Blog de Lêda Rezende

Dezembro 27 2009

 

Já estava pronta para sair.

 

De repente notou uma luzinha vermelha. Piscando. Pela fresta da bolsa. Por certo um recadinho. Resolveu ler de uma vez.

 

Estava lá. Escrito. Hoje foi suspenso o atendimento. Teve um problema com os computadores. Uma falha técnica mais complicada. Outro com a luz. Não precisa vir. Será feito um re-agendamento parcializado.

 

Atendimento suspenso. Re-agendamento parcializado.  Achou o máximo.

 

Comparou a uma figura de linguagem. Ou a uma obra literária.

 

Mas quase pulou. Primeiro de susto. Era a primeira vez na vida que fazia um pedido e acontecia. Literalmente. Inacreditável.

 

Acordara com sono. Como sempre. Daí pensou. Bem que hoje podia ser cancelado o atendimento.  E eu poderia dormir mais um pouco. Mas imagina. Se me aconteceria uma maravilha desta. Nunca. Acelerou e foi cuidar de obedecer as ordens do relógio. Cruel objeto. Pensou entre os dentes. Mas prosseguiu.

 

Mal acabou de ler o recadinho - se auto-conferiu.

 

Checou – estava viva.  Correu para um espelho. Deveria estar iluminada. Não estava. O espelho mostrou o habitual. Optou por reler o recadinho. Vai ver fora uma alucinação. Não foi. Lá estava.

 

Que belo recadinho. Que lindíssimo texto. Desdenhou dos poetas. Nenhum faria uma composição tão emocionante quanto aquela. Riu. Riu de novo.

 

Tudo bem. Pediu perdão aos poetas. Por precaução. Vai ver que os deuses que cuidem deles poderia se aborrecer. Não queria mais surpresas. Aquela estava já perfeita.

 

Pensou. Fosse a Idade Média e já sabia onde iria parar. Mas não era. Pelo menos a da cronologia da Humanidade. Idade Média só a dela. Particular. Riu dessa bobagem também.

 

Se primeiro quase pulou de susto – de segundo pulou de alegria.

 

Olhou para a bolsa com o material. Para os papéis. Para a roupa que vestia. Em especial para o relógio no braço. E se despediu. Deles. De todos estes – adereços.

 

Mas se o pedido foi atendido – a vontade vinculada foi descartada.

 

Que dormir que nada. O sono foi-se como mágica. Deveria ser isso. Era o Dia da Magia. Ela que não tinha conhecimento. Riu de si mesma de novo. Estava se sentindo já uma humorista. De primeira categoria.

 

Mas enfim – dormir seria desdenhar do pedido inicial. Jamais faria isso. Poderia ser visto como um menosprezo. Estava com muito zelo em relação aos deuses amigos. Mais uma vez riu.

 

Despiu-se da proposta inicial e vestiu-se da adquirida. Sim. Iria à praia. Desceria a serra. E iria ver o mar.

 

Perfeito. Idéia de gênio. Foi mais uma vez se olhar no espelho. Deveria estar iluminada mesmo. Riu para o refletido. Que devolveu à altura.

 

Quando se compreendeu – já estava lá.

 

Em pé na areia. Diante do seu tão amado mar. Pontinhos prateados aqui e ali brilhavam na água docemente salgada. Faziam quase um cortejo de pequenas luzes. Lindo.

 

Algumas mesinhas de cimento ficavam na areia. Com banquinhos em volta. Escolheu um deles e sentou. Para uma alegria tão grande - alguns rituais.

 

Ficou um tempo apenas olhando. Brincava com a chave do carro entre os dedos. Deixou que o sol escolhesse os pontos da pele que iria tocar.

 

Depois com muita calma foi em direção à água. Estava morna. Pequenas ondinhas deixavam a espuma branquinha na borda. Que sumiam com delicadeza.

 

Mergulhou. Pulou. Brincou. Jogou água para cima. Para baixo. Riu. Viva o Dia da Magia.

 

Lembrou o tempo em que seguia as definições do mestre austríaco. Mas desta vez se colocou mais à parte. Nada de passagem ao ato. Como o mestre definia atitudes intempestivas.

 

Fez o habitual brinde e – rindo - informou. Para o Universo. Que me perdoe o Mestre. Mas este foi Além do Princípio do Prazer. E muito além dos Atos Falhos. Sem Homem dos Lobos.  Sem Totem ou Tabu. E principalmente sem Perturbações Psicogênicas da Visão.

 

Este foi um verdadeiro Ato de Passagem. Passagem feliz. Até o mar. Diante do mar. Num dia em que um erro da tecnologia cedeu espaço à realização plena de uma fantasia.

 

Foi a vez do impossível vencer o possível. E mergulhou – mais uma vez.

 

Voltou no começo da tarde - muito feliz. 

 

Amanhã retomarei a tal agenda parcializada. Perfeito. 

 

 


Dezembro 03 2009

 

Lá se iam encerrando - os dias plenos de escrita.

 

Ou para a escrita. Com feliz dedicação total. O tempo se esgotava. Retomaria a atividade da rotina – dia seguinte.

 

Ficara afastada por quinze dias. Acordava cedo. E já se transferia para o teclado.

 

Até sonhava com os textos. Podia falar dela. Ou dele. Ou daquele ato. Ou colorir aquele fato. Podia se sentir dentro do mundo. Mesmo estando isolada de tudo. Só. No quarto. Caberia até uma placa na porta da frente. Em recuperação.

 

De pele ao olhar – percorria os encobrimentos da memória. Muito a ser explorado. E - talvez - conquistado.

 

Desconsiderara Oceanos. Turbulências. Aderências. Convenções. Se sentiu como pisando em uvas. E vendo o sumo do vinho se fazer. Escutou música. Trocou mensagens. Relatos. Contou um pouco da vida. Acolheu dores distantes. Recebeu flores. Cores. Até amores.

 

Riu quando leu um recadinho. Ela escrevera. Aliás, pelo que escreve, parece que acontecem mais coisas na sua vida do que na vida dos outros! Ou você observa melhor! Assim. Com duas exclamações. Sentiu-se emocionada. Era um elogio e tanto.

 

Os motivos causais poderiam fazer temer. Mas as consequências foram só prazer. Eis uma rima que deu certo. E outra que se perdeu. Ainda bem. Dor rimou com nada. A dor ficou para trás. Vencida e sem par. E ela ficou com flor. Com cor. E com um doce sabor de calor.

 

Inegável. Foi uma beleza de hiato.

 

Lá se iam e vinham as ideias. Sem hora marcada. Sem pressa na construção. Corrigidas. Emendadas. Procriadas. Malcriadas. Educadas. Estava a viver o tal ócio que sempre ameaçara.

 

Mas fez uma pergunta. Talvez - tola. Onde estaria o ócio. Precisava de uma definição lógica. Sobre a exata localização do ócio. E pode rir de si mesma. Afinal – se nem tudo é perfeito, nem tudo também é o que parece.

 

Estava até dedicada aos provérbios. Lembrou de uma frase dele. Crescera com a frase envelhecendo junto com ela. Quem está perto do fogo é que se esquenta.

 

Optou por uma pausa nas frases.

 

Como dizia a avó de uma amiga. Não são frases que formam textos, menina, não são frases que formam textos. Procedia.

 

E nesse estado de letras – concluiu. Navegar é Preciso.

 

Restavam ainda algumas horas. Poucas. Mas seriam bem aproveitadas. Até a última badalada. E nada de perder sapatinhos. Ou alucinar abóbora. Ou brotar caninos. Esta é umas das possibilidades fantásticas da escrita. As horas avisam as badaladas. E não o contrário.

 

E quando o tempo é marcado – a espontaneidade se acelera. Corre. Percorre. Fica até tonta.

 

Mas ainda há tanto a fazer. Como assim. Já tem que sair. Que ligar o despertador. Que sentar sobre os trilhos. Que caminhar apressada em corredores.

 

Riu.

 

Apressada em corredores já denunciava. As ideias estavam assustadas. Como se arrancadas de um doce balançar de uma redinha. De súbito. E – afoitas – atropelavam os últimos retoques.

 

Assim se sentia. Deu uma rápida olhada em direção ao Universo. Olhou de forma circular. Se é que isso é possível. Fez um leve ar de birra. Quase perguntou se não compreendera. Mas achou inconveniente. Duplamente. E se controlou.

 

Desceu. Iniciou o processo da retomada. Qual uma obediente comandada. Organizou o material. Carimbo. Caneta. Os funcionais. Os profissionais. Incluiu os ocasionais. Nesse sobe e desce - recordou uma música antiga. Uma Viola. Enluarada. Assim estava se sentindo. Quase como uma despedida. Sempre dramática.

 

Mas seguiu o que tinha que ser seguido.

 

Houve uma simultaneidade. Assim. Sem mais nem por que.

 

O telefone tocou. Era ela. Com a voz suave e pontual - informava. Sua agenda de amanhã está completa. Bom retorno. E no mesmo instante um aviso. Chegou via tecnologia. Escrito na tela. Leremos na mesma Rádio. Mais uma história da sua autoria. Em tal hora. Em tal data.

 

Olhou para o Universo. Repetiu o olhar circular. Até ergueu as mãos. Sorriu. Desta vez lembrou a canção italiana, Ma che bello questo amore.

 

E retomou – tranqüila – a reorganização da rotina. Quem quer passar além do Bojador...

 

 


Novembro 02 2009

 

Ele veio de lá. Feliz.

 

Fazia já alguns anos que não nos víamos. Trabalhamos juntos por muito tempo. Saíra de repente. Mal nos despedimos. Questões burocrático-egóicas. Algo por aí.

Estas são sempre as grandes questões. Sempre nascem desta dupla. Mal explicada. Mal conjugada. Ou muito mal dissociada.  Mas imperiosa.

 

Quando sobra hífen - não há o corte no momento certo. E apagam um espaço. Mais ou menos assim.

 

Minha avó nunca deixou de avisar. Muito eu é sinal de pouco meu, menina, muito eu é sinal de pouco meu.

 

Acho que só hoje entendi o que ela falava. Foi preciso anos e anos para assimilar. A linha quase transparente entre o eu e o meu. Sábia - sempre.

Mas desci. Direto para o local indicado.

Tinha uns exames a fazer. Estava entre corajosa e temerosa. Exames nunca são da ordem do conforto. Ou da diversão.

Mesmo que alguns estudiosos digam o contrário. Ou os seguidores do Marquês. Não faltam teorias. Apologias. Tratados. Mestres de todo o mundo. Austríacos. Franceses. Portugueses. Italianos.

 

O mundo girando em volta de uma dolorosa teoria. Sobre dor e alegria. Sobre sofrimento e satisfação. O homem sendo apto para a dor. Muito mais do que para prazer. Até os poetas se manifestam - sofrer por amor.

 

Nem sei quem são esses. Os estudados.  Os aptos para a dor. Eu não. Detesto dor.

Foi assim que desci. Com este pensamento tentando ocupar o outro.  O dos exames. Brigar com estudiosos de nada resolve. Mas ocupa o espaço do medo. Para isso resolve. E muito.

 

Afinal nesses tempos de tantas contínuas e perigosas mutações – exame é indício de risco. Ou de contaminação.

Não era a situação do momento. Mas não tinha escolha. Era fazer os exames.  Anuais. Rotineiros. Necessários. Procede. Obrigatórios. E pronto. E assim continuei.  Me repetindo – para me ordenar. Obedeça. E pensar que sempre fui rebelde. Nada de temer agulhas. Onde já se viu.

 

Tudo bem. Obedeci.

Foi em meio ao local do exame que o avistei. Eu entrando na sala dos exames. Ele na sala do atendimento. Em frente.

Vi que abriu os olhos. E sem metáfora. Abriu mesmo. Se surpreendeu. Veio em minha direção. Passos apressados.  Com um sorriso. Expressão de confraternização. Desconsiderou as limitações.

 

Foi logo avisando. Em pé diante de mim. Voltei.

 

Como se a materialização não fosse confiável. Apenas suposta. Respondi com um chiste. O bom filho à casa torna.

E fiquei observando.

 

Por que – voltar - se transforma em ato. Muito mais do que em fato. Precisa de desculpas. Sempre. 

 

Cada um com suas demandas. E espelhos.

 

Informou. Esta é a primeira vez. Nunca voltei de onde sai. Repetiu muitas vezes. Esta é a primeira vez. Continuou se explicando. Devia ser importante para ele. Se sentir convidado. Ou aceito. Ou vai lá saber o que.

 

Eu até ri. E falei. De onde saiu – ou para onde saiu. Desconsiderou. Fez bem. 

E continuou desconsiderando. Estes exames vão resultar todos normais. Você está ótima. Agradeci. Um lorde em termos de gentileza.

 

Vamos lá. Tomar um cafezinho. E você me conta desse longo tempo - que você continuou aqui. E eu lhe conto do meu - que fiquei tão distante daqui.

 

Ela. Convidei mas não quis voltar. Casou. Neste último verão. Está feliz. Ele. Sim. Desde que saiu também está em outra Instituição. Ele. Não está bem. Acho que precisa voltar. Ele. Também não se acertou. Quem sabe também volta. Ele. Está feliz com o novo cargo.

Falamos em poucos minutos. Mas acho que nunca falamos tanto. Soubemos dos amigos. Contamos de nós mesmos. Rimos das consequências  - e até das causas.

 

Voltamos rápido para as nossas atividades. A rotina – digamos assim - estava lotada.

 

Olhamos um para o outro. De repente. Com expressão de susto-risonho.

 

Esquecemos o cafezinho. Intacto. Em cima da mesa. Rimos.

 

Não importa. Tem café em todas as estações do ano. E em todos os horários. Até qualquer outro intervalo. Qualquer dia.

 

Foi a primeira vez que voltei de onde sai. Repetiu. E completou. Mas estou feliz por isso.

Ri. Viva a sexta-feira.

 


Outubro 29 2009

 

Lembro o dia em que a conheci.

 

Iniciava o trabalho no Projeto. Logo no primeiro dia. O grupo já estava há mais tempo. Não conhecia os membros da equipe. Mas fui lá. No local de encontro.

 

Assim me avisaram. Chegar a tal hora. Em tal lugar. Com seu material próprio para o atendimento. E lá se identifique com tal pessoa. Seu crachá estará já no local. De lá sairiam os profissionais para as áreas de atuação. Simples assim.

 

Compreendido.

 

Ela chegou - sorridente. Falando com todos. Caminhando apressadinha. Parecia ser muito delicada. Atenciosa. Todos ficavam em torno dela. Os que iam chegando – já iam fazendo círculo. E ela no meio do círculo. Sorridente.

 

Nesse dia específico falavam sobre postura. Uma observação sobre alguém do grupo. Ou sobre algum estilo. Nunca soube ao certo. Algo por aí. Lembro que respondeu. Num tom mais alto. Porém não ríspido. Quando se é carente – procura-se ser simpático. Eu sou carente. Trato todos muito bem. E riu.

 

Como se a carência fosse um adereço. E como tal devesse ser tratada.

Perfeito.

 

Me apresentei. Ficamos amigas.

 

Não eram daqui. Nem ela. Nem o marido. Estavam casados há pouco tempo. Viera por um convite profissional para ele. Parceira – aceitou. E estava se entendendo com a cidade. Já conhecia mais lugares que os nascidos e criados aqui. 

   

Continuamos em nosso trabalho. Um Projeto social. Nos reuníamos uma vez por semana - o dia todo. Contou sobre o projeto particular. Queriam um filho. Logo.

 

Sempre festejada – acabou reunindo torcida. Todos participavam. Se sim. Se ainda não. Alguns mais afoitos até do por que não. Outros mais discretos – aguardavam as mudanças que denunciassem.  Ela respondia. Acolhia. Escutava. Silenciava. Aguardava.

 

Era um tal de – este mês ainda não. Ou – não foi desta vez. Mais exames. Mais aconselhamentos. Mais pesquisas. A ciência e a tecnologia a serviço- da fertilização.

 

Não faltaram ideias. Ou sugestões. Ou indicações. Ou dados. Da Imunologia à Fisiologia – tudo visto e revisto.

 

Um dia tomou a decisão. Cansei. Chega de temperatura. De ciclos. De emergências. De privacidade alterada. De papel. De regras. De estatísticas. De relatos psicológicos. Cansei. Vai ser estilo artificial. Pragmático. Vamos dar uma força à natureza. Para isso existe a evolução. Da ciência. Da pesquisa. Dos resultados. Para ser utilizada. Vamos utilizar. Certo. Então em duas semanas.

 

Quando nasceu – já não trabalhávamos mais juntas.

 

Olhei para as fotos. Linda. Moreninha - como a mãe. Linda - como a mãe. Olhar decidido - exatamente igual à mãe. Mas ela foi logo avisando. É idêntica ao pai. Linda - como ele.

 

Contou rindo. Depois que marquei o artificial - ela veio natural. Nem conheci a equipe. Quando estava já agendado – desmarquei. Ela já estava fazendo parte da nossa vida. Da Vida. 

 

A torcida continuara. Desta vez de forma métrica. Está maior. Esta crescendo. Está sem cintura. Está com jeito de silicone. Cada um construindo nela uma nova anatomia. Com as palavras. Com o olhar. Até com a mímica.

 

E muitos risos. Sempre. A cada encontro do grupo. Todas as manhãs. 

   

Minha avó tinha uma ideia para o riso. Só é realmente feliz quem sabe compartilhar o riso, menina, só é realmente feliz quem sabe compartilhar o riso.

 

Procedia. Procede.

 

O riso compartilhado é uma das mais belas cenas de um grupo. E era assim com ela. Continuavam todos em volta. E ela feliz.

 

Lembrei o comentário sobre a carência. Transformara-se num adereço dispensável. Ou até ignorado. Não era mais uma questão. Nem um símbolo. Ou muito menos uma situação. Não importava se não era daqui. Ou se era de lá. Ela agora era duas.

 

Fiquei emocionada quando li o recadinho. Nasceu. É maravilhosa. Estamos muito bem.

 

E adivinhei o sorriso dela. O primeiro olhar para a filha desejada. O toque delicado na pele suave e rosada. O gestual protetor e acolhedor. As lágrimas fáceis da intensa atividade emocional.

 

As primeiras dificuldades para quem se inaugura - mãe. As pequenas dúvidas. Será que está certo. Será que é assim mesmo. Mas segura diante de uma certeza absoluta - o apaixonamento imediato. 

 

Lá estava. Na tela. Colorindo. Toda enfeitadinha para a foto – a Laurinha.

 

Bem vinda. Bem Vida.

 

 


Outubro 12 2009

 

Fiquei escutando o relato.

 

Ela falava de um acontecimento do passado. Da própria família. Ele escrevia. Muito. E lá um dia optou por publicar.

 

Lembrava da época. Não em relação ao tempo. Mas em relação às dificuldades. Estavam com dificuldade financeira. Era ainda muito pequena. Não tinha noção exata do significado. Mas tinha a sensação perfeita. De que estavam em período de contenção. A vida deles. A emoção. A rotina.

 

Lembrava da escola. De algumas contas que a mãe reclamava. De alguém um dia falando alto com ele. Parecia algum tipo de cobrança. Quis até defendê-lo. Mas sem saber bem o motivo - calou.

 

Entendia que estavam todos nervosos. E tristes. Procurava fazer sempre silêncio.  Quando estava em casa mal se mexia. Não fazia barulho. Era uma sequência quase militar. Poupava a si - e aos outros - de qualquer aborrecimento. Evitava confrontos. Desacertos. Demandas.

 

Aceitava o que vinha. Não pedia o que não tinha. Vai lá saber por que – mas a sua visão de criança a alertava. Como se a conduta exigida fosse essa. E acatava.

 

Riu quando assim falou. Como se tentasse entender a ela mesma. De frente para trás. Só adulta se deu conta. Riu de novo pela palavra dita. Achou pertinente e adequada. Ao relato. Continuara sempre assim. Diante de qualquer tensão. Silenciava. Movia-se o mínimo possível.

 

Houve um tempo que fez sessões de análise. Queria superar as barreiras erguidas. E lembrava que riu muito no dia que o analista lhe perguntou. Ou interpretou. Talvez para não acordar mais demônios. Riu porque não sabia. Ou porque sabia. Enfim.

 

Ele escreveu muito neste período. Muito. Como se pela mão correndo pelo papel – a angústia se fizesse menor. Chegava tarde da volta da rotina do trabalho. Mal jantava e lá ia para seu cantinho. Sentava diante de uma antiga mesa de madeira. Acomodava-se numa cadeira com uma almofada de tecido já estragado.

 

Dispensava os pequenos e médios confortos. Colocava uma música. E lá ficava. Escrevia por horas. Noite adentro. Algumas vezes reclamava dos dedos doloridos. Outras vezes das costas. Mas não parava.

 

Certa vez alguns dos papeis manuscritos caíram. Deviam ter caído. Estavam no chão. Como que abandonados. Ou descuidados. E amontoados.

 

Ele viu que ela o observava. E comentou com ela. Olha os papéis no chão. Nunca antes assim ficaram sobre o frio do mármore. Espalhados, misturados. Estes papéis falam de dor. De tristeza. Denunciam muita solidão.

 

Mas deu um sorriso. Acariciou os cabelinhos dela. E falou. Diante dos papéis assim. Caídos. Quase abandonados. Será que sou eu ali.

 

Juntou os papeis para ele. E os colocou sobre a mesa.

 

Não compreendeu muito bem. Mas lembrou que foi dormir muito triste naquela noite. E que evitou se mexer na cama. Acordou pela manhã quase na mesma posição que adormecera. Foi difícil até mover a perna.  

 

Ela não tinha ideia do tempo - que durou a escrita. Mas lembra do dia que ele disse. Vou publicar.

 

A mãe riu. Desconsiderou.

 

Fazia muito tempo que não era mais uma romântica sonhadora. Se é que algum dia foi. Comentou isso com uma pontinha de tristeza. Pela mãe.

 

Publicou.

 

Naquela noite ele chegou mais cedo. E a chamou. Pediu ajuda.

Tinha dentro do carro muitos volumes. Muitos. Para ela - milhões. Depois soube que foram cinquenta. Uma parte grande ficara na Editora - seriam distribuídos. Uma pequena quantidade trouxera para casa.

 

Olhou para ele. Viu que tinha um brilho mais feliz no olhar. Arrumava os livros sobre a mesa com cuidado. Passava a mão sobre a capa. Abria. Relia alguns trechinhos. Fechava. Passava de novo. Repetia. E ela repetia o gestual com ele. E lembra que eles dois sorriam.

 

Naquela noite ela se mexeu tanto na cama - que o cobertor amanheceu no chão.

 

De repente - mudou o tom de voz. Como se tivesse voltado. Ao presente do presente.

 

Nem acredito o quanto falei. E só por que vi os seus papeis no chão. E quis lhe ajudar.

 

Juntou. Colocou sobre a minha mesa e saiu. Não sem antes me dar um aviso. Cuidado para não se identificar. Com os papeis no chão. Sorriu. Leve e com mordacidade. Como os sorrisos na infância. Agradeci a ajuda e o aviso.

E contei que tinha um livro dele. Em casa.

 

Ficou muito surpresa. Tropeçou na saída da sala. Quase derrubou um copo que, sossegadinho, estava numa prateleira.

 

Rimos. Estava feliz. Talvez nem tenha se dado conta disso.

 

 


Setembro 15 2009

 

Acordou atrasada. Não dava mais tempo para a maioria do planejado.

 

Nem entendeu o que tinha acontecido. Afinal, se tinha uma atitude que ficava sempre de fora era esta - atraso. Não faltava quem não fizesse gracinhas com sua questão de horário. Vivia adiantada.

 

Mas enfim. Se não dá – não dá mais. Concluiu e foi tratar de organizar as rotinas opcionais. Ainda deitada decidiu que iria pôr em ordem o que estava pendente. Certo. Ficava assim formalizado o dia. Com a nova agenda pronta na memória – levantou.

 

Abriu a porta do quarto. Que ficara fechada toda a noite. Quase riu. De susto. De surpresa.

 

De vez em quando assim reagia diante do inesperado. Ria. Mas desta vez riu só a metade. Um meio sorriso – digamos assim.

 

Dormira num país tropical. Acordara num dos Polos. Não importava qual. Mas num deles. Podia ser o do amigo dos presentes. Ou dos bichinhos a rigor. O frio deveria ser igual – ao que sentia naquele momento.

 

Até olhou para trás. Conferiu. Sim. Era o quarto dela. O apartamento dela.

 

Pelo vidro da porta do terraço teve mais uma certeza. Sim. Era a cidade dela. Evitou se beliscar para garantir estar acordada. Não era necessário. Tudo conferia. Só a temperatura estava discordante.

 

Agora entendera o motivo do atraso. O corpo se atrapalhou. Vai ver com o frio súbito entendeu como também uma mudança de fuso horário. Sempre achou o corpo meio que esquecido. Agora já estava achando o corpo intelectual demais. Ou voluntarioso. Estava a tomar decisões - sozinho.

 

Encerrada esta primeira etapa – prosseguiu com o que o atraso e o corpo decidiram por ela. Com algum descrédito – tentou não ser exagerada. Entre um tira-coloca-tira casacos - optou por um estilo meio-termo.

 

Esquecera que nesta vida isso é um erro grave. Ao menos ela assim registrava. Nunca o meio termo se adequa a seja lá o que for. Antes os extremos que os meios termos. E sempre pensara assim.

 

Criticava severamente quem fumasse cigarro light. Ou bebesse refrigerante diet. Ou ingerisse bebidas alcoólicas com excesso de gelo. Bege sempre fora a cor que lhe provocava dúvidas. Até do caráter do portador. Achava que ou era para ser só culpa - ou para ser só prazer. Ou só cor - ou só negro. Mais ou menos assim. Quem passasse a vida em tons pastéis não entendia de vida. Nem de razão de vida. Se estava certa ou errada não importava. Importava a apologia dos extremos.

 

E agora essa. Justo ela – num amanhecer como aquele - escolhera um meio termo. Enfim, tentou acreditar no acerto mais do que no erro. Nada de precipitações. Já estava até gostando de ter se atrasado. Persistiu no meio termo de roupa e de idéias.

 

Foi para o Banco. Fazia tempo que não a encontrava. A Gerente. Foram muito amigas numa época. Logo que veio morar na cidade. Depois com os horários da rotina cada vez mais estreitos – os encontros se fizeram cada vez menos frequentes. Falavam ocasionalmente pelo telefone. Foi um re-encontro agradável. Riram do passado. Dos comportamentos do passado.

 

E tudo ficou parecendo ainda mais passado. Até fez um gracejo. É sempre assim. Quando se fala muito do ontem – o ontem fica muito mais distante ainda. Riram. O que tinha que ser resolvido – foi resolvido.

 

Foi quando teve que descer na Avenida. Desceu tranqüila.

 

De repente olhou. Assim. Quase à toa. Para o termômetro do poste. Que fica no centro da Avenida. Nas chamadas ilhas. Olhou para a ilha. Leu o número registrado no termômetro. E quase deu um pulo. Só não deu porque as pernas estavam já congelando.

 

O termômetro sempre marcava a mais. Lógico. Com a quantidade de carros e ônibus passando – alterava a leitura sempre para mais. Para mais. Então ainda era menos do que o registro informava. Estava escrito. Em números claros. Assim. Branco no preto. Nada bege. Oito graus. Oito graus.

 

Podia-se até dizer que tudo estava sob controle até aquele momento. Oito graus. O corpo leu. Entendeu. E exagerou. Começou a tremer. Abraçou-se ao lencinho do pescoço e ao casaco como se os transformassem em irmãos. Xifópagos. Grudou-se neles.

 

Numa trêmula virada de cabeça – viu-se diante de uma lojinha. Vendiam cachecol de lã e luvas de lã. Não teve dúvida. Juntou o virar trêmulo da cabeça, os dedos trêmulos e apontou com a voz trêmula o que precisava. A mocinha trouxe os pedidos.

 

Agora sou uma prima dos agasalhos. Digamos assim. Não mais irmã xifópaga. Comentou isso.

 

A mocinha nada disse. Mas fez um olhar estranho para ela enquanto recebia o pagamento. Talvez até amedrontado.

 

Mas ela desconsiderou. Sentindo-se melhor - pensou. Que venha o frio. Em qualquer tom. Com ou sem exageros.  Agora estava mais adequada para prosseguir.

 

Com a tal agenda opcional do atraso. Sorriu feliz.

 

Estava calorosamente inaugurada a Temporada de Inverno.

 

 


Agosto 23 2009

 

O dia começara quase como no estilo habitual. Mas enfim. Era mesmo o último dia dito útil da semana. Já era este um bom pensamento pelo despertar.

 

Como nada é mesmo perfeito - amanhecera um pouco enevoado.

 

Mas nada de importante. Os dias estavam assim. Amanheciam com uma temperatura mais delicada. Com o passar das horas o calor dizia presente em alto e bom grau. Confiante na repetição - arrumou-se adequadamente.

 

Uma roupa leve. Sapatilha. Nada de muita paranóia de frio. Ou de excessos.

 

Estava já há muitos anos na região. Sabia como se comportar. E sabia como a dita região se comportava.  Sentiu-se quase uma especialista em meteorologia. Até dispensou ler o boletim diário. Já sabia tudo.

 

Já na rua sentiu alguns pinguinhos delicados. Uma garoa banal - pensou. Não deu novamente importância. Apressou o passo e foi em direção aos caminhos dos trilhos.

 

Não esqueceu um risinho sorrateiro. Um certo olhar de superioridade. Em direção aos exagerados com casacos, botas e lenços. Embora já tentasse disfarçar um pouco de desconforto. Estava frio. Além do habitual da semana. Enfim. Devia ser porque ainda era cedo. Muito cedo. Novamente não deu importância.

 

Parecia já um dia de rebeldia.

 

No percurso – teve uma idéia.  Iria ao cinema no final do dia. Há tempos não fazia isso. Estava sempre voltando direto para casa. E acabava desanimada de sair outra vez. Desta vez iria retomar o ritmo antigo. E saudável.  

 

Sempre gostou disso. Ir ao cinema no último dia da semana. Era como se exorcizasse os dias de tanto trabalho. Finalizava com uma viagem ao mundo da sétima arte.

 

No começo desta rotina sentia falta de uma companhia. Depois se acostumou.

 

Lembrou um conselho da avó de uma amiga. Vemos e escutamos com os nossos próprios olhos e ouvidos, menina, com os nossos próprios olhos e ouvidos.

 

Perfeito. Assim entendeu. E lá ia. Sozinha. Sem queixas. Nem pequenos pudores. Escolhia o filme. Segundo seu gosto e expectativa. Assistia. E voltava para casa certa de que se dera realmente um presente.

 

Foi esta retomada que decidiu logo cedo. Parou antes de chegar ao destino. Comprou o jornal. Precisava escolher. Tinha uma sala de cinema que ela adorava. E ficava na Avenida preferida dela na cidade. Leu a programação. Perfeito. Até sorriu. Escolha feita.

 

Agora era só torcer para que o dia não fosse tão longo. Mas aprendera também a ter paciência. Até porque ter ou não ter – paciência - não é uma questão. Em relação ao passar do tempo – é sabido – nada muda.

 

Mas a chuva realmente chegara – e permanecia. Não diminuía. Não partia. Ficava.

 

O dia todo olhou pela janela. Mas concluiu. A Avenida do tal cinema era bem longe de onde estava. Devia ser chuva por zona. Isso também era habitual nesta cidade. Ela iria para outra no final do dia.

 

Continuou otimista. Mas – prudentemente - desconfiada.

 

Acabou o horário. Desceu. Já atravessou a rua sob chuva mais forte. Garoa parecia coisa do passado. O presente era bem mais contundente. Cabelos e roupa - inadequada – molhados.  A sapatilha estava de fazer inveja. A algum habitante do deserto. Só se fosse a algum deles. Porque os pés estavam encharcadamente congelando.

 

O frio aumentara. Muito. Muito.

 

Era um mais tremer que não dava conta. Mas se esforçava. Isso era inegável. Se esforçava para ser discreta. Nada de ser olhada pelos outros no final do dia – do jeito que olhara para os outros no começo do dia.

 

Vingancinhas têm limites. E não aceitaria provocação. Do olhar de quem quer que fosse.

 

Desistiu da tal sétima arte. Entrou em casa. Gelada de frio. A roupa molhada. Os cabelos molhados. Pela bolsa os respingos marcavam sua entrada da sala ao quarto.

 

De repente o interfone tocou. Era o porteiro. Alertava -  uma correspondência sob a porta da cozinha. Foi verificar. O selo dizia algo sobre urgente e importante. E confidencial. Algo por aí. Leu no envelope a palavra Justiça. Quase riu. Era a última palavra que pensou em ler naquela altura dos acontecimentos.

 

Abriu. Era uma intimação. Para ser testemunha. Numa ação trabalhista.

 

Agora sim. Falou por entre os dentes. Faltava mais nada. Mas tentou manter a calma. Ainda gostaria de ver os netos nascerem.

 

Deixou a finada sapatilha de lado. Teve o cuidado de guardar o envelope da tal intimação. Trocou os pingos frios por pingos quentes. Desconsiderou até a salvação do Planeta. Aqueceu-se por um tempo a mais no chuveiro.

 

Já relaxada - colocou uma ópera. Achou a escolha procedente. Apagou as luzes. Fez a viagem em volta de sopranos e tenores. Numa arena. Nada mal – pensou.

 

Estava – de qualquer jeito e sob qualquer condição – deflagrado o final de semana. Que venha, então.

 

Quando ele chegasse e ela contasse – coitado dele se risse.

 

Recostada no sofá – abraçada num edredom - riu sozinha. 

 


Agosto 16 2009


Ela sempre alertava. Muitas vezes as faltas são tantas que acabam ocupando lugares indevidos.

 

Não sei se são muitas. Ou se estão muitas. Ou se as vemos muitas. Meio complicado falar de falta. Expõem metades. Pelas metades. É sempre um paradoxo.

 

E pela metade muitas vezes são as explicações. E os excessos ambíguos da falta de explicações. Os descuidos com as gentilezas. O desuso das delicadezas.

 

Eis um terreno fértil. Com enorme rapidez fica-se pleno de faltas. Falta de interpretação. Falta de motivos. Falta de compreensão. Falta de confiança. Falta de lealdade. Falta de reciprocidade. Falta de conclusão. Falta de solidariedade. Falta de afetuosidade. A antiga e sempre conceituada falta de paciência. Isso sem esquecer a falta de compostura. Ou a sempre citada falta de condescendência. Que tantas vezes é aliada da falta de coragem.Ou da falta de conceito. Mas não se pode esquecer jamais - a falta de resposta.

 

Assim eu estava. Diante deste redemoinho de faltas. O telefone tocou. E o som fez um corte no tempo das faltas. Por que nas faltas do tempo isso já é comum.

 

Ela viera por uns dias. Rápidos. Era uma festa de família. Teria que participar. Mas conseguiu uma breve saída. Para vir até aqui.

 

Aguardei feliz. Chegou feliz. Desbravadora e vencedora dos trilhos. Nos trilhos. Confiante na decisão. Sorridente com a conclusão. Impossível errar o caminho. Já começamos a rir desde esta frase. Muito mais que uma frase.

 

Tudo reafirmava os caminhos trilhados. Não no destino. Mas na Vida. E certos. Ao menos parecia até o momento.

 

Quando sentamos para o vinho – nos repetimos. Rimos e choramos. Como no tempo das inaugurações do exílio. Ela no dela. Eu no meu. E o som das teclas fazendo vínculo entre nós duas.

 

Foram tempos difíceis. Mas nunca em tempo algum nos falamos tanto.

 

Nunca contamos tanto uma sobre a outra. Nunca soubemos tanto de nós.

 

Ali sim. Não havia falta de assunto. Eis uma falta abolida. Enfim uma. Até comemoramos. Podia faltar tudo. Mas nossa conversa era abundante. Um mais jorrar de palavras. De comparações. De questionamentos. De textos lidos. De textos a ler. Ela reclamava a impossibilidade do trabalho externo. Eu invejava o ócio temporário. Dela. E ela ria da minha agenda se construindo. Ou se paginando.

 

Descobrimos o sabor das páginas. Que só passam a existir quando preenchidas. Só se folheia o que está preenchido. Parece óbvio. Mas nem tanto. Páginas em branco são completas. De faltas. Não se brinca de olhar para elas por muito tempo.

 

Lá um dia me avisou. Arrumei as malas. E voltou para as raízes.

 

Depois disso – alguns hiatos. Um silêncio. Um retorno. Uma noticia. Um bilhete. Um sufoco. Um até mais. E por muito tempo nos afastamos. Da nossa história. Da nossa rotina. Até que um dia – faltou assunto. E sobrou silêncio. A tristeza - por saber mais faltas – se fez presente.

 

Agora estávamos ali.

Naquele momento. Sentadinhas nas cadeiras - na cozinha. A tentar atropelar o mínimo possível. Os relatos. Os excessos do - eu me lembro. Os inúmeros - você não sabia. Incontáveis - nem sei por que não lhe disse.

 

Quase foi preciso contratar um cronômetro.  De emergência. Ou uma nova emenda. Uma legislação de urgência. Você fala. Ela fala.

 

Fez um comentário. Sobre duas coisas que fazia bem. Dirigir e criar. E torcia pelo futuro. Para continuassem sendo elogiadas. Mesmo que num tempo passado. Rimos porque não faltou tempo. Achei genial a informação. E o pedido. Daria até para inscrição em pórtico. Passado. Presente. Futuro. Numa única eleição.

 

Mas enfim. Lembrei do Filósofo santificado. Ele falava isso. Que não existe futuro nem passado. Só presente. Porque é nele que falamos. Seja em que tempo for. Perfeito.

 

Quando nos despedimos – já todo o velho código estava re-paginado. Os risos resgatados.

 

As faltas pareciam diminuídas. Mas nunca se sabe. Talvez tenham escapado pela porta da saída. Ou ficaram atrás das cortinas. Ou se esconderam como poeira sob o tapete. Até ri quando pensei nisso. Pode-se passar a Vida toda permitindo que ele acolha faltas e erros. Deixando por cima risos e acertos.

 

O tapete como o Presente do Filósofo. Salvaguardando. O Futuro do Presente. Eis a enevoada solução. Arriscada por certo. Pisar sobre faltas é atividade que requer arte. Muito mais que sabedoria. Até por que quem sabe – não pisa.

 

Mas como dizia a minha avó. O que falta e o que sobra é sempre misterioso, menina, o que falta e o que sobra é sempre misterioso.

 

Olhou para trás. Deu um sorriso. E lá voltou pelos trilhos até o encontro agendado para a festa. Dia seguinte voaria cedo para as raízes.


Junho 25 2009

 

A semana fora toda complicada. Aguardava o resultado. Não conseguia se concentrar.

 

E o que mais queria era se concentrar. Para esquecer que aguardava o resultado. Mas não havia jeito. Nem bem dava uma pequena tarefa por encerrada e lá vinha o pensamento. Melhor dizendo – uma cachoeira de pensamentos. Lembrou até do nome daquele filme. Sim. Uma torrente.

Mil teorias. Mil planos. Mil contradições. Não faltou o inevitável por que eu.

 

Entre raiva e condescendência. De si. Dos outros. Lembrou do russo. Mas não cometera crime algum. Mas também sabia. Crime nem sempre tem objeto e objetivo explícito. Em geral é implícito mesmo. E mesmo assim é crime. Se irritou com o russo.

 

Nunca imaginara. Que uma resposta provocasse tanta aflição. Aliás - não a resposta. A falta dela. Estava difícil conviver com a falta dela. Da resposta.

 

Queria comiseração.

 

Nem bem formulou este pensamento e já o retirou da lista. Nada mais triste que um olhar de comiseração. Receber esse olhar. Ler no outro a sua situação. Esse olhar só é maravilhoso quando não se precisa dele. Ai sim. É perfeito. Dá até para inclinar a cabeça. Uma quedinha para afagos. Fazer ar de mais comiseração.

 

Com motivo, não. É diferente. E divergente. Fica-se ainda mais destituída. Mais desorientada. Empobrecida de valor próprio. Doeria muito mais. Não brincaria com isso. Até se sentiu desanimada.

 

Ainda tinha uma outra questão. Quem iria buscar. O resultado. Ela sozinha. Ou solicitaria companhia. Mas quem escolheria. Ele ficaria muito tenso. E nem contara a ele. Como poderia falar assim. Vamos lá. Vamos juntos. Ele nada sabia. Não seria saudável. Detestou esta palavra. Ela era amiga, mas muito delicada. Ela também era muito ansiosa. E ela própria não gostava de se expor. Entendia que exposição só quando se está sob controle.  Caso contrário dá mesmo é em muito caso contrário.  

 

Ótimo. Grande idéia. Mandaria um moto boy. Do moto boy até riu.

 

Imaginou ele chegando. Trazendo o envelope. Ela já até derrubando o coitado. O capacete caindo. A moto despencada no chão. Ela arrancando o envelope das mãos dele. Ela abrindo. Se agarrando no pescoço dele.

 

Parava ai o pensamento. Se agarrando por que. Por que dera negativo. Ou porque dera positivo. E lá voltava ao pensamento número um.

 

Pior é não poder mandar acelerar o resultado. Quer dizer. Poder - podia.

 

Poderia se lamentar. Falar do excesso de angústia. Esbravejar. Falar alto. Chorar baixinho. Fazer uma verdadeira cena convincente. Mas onde se escondera a coragem. Ao menos isso aprendera. Coragem era algo evanescente. Aparecia e sumia numa rapidez além das medidas. Nem bem se sentia a presença, e ela já ia se ausentando.

 

Continuou trabalhando. Achava incrível ninguém perceber como ela estava agindo. Mudara alguns hábitos. Era um tal de água e cafezinho que pensou em pedir aumento – para pagar a conta da cantina. Só a mocinha da cantina deveria estar feliz. Nunca vendera tanto. Em tão pouco tempo. Enfim alguém estava feliz. Viva a mocinha da cantina.

 

Quase engasgou. Com o cafezinho. Notou que estava bebendo um gole de cada alternado. Café quente e água gelada. Viu isso pelo olhar da mocinha. Que discreta virou de lado. Foi mudar o canal da televisão. Procede.

 

O celular tocou. Escorregou da mão dela e caiu na latinha do lixo.

 

A colega olhou para ela e riu. Solta. Leve. Olhou o riso dela e pensou.

 

Suspendeu o pensamento. Melhor deixar assim. Sem pensamentos. Achou o celular entre os papeis. Ainda tocava.

 

Atendeu. Era de lá.

 

Pode vir buscar o resultado do exame, senhora. Claro, Já está pronto. Ele achou que quanto mais rápido melhor. Não, senhora. Não abro exames. Desculpe. Também não perguntei. A senhora virá buscar hoje ainda. Certo. Estarei aqui sim.

 

Vou sozinha. Pronto.

 

Decidiu pelo elevador. Era só uma escada. Mas achou que o elevador seria melhor. Teria companhia. Escada é solitária. Cada um sobe e desce e nem se olha. Só se afasta. Num elevador ninguém se afasta e se olha.

 

Achou que estava grave. Deveria já estar disseminado. E já no cérebro. Ninguém pensa tanta bobagem - tão rápido. Sorriu para a mocinha do elevador. Sorriu para todos no elevador.

 

Desceu. Entrou na sala. Disse o nome. Foram pegar o exame. Recebeu. Agradeceu.

 

Pelo jeito que falou até achou que falara em outro idioma. Um dialeto talvez. Nem ela mesma entendera o que dissera à mocinha. Sem importância. Ela lhe dera as costas. Atendia já outra pessoa.

 

Não abriu. Saiu. Optou pela escada. Não queria que ninguém a olhasse. E queria que se afastassem.

 

Era um momento daqueles de extrema solidão.

 

Abriu o resultado. No último degrau da escada. Já perto da saída. Estava escrito. Negativo. Negativo. Negativo.

 

Subiu a escada de volta. Desceu pelo elevador.

Queria agora que todos a olhassem. E não se afastassem.

 

Nunca mais se descuidaria por tanto tempo. Fez as pazes com o russo.

 

Nunca mais. Falou isso para a mocinha do elevador. Que a olhou sem nada entender. Mas sorriu.

 

 


Junho 19 2009

Morara toda a vida lá. Numa cidadezinha onde a terra, o sol, a lua, a pouca chuva - eram as fronteiras e as sem-fronteiras conhecidas.

 

Apaixonara-se. Talvez. Mas ele disse que iam morar juntos. Que ia cuidar dela. Acreditou. Talvez.

 

Ficou grávida. Nem chegaram a morar juntos. Nem ele cuidou dela. Foi não-sabe-para-onde. Um lugar por certo bem distante. Não soube mais dele.

 

Viveu de talvez. Foi amparada pelos parentes. Desamparada pelos mesmos parentes. Acolhida e cobrada. Não tem rima, mas tem realidade. Talvez.

 

O tempo passou. Numa conta certa. A barriga cresceu. Sentiu uma dor.

 

Talvez tivesse chegado a hora. Assim falaram para ela. Foi para um pequeno hospital. Nasceu. Menino. Bem pequenino. Deu o nome do santo do dia. Viu num calendário do hospital. Decidiu. Seria este o nome dele. Foi o primeiro nome que viu depois que ele nasceu. O santo ajudaria. Confiou nos sinais.

 

Notou que estavam todos um pouco sérios. Começaram uma explicação. Curta. Mas prolongada. Para quem não sabia muito bem o que explicar.

 

Assim pensou.

 

Segundo entendeu do médico ele tinha um probleminha. Mas quem sabe teria alguma solução. Talvez. Precisaria de muitos exames. Na cidadezinha não havia possibilidade.

 

Assim começou a tecer a poesia dela.

 

Com a ajuda de amigos e vizinhos conseguiu uma consulta numa cidade próxima. Talvez melhor equipada. Nada concluíram. Nem diagnóstico. Nem prognóstico.

 

E de versinho em versinho chegou até a cidade grande. Enorme. Uma viagem longa. Difícil. Mas enfrentou. Todo o tempo. Noite e dia sem dormir. Cuidava do filho no espaço minúsculo do assento onde estava.

 

Quando chegou nem sabia bem onde - e já estava no hospital. Com o filho. Se sentiu igual a ele. Sem prognóstico. Mas aguardou.

 

Estava muito magra. Tinha os músculos dos braços bem marcados. Era bem jovem ainda. Mas as marcas da pele desconsideravam a cronologia. Ou o contrário. As mãos rudes e ásperas pareciam leves. Tocava os cabelos do filho com muita suavidade.

 

Sentada com ele no colo escutou o que buscara. Uma certeza. Qualquer uma serviria. Não poderia era administrar os não-sei. Não suportaria mais talvez. O saber lhe dava nomes. Diminuía a angústia. Permitia o medo.

 

Medo é mais fácil de assimilar. Porque já se sabe do que é. Na angústia fica-se balançando numa dor que não tem vínculo. Nem com o corpo, nem com a alma.

 

Estava cansada de talvez. 

 

Definido. A doença era sem resgate. Haveria uma aparente evolução física normal - tempo de calmaria. Assim tentava entender. Depois uma queda na evolução natural - até a fase terminal. Não seria muito curta. Mas também não seria muito longa. Passaria por vários estágios. Seriam necessárias algumas intervenções. Algumas mais complicadas. Outras mais simples. Mas faria muitas delas.

 

Foi-lhe dito assim. Com delicadeza. Mas com a sinceridade necessária.

 

Escutou. Compreendeu.

 

Abraçou o filho. Sorriu para ele. Disse com um sotaque forte. Vamos tocando a vida. Já chegamos até aqui. Parecia impossível. E já chegamos. Agora vamos continuar. Consegui um lugar para nós dois morarmos. E um trabalho que posso também ficar com ele. Vou mudar. Não volto mais para lá. Aqui ele terá melhores cuidados. De onde vim - vai ter nunca o que tem aqui. 

 

Olhou em volta. Para cima. Para as paredes. Deu a impressão de que olhava toda a cidade. Daquela cadeirinha onde estava sentada – visualizava a geografia. Um vôo além do marcado. Dimensionava o espaço numa forma de reduzi-lo. Do tempo já entendera. E não queria mais discussão sobre quanto. Nem quando. Escolhera apenas o onde. Isso era o que entenderia dali em diante. Do onde.

 

Falou com a métrica certa. Uma estrofe perfeita. Onde as palavras faziam marcações corretas.

 

Não havia queixa. Não destacava lamentos. Muito menos referência a sorte. Ou à falta dela.

 

Havia emoção. Solidão. Intenção. Ela era toda a atemporalidade.

 

Quando levantou sorriu com ar de criança. Talvez o único instante em que a idade cronológica se igualou à aparente. Pareceu tão frágil. Tão assustada.

 

Mas se recompôs rápido. No instante seguinte já carregava o filho. A esperança. As certezas. E a força. Visível nas veias dilatadas do braço fino, mas musculoso. Na sacola que segurava tinha o desenho de uma flor.

 

Tinha dor. Mas tinha flor. Tinha rima. Tinha certeza. Tinha valor. Tinha clareza. Tinha pranto. Tinha santo. Ele tinha partido. Ele tinha nascido.

 

 

Somando tudo, tinha tanto. 

 

 



Junho 15 2009

A mocinha do boletim meteorológico parecia feliz. Avisava que os dias seriam lindos-dias-de-sol-de-verão. Acabou de informar e confirmar. E se despediu. Feliz quatro dias de feriados a todos.

 

Ela já foi logo se incluindo.

 

Tanto tempo sem sentir o sol na pele. Ou chovia. Ou ela trabalhava. Não havia sincronicidade. Do querer com o ter. Até se sentiu poeta. Poeta do sol.

 

Riu.

 

Mas agora ali estava ela. Com o sol. Sob o sol. E o restinho de óleo protetor. Avisava no rótulo. Anti-envelhecimento. Provavelmente para ambos. Para ela – para o óleo. Confiou nisso naquele momento. Aliás – naquele momento – ela era a imagem caricaturada da confiança.

 

Ele permitira. Poderia, sim, ficar lá embaixo. Tinha um espaço disponível. Não tinha cobertura – mas a mocinha do boletim meteorológico informou que não choveria. Combinado. Ele ficaria lá então.

 

E o terraço se transformou. Só dela. Viva o doce sabor do egoísmo. E ainda tem gente que discursa contra. Nem pensar. Achou que até escapou um obá.

 

Quatro dias de folga. Plenos. De sol. De céu. De dolce far niente.

 

Esparramada. Pensou esta palavra letra por letra. Assim ficou na espreguiçadeira. Palavras perfeitas. Ambas.

 

Levantava. Caminhava. Sentava. Deitava. De vez em quando recordava a adolescência. E conferia as diferenças de marcas entre o exposto e o oculto.

 

Na água estava a cadeira. Inflável. Quase uma chaise longue. Já estava até sofisticando os pensamentos. Riu de novo. Mas lá estava. Balançando com absoluta serenidade sobre a água. Quem inventou o inflável entendia de prazer. Seja qual for o viés. Cada um com seu pedido. Ou com sua idealização. Mas quem inventou sabia. Inflável. E ela inflada. De pueril alegria.

 

E nem precisava dizer aquelas três palavras. Saia – Fora - Não. Pensou até que elas tinham saído do dicionário. Riu de novo. Estava mais que poeta. Já estava também filósofa. Viva o ócio. Sempre dizia e repetia. Só falta agora o ócio aceitar o convite. E ir morar para sempre a lado dela. Como feliz e inspiradora companhia.

 

Abriu as portas. Todas. Do quarto via o mundo. Os prédios. O céu. A luz entrava sem formalidade. Já com a intimidade de quem sabe. O tamanho da permissão. E ainda sem as três palavras. Aquelas que nem vale repetir.

 

Não é porque não as pronuncia que vai ficar lembrando. Não teria sentido. Sentido. Outra palavra perfeita. Falta em sentido tudo o que sobra em sentido. E por ai vai.

 

Um chá. Já estava na jarra. Em cima da mesinha. Geladinho. Por sobre uma toalha branquinha. Feita de uma fibra especial - a toalha. Presente que recebera de lá. Onde tudo é aproveitado, apreciado e vendido. Naquele mercado. Um modelo.

 

Com a porta aberta do quarto o som se fez intenso. Colocou as músicas preferidas. Alternando. Entre ritmos e tons. Entre líricos e populares. Os ouvidos também merecem uma festa. Não é festa só de olhos. Ou só de pele. Ou só de economia de palavras. Se não se toma um certo cuidado - a imaginação pode acabar ficando deficiente.

 

Há algum tempo começou a entender as mil artimanhas do prazer. Tudo que tem que ser igualmente satisfeito. Vai ver por isso prazer é sempre da ordem do difícil. Ou do impossível. Nisso as queixas sempre vencem. Qualquer queixa, por mais tola que seja – convence. Queixa já é da ordem do perfeito. Do completo. Nem bem formulada – já incorporada. Tão diferente do prazer. Este nem bem formulado – já inacabado.

 

De repente o vento mudou. A cor do céu também. Viu um traço luminoso ao longe. Um risco. Seguido de outro. E mais outro. O que poderia – talvez - ser chamado de uma nuvem se aproximava. Era uma formação escura. Densa. Decidida. Pareceu estacionar. No exato espaço sobre a espreguiçadeira. Sobre a cadeira inflável. As toalhas, subitamente desarvoradas, dançavam sem rumo e sem ritmo. Assim. De repente.

 

Queria saber como encontrar aquela mocinha. A do boletim meteorológico. A que descreveu os dias de feriado. Como uma tela. De impressionista.

 

Mudou rápido o pensamento. Onde ele estava não tinha cobertura.

 

Correu. Fechou a espreguiçadeira. Esvaziou a cadeira inflável. Recolheu as mesinhas. Cobriu as marcas da diferença. Deu adeus à recriada adolescência - tão rápido quanto à verdadeira.

 

Ele subiu. Olhou para o terraço. Marcou imediatamente o espaço. Deitou no meio dele. Desconsiderou a chuva. A cobertura.

 

Lembrou de um desenho animado. Havia um deles. Sorria por entre os dentes a cada batalha travada e vencida com algum humano. Teve a impressão que ele fizera o mesmo. Tinha certeza de que escutara um riso fino. Seguido daquelas três palavras. E dirigidas a ela. A ela.

 

Fechou as portas. A chuva continuava. Os tracinhos luminosos ainda riscavam o céu acinzentado. Ele ainda deitado no terraço. As cadeiras amontoadas na salinha. O chá descuidado sobre a escrivaninha. Num cantinho, murcha, se acomodava a ex-sofisticada chaise longue.

 

Relembrou. As “erínicas” três palavras. Mas não as verbalizou. Em nenhuma direção.

 

Silenciosa, ligou a televisão. Alguém oferecia um novo tipo de desodorante. A uma mocinha que precisava não suar no calor.

 

 

Riu. De impressionista a realista foi um pulo quase tão rápido quanto aquela demonstração de verão.

 

Perdoou - a mocinha relatora do boletim meteorológico.   

 

 


Maio 19 2009

Ele falou assim.  Você está sozinha. Vou pegar esta cadeira. Licença. Assim. Objetivo.  Aliás, nunca vi termo mais adequado. Objetivo. O sentido. O pedido. A cadeira. Ela. Objetivo de objetos mesmo. Coleção de objetos. E numa rapidez impressionante.

 

Olhei para ela. Fez um gesto com a mão como liberando a cadeira. Sorriu.  Sem graça. E toda cheia de graça. O jeito que o olhou parecia esperar algo. Ou, quem sabe, algo mais ser pedido. Difícil saber o que.

 

São muitos os monólogos travados apenas com um olhar. Para virar diálogo depende da aceitação do outro. Do reflexo do olhar do outro. Para que uma mágica qualquer aconteça.

 

Mas não parecia uma temporada de muita mágica para ela. Para ele - não sei. Não estava com jeito preocupado. Queria mesmo resolver uma questão de assento. Para um terceiro amigo com quem dividia a mesa. Parecia só isso. Só queria a cadeira. Não percebeu o olhar. Ou fingiu não perceber.

 

Foi uma troca estranha. Estranha a eles. Mas formal.  De pedidos. De permissão. De olhar. De sorriso. E só a cadeira saiu do lugar. Só a cadeira se integrou a um grupo.

 

Ela ficou ali. Sentada. Obediente talvez ao aviso. De que estava sozinha. Quase uma ordem. Ou uma previsão. De que continuaria sozinha. Por isso lhe tirou a cadeira. Talvez ele tenha visto mais a impossibilidade. Do que a possibilidade. E ela tentou ver mais a possibilidade. Do que a impossibilidade. Vai lá saber.

 

Estava sentada numa mesinha mais para fora do ambiente. Tomava um café. Mas não parecia interessada nele. No café. Porque o abandonava na mesa. A esfriar. De vez em quando um mínimo gole. E o abandonava de novo.

 

Vestia uma blusa preta. De um ombro só. Um descoberto. O outro coberto. Escolha interessante. Uma saia preta curta. Uma sandália. Uma pulseirinha no tornozelo. Meia idade. Ou menos um pouco. Mas a maquillage era forte. Decisiva e decidida. A maquillage. Não ela.

 

Cada vez que abandonava o café olhava em volta. Parecia uma dança. Uma coreografia. Era colocar o café na mesa e o olhar se afastar. Isso a fazia parecer mais solitária ainda. Como se distante estivesse. Não deve ter sido por acaso que escolhera aquela mesa. Mais para fora do ambiente.

 

Todas as mesinhas estavam ocupadas. Todos os lugares. A garçonete corria daqui para ali. Bandejas e mais bandejas. O cheiro do café percorria todo o espaço.

 

E ela ali. Sentada em sua mesa de uma única cadeira. Afastada de todos e de tudo.  

 

Fiquei pensando nas escolhas. Que sempre são muitas. E numa ordem crescente. Escolhera a roupa. Escolhera o local. Talvez por ser perto de casa. Ou do local de trabalho. Vai ver também tinha hábito de ir até ali. Mas não me pareceu. Nenhuma garçonete a reconhecera. E nem deram uma maior atenção a ela. Teria Alguém. Vai ver o Alguém não tinha horário para almoço. Ou se tinha não quis. Vai ver um regime. O Alguém deveria ser gordo e estava de dieta. Poderia ter encerrado um romance recente. O Alguém já não mais estava adequado. E estava à procura de um novo. E ainda não se decidira. Por onde começar. Ou até se deveria começar. Ou seria meio tímida. Sim. Só meio. Por isso cobriu um ombro. E expôs o outro. Agradaria a tímidos e afoitos. E tudo dependeria de que lado a vissem primeiro. Mas o colecionador de cadeira a vira de frente. Foi diante dela e em pé que avisou da solidão. E levou a cadeira. E não se interessou pelo ombro. Nem o coberto. Nem o descoberto.

 

Num determinado momento abriu a bolsa. Olhou o celular. Não deveria ter recados. Nem chamadas. Guardou o celular. E pegou a xícara do cafezinho.

 

Repetiu o movimento. Recolocou na mesa. Esperei que olhasse em volta.

 

Como uma ária. A repetição no tempo certo. Mas não. Continuou olhando para a xícara. Depois puxou um pouco a blusa em direção ao ombro descoberto.

 

Levantou-se. Pegou o que lhe pertencia. Deixou para trás o que não lhe pertencia. Colocou a cadeira onde estava sentada bem junto da mesa. Vazia de todo.  

 

Parecendo cheia de si, saiu. No tornozelo, a pulseirinha dançava.

 

 


Abril 18 2009

Passara o dia no quarto. Com a porta fechada. Entregue aos seus pensamentos. Suas lembranças. Suas lágrimas. Decidiu aproveitar. Já que o pensar, ao menos, é livre. E deu liberdade total. Aos seus pensamentos. Não tinha ainda aprendido. Sobre a possibilidade dos riscos diante deste tipo de liberdade.

Mas acatou. Recordou. Até da feira. Lembrou dela de novo. Da amiga que viajara. Iam as duas. Todos os domingos pela manhã. Comer pastel de feira. E prometer toda semana. Que não iam mais comer. Porque fazia mal a saúde. Ainda bem que nunca conseguiram cumprir. A promessa. Porque hoje não o faziam mais. Uma além mar. Outra além serra.

 

Muitas vezes é bom avaliar, com muita cautela, as restrições. Ou a validade efetiva das restrições. Talvez melhor apenas prosseguir. Nunca se sabe quando pode começar a provação. Em meio à privação. Nem sempre é uma questão solitária de escolha. Pode acontecer à revelia. Por um saber nem sempre tão sabido. Nem sempre tão ocultado. Assim. Sem propósito. Sem fantasia.   

 

Agora ela estava bem longe dos pasteis do domingo.

 

Tinha o carrinho. Comprara um carrinho de feira. Todos riram. E uma roupa especial para ir à feira do domingo. Adorava quando estava frio. O céu de inverno lindo. Azul turquesa. E o frio para contrastar. Que delicia.

 

Colocava a roupa especial de feira. Pegava o carrinho. Descia a ladeira da casa. Com ar feliz. Andar alegre. Pisar leve. Se sentindo dona de alguma coisa que não sabia definir. Devia ser da própria vida. Que enfeitava com o carrinho e a roupa. Encontravam-se na esquina da casa dela. Já desciam rindo e falando. Sob a orquestra das rodinhas do carrinho na calçada. Pura musicalidade.

 

Sempre gostara do frio. Não sabia explicar por que. Mas tinha uma sensação especial. Uma sensação de proteção. Gostava de sair de casa no frio. Talvez fosse pelas roupas. Pelos casacos. Pelas meias.

 

A roupa defende a pele. Devia ser isso. Na noite o peso das cobertas também defende. Da noite.

 

Tinha também a avenida. Adorava passear naquela avenida. Devia ser porque não enxergava o final. Como um horizonte perdido. Em meio ao asfalto. Aos carros. Muitas vezes inventava motivos. Só para ir até lá. Subia a tal ladeira. A mesma que descia para a feira. Até riu da lembrança. No final ficava mesmo era na ladeira. A subir e descer. Nunca se vê o fato no momento do fato. Achava isso incrível. Lembrava dos destinos.  Mas esquecia do acesso. Até se surpreendeu com este mais novo pensamento. 

 

Naquele momento percebeu. Triste. Tudo parecia tão longe. Começou a se arrepender. Da liberdade que dera aos pensamentos. Estava confusa. Indecisa.

Na tentativa de se atingir, pode-se acabar distante de si mesmos.

Foi presa a estes pensamentos soltos que, de repente, deu um pulo.E com os olhos bem arregalados. Pasma seria o termo certo. Devia estar assim a expressão. Quase caiu com o pulo que deu. Riu. Não faltaria mais nada.

Cair quando começou a enxergar. Deve ser por isso que tanto caía. Vivia de pé engessado. Nem sabia mais quantas vezes torcera o pé. Brincava que era algum mau passo. Que tinha dado. Ou que daria. Depois concluiu que não. Na época até concordara. Depois não. Nunca conseguira dar um passo. Quanto mais um mau passo.

 

Para dar um mau passo é preciso muita sabedoria. Muito mais que para um bom passo. Isso já aprendera. E passo é uma questão muito mais estrutural. Que natural.

Mas vivia com o pé no gesso. Devia ser uma forma de dar passo nenhum. Garantia da desculpa. Da imobilidade. Até da impossibilidade. Sempre essa dificuldade. Por toda a vida.

Com mania de distância. Ou com desculpa de distância. Distância sempre está dentro de cada um. Nos olhos de cada um. Construída. Como um forte. Na distância - a perda do tempo.

 

Mas agora comemorava o pulo. O pulo. Pele aquecida. Olhos abertos. Não. Olhos esbugalhados. Até com arrepios. Não tinha visto. Não tinha enxergado. Ou tinha. Não sabia. Os olhos se acalmaram. A pele se acalmou. Riu calma. Baixinho. Sorriu melhor dizendo.

 

Na porta. Naquela porta. Bem em frente. Enfrente. Ao alcance.

Enxergou. Sorriu de novo. Compreendeu.

Diante dela - uma maçaneta. Uma maçaneta. Assim. Simples.


Levantou e saiu.

 


Março 31 2009

Parecia um acesso súbito de confusão mental. Daqueles que se desconhece quase o próprio nome. Ou onde se mora. Ou o que realmente se faz. Mas me contive. Contei até nos dedos. Não para fazer contas. Mas para confirmar que tinha dedos. Depois abri minha bolsa e conferi. Sim. Eu mesma. Dados de residência conferem com o referenciado. Endereço de trabalho idem.

 

Um projeto. Para que se aprenda. Que se declare saudável. Com toda a idéia de renovação. E atenção. Ao menos a idéia. A utilização real sempre é incógnita.

 

Surgiu um atalho.  Sob a forma de um convite. Necessário um remanejamento. Não de função. Não de métodos. Mas de área. Uma outra área. Com maior abrangência e necessidade. Disponibilizam-se vagas. Para voluntários.

 

Lembrei daquele filme. O professor sugeria que se subisse na mesa. Quando se considerasse o visto já reconhecido. Para que se abrisse um novo ângulo. Concordei. É uma forma de sempre rever o mundo. E ter a certeza. De que ele não está pousado nas costas de um elefante. Ultimamente estou mais atenta a dúvidas e certezas. Ou a talvez.

 

No caminho a paisagem foi mudando. A urbanidade se desfazia de forma natural. De prédios a casas. De pontes a córregos. De jardins a árvores. De parque a mata. De motordicas  ao retirante. Uma passagem.  De impressionismo a natureza morta. Às vezes na literalidade. Outras no ritmo da poesia bucólica. Gradual. Mas não muito lenta. Nada por aqui é lento.

 

Quase nada. Ou muito pouco. Deixa pra lá. Vai ver que tudo é lento. Até aí tudo bem. Não tem lugar no mundo que não passe por esta transição. De paragens. Nem sei se o termo existe. Mas me parece bem adequado. Um exagero ali. Outro reduto acolá. Tudo bem. Paisagem e Vida se confundem. Sempre.  

 

Foi nesse pensar filosófico que precisei contar os dedos. Eu que já estava orgulhosa de mim mesma. Não tomava mais susto. Tive uma recaída. Uma baita recaída. Afinal são muitos anos de residência fixa. Neste pedaço de metrópole. Citada sempre pelas dimensões e avanços. Pela sofisticação. Exagero até nos problemas. Mas nunca a este extremo. Este foi surpresa.

 

O local estava fechado. Aguardando o toque da campainha.  Aguardei. Encostada a um portão lateral. Parada em frente a este tal portão. Bem ali. Diante de tanta abrangência sem necessidade que senti. A tal confusão mental.

 

Ao meu lado. Meu. O portão se abriu. O que eu aguardava encostadinha. Que a campainha do outro fosse escutada. O do lado. Eu tão calma. Com minhas teorias de paragens. Quando de repente abre este portão. Acoplado a um muro alto. E saem de lá uns quarenta. Não. Acho que uns sessenta. Vai lá. Talvez uns cem. Tudo bem. Uns vinte. Bodes. Cabras. Com guizo.

 

Passeando e sonorizando o passeio. Como um dia no parque. Não tive jeito. Tentei gritar. Duas coisas podem ter acontecido. Porque ninguém me notou. Ou a voz não saiu. Ou os guizos abafaram a voz. Sem terceira opção. Mas não parou aí. Olhei para o que seria um morrinho. Por trás de uma casa vizinha. E lá estava tranqüila. Feliz. Recebendo a brisa. Gozando do simples prazer da existência. Uma vaca. De frente para dois cavalos. Assim. Sem mais nem menos. Com toda a naturalidade. Aliás, um resumo completo de naturalidade.

 

Pensei em nunca mais comer camarão abafadinho. Devia ser isso. O almoço de ontem. De tão divino causou alucinações. Ou desistir de replicar questões de pontos. Ou fazer reza Benta. Vai ver foi castigo. Decidi conferir se era eu mesma. Que estava ali. Que estava em cima da mesa. Quero dizer, do carro. Do porta-malas. Em cima do porta-malas do carro. Que por sorte não sei de quem, não consegui abrir. E que tremia. O carro. Depois concordei. Eu tremia. Sacudia. Entre os calmos bodes. E cabras. E guizos. E o olhar plácido, ruminante. Da vaca. Sim. Tudo confirmava. Era eu mesma. E, importante - acordada.

 

Enfim superado o primeiro choque. O segundo. E o terceiro. Comemorei. O portão esperado abriu. Uma mocinha apareceu. Eu em cima do porta-malas do carro. Nada falei. Ela só me olhou. Me pareceu tranquila em relação ao movimento, digamos assim. Talvez intranquila em relação a mim. Me identifiquei. Entrei. Todos me aguardavam para dar continuidade. Ao proposto.

 

Viva a urbanidade. A mesa. A visão ampla. O local abrangente. Agora sei. O mundo não está apoiado nas costas de um elefante. Ainda bem. Era só o que me faltava. Um elefante.

 

Por segurança contei os dedos de novo.

 

publicado por Lêda Rezende às 02:12

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