Blog de Lêda Rezende

Dezembro 27 2009

 

Já estava pronta para sair.

 

De repente notou uma luzinha vermelha. Piscando. Pela fresta da bolsa. Por certo um recadinho. Resolveu ler de uma vez.

 

Estava lá. Escrito. Hoje foi suspenso o atendimento. Teve um problema com os computadores. Uma falha técnica mais complicada. Outro com a luz. Não precisa vir. Será feito um re-agendamento parcializado.

 

Atendimento suspenso. Re-agendamento parcializado.  Achou o máximo.

 

Comparou a uma figura de linguagem. Ou a uma obra literária.

 

Mas quase pulou. Primeiro de susto. Era a primeira vez na vida que fazia um pedido e acontecia. Literalmente. Inacreditável.

 

Acordara com sono. Como sempre. Daí pensou. Bem que hoje podia ser cancelado o atendimento.  E eu poderia dormir mais um pouco. Mas imagina. Se me aconteceria uma maravilha desta. Nunca. Acelerou e foi cuidar de obedecer as ordens do relógio. Cruel objeto. Pensou entre os dentes. Mas prosseguiu.

 

Mal acabou de ler o recadinho - se auto-conferiu.

 

Checou – estava viva.  Correu para um espelho. Deveria estar iluminada. Não estava. O espelho mostrou o habitual. Optou por reler o recadinho. Vai ver fora uma alucinação. Não foi. Lá estava.

 

Que belo recadinho. Que lindíssimo texto. Desdenhou dos poetas. Nenhum faria uma composição tão emocionante quanto aquela. Riu. Riu de novo.

 

Tudo bem. Pediu perdão aos poetas. Por precaução. Vai ver que os deuses que cuidem deles poderia se aborrecer. Não queria mais surpresas. Aquela estava já perfeita.

 

Pensou. Fosse a Idade Média e já sabia onde iria parar. Mas não era. Pelo menos a da cronologia da Humanidade. Idade Média só a dela. Particular. Riu dessa bobagem também.

 

Se primeiro quase pulou de susto – de segundo pulou de alegria.

 

Olhou para a bolsa com o material. Para os papéis. Para a roupa que vestia. Em especial para o relógio no braço. E se despediu. Deles. De todos estes – adereços.

 

Mas se o pedido foi atendido – a vontade vinculada foi descartada.

 

Que dormir que nada. O sono foi-se como mágica. Deveria ser isso. Era o Dia da Magia. Ela que não tinha conhecimento. Riu de si mesma de novo. Estava se sentindo já uma humorista. De primeira categoria.

 

Mas enfim – dormir seria desdenhar do pedido inicial. Jamais faria isso. Poderia ser visto como um menosprezo. Estava com muito zelo em relação aos deuses amigos. Mais uma vez riu.

 

Despiu-se da proposta inicial e vestiu-se da adquirida. Sim. Iria à praia. Desceria a serra. E iria ver o mar.

 

Perfeito. Idéia de gênio. Foi mais uma vez se olhar no espelho. Deveria estar iluminada mesmo. Riu para o refletido. Que devolveu à altura.

 

Quando se compreendeu – já estava lá.

 

Em pé na areia. Diante do seu tão amado mar. Pontinhos prateados aqui e ali brilhavam na água docemente salgada. Faziam quase um cortejo de pequenas luzes. Lindo.

 

Algumas mesinhas de cimento ficavam na areia. Com banquinhos em volta. Escolheu um deles e sentou. Para uma alegria tão grande - alguns rituais.

 

Ficou um tempo apenas olhando. Brincava com a chave do carro entre os dedos. Deixou que o sol escolhesse os pontos da pele que iria tocar.

 

Depois com muita calma foi em direção à água. Estava morna. Pequenas ondinhas deixavam a espuma branquinha na borda. Que sumiam com delicadeza.

 

Mergulhou. Pulou. Brincou. Jogou água para cima. Para baixo. Riu. Viva o Dia da Magia.

 

Lembrou o tempo em que seguia as definições do mestre austríaco. Mas desta vez se colocou mais à parte. Nada de passagem ao ato. Como o mestre definia atitudes intempestivas.

 

Fez o habitual brinde e – rindo - informou. Para o Universo. Que me perdoe o Mestre. Mas este foi Além do Princípio do Prazer. E muito além dos Atos Falhos. Sem Homem dos Lobos.  Sem Totem ou Tabu. E principalmente sem Perturbações Psicogênicas da Visão.

 

Este foi um verdadeiro Ato de Passagem. Passagem feliz. Até o mar. Diante do mar. Num dia em que um erro da tecnologia cedeu espaço à realização plena de uma fantasia.

 

Foi a vez do impossível vencer o possível. E mergulhou – mais uma vez.

 

Voltou no começo da tarde - muito feliz. 

 

Amanhã retomarei a tal agenda parcializada. Perfeito. 

 

 


Dezembro 05 2009


Acordou no horário adequado. O dia da retomada chegara.

 

Parecia título de filme de guerra. Até riu. Nem sabia de onde tirara a ideia. Mas já que veio – permaneceu. Esta nova fase obediente estava já cronificando. Mas enfim. Quem sabe será uma etapa valorosa. Confiava nos pequenos revezes. Pequenos – olhou de soslaio em sinal de advertência – ao Universo.

 

Eis aí. Já batendo na porta. O Dia da Retomada. Não tinha montes. Nem castelos. Nem barricadas. Nem arco. Nem flecha. Nem espada transfixada em pedra.

 

Era apenas o reinício. Continuaria exatamente de onde tinha parado.

 

Cedo desceu. Com calma. Sem atropelos. Ainda estava convalescendo. Um passo errado e lá se ia tudo a perder. Nem pensar. Ainda estava bem na borda da memória tudo que sentira. As dores. Os desconfortos. De perfeito só a nevasca no sétimo andar. Doce e suave fruto de uma simples e objetiva medicação. No mais - a realidade não poupou sinais de efetiva presença.

 

Mas corajosa – enfrentara. Este mérito não permitia avareza. Principalmente de si mesma. Sobrava ego. Elogiava-se. Congratulava-se. Mais um pouco e se medalhava.

 

Diante de tanto - ele ria. Divertido. Já afeito ao estilo dela – concluiu. Está melhorando rápido. Esta já é quase ela. Sábio.

 

Mas acabou. Agora era tratar de possibilitar a rotina. Axioma imediato. Nada existe no mundo que seja mais apressado do que a rotina. Em se restabelecer. Quando avisada – já tem que ser. Um verdadeiro e perfeito instantâneo. Nem bem se pensa e já está lá. Cumprindo as funções. É tão acelerado o processo que demora a compreensão exata do tempo.

 

Enfim.

 

Obedeceu. Lembrou até da música. Como era de costume. Não era. Mas estava. Por um tempo recente. Só não garantia a durabilidade do estilo subserviente. Vai lá saber quando tudo muda.

 

Mas se deu um direito. Pensar e refletir. Mesmo esta palavra que sempre rejeitou. Refletir. Mas não lhe ocorreu outra no momento. Ficou com esta mesmo.

 

Rotina deveria ter um significado especial no Dicionário. Lembrou uma definição que lera há pouco tempo. Num dia de provável muito ócio – e nenhuma criatividade.

 

Pesquisara esta palavra. Rotina.

 

E lá encontrara.  Num dos mais conceituados. Caminho habitualmente seguido ou trilhado; caminho já sabido.  Hábito de fazer as coisas sempre da mesma maneira, maquinal  ou inconscientemente, pela prática, imitação. Hábito inveterado que se opõe a inovações ou progresso. Feitio e espírito conservador. Relutância contra o que é novo. Costume antigo.

 

Deu vontade de escrever para o autor. Pode até ser o que eles definem. Não iria discordar de tamanho estudo. Ou conclusão. Mas podia ao menos reclamar. Avisar. Vai ver não notaram. Ou então não vivem uma - Rotina.

 

Informaria. Com delicadeza. Mas com absoluta firmeza. Falta completar. Rotina é praticamente um ser. Um ser objetivo e de pouca conversa. É autoritária. Impiedosa. Demandante. Qual uma retórica de si mesma. Algo por aí. Mas nada fez. Devia ainda ser o efeito da nevasca. A tal do sétimo andar. Riu.

 

Todo este complicado processo durou o tempo de lá chegar. O percurso. Tanta exacerbação neuronal num trajeto. Quase riu. E com tantos cuidados no caminho. Tinha que estar atenta. Afinal – era uma convalescente ainda. Perfeito.

 

Chegou. Tudo estava tão igual. Em tão curta ausência - tão longo afastamento.

 

Sentiu-se um pouco alheia. E um pouco participante. Sensação estranha. Voltar e retomar pareciam mais simples vistos de casa. Ou - durante a discussão. Com o inocente autor de dicionário.

 

Subiu. Abriu a porta da sala. Ela cuidadosa – já deixara o protocolo em local habitual. Esperou que chegasse - com beijos e abraços. Tudo estava arrumado. O material específico na pasta preta. A listagem da agenda na posição correta da chamada. Tudo disposto do jeito que ela gostava. Até a cortina já estava aberta.  

 

Nova e deliciosa descoberta. Simples. Mas prazerosa. Tinha retomado. Reiniciado. Recuperado.

 

Rotina – também - é Vida. Sorriu feliz.  

 

Chamou o primeiro atendimento.

 

 

 


Novembro 17 2009

 

Quase não acreditei.

 

Abri a porta do quarto. E fui em direção às escadas. Assim. Com a sequência reconhecida. No habitual da rotina. O ato em si. Mas desta vez fugia ao destino.

 

Desta vez um rumo novo. Uma direção escolhida. Uma data festiva a ser comemorada. E tinha hora certa para dar inicio. A hora da partida sendo a mesma do inicio. Perfeito.

 

Lembrei logo da minha avó. Ela afirmava com propriedade. Entre o que começa e o que termina não tem sequer uma linha, menina, entre o que começa e o que termina não tem sequer uma linha.

 

Foi pensando nisso que sai do quarto. Entre a alegria da novidade. E o pensamento já antigo.

 

Primeiro o susto.

 

Estava tudo branco. Não via a paisagem. Só a cor branca se fazia plena. Muitos pensamentos se enfileiraram. Talvez em auxilio. Lembrei do Ensaio. Lembrei do Disco. Fiquei tentando adivinhar as cores. Compreender o excesso. Parada. Antes mesmo de descer as escadas tudo já havia ocorrido.

 

Não faltaram ideias. Ou recordações. E tudo diante do branco de uma paisagem ocultada. Enfim.

 

Depois a decisão.

 

Desci as escadas. Do lado de dentro - sala estava envolta no branco. Do terraço não se via nem o gradil. Como se houvesse nada além da imensidão branca. Ocupando todo o espaço. Apagando obstáculos. Limites. Acessos. Coerente com o incompreensível.

 

Mas lá me fui dar conta do planejado. Sem filosofias. Sem construções literárias. Tinha que prosseguir em tempo. Pelo tempo. Dentro do tempo. Que o branco lá ficasse.

 

Pragmatismo em ação. Tudo resolvido.

 

O que sobrou em branco - sobrou em falta. Faltava teto. Esta a explicação lógica. Sem teto – sem pouso. Sem pouso – sem decolagem. Simples assim.

 

Podia-se olhar o branco pelo tempo que agradasse. Mas do solo. Só isso. Enfim. Várias parcerias se estabeleceram. E lá ficamos a aguardar que pelo menos uma delas se dissolvesse. Para que o projeto continuasse dentro de uma possível execução.

 

Quando o Disco iniciou sua decomposição – o azul foi se aproximando. Enfim.

 

Cores e nuances iniciaram as suas tarefas. Com o mundo colorido – voltou-se ao propósito inicial.

 

Já não era sem tempo - disseram alguns. Olha o tempo que perdi – comentaram outros. Agora não chegarei mais a tempo – falou alguém com tristeza na voz.

 

Alguns se olharam. Outros ficaram dentro dos seus pensamentos. Talvez nem tão brancos como antes a paisagem. As expressões eram bem tensas. Talvez estivessem no oposto do Disco. Vai lá saber as conseqüência de uma total brancura. E alheia a qualquer avanço tecnológico. Uma brancura por si só.

 

Uma cor – é uma cor. Apenas isso.

 

Quando todos se acomodaram – os avisos começaram.

 

Orientações sobre segurança. O que é proibido. O que é permitido. O que é impossível de ser transgredido. Seguidos de explicações. Situações independentes da nossa vontade. Assim explicavam. Como uma valiosa informação prestada.

 

Sentados e acalmados – houve uma sensação de tranqüilidade. Como se já afivelados – o tempo voltasse ao controle. Cada um com sua solução. Ou sua dificuldade. Mas com absoluta expectativa de aceitação.

 

Olhei para o infinito. Para os muitos tons de azul até o rosa. Mas abaixo se via um branco denso.

 

Optei por escutar uma música. Coloquei os fones. Foi instantâneo. Uma outra viagem se fez. Isolada da formal. Descompromissada com as técnicas. Ou com as coincidências. Quase deu uma confusão mental.

 

Ri. Tocava uma marcha. Nupcial. Uma bela orquestração. Belíssima. E no momento da subida do vôo. Assim. Como se uma regência de fora se fizesse presente. Como uma necessidade.

 

Acordei no branco. Sentei diante do azul. Em proximidade total com o Universo. Se assim se pode dizer.  Um casamento realmente se fazia.

 

O plano da partida e a vontade da chegada. O azul e o branco. As nuvens e o metálico do progresso. O plano e o ato. O gesto e o fato. O riso e a festa.

 

Não sei se foi um recadinho. Uma desculpa. Um sinal. Isso não se sabe jamais. Não tem provas. Nem documentos. E cabe a cada um fazer e desfazer os códigos. Muito mais internos do que externos. E conforme se apresentam.

 

Conclui. Perfeito. Assim devem ser as comemorações.

 

Olhei para ele. Apertei a mão. Sorri.

 

 


Novembro 15 2009

 

Nem acreditava.

 

Tantos anos sem praticar a  impulsividade. Teve um tempo que era atleta nessa modalidade. Ao menos assim considerava. Estilo medalha de ouro. Por certo não perderia uma maratona – caso houvesse uma. Ou restasse concorrentes.

 

Houve um tempo de ponderação. E nesse tempo a razão fez a regência.

 

Vai lá saber o que deu nesse dia. Uma revirada. Não diria reviravolta porque parecia não ter a tal volta. Vai ver foi um sonho cubista. Algo assim. Bem fora do habitual-recente. Provocou um momento de atenção. Um insight.

 

Quem sabe fez lembrar o tempo que escorre - por entre muros e dedos. Ou fez despertar para o meio tempo que a vida corre -  entre planos e promessas. Enfim. 

 

Nem lembrava mais do  estilo construído. E constituído. Havia esquecido esta parte. Sim. Antes era diferente. Sempre agia em comum acordo - com a  vontade. Mas já fazia tanto tempo. Nem dava para datar mais quando fora a ultima vez. Quando o impulso fora um ato realizado. 

 

Mas não importa. Nem o tempo surrealista escorre pra trás. Nem o para trás escorre no tempo realista.

 

Desta vez retomaria de onde parara. Seria - sem recuos. Melhor conceder um pouco de autoridade à ideia. Mas também não foi sem esforço.

 

A situação fez lembrar um dos conselhos da avó. E' sempre tão contraditória a manutenção das decisões, menina, é sempre tão contraditória a manutenção das decisões. Estava certa.

 

Acordar com a ideia. Decidir  como se decide um sonho. Sem a interferência do consciente. Eis um processo por si só - comprometedor. 

 

Mas ato e fato estavam destinados a uma parceria. Ao menos desta vez. Depois veria o que fazer. Caso surgisse algum tipo de impedimento. Ou de restrição. O depois deve ter sido inventado justamente para ser usado. Perfeito.

 

Conclusão definida.

 

Este o mês de aniversário dele. Desde o primeiro dia do mês fizera surpresinhas. Presentinhos. Colocados em lugares e horários especiais. Para tornar ainda mais especial a data. Todos sempre faziam piadinhas. Do quanto é bom fazer aniversario no final do mês. Mas para quem lhe conhece. Destacavam rindo. Tem muitos e muitos dias de presentinhos e pequenos mimos.

 

Enfim. Mas desta vez o desfecho será diferente. No dia exato estaremos lá. Comemorando lá.

 

Cedo telefonei para ela. Expus a direção. Ela foi logo avisando. Deixa comigo. Farei a parte braçal do plano. Desligamos rindo.

 

Não nego. Por um segundo o pensamento circulou pela cabeça. Um frio percorreu coluna vertebral. Não. Vou avisar que desisti. Que foi um acesso banal de insanidade. Temporária. Já estou curada.

 

Acho que ela lê pensamento. Mesmo à distância. Fui pegando o telefone para informar - já fui atendendo. Era ela.

 

Consegui tudo. Fica tranquila. Uma beleza de ideia. E a muito baixo custo. Perfeito. Anota o número do vôo. E imprime também o voucher do hotel. Boa viagem. Divirtam-se.

 

Sentei. Estava deflagrada a retomada da impulsividade. Que vengam los nuevos dias. Ri.  Três dias de festejos. Em terras para ele ainda desconhecidas. Uma festa diferente.

 

Mas sempre se sabe. Nada é perfeito. Aprendi rapidamente um novo axioma. Pelo menos - novo para mim. Rotina - tem este nome por que não admite surpresas. Nem perdoa impulsos. Assim. Simples.

 

Não teve opção. Agenda adiantada. Horários acrescentados. Jornada triplicada. Nada é depois. Outro axioma. Rotina entende até de antecipação. Mas nunca de adiamento. Foi um tal de acelerar e pré-estabelecer como nunca dantes imaginado.

 

E o corre daqui. Acelera dali. Retoma de lá. Aceita de cá.

 

Vencidas. A rotina. E eu.

 

E foi de repente que anunciei. Assim. Com ar de quem apenas sugere. Falei contendo o riso.

 

Este ano será estilo cumpleaños. Não. Não em casa. Será no Caminito. Quizá a Media Luz. Riu. Acho que até duvidou da própria escuta.

 

Entreguei os impressos. Riu de novo. Mas com olhos bem abertos. Adorou. Celebrou.

 

As malas já estão prontas. Como diz a canção: de tarde, té con masitas. De noche, tango y cantar.

 

 


Novembro 04 2009

 

O espaço era grande.

 

Piso branco. Paredes brancas. As molduras das portas em madeira clara. Largas. Algumas cabines laterais avisavam um pouco do que se tratava. Era uma loja. Isso sem dúvida. Ficou claro tão logo olhei em volta.  Uma das paredes não fazia ângulo reto. Era arredondada. Dava ao lugar um aspecto mais sofisticado.

 

Nem sei se é essa a palavra certa. Mas enfim.  Se é a que me ocorreu – é a certa. Agora entendo desta forma as palavras. Elas comandam. Eu obedeço. Nada mais de rebeldias. Provocam mais – más - conseqüências que a objetiva e servil obediência. À letra.

 

Não era uma loja comum. Em absoluto.  Era uma loja de roupas femininas - turcas. Sim. Vendiam roupas femininas turcas. As cortinas de tecido fino branco davam a privacidade nas tais cabines.

 

Deviam ser sete. Isso. Sete cabines em ordem linear. E com as cortinas brancas. Eram bem espaçosas. Não entrei. Mas era o que parecia pela largura das cortinas.

 

Eram fartas em tecido. Faziam muitas pregas longitudinais. Repetiam a sofisticação e davam um ar suntuoso.

 

Um ventinho devia vir por algum lugar. Não identifiquei de onde. Mas fazia as cortinas balançarem com suavidade.

 

Uma porta branca ficava fechada. Localizava-se na lateral da sala. Esta porta sim. Formava um ângulo em relação às cabines. Avisava. Através de uma placa. Massagens.

 

Perguntei a alguém que passava se a massagem era possível. Sim. E que eu poderia escolher o tipo. Escolhi. Avisaram. Já tinha uma pessoa lá dentro. Assim que saísse - seria a minha vez.

 

A música percorria o ambiente – marcando o estilo. Uma música como se tocada por uma única flauta. Mas era deliciosa. Presenteava os ouvidos com sua tonalidade leve.

 

Estávamos juntas. Fazia tanto tempo que não saíamos juntas. Ela no além mar dela. E eu no aquém mar dela.  Mas enfim. Estávamos juntas.

 

Ela decidiu provar uma roupa. Saiu da cabine com as cortinas brancas - com uma capa longa vermelha. Por cima de um vestido branco. Também longo.

 

A roupa era linda. A capa vermelha toda rebordada de dourado. Entre fios e moedas. Tinha um capuz. Mas ela dispensou. Queria o rosto bem à mostra. Foi o que falou. 

 

Estava rindo muito. Nunca a tinha visto assim. Não nego que estranhei. Ria muito. E dançava segurando pelos lados a capa. Girava sobre si mesma. E ria. A expressão do rosto dela era de total alegria e felicidade.

 

De repente fez algo inimaginável.

 

Começou a dar berliscõezinhos. Nas pessoas que circulavam pela loja. Saia dançando com sua capa ao som da música. E dava os beliscões. Não importava se homem ou mulher. Era o que parecia. Mas ria - se divertia com o pulinho assustado das pessoas.

 

Um homem a viu – e se afastou. Sério. Era já um senhor – gordo. Barriga adiantando-se à imagem corporal. Cabelos castanhos. Alto. Roupa cinza escuro.

 

Ela foi em direção a ele. Rindo. Claro. Ela só ria. Para beliscá-lo. Não acreditei. Até pensei em impedir. Mas desisti. Melhor que ela fizesse o que quisesse. Vai ver é assim na Turquia. E ela estava incorporada aos hábitos do lugar. Achei melhor só observar.

 

E fiquei um pouco afastada – esperando o que aconteceria.

 

Ela continuou rodopiando. A moça veio me avisar que eu já podia entrar. Para a sala de massagem. Ela olhou para os meus tornozelos. Fez um comentário. Estão tão inchados. As pernas também. Melhor ficar assim. E riu alto. Olhei procedia. Estavam mesmo. Muito inchados.

 

A porta abriu. Uma mocinha vestida de branco apareceu. Era um vestido curto. Tinha uma marca escura na pele das costas. Avisou que já podia entrar. Olhei para a mesa de massagem. A sala era clara. Muito clara. Mas agradeci. Não quis mais. Talvez fosse hora de voltar. Mas não sabia bem para onde.

 

Por um tempo ainda ela continuou dançando com a capa. Ainda tentava beliscar as pessoas.

 

Depois a retirou e jogou numa cadeira que ficava perto das cabines. Uma bela cadeira. Ainda tive a oportunidade de notar. O tecido era azul claro. Espaldar alto. Contornado com dourado. A capa ali ficou. O vermelho contrastando com o azul.

 

A música aumentou de tom. Subitamente. Um som alto. Repetido. Irritante.

 

Em minha frente estava uma cadeira. Não forrada de azul. Não tinha espaldar alto. Muito menos uma capa vermelha com fios e moedas douradas - sobre ela. Não tinha local de massagens. Minhas pernas não estavam inchadas.

 

Ela - por certo - continuava além mar.

 

Sorri. E dei vivas às boas intenções do inconsciente.

 

O despertador avisava o início da rotina.

 

 


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