Blog de Lêda Rezende

Junho 28 2009

Nunca fizera algo sequer parecido. Sempre fora tímida. Recatada - como uma prima mais sarcástica a denominava. Quando queria ser mais cruel a chamava de recatadinha.

 

Estava sempre com expressão calma. Tão calma que até sugeria um conformismo. E devia ser. Porque de nada reclamava. Ou criticava. Enfim.

 

Vivia em um silêncio simples. Daqueles que nunca diz nada. Porque tem mesmo nada a dizer. Silêncio carregado de si mesmo.

 

Acordara cedo. Leu alguns jornais. Era um sábado chuvoso. Nublado. Cinza.

 

Ligou o computador.

 

Se alguém quisesse explicar o que seria um corte no tempo – ali estava. Materializado. Tudo mudara. Não o tempo. Estava ainda cinza e frio. Mas ela sim. Estava vermelha e acalorada.

 

Diante da tela. Agitada. Falando pelos dedinhos o que nunca falara pelos lábios. Pela vida toda. Na busca de encurtar o tédio usou a curiosidade. Nada melhor que a curiosidade para diagnosticar o tédio. E afastar as suas causas.  

Era uma sala de pessoas da mesma faixa de idade. Não do mesmo sexo. Nem da mesma disponibilidade. Mas estavam lá. Por certo com a mesma projeção que ela. Amparados pelos textos. Pelas palavras. Buscando mais semelhanças que diferenças. E encontrando mais diferenças que semelhanças.

 

Nem viu o tempo passar. Ele era mais objetivo. Perguntou o que queria saber. Respondeu o que queria ceder. Por horas ali ficaram. Tentando ler mais as entrelinhas que as linhas. Parecia um teste. Vocacional. Admissional.  Psico-social. Enfim passional.

 

Foi tudo tão rápido que já estavam até discutindo. Quase brigaram. Fizeram as pazes. Combinaram. Sim. Conheço. Vou lá ocasionalmente. Mas pode ser sim. O horário está perfeito. Até lá. Como assim. Vai ter que descobrir. Está certo. Saia vermelha. Só isso. Calça jeans não vale. Vou falar com todos lá.

 

Certo. Malha vermelha. Adorei. Combinado.

 

Desligou a tela. E parecia que ela se ligara. Numa voltagem alta. Porque começou a correr pela casa. Procurando saia. Blusa. Sandália. Sapato. Sandália. Alta. Baixa. Olhou para os dedos. Horríveis. Não os dedos. As unhas.

 

Telefonou para o salão. Não tinha mais reserva. Fez uma expressão de horror. A mocinha deve ter visto. Porque arrumou um horário em seguida.

 

Passou as mãos pelos cabelos. Não poderia ir assim. Telefonou de novo. Para o mesmo salão.  A esta altura a mocinha já estava permissiva. Foi um tal de pode sim. Claro. Pode deixar. Dá-se um jeito. Pode vir. Finalizou com um autoritário vem logo.

 

Obedeceu. Foi.

 

Sentiu um toque no braço. Você por aqui. Hoje. Que aconteceu. Você sempre tão sem vaidade. Decidiu assistir televisão de unhas pintadas. Riu.

 

Era a prima – a do recatada. Não poupava ironia. E se divertia. Parecia que nada mais tinha a fazer. A não ser perguntar e responder. Sim. Não aguardava por respostas. Satisfazia-se com as perguntas. Em parte. A outra parte era comentar a programação da noite. Não a convidaria porque sabia que ela não ia gostar. Poderia sentir sono cedo. E deixaria todos preocupados por voltar sozinha.

 

Por um segundo se calou. A prima do recatada. Talvez para buscar fôlego.

 

Procedimento correto. Porque foi nesta brecha que ela falou. E a prima quase- seriamente - perdeu o fôlego que – divertidamente - buscara.

 

Não iria. Obrigada. Por favor. Pinte de vermelho. Tenho um encontro. Hoje à noite. Pode deixar com cachos soltos. Não. Quero soltos. Nada de cabelos presos. Sim. Como ia dizendo. Tenho um encontro. Quando. Hoje. Pela manhã. Eu de camisola. Ele de cueca. Um encontro casual. Que deu certo.

 

Marcamos mais tarde. Para dar tempo de trocar a camisola. E ele cobrir a cueca. Depois explico com calma. Agora quero fazer uma massagem. E riu.

 

Riu mesmo.

 

Não desistiu. Não tremeu. Nem temeu. Escolheu a blusa. Colocou a saia vermelha. Combinado é combinado. Sandália. Fez o próprio reconhecimento diante do espelho. E saiu.

 

Ele chegou. Bela malha vermelha. Pensou mas não comentou. Ela se aproximou primeiro. Deu um beijo sorridente - mas cauteloso. Ele sorriu.

 

Falou qualquer coisa. Com o barulho do lugar ela não entendeu. Sorriu de volta. Ele indicou uma mesa. Ela aceitou. Escolheram bebidas. Ele fez um comentário. Você é sempre assim decidida. Ela negou. E se eu estivesse acompanhado. Ou esperando alguém. Por que você faria isso. Sabia que eu viria.  Ele fez um ar estranho. Ela notou. Mas desconsiderou.

 

De repente olhou para a porta de entrada. Do restaurante.

 

Lá estava. Bem ali. Um senhor. Com uma malha vermelha e um vasinho de flores. Pesquisava o ambiente por trás dos óculos.

 

Olhou para o seu parceiro de mesa. Entendeu as perguntas.

 

Riu. Só riu. Não tinha mesmo muito a fazer. Imaginou. Se a prima do recatada estivesse ali.

 

 

 


Junho 09 2009

De repente chegou a mensagem. Uma longa mensagem. Depois de muito tempo. Nem acreditei quando vi o nome no remetente. Ela estava ali. Se despojando. Não se expondo- mais se impondo. Relatando o silêncio. Muito mais que as palavras. Mas também não poupando palavras para falar do silêncio. Não se justificava. Se diagnosticava. Foi o que me pareceu.

 

Passei dias lendo e relendo.

 

Deve ser assim quando não se sabe as respostas. Muito menos as perguntas.

 

Como dizia a minha avó. As perguntas têm sempre mais conteúdo que as respostas, menina, as perguntas têm sempre mais conteúdo que as respostas.

 

E por isso fiquei assim. Só lendo. Relendo.

 

Contava que se afastara dos mais próximos e privilegiara os mais formais.

 

Os mais distantes. Buscava quem não via há dez anos. Mas não queria conversar com quem se despedira ontem.  

 

Fiquei com uma dúvida. Nunca os mais afastados – ou formais – mudarão de posição. Será assim. Posição estagnada. Ou será que vai se girando. Cada vez que a proximidade vence – passa-se a diante. Isso também não combina com a ela que eu conheci.

 

Continuei. Fez outros relatos. Sobre o choro fácil. Desautorizado, mas dominante. Sobre o sono difícil. Autorizado, mas desobediente. Sobre as condutas idealizadas. Banalizadas, mas sequeladas.

 

Fiquei eu estagnada. Nem próxima. Nem distante. Nem há dez anos. Nem ontem à noite. Por muitos dias. Nem sei mais quantos. Acho que fiquei projetada. Vai lá saber. Vai ver um silêncio puxa outro. E a memória não perdoa. Lembrei a frase do Francês. Quando a falta é muito grande as palavras também faltam. Devia ser isso. Faz tempo que não discuto com o Francês. Tenho me identificado com as idéias dele. Nunca pensei que isso pudesse acontecer. Eu concordar com as idéias dele. Do Frances. Mas enfim.

 

Lembrei de outra amiga. Também recém retornada. Nova sincronicidade. Mas esta me desejou serenidade. Vai ver alcancei. Ela deve ter me desejado com muita fé.

 

Ela é linda. Tem um sorriso lindo. Cabelos mais lindos ainda. Um estilo doce. Afetuoso. A voz dela só me traz vontade de sorrir. É uma voz sincera. Até pueril. Não tem voz de adulto desconfiado. Tem voz de criança crédula. Mas com a profundidade de quem já sabe. Ou de quem já duvida. Só de pensar – escuto. O jeito dela de falar meu nome. Rindo. Meu nome sempre vinha acompanhado de um riso. Com sotaque. Transmite segurança. Mas nem por isso é alheia. Aos sentimentos cruéis da humanidade. Reconhece os limites. Percebe as distorções dos limites. Inteligente. Mente interpretativa. Talvez esta a melhor definição dela. Possuidora de uma mente interpretativa. E refinada. Muito refinada.

 

Lembro das noites e noites que passamos nos comunicando. Com letras. Sem voz. Sem imagem. Diminuindo distâncias. Uma em cada exílio. Tentando fazer dele – do nosso exílio - o nativo. O natural. Sem raízes – mas com caules. Algo por aí. O monitor deveria se assustar de tantas risadas. Pela pobreza das nossas supostas metáforas. Ríamos e chorávamos. A nosso favor e contra nós.

 

E quando ela vinha. Saia do exílio dela e vinha até o nosso. Ele até ia dormir.

 

Sabia que a conversa seria longa. In vino veritas. Sentadas na cozinha. O vinho belo, formoso, sofisticado. Em nossa frente. Depois acabado, destituído, garrafa. No lixo. No intervalo - falávamos. Muito. Entre risos e risos. A veritas sempre vencia. 

 

Não posso. Imaginá-la chorando. Insone. Incrédula. Solitária. Racional. Escolhendo os distantes. Se distanciando dos próximos. Se aproximando dos rótulos. Guardando bulas. Escondendo sinapses. Alternando químicas. Seqüenciando idéias. Afastando atos. Colecionando saudades. Vivendo de social. Ou socialmente vivendo.  

 

Leio o aviso. Da distância concedida. Proibido particularidades. Só amenidades. Não chegue perto. Pode falar daí mesmo. Do portão. Cuidado. Ouvido bravo.

 

Mas quero que saiba. Adorei. Fiquei feliz. Com a proximidade distante. Ou com a distância aproximada. Tanto faz. Não importa. Importa é que podemos continuar. Seja onde for o tal portão.

 

Assim é a amizade.

 

Quase beijei o mensageiro.

 

 


Junho 01 2009

Devem já ter inventado algo melhor. Mas naquele momento só pensava nisso. Obsessivamente. Não poderia existir sensação melhor. Nem certeza mais evidente. Ou planejamento mais adequado. Sequer idéia mais agradável.

 

O momento ia chegando e eu me despojando. Encerrando as formalidades. Liberando a escuta. Despertando o instinto primitivo. Trazido pelo encanto. Como por um encanto, melhor referindo. Entre o abrir e fechar de pálpebras – respirava alegria.

 

Assim entrei em casa. Muitos quilômetros de trilhos depois. Na sexta feira.

Já começando a anoitecer.  Bendita sexta feira. Folga de final de semana.

 

Inteirinho. Sem compromissos profissionais. Sem tarefas. Sem relógios. Sem programação definida. Um feliz excesso de sem.

 

A meteorologia informava. O clima estava oscilante. Mas nem me incomodei.

Em geral tudo é oscilante.

 

Não parei para pensar - nesta observação filosófica. A de que tudo é oscilante. Deveria. Filosofia é assim. Se você a deixa inquieta é porque ela está certa. Quase como um axioma. Rimado - mas nem por isso menos verdadeiro.

 

O jantar se propunha maravilhoso. A música escolhida em conjunto. Sentamos diante de nós. Diante da mesa. O rubro na taça dava um toque mais profundo.  O colorido do cardápio sugeria uma certa leveza. A mistura dos aromas indicava uma celebração. Nossas vozes emolduravam os assuntos.

 

Sim. Estava inaugurado o final de semana. Podia ser repetitivo. Semanal. Lógico. Mas sempre é festejado quase como único. Porque dá o ponto final. Na lista de obediência. Final-de-semana deveria ser definido como Final-de-Obediência. Por que é o que se faz. Desobedece-se regras socialmente estabelecidas. Para se privilegiar regras individualmente reconhecidas. Perfeito.  E como dizia o Frances. Só se repete o que não tem completude. Ainda bem. Pensei eu.  

 

De repente - uma nova sensação. Melhor dizendo. Uma sensação nova. Mais forte. Mais contundente. Isso para não dizer objetiva. Decidi fingir que não via. Ou que não era comigo. Endereço errado.

 

Não funcionou.

 

Aquela dorzinha não saia de perto. Das costas. Dos braços. Dos olhos. Até dos joelhos. Dorzinha xifópaga. Assim parecia. Porque para onde eu virasse – ela virava junto. Até para onde eu olhasse. Ela se permitia também olhar.

 

Me recusei a admitir.

 

Mas ela não estava predisposta a rejeição. Ou a discussão. A dorzinha. Queria se fazer destacada. Queria atenção.

 

Admiti.

 

Sai da mesa. Do som escolhido. Do colorido dos pratos. Do rubro na taça. E fui verificar o que se passava. Um frio percorreu todo o corpo. Mas percebi que não percorreu o ambiente. Um frio talvez mais egoísta. Com mania de privacidade. E escolheu a mim. Apenas a mim.

 

Não terminei o pensamento.

 

Uma tontura impetuosa me fez pensar na frase do mexicano. Sim. Nunca mais. Mas nem era mexicano o tal rubro. E eu nem tinha ainda começado. Deveria ser forte. Fazia efeito no tocar dos dedos no cristal. Vive la patrie. Dele. Porque a minha estava acabada.

 

 

Aquele apitinho foi decisivo. Demorou um pouco a se manifestar. Mas quando veio foi com um estilo dissociativo. Apitou de um lado. Cai deitada do outro. O frio egoísta se impondo. Não havia volume que desse conta. Nem em número. Nem em plumas. Nem em penas.

 

Engolir comprimido tremendo deveria ter algum mérito. Processo também dissociativo. A mão não obedecia ao que a boca – disponível - aguardava. O braço não obedecia ao que a mão - ansiosa - intentava. Nada parecia ter ordem.

 

Daí me lembrei. Do pensamento filosófico. Em geral tudo é oscilante.

 

Foi o último pensamento eficaz. Que me lembro. Estava assim decidida a programação do final de semana.

 

As regras seriam ditadas por um apitinho. Os festejos em volta de um comprimidinho. A dança compassada por um frio egoísta. A parceria evidenciada pela gemelaridade. Corpo e dor. Maestros rígidos e explícitos.

 

Conclui. Entre calafrios. Filosofia rimada nem sempre é verdadeira.

 

Em geral – nem tudo é oscilante. 

 

 

 


Maio 05 2009

Ele me deu de presente. Para que o percurso se tornasse mais sereno. Adorei. Ele sabe ser este um dos meus grandes prazeres. A música. Escolhi o assento. Acomodei os objetos. Nem olhei para os lados. Coloquei meus fones. Me concentrei. E de forma explicitamente egoísta. Pressionei o que seria um botãozinho.

 

Começou a tocar. Em segundos tudo mudou.  Como um virar de uma esquina.  Como um virar de cabeça.  Já não estava mais por sobre os trilhos. Já não parecia mais integrante daquela paisagem. A escuta me trasladou. Assim. Rápido. Fugaz. De uma ponta a outra. Não como uma saída de emergência. Como uma saída para a tranqüilidade. E lá estava naquele país das maravilhosas tortas. Do rio que tem cor. Dos bosques nos pontos altos.

 

Das bodegas com vinho e violino.  E lá me vi. E caminhei. Embalada pela suavidade da música. Aquele objeto minúsculo tinha mais poder que o previsto. Poderoso e simples. Um toque. Foi só dar um toque naquele mínimo botãozinho e a magia se cumpriu.

 

Ali fiquei sentadinha. Alheia. Fora do local. Quando chegasse ao destino antecipado, me recomporia. Sairia das bodegas. Guardaria o violino. Colocaria a torta na geladeira. E pediria licença aos bosques.

 

Tudo muito perfeito. Aliás, perfeito até demais. Como dizia minha avó. Cuidado com a falsa ausência, menina, muito cuidado com a falsa ausência.

Procede. O Físico tinha razão. Impossível. Não se ocupa dois lugares. Ao mesmo tempo. Mesmo que um seja e o outro esteja. Acaba-se voltando. Um sinal.  Um barulhinho. Um resmungar. Um suspiro. Uma planta. Algo nos

recaptura. E todo um cenário é desmontado em segundos.

 

Voltei por um vaso. E uma planta.

 

Lá estava ele. Diante de mim. De pé. Com uma mocinha ao lado. Segurava um vaso com uma planta. Envoltos num papel transparente esverdeado. Ao lado deles, estava outra moça. Segurando na barra. Um pouco desconfortável. Ao menos parecia. Era não muito alta. E tentava se adequar entre a bolsa e uma sacolinha. E ainda administrar a barra. Tudo isso com uma dose de elegância. Não cedia fácil. Tinha lá sua pose. E um olhar mais crítico ou severo. Para quem a rodeava. Um blazer claro tentava dar um toque sofisticado à calça jeans. Saltos altos a faziam supor mais alta.

 

Ele ali. Com seu vaso e sua plantinha enrolada. Pareceu que não tentava dar toque algum. Nem de sofisticação. Muito menos de elegância. Até porque só tinha olhos para a plantinha. Comentou qualquer coisa com a mocinha que o acompanhava. Ela respondeu. Me pareceu que alertava. Não seria prudente. Ele não pareceu dar importância. Ao comentário dela. Queria mostrar. A planta. Ela cedeu. E ele sorriu. Abriu o pacotinho. Retirou o papel protetor. Expôs a planta. A mocinha que o acompanhava não teve muito tempo para olhar.

 

Veio o local de parada. Um pouco brusca. Na dúvida, onde se apoiar, aconteceu o pior. A plantinha fez uma espécie de dança. Entre mãos e dedos.

 

E caiu. Mas não assim. Uma queda simples. Ou uma simples queda. Caiu por cima da moça. A que tinha lá sua pose. A terra estava seca. Pois foi de pó marrom que o blazer claro se tingiu. Assim. Pó e terra unidos. Por cima dela.

 

Do blazer. Do cabelo. Da bolsa. Um desastre.  Ela se olhava. Acho que nunca mais verei outro olhar tão congelado. A cada gesto de tentativa de limpeza – mais impregnava. O marrom se fez estampa. Em toda a roupa.

 

Ele abaixou. Tentou pegar a planta. Vai lá saber aonde vai. Ou até aonde vai. A ira de uma mulher. A desconstrução de uma pose. Ou a destruição de uma sofisticação.

 

Ele só viu um salto. Um sapato. No máximo uma perna. Firme. Endurecida. E girando. Em cima da planta. Esmagada. Olhou para ela. Deduzi. Vai reclamar. Ela o olhou de volta. E ainda jogou um pouco da terra que estava por cima dos ombros. Dela. Sobre ele.  Ele viu o olhar. Sentiu a terra. E disse apenas - Desculpe. Só isso. Tinha amor à vida.

 

Chegou minha vez. Sai das bodegas. Guardei o violino. Coloquei a torta na geladeira. E pedi licença aos bosques. Desci. Com uma sensação estranha.

Do que tinha sido realidade. Ou fantasia.

 

Objeto perigoso aquele do botãozinho minúsculo.

 

Ri. Mas só o fiz quando tive a certeza de que ela não veria. O meu riso. Também tenho amor à vida.

 


Abril 21 2009

Desta vez a ligação foi diferente. Nada de alegria na voz. Muito menos de comemoração. Não se festejou. Nem se falou em macarrão no desjejum. Hoje a dieta era fria. Com sabor de nada. Talvez acrescentado o amargo do fruto. Já tão proibido.

 

Parecia aflita. Aflita de realidade. É sempre difícil este tipo de aflição. Sobrecarrega. E não deixa espaços. Por isso não se consegue dissimular. Nem com a fantasia. Ficar na realidade por muito tempo tira o fôlego. Causa compressão nos músculos. Provoca uma dor que não se sabe onde. De tão pesada e difusa.

 

Descobrira uma verdade. Segundo ela. Concluíra a verdade. Do impedimento. Não era geografia. Não era paternidade. Não era sequer solidariedade.

 

Tinha uma atitude explícita. Estava com ódio de si mesma. Por que não entendera isso antes. Justo ela. Que convivia tão bem com os escondidinhos da alma. Com as entrelinhas dos discursos. Vivia disso. Vivia para isso. Para entender o que ninguém explicava. E explicava o que ninguém compreendia.

 

E agora estava confusa. Sem compreender. Nem a ela. Nem ao outro. Por que se não se entendia, como iria entender o outro. Era cada vez mais proibitivo. O tal testemunho. O tal julgamento.

Por um tempo se enganou. Jurou ter se equivocado. Tanto afirmou que quase acreditou. Mas podia lhe faltar tudo. Menos aquela dose certa de lucidez. Mesmo que na hora errada.

 

Chorou.

 

É preciso sempre estar atento. Ao que o outro exige. Nem sempre a proposta é de parceria. Parceria envolve a dois. No mínimo. E parceria é assim. Quando se vê já está estabelecida. Assim. No silêncio. Como dizia aquele poeta alemão. Onde uma palavra jamais pisou.  Sem discussão. Até sem nomeação. Parceria é só atitude. As palavras são moldura. Efeitos decorativos. Por isso prescindíveis. Ele descartou. Obstaculizou. Assim ela falou. Entre lágrimas e retórica. Ou entre lágrimas retóricas. Muitas vezes esta é a mais importante função da lágrima. Função retórica. Funciona bem para desavisados. Ele utilizou com grandeza este recurso. E na hora ela acreditou. Mais por necessidade do que por ingenuidade. Naquele momento se duvidasse perderia o prumo. Achou prudente acreditar. E se não podia sofrer junto com ele, ao menos sofria ao lado dele. Forma triste de parceria. Isso ela compreendeu. Parceria solitária.

 

Ele confirmou. Nada de ímpetos. Nada de mudanças bruscas. Deixaria assim. Voltaria para onde tinha saído. E torcia para que nada lá tivesse mudado.

 

Foi o que descobriu. Ele só tinha um único compromisso. E de exclusividade. Com ele mesmo. Só. Assim. Claro e destacado. Se estava bom, prosseguia. Se não estava, descartava. Se oscilava, partia. Mas tudo dentro de um acordo tácito. Nada que precisasse da aprovação do outro. Aprovação do outro já significava parceria. E isso ele indeferia. Tal um documento. Sem emoção.

 

Lembrei de uma orientação da minha avó. Quando estiver difícil consolar, sorria com delicadeza, menina, sempre sorria com delicadeza.

 

Sorri. Sorrimos. Depois rimos. De tudo. Do acordo. Do desacordo. Do engano. Do eu-bem-que-falei. Do champagne estourado em silêncio. Do perfume interditado. Da negação. Da contemplação. Não faltou ação. A distância de nada impediu. E ele foi sumindo. Nas palavras. Na retórica. Nas lágrimas. E quando o sorriso finalmente venceu, ele desapareceu. Ele e o compromisso solitário.

 

Ela ficou com as lembranças. E fez delas suas parceiras. Junto com o sorriso. Por um tempo seriam companheiras. Depois já não se sabe. 

 

 

 


Abril 02 2009

Já foi logo falando. Contando todas as mudanças que estavam por vir. Avisava da coragem. Da certeza. Mas também da dúvida. Do impulso. Não sabia agir de outra forma. Estava tão longe. Mas queria que soubesse. Das continuidades. Do que a vida quase interrompera. Iam retomar. De onde pararam. E por mais de uma vez. Desta vez parece que ia. Ia ter a tal continuidade. Planos de verão. Veremos. Foi o que disse. Numa tentativa chistosa de se acalmar. Foi o que me pareceu na hora.

 

Lembrou do macarrão. Do macarrão do desjejum. Depois de uma noite na cozinha reativando fantasmas. In vino veritas. Rimos muito. Muito mesmo. Até a ligação caiu. Culpou as telecomunicações. Não gostavam de riso. Só de choro. Nunca caiu uma ligação quando ligava chorando. Só agora que estava rindo. A tecnologia também tem lá as suas crueldades.

 

Conhecera a cidade quando tinha nove anos. Viera com o pai. Para esta cidade grande. Enorme, aos seus olhos.

 

Pela primeira vez viu uma escada rolante. Ficou maravilhada. Tentou entender o mecanismo. Na sua ingênua criatividade de criança surgiram mil explicações. Tivesse um engenheiro tido a oportunidade de escutar alguma delas e as escadas seriam diferentes. Com um equipamento muito mais sofisticado. Que o desenhado numa prancheta de adulto. Como tudo na vida. Pranchetas de adultos não têm magia. Só matérias. Subiu. Desceu. Entendeu. A seu modo. Não repetiu. Mas sentiu medo. Pensou se acontecesse isso lá. E as ruas também rolassem. Onde iria parar. Segurou a mão do pai. Com muita força. Tanta força. Ele até perguntara o que houve.

 

Mas sempre foi cuidadosa. Não quis assustar o pai. E não contou dos riscos das ruas rolantes. Uma vendedora fez-lhe uma pergunta. Sobre onde morava. Se tinham onças. Cobras. Se ela tomava banho só nos rios. Ela pensou. Com um olhar fininho. Sempre tinha um olhar fininho diante de uma possível birra. Ou raiva. Não seria tão mal se as ruas ficassem rolantes. A vendedora saberia. E riu. Para o pensamento malcriado. Não para a vendedora. Esta já prestes a ser engolida por onças. Que subiriam também pelas escadas rolantes.

 

Fizera as compras com o pai. Sapatos. De saltos finos. Bicos finos. Inacreditável. Para serem vendidos lá. Em meio ao pantanal. Nas vilas e aldeias. Uma coisa descobriu cedo. Sexo tem nada a ver com etnia. Ou com endereço residencial. As índias compraram. Felizes. Os sapatos de saltos finos. De bico fino. Coloridos. Pretos. Brancos. O pai não tivera prejuízo. Só os sapatos masculinos não foram bem aceitos. Digamos assim.

 

Não entenderam a lógica. Da necessidade. A lógica masculina é sempre imediatista. A feminina é futurista. Por isso o sucesso das vendas. Teve até encomenda. Para mais futuro. Nunca soube se algum dia a expectativa delas aconteceu. Mas não importa. Expectativa não é objetivo.  É sensação. Por isso sempre tem uma saída favorável.

 

Cresceu e se certificou. Do pensamento da infância. Procedia. As ruas são rolantes mesmo. Só não vê quem não acredita. Ou teme. Saiu de lá ainda adolescente. Deixou o pantanal. Pegou uma rua rolante que passava por ela. Num daqueles dias de decisões. Foi parar numa capital do sul. Estudando a alma humana. Descobriu que nem tão humana assim é. A alma dos humanos. Algo por aí. Depois uma outra rua. Desta vez com endereço mais certo. Parou no nordeste. Numa cidade com mar em volta. E lá dobrou uma esquina. Saiu do caminho das ruas rolantes. Por enquanto.

 

Agora estava na expectativa. Da continuidade interrompida. Vai ver por isso ressuscitou os sapatos. Dos bicos finos. Do tempo das onças. Do eterno inadequado. Aos olhos de qualquer um. Mas nunca aos olhos de cada um. De quem entende. Porque sente.

 

Num dia de solidão lembrou as suas idas. Sempre sem vindas. Riu. Com o olhar fininho. Disso não se livrara. Não esquecera em nenhum banco das ruas rolantes. Assim riu ao lembrar a vendedora. A da loja dos sapatos. Da cidade enorme. Será que as ruas rolaram para ela também. Será que lá ficou na mesma função. Apenas ferina. E pensando num mundo com onças.

 

Rindo desatenta dos ímpetos de crianças. Ou dos seus olhinhos avaros pelo novo. Nunca soube. Quando as ruas e escadas rolam o que fica para trás não se sabe. Não existe um para trás nesta engrenagem. Não existe ré. É só subida ou descida. Pode-se até voltar. Mas já será um outro espaço. Ou um outro caminho. Com outras pessoas compartilhando. Ou até com as mesmas. Mas já não as anteriores.

 

O resto da engrenagem vira memória. Nas pranchetas. Dos adultos.

 

 


Março 27 2009

E lá estavam todos. Conforme o demandado. Conforme o combinado. Para a noite festiva. Como um brinde de Martini impresso. Sem esquecer as azeitonas. Genial.

 

Quando cheguei já o vi. Sorridente. Bonito. Alegre. O vermelho da gravata em compasso com a alegria pelo encontro. Parecia cansado. Mas atento. E feliz. Para todos sorria. Um sorriso acolhedor. Além do exclusivo profissional. Competente em ambos.

 

Todos foram aos poucos se agrupando. Um temporal havia brindado o trânsito pouco antes. Mas os convidados foram chegando. Juntos. Separados. Daqui. Dali. De lá. Felizes. Todos se sentindo dentro do intitulado no convite.

 

Rimos muito. As três. Com um espaço tão maravilhoso. Uma vista panorâmica de arrepiar. E iniciamos a noite bem ali. Justamente ali. Nada elegante. Mas, repensando. Apropriado.  Sim. Sempre se pode dar mais um retoque. Um treino. Rimos por conta disso. Diante do espelho. Falando ao mesmo tempo. As três. Mas com total compreensão do falado. Individual e coletivo.

 

Nos reunimos a eles. Comidas e bebidas adequadas no lugar adequado. Mais uma vez. E os risos. Principalmente os risos. Este é o meu som preferido. Risos em burburinhos. Aqui e ali. Isso sem falar nos olhares. Estes sim. Denunciavam bem os motivos. Por todos estarem ali. Com ou sem temporal.

 

Olhar é muito mais pragmático do que riso.

 

Ele veio de lá. Foi apresentado. Se apresentou. Parecia surpreso, constrangido e disposto. Tudo ao mesmo tempo. Todos se conheciam por escrito, digamos assim. Difícil falar com a letra. Afinal, letra não tem tom de voz. Não tem sotaque. Não tem mímica. Muito menos coletividade.

 

Na letra o exercício da solidão ganha sempre o primeiro prêmio.

 

É nessas horas que entendo os escritores. Poetas. Até os Pintores. O silêncio. Mas foi nesse Lugar. Com letra maiúscula que a letra expôs sua face. Mostrando suas imagens. As emoções já haviam sido demonstradas. Naquele outro mundo paralelo onde todos nós acabamos por nos identificar. Simbolicamente. Esta noite foi diferente. Foi a noite do corporalmente. Inclusive corporativamente. Procede.

 

Depois das apresentações já fui logo agradecendo. Pelo Lugar que me deu. Pelos Campos.  Nos dois mundos. E informo. Surgiu uma nova malinha. A de sorrisos. Lembrei da minha avó. Sempre me ensinou. Os sorrisos vão e voltam, menina, vão e voltam.  

 

Todos se apresentaram a ele se reportando às citações anônimas. Onde cada um estava num escrito. Desconheço apresentação mais verdadeira. Cada um se expondo e se impondo. Via um texto. Seu Lugar no texto. Eles também. Ele ainda ajudando com a bolsa.

 

De repente ele mesmo, o meu querido e gentil amigo da bolsa, resolve me dar mais notícias. Sobre novos lançamentos. Não achou suficiente o susto do escritor lusitano. Agora mais esse. O fato limitante. Dos pobres mortais nos quais me incluo. Como se não bastasse cada vez que visito os escritos dele.

 

Sempre me sinto na Idade Média. Na velha e boa Idade Média que tanto quis ter vivido. Ele faz isso com malvada sabedoria. Ver as fotos e ler o texto que ele escreve já me coloca no túnel do tempo. Seriam aqueles lá carros. Ou seria este objeto que fica em minha garagem. Difícil. Só não vou dizer que esta é uma das outras linhas difíceis de demarcação porque esta não é. A linha é bancariamente visível. E a Ilha é bem conhecida.

 

Depois outro susto. Então era ela. A autora de tantos testes. Do alto da sua delicadeza se revelou. Muito riso. A bolsa quase caiu do ombro dele. com o pulo que eu dei. E naquele mesmo espaço que eu também circulava. Com escritos técnicos. De sim e de não. Ela com o “se” e eu com os “sim e não”. 

 

Vai ver foi por isso. Nunca soubemos uma da outra. E circulávamos com nossas letrinhas com tanta tranqüilidade. Numa exposição de idéias e de “se”. Não esqueço os testes dos “se”. Se você é ciumenta. Se você é ansiosa. Se você é tímida. Se você tem baixa auto-estima. Nem lembro mais. Lembro que tentei responder alguns. Eu era tantos “se” positivos que desisti.  Me vi sem cura. E até bendizendo a psicóloga do passado. Como ele me disse dia desses. Mesmo sendo tão jovem. Já tem tanta sabedoria. Não é que as pessoas não mudam. As pessoas não aprendem. Ele está certo. Melhor ler sobre os novos automodelitos!  E acreditar que essa coisa de teste pode ser maravilhosa. Para uns. A mim nunca beneficia. Rimos com a descoberta.

 

Notei que uma das participantes do Lugar estava sozinha. Sem jeito. Tensa. Imaginei o quanto é complicado estar num lugar e não estar ao mesmo tempo. Sim. Porque percebi que ela só queria fugir. Mas tinha que ficar. Igual letra de samba canção. Um lenço vermelho no pescoço parecia uma corda.

 

Por onde de vez em quando ela repetia o mesmo gesto. Esticava. Acho que vou aconselhar aos menos avisados. Em situações de desconforto. Deixem os lenços em casa. Já que têm que levar os pescoços. Ri. Mas fui até ela.

 

Convidei para se integrar. Agradeceu. Percebi que sentiu uma pontinha de alívio. Um amparo. Não é possível. Inacreditável. Ela. A mocinha do lenço vermelho. A responsável oculta pelo espaço dos testes do “se” e dos escritos técnicos. Conclusão quase copiando o paradoxo do grego. Todos os mundos são pequenos.

 

E assim foi a noite. Do Martini digitalizado à possibilidade real de risos, sustos e surpresas. Acho que na dose igual. Com o passar das horas foi se esvaziando. Cada um buscando seu norte. Solidários. Isolados.

 

Ele me abraçou. Falou em tom suave para mim. Disse que estava muito feliz. Pela noite. Por mim. Pelas conquistas. Em terrenos tão desconhecidos. Pela coragem na exposição. Foi o que falou. E repetiu.

 

Quando saímos, ofereceu-se para levá-lo até o local indicado. Ele que viera de tão longe. Chovia e estava frio. Viajaria no dia seguinte. De volta para lá.

Acredito que teve algum excesso de bagagem. Uma de mão. As imagens de cada um. As outras três mais pesadas deve ter despachado. Uma de exclamações. Outra de sorrisos. E a maior de todas. Esta sim. Pagou caro pelo excesso. Da amizade conquistada.

 

Mas acho que vale! Tomara que ele concorde! Com este excesso! 

 


Março 22 2009

A noite começara cedo. Logo depois das tarefas nossas de cada dia. Eram os últimos dias das férias dela nesta cidade. Apenas um mês de férias. As celebrações se repetiam Depois de tanto tempo, tudo que se podia pedir era mais comemoração. Ela estava feliz. Parecia ao menos bem feliz. Não sei se pelo passado. Não sei se pelo presente. Ou se pelo tempo que voava em meio ao tempo que ficava. Não importa. Importa que estávamos todos ali. Os amigos mais próximos. Felizes.

 

O cardápio exato. Qualificado. Menu com nome e sobrenome. E adjetivo. Espiritual. Procede. O espírito mais alimentado que o corpo. Embora este tivesse muito bem acariciado pelo sabor.

 

A sala linda. Belos tapetes aqueciam o ambiente envolto na noite fria. A luz morna desenhava os contornos na parede. Os bibelôs marcavam o tempo ido. Nas fotos as idas e vindas no tempo. Tudo em acordo com a idéia. De afeto. De festa. De acolhimento. A mesa colorida. O vinho sombreava o toque gentil dos excessos. Entre pratos, taças e talheres os risos abençoavam a cena. Lembrei daquele filme. Lindo.

Onde a beleza e os prazeres são cantados em volta da mesa. E todos erguem um brinde. Ao amor. Linda cena. Que me perdoem os que discordam. Direção de italiano é diferente. Mas deixemos os italianos. E a direção.

 

A festa é lusitana. Lusitana de estilo lusitano. Agora me confundi. Vai ver o espiritual está contorcendo meu espírito. Ou torcendo. Por causa do pensamento anterior. Ou do acontecido anterior. Melhor tomar mais cuidado.

 

Ela também estava. E surpreendia com seus comentários rápidos. Parecia bem à vontade. Embora com um jeito mais tímido.

 

Agora dava para ser tudo saboreado. Com parcimônia. Com suavidade. Bem diferente da minha chegada. Cheguei um pouco mais atrasada, mas nem por isso menos acelerada. Foi o que transpareceu. Explicitamente. Tivesse uma pilastra e teria também transparecido. Ri. Agora dá para rir. Na hora, não.

 

Parecia cena de filme. Esta por certo não seria do tal diretor italiano. Nada tinha de requintado. Tropecei. No tapete. No tal tapete que aquecia a sala.

 

Mas enfim. Sempre tenho algo a ver com os decoradores. Um dia é uma pedra. Outro, um foco de luz. Desta vez um tapete. Tropecei. Justo na hora que ia cumprimentá-la. A borda do tapete virou. Prendeu no salto da minha sandália. O que seria uma entrada elegante se transformou. Quase tragédia. Digo quase porque toda tragédia sempre poderia ser pior.

 

Lembrei mais uma vez de minha sábia avó. Veja onde pisa menina, veja onde pisa. Nada. Mais uma vez. E lá se foi meu educado cumprimento.

 

Tropecei. Fui de vez em cima dela. Lembro-me dos olhos dela. Esbugalhados. Um passinho para trás. A mão erguida tentando salvar o vinho. Ou a taça. Ou o tapete. Ou a vida. Não sei. Foi tudo muito rápido para tecer filosofia. Ou desenhar telas. Foi de uma só vez. Cai por cima dela. Que me sustentou. Salvou a taça. O vinho. O tapete. Juntas nos abraçamos naquele afã eufórico, diriam os desavisados. E acabamos de encontro dorsal ela, frontal eu, no aparador. Que graças-a-Deus-estava-ali. Bendito seja agora o decorador. Vou levar flores no sindicato. Vou postar mais textos. Tudo em homenagem aos decoradores. Até ao inventor do aparador. E lá nos estiramos. As duas atracadas. Uma de braço pro alto erguendo uma taça e a outra com as pernas trocadas tentando segurar a mesma taça. Amparadas pelo dito móvel. Que ainda bem assim não se entendeu. Ficou imóvel. Portava os bibelôs. Um murmúrio geral fazia a cena quase olímpica. Todos com respiração suspensa. E nós duas com pernas e braços trocados. Ela erguendo a taça.

 

Fosse presente o mestre austríaco e mais um volume seria escrito.

 

Enfim acabamos o tal cumprimento. No alvoroço. Senti que todos respiraram de volta. Quase faltou oxigênio. Na sala. No prédio. Nos recompomos. Ela mais que eu. Ela tentava colocar os olhos no espaço correto da face. Re-encaixar o braço no ombro. Pousar a taça no aparador. Dobrar os dedos para avaliar o funcionamento. Eu tentava – simplesmente - entender direito e esquerdo. Pensando em meus pés e pernas. Lembrei de um filme. A ajuda vem de cima. Algo por aí. Porque escutei uma vozinha delicada atrás de mim.  Oferecendo um vinho. Aceitei. Mas antes sentei. Acredito que por prudência, ela se sentou mais afastada. Bem mais afastada. Segurei minha taça.

 

Desta vez com os braços na posição correta. Prendi o riso. Com tanta força que até me vi com o mesmo esgar da moça ruiva dos lábios preenchidos. Acho que fiquei igual a ela. Só que menos orgulhosa. Mas me contive. Também era o mínimo. Depois de tanta expansão.

 

Voltamos ao proposto. Fomos para a mesa. Ela se sentou ao lado dele. E ficou meio espaço atrás. Vai ver ele também resolvia ser efusivo. Ficou mais atenta ainda.

 

Fomos para casa. Oferecemos carona. Ela nos olhou. Senti uma dúvida. Ia recusar, mas aceitou. Sentou atrás dele. Na descida fez um pedido. Não precisam descer para me acompanhar. Fiquem tranqüilos. Fiquem no carro.  Obrigada. Boa noite. Ordenou. Nos despedimos aqui dentro mesmo, do carro.

 

Na calçada, atrás dela, tinha uma árvore com galhos baixos. Vi um filme de terror. Obedeci.

 

Tirei as sandálias no carro. Relembrei a cena do encontro. Da despedida.

Enfim pude rir relaxada.

 

publicado por Lêda Rezende às 15:46

Março 22 2009

 É verdade. Nem notei. Dez anos. Agora a dúvida. Logo eu que detesto dúvida. Tinha que surgir uma justo agora. Justo hoje.
Aconteceu muita coisa? Aconteceu pouca coisa? Só me vem à mente perguntas.
Ri.
Se eu soubesse respondê-las - nem teriam surgido.
Conclusão à moda austríaca.

E ainda nem me decidi se parece. Se parece pouco tempo ou muito tempo.

Ele quando soube, comemorou. Depois a pergunta. Arrependeu? Assim. Pergunta solta. Ele sempre faz pergunta solta. Quando quer fingir que não tem importância. A pergunta. Mas sei que é quando tem. Perguntou e se pôs a fazer alguma coisa. Disfarçou. Barbas de molho. Esta expressão sempre me lembra ele. Também tem outra. Pulga atrás da orelha.
Ri.
Ele percebeu. Mas preferiu não comentar. Discreto em tudo.  Por tudo.

Aquele dia foi incrível.

Sai de lá. Chega aqui. Em menos de doze horas o Universo trocado. Cenário trocado. Paredes trocadas. Rostos apagados. Rostos apresentados.
Cento e noventa e seis caixas.  Não esqueço este número. Cento e noventa e seis.
Entraram por uma porta. Eu saí pela outra. Para o Hospital.

Caixa sempre é questão. Uma já é. Mas cento e noventa e seis é terremoto.
Ri de novo.
Era mesmo o que parecia.  Meu coração. Parecia um terremoto. Batia de todo o jeito. E de toda falta de jeito.
Acabei no Hospital.

Caixa entrando e eu saindo. Ele que me levou. O mais velho. O mais novo ficou. Angustiado. Rimos muito no caminho. O motorista do táxi não entendia. Era urgente porque era mortal. Como poderia se rir tanto disso. Nem nós sabíamos.

O médico até desconsiderou. Avisou ríspido. Quem está morrendo não ri. Conclui rápido. Ele não entendia nada de morte. Muito menos de riso.
Mas acatei.

Voltei. No mesmo dia. Voltou o compasso. Do coração. Eu sempre fui descompassada.Sempre tive problema de conteúdo e continenti. Não cabia. Nada cabia. Empurrava daqui. Ajeitava dali. Fiz doação. No final: casa arrumada. Casa montada - como diziam de onde vim.
A posse se renovava a cada trinta dias.

Lembrei que tinha um fantasma. Ri agora. Todos o viram. Mudava até as coisas do lugar. Um dia ele sumiu.
Deixou que a integração de posse ficasse para mim. Ou minha.

Ele brinca que sou desorientada. Descompassada pode ser. Desorientada não. Não sei. Talvez sim. Nunca entendi de bússola. Nem sequer compreendo os pontos cardeais. Seguia as setas. Foi por uma dessas setas que nos conhecemos. Uma história simples. Ou uma simples história.
Não parece filme. Não parece do outro mundo. Um encontro. Começa com o olhar. O dele. O olhar sempre traz o impossível de ser dito.
Continua com as palavras. As minhas. Se organizam com o ato. Conjunto.

Eles ainda moravam comigo. Eles chegavam das aulas à noite. Jantávamos juntos. Sempre rindo. Nos divertíamos com qualquer coisa.
Tinha um frigobar. No vestíbulo. Passinhos na noite.
Não era o fantasma. Farra no frigobar. Farra de chocolate.
E pela manhã só embalagens vazias.
Ninguém dizia de quem foi o ataque maior.
Ri mais uma vez.

Lembrei do frio. Aquecedor pela casa toda.
Eram tantos que possibilitava a idéia de usar protetor solar.

Ri quase alto.

Nem sabia as ruas. A cada nova esquina um susto. Benditas placas. Ou bendito seja o inventor das placas. Minha vida pendurada num fio.  Olhava para cima e descobria os rumos.  Me sentia numa nau. Arrecifes de um lado. Tubarões do outro. Icebergs mais adiante.

A Nau dos Insensatos. Ou da insensata solitária.  Gostei da analogia.

Ele não entendia como eu gostava do trânsito. Transito. As ruas eram mais minhas a cada dia. Se eram minhas, não faziam mal. Podia demorar nelas. Até hoje gosto das ruas. Gosto da intimidade conquistada.

Ele me achava corajosa. Inteligente disse um dia.
Quase dei um pulo.
Esta palavra sempre me soou tão alheia a mim.  Lembro do dia em que contei isso a ele. O motivo do tal alheiamento. Tive um diagnóstico de retardo de raciocínio. Algo por aí. Ele riu. Negou. Até se irritou. Falava sempre que eu era inteligente.
E a palavra começou a me soar mais próxima e menos verbete.

Muitas vezes ele ria ao me ver sair. Todos já me conheciam. O jornaleiro. A mocinha da livraria. O segurança do estacionamento. Até o judeu mal humorado da lavanderia. Era mal humorado. Mas quando me via sorria. Tinha um neto. Escutei todas as gracinhas dele. Mas nunca o conheci.

A cidade me incorporou. E eu ela. Não sou natural daqui. Mas escolho. Sou artificial daqui.
Ri.
Vou escrever isso em meus registros.

E tinha ela. Era ótimo. Ela vinha todos os dias no final da tarde. Tomávamos chá e comíamos bolo. Ríamos muito. Ajudamos a saúde financeira da fábrica dos bolos
Não sei qual de nós duas era a mais solitária. Talvez as duas. Ou nenhuma das duas.
Só sei que ríamos e comíamos. Quando estava frio era café com conhaque. Poucas vezes choramos.
Agora caiu uma lágrima. Ela se mudou para bem longe. Depois do mar. Quem sabe um dia uma de nós escreve um livro. O Banquete na Cozinha. Perdão Platão. Mas o nosso era mais divertido. E nunca chegou o Alcebíades bêbado. Agora ri mesmo e ele viu.

Me olhou. Viu que estava rindo. Acho que viu que escondi a lágrima. Deve saber tudo que estou pensando. Ele sabe tudo de mim. Sempre. Às vezes tem ciúme. Do tempo que não encontramos a seta. A seta que nos encontrou. Nega. Diz que não se incomoda. Mas sei bem que se incomoda.

Bobagem. Pare com isso. Que abraço gostoso. Sim. Como poderia estar arrependida? Muito bom.

Sim, é verdade. A ignorância é que permite a coragem. Eu tinha as duas. Que sorte a minha.

Concordo. Tudo deu certo. Dez anos. Sim. Sem dúvidas. Aconteceu muita coisa.

Muita coisa boa, maravilhosa.

Viva a artificialidade. Também amo você. Muito.


publicado por Lêda Rezende às 00:42

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