Blog de Lêda Rezende

Novembro 23 2009

 

Fiquei olhando os pares. Dentro do salão. Repleto e preeenchido por dança e música.

 

Cada par se integrava. Se desintegrava. Dava até uma confusão mental. E tive a sensação de um - virar dois. De dois - virarem três. Até de dois – virarem um. E de muitos - virarem nenhum.

 

Assim a dança os desnudava. Expondo muito mais as emoções do que os corpos.

 

Ela era a mais nova.

 

Não estava desacompanhada. Estava sem acompanhante. Dançava com quem a convidasse. Tinha a pele muito branca. Magra. Esguia. O cabelo repuxado para trás deixava-lhe o rosto mais à mostra. Traços finos. Exóticos.

 

Ficava todo o tempo com a sobrancelha erguida. Como uma tatuagem. O vestido – preto - obedecia com rigor os contornos da pele. Usava uma delicadíssima e alta sandália. De camurça vermelha. O conjunto permitia destacar o que mais importava. Os pés. Por que para os pés - que olhava de momento em momento.

 

Dançava com cautela. Temia o encontro dos corpos. Mãos e rostos próximos. Corpo e pés afastados. Parecia não dançar. Só se apoiar. Tinha uma expressão triste no rosto. Mas sempre que agradecia ao seu par – sorria.  E voltava - só - para a cadeira.

 

Eles eram dançarinos antigos.

 

Tinham um jeito teatral. Como se a dança fosse uma arte lúdica. Podia ser vivida como quisesse. Até com um pouco de desprezo. Sem cautela e sem controle.

 

Talvez a cumplicidade do casamento já não mais existisse. Mas a da dança permanecia jovem. Ele já idoso. Magro. Recurvado. Um terno preto dava um toque discreto de preparação. Ela mais alta. Disfarçava a idade com maquillage. Cabelos soltos e curtos cobriam uma parte do rosto.

 

Um vestido vermelho longo descia rebelde a curvas.  Uma sandália preta com pedras brilhantes faiscava diante do vai-e-volta dos passos da dança. Não se olhavam. Mas se entendiam. Trocavam pernas e braços. Enlaçavam e desenlaçavam. Mas em nenhum momento se olharam ou se abraçaram. 

 

Eles eram iniciantes.

 

Ela chegou tímida. Olhava mais para os lados que para o piso. Media espaços. Deslocava a roupa. Um vestido preto de tecido mais brilhante. Puxava sempre para baixo. Como se isso a fizesse menos visível. E ao mesmo tempo despertasse os olhares.

 

Parecia oscilar – entre se cobrir - ou se expor. Os cabelos eram longos. Avermelhados. Usava uma sandália preta. De salto tão incrivelmente alto – quanto fino.

 

Ele a guiava com cuidado. Lento. Porém mais confiante. Em si. E talvez nela. Quando o passo exigia que os corpos se separassem – e as mãos ficassem presas – ele a trazia com delicadeza.

 

E ela parecia vir com disponibilidade. Este era um dos poucos momentos que esquecia o vestido. E olhava para ele. Rindo. Ele fazia uma expressão de acolhimento – com os braços e com os olhos.

 

Eles eram ocasionais.

 

Entraram um pouco afoitos. Não decidiam a posição da mesa a escolher. Conheciam o espaço. Mas não sabiam lidar com ele. Demoraram a decidir. Decidiram. Arrependeram. Mas não mudaram.

 

Ela usava um vestido preto. Curto. Os cabelos de cachos caiam pelas costas. Talvez desobedientes ao planejado. Irritava-se de vez em quando. E os puxava para o lado do rosto. A sandália era preta. Com uma flor vermelha lateral.

 

Ele estava com um terno preto. Uma gravata vermelha. A flor vermelha do sapato dela e a gravata vermelha dele -- parecia ser a única comunicação compartilhada entre eles.

 

Dançaram duas ou três músicas. Suado – ele pediu para sair. Puxando os cabelos para o lado – ela o seguiu.

 

Há muitos anos assisti a um filme. Passava-se todo num salão de Baile. Uma filmagem atual. Sobre um período passado. Toda a História se passava sem que uma palavra fosse verbalizada. A música, a dança, o gestual e as roupas denunciavam vontades e recalques. Dominadores e dominados. Invasores e submetidos. O contexto social emoldurava as emoções. Mas o contrário se faz sempre - impossibilitado.

 

Inesquecível. Bendisse até a famiglia do diretor. Mas foi ali sentada. Diante do ritmo e da contorção dos corpos. Da mistura de sexos. Da ambigüidade dos gestos. Que me veio uma sensação forte.

 

Me vi assim. De repente. Dentro do tal filme. Participante anônima das mesas circundantes.

 

A Vida desfila diante de nossos olhos. Todo o tempo. Sem precisar pagar ingresso. Ou comer pipoca. Ela vai tecendo e compondo. A cada nó desatado - prossegue uma linha tortuosa. E meio que à deriva – nos fingimos cegos de nós mesmos.Ou melhor. Meio cegos de nós mesmos – nos fingimos à deriva.

 

Quando sai – não resisti. Dei uma olhadinha para trás.

 

Tudo continuava. E se repetia. Perfeito.

 

 


Novembro 21 2009

 

A noite era de festejo.

 

Parceria comemorando a individualidade. Uma noite em que o início seria celebrado. Mais ou menos assim. Ele estava feliz.

 

A noite estava clara. Quente. Carros passavam acelerados pelas largas avenidas. A música se integrava a cada esboço de aglomeração.

 

A escolha fora dele. Deste especial espaço. Optava por conhecer os hábitos nativos. A rotina dos habitantes. Não a rotina de quem chega. Não as apresentações programadas. Sempre foi o estilo dele. Descobrir o natural. Ver os bastidores. Para entender as veracidades. E até as falsidades.

 

Enfim. Lá chegamos.

 

Chegamos cedo. Mais cedo que o habitual do lugar. Ainda bem. O ambiente justificava este propósito.  Ser antecipadamente pontual.

 

Da entrada já se compreendia.  Era quase um santuário. Era um Lugar especial. Aconchegava noites. E fazia de todas – noites especiais. Uma beleza.

 

O cenário era maravilhoso.

 

No acesso principal se destacava uma cristaleira. Colocada suavemente a um canto lateral. Qual um símbolo. Enorme. Com taças ordenadas nas prateleiras. Os cristais lindamente trabalhados. Talvez o fruto da visita de algum deus à Terra. Mãos divinas ali deveriam ter tocado. Mesmo que – possivelmente - disfarçadas.

 

Um longo salão. Longitudinal – escutei este comentário. Não vi quem falara. Certamente alguém desavisado. Nada entendia de medidas. Só de exatidões.

 

Longas e envernizadas colunas de madeira escura contornavam o espaço. Fingiam delimitar ou amparar as laterais do teto. Ou mais ainda. Demonstravam a longa distância. E a diferença entre chão e teto. E as infinitas possibilidades de sonhos que esta distância abriga. Perfeito.

 

O piso era em mármore. Branco. Menos branco do que deve ter sido um dia. E talvez menos plano. Mas bem cuidado. Nem um risquinho inadequado emoldurava esta tela. Sim. O piso era uma tela. Foi o que pensei um minuto depois.

 

As mesas serviam de moldura. Alinhadas em volta do salão. Eram de madeira escura. Espaldar mediano. Assento acolchoado de veludo verde.

 

Tudo disposto de uma forma delicadamente estética. A cada um era permitida visão sem restrição.

 

As pessoas foram chegando. Pessoas comuns. Sem brasões. Sem vestuário griffado. Sem grandes belezas midiáticas. Sentavam. Elegantes. Apenas a postura denunciava uma sutil superioridade. Muito mais interior que exterior. Não dava para entender muito bem. Sou terrena demais. Conclui.

 

A intimidade com o local não abrandava a formalidade. Mas também não impedia o prazer associado.

 

Percebi que homens e mulheres seguravam sacolinhas. Continham os sapatos. Extras. Especiais. Funcionais. De cada um.

 

Quando trocavam os sapatos – uma surpresa. Deixavam de ser cada um. Se transformavam em pares. Belos. Belos pares. E longe de serem pessoas comuns. Transformavam-se em Pessoas. Suficiente.

 

Iam ao salão e dançavam.

 

Trançavam pernas. Com suavidade e decisão. E transparecia a sabedoria. Como se a cada passo – uma revelação. Do estilo. Dos pensamentos. Das buscas. Dos encontros e desencontros. Um pedacinho exposto da real história.

 

A música ordenava os movimentos. Mas as mãos dos homens - nas costas das mulheres - serviam de batuta. Marcavam o ritmo. Denunciavam o comando.  Tamborilando na pele as mil formas de ordenar.

 

Os garçons cruzavam de um lado para o outro. Mas não sem uma regra. Que é talvez muito mais que uma Lei. Só o faziam quando o salão esvaziava. Nada era oferecido enquanto a música da dança tocava. E os pares – dela apenas se serviam.

 

De tempos em tempos – a música era substituída. Por um tipo de jingle codificado. As pessoas voltavam para as cadeiras. E as bebidas ficavam - por poucos minutos – responsáveis pelo prazer ordenado. O salão expunha a solidão. E a tela se fazia branca.

 

Permaneci sentada ali. Ao lado dele. Olhando as danças. Os rituais. As sacolinhas. A troca de sapatos. Os pés e as mãos obedecendo e comandando.

 

Talvez nem sempre na proporção desejada. Mas num ritmo compartilhado.

Entendi. Talvez não a dança. Nem a completude dos pares. Muito menos os comandos corretos.

 

Diante da tela que se dispunha a solidarizar com o imenso espaço vertical – entendi uma parte da Vida.

 

Saímos de lá mais leves do que chegamos.


 

publicado por Lêda Rezende às 15:15

Julho 25 2009

 

Os debates ficaram agendados. Os temas estabelecidos. O grupo se reuniu para o proposto.

 

A questão – naquele momento - era básica. Ele tentou formular com sobriedade. A traição está em que Lugar. Na emoção. Na omissão. Na materialização. Ou na obviedade da informação. Ou pior ainda. Na ambigüidade de um riso sorrateiro e explícito.

 

Ao final desta longa frase dita de forma entrecortada – um silêncio adequado se fez.

 

A cada um coube um pensar. Mas a ninguém parecia caber um responder. Pelo menos de imediato. Não houve um só já sei. Parecia que cada um se perguntava muito além da demanda.

 

Ela decidiu. Nada de tanto silêncio. Parecia indignada. Por que ninguém responde. Onde já se viu. Quem nunca se sentiu assim. Traída. Sofrida. Rejeitada. Revoltada. Quem nunca disse - eu que me dei tanto.

 

Surgiram alguns risinhos disfarçados. Parecia ser este exatamente o resumo das perguntas entrecortadas. Mas ninguém se atreveu a falar. Sequer a insinuar. Não era caso de gracejos. Era. Mas não para ela. Mais ou menos assim. Respeitaram a seriedade dela. Calaram-se e escutaram.

 

Traição é fato de escuta. Muito mais do que de fala.

 

Estava tensa. Mexia a colher do cafezinho como se cavasse a terra. Parecia querer exumar alguma mágoa antiga. Para vê-la – talvez - transformada em esqueleto. Ou em pó. Vai lá saber. Apertava a colherzinha com tanta força que os dedinhos até estavam esbranquiçados.

 

A voz começou rouca. Traição não é questão de Lugar. Nem de lugar. É mais uma questão de falta de assento. De falta de olhar. Traição é esvaziar uma pessoa. Totalmente. Expondo sua intimidade a outro. Traição é da ordem do visceral. Por isso dói tanto.

 

Parecia conversa de intelectual daquele país. Lá sim. Cada fala tinha uma total ausência de significado. E ampla plenitude de linguagem. Quem de fora estava - sempre concluía. Entendi nada. Mas sei que é importante. Muito importante. E não faltaram publicações e mais publicações sobre estes tão importantes- nada entendido.

 

Alguém teve uma idéia na sequência da escuta.  E expôs rapidamente a tal idéia. Aqui também tem vinho. Olharam para ele. Riram aliviados.

 

Optaram pelo vinho. Mesmo correndo o risco daquela frase em latim. A esta altura qualquer risco parecia menor que a exumação. Foi a sensação que deu.

 

Alguns se levantaram. Caminharam pesado. Como se cobrissem algum túmulo com os pés. Outros se recostaram na cadeira. Como se buscassem um conforto. Um ou outro olhou para fora da janela. O olhar parecia invejar quem passava isento.

 

Ela sentou. Dispensou o café. Fosse a colherzinha um ser vivo e estaria grata. Até poderia respirar de novo. Ergueu a mão. Firme. Quase todos a olharam. Menos os que observavam os isentos passando na calçada.

 

E calma, muito calma, se dirigiu para a bandeja das taças. No rosto estava uma expressão de falei o certo. Pegou uma taça de vinho branco. Bem gelado. O copo solidário suava o excesso.

 

Comentou. Que cada um exponha seu recato. Eu de minha parte, decidi enterrar o meu. Continuou. Acho que virá um temporal. Pegou mais uma taça da bandeja. Fez um quase ballet na volta. Sentou com uma expressão de falei forte. Falem vocês agora. Ordenou.

 

Vai lá saber por que – acabou de ordenar e sentar - a cadeira virou.

 

Virou e caiu. De costas. Com ela dentro. Colada nas costas da cadeira. Pernas não tão coladas assim. A saia confirmando a existência da lei da Gravidade. Uma nova maquillage inaugurava o rosto. Refrescado pela rápida colaboração do vinho. Um susto. Um grito. Um desacato.

 

Levantou-se com ajuda. Recolheu o mais exposto. Secou o rosto.

 

Quando riu – todos riram. E as respirações retomaram o ritmo correto.

 

Traição, traídos e traidores voltaram ao seu devido Lugar. Entre risos e piadinhas cada um revelou e disfarçou seu pudor. Houve uma inútil tentativa de falas e pequenas pontuações sobre gestos e atos.

 

Em meio ao ocorrido - ficou encerrada a temática. Mal solucionada pelas palavras. Mas muito bem explicada por um objeto. Procedia.

 

Muitas vezes uma súbita performance se faz  necessária. E elucidativa. Foi o que concluíram de mais imediato.

 

 


Junho 28 2009

Nunca fizera algo sequer parecido. Sempre fora tímida. Recatada - como uma prima mais sarcástica a denominava. Quando queria ser mais cruel a chamava de recatadinha.

 

Estava sempre com expressão calma. Tão calma que até sugeria um conformismo. E devia ser. Porque de nada reclamava. Ou criticava. Enfim.

 

Vivia em um silêncio simples. Daqueles que nunca diz nada. Porque tem mesmo nada a dizer. Silêncio carregado de si mesmo.

 

Acordara cedo. Leu alguns jornais. Era um sábado chuvoso. Nublado. Cinza.

 

Ligou o computador.

 

Se alguém quisesse explicar o que seria um corte no tempo – ali estava. Materializado. Tudo mudara. Não o tempo. Estava ainda cinza e frio. Mas ela sim. Estava vermelha e acalorada.

 

Diante da tela. Agitada. Falando pelos dedinhos o que nunca falara pelos lábios. Pela vida toda. Na busca de encurtar o tédio usou a curiosidade. Nada melhor que a curiosidade para diagnosticar o tédio. E afastar as suas causas.  

Era uma sala de pessoas da mesma faixa de idade. Não do mesmo sexo. Nem da mesma disponibilidade. Mas estavam lá. Por certo com a mesma projeção que ela. Amparados pelos textos. Pelas palavras. Buscando mais semelhanças que diferenças. E encontrando mais diferenças que semelhanças.

 

Nem viu o tempo passar. Ele era mais objetivo. Perguntou o que queria saber. Respondeu o que queria ceder. Por horas ali ficaram. Tentando ler mais as entrelinhas que as linhas. Parecia um teste. Vocacional. Admissional.  Psico-social. Enfim passional.

 

Foi tudo tão rápido que já estavam até discutindo. Quase brigaram. Fizeram as pazes. Combinaram. Sim. Conheço. Vou lá ocasionalmente. Mas pode ser sim. O horário está perfeito. Até lá. Como assim. Vai ter que descobrir. Está certo. Saia vermelha. Só isso. Calça jeans não vale. Vou falar com todos lá.

 

Certo. Malha vermelha. Adorei. Combinado.

 

Desligou a tela. E parecia que ela se ligara. Numa voltagem alta. Porque começou a correr pela casa. Procurando saia. Blusa. Sandália. Sapato. Sandália. Alta. Baixa. Olhou para os dedos. Horríveis. Não os dedos. As unhas.

 

Telefonou para o salão. Não tinha mais reserva. Fez uma expressão de horror. A mocinha deve ter visto. Porque arrumou um horário em seguida.

 

Passou as mãos pelos cabelos. Não poderia ir assim. Telefonou de novo. Para o mesmo salão.  A esta altura a mocinha já estava permissiva. Foi um tal de pode sim. Claro. Pode deixar. Dá-se um jeito. Pode vir. Finalizou com um autoritário vem logo.

 

Obedeceu. Foi.

 

Sentiu um toque no braço. Você por aqui. Hoje. Que aconteceu. Você sempre tão sem vaidade. Decidiu assistir televisão de unhas pintadas. Riu.

 

Era a prima – a do recatada. Não poupava ironia. E se divertia. Parecia que nada mais tinha a fazer. A não ser perguntar e responder. Sim. Não aguardava por respostas. Satisfazia-se com as perguntas. Em parte. A outra parte era comentar a programação da noite. Não a convidaria porque sabia que ela não ia gostar. Poderia sentir sono cedo. E deixaria todos preocupados por voltar sozinha.

 

Por um segundo se calou. A prima do recatada. Talvez para buscar fôlego.

 

Procedimento correto. Porque foi nesta brecha que ela falou. E a prima quase- seriamente - perdeu o fôlego que – divertidamente - buscara.

 

Não iria. Obrigada. Por favor. Pinte de vermelho. Tenho um encontro. Hoje à noite. Pode deixar com cachos soltos. Não. Quero soltos. Nada de cabelos presos. Sim. Como ia dizendo. Tenho um encontro. Quando. Hoje. Pela manhã. Eu de camisola. Ele de cueca. Um encontro casual. Que deu certo.

 

Marcamos mais tarde. Para dar tempo de trocar a camisola. E ele cobrir a cueca. Depois explico com calma. Agora quero fazer uma massagem. E riu.

 

Riu mesmo.

 

Não desistiu. Não tremeu. Nem temeu. Escolheu a blusa. Colocou a saia vermelha. Combinado é combinado. Sandália. Fez o próprio reconhecimento diante do espelho. E saiu.

 

Ele chegou. Bela malha vermelha. Pensou mas não comentou. Ela se aproximou primeiro. Deu um beijo sorridente - mas cauteloso. Ele sorriu.

 

Falou qualquer coisa. Com o barulho do lugar ela não entendeu. Sorriu de volta. Ele indicou uma mesa. Ela aceitou. Escolheram bebidas. Ele fez um comentário. Você é sempre assim decidida. Ela negou. E se eu estivesse acompanhado. Ou esperando alguém. Por que você faria isso. Sabia que eu viria.  Ele fez um ar estranho. Ela notou. Mas desconsiderou.

 

De repente olhou para a porta de entrada. Do restaurante.

 

Lá estava. Bem ali. Um senhor. Com uma malha vermelha e um vasinho de flores. Pesquisava o ambiente por trás dos óculos.

 

Olhou para o seu parceiro de mesa. Entendeu as perguntas.

 

Riu. Só riu. Não tinha mesmo muito a fazer. Imaginou. Se a prima do recatada estivesse ali.

 

 

 


Junho 17 2009

O convite chegou de repente. No começo de uma noite de muito calor - e pouca opção.

 

Convidava para o casamento dele. De repente - este virou o termo repetido. Porque as lembranças iam chegando de repente. E aos montes. Como dizia a minha avó. Só as lembranças nos comandam, menina, só as lembranças nos comandam. Ri sozinha.

 

Posso sim. Posso falar agora. Que aconteceu. Que voz tristinha. Sim. É arriscado. O período. Pode acontecer, sim. Sua mãe não vai gostar mesmo. Mas sossega. Nada vai acontecer. Alguém Cuida da juventude hormonal. Fica calmo.

 

Ainda bem. Acalmou agora. Mas faz favor. Veja se toma mais cuidado. Eu sei que é difícil. Mas a adolescência também tem mais ocupações. Além desta específica. Ainda bem que voltou a rir.

 

Pode lógico. Passa a semana aqui. Não importa se acabamos de nos mudar. Que graça tem uma casa se não for para receber os amigos. Diz a ele que pode vir. Sim.

 

Só rindo. Então vai ficar o dia todo aí. Em frente a este aquecedor. Vai ficar bem passado, isso sim. Tem razão. A temperatura aqui nem de longe está lembrando a de lá. Sei disso. Sim. Sinto saudades. Mas tinha que vir. E vim.

 

Assim. Sem muita dialética. Dialética virou foi queixo tremendo. De frio. Toma mais um. Edredom de plumas. Esse deve esquentar. Só cuida para não causar um incêndio. Com o aquecedor ligado o dia todo. Vai levar o aquecedor para o exame - também. Prometo nem vou rir mais.

 

Não nos víamos há anos. Muitos anos. Desde aquele último inverno. O do aquecedor acoplado. Ao corpo. Não sabia que ele havia sido requisitado. Soube na hora. Viera comemorar com o amigo de toda a vida. De pequenos a adultos. Mesmo distantes – sempre presentes. Nas noticias. Nas opiniões. Nos acertos. Nas profissões. Nas decisões. Nas escolhas afetivas.  

 

Nos encontramos no cortejo. Me viu. Veio feliz.  Em direção a mim. No dia exato e no momento exato. De toda aquela matrimonial confusão. Brinco perdido. Chuva sob marquise. Foco de luz nas costas. Gata assustada em sofá. Ameaça de desmaios em altar. Ele chegou. Sorrindo. Com aquele sorriso leve. Comemorativo. Abriu os braços. Não parava de me beijar, de me abraçar. Repetia meu nome mil vezes. E ria. Fiquei emocionada. Ainda bem. Que deixei este tipo de alegria plantada. Para ser colhida num reencontro.

 

Há uma certa fase da vida que as pessoas não sorriem simplesmente. Elas celebram. Comemoram. Riso tem uma outra equivalência. E quando essa equivalência desaparece e fica só o riso – muitos chamam de amadurecimento. As celebrações se recolhem. Já não há mais tanto festejo.  

 

Tem gente que já nasce com o riso amadurecido. E há os mais afortunados que o resguardam de qualquer distrofia. Às vezes amadurecer também equivale a uma distrofia. Mas enfim. Lá estava ele.

 

Cresceu belo. Forte. Saudável. Competente.  Brilhante. Mas manteve o riso comemorativo. Amadureceu sem se tornar um distrófico emocional.

 

Telefonou para fazer o convite. Fazia questão. Que lá estivéssemos. Casaria lá. Na cidade de onde vim. O trajeto se invertia. Agora nós que iríamos.

 

Tanto tempo sem voltar. Após um segundo de apnéia – escutando o convite pelo telefone – retomei.  O fôlego. O susto. A intenção. A voz.

 

Lá pode até ter brinco perdido, mas não tem chuva. Nem gata. Nem foco de luz. Nem prédio com marquise.

 

Tem sol. Tem mar. Tem cheiro de mar no começo do dia, no meio do dia e no final do dia. Tem cheiro de mar na brisa da noite, da meia noite. Tem até isso. Meia noite. Tem vista. Tem banquinhos para ver a vista. Tem coqueiro.

 

Tem paralela. Tem modelo. Tem forte. Tem ladeira. Tem uma sereia acolhedora de peito aberto. E  farol sinalizador de que está perto. Tem alta e tem baixa. Tem fita. Tem conta. Tem cor de ouro nas panelas. Tem mil molhos nas tigelas.Tem caldo. Tem lambreta. Tem até sururu. Lá tem tanto que nunca mais vi.

 

Tem a amizade que desprezou geografia. Que prestigiou afetos. Que memorizou amparo. E tudo em tão juvenis tempos. E contratempos.

 

Voltar requer sempre mais coragem que partir. Mas lá vamos nós. Outra vez sob o olhar de Manturna. Apertem os cintos. Entre céus e terras, passando pelo doce azul do mar. Uma certeza - o riso festivo se fará coro e cor. 

 

 


Maio 11 2009

Uma festa. Em casa deles. Eles que nunca fizeram uma confraternização. Mesmo com tantos anos de trabalho juntos. Sempre achei que não gostavam de misturar. Trabalho e social. Colegas e amigos. Amigos e família. Vai lá saber. Vai ver seguiam o estilo dos irmãos latinos-sofisticados.

 

Em lugar de trabalho não se faz amigos. Nem se tropeçar em algum. Até porque um bom trabalhador nem tropeça.

 

Mas enfim. Convidaram. Seria daquelas festas tamanho M. Nem muitos. Nem poucos. Sem sobras. Sem apertos. Eles sempre foram mesmo um casal ajustado.

 

Ela foi logo me avisando. Fora convidada. Estava feliz. Acho até que mais feliz que surpresa. Não sei bem. Tinha uma vida cheia de tarefas. Conciliar vida profissional e doméstica é como ser GG e ter que caber num P. Corre daqui. Acerta dali. Finge que não vê de cá. Controla de lá. Assim era a vida dela. E ainda tinha a vaidade. Muito vaidosa. Ai sim. Era GGG. Mas contida num PP. Disfarçava. Jurava que já acordava assim. Era divertido de ver.

 

No dia da festa resolveu ir ao tal salão. De beleza. Programou a agenda. Suspendeu os atendimentos com uma semana de antecedência. Foi tudo assim. Rigorosamente planejado. Se deu esse pequeno presente. Como se uma madame fosse. Aliás, madame, ela sempre foi. Sempre elegante. Gestual delicado. Delicadíssimo. Falava um Português corretíssimo.

 

Comentavam que até sabia Latim. Nunca a escutei pronunciar sequer uma gíria. Todas as frases com riqueza de vocabulário. Concordância verbal perfeita. Infinitivos adequados. Tinha uma postura de dar inveja.

 

Caminhava com tranqüilidade. Não importava se atrasada ou não. O caminhar era sempre compassado. Tinha um jeito de colocar os cabelos – sempre bem cuidados - para trás da orelha. Assim. Com os três últimos dedos. E fazia isso de uma forma tão lenta e suave que sugeria um ballet.

 

Leveza e definição. Difícil encontrar alguém mais refinada.

 

Mas nesse dia parecia que tudo estava errado. O dia da festa. Começou com a lista. Que recebeu na hora que ia sair de casa. Uma lista para compras em supermercado. Não tinha como ser evitada. A tarefa. Acatou. Quando foi entrar no carro notou algo como meio inclinado. Concluiu numa observação rápida. Pneu furado. Controlou-se. Avisou à Seguradora.

 

Demoraram mais que o previsto. Avisaram que foi por um erro no endereço. Ela absteve-se de qualquer resposta. Enfim trocaram o pneu. Já estava atrasada para o salão. E lá o horário era rigoroso. Se atrasasse colocavam outra pessoa no horário. E depois tinha que esperar uma vaga.

 

No supermercado as filas estavam enormes. E lentas. Cinco filas depois – estava enfim na fila da carne. Esta já a última da lista. E o tempo desatento a ela. Esperou. Colocou os cabelos para trás da orelha umas vinte vezes. Mas persistiu no estilo delicado – dos três últimos dedos. Chegou a vez - dela. Ia fazer o pedido quando uma senhora materializou-se em sua frente. E foi logo dizendo. Que estava ali. Só tinha saído rapidamente. Mas que o lugar era dela. Estava ali muito antes. Ela que não tinha prestado atenção. Falou assim. Você que não prestou atenção.

 

Houve um segundo de silêncio.

 

Ficou irreconhecível. Uma profusão de palavras nunca dantes pronunciadas.

 

Acredito que nem sequer pensadas. Não parecia Latim. Mas um novo manuseio de determinados verbetes. Nem filólogos, nem etimólogos dariam conta. Tamanha a rapidez com que ela as pronunciava. Em meio a este sincrônico ato verbal deu um tapa nos próprios cabelos. Com as costas da mão. Espalmada. Jogou para trás de qualquer jeito. Passou na frente da senhora recém-materializada. Que nada falou. Pareceu fazer até um gesto com os lábios. Acredito que até pensou em sugerir um novo armazenamento para a carne. Mas, prudente, calou-se. Ela pediu o que queria. Desafiou a senhora recém-materializada com o olhar. Pagou e saiu.

 

Na festa, à noite, já estava recuperada. Do gestual à fala. E estava bela. Sorridente. Eles felizes com seus convidados. E todos felizes pelo convite. Sentindo-se cada um – um privilegiado. Eles resolveram incorporar a família. Na festa. Colegas de trabalho e alguns familiares. Uma confraternização completa. Como uma exposição dos afetos.

 

Em determinado momento ele veio abraçado a uma senhora. Apresentou. Carinhoso. Orgulhoso.

 

Minha mãe.

 

Houve um segundo de silêncio.

 

A senhora olhou para ela. Ergueu a mão. Como um sinal de advertência. Apenas disse. Como se falasse soletrando. Sílaba por sílaba.

 

Já nos conhecemos.

 

Ela pediu aos céus. Uma rápida desmaterialização. Mas continuou ali. Em carne. E osso. Colocou, com os três últimos dedos, os cabelos para trás da orelha.

 

Respondeu. Acho que não.

 

Curvou, com elegância, a cabeça. Muda, saiu.

 

 


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