Blog de Lêda Rezende

Abril 06 2009

Ela decidira fazer uma dieta. Estava gorda. Queria retomar o corpo. O rosto. No lugar onde deixara. Há anos. O corpo. E as curvas. Riu da pobreza da piadinha. Estava tão decidida que já estava sentindo a roupa folgada. E só tivera a idéia. Isso é que é fé. Em milagres.

 

Eram tantas as dietas com nome. Tinha de nome de universidade famosa. De outras menos famosas. De astros do céu. De frutas. De zodíaco. Tinha até de aromas. O que não faltava era título de dieta. Era só escolher um título. E acreditar.

 

Indicaram um professor chinês. Era um Especialista em dieta leve. Para corpos pesados. Assim falavam dele. Não soube se também o contrário. Sobre isso não informaram.

 

Achou maravilhoso - uma metodologia oriental. Bem mais sofisticada. Já estava cansada. De ficar liquidificando couve. Até suas unhas já estavam ficando verdes. De tanta couve no desjejum. E o excesso de peso nada de amadurecer e cair. Ou de tomar suco de abacaxi com gengibre. Ou de seguir uma receita aromatizante. Diziam que aromatizar também ajuda a queimar calorias. Perfumou por muito tempo com essência de canela o ambiente da casa e do trabalho. Quase foi demitida. Ninguém mais agüentava se sentir trabalhando dentro de um capuccino.

 

Concluiu.  Já tinha feito tudo de ocidental. Agora era a vez do oriental.

 

Marcou a consulta. Chegou até mais cedo para garantir o atendimento.

Mostrar interesse. Vai que perde a hora. Chinês entende de relógio. Mas daqueles alternativos. Que nem sempre funcionam como o prometido no original. Preferiu não arriscar.

 

Sentou-se numa poltroninha vermelha.  A salinha era toda decorada com tons vermelhos e dourados. Pensou de imediato num dragão. Temeu rir. Por trás do cérebro uma voz fazia chistes. Assim que ele emagrecia. Os corpos pesados. Com fogo de dragão. Ajeitou-se na cadeira. Como numa espécie de ordem. Para que parasse de rir. Do tal dragão imaginário. Não queria aborrecer o chinês. Vai lá ele vira um ninja. Não sabia mais se ninja era chinês ou japonês. Bom, mas não estava ali para isso. Só queria perder peso. Não ganhar  - cultura.

 

Ele foi logo fazendo um sinal para que ela entrasse. Na salinha de atendimento. Ele entrou atrás dela. Com ar de mestre milenar. Fez uma volta qual um dançarino. Era bem magrinho. Pisava leve. Sentou diante dela. Sério. Muito sério. Ela foi logo também se sentando.

 

Idéia errada. Ele fez um sinal negativo com a cabeça. E apontou com o dedo. Assim mandou que ficasse de pé. Ficou. Ele olhou. Olhou de novo. Ela já se sentiu desconfortável. Ele demorava  muito olhando. Ficou assustada. Será que tinha tanta área corpórea assim. Devia estar pior que imaginava.

 

Cada parte do corpo que ele olhava ela cobria. Com as mãos. Estava parecendo já um teatro de mímica. Ou conversa de surdo-mudo. Desta vez quase riu. Com muito esforço se conteve. Depois ele repetiu o sinal com o dedo. Apontou a cadeira. Assim mandou que se sentasse. Sentou. Nunca estivera numa consulta tão silenciosa. Mas entendeu como um estilo oriental. Refinado.

 

De repente ele falou. Ao menos assim ela supôs. Que ele estava falando. E com ela. Exatamente o que não entendia. Ele falava rápido e com lábios meio fechados.

 

Ele falou. Apontou. Para ela. Para o que ela supôs serem os pontos de acúmulo de gordura. Ficou feliz por ter ido lá. Viu seriedade. Foi o que pensou na hora. E rapidamente concluiu. Pensou errado.

 

Ele rabiscou um papel. Pareceu que assinara o nome. Entregou a ela. Era um papel delicado. Tinha um símbolo vermelho e dourado no cabeçalho. Leu. Era uma orientação impressa. Constava uma prescrição. Chá de folha de couve com gengibre pela manhã.  No almoço acrescentava um copo de suco de abacaxi a um cozido com couve.  À noite uma sopa quente de couve com as folhas cortadas ao comprido. Tinha isso. Ao comprido.  Podia comer alguns legumes. Uma fruta ou outra. Acrescentou falando uma importante recomendação. Para ela. Olhando sério para ela. Com o tal dedo apontando para o rosto. Dela. Só fechar boquinha.

 

Ficou mais amarela que ele.

 

Esqueceu que a China é milenar. Esqueceu da paz. Ensinou a ele quem é que manda. Nada de fechar boquinha. Ficou desbocada em segundos. Foi uma ordem e um contra ato. Algo por aí.  Uma situação constrangedora. Por sorte o chinês não se interessou. Pelas sugestões dela.  

 

Tivesse ele acrescentado o que ela falou como sugestão para emagrecer - e toda uma cultura milenar e um povo estariam, anatomicamente, desfigurados.

 

 

 


Abril 02 2009

Já foi logo falando. Contando todas as mudanças que estavam por vir. Avisava da coragem. Da certeza. Mas também da dúvida. Do impulso. Não sabia agir de outra forma. Estava tão longe. Mas queria que soubesse. Das continuidades. Do que a vida quase interrompera. Iam retomar. De onde pararam. E por mais de uma vez. Desta vez parece que ia. Ia ter a tal continuidade. Planos de verão. Veremos. Foi o que disse. Numa tentativa chistosa de se acalmar. Foi o que me pareceu na hora.

 

Lembrou do macarrão. Do macarrão do desjejum. Depois de uma noite na cozinha reativando fantasmas. In vino veritas. Rimos muito. Muito mesmo. Até a ligação caiu. Culpou as telecomunicações. Não gostavam de riso. Só de choro. Nunca caiu uma ligação quando ligava chorando. Só agora que estava rindo. A tecnologia também tem lá as suas crueldades.

 

Conhecera a cidade quando tinha nove anos. Viera com o pai. Para esta cidade grande. Enorme, aos seus olhos.

 

Pela primeira vez viu uma escada rolante. Ficou maravilhada. Tentou entender o mecanismo. Na sua ingênua criatividade de criança surgiram mil explicações. Tivesse um engenheiro tido a oportunidade de escutar alguma delas e as escadas seriam diferentes. Com um equipamento muito mais sofisticado. Que o desenhado numa prancheta de adulto. Como tudo na vida. Pranchetas de adultos não têm magia. Só matérias. Subiu. Desceu. Entendeu. A seu modo. Não repetiu. Mas sentiu medo. Pensou se acontecesse isso lá. E as ruas também rolassem. Onde iria parar. Segurou a mão do pai. Com muita força. Tanta força. Ele até perguntara o que houve.

 

Mas sempre foi cuidadosa. Não quis assustar o pai. E não contou dos riscos das ruas rolantes. Uma vendedora fez-lhe uma pergunta. Sobre onde morava. Se tinham onças. Cobras. Se ela tomava banho só nos rios. Ela pensou. Com um olhar fininho. Sempre tinha um olhar fininho diante de uma possível birra. Ou raiva. Não seria tão mal se as ruas ficassem rolantes. A vendedora saberia. E riu. Para o pensamento malcriado. Não para a vendedora. Esta já prestes a ser engolida por onças. Que subiriam também pelas escadas rolantes.

 

Fizera as compras com o pai. Sapatos. De saltos finos. Bicos finos. Inacreditável. Para serem vendidos lá. Em meio ao pantanal. Nas vilas e aldeias. Uma coisa descobriu cedo. Sexo tem nada a ver com etnia. Ou com endereço residencial. As índias compraram. Felizes. Os sapatos de saltos finos. De bico fino. Coloridos. Pretos. Brancos. O pai não tivera prejuízo. Só os sapatos masculinos não foram bem aceitos. Digamos assim.

 

Não entenderam a lógica. Da necessidade. A lógica masculina é sempre imediatista. A feminina é futurista. Por isso o sucesso das vendas. Teve até encomenda. Para mais futuro. Nunca soube se algum dia a expectativa delas aconteceu. Mas não importa. Expectativa não é objetivo.  É sensação. Por isso sempre tem uma saída favorável.

 

Cresceu e se certificou. Do pensamento da infância. Procedia. As ruas são rolantes mesmo. Só não vê quem não acredita. Ou teme. Saiu de lá ainda adolescente. Deixou o pantanal. Pegou uma rua rolante que passava por ela. Num daqueles dias de decisões. Foi parar numa capital do sul. Estudando a alma humana. Descobriu que nem tão humana assim é. A alma dos humanos. Algo por aí. Depois uma outra rua. Desta vez com endereço mais certo. Parou no nordeste. Numa cidade com mar em volta. E lá dobrou uma esquina. Saiu do caminho das ruas rolantes. Por enquanto.

 

Agora estava na expectativa. Da continuidade interrompida. Vai ver por isso ressuscitou os sapatos. Dos bicos finos. Do tempo das onças. Do eterno inadequado. Aos olhos de qualquer um. Mas nunca aos olhos de cada um. De quem entende. Porque sente.

 

Num dia de solidão lembrou as suas idas. Sempre sem vindas. Riu. Com o olhar fininho. Disso não se livrara. Não esquecera em nenhum banco das ruas rolantes. Assim riu ao lembrar a vendedora. A da loja dos sapatos. Da cidade enorme. Será que as ruas rolaram para ela também. Será que lá ficou na mesma função. Apenas ferina. E pensando num mundo com onças.

 

Rindo desatenta dos ímpetos de crianças. Ou dos seus olhinhos avaros pelo novo. Nunca soube. Quando as ruas e escadas rolam o que fica para trás não se sabe. Não existe um para trás nesta engrenagem. Não existe ré. É só subida ou descida. Pode-se até voltar. Mas já será um outro espaço. Ou um outro caminho. Com outras pessoas compartilhando. Ou até com as mesmas. Mas já não as anteriores.

 

O resto da engrenagem vira memória. Nas pranchetas. Dos adultos.

 

 


Abril 01 2009

Acordara muito cedo. Tinha mil afazeres antes de sair para a rotina profissional.

 

Com filhos pequenos muito cedo sempre já é atrasado.

 

Por mais que fosse organizada. Tinha um hábito. Planejava a vida de véspera. Escolhia a roupa. Organizava papéis. Separava documentos. Deixava a agenda já na página certa. Para o dia seguinte. Achava prático.

 

Neste dia não foi diferente. Acordou cedo. Mas algo saíra de fora da ordem.

 

Esquecera a janela aberta e a chuva molhara toda a salinha. Olhou resignada. Para o relógio primeiro. Para o chão depois. Fez um cálculo. Daria tempo. Com um pano e acessórios secou o chão. Sentiu que tomara a decisão certa e no tempo adequado. As crianças não escorregariam e na volta à noite tudo estaria em ordem. Se auto vangloriou. Sempre tomava decisões corretas. Riu. Guardou o paninho. Foi acordar as crianças.

 

A esta altura já mais apressada. O tempo não sorri para as boas ou más decisões. Fica lá. Só cuidando da função dele. As decisões correm por conta do autor. Exclusivamente.

As crianças levantaram. Duas. Duas crianças. Começaram a se arrumar. Não agiam iguais a ela. As crianças vivem o dia. Não se atentam a viver de véspera. Não antecipam o dia seguinte. Procede. E lá ficaram. Procura uma coisa dali. Outra daqui. Esquecem os dentes. Voltam. Escovam os dentes. Esquecem a torneira aberta. Voltam. Fecham a torneira. Não acham o material do dia. Procuram. Não encontram definitivamente. Solicitam ajuda. E por aí vai. E ela já olhando o relógio. Tinha uma reunião. Nem pensar em se atrasar. Imagina. Era A Pontualidade. Se alguém procurasse o significado desta palavra no dicionário -  encontraria a foto dela.

 

Tomou mais uma decisão. Já arrumada. Pensou. Imagina só. Para que tirar o liquidificador de cima do móvel. Para fazer o leite dos filhos. Que idéia. E passara anos fazendo a mesma atitude. Nada prática. Colocou o leite. O chocolate. Até bananas dentro. Exibida com sua nova idéia. E a idéia lhe fazia ganhar tempo. Tirar tudo do lugar. Bater. Recolocar. Isso já a faria perder preciosos minutos. Decidiu que acordara carregada de novas e boas decisões. Orgulhou-se de si própria.

 

Chamou as crianças. Já arrumadinhas. E ligou o liquidificador.

 

Voltou a si um tempo depois. Ficara ali. Catatônica. Olhos esbugalhados. Obviamente depois de limpá-los. Os olhos. As crianças a chamavam de volta a si. Assustados. Quase chorando.

 

Ligara o liquidificador. Sem querer, vai lá saber por que - ou o que – algo enroscara no fio. Que esticou o liquidificador ligado. Que desceu do alto do móvel. Cumprindo sua qualificação. Liquidificando. Sem a tampa e caindo. Caindo. De alto a baixo. E achocolatando tudo. E a todos. Com bananas enfeitando cabelos, roupas. Como pedacinhos decorativos. Do que não pôde ser totalmente liquidificado. Nada sobrara.Ou faltara. Nem a roupa dela. Nem o uniforme das crianças. Nem o cabelo. Os cabelos. Chão e paredes.

 

Nem todo decorador e sua sabedoria teriam conseguido aquele efeito.

 

Quando finalmente voltou a si, se é que o estado seguinte assim pode ser denominado, notou que perdera a visão de um olho. Por ele nada enxergava. Imaginou que a tampa devia ter batido em seu rosto. E com o trauma perdera a visão. Tinha lido há pouco um relato parecido. Estava tudo escuro. E frio. Com desespero informou que estava cega de um olho. Diante dos gritos das crianças. Passou a mão no rosto. Que tragédia. Justo ela. Que vivia de véspera. Que injustiça. E na passada de mão tirou dos olhos o leite com o chocolate e a banana grudada. Enxergou de volta. Estava curada. As crianças ainda choravam. Ela desatou a rir. E as crianças choraram mais alto ainda.    

 

Telefonou para o escritório. Nunca havia feito isso antes. Avisou que tivera um problema. De véspera. Que iria chegar muito atrasada. Pensaram que ela tinha sido seqüestrada. Que era um código. Um apelo. Qualquer coisa. Menos que ela se atrasasse. Isso nunca. Ela bateria até no sequestrador. Temeram. Pelo seqüestrador. Foi difícil convencê-los do fato. Mas conseguiu.

 

Quando a véspera se restabeleceu, saiu. Com as crianças.

 

Encontrou a vizinha no elevador. Que comentou. Está atrasada hoje.

 

Pensou em tudo. Cadeira elétrica. Enforcamento. Cabelos arrancados. Rosto riscado por unhas. Respondeu por entre os dentes. Coisas do liquidificador. Virou-se e saiu.

 

O salto do sapato exibia um pedacinho de banana.

 

A vizinha – se percebeu - não avisou.

 

 


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