Mas tinha a sensação perfeita. De que estavam em período de contenção. A vida deles. A emoção. A rotina.

 

Lembrava da escola. De algumas contas que a mãe reclamava. De alguém um dia falando alto com ele. Parecia algum tipo de cobrança. Quis até defendê-lo. Mas sem saber bem o motivo - calou.

 

Entendia que estavam todos nervosos. E tristes. Procurava fazer sempre silêncio.  Quando estava em casa mal se mexia. Não fazia barulho. Era uma sequência quase militar. Poupava a si - e aos outros - de qualquer aborrecimento. Evitava confrontos. Desacertos. Demandas.

 

Aceitava o que vinha. Não pedia o que não tinha. Vai lá saber por que – mas a sua visão de criança a alertava. Como se a conduta exigida fosse essa. E acatava.

 

Riu quando assim falou. Como se tentasse entender a ela mesma. De frente para trás. Só adulta se deu conta. Riu de novo pela palavra dita. Achou pertinente e adequada. Ao relato. Continuara sempre assim. Diante de qualquer tensão. Silenciava. Movia-se o mínimo possível.

 

Houve um tempo que fez sessões de análise. Queria superar as barreiras erguidas. E lembrava que riu muito no dia que o analista lhe perguntou. Ou interpretou. Talvez para não acordar mais demônios. Riu porque não sabia. Ou porque sabia. Enfim.

 

Ele escreveu muito neste período. Muito. Como se pela mão correndo pelo papel – a angústia se fizesse menor. Chegava tarde da volta da rotina do trabalho. Mal jantava e lá ia para seu cantinho. Sentava diante de uma antiga mesa de madeira. Acomodava-se numa cadeira com uma almofada de tecido já estragado.

 

Dispensava os pequenos e médios confortos. Colocava uma música. E lá ficava. Escrevia por horas. Noite adentro. Algumas vezes reclamava dos dedos doloridos. Outras vezes das costas. Mas não parava.

 

Certa vez alguns dos papeis manuscritos caíram. Deviam ter caído. Estavam no chão. Como que abandonados. Ou descuidados. E amontoados.

 

Ele viu que ela o observava. E comentou com ela. Olha os papéis no chão. Nunca antes assim ficaram sobre o frio do mármore. Espalhados, misturados. Estes papéis falam de dor. De tristeza. Denunciam muita solidão.

 

Mas deu um sorriso. Acariciou os cabelinhos dela. E falou. Diante dos papéis assim. Caídos. Quase abandonados. Será que sou eu ali.

 

Juntou os papeis para ele. E os colocou sobre a mesa.

 

Não compreendeu muito bem. Mas lembrou que foi dormir muito triste naquela noite. E que evitou se mexer na cama. Acordou pela manhã quase na mesma posição que adormecera. Foi difícil até mover a perna.  

 

Ela não tinha ideia do tempo - que durou a escrita. Mas lembra do dia que ele disse. Vou publicar.

 

A mãe riu. Desconsiderou.

 

Fazia muito tempo que não era mais uma romântica sonhadora. Se é que algum dia foi. Comentou isso com uma pontinha de tristeza. Pela mãe.

 

Publicou.

 

Naquela noite ele chegou mais cedo. E a chamou. Pediu ajuda.

Tinha dentro do carro muitos volumes. Muitos. Para ela - milhões. Depois soube que foram cinquenta. Uma parte grande ficara na Editora - seriam distribuídos. Uma pequena quantidade trouxera para casa.

 

Olhou para ele. Viu que tinha um brilho mais feliz no olhar. Arrumava os livros sobre a mesa com cuidado. Passava a mão sobre a capa. Abria. Relia alguns trechinhos. Fechava. Passava de novo. Repetia. E ela repetia o gestual com ele. E lembra que eles dois sorriam.

 

Naquela noite ela se mexeu tanto na cama - que o cobertor amanheceu no chão.

 

De repente - mudou o tom de voz. Como se tivesse voltado. Ao presente do presente.

 

Nem acredito o quanto falei. E só por que vi os seus papeis no chão. E quis lhe ajudar.

 

Juntou. Colocou sobre a minha mesa e saiu. Não sem antes me dar um aviso. Cuidado para não se identificar. Com os papeis no chão. Sorriu. Leve e com mordacidade. Como os sorrisos na infância. Agradeci a ajuda e o aviso.

E contei que tinha um livro dele. Em casa.

 

Ficou muito surpresa. Tropeçou na saída da sala. Quase derrubou um copo que, sossegadinho, estava numa prateleira.

 

Rimos. Estava feliz. Talvez nem tenha se dado conta disso.

 

 


Outubro 11 2009

 

Encerrou a fala desta forma. Com este comentário.

 

A frase ficou em destaque. Por alguns minutos. Ou horas. Vai lá saber. A palavra sempre dispõe do tempo ao seu bel prazer. Enfim.

 

É uma pena.

 

Assim disse. E nem parecia muito concentrada. Parecia em estado de ausência. Estava assim ultimamente. Como se numa nova parceria – mais efetiva. Ou quem sabe conquistada - entre ela mesma e o mundo.

 

Devia ter lá seus motivos.

 

Motivos. Esta uma palavra multi-dimensionável. Especialmente para ela. Adequa-se bem. Cabe em qualquer espaço. Justifica possíveis transtornos. Pressupõe adiáveis desconfortos. E já disponibiliza desculpas.

 

Era afável. Divertida. Solidária. Desde que a conheci. E lá se vão tantos e tantos anos. Mas tinha motivos para tudo. Do emocional ao físico. Fosse o que fosse - tinha motivos.

 

Acompanhava sempre um - de sobra. Este - de sobra - parecia mais fundamental até do que os tais motivos. Era pronunciado com mais ênfase. Como se precisasse se servir de uma acústica. Ou a acústica estaria a serviço dos excessos. Algo por ai.

 

Passava – com tranqüilidade - uma sensação. A de que motivos e sobras são de ordem impessoal. Quase relativizada. Não precisa ser determinada. Muito menos qualificada.

 

Motivos e sobras são questões tanto estéticas quanto funcionais. E sugerem um lugar mais universal do que pessoal. Nunca a escutei se referir aos tais motivos de sobra - dentro de si. Sempre eles estavam - de fora.

 

As sobras pareciam vir como paradoxais contribuições externas.

 

Mas também não era o momento para digressões teóricas. Até dera vontade de rir. O que mais sobrava eram digressões e teorias. As faltas estavam circulando por outra esfera. Não importava se mais ao alcance ou se muito além do alcance. Apenas circulando - como toda falta.

 

Mas assim falava. Assim se expressava. Relatava a situação. O motivo da ligação. Parecia um não mais acabar de queixa. Nada era tratado de forma pontual. Muito menos sugerindo uma continuidade. Sim. Parecia mais um possível excesso de ponto e vírgula.

 

Foi nesse momento que entendi a força dos motivos de sobra. Como cravados dentro de um vazio. Os motivos. E as sobras.

 

Lembrei a minha avó. Se sobra motivo é porque falta razão, menina, se sobra motivo é porque falta razão.

 

E ali fiquei. Entre a palavra e a expressão. Tentando ultrapassar a linha que cruza o ato e a fala.

 

Dizia o mestre francês que primeiro vem a palavra. Depois o ato. Tão difícil simplificar.

 

De repente me veio uma curiosidade. Talvez por que escutei um barulho reconhecido. Perguntei assim. Sem mais nem por que. Onde estava.

 

Respondeu tranqüila. Suave. Sentada naquela praia que você gosta. Sob um quiosque. Olhando o mar. O final de tarde está lindo. O inverno aqui está uma beleza. Sol, céu e mar. Nada de frio.

Por isso lhe liguei daqui. Faz bem reclamar do interno diante de um externo tão belo.

 

Tenho motivos de sobra para falar daqui. Sem me preocupar quem escuta. Ou quem interrompe. Ela sempre volta na hora exata. Parece que adivinha que preciso falar. E já chega cheia de perguntas e demandas. Lembra até aquela sua amiga. A que nunca podia conversar ao telefone. Porque os filhos a interrompiam. Você deve se lembrar disso. Sempre comentávamos. Agora pareço com ela.

 

Ela já vai entrando e avisando. Pare o que está fazendo. Desliga o telefone. Preciso lhe falar. Como se fosse uma emergência. Você sabe. Ela sempre age assim. E sem motivo algum.

 

Ri. Muito. Achei perfeito. Pensei isso enquanto fechava a porta da varanda. Para que a chuva e o frio não se transformassem em meus hóspedes.

 

Ela continuou. Depois de um fôlego só - avisou. Agora me vou. Acabou o pôr-do-sol. Está escurecendo. Vou voltar. Amanhã vai ser um dia complicado no trabalho. Se eu enlouquecer acredite – não teve jeito. Terei motivos de sobra.

 

Tem feito dias tão lindos. Se você estivesse aqui iria adorar. Mas está ai no frio. É uma pena. E rindo – se despediu.

 

E rindo – me despedi.

 

O frio aumentara. Peguei um casaco. Entrei em Estado de Força Educadora. Sim. Comportada. Recatada. Até repressora. Sem desconsiderar o valor da Força Amistosa.

 

A palavra pena não teve seu contraponto. Nem uma resposta mais diferenciada. Em linguagem talvez não tão ortodoxa – digamos assim.

 

E – pensando bem – sem motivos ou sobras.

 


Outubro 07 2009

 

O ambiente estava tranquilo.

 

Uma ou outra mesinha ocupada. As pessoas conversavam com suavidade.

A Cafeteria ficava num falso subsolo. Dentro de um local de salas de cinema. Reservada e cultural. 

 

Uma parede de vidro ficava quase ao nível da calçada da Avenida. De um lado – as mesas dispostas para refeições maiores. Do outro lado – a Cafeteria. Um clima de acolhimento percorria com delicadeza o ambiente. O cheiro de café dava um toque de serenidade.

 

Pelo vidro se via o movimento da Avenida. Intenso. Uns passavam carregando agasalhos. Outros os tinham dobrados nos braços. Outros ainda, incautos ou incrédulos, tremiam diante do desacreditado.

 

Mas uma similaridade era geral. Social. Poderia até dizer - democrática.

 

Todos caminhavam apressados. Passadas firmes - e fortes.

 

Não se viravam para a vitrine. Não encaravam as pessoas. Só se desviavam e continuavam. Olhavam para frente. Objetivos.  

 

Lembro que foi uma das primeiras observações que fiz quando me mudei. Completamente imigrante – me sentava solitária em algum Café. Em geral numa específica esquina. Sempre levava um livro. Jamais era aberto. O livro dinâmico passava e virava as páginas ora com rapidez. Ora lentamente. Mas deixando um fio de continuidade implícito.

 

Nunca se sabe o caminho de uma metáfora. Enfim.

 

Eu observava. Sentada e presente. Mesmo despercebida - como se ausente. O ir e vir. Os casais. O comportamento dos casais. O exposto dos solitários. A forma como as pessoas caminhavam nas ruas. Como se dirigiam às mesas. Como percorriam corredores. Não importava a estação do ano. Não importava a roupa ou sapatos que portassem. O pisar era o mesmo. Forte. Decidido. Como uma marcha sem banda. Mas ritmada.

 

Impossível não lembrar aquele autor.

 

Ele dizia que se conhece a cidade onde se está pelo caminhar das pessoas. O caminhar do Homem. Como uma Qualidade. Ou uma falta dela. Sim. O autor conhecia realmente as cidades. E muito mais ainda - conhecia as pessoas.

 

Mas – escolhida a mesinha - sentamos.

 

Começamos a nos decodificar. Desfolhamos as idéias. Desvinculamos os roteiros. Desentendemos as formalidades. Rimos das dificuldades.

 

Enquanto ele também não chegava – fomos quase refazendo o percurso da Vida. De cada um. E de cada par.

 

De repente começou a falar das filhas. Duas. Pequenas. Bem pequenas. Cada uma com seu estilo. Com suas pequenas birrinhas. Com suas personalidades se compondo.

 

Nunca pensara em filhos por preferências. Meninos ou meninas. Era abrangente. Queria ser pai.

 

Estava esclarecida assim a sua posição diante do mundo. E se via agora pai de duas meninas. Falou os nomes. Falou dos tons de pele. Das nuances dos diálogos. Dos momentos de reflexões. Delas. Da importância dos limites. Da complicada dosagem equilibrada de limitar os limites. Do unificar - sem desvalorizar - sabedoria e autoridade.

 

Foi aí que compreendi. O que dizia o mestre Frances. Muito mais que um pai da realidade. Só funciona o pai real.

 

Tão de repente quanto começou a falar - fez um gesto. Brusco.

Virou a cabeça numa rapidez que nunca vi igual. Podia até ter problemas no joelho – como referiu. Mas o pescoço estava em absoluta ordem. Assim.

 

Virou. De uma vez. Como que procurando.

 

Olhou para o lado - como que tocado por um chamado.

 

Não da Avenida. Ou das pessoas que passavam apressadas. Ou do pisar forte de alguém apressado. Ou muito menos atraído pelo cheiro do café delicioso. Que desfilava numa bandeja esfumaçando a salinha. Nada disso.

 

Na mesa ao lado sentava numa cadeirinha uma menina. Bem pequena.

 

Enfeitava a sonoridade do local com sua vozinha suave. Cabelinhos pretinhos. Franjinha. Vestidinha de inverno. Sorridente. Foi sentando e falando. Ele foi escutando e virando. Assim. Sincrônico. Simultâneo.

 

Resgatado - continuou de onde tinha parado.

 

Mas comentou. Discreto. Saudoso. Parecia a voz da minha filha.

 

Talvez não fosse de expor as emoções. Vai ver por isso gostava de poesias. Poesia é o Lugar certo de disfarçar. É expondo versos que melhor se ocultam as sutilezas ou as certezas. Da alma. Nisso também os poetas são sábios. Quanto mais os identificamos, mais os perdemos de vista. Procede.

 

Mas enfim. Até me desconcentrei um pouco da conversa.

 

Pensei no virar brusco. Na lembrança da voz da filha. Que estava em outra cidade.

 

Pode ser esta - também - uma das formas de definir um pai. Uma definição possível. Ou – melhor ainda - uma tradução possível.

 

Assim. Sem frases de efeito. Sem frases sem efeito. Sem alegorias na Avenida. Pela certeza do Lugar - simplesmente e assumidamente - de pai.



Outubro 04 2009

 

Ela era desse jeito.

 

Um pensamento - cérebro a dentro  –  e o dia a fora a tentar  entender. O tal pensamento.

 

Tudo começara quando ela lhe disse uma frase. Talvez mais.

Quase um relato. Não justificável. Incoerente. Até desnecessária.

 

As horas passavam. Ela progredia com a rotina. Mas um intervalinho que surgisse lá vinha o pensamento invasor. Talvez até mais autoritário do que invasor. Não dava descanso enquanto não solucionava. Como um inseto em busca da luz. Até ria quando assim definia.

 

Mas se o pensamento era autoritário – obedecia. Submissão ao raciocínio sempre fora sua tendência. Não desprezava idéias formadas. Não cancelava observações afoitas. Creditava sabedoria ao que irrompia sem muita solicitação.

 

Mas manteve o bom humor. Cumpriu o estabelecido. Seriedade e risos adequados.

 

Foi nesse vai-e-vem de busca que voltou para casa.

 

No percurso discursou soluções. Abstraiu linhas divisórias. Contracenou consigo mesma. Usou de artilharia pesada. Fantasiou até estratégias de deserto. Mas dirigiu com tranqüilidade. Sem pressa.

 

Pressa mesmo quem teria que ter era as instâncias. Mentais. Ou emocionais.

 

Ela apenas dirigiu. E fez as suas suposições. Confiante que numa delas estaria o fio condutor. Não de um choque. Ou de um curto circuito. Mas de uma posição definida ao final da acareação.

 

Encontraria a solução conveniente. E seria claramente eficiente. Completou a sequência de ente - com consciente e inconsciente. O Mestre austríaco não escapou. Foi chamado ao banco de jurados. Ou de condenados. Nesse momento – riu. Eis um Lugar onde sempre o Mestre basculava.

 

Quase uma questão inglesa.

 

Chegou de volta em casa. O porteiro a aguardava.

Entregou-lhe um pacote. Pelo selo compreendeu - vinha de longe. Bem longe.

 

Ai tudo mudou.

 

Nada mais de pensamento. De fantasmas. Ou de mestres. A Áustria ficou em seu devido Lugar. Bem longe. O cérebro desconsiderou as buscas. Os ingleses ficaram para trás. Eles que resolvessem suas questões. Os tais entes sequenciais se retiraram. Fio condutor - só do elevador que a levou para dentro. Mais ou menos assim. Abrupta – eis a palavra perfeita.

 

Ele avisara. O livro lhe será enviado. Queria que ela opinasse. Opinasse. Incrível. Um poeta pedira opinião - dela. D’além mar. Enviou o endereço. Mas quase desacreditou na remessa.

 

A remessa existiu. Existia. Saíra da de lá. Fora empacotada. Selada. E assim atravessara o Oceano. E estava ali. Fazendo mais uma travessia. Das mãos do porteiro para as mãos dela.

 

Já foi entrando em casa e abrindo. A capa era bela. Objetiva.

 

Mas entendeu o autor no momento que viu a primeira página. Depois da capa. E a última página. Antes da contra capa.

Ali. Sem nada escrito - um papel de cor azul.  Antecipando e encerrando as letras.

 

O mesmo azul que ele relatara um dia. Sobre a cor dos papéis das cartas enviadas de avião. Há tantos anos. Escritas até o final de um papelzinho azul. Em meio às chamadas de combate. A guerra cortando as frases. O azul da letra viva numa situação de possibilidade de morte. No passado.

 

Aquele papel - na primeira e na última página. Simbólico. Silencioso. Colorindo um tempo. Qual uma tímida biografia.

 

A poesia já se expunha desde a página não escrita. Se fazia dona do texto em seu silêncio. Em sua cor. Sóbria. Discreta. Delicada. E os versos - acolhidos - dando relevo à emoção. Belíssimos.  

 

Tinha que ser um Poeta. Só um Poeta.

 

Lembrou do Santo filósofo. Ele afirmava. Não havia passado nem futuro. Só presente. Porque é no presente que se fala. Seja do passado ou do futuro. Trazendo-os no tempo. Para junto de si. Pela primeira vez ela entendeu completamente. O sentido. O significado. A idéia quase concreta do Tempo. Perfeito.

 

Dentro havia uma dedicatória.  No final ele acrescentou. Desejo muitas felicidades. E muita inspiração para escrever com o carinho e a inteligência com que o faz.

 

Lera o que ela escrevera. De lá. De tão longe. Comentara. Elogiara. Assim se identificara. E se aproximara.

 

Fez um brinde gestual ao Poeta distante.

 

Se sentiu presenteada – na acepção dupla do termo.

 

E prestigiada – na acepção egoica da palavra.

 

Obrigada.

 

 


Outubro 01 2009

 

Decidiu. Será este final de semana.

 

Ganhara de presente. Os cinco se juntaram e deram a ela. Vai passar o dia lá. Sendo cuidada e mimada. É só escolher a data. Adorou.

 

Telefonou, agendou. Comemorou feliz. A decisão própria combinava com a vaga oferecida. Em acordo. Fuso horário acertado. Era só deixar acontecer. Não teria participação efetiva. Eles lá saberiam a sequência a ser cumprida. Enfim. Riu.

 

Acordou e já foi logo preparando a alma. O espírito. Ou o humor, para ser mais ampla. Do corpo eles lá dariam conta. Ao menos este era o combinado. Através do corpo - liberar a emoção.

 

Quase uma filosofia.

 

Um dia inteiro a fazer nada. E a aguardar as ordens.

 

O lugar era especial. Massagens de todos os tipos. Esfoliação. Relaxamento. Imersão em ofurô. Pétalas de rosas vermelhas. Margaridinhas. Chazinhos. Toalhas aquecidas. Uma delicadeza. Música transcendental. Perfeito.

 

Um aroma suave percorria desde a salinha de espera até os ambientes fechados. Qual um labirinto misterioso. Como devem mesmo ser os caminhos que liberam a emoção. Por um aroma, vai se chegando diante de portas - fechadas. Abertas – revelam o dinamismo a seguir. Interessante.

 

Foi esta a primeira palavra que pensou. Talvez desde o momento que acordou. Até se surpreendeu. Parecia mesmo há algum tempo sem pensar. Interessante de novo.

 

E de porta fechada a porta aberta - foi se descontraindo. Feixe muscular por feixe muscular. Ela até avisou. É muito tensa. Mas estou desfazendo os nós.

 

Desconsiderou.

 

Estava ali para ficar desconcentrada. E ia cumprir a proposta. A tal filosofia que a entrada sugeria.

 

Foi nesse vai e vem que notou a luz vermelha do celular. Mensagem à vista. Resolveu verificar. Que chamado, externo, a re-localizava no planeta.

 

Ele se desculpava. Queria ter falado ontem. Mas os afazeres práticos e nada agradáveis o tinham impedido.

 

Resolveu se divertir. A desconcentração permitia. Avisou. Desculpas mis. Plebe rude. Estou sendo esfoliada e me dirijo no momento para um ofurô. O mundo pode esperar. O ofurô não. Nem eu. Risos.

 

Assim. Objetiva. Divertida. Leve. Mas séria. Sem som. Só com as letras. E enviou a mensagem.

 

A massagem prosseguia. Novamente a luz vermelha. Mais uma vez decidiu ler o que de lá vinha. Afinal – o mundo não a esquecera lá dentro. Nem ela esquecera o mundo lá fora. Riu. A linha podia até ser tênue – mas existia. E se e quando existe - sempre pode ser pulada.

 

Já começou a se sentir incorporada ao Lugar. Estava se transformando numa verdadeira filósofa de esfoliações e ofurôs. Se parabenizou.

 

Mas desta vez foi impossível. Não conseguiu manter a seriedade absortiva. Expressar ausência de si mesma. Fingir que estava apenas ali. E que o mundo tinha acabado.

 

Ele respondeu. Desculpa a nobreza. Mas estou aqui também. Esfolado. Com um furuncô.

 

Riu. Alto. Assim. De repente.

 

As pétalas de rosa na água quase voaram. A mocinha que esfoliava tomou um susto. Perguntou por cócegas. Com a resposta negativa – iniciou alternativas. Se queria mais luz. Menos luz. Não sabia bem como lidar. Com o riso. Vai ver fosse um pranto e saberia o que fazer.

 

Isso é comum. Rir é incomum. Seja onde for. E muito mais numa esfoliação. Vai ver até culpou o Marquês. Mas enfim. Riu alto. Seguidas vezes.

 

A mocinha continuou o que fazia. Porém com mais cautela. Dava para sentir isso pela fala. Pelo gestual. E pela súbita pressa. Até temeu uma expulsão. Onde já se viu. Rir num lugar de silêncio. De faixa zen com alfa. Ai sim. Deu até mais vontade de rir. Mas se controlou. Ou tentou.

 

Avisou a ele. Você está desconcentrando a minha desconcentração.

 

Nova resposta. Novo riso.

 

Desistiu. Não ela. A mocinha. Encaminhou para outra sala. Mais uma porta fechada se abriu. Um divã estava lá em meio à meia luz. Orientou alguns momentos - sozinha. Escutando a música e sentindo o aroma. Colocara um aroma relaxante.

 

Ficou lá inspirando o tal aroma. E rindo. Quando acabou o dia – estava calma. Muito calma.

 

Vai lá saber. Qual das massagens foi benéfica. A de fora. Ou a de dentro.

 

Ele foi buscá-la. Desceu com ele de mãos dadas. Contou o que aconteceu. Riram juntos.

 

A chuva fina que caía lembrava que o mundo tem múltiplos e surpreendentes encantos.

 

 


Setembro 29 2009

 

Sim. Adorava a Lua cheia.

 

Estivesse onde estivesse – parava. Olhava para a Lua. Como se a visse pela primeira vez. Como – talvez - teria olhado a primeira pessoa. Com o olhar curioso. E a expressão surpresa. Diante da beleza de uma Lua cheia.

 

Brilhante. Como um farol - na noite universal.

 

Sempre pensava nas distâncias. Nas pessoas que estariam olhando. Em que outros lugares. Comentando com outros idiomas. Com outros sotaques.

 

Que contornos estariam sendo destacados. De flores em um jardim. De barcos em algum mar distante. De alguma casa simples num lugar deserto. Em algum pinheiral envolto em neve. Ou um simples terraço de um prédio. Urbano. Como estava ela ali. A Lua com qualidades altruístas. Dava-se. Expunha-se. Só isso.  

 

A cada Lua cheia - se sentia presenteada. Pela natureza. Pelo Universo. Até pela Vida em si. Não importava. Funcionava sempre como um momento de paz. Total. Absoluta.

 

E foi assim.

 

Estava descendo a escada. Viu que os degraus estavam claros. Uma luz vinha de cima. Olhou para cima. Despretensiosa. Até desatenta. Olhou como se olha. Sem preocupação de enxergar. Virou a cabeça.

 

Ficou surpresa. Fez até aquela voz que as crianças fazem. Um sustinho de alegria. Viu a Lua. Redonda. Linda. Pura luz. Atravessando o vidro do teto da escada. Subiu de volta. Já atenta e cheia de pretensão. Foi para o terraço aberto.

 

Deitou em uma cadeira. Ficou ali. Imóvel. Olhando. Como se diante de um espetáculo. Como se diante de um aviso. Silêncio. Onde qualquer movimento poderia prejudicar o efeito. Mais ou menos assim.

 

Lembrou de tantos lugares onde já tinha parado - para olhar a Lua. As lembranças vieram felizes.

 

Lembrou da primeira vez que foi lá. A cidade eterna. Subiu numa colina. Encostou-se na estátua da mulher heroína e ficou lá. A Lua cheia contornava a figura de pedra. A altivez da escultura parecia se submeter. A todo aquele brilho. Pensou. Nunca quero esquecer este momento.

 

Ordem dada. Ordem obedecida. Nunca esqueceu.

 

E já se iam tantos anos. Na época ainda era muito mais crédula do que observadora. Hoje era o contrário. Era muito mais observadora do que crédula.

 

Mais ainda olhava a Lua com olhos de infância. Quando tudo é simples e possível. Onde a beleza é apenas beleza. Sem questões de estética. Sem filosofias sobre a existência.

 

Lembrou também de quando estava lá ainda. Na cidade de onde viera. Lembrou do risquinho delicado da luz da lua no mar. De longe – lá do horizonte - até a espuminha da água na praia. Até a areia ficava mais clara. Branquinha. E quando criança saia em noites assim para catar as conchinhas. Conchas da noite são mais belas que as conchas do dia. Assim explicava. Vai lá saber por que.

 

E foi um tal de lembrar de Lua – e de luar -  que não acabava mais.

 

Lembrou até dos índios e a sua conta de nascimento. Quantas luas.

 

Lembrou dos contos assustadores. Sempre partindo das ideias dos adultos. Como se temessem. A luz de cima em meio à noite. Como se esta luz permitisse – expor o que não podia ou não devia.

 

A luz da Lua contornando também as maldades. Nunca havia pensado nisso. Só ali. Naquele instante.

 

O céu estava claro. Muito claro. Muitas estrelinhas. Desconsideravam a tal urbanidade. Não competiam com a luz dos prédios.

 

Um ou outro avião cruzava entre elas. Ficou imaginando se as pessoas dentro olhavam e sorriam emocionadas. Diante de tão perto da Lua.

 

Riu quando lembrou a amiga de além mar.

 

Uma noite ela falou via a comunicação habitual. Por letras e barulhinhos no teclado. Estou daqui olhando a Lua. Vai lá você também. Olha para ela. E assim – é como se estivéssemos nos olhando. Riu.

 

Há sempre um modo de se diminuir distâncias. E minimizar saudades.

 

Olhou mais uma vez para o céu. Sentiu o luar em volta dela. Brincou de sombras com o brilho por sobre as pedras do terraço.

 

Levantou. Encostou-se na muradinha com o gradil de ferro. Era esta uma noite de inverno. Sentiu um friozinho na pele. Quase um arrepio.

 

Antes de entrar jogou – com um sorriso - um beijo para a Lua.

 

Também não iria mais esquecer esta noite de luar no terraço. Ordem dada.

 

 


Setembro 28 2009

 

Não esquecia um determinado comentário dela.

 

Escreveu dizendo. Achava muito bonito. Fazer uma festa apenas os seis. Tem quem discorde. Quem ache que festa tem que ter muito mais pessoas. Mais distantes. Ou mais sociais. Afins e sem fins. Elogiou isso. Fazer festa familiar. E ser tão divertido. Sempre.

 

Participara uma vez. De uma destas festas. Era o aniversário dela. Veio junto com a outra amiga para prestigiá-la. E se transformaram em oito. Foi muito bom. Não faltaram motivos para risos. A celebração se estendera pelo dia e entrara pela noite. Uma festa. Este o termo correto. E achara maravilhosa.

 

Códigos e referências sem explicações necessárias. Risos e dados rascunhados – passado a limpo. Sem aborrecimentos. Sem contratempos. Sem críticas maldosas. Sem mágoas.

 

Sim. Ela estava certa. Sempre era muito bom.

 

Nesta noite não foi diferente.

 

O convite partiu dele. O inverno chegou. Vamos celebrar antes que acabe. Com esta informação do aquecimento global nunca se sabe. Todos riram. Convite aceito.

 

A mesa estava em ordem. Tudo feito dentro do solicitado. Cada um poderia se servir diante da sua preferência. O frio circulava com tranqüilidade. Lá fora uma chuva leve dava um toque bucólico.

 

Ela riu. Sempre se divertiu com este termo.

 

A modernidade permitiu que fosse tudo feito à mesa. Com todos em volta. Como um banquete antigo diante das genialidades modernas. Não se precisou do ir e vir. Tudo ficou disposto e exposto. Aquecido. Aquecendo.

 

Não se fugiu à rotina. Como assim - acabou. Então substitui. Faz assim mesmo. Vai ficar bom. Ela não gosta de alho. Ela não come bem passada. Ela só quer mal passada.

 

Este queijo, não. Acha até bonito. Mas não gosta. Este sim. Sim. Deixa que sirvo. Ponha mais para cá. Agora ficou longe dela. Quase derramou. Não, não sujei nada.

 

Quem levantar vai ter que pegar também mais isso. A família denuncia de onde veio. Sim. Até ele. Veio do lado oposto. E já está igual. Ninguém quer levantar. Deixa - eu vou. Então ótimo.

 

O cheiro do queijo derretido se misturava aos cheiros dos molhos da carne e aos pães selecionados. O vinho circulava de mão em mão. Os lugares escolhidos indicavam as preferências de cada um.

 

Elas estavam lindas. Como sempre. Participativas. Integradas - muito mais do que integrantes.

 

Eles se compartilhavam e partilhavam da história de cada um - entrelaçada com a do outro.

 

A música escolhida fora nenhuma. A voz de cada um parecia fazer o coro perfeito. A batuta era erguida ao som de talheres e facas. Tudo em total harmonia com os estalinhos do óleo nos quadradinhos de carne.

 

O cheiro doce do chocolate veio fazer o contraponto. Deliciou. Acolheu. Fez o grand finale. Em alto estilo.

 

Foi ai que lembrou a observação dela. Da reunião a seis. Sem precisar de suportes para ter graça.

 

Olhando para eles – se sentiu orgulhosamente feliz. Muito feliz. E muito orgulhosa. De si mesma. Tivesse uma medalha por perto e já teria se atracado a ela. Assim estava se sentindo.

 

Orgulho. Eis mais um sentimento com múltiplas leituras. Não permite solidão. Ou isolamento. A vaidade até pode ser ato parcialmente isolado. Pode ser dividido apenas com o espelho. O orgulho, não. Em especial este tipo de orgulho. Sempre vem do outro. Ou pelo outro. Como um presente doado. Perseguido de forma direta, mas conquistado de forma indireta. Não vem de si para si.

 

Foi o que aprendeu naquele momento. Observando-os.

 

Sentindo a mistura de cheiros. Diante do riso festivo de cada um. Da intimidade positiva em volta de uma mesa. Onde o simbólico se fazia quase táctil de tão factual.

 

Compreendeu perfeitamente. A importância de códigos bem estabelecidos. Seja qual for a relação. Para que possam ser corretamente lidos. E espontaneamente respeitados.

 

Até lembrou a velha frase. In vino veritas. Podia ser. Mas era verdadeira a visão. A sensação. Não era fruto de uma embriaguês. Era fruto de uma realidade.

 

Eles eram adequados ao tempo e às funções. Felizes. Afetuosos. Éticos e bem sucedidos. Com a idéia coerente de ambiente. De presente.

 

Era uma noite fria de um sábado de inverno.

 

E o anunciado aquecimento global se fazia verdadeiro e instalado. Estava todo ali - na sala. Em volta da mesa.

 

Riu tranquilamente aquecida.

 

 


Setembro 26 2009

 

Fiquei pensando de que ângulo se vê melhor.

 

Ângulo é sempre da ordem da intenção. Muito mais que da extensão.

O dia tinha sido especial desde o começo.

 

Começou com um susto. Vi a luz do dia clara. Invasiva. Definindo o espaço. Sem constrangimentos. Ou meias sombras. Assim. Explicita. E eu com os olhos esbugalhados. Boca aberta. Raciocínio arrancado às pressas. Do onírico ao real em tempo recorde.

 

Esqueci de ligar o despertador.

 

Como farei agora. Assim. Perguntava a mim mesma. Aflita. E não conseguia me responder. Só fiquei ali. Apavorada – diria. Agenda lotada. E essa agora. Perdi a hora.

 

Quase perdi mesmo foi o equilíbrio. Mental. Mas tão rápido quanto - quase – perdi, recuperei.

 

Era um sábado. Um sábado. O tal sonhado sábado chegara – e eu duvidava.

 

Vai lá saber por que. Confundi os dias. Ou fiquei presa na véspera. Prisioneira do despertar anterior. Nem conseguia festejá-lo. Fiquei ali catatônica. Assustada. Querendo descer escada abaixo. E diante de um dia de folga. Da tão sonhada folga. Cinco dias a esperar este dia chegar. E este desatino. Incrível.

 

Ainda bem que as pernas foram mais sábias. Vai ver entendem melhor de calendário do que se imagina. Ou não se aceitam submissas com facilidade. Ou – melhor ainda - não saem por ai a correr desatinadas. Aceitando qualquer ordem. Primeiro aguardam. Para depois agir.

 

Algum dia - escreverei sobre isso. A apologia das pernas decididas. Mas enfim. De onde estavam – não saíram. Não se moveram. Continuaram na cama. Bem esticadinhas. Aguardando a consciência tomar um rumo adequado.

 

Deixei passar o susto. E iniciei a rotina da folga.

 

Não sem uma decisão. Já que eu desautorizei o sábado – melhor deixar que ele me autorize. E deixei o dia se organizar. Por conta própria. Lembrei do poetinha. Ele sim. Entendia de sábado como ninguém. Saravá.

 

Foi uma surpresa atrás da outra.

 

Então é assim. Nem sempre sabemos. Ou impomos. As horas podem também fazer isso por nós. Este sim. Um susto agradável

 

O lugar ele escolheu. Uma surpresa. Desceu e avisou. Convidou. Vamos até lá. Um lugar ao ar livre. Um espaço aberto. Vamos sim.

 

Lindo. Nunca antes havia estado ali. A água doce e calma. A luz mais calma ainda - se espalhava pelo espelho d´água. Era um dia de delicado sol de inverno.  A mata em volta esbanjava contraste.  Garças brincavam nas bordas. Desimpedidas de compromissos. Ágeis em sua proposta.  Bicando felizes - o almoço interminável.  

 

As mesas ficavam dispostas próximas da borda.

 

Veleiros cruzavam solenes. Motores ocasionais passavam e cortavam a água. Com barulho. Placas convidavam a passeios. Uma revoada de pássaros proprietários expunha a autoridade. Uma pontezinha de madeira avançava água adentro. Oferecia e gemia a cada passada. Mas avançava com confiança.

 

Mais uma surpresa apontava saudades. A música. Falava da tarde naquela praia. Tão longe. Mas que- de repente - pareceu tão perto. Não resisti. Entrei no pequeno restaurante e aplaudi o cantor. Sorridente – agradeceu.

 

Ficamos horas caminhando diante da água doce. Impregnados do cheiro doce da água. Invadindo a pontezinha gemente. 

 

Sentamos. Observadores cuidadosos do tempo - a seguir seu ritmo.

 

Ali. Com nossas pernas – mais uma vez – esticadinhas. Só que desta vez – ao menos as minhas - confortáveis. Em acordo com o pensar.

 

A tarde foi caindo. As garças caminhando lentas para fora da água. As luzes se acendendo. Um ventinho mais frio marcava a estação. E avisava da hora.

 

Quando saímos – olhei para trás.

 

Foi aí que fiquei pensando no tal ângulo. Em todos os possíveis ângulos. Para se conviver com os dias. Com as noites. Com os erros. Com os acertos. Com os sustos. Como se fosse sempre assim. Donos disfarçados do próprio destino.

 

Comentei com ele. Adorei. Sequenciei - obrigada. Cada vez que me perguntar onde quero ir – direi aqui. Ele riu.

 

A urbanidade também tem seus misteriosos ângulos. E as suas – doces – surpresas.

 

Pensei. A Vida sabe privilegiar os dias. Sorri. Feliz.

 

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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