Blog de Lêda Rezende

Dezembro 10 2009

 

Começou a contar de repente. Tão de repente quanto a lembrança veio.


Pelo menos assim conclui. Como dizia a minha avó. Jamais perca a chance de escutar as lembranças, menina, jamais perca a chance de escutar as lembranças.


Lembrança é coisa séria. E muito mais séria se da infância. Porque é uma lembrança constituída. Construída. Esclarecida. E, principalmente, não compromissada.


Assim são as lembranças da infância. Não nos deixa dúvida. E nos deixa em dívida. Com a nossa memória. Com os nossos prazeres. Que depois até se multiplicam. Ou podem se multiplicar. Mas nunca igual como na infância. Com aquela sensação plena de prazer. Que toda a infância envolve. Seja de que forma for. Não tem preço. Nem taxa cambial. Muito menos selo de made in. Tem que ver com entrega. Com aceitação. Com riso. Estes sim. Os indicadores do afeto. Como um mercado de afeto sem nota fiscal. Mas com o aval do olhar.


E ele contou.


Quando se sentiu familiado. Assim mesmo. Familiado. Que nada tem que ver com familiarizado. Estava certo. Familiado é integrado. Juntado. Compartilhado. Familiado diz muito mais. Mesmo que não se fale assim. Não importa. Sente-se assim. E explica-se bem melhor. Pela primeira vez estava entre tios e primos. Lembrava da voz dela. Melhor dizendo. Lembrava das palavras dela .Porque do rosto esquecera. Perfeito.


A voz dela orientava a olharem para o céu. Lá veriam uma barba branca esvoaçada. Uma mão esticada segurando uma cordinha. Do trenó. E muita cor. No meio da noite. Que estava já chegando a hora.


Lembrou de várias cabecinhas viradas para cima. Como devem ser os bons sonhos.


Lembrou que olhou. Nem precisou se esforçar muito. Porque logo viu. E feliz riu. Era verdade. Exatamente como a voz descrevia. Viu tudo isso. Viu até barulho. Viu o vento na barba. Viu que os presentes meio que se batiam uns nos outros. Muitas caixas. Mal cabiam naquele espaço. Mas cabiam. E nem caíam. Escutou os sinos. Escutou risos. E muitas cores. Muito brilho. Uma luz toda especial. Em cima dos presentes. Das fitas e da barba.


Alguém os mandou dormir. Para que pela manhã estivesse já tudo arrumado.


Obedeceram. Obedeceu. Foi dormir pensando no céu. No vento. Nas cores. Na barba. Dormiu em meio a esses quadros. A essas imagens. Mágicas.


Quando acordou pela manhã teve que segurar o rosto. Com as duas mãozinhas.


Em volta da enorme árvore estava uma montanha maior ainda. De presentes. Muitas caixas coloridas. Sentiu-se de novo familiado.  Ele vira o percurso. Enxergara no céu. Sabia como tinham chegado ali. E como fora difícil com o vento que fazia.


E eles ali. Descabeladinhos. Descalços. Com uma pressa que jamais sentira de novo pela vida a fora. Com tamanha urgência e ansiedade. Era preciso abrir logo. E cada um tinha um nome. Era preciso ver seu nome. Alguém tinha que ler seu nome no pacotinho. Para tomar posse como destinatário. Engraçado como isso depois se torna comum. E sem brilho. Ou sem aquele brilho.


Não lembrava a comida. Não lembrava o depois. Lembrava do seu presentinho. Uma imensa carruagem. Com lona. Com cavalinhos. Com rodinhas que giravam. Olhou encantado. E cada um deles abriu o que era seu. Em nome e - por conseqüência - em direito.


Passaram o dia brincando. De vez em quando ele olhava para o céu. Queria poder agradecer. Mas não via o dono da barba.


Achou que nunca mais o veria. Depois daquela noite.


Em meio ao relato da lembrança riu. Riu mesmo. Não devia ser uma montanha de presentes. Não devia ser enorme a árvore. Nem devia ser tão grande a carruagem.


E fez um gestual imaginário. Um muito obrigado. A quem não teve a idéia - de fotografar.


A criatividade na descrição de uma lembrança dá muito mais realidade do que uma foto. Uma foto apenas expõe uma cena. Congelada. Nada mais que isso. Não revela a dimensão do que se vive - no instante da foto.


E ele, que vivia em volta de papéis, pela primeira vez ficou feliz com a falta de documentação histórica.


Riu. 


Deu um salto da poltrona. Assim. Sem mais nem por que. Olhou atentamente para o céu. Teve uma súbita impressão. De ver um sorriso cúmplice. Dirigindo-se a ele. E meio encoberto. Por uma barba branca.


Tranquilo, sentou de volta na poltrona. E com uma suave sensação - de agradecimento cumprido.

 

 


Novembro 08 2009


Eis o estilo dela. Pontualidade.

 

Talvez mais que um estilo – uma necessidade.  Para o tipo de atividade profissional. Complicada. Dificultada -  por ser mulher. Não importam as feministas. As machistas. Ou contestadores de conceitos. Ou de preconceitos.

 

Há limites que permanecem até se apagados. Isso pode não ser provado. Mas por certo é comprovado.

 

Mas enfim. Sabia disso. Por isso era exigente. Mas consigo mesma. As barreiras eram muitas. As críticas estabelecidas. Chistes e slogans circulando. Quase ameaçadores em volta dos atos e decisões. Mas não introjetava tais textos. Lia e dispensava. Digamos assim.

 

Os colegas - todos do sexo masculino. Só ela ali. Sentadinha. Aguardando os chamados. Fingindo agrupamento. Mas se sabendo solitária.

 

Avisara pelo telefone. Ainda estou presa no trânsito. Chegarei dez minutos atrasada. Concordei. Sem problema. Ainda estamos dentro do horário.

 

Ela chegou. Sorrindo. Como sempre se apresentava. Feliz. Como sempre aparentava.

 

Viera de outro Estado. Do sul. Nem se lembrava do período de vida que não trabalhara.

 

O pai tinha uma pequena fazenda. Um roçado como se dizia de onde vinha. Enorme – sob os olhos infinitos das crianças. Talvez sem exagero – sob os olhos limitados dos adultos.

 

Viviam do plantado e criado. E por vezes do vendido. Assim passara toda a infância – sem consumismo. A adolescência - sem rebeldia. A juventude – esta já com muita fantasia.  Seis crianças. O pai e a mãe. Esse o seu universo por muitos anos. E a terra.

 

Ainda escuro o pai os acordava. A mãe os aconchegava. Não com beijos. Muito menos com afagos. Mas com o acolhimento – metaforizado - do calor.

 

O calor que já vinha da cozinha. Antes mesmo de saírem das caminhas - a casa já estava aquecida com o fogo aceso. O barulho das panelas de alças de ferro fazia coro aos galos e aves madrugadoras.  E estes aos pequenos bocejos das carinhas sonolentas.

 

A mãe fazia o pão. O pai fazia as linguiças. O irmão mais velho trazia o leite - ainda quente da recente ordenhada. Quando o dia trazia a claridade do sol – já estavam alimentados e a caminho da suas tarefas com a terra.

 

Faz uma expressão quase visionária. A terra a encantava.

 

A parte dela era cuidar das sementes. Jogava com sua mãozinha as bolinhas. E algum dos irmãos jogava a terra por cima. Riu. Sempre empurrava um pouquinho mais com o pé. Como se para ter a certeza de que não fugiriam.

 

Vai lá saber. O que pensa uma criança diante da terra e suas sementes. Mas assim fazia. O irmão já habituado - esperava. E só depois que ela repetisse o gesto - seguiam para o próximo cavadinho.

 

Adorava ver as sementes. E aguardar as plantas se erguerem do chão. Ficava fascinada. Por um tempo acreditou numa magia. Uma criação própria.

 

Tinha um duende lá debaixo. Que recebia os grãozinhos. E devolvia as plantinhas. Por isso tinha que agradá-lo com as sementes. Era o almoço do duende.

 

Nunca soube de onde tirara esta idéia. Mas também nunca comentou com a família. Esta sua idéia de Agricultura. Riu.

 

A vida se fazia em torno das estações do ano. Dos nascimentos. Lembra de temores. Se choveria muito. Se demoraria de chover. Se a geada impediria uma boa colheita.

 

Isso sim. Faz parte até hoje de alguns sonhos noturnos.

Mesmo já tão distante. No tempo e no espaço.

 

Agora estava aqui. Cercada de asfalto. De concretos. A vida mudara. Não tinha mais os pais. Os irmãos casaram. Novos núcleos se estabeleceram.

 

Somente ela viera para cá. Por motivos de casamento. Agora já desfeito. Preferia não falar sobre o ocorrido. Cuida de uma filha e dois netos.

 

O desjejum até hoje é um momento especial para ela. A única refeição do dia que sente enorme prazer. Ainda acorda cedo. Antes do sol nascer já está a caminho do ponto. Em seu carro. Ao serviço dos seus inúmeros passageiros.

 

Chegamos ao local combinado. Ela ressaltou. E no horário exato.

 

Ainda senti o cheiro do pão.

 

O orquestrado barulho das panelas substituiu buzinas e freadas. Vi o duendezinho recebendo as sementes pela terra úmida. Me surpreendi com o verde da planta nascendo.

 

Lamentei. O percurso fora curto para tão bela história.

 

Olhei para ela. Uma mulher jovem. No corpo. Na expressão. Mas principalmente - na emoção. Ainda estava com o sorriso que o relato associara. E conclui. Algo se mantivera. Ela continuava plantando. Semeando.

 

Olhei para o céu. Choveria. Sorri tranquila. Os duendezinhos por certo entregariam as plantinhas.

 

Assim iniciei a minha rotina. Assim ela prosseguiu com a dela.

 

 


Novembro 06 2009

 

É uma época de riscos. E de perdas.

 

Isso sem dúvida. As noticias tristes se sucedem. Não adianta fingir que não está acontecendo. Está. É. Cada um com seu temor. Cada um se ausentando de uma socialização. Férias se prolongando.  As ordens são de privacidade.

 

Que os grupos sociais se preservem – se dissolvendo. Esta a tentativa de evitar a propagação.

 

Fosse vivo o mestre surrealista – até ele se assustaria. A Idade Média contracenando com a Idade Contemporânea.

 

Ele chegou. Impossível passar despercebido.

 

Lindo. Cabelinho no corte moderno. Os fios na contradição da Gravidade. A queda da maçã em desafio por um punhadinho de gel. E ele todo orgulhoso da imagem. Perfeito.
 

A mãe segurava-lhe a mãozinha. Ele caminhava confiante. Pequenino – mas confiante. Tinha um jeitinho de feliz. Olhava com atenção em volta. Caminhava entre apressado e contido. Uma tossezinha atrapalhava os comentários que fazia. O vermelhinho do rosto denunciava uma temperatura fora do padrão. Mas parecia desconsiderar.

 

Ela veio. Conferiu a rotina da chegada. Escutou a história. A queixa da mãe. Os sintomas dele.

 

Ele ficou sentadinho. Talvez esperando que o chamassem. Ou só exibidinho em sua arrumação. Vez por outra tocava nos cabelinhos eriçados. Verificava se a desordem estava em ordem. E abaixava as mãos - mais tranqüilo. Como se os próprios dedos valessem por um espelho. Mais uma vez - perfeito. Sábio até. 

 

Ela veio. Sorriu para ele. Fez um comentário para a mãe. Colocou os dois sentados juntos no final da sala. Na última filinha de cadeiras. Só eles.

 

Fez para ele um gracejo. Depois foi colocando uma máscara. No rosto dele.

 

Informava com segurança na voz. Isso não dói. E - objetiva - amarrou os lacinhos da máscara por trás da cabecinha dele.

 

Foi um ato e um gritinho. Assim. Dupla geminada. Sincronismo absoluto.

 

Ele chorou.

 

Ela – surpresa - se assustou. Até se afastou um pouco. Demorou a entender.

 

Quando a dor não é física – fica-se com uma dificuldade maior ainda de mensuração. Ou de compreensão.

 

Mas ele continuou com seu protesto.  Chorou alto. E disse com a voz filtrada pelo material sintético. Estou com medo disso. Desta máscara. Não quero. Quero ir embora. A mãe o acarinhou.

 

Alguém veio em direção a ele. Com voz calma. Explicou. Você agora é o super herói. Por isso está de máscara. Eles todos usam também. Está tão bonito assim. E nem sabemos mais quem é você agora. Igual a um super herói. Ninguém sabe quem é ele e nem o nome dele.

Falou nem tão perto – nem tão longe. Poderia dizer – reservada. Mas tentou assim consolar.

 

Esta foi uma das cenas que não se esquece.

 

Ele parou de chorar. Dava para ver os olhinhos dividindo o espaço com o tecido verde da máscara. Por cima do nariz. A sobrancelha erguidinha. Virou o rosto semi -coberto. E disse. Mesmo com a voz entrecortada. Não sou super herói. Mentira. Ela disse que estou doente. Por isso estou de máscara. Para que ninguém mais fique doente. Super herói não fica doente.

 

Alguns que escutaram – riram.

 

Lembrei do filósofo estudioso do riso. Tem razão. Só é cômico o que excede o trágico. Aquela cena era trágica. Pior ainda. Era também um paradoxo. Não tinha como ser resolvida. Tinha como ser acatada. São ordens. Foi o que ela falou. São cuidados necessários. Completou alguém duas filas à frente.

 

Falou ainda chorando. Manda pararem de me olhar.

 

Submetia-se a uma súbita exclusão. Cuidou da imagem antes de sair de casa. E justamente a imagem – o primeiro item a ser ocultado. Sugeriam ser um super herói. Mas o colocaram sentadinho - distante. Parecia ter um objeto que o escondia – mais se destacava exposto.


O olhar do outro que autoriza. Ou desautoriza. E isso ele sabia ler muito bem. Melhor que qualquer um. Escrevia seu texto como se a folha em branco só a ele pertencesse.

 

Só não sei se pior - ou melhor - do que o espelho.

 

Quando o chamaram pelo nome - olhou para a mãe. Ajustou melhor a máscara. Não passou a mão mais nos cabelinhos.

 

Com voz conformada perguntou: sou eu?

 

 


Outubro 31 2009

 

O dia foi de surpresas. Aliás - de sustos. Dois sustos. Para ser exata.

 

Ficou pensando. No que os dois tinham de semelhante. Deveria ter um laço unindo os dois sustos. Afinal – foi o que fez. Contabilizou os dois - num só dia. Se mais teve – nem notou.

Enfim.

 

Se surpreendeu com ela. Ela que a convidara para jantar. Mas estava tão indiferente. Não sabia se num estilo novo. Ou numa abordagem nova. Vai lá saber. Sugeria uma pequena interpretação. O interior parecia se desestabilizar a cada tentativa de regularidade. Como se o valor fosse o rótulo e não o conteúdo.

 

Falava com certa contundência. Como se não importasse se a escutavam.

 

Não dava bem para definir. Ela apenas repetia as próprias opiniões. Desinteressada pela interlocução. Falava até mais baixo. E o riso se transformara em sorriso. Corriqueiro. Ou – menos ainda que corriqueiro. Indiferente – mas não inconseqüente.

 

Não havia espontaneidade. Como se falasse de si para si. Assim. Sem compartilhar. O jantar acabou. Se separaram. Cada uma para seu destino. E sua rotina.

 

Nem bem chegou em casa - ainda com este primeiro susto em evidência - encontrou um recadinho dele.

 

Fazia tempo que não falavam. Ela relatou um acontecimento. Assim. Aconteceu um destaque. Uma celebração.  Ele leu. E fez o que sempre fez. Interpretou. E com a sabedoria de sempre. Sem muitas delongas. Sem muita retórica. Objetivo.

 

Mandou um comentário. Quando se opera em sintonia com o desejo – coisas acontecem. Para o bem e para o mal.

 

Ela não se conteve. Riu. E fez também o que sempre fez. Quando diante de algum susto. Chistes por cima da interpretação. O desejo não era esse. Nunca foi esse. Deve ser o desejo do Banco. Com esta atividade é que se pagam contas. E enviou.

 

Aí compreendeu. Como se afastara do processo.

 

Há muito virara falsa pragmática. Passava aos atos. Se deu conta. E riu de novo deste pensamento. Não havia como fugir do mestre austríaco. E pensar que até o citou no tal chiste. Assim. Com total alheamento.

 

Recebeu de volta nova resposta. E aí enxergou o hiato. Como se aí tivesse acordado. Exagerada como sempre – abrira os olhos. Riu de novo.

 

Ele foi incisivo. Quase mortal. Não me referi à atividade profissional. Pensava que o desejo era o olhar do outro. Ai tanto faz – o sucesso vem. Porque exatamente se opera em sintonia com o desejo.

 

Repetiu. Procede.

 

Senão se entende de uma vez – quem sabe de duas dá certo. Depois de tanto tempo longe do pensamento analítico – tem mesmo que repetir. Até desenhar.

 

Foi difícil seguir a rotina.

 

Ela queria poder – dupla sempre também desejada. Mas desejou um tempo paradinha. Sem solicitações outras. Sem trabalho braçal. Queria na realidade o ócio. Um momento de entrega aos próprios pensamentos. Esta a vontade real naquele momento.

 

Sentar sozinha e pensar. Em algum cantinho. De preferência diante do mar. Sob o luar. Com os pés descalços. Tocando a areia. Passando as mãos pelos cabelos. Recostando. Quase se arrepiou. Sabia que estava – mais uma vez - fazendo o habitual. Se desconcentrando do objetivo. Já estava agora fazendo turismo. Até riu.

 

A avó da amiga sempre dizia. Não existe vitória contra o próprio estilo, menina, não existe vitória contra o próprio estilo. É verdade.

Mas enfim.

 

Ligar os dois sustos. Concluir porque um fato ficou ligado ao outro - no pensamento dela. Como se um fio condutor tivesse surgido. Muito mais de semelhanças do que de diferenças. Até pensou que poderia ser pelo contrário. Mas não se sentiu segura. Algo a fazia cobrar uma elaboração.

 

A resposta parecia uma só. O olhar.

 

Lembrou de tantos olhares. Há os contraditórios. Os perspicazes.  Os sorrateiros. Os defensivos. Os criadores. Até aquele famoso – oblíquo e dissimulado. Não faltou listagem qualificativa.

 

Mesmo sem mar e sem luar – optou por uma conclusão. Um pouco selvagem. Sem muito amparo teórico. E muito menos - prático. Não uma simbolização. Mas uma conclusão.

 

A união dos tais sustos era no olhar. Mas pelas diferenças. Por um fator bem simples. Para se entender um olhar – é preciso olhar.

 

E nisso estavam ligadas ao oposto. Uma prescindia do olhar do outro.

 

Bastava-lhe um espelho. A outra precisava do olhar alheio. Servia-lhe como um espelho.

 

Falaria sobre isso com ele. Algum dia.

 

 


Outubro 27 2009

 

O aviso veio pelo telefone.   

 

Há dez dias. Seria no último dia do mês. No meio da tarde. Foi acrescentado um – não vá esquecer, por favor. 

 

O tempo passou rápido. A rotina se fez completa. O relógio marcou o que devia ser marcado. E a corrida atrás dele não diminuiu durante o percurso.

 

Foram dias difíceis. A temporada de frio se uniu à temporada das doenças. E às doenças se uniram algumas tristezas. E não sobrou saúde em etapa disponível - para observar os movimentos de rotação. Dia e noite ficaram parecendo um só. 
 

E quando notei – já estava lá sentadinha.

 

Procurei por ela. Para demonstrar que não havia esquecido. Não consegui. Não a vi. O espaço estava muito cheio. Ela devia ter recomendado o mesmo – a muitos. Não somente a mim. Até ri. Desta vez a memória parecia ter se solidarizado. Com todos. Ou talvez por todos. Enfim. 

 

Chegamos. Escolhemos um lugar mais na frente. 
 

Fiquei ali. Sentadinha. Cumprimentava um ou outro. Fingindo tranqüilidade. Sobriedade. Tentando por todos os meios dar ordens mentais – a mim mesma – lógico.

 

Lembrei dele. Lembrei por que me vi - de repente - de mãos dadas comigo.

 

Gestual antigo diante de qualquer tensão. Ele sempre perguntava. Por que está se sustentando com as mãos. Foram várias e várias sessões de interpretação. Sob a teórica tutela do mestre austríaco. E só por segurar a mão com a outra – própria – mão. Mãos em si entrelaçadas. Para ser poética. Estou aprendendo com os poetas queridos - a ser mais poética. Mas esta parte - não vou contar. Vou pular.  A das mãos. Ele vai dizer que não houve cura. E vai rir.

 

Mas enfim. Deveríamos ter um botão. Para rever os atos e fatos.

 

Não consigo lembrar muito bem. Primeiro escutei meu nome. Por inteiro. Com os decibéis permitidos e amparados por um microfone. Assim. Meu nome num microfone.

 

Lembrei muito a minha avó. Ela sempre alertava. Não existe aviso prévio que controle a emoção, menina, não existe aviso prévio que controle a emoção.

 

Verdade irrefutável. Não importa a descrição anterior da cena. O repasse de quem já antecedeu. A ordem mental – sossega. Nada disso resolve. Entendi.

 

A emoção é tirana. Autoritária. E por certo surda. Porque repeti muitas vezes. Nada de lágrimas. Fica calma. Apenas sorria e agradeça.

 

Nada resolveu.

 

Levantei em seguida. Fui até a frente. Escutei palmas e uma entonação de vozes que saudavam. A mim. Foi tão entusiasmado que vi alguns da frente a olhar - curiosos - para trás. Queriam ver a saudada. E aí começou a exposição da emoção.

 

Se alguém tirou uma foto – não quero ver. Ou - melhor não ver.

 

Senti meu rosto queimar. Deveria estar num tom vermelho vulcão. Tentei controlar as desobedientes lagriminhas de emoção. Mas elas desconsideraram.  Vieram compartilhar. Da alegria. Do – não nego – orgulho envaidecido. Somando a tudo isso a minha timidez - devia estar com aspecto de extra-terrestre-mutante. 

 

Recitei até o Eclesiastes – acho eu. E talvez nem meu nome conseguisse soletrar. Imagina o Eclesiastes. E nem sei o que ele foi fazer ali. No meio da cerimônia. Mas já decidi faz tempo. O que vem à mente – deve ser valorizado. Valorizei. Se entenderei já é uma questão posterior.

 

Ele veio. Muito gentil. Diante de todos. Que aplaudiram mais uma vez.

 

Entregou-me uma placa. Com meu nome. Um texto gravado de agradecimento. Dentro de uma caixinha azul de camurça. E me agradeceu - com voz tranquila - pelo trabalho desenvolvido na Unidade.

 

Por um segundo recuperei o raciocínio. E pensei. Acho que ele não sabe. O quanto eu que sou agradecida. O quanto gosto de trabalhar na Instituição. O quanto gosto dos funcionários. Dos pacientes. De toda a equipe de apoio. Do estilo como é administrado. Do respeito. Da disciplina. Da hierarquia funcional. Da segurança. Da qualidade.

 

Acariciei a caixinha azul de camurça. Abri e fechei muitas vezes. Li e reli a minha placa. Como se para crer – fosse preciso ver muitas vezes. Mais exagerada que o santo.

 

Ser premiada é muito bom. Lógico.

 

Mas minha avó também sempre foi rigorosa sobre isso.

 

E comentava com positividade. O correto é fazer o que se gosta onde se gosta, menina, o correto é fazer o que se gosta onde se gosta. Procede.

 

Ele me abraçou. Carinhoso e solidário - estava emocionado. Eles enviaram mensagens - estavam orgulhosos. Ela ficou curiosa.

 

E fiquei feliz. Muito feliz mesmo. E tratei de rapidamente enviar a notícia - aos mais queridos.

 

 

 


Outubro 19 2009

 

O dia não fora dos mais fáceis.

 

Tudo já começara de véspera. Mudança de horário. Troca de agendamento. Alteração no local. O simples transformado na contramão.

 

A ordem se oferecendo contra a lei. A lei se fazendo firme. Para recompor a ordem. Mais ou menos assim. Nada de filosófico. Uma organização de ritmo. Sem dança. Sem compasso. Apenas uma exaltação ao – impossível.

 

Durara um dia inteiro. A dissolução da linha entre o permitido e o pertinente. Até entre a consideração e a menos importância. E custara o pensamento da noite. Não diria uma noite em vão. Este termo só existe em notas de rodapé.

 

Lembro de uma frase da minha avó. É o escuro da noite que interrompe o sonho, menina, é o escuro da noite que interrompe o sonho. Estava certa.

 

Mas o dia veio - e a solução junto com ele. Enfim.

 

Foi nesse agenda-e-troca que o de repente se autorizou. Uma cena realmente inesperada. Pelo menos a parte que me coube na cena. E justo eu que tanto admiro as vozes. Fui perder logo a minha. E no momento que mais precisei dela.

 

O que saiu da minha garganta não podia jamais ser chamado de voz. Acho que nem a primeira sonorização da humanidade foi daquele jeito. Um gutural som estranho. E uma imensa alegria única. Vai ver é assim. A primeira parceira.

 

Eu olhava em busca de um presente. O livro que ela poderia gostar. Com a falta de horário livre lá se ia um mês de atraso. E ela sempre fora pontual nas comemorações. Resolvido o tal agendamento – melhor também resolver as pendências. Talvez uma opção para relaxar.

 

Estava diante das prateleiras. Tentava pegar um livro. Por sorte lá as prateleiras são fixas. Senão o mundo teria vindo abaixo.

 

Segurei o volume escolhido. Achei adequado a ela. Adora poesias.

 

Foi ai que notei alguém do meu lado. Ele me olhou atento. Perguntou. Se eu era eu. Assim. Falou meu nome com tranqüilidade. Até aí eu ainda possuía uma voz normal. E o cérebro ainda funcionava. Aparentemente – ao menos. Confirmei. Polidamente. E curiosamente.

 

Fez um cumprimento formal – mas sorridente.

 

E continuou. Reconheci pela foto. Leio seus textos. Admiro muito sua escrita. Que bom poder lhe dizer isso pessoalmente. Que coincidência lhe encontrar aqui. Diante de uma mesma estante. Quando este espaço é enorme. E só estantes.

 

Riu. E comentou sobre um ou outro texto que mais gostara. Riu de mais algum outro. Falou de um estilo diferenciado. Esta foi o último termo de que me lembro. Estilo diferenciado.

 

Quis responder. Quis relatar minha enorme alegria. Minha surpresa. E avisá-lo de que ele fora o primeiro a me reconhecer. Que eu nem sabia que era reconhecível. Nem poderia imaginar. Não faltaram ideias. Ou discursos. Ou metáforas.

 

Mas estava já na fase dois. Eu. Já não tinha um som adequado na voz. E acho que até o encéfalo ficou catatônico.

 

Nunca me acontecera algo sequer parecido. E nunca previ que pudesse me acontecer.

 

Ele continuou falando. Comentando. Fez até algumas sugestões. Exigiu uma maior exposição da minha parte. Fez gracinhas. Deveria ter uma seta indicando os meus caminhos. Algo por aí. Falou que eu estava escondida. Bastante desenvolto. E seguro da sua apreciação.

 

Fez uma observação sobre o livro que eu escolhera. Recomendou ficar atenta às sugestões dele. Respondi um - obrigada. Obrigada de novo.

 

Até me esforcei por um terceiro - obrigada. Mas a voz já em contraponto com o entusiasmo – se isolou. Belas companheiras. Cordas vocais tímidas. Não me faltava mais nada.

 

Ele saiu. Eu fiquei ali. Com o tal livro de poesias nas mãos. O presente dela atrasado. As palavras dele me circulando - a pele.

 

Olhei em volta. Parecia que de repente só eu estava ali. O lugar havia esvaziado. Deve ser assim nessas situações. Preciso saber de alguém experiente.

 

Coloquei o livro de volta na prateleira. Ela esperaria mais um dia. Aquele momento se tornara muito meu. Não tinha como dividir. Ou ser pragmática. Não sabia se tinha entrado numa bolha. Ou saído dela.

 

Voltei feliz para casa. Ri. Com a alma. Com as mãos. Eis enfim o terceiro – obrigada. Tomara que ele leia. E compreenda. A rouquidão - e a feliz emoção que causou.

 

A noite me pareceu tão clara.

 

 


Outubro 08 2009

 

O dia amanheceu lindo. Só cores.

 

Céu azul. Brilhante. Desta vez nem era o habitual azul turquesa. Era azul brilhante. Intenso. Acolhedor. Ficou ali. Olhando e buscando adjetivos. Fazia tempo que não amanhecia assim. Ou vai ver ela que não amanhecia assim.

 

Aberta para o colorido do mundo. Enfim.

 

Debruçou-se na murada. E ficou em silêncio. Olhou para cima. Teve aquela boa impressão. O céu estava perto. Sentiu-se assim. Perto do céu. Até sorriu. Vai ver era assim no verão. Mas já não tinha certeza.

 

Quase concordou com a amiga que falou sobre o esquecimento do corpo. É verdade. O corpo vai se habituando. E passa a entender cada estação como única. Como se nunca tivesse conhecido outras. Incrível. Por isso de repente – o susto.

 

E diante do susto - fez o indicado. Vestiu o verão.

 

Deitou-se na cadeira. Deixou o sol aquecer a pele. Os cabelos soltos voavam com leveza. Estava sem compromisso nem temor.  Um calor calmo invadiu até os pensamentos. Mal respirou. Não queria que nada afugentasse aquele prazer. Ou se fosse um sonho – nada que causasse o despertar.

 

Bendisse o inverno. Pela amnésia. O inverno se esqueceu de lá naquele dia. E deixou que as cores do verão enfeitassem um pouco a cidade. O verde das árvores em frente ficou mais verde. O amarelo de alguns prédios- mais amarelos.

 

Tudo ia assim. Muito prosaico. Poético.

 

Ela teve uma idéia. Contaria a ele. Ele que vivia sob o sol. Que morava lá de onde ela viera. Que não sabia de cor cinza. Nem de casacos pretos. Nem de meias grossas. Contaria a ele. Mas de uma forma especial.

 

Avisou.

 

Hoje o dia aqui não parece inverno. Estou no terraço. Tomando sol. E decidi até fazer algo que nunca faço.

 

Decidi tomar uma cervezza. O zol eztá tão bonito. Eztá um dia de verão. E tive ezza ideia. Uma cervezza. Nunca bebo liquidoz com álcool. Hoje dezidi exxperimentar. E vozê não zabe o que acontezeu. Os Aztroz vieram pazzear aqui. Em meu terrazzo. Todos elez.

 

Vai ver devo beber líquidoz com álcool. Nunca havia vizto os aztroz. E eztão bem aqui. E não param de girar. É verdade. Como giram. Que aztros mais felizez. Tomara que não ze ezbarrem unz noz outroz. Seria uma tragédia cózmica. Ze forem dezastradoz.  Dezculpa. Interrompi o recado para rir. Aztro dezastrado é perfeito.

 

Ele de lá respondeu. Surpreso. Rindo. Assustado. Como assim. Deu conselhos. Informou dos riscos. Ordenou limites. Relembrou a ela – quem ela era.

 

Ela continuou. Um rezidente de Zaturno acabou de perguntar por vozê. Rezpondi que tudo bem. Que vozê eztá ótimo. Ze quizer alguma menzagem – aproveita que ainda eztão aqui. Não pararam de girar. Maz não zairam daqui do terrazzo. Imagina ze aquele fizico zoubezze dizzo.

 

E assim ficou nesse vai. Vem. Vai.

 

Enviou o último. Ele quer que eu deza para almozar. Falou que não quer converzar com o povo de Zaturno. Vou dezer. Até maiz.

 

Parou o recadinho. Encerrou a lista de z.

 

Sentada em sua cadeira. Olhou para o céu. Para aquele lindo céu azul brilhante. Tranqüilo. O terraço sem astros. E por um tempo ficou ali. Bem sentadinha. Bem longe das cervejas. Diante do sol.

 

Fez assim sua mais nova descoberta. E teve uma sensação maravilhosa.

 

Entendeu a muitos. E a si mesma. Ou vai ver sempre soube. Só não formalizara. Não importava. Não há lógica nas sensações. Nem ordem classificatória. Sensação procede - da desordem. Ainda bem.

 

Compreendeu as infinitas possibilidades da letra. Os surpreendentes caminhos das palavras. A magia de uma construção literária.

 

Pode-se ser o que quiser. Pode-se viajar por lugares nunca dantes imaginados. Pode-se ser quem escolher ser. A liberdade é irrestrita. Não tem um dono. Ou um tutor. Ou mentor. Também não importa.

 

Há o escrito. Há o leitor. Isso importa.

 

Lembrou-se daquele filme. Falava de escafandros e borboletas. E imobilizado – ele pensava. Não existe solidão para quem tem memória.

 

E ela ali. Sentadinha em seu terraço. Diante do sol. Sob o céu azul brilhante – concluiu.

 

A melhor embriaguês – é a composição de um texto.

 

 


Outubro 07 2009

 

O ambiente estava tranquilo.

 

Uma ou outra mesinha ocupada. As pessoas conversavam com suavidade.

A Cafeteria ficava num falso subsolo. Dentro de um local de salas de cinema. Reservada e cultural. 

 

Uma parede de vidro ficava quase ao nível da calçada da Avenida. De um lado – as mesas dispostas para refeições maiores. Do outro lado – a Cafeteria. Um clima de acolhimento percorria com delicadeza o ambiente. O cheiro de café dava um toque de serenidade.

 

Pelo vidro se via o movimento da Avenida. Intenso. Uns passavam carregando agasalhos. Outros os tinham dobrados nos braços. Outros ainda, incautos ou incrédulos, tremiam diante do desacreditado.

 

Mas uma similaridade era geral. Social. Poderia até dizer - democrática.

 

Todos caminhavam apressados. Passadas firmes - e fortes.

 

Não se viravam para a vitrine. Não encaravam as pessoas. Só se desviavam e continuavam. Olhavam para frente. Objetivos.  

 

Lembro que foi uma das primeiras observações que fiz quando me mudei. Completamente imigrante – me sentava solitária em algum Café. Em geral numa específica esquina. Sempre levava um livro. Jamais era aberto. O livro dinâmico passava e virava as páginas ora com rapidez. Ora lentamente. Mas deixando um fio de continuidade implícito.

 

Nunca se sabe o caminho de uma metáfora. Enfim.

 

Eu observava. Sentada e presente. Mesmo despercebida - como se ausente. O ir e vir. Os casais. O comportamento dos casais. O exposto dos solitários. A forma como as pessoas caminhavam nas ruas. Como se dirigiam às mesas. Como percorriam corredores. Não importava a estação do ano. Não importava a roupa ou sapatos que portassem. O pisar era o mesmo. Forte. Decidido. Como uma marcha sem banda. Mas ritmada.

 

Impossível não lembrar aquele autor.

 

Ele dizia que se conhece a cidade onde se está pelo caminhar das pessoas. O caminhar do Homem. Como uma Qualidade. Ou uma falta dela. Sim. O autor conhecia realmente as cidades. E muito mais ainda - conhecia as pessoas.

 

Mas – escolhida a mesinha - sentamos.

 

Começamos a nos decodificar. Desfolhamos as idéias. Desvinculamos os roteiros. Desentendemos as formalidades. Rimos das dificuldades.

 

Enquanto ele também não chegava – fomos quase refazendo o percurso da Vida. De cada um. E de cada par.

 

De repente começou a falar das filhas. Duas. Pequenas. Bem pequenas. Cada uma com seu estilo. Com suas pequenas birrinhas. Com suas personalidades se compondo.

 

Nunca pensara em filhos por preferências. Meninos ou meninas. Era abrangente. Queria ser pai.

 

Estava esclarecida assim a sua posição diante do mundo. E se via agora pai de duas meninas. Falou os nomes. Falou dos tons de pele. Das nuances dos diálogos. Dos momentos de reflexões. Delas. Da importância dos limites. Da complicada dosagem equilibrada de limitar os limites. Do unificar - sem desvalorizar - sabedoria e autoridade.

 

Foi aí que compreendi. O que dizia o mestre Frances. Muito mais que um pai da realidade. Só funciona o pai real.

 

Tão de repente quanto começou a falar - fez um gesto. Brusco.

Virou a cabeça numa rapidez que nunca vi igual. Podia até ter problemas no joelho – como referiu. Mas o pescoço estava em absoluta ordem. Assim.

 

Virou. De uma vez. Como que procurando.

 

Olhou para o lado - como que tocado por um chamado.

 

Não da Avenida. Ou das pessoas que passavam apressadas. Ou do pisar forte de alguém apressado. Ou muito menos atraído pelo cheiro do café delicioso. Que desfilava numa bandeja esfumaçando a salinha. Nada disso.

 

Na mesa ao lado sentava numa cadeirinha uma menina. Bem pequena.

 

Enfeitava a sonoridade do local com sua vozinha suave. Cabelinhos pretinhos. Franjinha. Vestidinha de inverno. Sorridente. Foi sentando e falando. Ele foi escutando e virando. Assim. Sincrônico. Simultâneo.

 

Resgatado - continuou de onde tinha parado.

 

Mas comentou. Discreto. Saudoso. Parecia a voz da minha filha.

 

Talvez não fosse de expor as emoções. Vai ver por isso gostava de poesias. Poesia é o Lugar certo de disfarçar. É expondo versos que melhor se ocultam as sutilezas ou as certezas. Da alma. Nisso também os poetas são sábios. Quanto mais os identificamos, mais os perdemos de vista. Procede.

 

Mas enfim. Até me desconcentrei um pouco da conversa.

 

Pensei no virar brusco. Na lembrança da voz da filha. Que estava em outra cidade.

 

Pode ser esta - também - uma das formas de definir um pai. Uma definição possível. Ou – melhor ainda - uma tradução possível.

 

Assim. Sem frases de efeito. Sem frases sem efeito. Sem alegorias na Avenida. Pela certeza do Lugar - simplesmente e assumidamente - de pai.



Outubro 01 2009

 

Decidiu. Será este final de semana.

 

Ganhara de presente. Os cinco se juntaram e deram a ela. Vai passar o dia lá. Sendo cuidada e mimada. É só escolher a data. Adorou.

 

Telefonou, agendou. Comemorou feliz. A decisão própria combinava com a vaga oferecida. Em acordo. Fuso horário acertado. Era só deixar acontecer. Não teria participação efetiva. Eles lá saberiam a sequência a ser cumprida. Enfim. Riu.

 

Acordou e já foi logo preparando a alma. O espírito. Ou o humor, para ser mais ampla. Do corpo eles lá dariam conta. Ao menos este era o combinado. Através do corpo - liberar a emoção.

 

Quase uma filosofia.

 

Um dia inteiro a fazer nada. E a aguardar as ordens.

 

O lugar era especial. Massagens de todos os tipos. Esfoliação. Relaxamento. Imersão em ofurô. Pétalas de rosas vermelhas. Margaridinhas. Chazinhos. Toalhas aquecidas. Uma delicadeza. Música transcendental. Perfeito.

 

Um aroma suave percorria desde a salinha de espera até os ambientes fechados. Qual um labirinto misterioso. Como devem mesmo ser os caminhos que liberam a emoção. Por um aroma, vai se chegando diante de portas - fechadas. Abertas – revelam o dinamismo a seguir. Interessante.

 

Foi esta a primeira palavra que pensou. Talvez desde o momento que acordou. Até se surpreendeu. Parecia mesmo há algum tempo sem pensar. Interessante de novo.

 

E de porta fechada a porta aberta - foi se descontraindo. Feixe muscular por feixe muscular. Ela até avisou. É muito tensa. Mas estou desfazendo os nós.

 

Desconsiderou.

 

Estava ali para ficar desconcentrada. E ia cumprir a proposta. A tal filosofia que a entrada sugeria.

 

Foi nesse vai e vem que notou a luz vermelha do celular. Mensagem à vista. Resolveu verificar. Que chamado, externo, a re-localizava no planeta.

 

Ele se desculpava. Queria ter falado ontem. Mas os afazeres práticos e nada agradáveis o tinham impedido.

 

Resolveu se divertir. A desconcentração permitia. Avisou. Desculpas mis. Plebe rude. Estou sendo esfoliada e me dirijo no momento para um ofurô. O mundo pode esperar. O ofurô não. Nem eu. Risos.

 

Assim. Objetiva. Divertida. Leve. Mas séria. Sem som. Só com as letras. E enviou a mensagem.

 

A massagem prosseguia. Novamente a luz vermelha. Mais uma vez decidiu ler o que de lá vinha. Afinal – o mundo não a esquecera lá dentro. Nem ela esquecera o mundo lá fora. Riu. A linha podia até ser tênue – mas existia. E se e quando existe - sempre pode ser pulada.

 

Já começou a se sentir incorporada ao Lugar. Estava se transformando numa verdadeira filósofa de esfoliações e ofurôs. Se parabenizou.

 

Mas desta vez foi impossível. Não conseguiu manter a seriedade absortiva. Expressar ausência de si mesma. Fingir que estava apenas ali. E que o mundo tinha acabado.

 

Ele respondeu. Desculpa a nobreza. Mas estou aqui também. Esfolado. Com um furuncô.

 

Riu. Alto. Assim. De repente.

 

As pétalas de rosa na água quase voaram. A mocinha que esfoliava tomou um susto. Perguntou por cócegas. Com a resposta negativa – iniciou alternativas. Se queria mais luz. Menos luz. Não sabia bem como lidar. Com o riso. Vai ver fosse um pranto e saberia o que fazer.

 

Isso é comum. Rir é incomum. Seja onde for. E muito mais numa esfoliação. Vai ver até culpou o Marquês. Mas enfim. Riu alto. Seguidas vezes.

 

A mocinha continuou o que fazia. Porém com mais cautela. Dava para sentir isso pela fala. Pelo gestual. E pela súbita pressa. Até temeu uma expulsão. Onde já se viu. Rir num lugar de silêncio. De faixa zen com alfa. Ai sim. Deu até mais vontade de rir. Mas se controlou. Ou tentou.

 

Avisou a ele. Você está desconcentrando a minha desconcentração.

 

Nova resposta. Novo riso.

 

Desistiu. Não ela. A mocinha. Encaminhou para outra sala. Mais uma porta fechada se abriu. Um divã estava lá em meio à meia luz. Orientou alguns momentos - sozinha. Escutando a música e sentindo o aroma. Colocara um aroma relaxante.

 

Ficou lá inspirando o tal aroma. E rindo. Quando acabou o dia – estava calma. Muito calma.

 

Vai lá saber. Qual das massagens foi benéfica. A de fora. Ou a de dentro.

 

Ele foi buscá-la. Desceu com ele de mãos dadas. Contou o que aconteceu. Riram juntos.

 

A chuva fina que caía lembrava que o mundo tem múltiplos e surpreendentes encantos.

 

 


Setembro 22 2009

 

Estava sozinha.

 

Era já final do dia. Trabalhara dentro do agendado. Atendera todas as demandas que pode. Orientou. Escutou. Reclamou. Compreendeu. Recusou. Aceitou. Defendeu. Proibiu. Acatou. Permitiu. Assim fora o dia. Igual a todos os dias da sua rotina.

 

O frio ainda estava confiante em seu próprio poder. E se mantinha cativo em salas e alas. Ou autoritário. Dava no mesmo. Afinal ele que estabelecia ordens e limites. Ele – o frio.  

 

Quando encerrou as tarefas - voltou para casa.

 

Mal tinha chegado. Ainda estava a decidir a outra rotina - escutou o telefone.

 

Até pensou. Acho que não vou atender. Vou deixar para depois. Agora tenho que seguir uma ordenação. Se não eu que fico aqui desordenada e desarvorada.

Definitivamente - não vou atender.

 

Foi decidindo isso e pegando o telefone. Até atendeu rindo. Eis uma decisão acirrada.

 

Era ela. Atitude rara. Em geral nunca telefonava. Pelo menos para ela. Se servia de mil desculpas. Mas vai lá saber por que – telefonou.

 

No primeiro instante pensou no pior. E isso não era habitual. Este era o oposto dela. Só esperava o melhor. Sempre. Podia atender ao telefone na madrugada – mas sempre acreditando que viria do outro lado uma boa noticia. Já atendia desculpando fuso horário. Como se recebesse apenas ligações do exterior. Ele até ria dela. E ela ria dele.

 

Ele sempre se assustava com o toque do telefone.  Quando a noticia era ruim – ela sempre tinha uma expressão de decepção.

 

Mas lá foi escutar o que ela queria falar.

 

Ela avisou. Precisava lhe falar. Impossível deixar para outro momento.

 

Fiquei lembrando muito de você hoje. Começou durante o almoço. De repente me surpreendi. Só pensava no tempo que você morava ainda aqui.

 

Lembrei das idas a restaurantes. Das risadas que demos juntas. Tantas e tantas vezes. Das suas gracinhas. Do seu jeito de minimizar problemas. E não mais parou.

 

Lembrou daquela vez. Depois - da outra vez. Depois - daquele dia. Da idéia da viagem. Da coragem – mesmo não sabendo onde se amparava. Das lojas onde comprava. Das mudanças. Das diferenças nas escolhas. Nas trocas.

 

Ela continuou falando. Parecia que para si própria. Por que discorria com tranqüilidade. Não cobrava o retorno. Nem sequer o – estou escutando. Só falava.

 

O interlocutor auditivo ocupava um Lugar não bem determinado. Era um daqueles velhos monólogos. Onde a platéia só suspira.

 

A cada registro que ela desenhava – tentava localizar. Não no espaço. Não no tempo. Era uma localização muito mais forte. Era muito mais interna do que externa. Como se preenchesse páginas vazias – ou esvaziadas – a cada frase. Ou como se tentasse preencher.

 

Com a mudança houve lacunas.

 

As citações dos acontecimentos não paravam. Falou sobre atos e fatos.

 

Lembrou de alguns com facilidade. De outros com dificuldade. De alguns riu. De outros fez silêncio. Partes vieram espontâneas na lembrança. Outras sumiram para sempre do registro da memória. Não houve jeito. Ela até insistia. Lembrava até a meteorologia do dia. Mas alguns se foram mesmo.

 

A avó querida de uma amiga tinha uma frase para isso. O que fica no passado é porque este é o Lugar certo de ficar, menina, o que fica no passado é porque este é o Lugar certo de ficar.

 

Pensando assim – se tranquilizou. E poupou esforços ao já tão esforçado cérebro.

 

Despediram-se rindo.

 

Quando ela desligou – ficou calada. Por algum tempo ficou ali sentada. Olhando para o não-sei-onde. Em silêncio.

 

Concluiu. Ou, melhor ainda, questionou.

 

Quantas mãos escrevem a história de cada um. Quantas memórias se unem para compor uma biografia. De quanto do passado é realmente manufaturado o presente. Em qual espelho se credita a história. Qual o princípio da saudade. Ou do esquecimento.

 

A memória.

 

Eis um Lugar onde o egóico – até finge - mas não se sustenta. Eis um Lugar onde a solidão não se inscreve como certeza.

 

Para falar de si próprio é preciso – verdadeiramente – escutar o que o outro fala. Só entendendo-se alheio de si mesmo – pode –se atingir o dentro de si mesmo.

 

Foi cuidar da ordenação da rotina. Não iria ficar ali – como antecipara - desordenada e desarvorada.

 

Riu quando se surpreendeu – quase – jogando um beijo em direção ao telefone.

 


Setembro 02 2009

 

Fez absoluta questão. De acordar bem cedo.

 

Afinal – era uma opção. Não uma imposição. Assim ficava muito mais fácil lidar com as regras. Quando pudessem ser tiradas – mesmo que temporariamente - da linha de frente. Para depois então incorporá-las – diagonalmente disfarçadas.

 

Já acordou rindo e falando. Abriu a porta e deu uma espiadinha tímida para fora. A varanda estava aberta. O céu azul turquesa. Lindo. A luz invadia comemorativa. Um friozinho singelo dava um toque de elegância ao dia.  

 

Olhou para o peixinho em seu lar-água-lar. Passeava tranquilo entrando aqui e ali. Devia ser um mundo especial. Circular dentro da água. Dia e noite. Às vezes isso lhe dava aflição só de pensar. Agora não mais. Ele deve olhar e desentender. Este mundo de cá - onde se fica prisioneiro do ar.

 

Diante destas ditas reflexões - tomou outra decisão. Melhor voltar a dormir.

 

Não estava ainda acordada o suficiente. Coitado do peixinho.

 

Riu. Voltou para a cama.

 

Nem bem deitou - o telefone tocou. Achava que nem bem tinha deitado. Mas já devia estar a dormir de volta. Porque custou a entender. Achou até que já era um telefonema do aquário. Ou que estava no aquário. Ou que o aquário era ela. Ou que tinha pouco ar no aquário.

 

Uma atrapalhação total. Em fragmentos de segundos. Ou entre alguns toques de alerta do telefone.

 

Mas - resolvidas estas questões – atendeu.

 

Não sem antes derrubar o relógio. Procede. Eis um objeto que sempre merece ser derrubado. Por um segundo, um pedacinho de segundo, riu de si mesma. Devia ser hoje o Dia Nacional das Ditas Reflexões. Desejou aquela tecla pause. Sei lá. O Reino por uma tecla.

 

Finalmente atendeu ao telefone. Era ela. Ele mandava avisar. A entrevista fora publicada. Sim. E naquele jornal. Jornal.

 

Não acreditou. Achou de novo que era o peixinho fazendo gracinhas. De dentro do aquário. Que estava no aquário. Tudo de novo.

 

Até falou isso para ela. Que ria do outro lado da linha. E confirmava. Sim. A entrevista saíra.

 

Estava lá. E quem quisesse poderia manusear. Manusear as respostas. Achou incrível. Mal podia ficar parada. Trocava de sentada-levantada-deitada-de pé. Parecia uma maratona solitária.  

 

Tudo acontecera na véspera. Ela acabara de sair dos trilhos. Perfeito. Final da tarde. De uma sexta. Caminhava entre as pessoas. Desvia daqui. Atravessa dali. De volta para onde saíra.

 

O celular tocou. Atendeu.

 

Ele se identificou. Tinha uma voz atenciosa. Polida. Começaram a se qualificar. Estilo remessa sucinta de dados de arquivo. Lembrava que ele - o entrevistador - ria. Muito. Mas quando chegou o tema exato da entrevista - se fez sério. Ela também se fez séria. E foi aquela retórica e dialética comum nessas situações. Eu pergunto. Você responde. Eu desdobro. Você resume. Eu resumo. Você desdobra. Mas só eu pergunto. E assim foi. Sem rostos. Só vozes.

 

Em meio às perguntas e às respostas notou para onde olhava. Quase riu. Mas se conteve. Não seria adequado rir de súbito.

 

Parada. Falando ao celular. Estava em frente a uma vitrine - de uma óptica. Escutando a voz dele. Enviando a dela. Uma troca de idéias diante de uma vitrine de óculos. Muitos óculos. E só as vozes se apresentando. Incrível. Mas nem por isso imperfeito. Nem muito menos fora de lógica.

 

Concluiu. Nestes momentos é impossível não erguer um brinde ao mestre austríaco.

 

Agora estava ali. Mais uma vez entre vozes. Ela avisava. E ela sentava e levantava. Derrubava relógio. Compunha filosofias de aquário.

Mas feliz.

 

Quando desligou – ficou um tempo de pé. Olhando para o peixinho. Depois daquele quase exaustivo senta-levanta. Repensando a cena diante da vitrine dos óculos. Recuperando na memória as perguntas e respostas.

 

Vai lá saber por que - lembrou da amiga. Em especial da avó da amiga.

São as falas que organizam os cenários, menina, são as falas que organizam os cenários.

 

Ele levantou e resumiu. Pragmático. Vamos já para a Banca de Revistas. Desceram rindo.

 


Agosto 31 2009

 

Amanhecera frio. Muito frio.

 

As nuvens pareciam amigas próximas tristes. Estavam baixas e acinzentadas. A garoa da noite dava um certo brilho no chão. O asfalto devolvia pontinhos de luz. Nas calçadas a luminosidade se fazia por inteiro.

 

Quase ri. Quase. Porque a prudência ensina a não rir quando só tem sonolentos com frio em torno. Pode parecer um pouco caso. Mas enfim.

 

O quase foi por que me lembrei daquele costureiro famoso. Estilista para ser mais respeitosa.  Lembrei do que fez com a passarela. Em seu desfile. Molhou a passarela. Para dar mais brilho. E um ar de aconchego de inverno. Ficou lindo.

 

Aqui o desfile não tinha regência famosa. Muito menos assinatura. Os passos não eram ritmados. Nem o design exclusivo. Era mesmo um faz de conta que acordei. E uma certeza do horário a ser cumprido. Mais ou menos assim.

 

E amanhecera. Com nuvem próxima ou distante. Com ritmo ou com desafino.  Muito menos com pesquisa de direitos autorais - sobre chão molhado. Era fazer o dia acontecer. Isso. Já era o bastante para um dia frio.

 

Ela sentou próxima. Tinha um ar sério. Estava bem agasalhada. Uma echarpe vermelha coloria a pele branca. E contrastava feroz com o casaco preto. Botas altas davam um ar elegante. Sentou. Acomodou a bolsa no colo. Tentou colocar o som egoísta em funcionamento.

Não funcionou. Guardou de volta na bolsa. Ergueu-se um pouco do assento. Acomodou-se como possível. Parecia conformada. Talvez precisasse escutar a música interior. Vai lá saber. Mas ficou sentada. Absorta.

 

Elas entraram falando. As duas. Sentaram de costas para onde ela estava. Não olharam em volta. Não se interessaram pelo ambiente. Estavam entretidas com o tema escolhido. E nem bem uma calava a outra já continuava. Falavam o mesmo assunto em dupla. Os comentários se sucediam. O tom de voz aumentava se a queixa ou a critica era mais forte. Não tinha música. Mas a sonoridade era vibrante.

 

Comentavam. Criticavam. Ironizavam. E se divertiam com os critérios contrariados.  

 

Ela é uma pessoa muito desagradável. Eu agüento porque às vezes me dá pena. Eu diria até estranha. Discordo. De estranha ela tem nada. É mesmo muito esperta. Observou como riu ontem no cafezinho. Ele estava perto. Ela foi logo querendo se destacar. Para mim quem gosta de destaque é blog. Eu sou bem discreta.

 

E riam. Muito.

 

Vai ver hoje. Deve chegar toda arrumada porque tem reunião. Por certo passou a noite acordada treinando. Como assim treinando o que. As caras e bocas. Nunca percebeu. Ela vive de caretinhas. No começo achei que era um tique. Nervoso. Mais risos. Vai ver já chegou lá. Deve estar escolhendo o lugar onde sentar. Para ficar diante - você bem sabe de quem. E gorda como está ficando vai ocupar toda a frente. Mais risos.

 

Algumas pessoas olhavam. Elas rindo – alheias. Não faltavam detalhes. Previsões. Análises. Conclusões. Mas nem bem fechava um ciclo – lá vinha outro. Até falavam simultâneo. O assunto parecia realmente empolgante. Afinal – vencera o sono. Desconsiderara o frio.

 

Notei que ela estava atenta. Muito atenta. A cada fala que escutava com precisão – o olhar ia se transformando.

 

Primeiro o som. Depois a imagem.

 

Tudo começou quando escutou as falas. Ergueu-se um pouco. Identificou as pessoas. Foi o que pareceu. De inicio – fez olhar de espanto. Com a continuidade – fez olhar de tristeza. Mas não se movia. Só o olhar se expunha.

 

Olhou para mim. E falou. Com voz tão triste quanto o olhar. Com as mãos apertando a bolsa.

Elas estão falando de mim. Sobre mim. Nunca pude imaginar. Trabalhamos há muitos anos juntas. E muitas vezes saímos em um final de semana ou outro. Não sabia que pensavam assim. Houve uma vez. Ela foi um pouco ríspida. E fez um critica sem propósito. Mas achei que era o cansaço. Nunca questionei.

 

Nada respondi. O que menos importava ali era uma resposta. Até porque resposta era o que mais tinha. Tinha resposta para tudo. Para o presente. Para o passado. E talvez – para o futuro.

 

Ela levantou. Ficou diante das duas. Assim. De pé. Diante delas. Com bota de salto. Echarpe vermelha. Casaco preto. Deu vontade de gritar olé.

 

Primeiro a imagem. Depois o som.

 

Disse apenas uma frase curta. Tenham um bom dia. Só isso. E um imenso silêncio se fez.

 

Fiquei pensando em sincronias. E se o som egoísta tivesse funcionado. Se tivessem se atrasado. Ou se adiantado.

 

Lembrei a minha avó. O Tempo sempre interfere no Espaço, menina, o Tempo sempre interfere no Espaço.

 

Chegou o local de descida. Ela me olhou de volta. Fez um cumprimento formal com a cabeça. E saiu.

 

Elas saíram atrás. E a seguiam de perto. Parecia que tinham perdido o esqueleto. Estavam disformes. No andar. No gesticular.

 

Ela altiva – caminhava na frente - com aparente tranqüilidade.

 

Sumiram na multidão.

 


Agosto 26 2009

 

A sala estava cheia. Cadeiras e poltronas ocupadas.

 

Não havia um só espaço para sentar. Ele chegou com ar tranquilo. Parecia sereno. Sabedor do que exatamente fazia ali. Olhou em volta. Confirmou.

 

Não tinha mesmo onde sentar – aceitou. Vestia-se elegante. Sóbrio. Os óculos de aro preto lhe davam mais idade que a pele e a postura. Rendia-se ao frio através de um cachecol. De pé encostou a um canto da parede. Abriu um livro.

 

Parecia que estava só. O seu mundo estava dentro do livro. Não fora dele. Como se estivesse em uma bolha. Uma redoma. Vai lá saber.

 

Nada o desconcentrava. Nem barulho. Nem o murmúrio das vozes de quem também esperava. Nem quando ela derrubou o envelope que segurava. Nada o desconcentrava. 

 

A expressão acompanhava o que lia. Parecia uma exposição de mímica facial. O corpo – imóvel. Os ombros encostados na parede. As mãos virando as páginas. E no rosto o reflexo do texto. Às vezes sério. Outras com cenho franzido. Outras vezes parecia que lera algo engraçado. Surgia uma meia covinha na face. Passava as páginas com suavidade. Devia ser alguém que realmente gostava de livros. Com muito cuidado o manuseava. Uma delicadeza de quem sabe como é sutil o lidar com as palavras.

 

O atendimento estava atrasado – ali ficou por muito tempo. Até me pareceu que chegara adiantado. Devia ser cuidadoso com o tempo. Como demonstrava ser com o livro.

 

Aliás - devia ser cuidadoso com tudo. Com os livros. Com a própria imagem.

 

Os cabelos um pouco grisalhos tinham um corte adequado ao rosto. Uma daquelas pessoas que, por ser discreto – acaba por chamar a atenção.

 

Conclui isso quando olhei em volta. Muitos olhavam para ele. Meio que ocupavam o tempo observando a elegância e discrição dele.

 

Assim estavam todos. A assim a sala de espera se comportava. Salvo um ou outro que levantava para um pouco mais de água – a maioria aguardava sua vez. Com calma e tolerância.

 

Uma mocinha escutava música de forma egoísta e batia os pés no chão. Uma possível denúncia do ritmo do que escutava. Um egoísmo com certa socialização. Digamos assim.  

 

A mocinha que derrubara o envelope o continha com força entre os dedos.

 

Duas moças sussurravam algo sobre amores e pudores.

 

Uma senhora fazia uma dança com duas agulhas entre os dedos. E uma mágica em forma de meia parecia surpreender a quem acompanhava os movimentos dela.

 

Foi ai que veio o que se poderia dizer - segundo ato. Se um Teatro fosse. Ou - um molto vivace. Se um andamento musical fosse.

 

Mas não foi. Não era.

 

A mocinha do som egoísta sentiu algum calor. Mesmo diante do frio precoce. Talvez causado pelo bater de pés. Ou pelo calor do ritmo que escutava. Isso não se soube. Nem foi perguntado.

 

Ela levantou. Foi até junto dele. Junto dele tinha uma janela. Abriu. Assim. Sem mais nem por que. Sem consultar. Sem avisar. Abriu.

 

Ele, concentrado – continuou a ler o tal livro. Talvez tenha erguido de leve a sobrancelha. Mas não ergueu sequer o olhar. Permaneceu de pé. Agora junto ao ventinho da janela. Mas com toda a elegância já definida desde a chegada.

 

Alguém gritou. Em alto e explícito som. Uma barata. Entrou voando pela janela. Está ali. No cachecol dele.

 

De repente tudo voava. Não só a infeliz invasora.

 

O livro voou longe. Despaginado. Quase fraturado. Aberto. Exposto. Desencapado. Uma tristeza.

 

O cachecol foi arrancado às pressas para fora do pescoço. No seu vôo sem escala prevista - se enfiou nas agulhas dançantes da mágica senhora. De onde saiu voando já mais acompanhado e foi se espatifar no chão enfiado em duas agulhas.  

 

E bem ao lado das mocinhas sussurrantes sobre amores e pudores. Que perderam os pudores – e talvez os amores – e saíram com pernas e gritos para fora de onde estavam contidas.

 

Entre gritos, vôos rasantes e acrobacias – vieram os seguranças.

 

Queriam saber onde. Quando. Quem. Esqueceram do por que. Atropelados, pelas duas mocinhas ex-sussurrantes, tentavam chegar até a senhora das agulhas.

 

Impossível.

 

O elegante e concentrado leitor agarrou um deles pelo braço e suplicou. Ao menos foi o que pareceu pelo tom de voz. Uma súplica. Dizia com voz trêmula. Matem. Matem.

 

Tem situações especificas que um simples - por que - faz falta. Tivessem perguntado o por que dos súbitos vôos e gritos – saberiam do que se travava.

Mas não foi preciso. A mocinha do som egoísta trazia entre os delicados dedinhos – uma mariposa.

 

Ela não tremia a mão porque segurava a mariposa. Acredito que a mariposa - de tão  assustada – tremia a mão dela. Da mocinha.  Disse – era uma mariposinha. Assim. No diminutivo.  

 

O segurança retirou a mão dele do braço exigido.

 

Todos se olharam. Ela olhou para todos. A mariposinha por certo – não quis olhar para ninguém. Saiu – tão logo pode - voando janela a fora.

 

Quase igual a ela – fez o leitor elegante. Quase. Pegou o livro despaginado. O cachecol desalinhado. E, pálido, saiu. Meio que voando – de tão apressado. Mas - pela porta.

 

Mas igual a ela – tremia. Só não se perguntou mais uma vez o por que. Se de temores. Ou se de pudores.

 

Escutou-se um riso vindo do cantinho da sala. Foi a vez da senhora das agulhas mágicas. Devia ter a resposta.

 


Agosto 23 2009

 

O dia começara quase como no estilo habitual. Mas enfim. Era mesmo o último dia dito útil da semana. Já era este um bom pensamento pelo despertar.

 

Como nada é mesmo perfeito - amanhecera um pouco enevoado.

 

Mas nada de importante. Os dias estavam assim. Amanheciam com uma temperatura mais delicada. Com o passar das horas o calor dizia presente em alto e bom grau. Confiante na repetição - arrumou-se adequadamente.

 

Uma roupa leve. Sapatilha. Nada de muita paranóia de frio. Ou de excessos.

 

Estava já há muitos anos na região. Sabia como se comportar. E sabia como a dita região se comportava.  Sentiu-se quase uma especialista em meteorologia. Até dispensou ler o boletim diário. Já sabia tudo.

 

Já na rua sentiu alguns pinguinhos delicados. Uma garoa banal - pensou. Não deu novamente importância. Apressou o passo e foi em direção aos caminhos dos trilhos.

 

Não esqueceu um risinho sorrateiro. Um certo olhar de superioridade. Em direção aos exagerados com casacos, botas e lenços. Embora já tentasse disfarçar um pouco de desconforto. Estava frio. Além do habitual da semana. Enfim. Devia ser porque ainda era cedo. Muito cedo. Novamente não deu importância.

 

Parecia já um dia de rebeldia.

 

No percurso – teve uma idéia.  Iria ao cinema no final do dia. Há tempos não fazia isso. Estava sempre voltando direto para casa. E acabava desanimada de sair outra vez. Desta vez iria retomar o ritmo antigo. E saudável.  

 

Sempre gostou disso. Ir ao cinema no último dia da semana. Era como se exorcizasse os dias de tanto trabalho. Finalizava com uma viagem ao mundo da sétima arte.

 

No começo desta rotina sentia falta de uma companhia. Depois se acostumou.

 

Lembrou um conselho da avó de uma amiga. Vemos e escutamos com os nossos próprios olhos e ouvidos, menina, com os nossos próprios olhos e ouvidos.

 

Perfeito. Assim entendeu. E lá ia. Sozinha. Sem queixas. Nem pequenos pudores. Escolhia o filme. Segundo seu gosto e expectativa. Assistia. E voltava para casa certa de que se dera realmente um presente.

 

Foi esta retomada que decidiu logo cedo. Parou antes de chegar ao destino. Comprou o jornal. Precisava escolher. Tinha uma sala de cinema que ela adorava. E ficava na Avenida preferida dela na cidade. Leu a programação. Perfeito. Até sorriu. Escolha feita.

 

Agora era só torcer para que o dia não fosse tão longo. Mas aprendera também a ter paciência. Até porque ter ou não ter – paciência - não é uma questão. Em relação ao passar do tempo – é sabido – nada muda.

 

Mas a chuva realmente chegara – e permanecia. Não diminuía. Não partia. Ficava.

 

O dia todo olhou pela janela. Mas concluiu. A Avenida do tal cinema era bem longe de onde estava. Devia ser chuva por zona. Isso também era habitual nesta cidade. Ela iria para outra no final do dia.

 

Continuou otimista. Mas – prudentemente - desconfiada.

 

Acabou o horário. Desceu. Já atravessou a rua sob chuva mais forte. Garoa parecia coisa do passado. O presente era bem mais contundente. Cabelos e roupa - inadequada – molhados.  A sapatilha estava de fazer inveja. A algum habitante do deserto. Só se fosse a algum deles. Porque os pés estavam encharcadamente congelando.

 

O frio aumentara. Muito. Muito.

 

Era um mais tremer que não dava conta. Mas se esforçava. Isso era inegável. Se esforçava para ser discreta. Nada de ser olhada pelos outros no final do dia – do jeito que olhara para os outros no começo do dia.

 

Vingancinhas têm limites. E não aceitaria provocação. Do olhar de quem quer que fosse.

 

Desistiu da tal sétima arte. Entrou em casa. Gelada de frio. A roupa molhada. Os cabelos molhados. Pela bolsa os respingos marcavam sua entrada da sala ao quarto.

 

De repente o interfone tocou. Era o porteiro. Alertava -  uma correspondência sob a porta da cozinha. Foi verificar. O selo dizia algo sobre urgente e importante. E confidencial. Algo por aí. Leu no envelope a palavra Justiça. Quase riu. Era a última palavra que pensou em ler naquela altura dos acontecimentos.

 

Abriu. Era uma intimação. Para ser testemunha. Numa ação trabalhista.

 

Agora sim. Falou por entre os dentes. Faltava mais nada. Mas tentou manter a calma. Ainda gostaria de ver os netos nascerem.

 

Deixou a finada sapatilha de lado. Teve o cuidado de guardar o envelope da tal intimação. Trocou os pingos frios por pingos quentes. Desconsiderou até a salvação do Planeta. Aqueceu-se por um tempo a mais no chuveiro.

 

Já relaxada - colocou uma ópera. Achou a escolha procedente. Apagou as luzes. Fez a viagem em volta de sopranos e tenores. Numa arena. Nada mal – pensou.

 

Estava – de qualquer jeito e sob qualquer condição – deflagrado o final de semana. Que venha, então.

 

Quando ele chegasse e ela contasse – coitado dele se risse.

 

Recostada no sofá – abraçada num edredom - riu sozinha. 

 


Agosto 19 2009

 

Ela viu a porta aberta e entrou para um cumprimento.

 

Sentou com suavidade. Puxou a cadeira para mais perto da mesa. Muito polida. Estava bem maquiada. Batom discreto. Os cabelos longos e com cachos soltos emolduravam a face. Tinha aneizinhos nos dedos. Uma roupa em tons claros adequada para a ocasião e estação. Assim. Toda uma lógica percorria gestos e atitudes.

 

Falava com voz serena acompanhada de um riso contido.

 

Na hora pensei esta palavra. Contida. Não dei o destaque necessário. A esta observação. Errei. Sempre que algo der um sinal de alerta – deve-se estar atenta ao sinal de alerta. Este é um princípio básico. Do Manual da Socialização. Ou da Sobrevivência. Me chamou a atenção. Mas fiquei escutando o que dizia. Ela falou. Com todo aquele jeitinho dócil. Olhava também com certa docilidade. Certa docilidade. Outra observação – notei e desconsiderei.

 

Como dizia sempre a minha avó. Fica atenta ao erguer espontâneo da própria sobrancelha, menina, fica atenta ao erguer espontâneo da própria sobrancelha.

 

Ela estava mais uma vez certa. Dava até para comparar com o mestre austríaco. Sobrancelha é o melhor analista de uma situação. De uma atuação. Como se lesse sempre primeiro que os olhos. Ou escutasse muito mais que os ouvidos. Deve ter uma ligação direta especial com o cérebro. Como sentinela. Ergue-se como sinal de alerta máxima. E nem sempre é valorizada. Acaba-se por desconsiderar esta vigilante proteção.

 

E assim foi. Lembro que as minhas sobrancelhas se ergueram uma ou duas vezes. Mas fiquei - diante da docilidade - com ingenuidade. Mais ou menos por aí.

 

Fez um gesto sobre a mesa. Arrumou com toda uma sequência os papéis que estavam em desalinho. Acariciou os papéis na ordem que colocou.

 

Ajustou mais uma vez a cadeira em direção a mesa. Falou algo sobre gostar muito do que fazia. E sobre ser uma pessoa com uma dose alta de paciência e metodologia. Até usou esta palavra. Metodologia. O serviço de casa era cansativo. Mas tinha tanta metodologia que acabava ficando mais fácil.

 

O marido a questionava. Achava que nem tudo fazia bem. Achava que tinha culpa por alguns desacertos. Em especial da saúde. Por um tempo essas observações a incomodaram. Atualmente – não. Sabia que fazia o melhor possível. E garantia que ninguém faria melhor do que ela.

 

Tinha uma mania de limpeza quase obsessiva. Mas preferia assim que lidar com poeiras e sujeiras num ambiente de convivência familiar.

 

A cada frase encerrada – ou a cada ponto de continuação surgia um sorriso. Quase como um hífen. Ligando palavras e amenos trejeitos faciais.

 

Interrompeu um pouco o que falava. Pediu com a mesma voz dócil. Gostaria de um copo com água. Estava frio. Mas sentia sede.

 

Recebeu o copo. Colocou sobre a mesa. Num movimento casual para ajeitar a bolsa sobre o colo – derrubou o copo.

 

Ai sim. Foi a vez que fiz o tal aceno positivo em memória da minha avó.

 

Era uma outra pessoa diante de mim. O copo caiu. Não quebrou. A água se espalhou sob a mesa.

 

Ela ficou vermelha. O cabelo parecia que tinha até encolhido. Ou aumentado o número de cachos. A voz parecia ter dado um adeus eterno à docilidade. Nada de voz orquestradinha. Agora era voz tempestuosa.

 

Gritou. Eu odeio isso. Odeio o que faço. Odeio a ele. Odeio ter que cuidar dos outros. Odeio cuidar da casa. Odeio essa sujeira.  

 

Desta vez acho que até meus cílios se fizeram companheiros das sobrancelhas. Mas já era tarde.

 

Tentei acalmar. Acidentes acontecem.

 

Olhou séria para mim. Olhava para a água no chão e se desculpava. E esbravejava contra tudo e contra todos. Nem escutava o que lhe era dito.

 

No final de um tempo – o tempo superou a si mesmo. Pegou os objetos que estavam já numa cadeira ao lado. Perguntou pelas horas. Ajeitou os cabelos. E saiu.

 

Olhei para o chão molhado. Para os papéis alinhados na mesa. Para a porta.

 

Precisei de um tempo para que as minhas sobrancelhas e cílios voltassem ao local de nascimento. Pareciam estar já penduradinhos no teto.

 

A mocinha da limpeza entrou. Apagou o registro. O dia prosseguiu. Embora diferente do jeito que começou.

 

Recuperada - relembrei meu querido amigo indiano. É a água que cuida da limpeza. Seja da forma que for.

 

Consegui até rir.

 


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