Blog de Lêda Rezende

Dezembro 03 2009

 

Lá se iam encerrando - os dias plenos de escrita.

 

Ou para a escrita. Com feliz dedicação total. O tempo se esgotava. Retomaria a atividade da rotina – dia seguinte.

 

Ficara afastada por quinze dias. Acordava cedo. E já se transferia para o teclado.

 

Até sonhava com os textos. Podia falar dela. Ou dele. Ou daquele ato. Ou colorir aquele fato. Podia se sentir dentro do mundo. Mesmo estando isolada de tudo. Só. No quarto. Caberia até uma placa na porta da frente. Em recuperação.

 

De pele ao olhar – percorria os encobrimentos da memória. Muito a ser explorado. E - talvez - conquistado.

 

Desconsiderara Oceanos. Turbulências. Aderências. Convenções. Se sentiu como pisando em uvas. E vendo o sumo do vinho se fazer. Escutou música. Trocou mensagens. Relatos. Contou um pouco da vida. Acolheu dores distantes. Recebeu flores. Cores. Até amores.

 

Riu quando leu um recadinho. Ela escrevera. Aliás, pelo que escreve, parece que acontecem mais coisas na sua vida do que na vida dos outros! Ou você observa melhor! Assim. Com duas exclamações. Sentiu-se emocionada. Era um elogio e tanto.

 

Os motivos causais poderiam fazer temer. Mas as consequências foram só prazer. Eis uma rima que deu certo. E outra que se perdeu. Ainda bem. Dor rimou com nada. A dor ficou para trás. Vencida e sem par. E ela ficou com flor. Com cor. E com um doce sabor de calor.

 

Inegável. Foi uma beleza de hiato.

 

Lá se iam e vinham as ideias. Sem hora marcada. Sem pressa na construção. Corrigidas. Emendadas. Procriadas. Malcriadas. Educadas. Estava a viver o tal ócio que sempre ameaçara.

 

Mas fez uma pergunta. Talvez - tola. Onde estaria o ócio. Precisava de uma definição lógica. Sobre a exata localização do ócio. E pode rir de si mesma. Afinal – se nem tudo é perfeito, nem tudo também é o que parece.

 

Estava até dedicada aos provérbios. Lembrou de uma frase dele. Crescera com a frase envelhecendo junto com ela. Quem está perto do fogo é que se esquenta.

 

Optou por uma pausa nas frases.

 

Como dizia a avó de uma amiga. Não são frases que formam textos, menina, não são frases que formam textos. Procedia.

 

E nesse estado de letras – concluiu. Navegar é Preciso.

 

Restavam ainda algumas horas. Poucas. Mas seriam bem aproveitadas. Até a última badalada. E nada de perder sapatinhos. Ou alucinar abóbora. Ou brotar caninos. Esta é umas das possibilidades fantásticas da escrita. As horas avisam as badaladas. E não o contrário.

 

E quando o tempo é marcado – a espontaneidade se acelera. Corre. Percorre. Fica até tonta.

 

Mas ainda há tanto a fazer. Como assim. Já tem que sair. Que ligar o despertador. Que sentar sobre os trilhos. Que caminhar apressada em corredores.

 

Riu.

 

Apressada em corredores já denunciava. As ideias estavam assustadas. Como se arrancadas de um doce balançar de uma redinha. De súbito. E – afoitas – atropelavam os últimos retoques.

 

Assim se sentia. Deu uma rápida olhada em direção ao Universo. Olhou de forma circular. Se é que isso é possível. Fez um leve ar de birra. Quase perguntou se não compreendera. Mas achou inconveniente. Duplamente. E se controlou.

 

Desceu. Iniciou o processo da retomada. Qual uma obediente comandada. Organizou o material. Carimbo. Caneta. Os funcionais. Os profissionais. Incluiu os ocasionais. Nesse sobe e desce - recordou uma música antiga. Uma Viola. Enluarada. Assim estava se sentindo. Quase como uma despedida. Sempre dramática.

 

Mas seguiu o que tinha que ser seguido.

 

Houve uma simultaneidade. Assim. Sem mais nem por que.

 

O telefone tocou. Era ela. Com a voz suave e pontual - informava. Sua agenda de amanhã está completa. Bom retorno. E no mesmo instante um aviso. Chegou via tecnologia. Escrito na tela. Leremos na mesma Rádio. Mais uma história da sua autoria. Em tal hora. Em tal data.

 

Olhou para o Universo. Repetiu o olhar circular. Até ergueu as mãos. Sorriu. Desta vez lembrou a canção italiana, Ma che bello questo amore.

 

E retomou – tranqüila – a reorganização da rotina. Quem quer passar além do Bojador...

 

 


Outubro 22 2009

 

Eram muitos os temores. Sempre.

 

Vivia sob constante pressão. E nem sempre como meta de educação. Mas enfim. Ideias e ideais nem sempre caminham de mãos dadas.

 

Entretanto - não podia negar. A cada aborrecimento ou obstáculo – assim se recompunha.

 

Você quem contou. Se não ela nunca saberia. Isso não vale. Você bem sabia o que iria acontecer. Quando ela soubesse. Mas - observe aquele mosquitinho. Ali na cortina. Lá em cima. Viu agora. Certo.

 

Ele é um disfarce. Na realidade é um monstro terrível. E maior do que este quarto. Ele é meu amigo. O mosquitinho. Muito meu amigo. E viu o que você me fez. E agora está ali disfarçado. Quando você dormir vai lhe engolir. Inteirinho.

 

E você nunca mais vai contar a ela. Pare de chorar. Se ela escutar vai acontecer de novo. E será já. Que ele vai lhe engolir. Fica calado logo.

 

Vai sim. Vai deixar amarrar seu pé - no meu. O cordão é comprido. Tem bastante. Dá para passar pelo chão. E de uma cama até a outra cama.

 

Vamos dormir assim. Se eu tiver medo – lhe acordo. Claro. Estico seu pé. E você acorda. E meu medo passa. Ela não vai ver. E só vai saber se você contar.

 

Acho bom não esquecer o meu amigo mosquitinho. Esta sim. Está escondido. Eu sei onde. Mas você não pode vê-lo. E só aparecerá se você não me ajudar.

 

Vou esconder em sua mochila. Eis um lugar onde não vão procurar. Sim. As notas. Estão ruins. Não sou boa naquela matéria. Mas se souberem agora – adeus festinhas de aniversário. Depois entrego. Não vai contar. Pensa bem.

 

Não se preocupe. Depois eu retiro de lá. E nunca vou contar que você ajudou. A esconder. Claro. Para de ser medroso. Já falei.

 

E assim se vão seguindo. E assim se foram. As soluções imediatistas da infância.

 

Ela nem sabia por que ficara lembrando. Tudo já estava tão distante.

 

O tempo já estava tão avançado. Nem espaço. Nem tempo. Nem convivência. Nada mais era parte do cotidiano deles.

 

Mas as lembranças foram chegando. Sem pedir autorização. Invasivas. Autoritárias. Mas procedentes.

 

As lembranças são sempre oportunas, menina, as lembranças são sempre oportunas.

 

Escutara isso um dia da avó de uma amiga. Lembrava até de alguns detalhes. Era um dia quente de verão. Estavam numa praia. A avó começara a falar do próprio passado. E alguém sugerira mudar de assunto. Para que não ficasse triste. Ela virou-se para a neta e falou isso. Das oportunidades das lembranças. Estava certa.

 

Eram muitas recordações. E sequer sabia como ordená-las. Mas deu liberdade total. Até facial. Podia se imaginar com mil expressões diferentes. 

 

De riso a choro. Sem pular as de tensão ou de alívio que circulam sempre entre as duas. E na ordem desejada.

 

Eis algo em que a consciência não tem poder. A celebração das lembranças. Fica tão fora do pragmático.

 

Em meio a essa lúdica bagunça mental – deu um pulo da cadeira. Então era por isso. Era o aniversário dele. Pensara nisso o mês todo. Fizera vários cartões imaginários. Quase fundara uma retórica nova – tamanho o conteúdo dos discursos que criara. E justo no dia estava saindo da memória. Quase.

 

Imagina se ele soubesse. Que ela tanto lembrara como esquecera. Ele que iria ficar amigo do tal mosquitinho. Deu até um tapinha na testa. Riu. A avó tinha mesmo razão.

 

Ficou com uma dúvida. Será que ele se recordava. De tudo aquilo.

 

A infância é tão seletiva e encobridora em termos de fatos. De atos então. Parece outra vida. Não existe outra fase em que a observação seja tão particular. E sem rodeios. Cada um vendo o mundo por olhinhos tão especiais. Por isso quando coincidem lembranças – é sempre uma surpresa.

 

Quantas vezes ela escutara um pasmo– você também se lembra disso. Inúmeras.

 

Mas é preciso a maturidade adequada para assimilar a infância.  As contradições. As buscas. E a falta absoluta de inquietações.

 

Estas só chegam depois. Na infância – não. O pensamento mágico - junto às praticidades instantâneas - permite um colorido nunca mais re-inventado.

 

Levantou. Telefonou para ele.

 

Já atendeu rindo. Sabia que era você. Vi um mosquitinho passando por mim há pouco - parecia feliz. Ao menos não quis me engolir.

 

Riram. Muito.

 

 


Outubro 11 2009

 

Encerrou a fala desta forma. Com este comentário.

 

A frase ficou em destaque. Por alguns minutos. Ou horas. Vai lá saber. A palavra sempre dispõe do tempo ao seu bel prazer. Enfim.

 

É uma pena.

 

Assim disse. E nem parecia muito concentrada. Parecia em estado de ausência. Estava assim ultimamente. Como se numa nova parceria – mais efetiva. Ou quem sabe conquistada - entre ela mesma e o mundo.

 

Devia ter lá seus motivos.

 

Motivos. Esta uma palavra multi-dimensionável. Especialmente para ela. Adequa-se bem. Cabe em qualquer espaço. Justifica possíveis transtornos. Pressupõe adiáveis desconfortos. E já disponibiliza desculpas.

 

Era afável. Divertida. Solidária. Desde que a conheci. E lá se vão tantos e tantos anos. Mas tinha motivos para tudo. Do emocional ao físico. Fosse o que fosse - tinha motivos.

 

Acompanhava sempre um - de sobra. Este - de sobra - parecia mais fundamental até do que os tais motivos. Era pronunciado com mais ênfase. Como se precisasse se servir de uma acústica. Ou a acústica estaria a serviço dos excessos. Algo por ai.

 

Passava – com tranqüilidade - uma sensação. A de que motivos e sobras são de ordem impessoal. Quase relativizada. Não precisa ser determinada. Muito menos qualificada.

 

Motivos e sobras são questões tanto estéticas quanto funcionais. E sugerem um lugar mais universal do que pessoal. Nunca a escutei se referir aos tais motivos de sobra - dentro de si. Sempre eles estavam - de fora.

 

As sobras pareciam vir como paradoxais contribuições externas.

 

Mas também não era o momento para digressões teóricas. Até dera vontade de rir. O que mais sobrava eram digressões e teorias. As faltas estavam circulando por outra esfera. Não importava se mais ao alcance ou se muito além do alcance. Apenas circulando - como toda falta.

 

Mas assim falava. Assim se expressava. Relatava a situação. O motivo da ligação. Parecia um não mais acabar de queixa. Nada era tratado de forma pontual. Muito menos sugerindo uma continuidade. Sim. Parecia mais um possível excesso de ponto e vírgula.

 

Foi nesse momento que entendi a força dos motivos de sobra. Como cravados dentro de um vazio. Os motivos. E as sobras.

 

Lembrei a minha avó. Se sobra motivo é porque falta razão, menina, se sobra motivo é porque falta razão.

 

E ali fiquei. Entre a palavra e a expressão. Tentando ultrapassar a linha que cruza o ato e a fala.

 

Dizia o mestre francês que primeiro vem a palavra. Depois o ato. Tão difícil simplificar.

 

De repente me veio uma curiosidade. Talvez por que escutei um barulho reconhecido. Perguntei assim. Sem mais nem por que. Onde estava.

 

Respondeu tranqüila. Suave. Sentada naquela praia que você gosta. Sob um quiosque. Olhando o mar. O final de tarde está lindo. O inverno aqui está uma beleza. Sol, céu e mar. Nada de frio.

Por isso lhe liguei daqui. Faz bem reclamar do interno diante de um externo tão belo.

 

Tenho motivos de sobra para falar daqui. Sem me preocupar quem escuta. Ou quem interrompe. Ela sempre volta na hora exata. Parece que adivinha que preciso falar. E já chega cheia de perguntas e demandas. Lembra até aquela sua amiga. A que nunca podia conversar ao telefone. Porque os filhos a interrompiam. Você deve se lembrar disso. Sempre comentávamos. Agora pareço com ela.

 

Ela já vai entrando e avisando. Pare o que está fazendo. Desliga o telefone. Preciso lhe falar. Como se fosse uma emergência. Você sabe. Ela sempre age assim. E sem motivo algum.

 

Ri. Muito. Achei perfeito. Pensei isso enquanto fechava a porta da varanda. Para que a chuva e o frio não se transformassem em meus hóspedes.

 

Ela continuou. Depois de um fôlego só - avisou. Agora me vou. Acabou o pôr-do-sol. Está escurecendo. Vou voltar. Amanhã vai ser um dia complicado no trabalho. Se eu enlouquecer acredite – não teve jeito. Terei motivos de sobra.

 

Tem feito dias tão lindos. Se você estivesse aqui iria adorar. Mas está ai no frio. É uma pena. E rindo – se despediu.

 

E rindo – me despedi.

 

O frio aumentara. Peguei um casaco. Entrei em Estado de Força Educadora. Sim. Comportada. Recatada. Até repressora. Sem desconsiderar o valor da Força Amistosa.

 

A palavra pena não teve seu contraponto. Nem uma resposta mais diferenciada. Em linguagem talvez não tão ortodoxa – digamos assim.

 

E – pensando bem – sem motivos ou sobras.

 


Setembro 24 2009

 

Olhou os óculos em cima da mesinha.

 

Não pegou. Por um instante ficou a observá-los. Assim. Sem mais nem por que. Ia tirá-los do lugar - quando parou. E ficou a tentar entender. Os óculos. As lentes. A correção da visão. Lentes corretivas – como tecnicamente nomeavam.

 

Veio um pensamento.

 

Será que enxergariam algo. Será que viam o mundo diferente do que ela via. Será que precisavam dela – como ela parecia precisar deles.

 

Aquelas lentes acrescentavam. Elucidavam. Transformavam borrões em linhas. E ficavam ali. Ou estavam ali. Em cima de uma mesinha. Fingindo abandono. Talvez pior - sugerindo abandono.

 

Olhou de novo. Agora com ar de desconfiança.

 

Que veriam - além dela. Ou aquém dela. Ou apesar dela. Ou pior ainda – o que escondiam dela. Sim. Ficaram o dia todo ali – de algo deveriam estar em acordo ou desacordo. Mas nada assim – ingenuamente.

 

Notou que uma haste estava um pouco mais torta do que a outra. Não tocava muito bem na superfície plana. Ficava um pouco no ar. A outra mais centrada – atingia a mesa e repousava. Ou parecia. Vai ver a que estava no ar estava mais descansada. Vai lá saber onde é o ponto de relaxamento. De cada forma de visão. Ou de cada haste de visão.

 

Ficou com uma dúvida. De que lado estava a visão.

 

De dentro das lentes. Ou de fora das lentes. Como seria ver a lente ao contrário. Poderia expor a visão delas. Ou ocultar a própria. Será que veria a si mesma de outra forma. De fora para dentro. Já que com os óculos tentava enxergar melhor – mas de dentro para fora.

 

Era uma questão a pensar com mais delicadeza. Concluiu.

 

Se antes enxergava bem – agora precisava deles. Eles deram uma nova idéia do antigo mundo. Num momento em que - corrigindo a seu bel prazer – acrescentava o novo contorno. Apagava o enevoado. Podia até ser um feito perigoso - diga-se de passagem.

 

Lembrou da avó de uma amiga. Sempre avisara. Nem sempre é indicado dedicar muito tempo para a nitidez, menina, nem sempre é indicado dedicar muito tempo para a nitidez.

 

Se os anos passavam - e modificava a forma de vê-lo – deveria ter uma razão. Uma razão muito mais existencial do que confusional. Esta foi a primeira palavra que a fez rir. Confusional.

 

Mas as lentes não pareciam dar importância.

 

Deveriam estar ali contornando outra situação. Não deveria ser por acaso que uma haste se erguia. E a outra se apoiava.

 

Aproximou a mão. Pensou. Vou colocar bem de leve no meu rosto. E ao contrário. Posso me compreender a partir daí. Ou me acalmar – me desentendendo de uma vez por todas. E logo eu. Que fico de análise em análise. Tentando quebrar sentidos. Quebrar textos. Quebrar palavras. Talvez a solução esteja nos inteiros. Nos sentidos concretos.

 

E ali está. O sentido ocultado e exposto em par.

 

Com toda a coragem – pegou os óculos. Mas não podia negar. Pegou com carinho. Com gentileza. Não queria perturbar assim de súbito o que eles viam. Ou queria surpreendê-los despreparados. E assim poder ver o que eles viam.

 

Quase riu – não fosse a seriedade da situação.

 

Ajudam a enganar as sombras – por certo. A redefinir os contornos. Mas não como antes. Antes da necessidade deles.

 

Óculos são perfeitos para criar a realidade. Acessória. Quando não mais acreditamos nela. Ou já não confiamos tanto. Ou mais ainda. Quando precisamos de um suporte - para voltar a confiar. Talvez até mais em nós do que na tal realidade. Algo por aí.

 

Foi aos poucos colocando em seu rosto.

 

Primeiro do lado comum. Depois do lado incomum. Tentou ver ao contrário. E no correto. Colocou. Tirou. Olhou para as lentes. Até tocou nelas com os dedos. Reagiram. Ficaram turvas. Compreendeu.

 

Decidiu deixá-los onde estavam por mais um tempo - com as hastes desiguais sobre a mesinha. Por mais um tempo – talvez. 

 

O telefone tocou. Era ele. Vai lá saber por que. Colocou os óculos. Sem delicadezas. Sem pedir licença. Sem teorias. Colocou e pronto.

 

E conversou – nitidamente feliz – com ele ao telefone.

 

 


Setembro 22 2009

 

Estava sozinha.

 

Era já final do dia. Trabalhara dentro do agendado. Atendera todas as demandas que pode. Orientou. Escutou. Reclamou. Compreendeu. Recusou. Aceitou. Defendeu. Proibiu. Acatou. Permitiu. Assim fora o dia. Igual a todos os dias da sua rotina.

 

O frio ainda estava confiante em seu próprio poder. E se mantinha cativo em salas e alas. Ou autoritário. Dava no mesmo. Afinal ele que estabelecia ordens e limites. Ele – o frio.  

 

Quando encerrou as tarefas - voltou para casa.

 

Mal tinha chegado. Ainda estava a decidir a outra rotina - escutou o telefone.

 

Até pensou. Acho que não vou atender. Vou deixar para depois. Agora tenho que seguir uma ordenação. Se não eu que fico aqui desordenada e desarvorada.

Definitivamente - não vou atender.

 

Foi decidindo isso e pegando o telefone. Até atendeu rindo. Eis uma decisão acirrada.

 

Era ela. Atitude rara. Em geral nunca telefonava. Pelo menos para ela. Se servia de mil desculpas. Mas vai lá saber por que – telefonou.

 

No primeiro instante pensou no pior. E isso não era habitual. Este era o oposto dela. Só esperava o melhor. Sempre. Podia atender ao telefone na madrugada – mas sempre acreditando que viria do outro lado uma boa noticia. Já atendia desculpando fuso horário. Como se recebesse apenas ligações do exterior. Ele até ria dela. E ela ria dele.

 

Ele sempre se assustava com o toque do telefone.  Quando a noticia era ruim – ela sempre tinha uma expressão de decepção.

 

Mas lá foi escutar o que ela queria falar.

 

Ela avisou. Precisava lhe falar. Impossível deixar para outro momento.

 

Fiquei lembrando muito de você hoje. Começou durante o almoço. De repente me surpreendi. Só pensava no tempo que você morava ainda aqui.

 

Lembrei das idas a restaurantes. Das risadas que demos juntas. Tantas e tantas vezes. Das suas gracinhas. Do seu jeito de minimizar problemas. E não mais parou.

 

Lembrou daquela vez. Depois - da outra vez. Depois - daquele dia. Da idéia da viagem. Da coragem – mesmo não sabendo onde se amparava. Das lojas onde comprava. Das mudanças. Das diferenças nas escolhas. Nas trocas.

 

Ela continuou falando. Parecia que para si própria. Por que discorria com tranqüilidade. Não cobrava o retorno. Nem sequer o – estou escutando. Só falava.

 

O interlocutor auditivo ocupava um Lugar não bem determinado. Era um daqueles velhos monólogos. Onde a platéia só suspira.

 

A cada registro que ela desenhava – tentava localizar. Não no espaço. Não no tempo. Era uma localização muito mais forte. Era muito mais interna do que externa. Como se preenchesse páginas vazias – ou esvaziadas – a cada frase. Ou como se tentasse preencher.

 

Com a mudança houve lacunas.

 

As citações dos acontecimentos não paravam. Falou sobre atos e fatos.

 

Lembrou de alguns com facilidade. De outros com dificuldade. De alguns riu. De outros fez silêncio. Partes vieram espontâneas na lembrança. Outras sumiram para sempre do registro da memória. Não houve jeito. Ela até insistia. Lembrava até a meteorologia do dia. Mas alguns se foram mesmo.

 

A avó querida de uma amiga tinha uma frase para isso. O que fica no passado é porque este é o Lugar certo de ficar, menina, o que fica no passado é porque este é o Lugar certo de ficar.

 

Pensando assim – se tranquilizou. E poupou esforços ao já tão esforçado cérebro.

 

Despediram-se rindo.

 

Quando ela desligou – ficou calada. Por algum tempo ficou ali sentada. Olhando para o não-sei-onde. Em silêncio.

 

Concluiu. Ou, melhor ainda, questionou.

 

Quantas mãos escrevem a história de cada um. Quantas memórias se unem para compor uma biografia. De quanto do passado é realmente manufaturado o presente. Em qual espelho se credita a história. Qual o princípio da saudade. Ou do esquecimento.

 

A memória.

 

Eis um Lugar onde o egóico – até finge - mas não se sustenta. Eis um Lugar onde a solidão não se inscreve como certeza.

 

Para falar de si próprio é preciso – verdadeiramente – escutar o que o outro fala. Só entendendo-se alheio de si mesmo – pode –se atingir o dentro de si mesmo.

 

Foi cuidar da ordenação da rotina. Não iria ficar ali – como antecipara - desordenada e desarvorada.

 

Riu quando se surpreendeu – quase – jogando um beijo em direção ao telefone.

 


Setembro 14 2009

 

O dia estava agitado.

Agenda completa. Sem falar nas intercorrências. Atividade sem intercorrência não é atividade. Não há a menor possibilidade. De se levar o dia sem que ele – o dia – traga alguma intercorrência. Isso já deveria constar em autos. Em contratos. Até em decretos. 

 

Mas enfim. Tudo parece ficar mais leve numa sexta-feira. Pelo menos para alguns.

 

Assim que entrou telefonou - para ela - avisando. O aviso foi repassado.

Vai chegar uma encomenda para mim. Soube agora. Por favor, quando chegar me avise. Assim. Com toda a calma. Não sabia o que era. Por isso mais não podia detalhar. Apenas avisou.

 

E deu continuidade na sua rotina. O dia foi passando. Esqueceu da encomenda. Esqueceu do aviso. Não teve o ócio necessário para o exercício da expectativa. Muito menos para o da curiosidade. Continuou com as tarefas.

 

De vez em quando lembrava. Hoje é sexta feira. E ria com tranqüilidade. De si para si.

 

Sexta – feira. Há um tempo deixara de comunicar isso ao mundo. Era até engraçado. Já acordava avisando ao mundo. Hoje é sexta-feira.

 

A ele sempre enviava cedo o recadinho. Hoje é sexta-feira. Depois concluiu que era uma comemoração dela. Não tinha que sair avisando. Afinal – todos tinham lá seu calendário. É verdade. Festejo é da ordem da individualidade.

 

Mesmo se for num grupo- é cada um com sua idéia do festejo. Mesmo que compartilhando. Calendário é particular. Não é uma divisão social. Ou uma soma. Muito menos uma multiplicação. Nessa hora até riu.

 

Decidiu parar com a calculadora. Se não era para ser partilhado – também não tinha por que ficar ali construindo pequenos cálculos. Ela então. Era de rir. Ou para rir. Mal sabia somar dois e dois. Sempre odiou contas.

 

Vai ver por que era sexta-feira. Riu.

 

Em meio às tarefas contas e calculadoras - a cena se efetivou.

 

O corredor era largo. Longo. Piso branco. Paredes brancas. Uma porta de vidro separava as alas de espera e de circulação. Digamos assim. Em meio ao corredor um balcão. Também branco. A luz entrava por janelas amplas de vidro.

 

O dia estava chuvoso. Frio. Cada um se protegendo com agasalhos e cachecóis. Um ou outro respondia uma dúvida aqui. Outra ali. E esperavam as deliberações. Também digamos assim.

 

Ela veio. Da ponta do longo corredor. Que ficou parecendo ainda mais longo.

 

Veio caminhando. Com uma braçada de rosas vermelhas. Dentro de um lindo vaso de cristal. Envoltas em papel transparente. Um belo laço vermelho arrematava o vaso e as flores. Um lindo e enorme arranjo. A desfilar pelo longo e largo corredor branco. Carregado por ela.

 

Ela comentou - caminhando. Eis a tal encomenda. Que enviaram para ela.

 

Quando vi as flores chegando - pensei que fossem para mim. Mas qual nada. São para ela. Li o nome no envelope do cartão.Foi ai que lembrei o aviso da tal encomenda. Que chegaria. Chegou. Deveriam ser para mim. Mas são para ela. E ergueu um pouco as flores enquanto - sorrindo - dizia e repetia. Junto com as sobrancelhas e um olhar ambíguo.

 

O tempo muitas vezes se faz um reflexo. Talvez um reflexo medular.

 

Primeiro o ato. Depois a compreensão. Foi tudo muito rápido. Ela falou. De pé. Caminhando. Assim. Perfeito. E – logo depois - já era outra cena. Teve aquele lapso de tempo. Até que todos compreenderam.

 

Ela escorregara. No momento que falou e ergueu um pouco o arranjo. No longo e largo corredor branco.

 

Por cima dela – deitadas - estavam as rosas vermelhas. A água. O laço. O vaso. Assim.  Como uma cena desorganizada daquele filme dos irmãos do Norte. As rosas espalhadas. Apenas a água parecia se divertir na fuga do continenti. Brincava por entre a roupa e os cabelos dela.

 

Um ou outro sorriu. Todos correram em auxílio.
As flores foram devolvidas ao lugar onde estavam.
Uma nova água veio fazer parceria ao vaso.
O laço – procede - só ele ficou sem solução.

 

Ela se secou com toalhas rapidamente trazidas. Sem maiores nem menores consequências físicas. Até esboçou um risinho. Menos ambíguo que o olhar. Talvez.

 

Diante da cena composta e recomposta – lembrou da avó de uma amiga.

 

Sempre fazia um alerta. Escorrega-se muito mais pelo que se pensa do que por onde se pisa, menina, muito mais pelo que se pensa do que por onde se pisa.

 

Esta foi a primeira frase que ocorreu. Veio de imediato.  Mas nada falou.

 

A situação dispensava acréscimos teóricos. O que tinha de prático em si já era suficiente.

 

Enfim. O dia acabou. Comemorou a sexta-feira. Pegou a encomenda quase destruída. Decidiu levá-la para casa.

 

Desta vez – ou como quase sempre – não pode deixar de sorrir. Dedicou um sorriso sorrateiro em homenagem ao Mestre austríaco.

 

publicado por Lêda Rezende às 18:11

Setembro 02 2009

 

Fez absoluta questão. De acordar bem cedo.

 

Afinal – era uma opção. Não uma imposição. Assim ficava muito mais fácil lidar com as regras. Quando pudessem ser tiradas – mesmo que temporariamente - da linha de frente. Para depois então incorporá-las – diagonalmente disfarçadas.

 

Já acordou rindo e falando. Abriu a porta e deu uma espiadinha tímida para fora. A varanda estava aberta. O céu azul turquesa. Lindo. A luz invadia comemorativa. Um friozinho singelo dava um toque de elegância ao dia.  

 

Olhou para o peixinho em seu lar-água-lar. Passeava tranquilo entrando aqui e ali. Devia ser um mundo especial. Circular dentro da água. Dia e noite. Às vezes isso lhe dava aflição só de pensar. Agora não mais. Ele deve olhar e desentender. Este mundo de cá - onde se fica prisioneiro do ar.

 

Diante destas ditas reflexões - tomou outra decisão. Melhor voltar a dormir.

 

Não estava ainda acordada o suficiente. Coitado do peixinho.

 

Riu. Voltou para a cama.

 

Nem bem deitou - o telefone tocou. Achava que nem bem tinha deitado. Mas já devia estar a dormir de volta. Porque custou a entender. Achou até que já era um telefonema do aquário. Ou que estava no aquário. Ou que o aquário era ela. Ou que tinha pouco ar no aquário.

 

Uma atrapalhação total. Em fragmentos de segundos. Ou entre alguns toques de alerta do telefone.

 

Mas - resolvidas estas questões – atendeu.

 

Não sem antes derrubar o relógio. Procede. Eis um objeto que sempre merece ser derrubado. Por um segundo, um pedacinho de segundo, riu de si mesma. Devia ser hoje o Dia Nacional das Ditas Reflexões. Desejou aquela tecla pause. Sei lá. O Reino por uma tecla.

 

Finalmente atendeu ao telefone. Era ela. Ele mandava avisar. A entrevista fora publicada. Sim. E naquele jornal. Jornal.

 

Não acreditou. Achou de novo que era o peixinho fazendo gracinhas. De dentro do aquário. Que estava no aquário. Tudo de novo.

 

Até falou isso para ela. Que ria do outro lado da linha. E confirmava. Sim. A entrevista saíra.

 

Estava lá. E quem quisesse poderia manusear. Manusear as respostas. Achou incrível. Mal podia ficar parada. Trocava de sentada-levantada-deitada-de pé. Parecia uma maratona solitária.  

 

Tudo acontecera na véspera. Ela acabara de sair dos trilhos. Perfeito. Final da tarde. De uma sexta. Caminhava entre as pessoas. Desvia daqui. Atravessa dali. De volta para onde saíra.

 

O celular tocou. Atendeu.

 

Ele se identificou. Tinha uma voz atenciosa. Polida. Começaram a se qualificar. Estilo remessa sucinta de dados de arquivo. Lembrava que ele - o entrevistador - ria. Muito. Mas quando chegou o tema exato da entrevista - se fez sério. Ela também se fez séria. E foi aquela retórica e dialética comum nessas situações. Eu pergunto. Você responde. Eu desdobro. Você resume. Eu resumo. Você desdobra. Mas só eu pergunto. E assim foi. Sem rostos. Só vozes.

 

Em meio às perguntas e às respostas notou para onde olhava. Quase riu. Mas se conteve. Não seria adequado rir de súbito.

 

Parada. Falando ao celular. Estava em frente a uma vitrine - de uma óptica. Escutando a voz dele. Enviando a dela. Uma troca de idéias diante de uma vitrine de óculos. Muitos óculos. E só as vozes se apresentando. Incrível. Mas nem por isso imperfeito. Nem muito menos fora de lógica.

 

Concluiu. Nestes momentos é impossível não erguer um brinde ao mestre austríaco.

 

Agora estava ali. Mais uma vez entre vozes. Ela avisava. E ela sentava e levantava. Derrubava relógio. Compunha filosofias de aquário.

Mas feliz.

 

Quando desligou – ficou um tempo de pé. Olhando para o peixinho. Depois daquele quase exaustivo senta-levanta. Repensando a cena diante da vitrine dos óculos. Recuperando na memória as perguntas e respostas.

 

Vai lá saber por que - lembrou da amiga. Em especial da avó da amiga.

São as falas que organizam os cenários, menina, são as falas que organizam os cenários.

 

Ele levantou e resumiu. Pragmático. Vamos já para a Banca de Revistas. Desceram rindo.

 


Agosto 16 2009


Ela sempre alertava. Muitas vezes as faltas são tantas que acabam ocupando lugares indevidos.

 

Não sei se são muitas. Ou se estão muitas. Ou se as vemos muitas. Meio complicado falar de falta. Expõem metades. Pelas metades. É sempre um paradoxo.

 

E pela metade muitas vezes são as explicações. E os excessos ambíguos da falta de explicações. Os descuidos com as gentilezas. O desuso das delicadezas.

 

Eis um terreno fértil. Com enorme rapidez fica-se pleno de faltas. Falta de interpretação. Falta de motivos. Falta de compreensão. Falta de confiança. Falta de lealdade. Falta de reciprocidade. Falta de conclusão. Falta de solidariedade. Falta de afetuosidade. A antiga e sempre conceituada falta de paciência. Isso sem esquecer a falta de compostura. Ou a sempre citada falta de condescendência. Que tantas vezes é aliada da falta de coragem.Ou da falta de conceito. Mas não se pode esquecer jamais - a falta de resposta.

 

Assim eu estava. Diante deste redemoinho de faltas. O telefone tocou. E o som fez um corte no tempo das faltas. Por que nas faltas do tempo isso já é comum.

 

Ela viera por uns dias. Rápidos. Era uma festa de família. Teria que participar. Mas conseguiu uma breve saída. Para vir até aqui.

 

Aguardei feliz. Chegou feliz. Desbravadora e vencedora dos trilhos. Nos trilhos. Confiante na decisão. Sorridente com a conclusão. Impossível errar o caminho. Já começamos a rir desde esta frase. Muito mais que uma frase.

 

Tudo reafirmava os caminhos trilhados. Não no destino. Mas na Vida. E certos. Ao menos parecia até o momento.

 

Quando sentamos para o vinho – nos repetimos. Rimos e choramos. Como no tempo das inaugurações do exílio. Ela no dela. Eu no meu. E o som das teclas fazendo vínculo entre nós duas.

 

Foram tempos difíceis. Mas nunca em tempo algum nos falamos tanto.

 

Nunca contamos tanto uma sobre a outra. Nunca soubemos tanto de nós.

 

Ali sim. Não havia falta de assunto. Eis uma falta abolida. Enfim uma. Até comemoramos. Podia faltar tudo. Mas nossa conversa era abundante. Um mais jorrar de palavras. De comparações. De questionamentos. De textos lidos. De textos a ler. Ela reclamava a impossibilidade do trabalho externo. Eu invejava o ócio temporário. Dela. E ela ria da minha agenda se construindo. Ou se paginando.

 

Descobrimos o sabor das páginas. Que só passam a existir quando preenchidas. Só se folheia o que está preenchido. Parece óbvio. Mas nem tanto. Páginas em branco são completas. De faltas. Não se brinca de olhar para elas por muito tempo.

 

Lá um dia me avisou. Arrumei as malas. E voltou para as raízes.

 

Depois disso – alguns hiatos. Um silêncio. Um retorno. Uma noticia. Um bilhete. Um sufoco. Um até mais. E por muito tempo nos afastamos. Da nossa história. Da nossa rotina. Até que um dia – faltou assunto. E sobrou silêncio. A tristeza - por saber mais faltas – se fez presente.

 

Agora estávamos ali.

Naquele momento. Sentadinhas nas cadeiras - na cozinha. A tentar atropelar o mínimo possível. Os relatos. Os excessos do - eu me lembro. Os inúmeros - você não sabia. Incontáveis - nem sei por que não lhe disse.

 

Quase foi preciso contratar um cronômetro.  De emergência. Ou uma nova emenda. Uma legislação de urgência. Você fala. Ela fala.

 

Fez um comentário. Sobre duas coisas que fazia bem. Dirigir e criar. E torcia pelo futuro. Para continuassem sendo elogiadas. Mesmo que num tempo passado. Rimos porque não faltou tempo. Achei genial a informação. E o pedido. Daria até para inscrição em pórtico. Passado. Presente. Futuro. Numa única eleição.

 

Mas enfim. Lembrei do Filósofo santificado. Ele falava isso. Que não existe futuro nem passado. Só presente. Porque é nele que falamos. Seja em que tempo for. Perfeito.

 

Quando nos despedimos – já todo o velho código estava re-paginado. Os risos resgatados.

 

As faltas pareciam diminuídas. Mas nunca se sabe. Talvez tenham escapado pela porta da saída. Ou ficaram atrás das cortinas. Ou se esconderam como poeira sob o tapete. Até ri quando pensei nisso. Pode-se passar a Vida toda permitindo que ele acolha faltas e erros. Deixando por cima risos e acertos.

 

O tapete como o Presente do Filósofo. Salvaguardando. O Futuro do Presente. Eis a enevoada solução. Arriscada por certo. Pisar sobre faltas é atividade que requer arte. Muito mais que sabedoria. Até por que quem sabe – não pisa.

 

Mas como dizia a minha avó. O que falta e o que sobra é sempre misterioso, menina, o que falta e o que sobra é sempre misterioso.

 

Olhou para trás. Deu um sorriso. E lá voltou pelos trilhos até o encontro agendado para a festa. Dia seguinte voaria cedo para as raízes.


Agosto 13 2009

 

Ele escolheu o lugar. Eles concordaram. Nós aceitamos.

 

Estava tudo perfeito. Nada fora do estilo habitual. Marcaram a hora de nos pegar. Com eles dois iríamos encontrar já no lugar combinado.

 

Começamos a nos arrumar. Tudo com muita calma. Ainda fazia parte dos festejos. Mas agora imitávamos – em parte - o título do livro. Seis. Não éramos. Somos. E lá organizamos os seis o restante das risadas e congratulações.

 

De repente uma idéia.

 

As idéias são assim. Nunca sabemos se estão contra ou a favor. Ele sugeriu. Uma taça de vinho antes de chegarem. Depois descemos. Dá tempo. Aliás – tempo é o que mais temos hoje.

 

Concordei. Procedia.

 

Já arrumados – iniciamos nosso festejo particular.

 

Sentamos diante da mesinha. Organizamos taças e guardanapinhos. Tudo com muita delicadeza. Em tempos de comemoração toda a gentileza é pouca. Ele, cuidadoso, foi se adiantando – eu lhe sirvo.

 

Abriu a portinha de vidro. Olhou. Escolheu. Pegou a garrafa que descansava na prateleira.

 

Solidária a tal garrafa. Ou a prateleira. Não quis vir sozinha. Veio em conjunto com mais três. E foram abruptamente ao chão. Assim. Sem mais nem por que. Sem maiores explicações. Sem menores detalhes. Sem grandes considerações.

 

Caíram. Unidas. Deviam ser da mesma videira. Vai ver vieram na mesma importação. Nascidas e criadas juntas. Um primor de união. Pensei num daqueles milésimos de segundo. Que surgem diante destas pequenas tragédias. Concessões do bom humor que ajudam a manter a sanidade.

 

Por um segundo antes o cenário parecia em ordem. O piso branco. Os tapetes – azul e branco. As cadeiras com a madeira envernizada bege.  Os sapatos com tom e brilhos corretos. A saia longa colorida dava um toque informal. A calça de um jeans acinzentado já avisava da chegada do inverno. Assim. Tudo sob controle.

 

Por um segundo depois – o cenário já se re-organizava de forma espontânea. Pelo piso branco escorria apressado e caudaloso o líquido vermelho. Os pedaços de vidro sugeriam um mosaico sem limites sob o brilho da luz do teto. Os tapetes afogados pareciam ter engordado de repente. E lentamente a cor deles ia mudando. Muito mais lenta e no inverso da nossa. Nós rapidamente de corados passamos a brancos. Esverdeados até diria.

 

Os sapatos. Estes sim. Se adequaram rapidamente ao ambiente. Vermelhos e com lasquinhas de vidro. Pareciam os sapatos mágicos daquele filme clássico-preferido dos irmãos do Norte. Só não tínhamos as pedras amarelas para seguir. A saia – mais colorida que antes - pingava o vermelho com uma delicadeza especial. A calça – já distante do tal jeans acinzentado - não mais anunciava o inverno. Homenageava uma arena. O touro já tinha vindo. E - certamente - vencido.

 

Não mais havia espaço sem cor. Ou vazio. Exceto dentro da portinha de vidro. Lá sim. Tudo continuava com a temperatura mantida. Nos espaços projetados. Com a calma da frieza. Ou com a frieza da calma. Aquela altura não dava mais para ser teórico.

 

Entre pulinhos para não aumentar a composição do tal mosaico e corridas aos paninhos para diminuírem a tal arena – o riso se fez.

 

Impossível nos olhar e não rir. Uma pergunta não calava. Falamos mesmo o que a respeito da sobra do tempo. Mais risos. Panos jogados às pressas.

 

Roupas trocadas como se num desfile de modas – tamanha a ligeireza dos gestos. Sapatos retirados com cuidado. Telefone tocando. Avisos de – já estamos aqui. Podem descer.

 

E nós ali. Entre os verbos. Poder. Querer. Dever. Descer.

 

Escolhemos o verbo - telefonar. Avisamos a ela. A ela. Quando chegar amanhã pela manhã – cuidado. Quatro garrafas de vinho se quebraram. No chão. Acho que escutei um possível o que. Com alguns decibéis mais sofisticados. Não sei bem.

 

Desliguei.

 

Talvez esta tenha sido uma frase da minha bisavó. Já não posso garantir. Se não tiver a solução – apenas feche a porta. Sugestão obedecida – ato praticado.

 

Já no carro - vi um brilho na meia dele. Um caquinho de vidro a enfeitava. Retirei com delicadeza.

 

Mas não contamos a eles.

 


Agosto 09 2009

 

A semana girara em torno da expectativa.

 

Até sorriu. Quando começou a entender. A expectativa em si – letra por letra – estava já sendo vivida. Já acontecia.  A existência do ato já era fato. É sempre assim. O difícil é enxergar. Vai lá saber por que. Quando uma programação se estabelece – já começa a ser vivida desde o primeiro passo.

 

E a rotina passa a ter outro colorido. Algo por aí.

 

Mas estava muito agitada para ser parcimoniosa. Com as idéias. Os pensamentos vinham desordenados. Não havia fila nem senha. Chegavam de qualquer jeito.

 

Sempre fora assim. Quando chegava esta época – ficava mais feliz. Muito mais feliz.

 

Quando criança – era o mês das reclamações.

 

As notas caiam. O boletim ia para o Departamento das Recuperações. O comportamento ficava um horror diante dos critérios aprovados. E lá se ia para o Departamento das Complicações. As queixas se sucediam.

 

Parecia que professores e coordenadores só sabiam o nome dela. Era o nome mais repetido do mês. Não se importava. Como se não lhe dissesse respeito. Muito menos autoria. Falava mais do que o costumeiro. Ria muito mais que já se conhecia.

 

Quando o mês acabava – voltava para o seu estado habitual.

 

Não que fosse de todo bem disciplinado – porém menos acelerado.

 

O tempo passou. Não tinha mais problemas de boletim. Nem de comportamento. Nem de coordenadores. Não frequentava mais os Departamentos. Mas continuava em seu festejo particular.

 

E desta vez não foi diferente.

 

Quando elas chegaram – todos já sabiam. Estava inaugurada a semana. Os festejos. As lembranças. As saudades. Os acertos. As surpresas. As noticias de todos os lados. As fotos antigas. O riso dela pelas fotos antigas. As escavações na memória. Estavam iniciadas as comemorações.

 

A mesa arrumada. A toalha branca. As flores. As cores da comida. A música bem escolhida. Elas vieram de lá. Saíram da rotina. Re-agendaram as tarefas. Para participar.

 

Eles passaram a semana tramando surpresas. Monitorando a organização. Para que nada faltasse. Para que tudo agradasse. A ela.    

 

Todos juntos. O espaço acolhia a todos. A casa parecia mais clara. Com mais luz.

 

Não faltavam abraços. Beijos. Piadinhas. As fotos assustadas. Agora não. Nem sorri. Apaga essa. Não fiquei bem. Essa - adorei. Me envia. Agora pode. Mais um pouco. Você fica aqui. O preferidinho é ele. Não. É ela. Ela faz assim. Eu que me desdobro. Sim. Ela sempre foi muito elegante. Não acredito. Mexendo com terra. Adora o sitio. Não o chalé. Certo. Cada um nomeia como quer. Mas ela mexendo com terra. Surpreendente. Quem diria. Então tudo bem. Luvas de borracha com grife. Agora a reconheço.

 

Falou sim. Falou que não estava bonita naquela festa. Eu escuto bem. Não faz mal. Eu me vingo. Ele também faz nesta época. Teremos que acertar tudo de novo. Sim. Diante do mar. Ia ser bom. Vamos organizar. Como assim eu quem decide. Sou submissa.

 

Estão rindo do que mesmo. Não entendi. De novo. Ela não esquece a tal Cidade Luz. Não tem assunto que não possa ser citada. Até unha encravada.

 

Sim. Outro brinde. Também achei. Delicioso. Que surpresa. É ela sim. Está ligando de lá. E no momento exato. Dos nossos brindes de aquém mar.

 

Que alegria. Você ligou para estar presente. Nem precisava. Você está presente esteja onde estiver. Além mar não é distância. É só localização. Sim. Todos também estamos sentindo sua falta. Que bom que ligou. Elas estão aqui sim. Haja ciúmes. Depois dizem que ciúme é bobagem. Sei.

 

Diante desse coral perfeito – ela parou. Sentou. Olhou para todos. Se sentiu a privilegiada. Repetiu uma frase costumeira. Bem baixinho. Alguém lá de Cima me adora. E balançou a cabeça. Grata. O prazer de estarem todos juntos era de uma obviedade que até emocionava.

 

E o dia exato ainda nem tinha chegado. E já tinha chegado. Lá se veio – de novo - a questão do tempo. Redundância perfeita. Mas ele proibiu. Não se pode dizer a palavra chave. Esta só no dia certo. Dá azar. E todos obedeceram a ele. Como sempre. Um avisou de lá. A Lei chegou. E todos riram. Obedientes. Lógico.

 

Agradeceu. A todos. A um por um. A elas que viajaram. A eles que se organizaram. E a ela - que mudou a rotina para contribuir com sua acertada arrumação.

 

Deu um beijo nele.

 

Concluiu. É o afeto que enlaça a alegria. E qualifica o Tempo certo.

 

O mais é calendário.

 


Julho 23 2009

 

Acordou com uma nova sensação. Não diria estranha por que não temera. Mas diferente.

 

Nem bem abriu os olhos e já entendia o dia que se iniciava. Enxergou o dia muito mais que o dia já a enxergava. Ainda não se tinham olhado frente a frente. Estavam seguindo nos subterfúgios da noite disfarçada. Uma troca de faltas por excessos. Ou ao contrário. O dia requeria calma. Para ser vivido. Mas vai lá saber por que – já sabia disso antes.   

 

O brilho entrava por baixo de uma porta. E pelas frestas da outra porta. Compreendeu. O sol se fazia forte.

 

Junto com o despertar um súbito pensar. Duas palavras. E tudo isso antes de levantar. Antes de por o primeiro pé no chão. Antes sequer de imaginar colocar o segundo pé no chão. Ate riu quando pensou nisso. É verdade.

 

Começo é colocar os dois pés no chão. Parece um chiste á toa. Mas não é.

 

Condescendência amorosa. Estas eram as duas palavras. Sob a luz da manhã.

 

Lembrou da avó da amiga. Ela sempre avisava.  O sol sempre cria a possibilidade da sombra, menina, o sol sempre cria a possibilidade da sombra.

 

Entendeu bem a avó.

 

Mas coragem. Pôs os dois pés no chão.

 

Se sentiu como uma caricatura de si mesma. Ali. Ao lado da cama. Olhando a fresta da luz e de pé. Até olhou para os pés. Em outros tempos voltaria para a cama e começaria tudo de novo. Agora não. Enfrentou. Lá se foi com seu pé ordenando e obedecendo. A caminhada.

 

Saiu do quarto.

 

O céu estava de um tom de azul quase artificial. Intenso. Lindo. Um leve ventinho frio ainda se despedia da madrugada. O sol brilhava no alto. Foi até a varanda. Fez um gesto casual. Os passarinhos na sacada – saíram.

 

Casualidade permite leituras bem particulares.

 

As duas palavras não escapavam. Firmes. Condescendência amorosa.

 

Vai lá saber por que desceu as escadas correndo. Olhou o mundo em volta. E deu inicio ao programado. Pratinhos. Talheres. Toalhas. Bandejas. Até incenso. Foi fazendo na sequencia. Para que escapasse o mínimo. E todos se sentissem privilegiados. Dentro do seu estilo. Dentro do seu festejo.

 

Tudo marcado para o final da tarde. Para uma múltipla celebração. Todos felizes.
Ele com o sucesso já invadindo as portas recém abertas. Uma consequência do trabalho ético e árduo.
Ele tinha sido promovido na semana. Uma consequência da dedicação e responsabilidade.
E ele estava com os limites orgânicos se restabelecendo. Uma consequência da persistência e confiança.

 

E todos com um fio condutor em comum. A vida. Quase como uma poesia.

 

Se sentiu como numa platéia. Participante entusiasmada deste mundo em organização. Até se viu aplaudindo e dando vivas.

 

Telefonou para ele. Houve um pequeno mal entendido. Acertou meio que às pressas.
Telefonou para o outro. Novo pequeno mal entendido. Emendou o mais rápido que pode.

 

Riu. Até riu mesmo. Já estava tomando proporções maiores. Melhor não falar com o terceiro. A esta altura já se sentia numa maratona de palavras. E erradas - lógico. Como se em saltos com vara. Fora do risco permitido. Desistiu.

 

Achou melhor cuidar das tarefas braçais. Com dedicação. Com parcimônia. Com sobriedade. E dentro do que elas representavam. Sem buscas pela intelectualidade. Sem esforços analíticos. Sem digressão filosófica. Assim ela me disse. Assim ele falou. Assim você se comportou. Nada disso. Não era o momento.

 

Encerradas as tarefas – sentou. Sob o sol. Não viu a própria sombra. Nem tampouco procurou. Recostou numa cadeira. Com total tranquilidade.

 

Achou dentro de si o que procurava fora. Concluiu. É algo sempre solicitado. Mas pouco disponibilizado. E vira um-sem-fim-de-queixumes. Afastou esta frase inteira. Apagou hífens. Retirou as ligações. Os plurais. Os infinitesimais.

 

Deixou – simplesmente - que o sol esquentasse a pele. Sorriu. E aguardou. Aguardou a chegada deles. Para a celebração.

 

Estava feliz. Muito feliz.

 

Com toda a condescendência amorosa o vento balançava - com suavidade - a toalhinha branca sobre a mesa posta.

 

 


Julho 12 2009

Ela me telefonou. A noite mal se instalara. E ela agia como madrugada afora.

 

Passara a semana toda pensando o que fariam. Na sexta. Mil programações.

 

Tinham duas comemorações pessoais. Acreditou. Ele viria mais cedo. Para comemorarem.  Organizou o roteiro. Escolheu os cardápios. Organizou o vestuário. Seria uma noite festiva.

 

Fazia tempos que eles não tinham tantos motivos. Para festejo. Para celebração. Sim. Esta a palavra certa. Celebração. Decidiram por celebrar os bons acontecimentos da semana.

 

Quando me telefonou estava emocional. Passional. Parecia filme italiano. Podia ate vê-la gesticular.

 

Ri baixinho. Não queria provocar mais emoções fortes. Quando ela se desacreditava ela se descomprometia. Com o mundo. Com as etiquetas. Com as regras.

Parecia que entrava em narcose. Porque todo o jeitinho calmo e suave se transformava.  Em explosão.

 

Lembrei a minha avó. Ela dizia sempre. Cuidado com as pontuações, menina, cuidado com as pontuações. Nunca vi ninguém que se adaptasse tão bem ao tal aviso de alerta.

 

Falava sempre doce. Com vagar. Nas frases dela continham de tudo. Desde hífen até exclamações. Mas tudo muito suave. Compassado. Parecia uma harpa. Com toda a leveza musical. Como um dedilhar pelas cordas.

 

Até a hora que se desacreditava.  Ai sim. Nem toda bateria faria tanto efeito. Era um ressoar de múltiplas sonoridades. Simultâneas. Sincrônicas. Um outro tipo - de pontuação - surgia.

 

Uma amiga a tinha convidado. Teriam um encontro para um café. Um vinho. Qualquer líquido acessório. Cancelou. Cancelou. Ele avisou que viria cedo. Preferiu esperar por ele. E não fazer encontros com pressa.

 

E ficou sozinha em casa.

 

Nem acreditou. Depois daquela semana só de problemas. Tudo bem. Nem lembrava mais se tivera problemas. Mas isso não importava. Assim foi logo dizendo. Quando perguntei pelos problemas. Importava que ficara só. Numa noite de sexta.

Dormiria sozinha. Conversaria sozinha.

 

Já estava na fase da bateria. Esta é uma fase onde só produz sons. Não escuta sons. Mais ou menos assim.

 

Mas houve um segundo de silêncio. Um segundo bem fugaz. Por onde pude dizer uma palavrinha. Uma frase. Por que não deixa para reavaliar amanhã. Nada melhor que o dia seguinte. E ainda é cedo.

 

Não respondeu. Ou melhor, não deu tempo de responder. Acho. Porque de repente escutei um som estranho. Algo como um gritinho. Um risinho. Difícil decifrar sons ao telefone. O som seguinte foi um estalinho.

 

Ela voltou a falar com uma voz doce. Aquela de sempre. A pré-bateria. Ele voltara. Não atrasara muito. O trânsito que atrapalhou a pontualidade do relógio. Não a dele. Até contou isso rindo. Estava cheia de graça. Graça até demais.

 

Antes de desligar escutei a explicação. Dela para ele.

 

Foi ela que estava preocupada com você. Ainda me perguntou se eu não me desconfortava. Por você marcar e não vir. Ou por estar em festinhas com suas colegas de trabalho. Imagina. Logo você. Sempre cuidadoso. Afetuoso. Coisa de amiga. Eu estava apenas lhe esperando e lendo. Quando ela telefonou.

 

De novo o som seguinte foi um estalinho. E o telefone foi desligado.

 

Do lado de cá – ou de lá – pensei. Preciso comprar uma tuba.  Vamos ver onde a harpa ficará nesta orquestra.

 

 


Junho 28 2009

Nunca fizera algo sequer parecido. Sempre fora tímida. Recatada - como uma prima mais sarcástica a denominava. Quando queria ser mais cruel a chamava de recatadinha.

 

Estava sempre com expressão calma. Tão calma que até sugeria um conformismo. E devia ser. Porque de nada reclamava. Ou criticava. Enfim.

 

Vivia em um silêncio simples. Daqueles que nunca diz nada. Porque tem mesmo nada a dizer. Silêncio carregado de si mesmo.

 

Acordara cedo. Leu alguns jornais. Era um sábado chuvoso. Nublado. Cinza.

 

Ligou o computador.

 

Se alguém quisesse explicar o que seria um corte no tempo – ali estava. Materializado. Tudo mudara. Não o tempo. Estava ainda cinza e frio. Mas ela sim. Estava vermelha e acalorada.

 

Diante da tela. Agitada. Falando pelos dedinhos o que nunca falara pelos lábios. Pela vida toda. Na busca de encurtar o tédio usou a curiosidade. Nada melhor que a curiosidade para diagnosticar o tédio. E afastar as suas causas.  

Era uma sala de pessoas da mesma faixa de idade. Não do mesmo sexo. Nem da mesma disponibilidade. Mas estavam lá. Por certo com a mesma projeção que ela. Amparados pelos textos. Pelas palavras. Buscando mais semelhanças que diferenças. E encontrando mais diferenças que semelhanças.

 

Nem viu o tempo passar. Ele era mais objetivo. Perguntou o que queria saber. Respondeu o que queria ceder. Por horas ali ficaram. Tentando ler mais as entrelinhas que as linhas. Parecia um teste. Vocacional. Admissional.  Psico-social. Enfim passional.

 

Foi tudo tão rápido que já estavam até discutindo. Quase brigaram. Fizeram as pazes. Combinaram. Sim. Conheço. Vou lá ocasionalmente. Mas pode ser sim. O horário está perfeito. Até lá. Como assim. Vai ter que descobrir. Está certo. Saia vermelha. Só isso. Calça jeans não vale. Vou falar com todos lá.

 

Certo. Malha vermelha. Adorei. Combinado.

 

Desligou a tela. E parecia que ela se ligara. Numa voltagem alta. Porque começou a correr pela casa. Procurando saia. Blusa. Sandália. Sapato. Sandália. Alta. Baixa. Olhou para os dedos. Horríveis. Não os dedos. As unhas.

 

Telefonou para o salão. Não tinha mais reserva. Fez uma expressão de horror. A mocinha deve ter visto. Porque arrumou um horário em seguida.

 

Passou as mãos pelos cabelos. Não poderia ir assim. Telefonou de novo. Para o mesmo salão.  A esta altura a mocinha já estava permissiva. Foi um tal de pode sim. Claro. Pode deixar. Dá-se um jeito. Pode vir. Finalizou com um autoritário vem logo.

 

Obedeceu. Foi.

 

Sentiu um toque no braço. Você por aqui. Hoje. Que aconteceu. Você sempre tão sem vaidade. Decidiu assistir televisão de unhas pintadas. Riu.

 

Era a prima – a do recatada. Não poupava ironia. E se divertia. Parecia que nada mais tinha a fazer. A não ser perguntar e responder. Sim. Não aguardava por respostas. Satisfazia-se com as perguntas. Em parte. A outra parte era comentar a programação da noite. Não a convidaria porque sabia que ela não ia gostar. Poderia sentir sono cedo. E deixaria todos preocupados por voltar sozinha.

 

Por um segundo se calou. A prima do recatada. Talvez para buscar fôlego.

 

Procedimento correto. Porque foi nesta brecha que ela falou. E a prima quase- seriamente - perdeu o fôlego que – divertidamente - buscara.

 

Não iria. Obrigada. Por favor. Pinte de vermelho. Tenho um encontro. Hoje à noite. Pode deixar com cachos soltos. Não. Quero soltos. Nada de cabelos presos. Sim. Como ia dizendo. Tenho um encontro. Quando. Hoje. Pela manhã. Eu de camisola. Ele de cueca. Um encontro casual. Que deu certo.

 

Marcamos mais tarde. Para dar tempo de trocar a camisola. E ele cobrir a cueca. Depois explico com calma. Agora quero fazer uma massagem. E riu.

 

Riu mesmo.

 

Não desistiu. Não tremeu. Nem temeu. Escolheu a blusa. Colocou a saia vermelha. Combinado é combinado. Sandália. Fez o próprio reconhecimento diante do espelho. E saiu.

 

Ele chegou. Bela malha vermelha. Pensou mas não comentou. Ela se aproximou primeiro. Deu um beijo sorridente - mas cauteloso. Ele sorriu.

 

Falou qualquer coisa. Com o barulho do lugar ela não entendeu. Sorriu de volta. Ele indicou uma mesa. Ela aceitou. Escolheram bebidas. Ele fez um comentário. Você é sempre assim decidida. Ela negou. E se eu estivesse acompanhado. Ou esperando alguém. Por que você faria isso. Sabia que eu viria.  Ele fez um ar estranho. Ela notou. Mas desconsiderou.

 

De repente olhou para a porta de entrada. Do restaurante.

 

Lá estava. Bem ali. Um senhor. Com uma malha vermelha e um vasinho de flores. Pesquisava o ambiente por trás dos óculos.

 

Olhou para o seu parceiro de mesa. Entendeu as perguntas.

 

Riu. Só riu. Não tinha mesmo muito a fazer. Imaginou. Se a prima do recatada estivesse ali.

 

 

 


Junho 25 2009

 

A semana fora toda complicada. Aguardava o resultado. Não conseguia se concentrar.

 

E o que mais queria era se concentrar. Para esquecer que aguardava o resultado. Mas não havia jeito. Nem bem dava uma pequena tarefa por encerrada e lá vinha o pensamento. Melhor dizendo – uma cachoeira de pensamentos. Lembrou até do nome daquele filme. Sim. Uma torrente.

Mil teorias. Mil planos. Mil contradições. Não faltou o inevitável por que eu.

 

Entre raiva e condescendência. De si. Dos outros. Lembrou do russo. Mas não cometera crime algum. Mas também sabia. Crime nem sempre tem objeto e objetivo explícito. Em geral é implícito mesmo. E mesmo assim é crime. Se irritou com o russo.

 

Nunca imaginara. Que uma resposta provocasse tanta aflição. Aliás - não a resposta. A falta dela. Estava difícil conviver com a falta dela. Da resposta.

 

Queria comiseração.

 

Nem bem formulou este pensamento e já o retirou da lista. Nada mais triste que um olhar de comiseração. Receber esse olhar. Ler no outro a sua situação. Esse olhar só é maravilhoso quando não se precisa dele. Ai sim. É perfeito. Dá até para inclinar a cabeça. Uma quedinha para afagos. Fazer ar de mais comiseração.

 

Com motivo, não. É diferente. E divergente. Fica-se ainda mais destituída. Mais desorientada. Empobrecida de valor próprio. Doeria muito mais. Não brincaria com isso. Até se sentiu desanimada.

 

Ainda tinha uma outra questão. Quem iria buscar. O resultado. Ela sozinha. Ou solicitaria companhia. Mas quem escolheria. Ele ficaria muito tenso. E nem contara a ele. Como poderia falar assim. Vamos lá. Vamos juntos. Ele nada sabia. Não seria saudável. Detestou esta palavra. Ela era amiga, mas muito delicada. Ela também era muito ansiosa. E ela própria não gostava de se expor. Entendia que exposição só quando se está sob controle.  Caso contrário dá mesmo é em muito caso contrário.  

 

Ótimo. Grande idéia. Mandaria um moto boy. Do moto boy até riu.

 

Imaginou ele chegando. Trazendo o envelope. Ela já até derrubando o coitado. O capacete caindo. A moto despencada no chão. Ela arrancando o envelope das mãos dele. Ela abrindo. Se agarrando no pescoço dele.

 

Parava ai o pensamento. Se agarrando por que. Por que dera negativo. Ou porque dera positivo. E lá voltava ao pensamento número um.

 

Pior é não poder mandar acelerar o resultado. Quer dizer. Poder - podia.

 

Poderia se lamentar. Falar do excesso de angústia. Esbravejar. Falar alto. Chorar baixinho. Fazer uma verdadeira cena convincente. Mas onde se escondera a coragem. Ao menos isso aprendera. Coragem era algo evanescente. Aparecia e sumia numa rapidez além das medidas. Nem bem se sentia a presença, e ela já ia se ausentando.

 

Continuou trabalhando. Achava incrível ninguém perceber como ela estava agindo. Mudara alguns hábitos. Era um tal de água e cafezinho que pensou em pedir aumento – para pagar a conta da cantina. Só a mocinha da cantina deveria estar feliz. Nunca vendera tanto. Em tão pouco tempo. Enfim alguém estava feliz. Viva a mocinha da cantina.

 

Quase engasgou. Com o cafezinho. Notou que estava bebendo um gole de cada alternado. Café quente e água gelada. Viu isso pelo olhar da mocinha. Que discreta virou de lado. Foi mudar o canal da televisão. Procede.

 

O celular tocou. Escorregou da mão dela e caiu na latinha do lixo.

 

A colega olhou para ela e riu. Solta. Leve. Olhou o riso dela e pensou.

 

Suspendeu o pensamento. Melhor deixar assim. Sem pensamentos. Achou o celular entre os papeis. Ainda tocava.

 

Atendeu. Era de lá.

 

Pode vir buscar o resultado do exame, senhora. Claro, Já está pronto. Ele achou que quanto mais rápido melhor. Não, senhora. Não abro exames. Desculpe. Também não perguntei. A senhora virá buscar hoje ainda. Certo. Estarei aqui sim.

 

Vou sozinha. Pronto.

 

Decidiu pelo elevador. Era só uma escada. Mas achou que o elevador seria melhor. Teria companhia. Escada é solitária. Cada um sobe e desce e nem se olha. Só se afasta. Num elevador ninguém se afasta e se olha.

 

Achou que estava grave. Deveria já estar disseminado. E já no cérebro. Ninguém pensa tanta bobagem - tão rápido. Sorriu para a mocinha do elevador. Sorriu para todos no elevador.

 

Desceu. Entrou na sala. Disse o nome. Foram pegar o exame. Recebeu. Agradeceu.

 

Pelo jeito que falou até achou que falara em outro idioma. Um dialeto talvez. Nem ela mesma entendera o que dissera à mocinha. Sem importância. Ela lhe dera as costas. Atendia já outra pessoa.

 

Não abriu. Saiu. Optou pela escada. Não queria que ninguém a olhasse. E queria que se afastassem.

 

Era um momento daqueles de extrema solidão.

 

Abriu o resultado. No último degrau da escada. Já perto da saída. Estava escrito. Negativo. Negativo. Negativo.

 

Subiu a escada de volta. Desceu pelo elevador.

Queria agora que todos a olhassem. E não se afastassem.

 

Nunca mais se descuidaria por tanto tempo. Fez as pazes com o russo.

 

Nunca mais. Falou isso para a mocinha do elevador. Que a olhou sem nada entender. Mas sorriu.

 

 


Junho 20 2009

Ela ia falando. Eu ia acreditando. Ela não era de criar contos. Ou de sublimar encontros. Era de efetivar desencontros. Se não estava bom – destituía. Por isso fui acreditando quando avisou. Acabou.

 

Ele ia viajar. Passaria trinta dias fora a serviço da empresa. Naquele país privilegiado. Boa música. Maravilhosas orquestras. Vinhos de especiais safras. Bosques. Rio com nome de valsa. Para completar - até aquelas tortas irrecusáveis. Era bem para lá que ele iria. E para lá ele foi.

 

Observou. Não sentiu saudade da parte dele. Nem uma mínima expressão de quanto-tempo-longe. Sentiu que ia feliz. E que surgira um certo ar juvenil. Juvenil até demais. Olhou. Mudou o ângulo do olhar. Quis ser a mais justa e o menos paranóica possível.  Respirou.

 

Decidiu pesquisar. No caso de estar errada – pediria desculpas. Mas não era mulher de julgamentos errados. Era boa nisso. A própria profissão lhe exigira e lhe qualificara desta forma. Era boa em avaliações. Por isso – mesmo sabedora antecipada – temeu. E tremeu.

 

Abriu a mala. A dele. Perto da hora da saída. Ele – desatento - dava os últimos retoques na imagem. Não a viu abrir. Ainda bem. Porque o olhar dela fora da ordem do selvagem. Do devastador.

 

Encontrou. Vários presentinhos. Que delicadeza. Deveria ser uma princesinha. Sim. Por certo não era para ele usar. Eis algo que tinha absoluta certeza. Esboçou até um risinho. Mas daqueles tetânicos. Com trismo. As crisálidas devem ter trabalhado só para aquelas compras. Eram realmente belas sedas. Suaves ao toque. Belas cores. Fortes. Sedutoras. Mas delicadas no recorte.

 

Agiu.

 

Fechou a mala. Deixou dentro as lindas caixinhas intactas – porém ocas das delicadezas. E ela. Ali. completamente fora - plena de tristeza.

 

Ele se despediu. 

 

Um abraço mais rápido. Um beijo menos efusivo. Não precisa me levar. O motorista virá. Fica em casa mesmo. Olhou para trás mais uma vez ao entrar no carro. Comentou algo sobre a casa. Deu mais um adeus. E saiu.  Assim. Como um ato perfeito de premonição. Ou como um ballet contemporâneo. Cada dançarino com seu ritmo. Mas num mesmo palco.

 

E assim pareceu ser.

 

Enquanto ele de lá se assustava. Ela daqui se mobilizava. Discussões. Exageros. Emoções. Desculpas. Perdões. Nada resolveu. Avisou que era já um assunto encerrado. Um mês se passou.

 

Comecei a rir. Não foi à toa que aquele filósofo diplomata Francês ganhou o ilustre prêmio.  Entendi muito bem o que ele explicava sobre o riso. É preciso exceder duas vezes o trágico para que seja cômico. Começou a ficar cômico.

 

Assunto encerrado é o termo mais flexível que se utiliza. Ou que se desconsidera. Todos buscam a nota de rodapé. Sempre se espera uma báscula. Ele não fugiu à tal regra.

 

Voltou.

 

Chegou com as malas. Tentou abrir a porta. Não conseguiu. A chave desobedecia. Ou a fechadura não reagia. Compreendeu de imediato. Esbravejou. Um homem tão ilustre. Esbravejou.

 

Ela firme – mas assustada - telefonou para aquele número hollywoodiano. Sim. Porque até aquele dia só o reconhecia por filmes. O tal número. Veio o reforço. Ele desconsiderou. Também fez outra ligação. Para o mesmo número. A esta altura já mais suburbano que hollywoodiano. Veio outro reforço.

 

Uma porta.

 

De um lado – de dentro – ela. E sua decisão.  

Do outro lado – de fora – ele. E sua intenção.

 

Para completar as malas. Duas policias. E a porta. Imóvel. Fria. Só não diria ausente porque esta palavra não cabia. Mas ficava ali. As policias negociavam entre si. Alguém tinha que ser convencido. Demorou. Mas enfim - um consenso.

 

A porta não abriu. Ele deu as costas e se foi. Ela foi para o quarto. 

 

Nesta noite chorou. Toda a noite. Se culpou. Se recriminou. Se descabelou. Se perdoou. E se curou.

 

Não cedeu. Sabia que a concessão lhe cobraria um preço maior que a possível solidão anunciada. E o que está destituído – não pode ser restituído.

 

Pensou algo por aí. Pensou muito mais. Talvez nunca tenha pensado tanto durante uma noite. E teve mais certeza quando a noite se foi. Concluiu. No final cada um é refém dos próprios atos. Que cuide muito bem, então, do próprio cativeiro.

 

Pela manhã abriu a porta. Saiu. Para o trabalho. Para a responsabilidade. Para os propósitos e os projetos.

 

Nada quis. Nada pediu. Só caminhou no percurso que escolheu.

 

E recuperou a si mesma. Por inteiro.

 

 


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