Blog de Lêda Rezende

Janeiro 11 2010

 

Ele aceitou de imediato.

 

Vamos sim. Há muito não jogo. Devo estar fora de forma. Mas recupero. A quadra está bem escolhida. Aceito sim. Certo. Hoje excepcionalmente no final da tarde. Os três. Combinado. Mas fica então este outro horário uma vez por semana. Perfeito.

 

Seguiu-se um rápido processo de escolhas. Compra de material necessário. Os velhos equipamentos envelhecidos pelo desuso – não mais aceitavam ordens. Digamos assim. Carregados de entusiasmo - compararam. Selecionaram. Esta marca é ótima. Este tamanho está adequado. Este horário fica então reservado.

 

E o que era apreendido num dia a dia de insone tensão - se reverteu em tranquila programação. Da cumplicidade. Da lúdica contradição com a própria lógica.

 

E lá veio o dia exato. Já com o processo estabelecido. 

 

Pela primeira vez em muito tempo conferiu - expectante - a meteorologia.

 

Nada de chuva. Frio é o de menos. Acesso é um tanto faz. Não importa. O horário. Este sim – privilegiado. Já começou ganhando. Chegou cedo. Antes do agendado. Procedia.

 

Iniciou rindo e rindo continuou. Concentrou. Desconcentrou. Perdeu. Ganhou. Assim. Compromissado consigo mesmo. Um jogo compartilhado – mas solitário nas decisões. Mas nem por isso menos dividido. Uma magia.

 

O local ficava no alto de um prédio. A vista era espacial e especial. Tão especial como o recém adquirido entusiasmo. Parecia que céu e terra se moviam a favor. E deixavam que o corpo brincasse com a posse da nova sensação.

Entre saltos e braços erguidos. Entre saques e rebaixamentos. O mundo traduzia – inocente - as condições normais de temperatura e pressão. Uma filosofia se fez requerida – e respondeu presente. Perfeito.

 

O formal e o ritual se fazendo e se desfazendo. Dentro de cada tempo. E de cada um. Quase nivelado num mesmo simbólico. Compartilhado num mesmo real. O Imaginário tratado como deve ser tratado.

 

Combinado. Semana que vem tem mais.

 

Impossível não observar.

 

Vai ver foi o excepcionalmente. Muitas vezes uma única palavra pode produzir muito mais que centenas de atos seqüenciais. Ao menos foi o que pareceu. Ou ficou sugerido. Dava até para relembrar o mestre austríaco. Ou o mestre francês.

 

Impossível não questionar.

 

O que provoca um riso especial.  Mais que o riso. Sobre o riso já tem tratados suficientes. O que provoca um entusiasmo. Ai sim. Uma questão quase mítica. O que faz alguém - de repente - entrar numa sincronia de festa. Num ritmo de projeção.

 

Pode-se até não saber por onde começa. Mas entende-se por onde percorre.

 

Percorre toda a força da emoção. E se instala no corpo. Quase um enlaçamento. Mas como algo do instante. Subitamente. E sincronicamente.

E no instante exato o corpo sabiamente acolhe. Numa obediência de rebeldia desconhecida.

 

Diferente de um corpo a caminhar correto e linear - ele se expande. E se proclama.

 

Impossível não compactuar.

 

Ele sempre cuidadoso. Atencioso. Muito mais do que se comportava - assim se portava. Rigoroso. Executante. E sempre ativado. Censor e sensor de si próprio. Órfão auto-imposto de desculpas e perdões.

 

Mas desta vez foi diferente.

 

Desde o momento em que o convite foi formulado. Desde a primeira sugestão. Escutou.  Aceitou. Assim. Simplesmente. Sem maiores ou menores comprometimentos.

 

Como requisitado de fora de si mesmo. Ou adequado para dentro de si mesmo. Não importava.

 

O riso se fez claro. O projeto se fez objetivo. E a participação se fez efetiva.

Reorganizou a rotina. Revirou a memória. Aqueceu os músculos. Reconsiderou os limites. Dispensou banalidades. Repensou no já sabido. Recusou acertos com a estrutura.

 

Saiu - ao final de mais um dia de trabalho - dono de si mesmo.

 

E lá se foi junto com eles. Vai lá saber quem primeiro ergueu o braço. E deu o primeiro saque. Depois de tantos anos. Despertando antigos referenciais. E rindo dos erros e acertos - cada um se fez Presente. Passado. Futuro.

 

Estava confirmada mais uma nova etapa.

 

Se Alguém num acesso de curiosidade olhasse lá de Cima – certamente iria desejar descer. Entre raquetes e risos a Vida parecia regida de forma coerentemente perfeita. 

 

 


Janeiro 05 2010

 

Ao final do dia - o cheiro invadiu a casa.

 

Lembrei do livro. O autor - já bem vivido - explicava. O paladar começa pelo nariz. Perfeito. Nunca li nada mais adequado. Nem importam os dados da Fisiologia. Ou da Anatomia. Muito mais vale a Filosofia. Não existe órgão do sentido excludente. Eis uma táctil e aromática verdade.

 

Já acordei assim. Como guiada pela manufatura. Ou pela ansiedade das mãos.

 

O dia amanhecera um pouco silencioso. Diante de um frio insistente em ficar. E de uma garoa persistente em desobedecer. Nada de espaço primaveril. Mas as estações devem ter lá um próprio manual de instruções.

Que sigam - de acordo. E que nós daqui nos adaptemos – sem acordo.

 

Enfim esta não é a minha tarefa.

 

A minha daquele dia já havia sido definida. Há trinta e dois anos. Agora era uma questão apenas operacional.

 

E desde cedo comecei os preparativos. Mas não sem uma organização. Coloquei música. Em um sequência que surgiu de repente. Nada muito programado. Mas acatado. Como um ritual. Talvez seja assim a arte da manipulação dos alimentos. Muito mais que facas e pratinhos. Um ritual especial - por si só - se estabelece e se confirma. Alheios a nós. E tantas e tantas vezes sequer percebemos.

 

Desta vez foi especial. Fiz como que compactuando. Ao menos dentro do possível de uma racionalidade.

 

Corta. Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

 

A música se fez sábia. Sim. Nada do que foi será igual ou do jeito que já foi um dia.

 

As mãos e ingredientes se fizeram um só. Difícil até saber quem comandava quem. Ou o que.

 

Mas lá fiquei. Entre músicas e memórias. E aí foi impossível não lembrar a minha avó. Ela repetia com muita segurança. Cozinhar e viver - é a arte de saber dosar, menina, cozinhar e viver - é a arte de saber dosar. Procede.

 

Corta. Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

 

Olhei para o colorido dos ingredientes. Para a disposição deles em panelas e pratos. Parecia uma rosa dos ventos. Ri. Vai lá saber de onde saiu esta idéia.

 

Vai ver foi da música que tocava. Amanheceu o espetáculo. Como uma chuva de pétalas. Ri e continuei dando toques e retoques. Afinal – não é só de boa intenção que sobrevive o paladar.

 

A esta altura já estava misturando mais ingredientes que os da realidade culinária. Tentei me acalmar. Deve ser assim que se cozinha. Uma pitada de história. Uma ponta de saudade. Um ramo de alegria. Uma colher de nostalgia. Uma dose de contradição. E por aí vai. O importante é estar em sincronia com o processo. Um erro em cada parceria – uma pitada que seja – e lá se vai o doce sabor do proposto.

 

E foi em meio a tantos rituais e conclusões – que ao final do dia - o cheiro invadiu a casa.

 

Delicado. Independente. Intenso. Surpreendente. Delicioso.

 

Saiu de dentro dos continenti e se espalhou. Pela cozinha. Pela sala. Por todas as varandas. Subiu as escadas. Passou pelo terraço. Mexeu com os deuses.

Sorriu para o Banquete. E voltou – completo - para dentro de onde saíra.

 

Ao final da tarde – parei. O dia cabia dentro da noite que chegava.

 

Na cozinha os sinais de guerra estavam já apagados. Tudo parecia composto de magia. E não deixava de ser. Não havia sinal de ato braçal. E sim de ato manual. Pode parecer semelhante – mas não é.

 

Continuei. Agora caminhando e olhando em volta. Gostei do que vi. A mesa posta em tons suaves. Tudo em azul e branco. Num canto discreto orquídeas cor-de-rosa. Penduradinhas em seus cachos faziam o contraste mais belo. As taças altas pareciam sair de pedestais. A sala se enfeitava com efeitos múltiplos de um festejo conquistado.

 

A campainha tocou. Eles chegaram. Parecia até nome de filme. Seis à mesa.

 

Ri. Os brindes foram feitos. Votos renovados. Fotos atualizadas.

 

A música continuou. Parceira simbólica dos gestos e falas. Godiamo, la tazza e il cantico la notte abbella e il riso.

 

Estava confirmada a comemoração. E já parte da história de todos nós.

 

 


Dezembro 31 2009

 

Nunca saíra daquela pequena cidade.

 

Nascera e se tornara adulta no mesmo bairro. Toda a vida circulara diante dos mesmos códigos.

 

O bairro onde nascera portava uma simbologia. Vinha de um tempo de escravos. Mas se chamava Liberdade. Havia música pelas esquinas. Havia danças. Rituais ecléticos preenchiam de esperanças os corações. A comida era vendida nas ruas – o que dava um cheiro peculiar.

 

Tudo funcionava como se fora um universo particular. Girando não sei se dentro ou fora – do universo social.

 

Ali fora alfabetizada. Orientada. Vinha de um núcleo familiar pequeno. Apenas mais uma irmã. Cedo conheceu o parceiro. Cedo casou. Mudaram-se com os poucos pertences e presentes para uma casa pequena. Próxima da família de ambos. E lá ficaram por toda a vida.

 

Um dia avisou. De um ímpeto só. Escolhera mais um outro futuro. Trabalharia na área da saúde. O marido se surpreendeu. Desde quando. Por que. Para que.  Melhor ficar a fazer o que tem em casa.

 

As perguntas foram muitas. As insinuações mais ainda. Desconsiderou uma por uma. Continuou apenas informando a composição da decisão.

 

Vai lá saber o que despertou nela. Nunca soube ao certo a causa. Mas lidou muito bem com as consequências.

 

Estudou com dificuldade. Precisava trabalhar para completar o curso. Precisava de livros. De roupas brancas. De material próprio. Mas na mesma proporção das dificuldades – encontrou soluções. Não tinha a quem solicitar. Se é assim – concluiu – solicito a mim mesma.  

 

Trabalhou. Noite e dia. Intercalando livros com cuidados da casa e do filho recém nascido. Amamentou com ele no colo e o livro na mesinha ao lado. Assim estudava. Lavou e passou roupa recitando nomes e técnicas de procedimentos.  

 

Decorou pequenas fórmulas. Revisou contas.  

 

Enfim concluiu o curso. Fez um concurso. Público. Aprovada- entrou para o seu primeiro emprego. Feliz. Conseguira.

 

E lá está há quarenta anos. Quarenta anos. Neste mesmo emprego. Sem faltas. Sem atrasos. Sem queixas. Muitos entraram e saíram. Muitos chefiaram. Muitos outros desistiram. Mas ela continuou.

 

Decisão é parceira da existência. Uma vez conquistada – para sempre priorizada.    

 

O filho cresceu. O marido mais apressado - se foi numa noite depois de algum sofrimento. Cuidou dele até o final. Chorou. E foi guardando as lembranças nas dobras do lencinho.  

 

Assim poderia ser contada a vida dela. Desse jeito linear. Mas nem sempre a vida entende que pode assim ser vivida. E surge uma contramão aqui ou ali. Um desvio.

 

De tanto cuidar – descuidou de si mesma. E o corpo não perdoa descuidos. Cobra. Aponta. Expõe.

 

Fez a cirurgia. Chorou quando lembrou o tempo que amamentava. Chorou pelo passado. Pelo presente. E pelas perdas. E duvidou – pela primeira vez - do futuro. E talvez pela primeira vez na vida toda – reclamou. Desaprovou.

Mas sabia fazer rimas. E continuou. Lutou.  

 

E durante essa poesia que inventou – surgiu uma oportunidade. Única. E para ela. Que nunca de lá saíra. Que nunca atravessara outros mares. Nem terras. Nem sotaques. Para ela o Mundo era muito maior que um globo. Ou um planeta. Era de uma imensidão que assustava. E quando pensava assim – segurava o portão da casa com força.

 

Mas recebeu um convite. Talvez até uma ordem. Vou mandar lhe buscar. Você ficará um mês aqui. Com todos nós. Desde que saímos daí sonhamos com esse dia.  Agora o dia chegou. Vai passear pela cidade. Vai descansar. Vai conhecer onde moramos. Vai escutar outros sons. Virá de avião. Nada de estrada.

 

Eis uma imagem inesquecível. Ela sozinha. Com uma roupa branca. Um casaquinho bege sobre os ombros. Uma pequena valise nas mãos. Um sorriso tão feliz que – incontido - saiu dela e iluminou todo o saguão.

 

Veio. Abraçou um por um que a aguardava. Escaparam lagriminhas emocionadas. E falou. Então é assim. Então estou aqui. E só demoraram duas horas e vinte minutos. Pensei que fosse tão longe.  

 

E o mês se fez alegre. Trocou de Liberdade. E celebrou também a nova. Fez-se de econômica a consumidora. De curiosa a integrada.

 

E como na Vida não existe Matemática nem lógica – quando retornou – repetiu os exames. Estava curada. Já não temia. Aprendera sobre distâncias e espaços. Sobre limites e infinitos.

 

E nunca mais segurou - assustada - o portão da casa com força.

 


 


Dezembro 21 2009

 

 

E lá estávamos a caminho do mar.  

 

Eles nos levaram. Também iriam para uma outra viagem. Seria a chance de desejar - mais uma vez - mais felicidades. Para o Novo que ia começar.   


Últimos atos – corretos. Horário - correto. Local – correto. Documentos – correto. Todos os corretos em ordem correta de aprovação.

 

Feito a parte protocolar. Com toda a calma. Direto para um cafezinho. Nada como um pouco de cafeína. Em cima da adrenalina. Rimos. Deliciosa aquela doce sensação. Do pré-embarque. Já superada a fase de preparatória. Agora já estávamos dentro. Do campo. Perfeito. 

 

Enquanto caminhava lembrei dela. Me avisou que iria para o mesmo lugar. Ver os fogos na praia. Ver a virada no mar. Sentir os grãos da areia na pele. A água espumante tocar a alma. Até imaginou se nos encontraríamos. Concluímos que seria não muito fácil.  

 

Ficaríamos em lados opostos. Da agulha da bússola. Até ri quando lembrei do chiste. Entre a mutante a a imitante. Muitas palavras se construíram.   

 

Lembrei da minha avó. Muitas vezes lembramos do que está bem perto, menina, muitas vezes lembramos do que está bem perto.  

 

Foi assim. Lembrei dela. Lembrei a minha avó. Virei e ela estava lá. Não a minha avó. Ela. Inacreditável.

 

Os mais místicos diriam – procede. Os mais incrédulos diriam – viável. Os mais tendenciosos diriam – possível. Os mais céticos diriam – invenção. Os mais alheios diriam – combinado. 

 

Não importa. Ela estava lá. Pela segunda vez. Ela sozinha. E nós ali. Como que para acolhê-la.  

 

Nos conhecemos num cenário parecido. Todos viajando. Também pelo ar. Um vôo dentro e fora de nós mesmos. Nas idéias. Pelas idéias. Na tecnologia. Da possibilidade virtual para quase impossibilidade de um real. Todos se identificando. Tímidos. Mas conscientes. Dos limites e da falta deles. Afinal há um mundo onde só idéias dominam.  

 

Em volta de um outro onde as imagens limitam. Assim foi nossa apresentação. Ela sozinha - a amiga faltara. Solitária em meio aos participantes. Não os conhecia. Juntou-se a nós. Aí começaram as surpresas. Descobrimos tantos amigos em comum. E tão queridos. Também em comum. Ele também se apresentou. Tinha vindo de longe. Também tímido. Eles dois ainda estavam juntos. Foi uma noite de solicitação.  

 

De um para outro. De todos para um. Até de um para todos. Embora nem nos déssemos conta disso na hora. Quase sempre é assim. Primeiro solicitamos. Depois nos apresentamos. Tolice pensar que é o inverso.  

 

Agora estava ali. No cafezinho. No lugar da tal cafeína por cima da adrenalina. Quando escutou seu nome levantou a cabeça. Quando nos viu, gritou. Abriu a boca. Abriu os olhos. Rimos. Nos abraçamos. Em meio aquela multidão. Aqueles inúmeros possíveis traslados. Estávamos na mesma hora. No mesmo lugar. Indo para o mesmo destino.  

 

Ela sozinha. A amiga estava em outro local. A mesma amiga da outra vez. A que faltou. Havia um chiste. Sensação mística pode dar em consulta. Com o psiquiatra. Rimos. Lembramos da consulta. Deveria ser agendada. O mais rápido possível. Rimos mais. De repente, a pergunta básica. Um pouco temerosa. Pela resposta. E a resposta veio certa. Certeira, como diriam de onde ele veio. Os mesmos números. Sequenciais. De assento. Vizinhos de assento. Quase ligamos para o psiquiatra ali mesmo. De imediato. Consulta de emergência. Antes da virada. Sem fogos. Sem ondas. Nada de alma resfriada. Rimos.   

 

Ela tranquila - questionava. Ele solidário - registrava. Eu atenta - aguardava. E nós todos  compreendemos. Assim são os permeios da vida. Lá um dia nos vemos diante de uma nova situação. De uma nova coincidência. Que não sabemos os motivos. Mas entendemos a  mensagem.  

 

E essa é a magia da vida. A magia que rege o Universo.   

 

Conversamos durante a travessia. Pela primeira vez todos nós falamos. De nós mesmos. De nossas histórias. Uma sinopse. De nossas vidas pessoais. Mas nem por isso menos particularizada. Das necessidades de mudanças. Das certezas dos pedidos. Da torcida pelo atendimento. Ela enfática. Iria fazer uma lista. De tudo que planejava. E ia seguir. À risca. Com ou sem risco. Rimos mais uma vez. Só não perguntei se tinha lembrado. Da tal agendinha. E do lápis.  

 

O tempo cumpriu seu prazo. Sentimos a terra firme. Seguimos as  nossas bússolas.  

Ou – vai lá saber - as nossas bússolas nos seguiram.

 


Dezembro 15 2009

 

O jantar fora maravilhoso.

 

Eles vieram cedo. E desde cedo a alegria estivera instalada. E circulando. Nos sofás. Nas cadeiras. Nas poltronas. Pela varanda. Pelo terraço. Incrível como as sensações funcionam. A alegria é objeto de qualificação. Não de quantificação.

 

Alegria faz murmúrio, como um roçar de tecidos finos. Como o passar de dedos em cristais trabalhados.  Um doce e suave murmúrio. Só quem a sente - entende. Foi o que todos descobriram na noite. Feliz. Felizes.

 

Distância foi outra descoberta. A rapidez como ela se anula. Ele estava distante. Ela junto com ele. Entre serras. Mas na hora dos brindes estavam ali. Juntos. Mais uma vez não se pode negar. Viva a tecnologia. Que permite dar um som ao coração.

 

Não resistiu. Fez mais um brinde.  À inteligência que permitiu a evolução. Algo por aí. Depois do pipocar discreto de bolhinhas nas taças não se pode exigir muito mais. Até riu. O espaço incluído. Incluindo. A distância foi vencida pela alegria. Pela afetividade.

 

No dia seguinte tinha mais. E os da serra estariam presentes. Corporalmente.

 

Lembrou a avó da amiga mais uma vez. Toda festa tem as próprias cores, menina, toda festa tem as próprias cores.

 

E foi cuidar das cores da dela.

 

Arrumou a mesa. Organizou o serviço. Colocou os presentinhos no lugar. Catou papel. Dispensou o dispensável. Organizou o indispensável. Ele só elogiava. Notou uma sutil diferença no olhar dele. Como se estivesse vendo algo novo nela. Que não vira antes. Não decifrou muito bem. A etiologia como diziam alguns. Mas gostou do que viu. No olhar dele para ela. E ficou ainda mais feliz na elaboração.

 

Todos reunidos. Sempre quis assim. Reunião por união. Não por datas. Ou por prioridades outras. Mas por união. E assim eles eram. Todos. Por isso a alegria era tão delicada. E, ao mesmo tempo, tão exposta.

Começaram as surpresas. As trocas. Os beijos. Os abraços. As boas intenções. As pluralizadas idéias. O toque de cada um. No conjunto para todos. Olhou em volta e pensou. Palavras não dão conta. Fotos não explicam. Aquarelas não dimensionam. A real emoção.

 

A Arte tenta. A cada tentativa, uma nova busca. Passam-se os anos. Modificam-se os estilos. De cavernas para os museus. De clássico para cubismo. De impressionismo para expressionismo. Olho em testa. Gritos em pontes. Grafites. Textos antigos com roupagem nova. Textos novos com leitura antiga. Não importa. A procura é de literalidade. De decifração da emoção. Mas isso só existe mesmo dentro de cada um. Cada um tem sua leitura. E sua memória. Baseada em seus códigos. Por isso não se consegue a transcrição perfeita.

 

A coletividade na Arte é mais uma tentativa. De dar conta da falta de coletividade. Para que se torne sustentável. A existência de cada um.

 

Foi em meio a esse pensamento - vindo sabe-se lá de onde - que escutou seu nome e o dele.

 

E entregaram uma caixa. Verde. Linda. Toda de etiquetas. Com os nomes deles. Abriu.

Esqueceu da delicadeza da alegria. Nada mais de roçar de sedas ou cristais. Abandonou toda a recém criada teoria da Arte. O mais novo conceito de coletividade. Qual o que.

 

Tivesse um cristal perto e teria se espatifado o coitado. Com o grito de feliz surpresa que ela deu. Ali estava o que ela queria há tanto tempo. Havia até pesquisado nas lojas. Mas achou que ainda não era o momento adequado.

 

Tinha fila. E a fila tinha que andar. Aprendera esse controle. Em meio ao seu descontrole habitual. Na hora do controle nem se entendeu. Mas se obedeceu. Pode-se assim dizer.

 

E agora estava ali. Nas mãos deles. Nas mãos dela. Adorou. Muito. Repetiu tanto isso. Até avisou que só conseguia pensar nisso. A partir daquele momento. A única coisa que falou com objetividade foi da cor. Do objeto desejado e recebido. Vermelha. E brincou. Adorou. Estava numa fase rubra.

 

Todos riam com a expressão dela. Porque ela só falava e repetia. Que maravilha. Adorei. Adorei. E repetia.

 

Colocou no lugar devido. Era uma preciosidade. Pela forma da entrega. Pelo critério da escolha. Todos eles se juntaram. Combinaram. Decidiram. Fizeram acontecer. E ela ali. Feliz. Repetindo. Adorei. Adorei. Ele olhava para ela e ria. Compreendia. O pensamento por trás do pensamento dela.

 

Ela sempre carinhosa. Ela que colocara os adesivos. Com tanto cuidado. Eles todos assinaram. Era muito mais que um presente. Era toda uma composição. Todo um trajeto. Até que chegasse às mãos deles.

 

E o mesmo foi feito entre eles. Cada um recebia sua caixa elaborada. Uma troca. Com a surpresa-do-desejado dentro. Mais um pouco e nasceria outra teoria sobre a Arte. Ou sobre a Coletividade.

 

Riu meio de cantinho. Mas não explicou.  

 

Eis o valor. Entendeu a fala da avó. É verdade. Toda festa tem mesmo cores próprias.E repetiu mais uma vez. Adorei. Ele existe.

 

 


Dezembro 14 2009

 

Ele pedira de uma forma muito cuidadosa.

 

Não é fácil pedir uma transferência de data. Mas pediu. Arriscou. Sempre arriscava. Eis uma coisa que nunca deixou esquecido. Os riscos. Ou as trocas de datas. Sempre. Até quando pode, arriscou. E trocou data. Muitas - adiou. Uma - antecipou.

 

Desta vez pedira para passar o Natal do modo habitual. Ela ainda com o mesmo sobrenome. Antes da cerimônia. Seria este então o último assim. E já estava tão perto.

 

Ela ponderou. Ele cedeu. Combinado. Transferiram. Adiaram.

 

Feliz, ele organizou uma festa particular. E cheia de surpresas. Foi uma noite de muitos risos. Em meio a muitas lágrimas. Incrível como um riso sempre atrai uma lágrima. E o inverso nunca é verdadeiro. E desta vez não foi diferente. A cada gracinha um riso e um choro contracenando. E simultâneos.

 

Ele solicitou mais um favor. Uma gentileza. Quase uma imposição. Não registrar em filmes. Nem fotos. Preferia que ficasse como registro apenas da memória. De cada um. E quando não existisse mais os “cada um” que o assunto então se encerrasse. Porque ninguém entenderia. Pelas fotos. Pelo filme. Todo o significado. Poderia minimizar a noite. As palavras. As lágrimas e os risos.

 

Tempos depois ela até discordou. Por ter aceitado. Gostaria das fotos. Filmes.

 

Quando tudo se modifica, as fotos nos levam de volta. Ao cenário. Ao que passou. Cada imagem vem com descrição. E isso funciona como um sonho. Imagens - primeiro. Palavras - depois. E por inteiro. Mas enfim. Não tinha as fotos.

 

Ele passara a véspera do Natal - o dia todo fora de casa. Ninguém sabia onde. Todos perguntaram. Quando finalmente voltou. Ele não explicou. Ninguém viu sacolas. Nem pacotes. Nem presentes.

 

Jantaram juntos. Todos. Muitos. Uma festa de Natal. Na sala ampla a mesa coloria. Com a toalha. Com a comida.  Com as taças. Na sala ao lado uma enorme e colorida árvore.

 

E a surpresa. Muitos pacotinhos novos em volta. E ninguém vira quem os colocara. Todos brincaram. Não tinha chaminé.

 

E veio o momento dos presentes. Troca daqui. Agradece dali. Surpresinha lá. Gritinho acolá. Papéis pelo chão. Aquele suave barulhinho de presentes sendo abertos. Como mistérios desvendados.

 

Ele caladinho. Esperando a sua própria vez. De entregar os que ele comprara. Aí começou a surpresa. Do Natal. Os tais pacotinhos até então sem dono. Eram dele.  

 

E iniciou a distribuição. Cada um ganhou o seu. Adequado ao estilo. Ou à função. Ou intenção. Colocou música. Fez discursinhos. Cada um ganhou seu texto.

 

Ela tropeçava e caía. Com facilidade. Quase caiu de rir. Quando abriu seu pacotinho do presente. Ganhou um protetor de joelhos. Com lacinhos e tudo para prender na perna.

 

Ele não passava um dia sem uma reclamação. Fosse do que fosse. Até da falta de motivo. Já acordava reclamando. Se queixando. Ganhou uma agenda de queixas. Com carinha de birra na frente.

 

Ela acreditava na relação perfeita. Que tudo sempre podia ser resolvido. Com uma palavrinha a mais. Ou a menos. Falava sempre numa certa condescendência amorosa. Confiava nisso. Vivia nas nuvens. Ganhou um tapete. Imitando um tapete voador.

 

Eles dois só brigavam. Não se desgrudavam. Mas brigavam. Não era preciso razão. Nem culpa. De repente lá estavam. Brigando. Discordando. Brigavam até quando concordavam. Já fazia parte da relação deles. As palavras atropeladas. Ganharam uma placa. Psiu. Silêncio.

 

E por ai seguiu a noite. A cada pacotinho aberto – risadas.

 

Nada com valor material. Só emocional. Não se importava com outro tipo de valor. Só com o valor da emoção. E era um adorador. De risos.

 

A data foi transferida. A alegria permaneceu. Com dia e hora inadiável. Na memória de quem ainda está. Na história recontada.

 

O cada um ficou menos. Ele se foi. Mas a cada "você lembra" - a ausência se transforma em presença. Eternizando a idéia dele que - apenas do modo habitual -  não mais participou.

 

 


Dezembro 10 2009

 

Começou a contar de repente. Tão de repente quanto a lembrança veio.


Pelo menos assim conclui. Como dizia a minha avó. Jamais perca a chance de escutar as lembranças, menina, jamais perca a chance de escutar as lembranças.


Lembrança é coisa séria. E muito mais séria se da infância. Porque é uma lembrança constituída. Construída. Esclarecida. E, principalmente, não compromissada.


Assim são as lembranças da infância. Não nos deixa dúvida. E nos deixa em dívida. Com a nossa memória. Com os nossos prazeres. Que depois até se multiplicam. Ou podem se multiplicar. Mas nunca igual como na infância. Com aquela sensação plena de prazer. Que toda a infância envolve. Seja de que forma for. Não tem preço. Nem taxa cambial. Muito menos selo de made in. Tem que ver com entrega. Com aceitação. Com riso. Estes sim. Os indicadores do afeto. Como um mercado de afeto sem nota fiscal. Mas com o aval do olhar.


E ele contou.


Quando se sentiu familiado. Assim mesmo. Familiado. Que nada tem que ver com familiarizado. Estava certo. Familiado é integrado. Juntado. Compartilhado. Familiado diz muito mais. Mesmo que não se fale assim. Não importa. Sente-se assim. E explica-se bem melhor. Pela primeira vez estava entre tios e primos. Lembrava da voz dela. Melhor dizendo. Lembrava das palavras dela .Porque do rosto esquecera. Perfeito.


A voz dela orientava a olharem para o céu. Lá veriam uma barba branca esvoaçada. Uma mão esticada segurando uma cordinha. Do trenó. E muita cor. No meio da noite. Que estava já chegando a hora.


Lembrou de várias cabecinhas viradas para cima. Como devem ser os bons sonhos.


Lembrou que olhou. Nem precisou se esforçar muito. Porque logo viu. E feliz riu. Era verdade. Exatamente como a voz descrevia. Viu tudo isso. Viu até barulho. Viu o vento na barba. Viu que os presentes meio que se batiam uns nos outros. Muitas caixas. Mal cabiam naquele espaço. Mas cabiam. E nem caíam. Escutou os sinos. Escutou risos. E muitas cores. Muito brilho. Uma luz toda especial. Em cima dos presentes. Das fitas e da barba.


Alguém os mandou dormir. Para que pela manhã estivesse já tudo arrumado.


Obedeceram. Obedeceu. Foi dormir pensando no céu. No vento. Nas cores. Na barba. Dormiu em meio a esses quadros. A essas imagens. Mágicas.


Quando acordou pela manhã teve que segurar o rosto. Com as duas mãozinhas.


Em volta da enorme árvore estava uma montanha maior ainda. De presentes. Muitas caixas coloridas. Sentiu-se de novo familiado.  Ele vira o percurso. Enxergara no céu. Sabia como tinham chegado ali. E como fora difícil com o vento que fazia.


E eles ali. Descabeladinhos. Descalços. Com uma pressa que jamais sentira de novo pela vida a fora. Com tamanha urgência e ansiedade. Era preciso abrir logo. E cada um tinha um nome. Era preciso ver seu nome. Alguém tinha que ler seu nome no pacotinho. Para tomar posse como destinatário. Engraçado como isso depois se torna comum. E sem brilho. Ou sem aquele brilho.


Não lembrava a comida. Não lembrava o depois. Lembrava do seu presentinho. Uma imensa carruagem. Com lona. Com cavalinhos. Com rodinhas que giravam. Olhou encantado. E cada um deles abriu o que era seu. Em nome e - por conseqüência - em direito.


Passaram o dia brincando. De vez em quando ele olhava para o céu. Queria poder agradecer. Mas não via o dono da barba.


Achou que nunca mais o veria. Depois daquela noite.


Em meio ao relato da lembrança riu. Riu mesmo. Não devia ser uma montanha de presentes. Não devia ser enorme a árvore. Nem devia ser tão grande a carruagem.


E fez um gestual imaginário. Um muito obrigado. A quem não teve a idéia - de fotografar.


A criatividade na descrição de uma lembrança dá muito mais realidade do que uma foto. Uma foto apenas expõe uma cena. Congelada. Nada mais que isso. Não revela a dimensão do que se vive - no instante da foto.


E ele, que vivia em volta de papéis, pela primeira vez ficou feliz com a falta de documentação histórica.


Riu. 


Deu um salto da poltrona. Assim. Sem mais nem por que. Olhou atentamente para o céu. Teve uma súbita impressão. De ver um sorriso cúmplice. Dirigindo-se a ele. E meio encoberto. Por uma barba branca.


Tranquilo, sentou de volta na poltrona. E com uma suave sensação - de agradecimento cumprido.

 

 


Dezembro 06 2009

 

O amanhecer fora suave. Ainda bem.

 

Sem muito sol. Nenhuma chuva. Nem muitas nuvens. Com leve azul. Um dia para ser seguido de acordo com a vontade de cada um. Cabiam todos os gostos. E estilos.

 

Pode se conhecer um pouco mais os habitantes de uma cidade - pela atitude da cidade em torno deles. Pela forma como é construída. Pela forma como é concluída. Ou mais ainda – pela forma como acolhe a demanda de cada um dos seus moradores.

 

Nas ruas e nos jardins as flores já se antecipavam ao calendário sazonal. Os tons variavam entre amarelinhos, rosas e roxinhos. Assim enfeitavam aqui e ali. Com uma delicadeza que dava prazer de olhar.

 

Até o Parque já mudara seus tons. Surgiu um festival de cores. Muito lindo.

 

No dia que avisassem – é hoje – já estavam em pleno acordo. Viva o tempo da Primavera. Nada mais de cinza. De preto. De marrom. De botas. De corpos recobertos. Do pudor excessivo do inverno.

 

Agora todos estavam coloridos. Sandálias percorriam rápidas as calçadas. Os gramados. Bermudas liberam os que os agasalhos por tanto tempo recobriram. O chão já não tem mais o brilho frio da garoa.

 

Não há mais temor no esbarrar. Já não há tanto caminhar de cabeça baixa. As pessoas olham para cima. Para quem passa.  Cruzam e entrecruzam as ruas e as vitrines. Mais expostas. Menos pudorosas.

 

Até os comerciais mudaram.

 

Nada mais de feira de linha. De lã. De malha. De couro. De vinho.

 

Agora é protetor solar. Mil marcas e ofertas. Cervejas. Refrigerantes. Frutas.

 

Já não há mais toldos. Aquecedores. Janelas fechadas. Nos bares - mesinhas nas calçadas. Nos restaurantes - cardápios giram em torno de saladas e bebidas frias.

 

Nunca notei. Até me surpreendi. Mas é verdade. Ri-se muito mais diante do Sol.

 

E foi diante deste cenário que ele sugeriu o lugar. Perfeito. Depois ainda poderíamos caminhar um pouco. E presentear a retina com as alamedas floridas. Estava iniciado o fim de semana.     

 

Ela chegou. Já devia estar na oitava década.

 

Bonita. Elegante. Uma blusinha fina de cor verde recobria um conjunto bege. A pele clara. Os cabelos grisalhos bem arrumados. Um sutil ar de segurança dava o arremate final.

 

Escolheu a mesa. Sentou-se com cuidado. Olhou em volta com pouca curiosidade. Parecia estar muito bem acompanhada. Com ela mesma. Olhou em direção ao céu algumas vezes. Logo que chegou. Talvez para conferir as possibilidades. Confiante na própria conclusão - acalmou-se.

 

Quando o garçom lhe entregou as opções - foi decidida. Iniciou com um vinho branco. Um comportado convidado – digamos assim. Servida – pareceu se deliciar com a escolha.  Daí em diante o mundo ficou bem particular. Comeu com parcimônia.

 

De vez em quando girava o olhar pelo ambiente. E dele também se servia. Mas nada que apontasse para algum tipo de busca. Mantivera a curiosidade. Mas já dispensara a ansiedade.

 

Ela estava só. Mas não solitária. Parecia brindar algum tipo de vaidade. De orgulho. Havia algum pecado capital em torno dela. E, certamente, festejado. Disso não havia dúvida.

 

Manteve todo o tempo uma expressão de tranquilidade. Fosse o que fosse que aprendera na Vida – dera-lhe boas alegrias. Algo por aí. Difícil entender a ideia atrás do gestual. Mas ela - mesmo discreta - era exposta. Ao menos o suficiente para permitir este risco de avaliação.

 

Com a mesma objetividade que se serviu – deu por encerrado. Recebeu um discreto cumprimento de quem a atendia. Devolveu na mesma medida.

 

Quando saiu deixou a taça ainda com um pouco de vinho. O guardanapo realinhado. A cadeira cuidadosamente recolocada na posição. Mesmo na ausência – deixou marcada sua sóbria elegância. Como um sinal de respeito – por onde passava. E se comprazia.

 

Olhei para as mesas em volta. Alguns conversavam animados. Outros mais cuidadosos como temendo ser escutados. Um casal trocava beijinhos carinhosos. Um senhor reclamava do trânsito constante.

 

Solitário é quem não participa. Ou se conclui dependente por antecipação. Quem assustado - se recolhe. Ou temeroso de se expor por si mesmo – se afasta da vida.

 

Eis o que ela me ensinou. Com sua taça de vinho e sua tranqüila elegância por companhia.

 

Comentei com ele enquanto caminhávamos pelas alamedas com florzinhas recém brotadas. 

 

 

 


Dezembro 03 2009

 

Lá se iam encerrando - os dias plenos de escrita.

 

Ou para a escrita. Com feliz dedicação total. O tempo se esgotava. Retomaria a atividade da rotina – dia seguinte.

 

Ficara afastada por quinze dias. Acordava cedo. E já se transferia para o teclado.

 

Até sonhava com os textos. Podia falar dela. Ou dele. Ou daquele ato. Ou colorir aquele fato. Podia se sentir dentro do mundo. Mesmo estando isolada de tudo. Só. No quarto. Caberia até uma placa na porta da frente. Em recuperação.

 

De pele ao olhar – percorria os encobrimentos da memória. Muito a ser explorado. E - talvez - conquistado.

 

Desconsiderara Oceanos. Turbulências. Aderências. Convenções. Se sentiu como pisando em uvas. E vendo o sumo do vinho se fazer. Escutou música. Trocou mensagens. Relatos. Contou um pouco da vida. Acolheu dores distantes. Recebeu flores. Cores. Até amores.

 

Riu quando leu um recadinho. Ela escrevera. Aliás, pelo que escreve, parece que acontecem mais coisas na sua vida do que na vida dos outros! Ou você observa melhor! Assim. Com duas exclamações. Sentiu-se emocionada. Era um elogio e tanto.

 

Os motivos causais poderiam fazer temer. Mas as consequências foram só prazer. Eis uma rima que deu certo. E outra que se perdeu. Ainda bem. Dor rimou com nada. A dor ficou para trás. Vencida e sem par. E ela ficou com flor. Com cor. E com um doce sabor de calor.

 

Inegável. Foi uma beleza de hiato.

 

Lá se iam e vinham as ideias. Sem hora marcada. Sem pressa na construção. Corrigidas. Emendadas. Procriadas. Malcriadas. Educadas. Estava a viver o tal ócio que sempre ameaçara.

 

Mas fez uma pergunta. Talvez - tola. Onde estaria o ócio. Precisava de uma definição lógica. Sobre a exata localização do ócio. E pode rir de si mesma. Afinal – se nem tudo é perfeito, nem tudo também é o que parece.

 

Estava até dedicada aos provérbios. Lembrou de uma frase dele. Crescera com a frase envelhecendo junto com ela. Quem está perto do fogo é que se esquenta.

 

Optou por uma pausa nas frases.

 

Como dizia a avó de uma amiga. Não são frases que formam textos, menina, não são frases que formam textos. Procedia.

 

E nesse estado de letras – concluiu. Navegar é Preciso.

 

Restavam ainda algumas horas. Poucas. Mas seriam bem aproveitadas. Até a última badalada. E nada de perder sapatinhos. Ou alucinar abóbora. Ou brotar caninos. Esta é umas das possibilidades fantásticas da escrita. As horas avisam as badaladas. E não o contrário.

 

E quando o tempo é marcado – a espontaneidade se acelera. Corre. Percorre. Fica até tonta.

 

Mas ainda há tanto a fazer. Como assim. Já tem que sair. Que ligar o despertador. Que sentar sobre os trilhos. Que caminhar apressada em corredores.

 

Riu.

 

Apressada em corredores já denunciava. As ideias estavam assustadas. Como se arrancadas de um doce balançar de uma redinha. De súbito. E – afoitas – atropelavam os últimos retoques.

 

Assim se sentia. Deu uma rápida olhada em direção ao Universo. Olhou de forma circular. Se é que isso é possível. Fez um leve ar de birra. Quase perguntou se não compreendera. Mas achou inconveniente. Duplamente. E se controlou.

 

Desceu. Iniciou o processo da retomada. Qual uma obediente comandada. Organizou o material. Carimbo. Caneta. Os funcionais. Os profissionais. Incluiu os ocasionais. Nesse sobe e desce - recordou uma música antiga. Uma Viola. Enluarada. Assim estava se sentindo. Quase como uma despedida. Sempre dramática.

 

Mas seguiu o que tinha que ser seguido.

 

Houve uma simultaneidade. Assim. Sem mais nem por que.

 

O telefone tocou. Era ela. Com a voz suave e pontual - informava. Sua agenda de amanhã está completa. Bom retorno. E no mesmo instante um aviso. Chegou via tecnologia. Escrito na tela. Leremos na mesma Rádio. Mais uma história da sua autoria. Em tal hora. Em tal data.

 

Olhou para o Universo. Repetiu o olhar circular. Até ergueu as mãos. Sorriu. Desta vez lembrou a canção italiana, Ma che bello questo amore.

 

E retomou – tranqüila – a reorganização da rotina. Quem quer passar além do Bojador...

 

 


Novembro 21 2009

 

A noite era de festejo.

 

Parceria comemorando a individualidade. Uma noite em que o início seria celebrado. Mais ou menos assim. Ele estava feliz.

 

A noite estava clara. Quente. Carros passavam acelerados pelas largas avenidas. A música se integrava a cada esboço de aglomeração.

 

A escolha fora dele. Deste especial espaço. Optava por conhecer os hábitos nativos. A rotina dos habitantes. Não a rotina de quem chega. Não as apresentações programadas. Sempre foi o estilo dele. Descobrir o natural. Ver os bastidores. Para entender as veracidades. E até as falsidades.

 

Enfim. Lá chegamos.

 

Chegamos cedo. Mais cedo que o habitual do lugar. Ainda bem. O ambiente justificava este propósito.  Ser antecipadamente pontual.

 

Da entrada já se compreendia.  Era quase um santuário. Era um Lugar especial. Aconchegava noites. E fazia de todas – noites especiais. Uma beleza.

 

O cenário era maravilhoso.

 

No acesso principal se destacava uma cristaleira. Colocada suavemente a um canto lateral. Qual um símbolo. Enorme. Com taças ordenadas nas prateleiras. Os cristais lindamente trabalhados. Talvez o fruto da visita de algum deus à Terra. Mãos divinas ali deveriam ter tocado. Mesmo que – possivelmente - disfarçadas.

 

Um longo salão. Longitudinal – escutei este comentário. Não vi quem falara. Certamente alguém desavisado. Nada entendia de medidas. Só de exatidões.

 

Longas e envernizadas colunas de madeira escura contornavam o espaço. Fingiam delimitar ou amparar as laterais do teto. Ou mais ainda. Demonstravam a longa distância. E a diferença entre chão e teto. E as infinitas possibilidades de sonhos que esta distância abriga. Perfeito.

 

O piso era em mármore. Branco. Menos branco do que deve ter sido um dia. E talvez menos plano. Mas bem cuidado. Nem um risquinho inadequado emoldurava esta tela. Sim. O piso era uma tela. Foi o que pensei um minuto depois.

 

As mesas serviam de moldura. Alinhadas em volta do salão. Eram de madeira escura. Espaldar mediano. Assento acolchoado de veludo verde.

 

Tudo disposto de uma forma delicadamente estética. A cada um era permitida visão sem restrição.

 

As pessoas foram chegando. Pessoas comuns. Sem brasões. Sem vestuário griffado. Sem grandes belezas midiáticas. Sentavam. Elegantes. Apenas a postura denunciava uma sutil superioridade. Muito mais interior que exterior. Não dava para entender muito bem. Sou terrena demais. Conclui.

 

A intimidade com o local não abrandava a formalidade. Mas também não impedia o prazer associado.

 

Percebi que homens e mulheres seguravam sacolinhas. Continham os sapatos. Extras. Especiais. Funcionais. De cada um.

 

Quando trocavam os sapatos – uma surpresa. Deixavam de ser cada um. Se transformavam em pares. Belos. Belos pares. E longe de serem pessoas comuns. Transformavam-se em Pessoas. Suficiente.

 

Iam ao salão e dançavam.

 

Trançavam pernas. Com suavidade e decisão. E transparecia a sabedoria. Como se a cada passo – uma revelação. Do estilo. Dos pensamentos. Das buscas. Dos encontros e desencontros. Um pedacinho exposto da real história.

 

A música ordenava os movimentos. Mas as mãos dos homens - nas costas das mulheres - serviam de batuta. Marcavam o ritmo. Denunciavam o comando.  Tamborilando na pele as mil formas de ordenar.

 

Os garçons cruzavam de um lado para o outro. Mas não sem uma regra. Que é talvez muito mais que uma Lei. Só o faziam quando o salão esvaziava. Nada era oferecido enquanto a música da dança tocava. E os pares – dela apenas se serviam.

 

De tempos em tempos – a música era substituída. Por um tipo de jingle codificado. As pessoas voltavam para as cadeiras. E as bebidas ficavam - por poucos minutos – responsáveis pelo prazer ordenado. O salão expunha a solidão. E a tela se fazia branca.

 

Permaneci sentada ali. Ao lado dele. Olhando as danças. Os rituais. As sacolinhas. A troca de sapatos. Os pés e as mãos obedecendo e comandando.

 

Talvez nem sempre na proporção desejada. Mas num ritmo compartilhado.

Entendi. Talvez não a dança. Nem a completude dos pares. Muito menos os comandos corretos.

 

Diante da tela que se dispunha a solidarizar com o imenso espaço vertical – entendi uma parte da Vida.

 

Saímos de lá mais leves do que chegamos.


 

publicado por Lêda Rezende às 15:15

Novembro 17 2009

 

Quase não acreditei.

 

Abri a porta do quarto. E fui em direção às escadas. Assim. Com a sequência reconhecida. No habitual da rotina. O ato em si. Mas desta vez fugia ao destino.

 

Desta vez um rumo novo. Uma direção escolhida. Uma data festiva a ser comemorada. E tinha hora certa para dar inicio. A hora da partida sendo a mesma do inicio. Perfeito.

 

Lembrei logo da minha avó. Ela afirmava com propriedade. Entre o que começa e o que termina não tem sequer uma linha, menina, entre o que começa e o que termina não tem sequer uma linha.

 

Foi pensando nisso que sai do quarto. Entre a alegria da novidade. E o pensamento já antigo.

 

Primeiro o susto.

 

Estava tudo branco. Não via a paisagem. Só a cor branca se fazia plena. Muitos pensamentos se enfileiraram. Talvez em auxilio. Lembrei do Ensaio. Lembrei do Disco. Fiquei tentando adivinhar as cores. Compreender o excesso. Parada. Antes mesmo de descer as escadas tudo já havia ocorrido.

 

Não faltaram ideias. Ou recordações. E tudo diante do branco de uma paisagem ocultada. Enfim.

 

Depois a decisão.

 

Desci as escadas. Do lado de dentro - sala estava envolta no branco. Do terraço não se via nem o gradil. Como se houvesse nada além da imensidão branca. Ocupando todo o espaço. Apagando obstáculos. Limites. Acessos. Coerente com o incompreensível.

 

Mas lá me fui dar conta do planejado. Sem filosofias. Sem construções literárias. Tinha que prosseguir em tempo. Pelo tempo. Dentro do tempo. Que o branco lá ficasse.

 

Pragmatismo em ação. Tudo resolvido.

 

O que sobrou em branco - sobrou em falta. Faltava teto. Esta a explicação lógica. Sem teto – sem pouso. Sem pouso – sem decolagem. Simples assim.

 

Podia-se olhar o branco pelo tempo que agradasse. Mas do solo. Só isso. Enfim. Várias parcerias se estabeleceram. E lá ficamos a aguardar que pelo menos uma delas se dissolvesse. Para que o projeto continuasse dentro de uma possível execução.

 

Quando o Disco iniciou sua decomposição – o azul foi se aproximando. Enfim.

 

Cores e nuances iniciaram as suas tarefas. Com o mundo colorido – voltou-se ao propósito inicial.

 

Já não era sem tempo - disseram alguns. Olha o tempo que perdi – comentaram outros. Agora não chegarei mais a tempo – falou alguém com tristeza na voz.

 

Alguns se olharam. Outros ficaram dentro dos seus pensamentos. Talvez nem tão brancos como antes a paisagem. As expressões eram bem tensas. Talvez estivessem no oposto do Disco. Vai lá saber as conseqüência de uma total brancura. E alheia a qualquer avanço tecnológico. Uma brancura por si só.

 

Uma cor – é uma cor. Apenas isso.

 

Quando todos se acomodaram – os avisos começaram.

 

Orientações sobre segurança. O que é proibido. O que é permitido. O que é impossível de ser transgredido. Seguidos de explicações. Situações independentes da nossa vontade. Assim explicavam. Como uma valiosa informação prestada.

 

Sentados e acalmados – houve uma sensação de tranqüilidade. Como se já afivelados – o tempo voltasse ao controle. Cada um com sua solução. Ou sua dificuldade. Mas com absoluta expectativa de aceitação.

 

Olhei para o infinito. Para os muitos tons de azul até o rosa. Mas abaixo se via um branco denso.

 

Optei por escutar uma música. Coloquei os fones. Foi instantâneo. Uma outra viagem se fez. Isolada da formal. Descompromissada com as técnicas. Ou com as coincidências. Quase deu uma confusão mental.

 

Ri. Tocava uma marcha. Nupcial. Uma bela orquestração. Belíssima. E no momento da subida do vôo. Assim. Como se uma regência de fora se fizesse presente. Como uma necessidade.

 

Acordei no branco. Sentei diante do azul. Em proximidade total com o Universo. Se assim se pode dizer.  Um casamento realmente se fazia.

 

O plano da partida e a vontade da chegada. O azul e o branco. As nuvens e o metálico do progresso. O plano e o ato. O gesto e o fato. O riso e a festa.

 

Não sei se foi um recadinho. Uma desculpa. Um sinal. Isso não se sabe jamais. Não tem provas. Nem documentos. E cabe a cada um fazer e desfazer os códigos. Muito mais internos do que externos. E conforme se apresentam.

 

Conclui. Perfeito. Assim devem ser as comemorações.

 

Olhei para ele. Apertei a mão. Sorri.

 

 


Novembro 06 2009

 

É uma época de riscos. E de perdas.

 

Isso sem dúvida. As noticias tristes se sucedem. Não adianta fingir que não está acontecendo. Está. É. Cada um com seu temor. Cada um se ausentando de uma socialização. Férias se prolongando.  As ordens são de privacidade.

 

Que os grupos sociais se preservem – se dissolvendo. Esta a tentativa de evitar a propagação.

 

Fosse vivo o mestre surrealista – até ele se assustaria. A Idade Média contracenando com a Idade Contemporânea.

 

Ele chegou. Impossível passar despercebido.

 

Lindo. Cabelinho no corte moderno. Os fios na contradição da Gravidade. A queda da maçã em desafio por um punhadinho de gel. E ele todo orgulhoso da imagem. Perfeito.
 

A mãe segurava-lhe a mãozinha. Ele caminhava confiante. Pequenino – mas confiante. Tinha um jeitinho de feliz. Olhava com atenção em volta. Caminhava entre apressado e contido. Uma tossezinha atrapalhava os comentários que fazia. O vermelhinho do rosto denunciava uma temperatura fora do padrão. Mas parecia desconsiderar.

 

Ela veio. Conferiu a rotina da chegada. Escutou a história. A queixa da mãe. Os sintomas dele.

 

Ele ficou sentadinho. Talvez esperando que o chamassem. Ou só exibidinho em sua arrumação. Vez por outra tocava nos cabelinhos eriçados. Verificava se a desordem estava em ordem. E abaixava as mãos - mais tranqüilo. Como se os próprios dedos valessem por um espelho. Mais uma vez - perfeito. Sábio até. 

 

Ela veio. Sorriu para ele. Fez um comentário para a mãe. Colocou os dois sentados juntos no final da sala. Na última filinha de cadeiras. Só eles.

 

Fez para ele um gracejo. Depois foi colocando uma máscara. No rosto dele.

 

Informava com segurança na voz. Isso não dói. E - objetiva - amarrou os lacinhos da máscara por trás da cabecinha dele.

 

Foi um ato e um gritinho. Assim. Dupla geminada. Sincronismo absoluto.

 

Ele chorou.

 

Ela – surpresa - se assustou. Até se afastou um pouco. Demorou a entender.

 

Quando a dor não é física – fica-se com uma dificuldade maior ainda de mensuração. Ou de compreensão.

 

Mas ele continuou com seu protesto.  Chorou alto. E disse com a voz filtrada pelo material sintético. Estou com medo disso. Desta máscara. Não quero. Quero ir embora. A mãe o acarinhou.

 

Alguém veio em direção a ele. Com voz calma. Explicou. Você agora é o super herói. Por isso está de máscara. Eles todos usam também. Está tão bonito assim. E nem sabemos mais quem é você agora. Igual a um super herói. Ninguém sabe quem é ele e nem o nome dele.

Falou nem tão perto – nem tão longe. Poderia dizer – reservada. Mas tentou assim consolar.

 

Esta foi uma das cenas que não se esquece.

 

Ele parou de chorar. Dava para ver os olhinhos dividindo o espaço com o tecido verde da máscara. Por cima do nariz. A sobrancelha erguidinha. Virou o rosto semi -coberto. E disse. Mesmo com a voz entrecortada. Não sou super herói. Mentira. Ela disse que estou doente. Por isso estou de máscara. Para que ninguém mais fique doente. Super herói não fica doente.

 

Alguns que escutaram – riram.

 

Lembrei do filósofo estudioso do riso. Tem razão. Só é cômico o que excede o trágico. Aquela cena era trágica. Pior ainda. Era também um paradoxo. Não tinha como ser resolvida. Tinha como ser acatada. São ordens. Foi o que ela falou. São cuidados necessários. Completou alguém duas filas à frente.

 

Falou ainda chorando. Manda pararem de me olhar.

 

Submetia-se a uma súbita exclusão. Cuidou da imagem antes de sair de casa. E justamente a imagem – o primeiro item a ser ocultado. Sugeriam ser um super herói. Mas o colocaram sentadinho - distante. Parecia ter um objeto que o escondia – mais se destacava exposto.


O olhar do outro que autoriza. Ou desautoriza. E isso ele sabia ler muito bem. Melhor que qualquer um. Escrevia seu texto como se a folha em branco só a ele pertencesse.

 

Só não sei se pior - ou melhor - do que o espelho.

 

Quando o chamaram pelo nome - olhou para a mãe. Ajustou melhor a máscara. Não passou a mão mais nos cabelinhos.

 

Com voz conformada perguntou: sou eu?

 

 


Novembro 02 2009

 

Ele veio de lá. Feliz.

 

Fazia já alguns anos que não nos víamos. Trabalhamos juntos por muito tempo. Saíra de repente. Mal nos despedimos. Questões burocrático-egóicas. Algo por aí.

Estas são sempre as grandes questões. Sempre nascem desta dupla. Mal explicada. Mal conjugada. Ou muito mal dissociada.  Mas imperiosa.

 

Quando sobra hífen - não há o corte no momento certo. E apagam um espaço. Mais ou menos assim.

 

Minha avó nunca deixou de avisar. Muito eu é sinal de pouco meu, menina, muito eu é sinal de pouco meu.

 

Acho que só hoje entendi o que ela falava. Foi preciso anos e anos para assimilar. A linha quase transparente entre o eu e o meu. Sábia - sempre.

Mas desci. Direto para o local indicado.

Tinha uns exames a fazer. Estava entre corajosa e temerosa. Exames nunca são da ordem do conforto. Ou da diversão.

Mesmo que alguns estudiosos digam o contrário. Ou os seguidores do Marquês. Não faltam teorias. Apologias. Tratados. Mestres de todo o mundo. Austríacos. Franceses. Portugueses. Italianos.

 

O mundo girando em volta de uma dolorosa teoria. Sobre dor e alegria. Sobre sofrimento e satisfação. O homem sendo apto para a dor. Muito mais do que para prazer. Até os poetas se manifestam - sofrer por amor.

 

Nem sei quem são esses. Os estudados.  Os aptos para a dor. Eu não. Detesto dor.

Foi assim que desci. Com este pensamento tentando ocupar o outro.  O dos exames. Brigar com estudiosos de nada resolve. Mas ocupa o espaço do medo. Para isso resolve. E muito.

 

Afinal nesses tempos de tantas contínuas e perigosas mutações – exame é indício de risco. Ou de contaminação.

Não era a situação do momento. Mas não tinha escolha. Era fazer os exames.  Anuais. Rotineiros. Necessários. Procede. Obrigatórios. E pronto. E assim continuei.  Me repetindo – para me ordenar. Obedeça. E pensar que sempre fui rebelde. Nada de temer agulhas. Onde já se viu.

 

Tudo bem. Obedeci.

Foi em meio ao local do exame que o avistei. Eu entrando na sala dos exames. Ele na sala do atendimento. Em frente.

Vi que abriu os olhos. E sem metáfora. Abriu mesmo. Se surpreendeu. Veio em minha direção. Passos apressados.  Com um sorriso. Expressão de confraternização. Desconsiderou as limitações.

 

Foi logo avisando. Em pé diante de mim. Voltei.

 

Como se a materialização não fosse confiável. Apenas suposta. Respondi com um chiste. O bom filho à casa torna.

E fiquei observando.

 

Por que – voltar - se transforma em ato. Muito mais do que em fato. Precisa de desculpas. Sempre. 

 

Cada um com suas demandas. E espelhos.

 

Informou. Esta é a primeira vez. Nunca voltei de onde sai. Repetiu muitas vezes. Esta é a primeira vez. Continuou se explicando. Devia ser importante para ele. Se sentir convidado. Ou aceito. Ou vai lá saber o que.

 

Eu até ri. E falei. De onde saiu – ou para onde saiu. Desconsiderou. Fez bem. 

E continuou desconsiderando. Estes exames vão resultar todos normais. Você está ótima. Agradeci. Um lorde em termos de gentileza.

 

Vamos lá. Tomar um cafezinho. E você me conta desse longo tempo - que você continuou aqui. E eu lhe conto do meu - que fiquei tão distante daqui.

 

Ela. Convidei mas não quis voltar. Casou. Neste último verão. Está feliz. Ele. Sim. Desde que saiu também está em outra Instituição. Ele. Não está bem. Acho que precisa voltar. Ele. Também não se acertou. Quem sabe também volta. Ele. Está feliz com o novo cargo.

Falamos em poucos minutos. Mas acho que nunca falamos tanto. Soubemos dos amigos. Contamos de nós mesmos. Rimos das consequências  - e até das causas.

 

Voltamos rápido para as nossas atividades. A rotina – digamos assim - estava lotada.

 

Olhamos um para o outro. De repente. Com expressão de susto-risonho.

 

Esquecemos o cafezinho. Intacto. Em cima da mesa. Rimos.

 

Não importa. Tem café em todas as estações do ano. E em todos os horários. Até qualquer outro intervalo. Qualquer dia.

 

Foi a primeira vez que voltei de onde sai. Repetiu. E completou. Mas estou feliz por isso.

Ri. Viva a sexta-feira.

 


Outubro 24 2009

 

O telefone me acordou. Um aviso protocolar. A rotina começava - já.

 

Nem sei bem como desci as escadas. Erro - sei. Rápido. Muito rápido.

 

Até lembrei o dia que dancei abraçada ao corrimão. Um ballet exótico. Nada sensual. Numa tentativa de não me fragmentar no chão da sala. Tentativa e êxito. Mesmo que durante uma semana negasse. Nada de estranho com o meu caminhar. Como se não vissem. Faz de conta que tenho nada. Faz de conta que acreditam. Assunto encerrado.

 

Enfim. Desci as escadas já informando. Estou com pressa. Tenho uma sequência a ser seguida. Antes de chegar lá. No trabalho. Onde mais seria.

 

Lógico. Você não tem que entender. Se eu não disser. Tudo bem. Depois discutimos semântica. Deixa para lá. Depois explico. É mal educado falar durante a mastigação.  Sim. Amanhã falamos.

 

E já fui quase empurrando o elevador. E reclamando com as correntes lentas.

 

Nestas horas me lembro de lá. Da brisa do mar serenando ânimos. Do cheiro de café da manhã com tapioca. Da relativa calma diante do inevitável. Até o barulhinho da rede no prendedor. Lembro tudo. Mesmo que em segundos. Como uma viagem da matéria. Transcendental. Dá até para suspirar.

 

Mas enfim. Estou cá. Foi para cá que vim. Melhor deixar de cheirar o carro. Nunca terá cheiro de maresia. Até ri.

 

Ainda bem que não é longe. Este o primeiro pensamento. Parada com o trânsito emperrado. Não andava para lado nenhum. E quase foi o último pensamento. A buzina delicada me fez virar para o lado.  Abri o vidro.

 

Pois não. Um simpático senhor sorria para mim. Até ai tudo bem. Vai ver queria se socializar. Mas não. Avisou com a fala e com o dedo. Apontou. Está muito baixo. Deve ter furado. Vá rápido a um posto.

 

Não sabia se ria. Se chorava. Ou se descia do carro e torcia o dedo dele. E a idéia dele de cidadania solidária. Como assim rápido. Não tinha saída. O trânsito parado. E ele vem me apontar um pneu furado de emergência. Não deveria ter família.

 

Mas agradeci. Muito obrigada. Muito gentil. Uma lady. E eu que dizia que não era nem lady nem santa. Contradição total. Exatamente o oposto. Uma verdadeira santa inglesa. Ou inglesa santa. Certo. Mais semântica. Hoje deve ser o dia Nacional da Semântica.

 

Mas consegui. Eis um posto.

 

Então tem um prego. Vai poder trocar. Espero sim. É verdade. Coincidência existe sim. Então ele chegou com o mesmo problema. E por um segundo eu seria primeira. Não faz mal. Espero. Sim. Sou bem calma. E ele deve ser cego. Pensei. Mas calei.

 

Não. Ela já foi. Sim. Ela achou que você chegaria no horário. E eu achei que chegaria a tempo. Opiniões combinadas em agendas descombinadas. Quase um poema.

 

Sim. Você é a segunda pessoa que me fala isso hoje. Sobre mim. Devo ser mesmo. Muito calma. Ou só tem cego por aqui. Nada. Deixa para lá. Sem problema. Entregue em meu nome. Não esqueça. Por favor.

 

Sim. Nem sei como consegui chegar. E na hora. Pode mandar entrar. Ainda bem. Se me chamasse de calma – eu ia descer. Como assim. Sou uma Lady. E Santa. E com letra maiúscula. Ia descer para me internar. Depois lhe conto o que foi. Esta manhã. Mas pode mandar entrar. Rimos.

 

Ele entrou junto com eles. Tinha uma covinha exposta por um mal disfarçado sorrisinho. As mãos estavam enfiadas no bolsinho da calça.

 

Eles avisaram. Ele estava todo feliz porque ia lhe ver hoje. Tem uma novidade para lhe contar. Verdade. Ele que quer falar.

 

Ele me olhou. Chegou mais perto. E disse como um segredinho. Mas com muita seriedade. E firmeza na voz.

 

Tirou a mão do bolsinho da calça e ergueu o dedinho para me informar.

- apendi a fasser cici em pé –

 

Olhei para ele. Lindo. Feliz. Envaidecido com seu aprendizado. Orgulhoso de si mesmo. Dei um beijo de parabéns. E celebramos na sala esta grande – e verdadeira – conquista.

 

Diante daquela frase - tudo o mais ficou tão banal. Pneus. Furos. Horários.

Ficou tudo isso tão superficializado. Diante da alegria de quem se entende crescendo – e sabe já fazer xixi em pé.

 

Pode parecer tão simples. Mas não é.

 

Poucas vezes entendi com tanta objetividade – o progresso. Ou me ensinaram com tanta suavidade - a evolução.

 

O crescimento. Isto sim - é importante.

 

Agradeci ao Universo o privilégio da escuta. E o dia se fez completamente válido.

 

 


Outubro 20 2009

 

O aviso veio explícito. Claro. Objetivo.

 

É proibido beijar. É proibido abraçar. É proibido falar muito próximo.

 

Fiquei observando. Os comportamentos de cada um. À proporção – e este é o termo exato – que ela avisava. O olhar. A expressão facial. O gestual.

 

Diria até que se estava mais próximo a uma equação. E muito longe de um simples aviso com palavras. Ou com explicações. A equação de cada um que escutava não se somava com a do outro. Não havia uma conta. Ou uma soma. Nem uma divisão. Ou um parêntesis. Talvez – com muita benevolência - um x. 

 

Havia subitamente o conjunto vazio. Assim. Corpos estanques. Algo por aí. Quase uma matemática. Não fosse eu péssima com números e equações. Mas foi só o que me ocorreu enquanto olhava.

 

Este tipo de aviso - expõe.

 

Cada um a buscar em seu próprio corpo o limite de si mesmo. O corpo como uma prioridade extrema. Dava até para dizer que transcendeu a idéia da matéria em si. Uma metafísica ao contrário.

 

Provocou uma certa sonoridade. Pelo discreto re-acomodar nas cadeiras. Já todos se entendiam - num total conformismo com o distanciamento afetivo.

 

Ela que veio avisar – avisou rindo. Como se alheia estivesse ao ambiente. Ou ao risco. Deve ser como jogo de criança. Ganha quem fala primeiro.

 

Foi só o que me ocorreu ao vê-la dar um tom chistoso. Nem de longe pensei em associar ao Marquês. A dose do Marquês já está creditada em excesso.

 

Mas enfim. Deu um ar cômico diante da interdição. De repente - completou. Nem aqui – nem em casa. Cuidado com os familiares. Não teve jeito – venceu o Marquês.

 

Tudo começara com uma gripe. Desta vez. É o que parece. Porque impossível não generalizar. Algo como cíclico. As perdas diante dos desconhecidos, conhecidos e próximos – põem Dor como alvo. Para que o esclarecimento se faça objetivo. Procede.

 

De tempos em tempos – desde a antiguidade - surge uma doença universal. E lá se vem o isolamento. Não só dos doentes. Mas – e principalmente - dos sadios. Uma triste poesia abstrata. Todos lêem. Acreditam. Até se emocionam. Mas cada um vai compor as suas rimas da forma que mais se proteja. Também procede.

 

E existe nada mais imperativo de proteção - do que a interdição dos afetos.

 

Incrível. Como uma interminável expiação de culpa arcaica. Mais ou menos assim. Complicado definir a demanda individual diante de um temor coletivo. Ou o contrário.

 

Após o aviso não havia mais diferença entre o disfarçado temeroso e o suposto infectante. Ambos circulavam - quase igual a um falo. Da posse de um para a posse do outro. Cada um como portador exclusivo da praga.

 

Diante do outro também portador exclusivo da mesma praga. Um espelho - sem o país das maravilhas. E sem o coelho. Vai ver por isso se perdeu a hora.

 

Não faltaram as piadinhas defensivas. Uma forma suavizada de acatar. E – ao mesmo tempo – justificar. Não sei se conto em casa. Ela vai perguntar com quem me beijava aqui. Ainda bem que tenho um namoro virtual. Posso mandar beijo o tempo todo. Vou arrumar também um marido virtual. Por isso prefiro só meu cantinho. Nada de parceiros. Solidão faz bem à saúde.

 

E assim este dia seguiu. Cada um como seu advogado. E promotor do outro. Ou até um vice-versa cabe aí.

 

Quem chegava para as consultas oferecia e recebia um formal, polido e adequado - cumprimento. As salas sempre que possível - ficaram com portas abertas. É preciso que o ar circule.

 

Até ri quando escutei este comentário. E lembrei as tantas e tantas placas que têm nas ruas daqui. Nunca feche o cruzamento. Via alternativa. Não ultrapasse a faixa amarela. Via com câmeras filmadoras.  

 

Agora é preciso acrescentar mais uma. Interna. Privativa. Asséptica. Para combinar bem com o Lugar. Para fazer parte – se acumpliciando. Não importa se é social. Cordial. Fraternal. Sensual. Não há diferença. Novos tempos. Real e triste. Beijar não faz só sapinho. Beijar faz porquinho.

 

Nem bem tinha encerrado este pensamento - sobre os trilhos - e entraram duas pessoas. Estava super lotado. Pelo horário e pelo dia. As pessoas se amontoavam. A pressa do retorno era bem maior que a lógica do espaço.

 

Mas enfim. Eles entraram. Um homem e uma mulher. Seguravam as barras de ferro. Cuidavam para não cair sobre os outros. Ou os outros não caírem sobre eles. Estavam de máscara.

 

Impossível não parafrasear o mestre inglês. O resto é silêncio.

 

 


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