Blog de Lêda Rezende

Junho 01 2009

Devem já ter inventado algo melhor. Mas naquele momento só pensava nisso. Obsessivamente. Não poderia existir sensação melhor. Nem certeza mais evidente. Ou planejamento mais adequado. Sequer idéia mais agradável.

 

O momento ia chegando e eu me despojando. Encerrando as formalidades. Liberando a escuta. Despertando o instinto primitivo. Trazido pelo encanto. Como por um encanto, melhor referindo. Entre o abrir e fechar de pálpebras – respirava alegria.

 

Assim entrei em casa. Muitos quilômetros de trilhos depois. Na sexta feira.

Já começando a anoitecer.  Bendita sexta feira. Folga de final de semana.

 

Inteirinho. Sem compromissos profissionais. Sem tarefas. Sem relógios. Sem programação definida. Um feliz excesso de sem.

 

A meteorologia informava. O clima estava oscilante. Mas nem me incomodei.

Em geral tudo é oscilante.

 

Não parei para pensar - nesta observação filosófica. A de que tudo é oscilante. Deveria. Filosofia é assim. Se você a deixa inquieta é porque ela está certa. Quase como um axioma. Rimado - mas nem por isso menos verdadeiro.

 

O jantar se propunha maravilhoso. A música escolhida em conjunto. Sentamos diante de nós. Diante da mesa. O rubro na taça dava um toque mais profundo.  O colorido do cardápio sugeria uma certa leveza. A mistura dos aromas indicava uma celebração. Nossas vozes emolduravam os assuntos.

 

Sim. Estava inaugurado o final de semana. Podia ser repetitivo. Semanal. Lógico. Mas sempre é festejado quase como único. Porque dá o ponto final. Na lista de obediência. Final-de-semana deveria ser definido como Final-de-Obediência. Por que é o que se faz. Desobedece-se regras socialmente estabelecidas. Para se privilegiar regras individualmente reconhecidas. Perfeito.  E como dizia o Frances. Só se repete o que não tem completude. Ainda bem. Pensei eu.  

 

De repente - uma nova sensação. Melhor dizendo. Uma sensação nova. Mais forte. Mais contundente. Isso para não dizer objetiva. Decidi fingir que não via. Ou que não era comigo. Endereço errado.

 

Não funcionou.

 

Aquela dorzinha não saia de perto. Das costas. Dos braços. Dos olhos. Até dos joelhos. Dorzinha xifópaga. Assim parecia. Porque para onde eu virasse – ela virava junto. Até para onde eu olhasse. Ela se permitia também olhar.

 

Me recusei a admitir.

 

Mas ela não estava predisposta a rejeição. Ou a discussão. A dorzinha. Queria se fazer destacada. Queria atenção.

 

Admiti.

 

Sai da mesa. Do som escolhido. Do colorido dos pratos. Do rubro na taça. E fui verificar o que se passava. Um frio percorreu todo o corpo. Mas percebi que não percorreu o ambiente. Um frio talvez mais egoísta. Com mania de privacidade. E escolheu a mim. Apenas a mim.

 

Não terminei o pensamento.

 

Uma tontura impetuosa me fez pensar na frase do mexicano. Sim. Nunca mais. Mas nem era mexicano o tal rubro. E eu nem tinha ainda começado. Deveria ser forte. Fazia efeito no tocar dos dedos no cristal. Vive la patrie. Dele. Porque a minha estava acabada.

 

 

Aquele apitinho foi decisivo. Demorou um pouco a se manifestar. Mas quando veio foi com um estilo dissociativo. Apitou de um lado. Cai deitada do outro. O frio egoísta se impondo. Não havia volume que desse conta. Nem em número. Nem em plumas. Nem em penas.

 

Engolir comprimido tremendo deveria ter algum mérito. Processo também dissociativo. A mão não obedecia ao que a boca – disponível - aguardava. O braço não obedecia ao que a mão - ansiosa - intentava. Nada parecia ter ordem.

 

Daí me lembrei. Do pensamento filosófico. Em geral tudo é oscilante.

 

Foi o último pensamento eficaz. Que me lembro. Estava assim decidida a programação do final de semana.

 

As regras seriam ditadas por um apitinho. Os festejos em volta de um comprimidinho. A dança compassada por um frio egoísta. A parceria evidenciada pela gemelaridade. Corpo e dor. Maestros rígidos e explícitos.

 

Conclui. Entre calafrios. Filosofia rimada nem sempre é verdadeira.

 

Em geral – nem tudo é oscilante. 

 

 

 


Maio 25 2009

Ele telefonou cedo.  E já foi mais informando que perguntando. Se eu estava lembrada. Da data. Fazia já um ano. Naquele exato dia. Um ano. Até ri.

 

Agora podia rir também com a pergunta. Como poderia esquecer. E avisei.

Já deixei uma mensagem para você. Mais cedo ainda que sua ligação. Riu. Se sentiu prestigiado.

 

Todos nós lembramos. A notícia e o ato. Os detalhes. A dor. A angústia. A esperança. A dúvida. A certeza. O tempo. As horas. Tantas horas. Muitas horas. O dia todo. Nunca ninguém poderia estar preparado. Para tanta espera. Diante de uma porta. Esperando a porta se abrir. Esperando uma noticia. Esperando um alento. Esperando um som. Uma frase. Sim. Hoje sabemos. A espera era mesmo por uma frase. Uma frase curta. Objetiva.  O alivio. Apenas isso. Acabou. Tudo bem. Estas palavras.

 

Durou um dia inteiro para serem escutadas. Um dia inteiro de espera. E enfim a porta abriu. Já noite. E a frase veio. Como desejada. Ou ainda melhor. Uma frase curta. Objetiva. Mas veio com muitos risos. Foi dita assim. Acabou. Tudo bem. Entre risos. E todos nós choramos. Diante da frase acompanhada dos risos. Afinal – e no final – as lágrimas expõem também a alegria. É uma das muitas formas da alma sorrir. Imprevisível. Independente. Subversiva. Mas eficaz.  

 

Sim. Um ano.

 

Ele teve a idéia. Achou indicado. Fazer uma extravagância. Uma comemoração fora de hábito. Assim falou. Vamos todos fazer uma extravagância.

 

Ele podia pedir tudo.

 

Nunca pensei desta forma sobre os pedidos. Eles existem para também validar a existência. Assim. De forma redundante. A existência - por si só - já é redundante. Vive-se porque vive-se. 

 

O convite se espalhou entre nós. O da tal extravagância. Logo depois das atividades. Da rotina do trabalho. Vamos todos jantar diante do mar. Escutando as ondas. Quem sabe até dando uma passadinha com os pés na areia. Tocando uma espuminha aqui. Outra ali. Com delicadeza. Adivinhando a praia na noite. Um jantar especial. 

 

Descemos a serra.

 

Chuva entende muito pouco de existência. E principalmente de pedido. Isso tudo ela desconsidera. Pois assim foi. A chuva fortalecida desceu a serra junto. Fiel companheira. Não saiu de perto. Fosse um boletim meteorológico diria que a visibilidade era nula. Porque era. Só aquela cortina de água. Mas se tem que ser – que seja. Não houve desistências. Houve até quem sugerisse seguir uma plaquinha escrita – retorno. Indignação geral. Tímida e arrependida até emendou para - contorno. E todos riram. Houve piadinhas.

 

Se não chegarmos até o mar – ele por certo chegará até nós. Não faltou humor. Bom humor.

 

A chegada foi bela. A chuva se retirou aos poucos. Acalmou a si própria e a todos nós. E parou. O restaurante escolhido ficava quase mar adentro. Num píer. Piso de madeira. Vidros em volta. Lindo. Abrimos os vidros perto da nossa mesa. O vento entrou. O cheiro salgado invadiu o salão. Brincou com nossos cabelos.

 

Em torno da praia - as luzes das casas. Como um colar no mar. E aquele murmúrio. De ondinhas quebrando. Tudo costurado como uma colcha delicada de retalhos. Coloridos pela lembrança de cada um. Cada um por seu viés. Por sua memória. Por sua seleção.

 

Ali estávamos. Manufaturando o nosso feriado. Artesanalmente. Em meio à chuva da ida e – depois - à neblina na volta. No semi-escuro da serra.

Escutando a música de nossas vozes. De nossos risos.  Sem seqüelas. Sem temores. Dando o assunto passado por encerrado. E uma comemoração presente e futura por iniciada. A história não precisou ser re-escrita de forma cruel. Manteve a sua escrita certa. Nas linhas certas. Com o título certo.

 

Acredito que esta seja a magia da Vida. A ambigüidade do tempo que passa. A duplicidade entre o que se leva e o que se trás. O pertinente entre o que se lembra e o que se esquece. O factual entre o que se marca e o que se apaga.

 

Há ainda o mistério entre o que se escreve e o que se traduz. Um brinde. Dia dois de fevereiro. Uma festa lá no mar. Uma festa diante do mar.

 

 


Maio 23 2009

Não vou dizer que foi um susto. Susto agora tem uma nova conotação. Pelo menos para mim. É sempre bom. Ou prenúncio de coisa boa. Mas enfim. Poderia dizer que foi um mau momento. Aconteceu no segundo exato. Eu caminhava e ela falou. Uma sincronicidade.

 

Estava subindo a ladeira. Caminhando. Calmamente. Para ir cuidar daquele comum pecado capital. Afinal a festa estava quase na hora. E eu estava quase na hora da festa. Algo por aí. Talvez um excesso de sincronicidades. 

 

Escutei um tom irritado. Vi um braço masculino parado de lado de fora. Do carro. O carro estacionado sob a sombra de uma árvore. Talvez uma busca cuidadosa do invisível. Nem bem pensei isso e escutei.  Ela falou bem alto.

 

Não parecia preocupada com a sombra. Nem com a árvore. Muito menos com o invisível. Gritou de dentro do carro.  Se eu soubesse. Se eu soubesse que você não ia largar dela. Eu não teria nem começado. Falou assim. Com o fôlego semi-interrompido.

 

Ele nada respondeu.  Aumentou o volume do som do carro. E a música se fez maior. Não sei se da dor dela. Mas por certo do constrangimento dele. Ou do temor de ambos.

 

Estavam impostos muito mais que expostos.

 

Talvez ela tivesse perdido a cautela. Ou dispensado a prudência. Ou ele dito meias palavras. Ou meios sentidos. Ou tudo isso em vice-versa. Inclusive a posse da fala e do silêncio. Nunca se sabe.

 

Ultimamente tenho me dado conta das metades. Sempre assim.  Metade exposto - metade oculto. Esconde o rosto – expõe a voz. Sombras meio rabiscam – meio apagam. Metade culpa – metade prazer. Ou quem sabe, metade larga – metade fica. Metade aliança – metade promessa. Ou metade queixa – metade silêncio.

 

Subi a ladeira.  Lembrando a minha avó. Ela sempre falou. Silêncio é opção, menina, silêncio é opção.

 

Antes de virar a esquina olhei para trás. Sei que não se deve olhar para trás. Teve gente que até pedra virou. Por causa disso. Mas não consegui. Enfim. Um pecado sempre puxa outro. Até ri quando pensei isso. Não me contive. Olhei.  O braço dele já não mais aparecia. Estava para dentro da janela do carro. Desta vez o braço dela estava para fora do carro. Gesticulava com força. Como uma dança. Solitário. O braço. Subindo e descendo. Os dedos apontando. Negando. Afirmando. Pelo espaço pequeno da janela dançava toda uma angústia. Uma coreografia do desalento. Por um instante ficou meio caído. Por sobre a porta. Para depois reiniciar a dança. Talvez de um saber mal conduzido. Ou mal creditado. Ou bem exigido. Vai lá saber.  A mão parecia escrever o texto no vento. Sob a sombra da árvore.

 

Entrei. Fui cumprir o objetivo.

 

Na festa sentamos perto do cortejo. Os sinos tocaram. A porta abriu. Ela entrou. Feliz. Rindo. Caminhava com delicadeza. De acordo com a música.

 

Mas o riso era mais forte. Que a flauta. Que os violinos. O riso dela tinha toda uma música própria.

 

Encerrou a cerimônia com uma frase. Que se beijem agora. Pela primeira vez depois da celebração. Em público.

 

Estavam expostos muito mais que impostos.

 

Depois do tal beijo público, rindo, ela olhou em volta. Ergueu o bouquet. Como se ergue uma taça. Mas com muita suavidade. Como sinal de vitória. De conquista. Ele sorriu surpreso do gesto. Mas acompanhou. Ergueu o braço dele também.

 

Lembrei da moça da sombra. Da dança solitária e forte da mão. Do gesto riscando o vento. A mão dele recolhida. Sem movimento.

 

Não pude deixar de recordar a frase do mestre austríaco. O que não se revela pela fala, se denuncia pelo gesto. Há toda uma leitura possível.

 

Também pela alegoria das mãos - as dores e os amores podem sempre ser lidos.

 

 


Maio 15 2009

Ficou parada. A boca aberta. Os olhos escancarados. Fria. Gelada. Paralisada. Parecia que só havia um movimento. O coração batia. E batia descompassado. Só o som do coração se escutava. Do coração dela.  Acho que não. Não foi só o dela. Todos deram sua contribuição. Com as batidas aceleradas. Em meio a um silêncio rigoroso. Quase silêncio de inverno.

 

Como aquilo pode acontecer. Em meio aos pulinhos e risinhos. Assim. De repente.O ambiente ficou como que congelado. Como quando se congela uma imagem. Uma foto congelada

 

Ele tinha decidido pela compra. Assim o fez. Escolheu o modelo desejado. Não poupou. Era uma decisão sem discussão. Objetiva. Sem figuras de Linguagem. Sem retórica convincente. Sem dialética. Assim. Crua e objetiva. Vou comprar. Comprou. Tela ampla. Todos os maravilhosos recursos da atual tecnologia. Backlight. Objeto de dar tanto orgulho quanto prazer. Por possuir.

 

Ficou linda. Num canto da sala. Com todos os equipamentos em espaços corretos. Conforto no ponto certo. Até uma mini adega completava o conjunto. Tudo calculado para dar toda a possibilidade de conforto.

 

Complementou. Veio o novo brinquedo. Daqueles que são pura festa com vantagens. Podia ser jogado com movimentos físicos além de dedinhos em controle. Maravilha. Tinha para todo gosto. Corrida. Esqui. Guerra. Travessia. Fitness. Boliche.

 

Alta sofisticação na mesma proporção que a alta satisfação. Assim ele ficou. Assim ele sentiu. Satisfeito. Quando viu tudo em funcionamento. Sorriu. Feliz. Um espaço lúdico. Mesmo que para gente já bem grande.

 

Decidiram por uma, também lúdica, inauguração. Convidaram amigos mais próximos. Queridos. Aceitaram. Comidinhas. Bebidinhas. Competição e risos. Na melhor forma de convivência. Concorrência esportiva. Sem angústias. Sem riscos. Com lealdade. Diversão pela diversão. Ela sempre muito delicada. Recebia os amigos com todos os cuidados. Para que todos se sentissem bem vindos. Acolhidos.

 

Depois de algumas competições escolheram continuar com um boliche.

 

Sugestão aceita de imediato. Primeiro eles. Muitos risos. Poucos acertos.

 

Chegou então na vez dela. Sempre fora muito boa em boliche. Assim pelo menos destacou. Nem bem a sugestão foi aceita. E já foi logo dizendo. De mim agora ninguém ganha. Disse rindo. Ficou de pé.

 

Já prática - dispensou determinados cuidados. Não prendeu o controle no pulso. Conforme indicado. Avisado. Até pressionado. Dispensou. Segurou o controle. Fez o gesto. Foi logo dizendo. Observem a pontuação. Assim. Em alto e confiante som. Orgulhosa das habilidades. E um risinho associado.

 

Ergueu a mão. Fez o gesto correto. Quando apertou o botãozinho. Não apertou.Não tinha mais botãozinho. O controle voou. Voou decidido. Qual mesmo uma bola de boliche desinformada. E lá se foi direto. Num strike, digamos, incorreto. Aquele som fino. Plasmático. Nem todo violino daria conta.

 

Partiu. Quebrou. A tela.

 

Parada. Ela ficou ali. De pé. A mão ainda erguida. Vazia. O escuro diante dela. E o silêncio. Salvo uma ou outra inspiração mais forte. Com um sonzinho tímido gutural acoplado.

 

Olhou para ele. Estava sentado atrás dela. Pálido. Os amigos. Pálidos.

 

Parecia até uma doença contagiosa súbita. Nem risos nem cores. Apenas o negro e a palidez.

 

Ele acalmou. Consolou. Acidentes acontecem. Tudo bem que falou gago. E nunca fora gago. Mas devia estar fazendo parte da tal doença súbita.

 

Os amigos ainda ficaram um pouco mais. Comentando. Repetindo. Solidarizando. Quando se despediram, ela os abraçou. Agradeceu, até sorriu.

 

Nem bem fechou a porta - chorou. Chorou. Chorou. Chorou a noite toda.

 

Discutiu metafísica. Recalculou até o horário de verão. Nada. Nada resolveu. Concluiu. Realidade é assim. Imutável.

 

Nem todas. Ainda bem. Algumas podem ser recicladas. Digamos assim. A solução se fez presente.

 

Ele curou a gagueira. Ambos curaram a palidez. Os amigos voltaram. A festa continuou de onde tinha parado. Ela não tira mais o prendedor do pulso. Como bracelete.

 

Mas sem strike.   

 


Maio 09 2009

O calor estava terrível. Foi assim que entrei em casa. Resmungando. Alucinando. Água gelada. Piscina com gelo. Roupa com flocos de neve embutidos. E lá no fundo da visão - uma cachoeira gelada. Água despencando de uma pedra congelada. Alucinei até nevasca. Borrasca. Avalanche.

 

Não faltou criatividade no processo alucinatório. Mas enfim. Voltei. Com calor. Sem nevasca. Sem borrasca e sem avalanche. E com um nada diplomático humor.

 

Nem bem entrei em casa e o interfone foi demonstrando o poder da sua existência.

 

Não acreditei. Ela precisava falar. Relatar. Discorrer. Pensei todas estas palavras diante de um único golinho de água. Porque já fui ficar a postos. Para o tal relato. Me senti diante de uma novela. E nem novela eu assisto.

Agora ia assistir a novela delivery.

 

Bom. Melhor parar com o mau humor e acatar. Ceder.

 

Como de hábito ela já foi entrando e falando. Desta vez faltou o choro. Se é que se pode falar assim de um choro. Choro não falta. Talvez lágrimas faltem. Mas foi logo contando. Aquele almoço tinha sido curioso.

Gesticulava com cautela. Como uma mulher esclarecida.

 

O lugar que ela sempre gostava de ir. Ele estava gentil. Comentava a mudança. As dificuldades. As alterações na rotina. Mas já estava tudo acertado. Inclusive já tinha onde morar. Que rápido. Surpreendente. E num bairro que sempre quis. Que maravilha. Estava eufórico. Muito já estava embalado. Que rapidez. E muito ainda restava embalar. Isso sempre se resolve fácil. Fez piadinhas. Nada como um plástico-bolha. Riu. Sozinho.

 

Em meio a uma mastigada e outra, ele falou. Pronta para a travessia. Assim. Esta fora a palavra. Travessia. Ela pensou mil loucuras com esta palavra. Mil sugestões. Inclusive anatômicas. Mas só pensou. Como assim travessia. Já está tudo feito. Tudo decidido. Nem sabia onde se encaixava. Ele fez nova piadinha. Encaixada. Encaixotada. Mas uma vez riu. Sozinho. Mas não pareceu notar. Em nenhuma das duas vezes.

 

Nada mais disse a ele. Silenciou. Como uma mulher desiludida.

 

Voltou para casa. Não se viram por dois dias. Hoje viera novo convite. Mais um almoço. Quase riu. Comentou algo sobre peso. Achei que poderia ser uma metáfora. Mas permiti apenas a literalidade. Pareceu mais adequado.

 

Desta vez ele repetiu os planos e acrescentou mais novidades. Ele fez alguma observação rindo. Sobre a viagem e os amigos. Ela não entendeu muito bem. Ele riu. Enfim. Riso é da ordem do pessoal. Riso compartilhado já é outro setor. E ela estava já em outro setor.

 

Melhor dizendo. Nem tinha trocado de setor. Avisara já no trabalho. Cancelara a possibilidade da transferência. Desde o primeiro almoço.

Desejou que ele fizesse uma excelente travessia. O que mais pensou não falou. Sobre a tal travessia. Deu um beijo na saída. Ele correspondeu. Avisou que ligava assim que chegasse lá.

 

Comentou rapidamente. Onde tudo tinha mudado. E onde ela perdera. Talvez uma fala. Um corte. Vai ver errara. Como continuista. Algo por aí. Mas não lembrava. Melhor fechar as cortinas.

 

Desta vez entendi que água não seria necessário. Lógico que pensei numa bacia com gelo. Mas ofereci um café. Aceitou.

 

Segurou com a mão discretamente trêmula. Mas nada derramou. Como uma mulher, talvez, amadurecida.

 

Quando se despediu - combinou um chá. Um cinema. Mas alertou. Nada de almoço.

 

Desta vez riu. Como uma mulher, quem sabe, renascida.

 

Lembrei do meu amigo indiano. O som sempre persiste, independente da veracidade do silêncio.

 

 


Maio 06 2009

Nem bem abri a porta e ela já foi logo entrando. Mais rápido ainda foram as lágrimas. Não falava. Só chorava. Com as mãos no rosto. Sentei ao lado. Não sabia o que dizer. Não sabia os motivos. São tão contraditórios os caminhos das lágrimas. Continuou chorando. Só toquei-lhe o ombro. Ela pôs as duas mãos no rosto. Como uma criança desamparada  

 

Decidi ir até a cozinha. E lhe entreguei um copo com água. Na hora foi o que me ocorreu. Assim. Num gesto automático.

 

Desta vez contrariei um pouco o meu amigo indiano. Ele sempre dizia. Se não sabe o que fazer – faça nada.

 

Mesmo não sabendo o que fazer, optei pelo copo com água. Um dia explicarei isso a ele. Quem sabe ele abre esta nova alternativa.

 

Ela bebeu. Quase que de uma vez só.  Assim. Com avidez. Pôs as duas mãos no copo. Como uma adolescente resgatada.

 

Foi um verdadeiro milagre. Parou de chorar. Conseguimos até rir. Ou melhor, eu consegui. Falei. Se era sede, não precisava chorar. Devia ter pedido. Já teria sido resolvido. Esboçou o que se poderia chamar de sorriso. Mas não foi adiante. Me desculpei.  Pelo gracejo inoportuno. Nada respondeu.

 

Começou a contar. O motivo. Muito além da sede. Embora não deixasse de ser também uma espécie de sede.

 

Ele estava mudando. Ela compartilhava. Cooperava. Solidarizava. E todos esses qualificativos. Que sempre se medalha em situações como esta. Como condecorações. Como se tudo não passasse de uma batalha. Interminável.

 

Assim parecia entender a parceria. Neste momento quase o choro voltou. Mas, se conteve. Muitas vezes as palavras não cedem lugar. E lá se vão saindo. Do jeito que podem. Impedindo outras saídas.

 

Ele não a convidara para a nova cidade. Ia se mudar sem ela. Sem  ela. Como isso podia acontecer. Não compreendia. Ela sempre avisara que também iria. Junto. E ele não a convidara. E já estava tão perto do dia. Da mudança dele. Ela nada podia fazer.Para alterar a mudança. Quase ri. Porque ela quase riu. Mas repetiu. Como isso pode acontecer.

 

Levantou. Caminhou. Parecia desatenta ao ambiente. Mas esbarrou em nada. Pôs as duas mãos nos bolsos. Como uma cega já treinada.

 

Repeti a minha mais nova sabedoria. Mesmo sem entender. Ofereci mais água.

 

Mas uma vez o efeito se repetiu. Cheguei a pensar que poderia ser o copo. Parecia um copo tão simples. Olhei para ele até com mais respeito. Vai ver era ele. O operador dos milagres. Conclui. Da próxima vez vou trocar de copo. Ou trocar de atitude.   

 

Sentei. Olhei para o copo – vazio. Em cima da mesinha. Tentei coordenar. Atos e fatos. Gestos e palavras. Nada parecia combinar. Ou vai ver estava tudo bem combinado. Eu que não conseguia entender. Talvez fosse um daqueles episódios de numeração de chances. Aliás, desconheço conta mais complicada. Não tem Aritmética que responda. Ou corresponda. Às vezes, a primeira chance já é a última. Outras vezes tem a terceira chance para depois possibilitar a segunda. Outras vezes, ainda, é no esgotar que a contagem recomeça. Vai lá saber.

 

Chance é da ordem do possível.

 

Seqüenciar é que é da ordem do impossível.

 

De repente o telefone dela tocou. Era ele. Convidava para almoçar. Juntos. Os dois. Num lugar que ela gostava. Ela sorriu. Levantou. Se recompôs. Ajeitou os cabelos. Agradeceu. Quando o elevador chegou, olhou para trás e sorriu. Segurou a porta com uma das mãos. Como uma senhora sofisticada.

  

Resolvi telefonar para o meu amigo indiano. Como uma ocidental desorientada.  

  

 


Maio 03 2009

Entraram os quatro.

 

Pela forma que ele entrou, previ novidades. O riso estava solto. Porém sereno. Não era um riso de irreverência. Ao contrário. Era de muita reverência. Estava com um certo ar de nobreza. Desde o virar de cabeça até o caminhar. Ele que sempre é tão afoito. Agitado. Estava assim. Com um estilo parcimonioso e elegante.

 

De repente, entendi. Trouxera a mãe. Para me apresentar. Ele a abraçou e avisou quem eu era. Lembrou a origem. A função. Ele já havia lhe falado antes. Agora era para unir imagem com relato. Ela me dirigiu um olhar sério, mas cúmplice. Foi o que me pareceu.

 

Ela viera da parte de cima do mapa. De uma região onde só as atitudes podem salvar. Palavras não causam bons efeitos.Talvez más conseqüências. São fatos diferentes.

A viagem fora longa. Difícil. Cansativa. Mas comentou que tinha tranquilidade em relação ao tempo. Ao difícil. E ao cansaço. Tudo tem um prazo. Portanto acaba.

 

Aguardou sem queixas o prazo ser cumprido. Para ver o filho. A neta que não conhecia. A nora. Os outros filhos não foram. Não dera tempo. Falou com um certo ar de resignação.

 

Tinha um rosto sereno. Expressão tímida, porém decidida. As mãos ásperas - expressavam carinho. As pernas um pouco arqueadas - denunciavam firmeza. A pele seca - tinha um toque morno. Sentou-se com recato - mas expôs seu estilo. Quando falava olhava nos olhos. Quando calava olhava para o chão. Parecia que só se dava de acordo com a necessidade. Nada desperdiçava.

 

A vida não tinha sido das mais fáceis. Comentamos da cisterna. Do nascimento deste seu filho. Do grito. Da água umedecendo a terra. Do balde caído. Da seca. Recontou a história. Lembrava da própria dor e do choro dele. Riu quando contou das amigas correndo. Apavoradas. Como se fosse o primeiro nascimento no mundo. Elas gritavam e choravam mais que eles dois. Ela que pediu calma. E foi dizendo o que fazer. Quando ficou de pé já foi com o filho no colo. Saíra de dentro dela para os braços dela. Ele fez um gracejo. Sobre a terceirização. Ela não riu. Continuou contando. Não precisou que ninguém o segurasse para ela. Uma mãe sabe como segurar seu filho. Seja qual for a situação. Olhou para ele. Como se só naquele momento lhe notasse a altura. Vi que se orgulhava dele. E de si própria. E olhou com um sorriso grato para a nora.

 

Um dia o marido a ofendeu. Desacatou. Não entendeu bem o motivo. Na pequena casa. Diante dos filhos. Quis agredi-la, mas se conteve. Só avisou. Vou embora. Antes que ele se retirasse - o olhar dela já se retirara dele. Não o olhou mais. Até o momento que saiu. E nunca mais o viu. Nem procurou ver. Um homem que dá as costas para a família não merece ser chamado. Ou convocado. E nunca mais falou dele ou sobre ele. Cuidou dos filhos. Como pode.

 

Quando ele veio de lá para cá - ela não chorou. Sentiu uma enorme tristeza.

 

Mas não chorou. Aprendeu a não gastar as lágrimas com tristezas. A tristeza sobrava lá de onde viera. Resolveu, vai lá saber por que, ser econômica com o uso das lágrimas. Ou usá-las sob suas próprias justificativas. Só chorava quando, feliz, se emocionava. Como no momento que o viu ao descer do ônibus. E viu a neta. Aí sim. Procedia. Chorou com alegria. Esbanjou lágrimas.

 

Chorou na sala mais uma vez. Ao pegar a neta no colo. E ver-lhe o riso. Acariciou-lhe a pele macia. O cabelinho. Arrumou a saiazinha dela. Discreta, secou uma ou outra lágrima mais insistente.

 

Na despedida abriu uma sacolinha. De dentro tirou algo como uma barra. Retangular. Pesada. Cabia nas duas mãos. Enroladinha num papel azul. Era um doce típico da sua região. Me entregou. Com o olhar mais carinhoso e afetuoso que faz tempo não encontro. E agradeceu. Em nome do filho. Da nora. Da neta. E da terra seca de onde viera. Fiz minhas as palavras dela. E acrescentei o nome dela ao meu agradecimento.

 

Caiu outra lágrima. Sorri. Compreendi. Ela estava feliz.


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