Blog de Lêda Rezende

Maio 11 2009

Uma festa. Em casa deles. Eles que nunca fizeram uma confraternização. Mesmo com tantos anos de trabalho juntos. Sempre achei que não gostavam de misturar. Trabalho e social. Colegas e amigos. Amigos e família. Vai lá saber. Vai ver seguiam o estilo dos irmãos latinos-sofisticados.

 

Em lugar de trabalho não se faz amigos. Nem se tropeçar em algum. Até porque um bom trabalhador nem tropeça.

 

Mas enfim. Convidaram. Seria daquelas festas tamanho M. Nem muitos. Nem poucos. Sem sobras. Sem apertos. Eles sempre foram mesmo um casal ajustado.

 

Ela foi logo me avisando. Fora convidada. Estava feliz. Acho até que mais feliz que surpresa. Não sei bem. Tinha uma vida cheia de tarefas. Conciliar vida profissional e doméstica é como ser GG e ter que caber num P. Corre daqui. Acerta dali. Finge que não vê de cá. Controla de lá. Assim era a vida dela. E ainda tinha a vaidade. Muito vaidosa. Ai sim. Era GGG. Mas contida num PP. Disfarçava. Jurava que já acordava assim. Era divertido de ver.

 

No dia da festa resolveu ir ao tal salão. De beleza. Programou a agenda. Suspendeu os atendimentos com uma semana de antecedência. Foi tudo assim. Rigorosamente planejado. Se deu esse pequeno presente. Como se uma madame fosse. Aliás, madame, ela sempre foi. Sempre elegante. Gestual delicado. Delicadíssimo. Falava um Português corretíssimo.

 

Comentavam que até sabia Latim. Nunca a escutei pronunciar sequer uma gíria. Todas as frases com riqueza de vocabulário. Concordância verbal perfeita. Infinitivos adequados. Tinha uma postura de dar inveja.

 

Caminhava com tranqüilidade. Não importava se atrasada ou não. O caminhar era sempre compassado. Tinha um jeito de colocar os cabelos – sempre bem cuidados - para trás da orelha. Assim. Com os três últimos dedos. E fazia isso de uma forma tão lenta e suave que sugeria um ballet.

 

Leveza e definição. Difícil encontrar alguém mais refinada.

 

Mas nesse dia parecia que tudo estava errado. O dia da festa. Começou com a lista. Que recebeu na hora que ia sair de casa. Uma lista para compras em supermercado. Não tinha como ser evitada. A tarefa. Acatou. Quando foi entrar no carro notou algo como meio inclinado. Concluiu numa observação rápida. Pneu furado. Controlou-se. Avisou à Seguradora.

 

Demoraram mais que o previsto. Avisaram que foi por um erro no endereço. Ela absteve-se de qualquer resposta. Enfim trocaram o pneu. Já estava atrasada para o salão. E lá o horário era rigoroso. Se atrasasse colocavam outra pessoa no horário. E depois tinha que esperar uma vaga.

 

No supermercado as filas estavam enormes. E lentas. Cinco filas depois – estava enfim na fila da carne. Esta já a última da lista. E o tempo desatento a ela. Esperou. Colocou os cabelos para trás da orelha umas vinte vezes. Mas persistiu no estilo delicado – dos três últimos dedos. Chegou a vez - dela. Ia fazer o pedido quando uma senhora materializou-se em sua frente. E foi logo dizendo. Que estava ali. Só tinha saído rapidamente. Mas que o lugar era dela. Estava ali muito antes. Ela que não tinha prestado atenção. Falou assim. Você que não prestou atenção.

 

Houve um segundo de silêncio.

 

Ficou irreconhecível. Uma profusão de palavras nunca dantes pronunciadas.

 

Acredito que nem sequer pensadas. Não parecia Latim. Mas um novo manuseio de determinados verbetes. Nem filólogos, nem etimólogos dariam conta. Tamanha a rapidez com que ela as pronunciava. Em meio a este sincrônico ato verbal deu um tapa nos próprios cabelos. Com as costas da mão. Espalmada. Jogou para trás de qualquer jeito. Passou na frente da senhora recém-materializada. Que nada falou. Pareceu fazer até um gesto com os lábios. Acredito que até pensou em sugerir um novo armazenamento para a carne. Mas, prudente, calou-se. Ela pediu o que queria. Desafiou a senhora recém-materializada com o olhar. Pagou e saiu.

 

Na festa, à noite, já estava recuperada. Do gestual à fala. E estava bela. Sorridente. Eles felizes com seus convidados. E todos felizes pelo convite. Sentindo-se cada um – um privilegiado. Eles resolveram incorporar a família. Na festa. Colegas de trabalho e alguns familiares. Uma confraternização completa. Como uma exposição dos afetos.

 

Em determinado momento ele veio abraçado a uma senhora. Apresentou. Carinhoso. Orgulhoso.

 

Minha mãe.

 

Houve um segundo de silêncio.

 

A senhora olhou para ela. Ergueu a mão. Como um sinal de advertência. Apenas disse. Como se falasse soletrando. Sílaba por sílaba.

 

Já nos conhecemos.

 

Ela pediu aos céus. Uma rápida desmaterialização. Mas continuou ali. Em carne. E osso. Colocou, com os três últimos dedos, os cabelos para trás da orelha.

 

Respondeu. Acho que não.

 

Curvou, com elegância, a cabeça. Muda, saiu.

 

 


Abril 30 2009

Começou a contar de repente. Tão de repente quanto a lembrança veio. Pelo menos assim conclui. Como dizia a minha avó. Jamais perca a chance de escutar as lembranças, menina, jamais perca a chance.

 

Lembrança é coisa séria. E muito mais séria se da infância. Porque é uma lembrança constituída. Construída. Esclarecida. E, principalmente, não compromissada. Assim são as lembranças da infância. Não nos deixa dúvida. E nos deixa em dívida. Com a nossa memória. Com os nossos prazeres. Que depois até se multiplicam. Ou podem se multiplicar. Mas nunca igual como na infância. Com aquela sensação plena de prazer. Que toda a infância envolve. Seja de que forma for. Não tem preço. Nem taxa cambial. Muito menos selo de made in. Tem que ver com entrega. Com aceitação. Com riso. Estes sim. Os indicadores do afeto. Como um mercado de afeto sem nota fiscal. Mas com o aval do olhar.

 

E ele contou. Quando se sentiu familiado. Assim mesmo. Familiado. Que nada tem que ver com familiarizado. Estava certo. Familiado é integrado. Juntado. Compartilhado. Familiado diz muito mais. Mesmo que não se fale assim. Não importa. Sente-se assim. E explica-se bem melhor. Pela primeira vez estava entre tios e primos. Entendi.

 

Lembrava da voz dela. Melhor dizendo. Lembrava das palavras dela .Porque do rosto esquecera. Perfeito.

 

A voz dela orientava. A olharem para o céu. Lá veriam uma barba branca esvoaçada. Uma mão esticada segurando uma cordinha. Do trenó. E muita cor. No meio da noite. Que estava já chegando a hora. Lembrou de várias cabecinhas viradas para cima. Como devem ser os bons sonhos. Lembrou que olhou. Nem precisou se esforçar muito. Porque logo viu. E feliz riu. Era verdade. Exatamente como a voz descrevia. Viu tudo isso. Viu até barulho.

 

Viu o vento na barba. Viu que os presentes meio que se batiam uns nos outros. Muitas caixas. Mal cabiam naquele espaço. Mas cabiam. E nem caíam. Escutou os sinos. Escutou risos. E muitas cores. Muito brilho. Uma luz toda especial. Em cima dos presentes. Das fitas e da barba.

 

Alguém os mandou dormir. Para que pela manhã estivesse já tudo arrumado.  Obedeceram. Obedeceu. Foi dormir pensando no céu. No vento. Nas cores. Na barba. Dormiu em meio a esses quadros. A essas imagens. Mágicas.

 

Quando acordou pela manhã teve que segurar o rosto. Com as duas mãos.

 

Em volta da enorme árvore estava uma montanha maior ainda. De presentes. Muitas caixas coloridas. Sentiu-se de novo familiado.  Ele vira o percurso. Enxergara no céu. Sabia como tinham chegado ali. E como fora difícil com o vento que fazia.

 

E eles ali. Descabeladinhos. Descalços. Com uma pressa que jamais sentira de novo pela vida a fora. Com tamanha urgência e ansiedade. Era preciso abrir logo. E cada um tinha um nome. Era preciso ver seu nome. Alguém tinha que ler seu nome no pacotinho. Para tomar posse como destinatário.

 

Engraçado como isso depois se torna comum. E sem brilho. Ou sem aquele brilho.

 

Não lembrava a comida. Não lembrava o depois. Lembrava do seu presentinho. Uma imensa carruagem. Com lona. Com cavalinhos. Com rodinhas que giravam. Olhou encantado. E cada um deles abriu o que era seu. Em nome e - por conseqüência - em direito. Passaram o dia brincando. De vez em quando ele olhava para o céu. Queria poder agradecer. Mas não via o dono da barba.

Achou que nunca mais o veria. Depois daquela noite.

 

Em meio ao relato da lembrança riu. Riu mesmo. Não devia ser uma montanha. De presentes. Não devia ser enorme. A árvore. Nem devia ser tão grande. A carruagem.

 

E fez um gestual imaginário. Um muito obrigado. A quem não teve a idéia - de fotografar.

 

A criatividade na descrição de uma lembrança dá muito mais realidade do que uma foto. Uma foto apenas expõe uma cena. Congelada. Nada mais que isso. Não revela a dimensão. Do que se vive na hora. Da foto.

 

E ele, que vivia em volta de papéis, pela primeira vez ficou feliz com a falta de documentação histórica.

 

Riu. Deu um salto da poltrona. Assim. Sem mais nem por que. Olhou atentamente para o céu. Teve uma súbita impressão. De ver um sorriso cúmplice. Dirigindo-se a ele. E meio encoberto. Por uma barba branca.

 

Tranquilo, sentou de volta na poltrona. E com uma suave sensação - de agradecimento cumprido.

 

 


Abril 27 2009

Estava trabalhando. Agenda cheia. Em meio a todo o tumulto dos atendimentos recebeu um telefonema de casa. A dedicada auxiliar avisava que tinha um homem nada delicado dentro da casa. E que estava lá com uma finalidade inadiável. Ia cortar a luz. Isso. Cortar a luz.

 

Ela pediu três vezes que repetisse a frase. A história. A fala do homem. Então estava escutando bem. Mas por que. Por que não tinha sido paga há dois meses. Assim. Motivo simples. Ela quase pulou da cadeira. Não entendeu. Não podia ser. Devia ser algum equívoco. Usava a modernidade Bancária para isso. Há anos.

 

A dedicada e sempre prestativa auxiliar explicou. Vai ver que foi porque solicitei para ser mudado o nome do titular. Na conta de luz. Afinal já está divorciada há oito anos. Já está mais que na hora de aceitar o nome de divorciada. E ajudei nisso. Pedi para mudar para o seu nome de divorciada. Fiz isso com a melhor das intenções. Até comentei com a senhora. Deve ter esquecido.

 

Sim. Não lembrava. Concluiu. Com isso foi tirado da modernidade do Banco. Explicado. Agora só precisava ser resolvido. Banco não se interessa por questões de ordem emocional. Ou por decisões adequadas feitas de forma inadequada. Quanto mais por falhas de escuta ou de memória. É tudo feito com muita clareza. Quase riu. Justo agora estava na iminência do escuro.

 

Iria ao Banco rapidamente pagar. Pediu para falar isso para o homem. Um homem implacável. Não aceitou aquele célebre hoje não. Por favor. E na sexta feira. Às três da tarde. Pode ficar tranqüilo. Será resolvido logo. O senhor não pode fazer isso. Devo. Respondeu assim. E ainda falou isso rindo.

 

Depois da atitude dela, ele tomaria a dele. Deu um até breve. Deixou um número para contato quando estivesse com o débito em dia. Assim poderia pedir a re-ligação. Virou-se. Saiu.

 

Foi uma correria. Do local de trabalho e pelo telefone pediu o código de barra. Nervosa só anotava errado. Desistiu. Pediu que enviasse pelo computador. Com a pressa em resolver tropeçou.  Arrancou o fio da tomada do computador de vez da parede. Não conseguiu mais fazer funcionar a rede. Desistiu. Pediu para enviar a conta pelo fax do vizinho. Que se dispôs de imediato a ajudar. Mas lamentou em seguida. Estava sem papel de fax.

 

Tinha esquecido de comprar.

 

Nesse intervalo os filhos ligaram. Estavam apavorados. O que fariam sem luz. Um queria jogar. O outro tinha um trabalho da escola. Queriam aquecer a comida. Queriam água gelada. Queriam banho quente. Tudo a depender a luz.  E ela no trabalho.

 

Cancelou a agenda e foi resolver à moda antiga. Com a conta em mãos e na frente do caixa.

 

Pagou. Tentou relatar o acontecido. Mas a mocinha do caixa em nada se interessou. Fez ar de burocrata entediada. Confirmou o pagamento e dirigiu o olhar já ao próximo. Que estava atrás dela. Neste momento ela compreendeu. Algo que nunca se dera conta. Até riu do pensamento. Conta fora a palavra mais citada em questão de minutos. Mas sim. Se dera conta. Burocracia, Conta e Banco não têm questões. Só motivos. Até se acalmou. Com a nova filosofia recém criada. Mesmo no escuro.

 

Voltou para casa. Telefonou para o número deixado pelo homem que fez o corte. Informaram que seria solucionado de imediato. A esta altura a casa era uma verdadeira capela. Vela para todo lado. E avisos de cuidado com a vela a se repetir.  E todos a pedirem banho quente e água gelada.

 

Insistiu na ligação telefônica. Desta vez teve mais uma surpresa. Ninguém sabia da primeira ligação. Esbravejou. Gritou. Perdeu a calma. A classe. A compostura. Descobriu que perder a timidez no escuro é muito mais fácil. E aproveitou então da situação. Foi tanto que falou que do outro lado pediram calma. Respondeu com palavras nada publicáveis. Avisaram que toda ligação telefônica era gravada. Respondeu em alto e bom som. Ainda bem.

 

Eles desistiram da tal água gelada. Do banho quente. Sábios. E bons ouvintes. Ou prudentes. Ainda tinham um bom apego à vida. Escutaram o que ela falara com quem atendeu na Companhia de Energia Elétrica. A forma que ela falara. Optaram por ficar em silêncio. Sob a luz de velas. Bem caladinhos e sentadinhos no sofá. Aguardando apenas.

 

Resolveu. Iriam todos a um restaurante. Jantariam por lá e na volta já estariam de luz acesa.

 

Era noite de temporal. Muita chuva. Trovoadas e relâmpagos. Faltou luz no restaurante. Em meio à escolha do jantar. E antes de pedirem a água gelada.

 

No escuro todos só escutavam as risadas. Deles.

 

 


Março 28 2009

Ela estava curiosa. Queria saber da festa. Do casamento na roça. Dos novos amigos conquistados. Dos velhos amigos referendados. Ela era a própria interrogação. Até brinquei. Que torcia para só deixar exclamações. No lugar das interrogações. Nas respostas. E nenhuma reticência. Para que ela se satisfizesse. Mesmo estando tão longe.

 

Esta coisa de além-mar sempre é problemático.  Isso aprendi faz tempo.

 

O que impede a rotina é distante. O que impede o impulso é distante.  O que tem que ser planejado demonstra a distância.

 

E assim ela está. Distante. Não sei se já sentiu isso. Se já aceitou. O planejamento. Ela é sempre muito reservada. Em seus temores. E até em suas ansiedades. Aguarda os acontecimentos. Aliás, assim a definiria. O estilo aparente dela. Só o aparente. O de dentro ninguém sabe. Muitas vezes nem o próprio dono. Pode-se ser senhor de si. Mas é muito mais complicado ser dono de si. Minha avó sempre me disse. Aparência é igual a dúvida, menina, igual a dúvida.

 

 Muitas vezes penso que só eu sou ansiosa. No mundo. Porque todos sempre me parecem tão resignados. Diria até amadurecidos. Só eu sofro de mania de surpresa. Mas lembrei – agora - do poeta português. Falou que só ele apanhou na vida. Os amigos todos só se deram bem. Pode ser engraçado. E por isso mesmo verdadeiro. Assim são as aparências. E muitos dos auto-relatos. Vai ver por isso não há julgamento definitivo. Dever ser isso que significa a palavra instância.

 

Mas hoje falamos. Usamos das modernidades. Para isso estamos neste século. Para usufruir o que ele apresenta de melhor. As modernidades nas comunicações. E celebramos a evolução. Cedo para uma. Já tarde para outra. O relógio não obedece a novidades. Mantém seus fusos intactos.

 

Podem inventar o que quiserem. O tempo real é domínio do relógio.

 

Estava tão séria. Senti pela impressão digital. Também tenho meus critérios evolutivos. Não são só corporativistas que o detêm. Perguntei. Pela seriedade. Contou. Com direito a dois pontos e hífen.

 

Saíra ontem. Para um jantar. Arrumara-se. Escolhera com detalhes. Tudo que iria acrescentar. À sua imagem. Tudo em estilo outonal. Olhou-se no espelho. Gostou do que viu. Segurou a própria bolsa. E desceu as escadas.

 

Sempre faz isso. Despreza o elevador. Acha que ele só serve para elevar flacidez. Dos músculos. E recusa-se a compactuar com ele. O elevador. E lá se foi. Tudo ia muito bem. Até que chegou na escada que dá acesso a uma calçada. Como de hábito também desprezou o corrimão. Artefatos desnecessários. Seguia este conselho de uma parente sofisticada. Uma mulher desce as escadas sem olhar os degraus. Como aquela atriz magrinha dos filmes antigos. Observe se algum dia ela desceu uma escadaria olhando para os pés. Nunca. Só olhando em frente. Vai lá saber os truques negativos da memória. Foi relembrar disso justo naquele momento. Obedeceu.

 

Repetiu. Desceu olhando em frente. Segura apenas em sua bolsa.

 

Outono. As árvores se desfolhando. O céu cinza escurecendo para a noite. Muitas folhas pelo chão. Pelos degraus. Linda cena. Como uma tela de francês impressionista. Se não fosse - de novo - a intervenção da realidade.

 

Cruel realidade sazonal. Olhando para as árvores. Pisou nas folhas. Escorregou. Nas folhas. Que aceleraram a descida. Desceu os degraus numa posição nada convencional. Nada em combinação com a proposta. E se viu na calçada. Rasgara a saia. Machucara o braço de leve. A musculatura reforçada pelo não uso do elevador sofrera menos com o impacto. É certo que caiu. Mas me acrescentou. Lentamente. Muito lentamente. Nada de alvoroço em quedas. Isso nunca.

 

E fiquei pasma com a continuação do relato. As meias. As meias não rasgaram. Nada daquele comentário desolado de fio puxado. Em meio a tudo isso. Diante do outono. Diante dos galhos desfolhados. Poupara a meia fina de seda.  

 

Lembrou da parente sofisticada. Também pela impressão digital pude sentir. O olhar fino e irado pelo pensamento. Da orientação da parente. Mas se recuperou. Levantou-se também lentamente. Não por imposição de elegância. Desta vez a dor fez esta aparência prevalecer. Não gemeu. Não chorou. Conferiu as meias. Continuava segura na bolsa. Ajeitou os cabelos e continuou.

 

Foi ao jantar assim mesmo. Com o pequeno rasgo na saia. Mas com as meias perfeitas. Alguns apontaram. E perguntaram.  Outros nem notaram. E se anteciparam.  Só ela ria. Com um certo disfarce. E muito esforço. Para destravar o olhar fininho da lembrança da parente sofisticada.

 

Na manhã do dia seguinte a musculatura dolorida a despertou para o dia. E para as interrogações. Olhou a saia no cabide. Com seu pedacinho também sofrido. Olhou para as meias. Sorriu. Conferiu os dedinhos das mãos. Intactos. A conversa poderia se estabelecer. Com fuso ou sem fuso. Com rasgo ou sem rasgo. De folhas a flores. De outono a primavera.  

 

Uma lady!

 

 


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