Blog de Lêda Rezende

Outubro 10 2009

 

Certo. Bom humor é fundamental.

 

Aceitar o inevitável é sinal de sabedoria. Concluir que sabe que não sabe é uma conclusão amadurecedora.  Quase heróica. Grega. Conselhos de avó nem se comenta. A perfeição das perfeições.

 

Podem ser seguidos com toda a obediência. Tudo procede. Confere. Ganha até aquele ok ao lado de cada frase. Ou de cada pensamento.

 

Assim estava. Tentando ser parcimoniosa. Prudente. Até polida – poder-se-ia dizer. Falar que estava com postura amadurecida - já beirava a redundância.

 

Tudo bem que um bom observador teria ficado mais cuidadoso. Ela estava com aquele olhar fininho. E isso sempre foi um indicativo de alerta. Aos próximos e distantes.

 

Mas impossível não reagir.

 

Acordara bem disposta. Iria continuar com seu pacote de feriados. Já o segundo dia.

 

Estabelecera até um agendamento. Bem à moda antiga. Escreveu num papelzinho. Item por item. Adaptando inclusive horários e atitudes.  Uma maravilha. Uma sequência quase divina. Devia mesmo estar numa fase grega. Isso – lógico - bem antes do olhar nipônico.

 

O papelzinho com a listinha. Este sim um fato novo. Podia até programar. Mas daquele jeito – nunca. Nem lembrava mais o dia que escrevera itens ordenados. Devia ter sido em algum momento de vida escolar. Talvez com algum desespero. Por agradar a professora. Por certo por alguma daquelas pequenas faltas.

 

Na infância as faltas e erros parecem tão tridimensionados. A altura física na infância sempre é inversamente proporcional à altura da visão dos problemas.

 

Deve ter sido numa visão assim. Exagerada. Por isso escrevera os tais itens.

 

Mas enfim. Fora isso – nunca. Ia fazendo dentro do seu ritmo. Mental.

 

Desta vez até prometera não fazer programações. Ou qualificações. Mas não resistiu ao doce sabor de uma exibição. E ainda antes de dormir pegou o tal papelzinho. E escreveu a sua programação do dia seguinte. Até numerada foi. Releu. Concordou. Acrescentou só mais um – no final. E foi dormir tranqüila. Estilo – então estamos combinados.

 

Já começou a sentir o frio no primeiro abrir de olhos.
Até pensou em verificar a própria temperatura.
Vai ver estava com febre. Mas não parecia.

Olhou em volta. O quarto estava bem escuro.
Deveria ser cedo.
Vai ver acordara no hábito dos dias ditos úteis. Olhou para o relógio. Negativo. A manhã já estava explicita.

 

De repente se deu conta. Um barulho mais insistente. Ritmado. Permanente. Nem diminuía. Nem aumentava. Aliás - já era alto o suficiente.

Somou as conclusões. Frio. Escuro. Barulho. De água

Levantou. Abriu as portas.

 

Sim. Chovia como se fosse a primeira chuva do mundo.

 

Como talvez só no tempo da criação. Muita chuva. O céu cinza forte – não possibilitava fantasias contrárias. O frio estava  contundente. Abraçou-se a uma manta - desprezada desde a véspera - no sofá.

 

Foi naquele momento – abraçada na tal manta – que o olhar nipônico se fez com toda a sua força. Nem todo ninja. Ou nem toda naja. Valia o trocadilho. Mas não riu. Sequer um esboço de riso.

 

Voltou para o quarto. Pegou o papelzinho.

 

No item um constava – sol sem moderação. Tinha até uma carinha de risinho ao lado desse item.  E continuava.  Esquecer o carro. Caminhar no Parque. Ir à Livraria. Comprar o presente dela. Caminhar na Avenida. Tomar aquele sorvete maravilhoso que só vende lá. Sim. Ir até lá.

 

O olho quase se fechou. Nem todo nipônico. Lembrou. Tinha avisado a ele desde a véspera. Sim. Poderia colocar o carro na revisão.

 

Estava sem carro. Absolutamente sem carro. Sem sol. Sem caminhadas. Sem sorvete. Com chuva. Com frio.   

 

Só uma palavra lhe vinha à mente. E nunca pensara nesta palavra.

 

Reticências. Só esta se repetia. Por certo uma palavra encobridora. Era uma moça educada. Também repetiu isso alto – como que provocando uma eficiente auto-escuta.

 

Amassou o papelzinho. Jogou na cestinha do lixo a seu lado. Olhou para ele - o papelzinho - como se olha numa despedida.

 

Sentou no sofá abraçando afetuosamente a manta. E lá ficou por algum tempo. Ela. O sofá. A manta. Três pontinhos. Olhando a chuva bater na vidraça.

 

Mas – resignou-se. Ainda teria mais dois dias.

 

E - desta vez - sem agendamentos. Prometeu a si mesma. E até sorriu. Com olhos já bem abertos.

 

 


Julho 23 2009

 

Acordou com uma nova sensação. Não diria estranha por que não temera. Mas diferente.

 

Nem bem abriu os olhos e já entendia o dia que se iniciava. Enxergou o dia muito mais que o dia já a enxergava. Ainda não se tinham olhado frente a frente. Estavam seguindo nos subterfúgios da noite disfarçada. Uma troca de faltas por excessos. Ou ao contrário. O dia requeria calma. Para ser vivido. Mas vai lá saber por que – já sabia disso antes.   

 

O brilho entrava por baixo de uma porta. E pelas frestas da outra porta. Compreendeu. O sol se fazia forte.

 

Junto com o despertar um súbito pensar. Duas palavras. E tudo isso antes de levantar. Antes de por o primeiro pé no chão. Antes sequer de imaginar colocar o segundo pé no chão. Ate riu quando pensou nisso. É verdade.

 

Começo é colocar os dois pés no chão. Parece um chiste á toa. Mas não é.

 

Condescendência amorosa. Estas eram as duas palavras. Sob a luz da manhã.

 

Lembrou da avó da amiga. Ela sempre avisava.  O sol sempre cria a possibilidade da sombra, menina, o sol sempre cria a possibilidade da sombra.

 

Entendeu bem a avó.

 

Mas coragem. Pôs os dois pés no chão.

 

Se sentiu como uma caricatura de si mesma. Ali. Ao lado da cama. Olhando a fresta da luz e de pé. Até olhou para os pés. Em outros tempos voltaria para a cama e começaria tudo de novo. Agora não. Enfrentou. Lá se foi com seu pé ordenando e obedecendo. A caminhada.

 

Saiu do quarto.

 

O céu estava de um tom de azul quase artificial. Intenso. Lindo. Um leve ventinho frio ainda se despedia da madrugada. O sol brilhava no alto. Foi até a varanda. Fez um gesto casual. Os passarinhos na sacada – saíram.

 

Casualidade permite leituras bem particulares.

 

As duas palavras não escapavam. Firmes. Condescendência amorosa.

 

Vai lá saber por que desceu as escadas correndo. Olhou o mundo em volta. E deu inicio ao programado. Pratinhos. Talheres. Toalhas. Bandejas. Até incenso. Foi fazendo na sequencia. Para que escapasse o mínimo. E todos se sentissem privilegiados. Dentro do seu estilo. Dentro do seu festejo.

 

Tudo marcado para o final da tarde. Para uma múltipla celebração. Todos felizes.
Ele com o sucesso já invadindo as portas recém abertas. Uma consequência do trabalho ético e árduo.
Ele tinha sido promovido na semana. Uma consequência da dedicação e responsabilidade.
E ele estava com os limites orgânicos se restabelecendo. Uma consequência da persistência e confiança.

 

E todos com um fio condutor em comum. A vida. Quase como uma poesia.

 

Se sentiu como numa platéia. Participante entusiasmada deste mundo em organização. Até se viu aplaudindo e dando vivas.

 

Telefonou para ele. Houve um pequeno mal entendido. Acertou meio que às pressas.
Telefonou para o outro. Novo pequeno mal entendido. Emendou o mais rápido que pode.

 

Riu. Até riu mesmo. Já estava tomando proporções maiores. Melhor não falar com o terceiro. A esta altura já se sentia numa maratona de palavras. E erradas - lógico. Como se em saltos com vara. Fora do risco permitido. Desistiu.

 

Achou melhor cuidar das tarefas braçais. Com dedicação. Com parcimônia. Com sobriedade. E dentro do que elas representavam. Sem buscas pela intelectualidade. Sem esforços analíticos. Sem digressão filosófica. Assim ela me disse. Assim ele falou. Assim você se comportou. Nada disso. Não era o momento.

 

Encerradas as tarefas – sentou. Sob o sol. Não viu a própria sombra. Nem tampouco procurou. Recostou numa cadeira. Com total tranquilidade.

 

Achou dentro de si o que procurava fora. Concluiu. É algo sempre solicitado. Mas pouco disponibilizado. E vira um-sem-fim-de-queixumes. Afastou esta frase inteira. Apagou hífens. Retirou as ligações. Os plurais. Os infinitesimais.

 

Deixou – simplesmente - que o sol esquentasse a pele. Sorriu. E aguardou. Aguardou a chegada deles. Para a celebração.

 

Estava feliz. Muito feliz.

 

Com toda a condescendência amorosa o vento balançava - com suavidade - a toalhinha branca sobre a mesa posta.

 

 


Junho 15 2009

A mocinha do boletim meteorológico parecia feliz. Avisava que os dias seriam lindos-dias-de-sol-de-verão. Acabou de informar e confirmar. E se despediu. Feliz quatro dias de feriados a todos.

 

Ela já foi logo se incluindo.

 

Tanto tempo sem sentir o sol na pele. Ou chovia. Ou ela trabalhava. Não havia sincronicidade. Do querer com o ter. Até se sentiu poeta. Poeta do sol.

 

Riu.

 

Mas agora ali estava ela. Com o sol. Sob o sol. E o restinho de óleo protetor. Avisava no rótulo. Anti-envelhecimento. Provavelmente para ambos. Para ela – para o óleo. Confiou nisso naquele momento. Aliás – naquele momento – ela era a imagem caricaturada da confiança.

 

Ele permitira. Poderia, sim, ficar lá embaixo. Tinha um espaço disponível. Não tinha cobertura – mas a mocinha do boletim meteorológico informou que não choveria. Combinado. Ele ficaria lá então.

 

E o terraço se transformou. Só dela. Viva o doce sabor do egoísmo. E ainda tem gente que discursa contra. Nem pensar. Achou que até escapou um obá.

 

Quatro dias de folga. Plenos. De sol. De céu. De dolce far niente.

 

Esparramada. Pensou esta palavra letra por letra. Assim ficou na espreguiçadeira. Palavras perfeitas. Ambas.

 

Levantava. Caminhava. Sentava. Deitava. De vez em quando recordava a adolescência. E conferia as diferenças de marcas entre o exposto e o oculto.

 

Na água estava a cadeira. Inflável. Quase uma chaise longue. Já estava até sofisticando os pensamentos. Riu de novo. Mas lá estava. Balançando com absoluta serenidade sobre a água. Quem inventou o inflável entendia de prazer. Seja qual for o viés. Cada um com seu pedido. Ou com sua idealização. Mas quem inventou sabia. Inflável. E ela inflada. De pueril alegria.

 

E nem precisava dizer aquelas três palavras. Saia – Fora - Não. Pensou até que elas tinham saído do dicionário. Riu de novo. Estava mais que poeta. Já estava também filósofa. Viva o ócio. Sempre dizia e repetia. Só falta agora o ócio aceitar o convite. E ir morar para sempre a lado dela. Como feliz e inspiradora companhia.

 

Abriu as portas. Todas. Do quarto via o mundo. Os prédios. O céu. A luz entrava sem formalidade. Já com a intimidade de quem sabe. O tamanho da permissão. E ainda sem as três palavras. Aquelas que nem vale repetir.

 

Não é porque não as pronuncia que vai ficar lembrando. Não teria sentido. Sentido. Outra palavra perfeita. Falta em sentido tudo o que sobra em sentido. E por ai vai.

 

Um chá. Já estava na jarra. Em cima da mesinha. Geladinho. Por sobre uma toalha branquinha. Feita de uma fibra especial - a toalha. Presente que recebera de lá. Onde tudo é aproveitado, apreciado e vendido. Naquele mercado. Um modelo.

 

Com a porta aberta do quarto o som se fez intenso. Colocou as músicas preferidas. Alternando. Entre ritmos e tons. Entre líricos e populares. Os ouvidos também merecem uma festa. Não é festa só de olhos. Ou só de pele. Ou só de economia de palavras. Se não se toma um certo cuidado - a imaginação pode acabar ficando deficiente.

 

Há algum tempo começou a entender as mil artimanhas do prazer. Tudo que tem que ser igualmente satisfeito. Vai ver por isso prazer é sempre da ordem do difícil. Ou do impossível. Nisso as queixas sempre vencem. Qualquer queixa, por mais tola que seja – convence. Queixa já é da ordem do perfeito. Do completo. Nem bem formulada – já incorporada. Tão diferente do prazer. Este nem bem formulado – já inacabado.

 

De repente o vento mudou. A cor do céu também. Viu um traço luminoso ao longe. Um risco. Seguido de outro. E mais outro. O que poderia – talvez - ser chamado de uma nuvem se aproximava. Era uma formação escura. Densa. Decidida. Pareceu estacionar. No exato espaço sobre a espreguiçadeira. Sobre a cadeira inflável. As toalhas, subitamente desarvoradas, dançavam sem rumo e sem ritmo. Assim. De repente.

 

Queria saber como encontrar aquela mocinha. A do boletim meteorológico. A que descreveu os dias de feriado. Como uma tela. De impressionista.

 

Mudou rápido o pensamento. Onde ele estava não tinha cobertura.

 

Correu. Fechou a espreguiçadeira. Esvaziou a cadeira inflável. Recolheu as mesinhas. Cobriu as marcas da diferença. Deu adeus à recriada adolescência - tão rápido quanto à verdadeira.

 

Ele subiu. Olhou para o terraço. Marcou imediatamente o espaço. Deitou no meio dele. Desconsiderou a chuva. A cobertura.

 

Lembrou de um desenho animado. Havia um deles. Sorria por entre os dentes a cada batalha travada e vencida com algum humano. Teve a impressão que ele fizera o mesmo. Tinha certeza de que escutara um riso fino. Seguido daquelas três palavras. E dirigidas a ela. A ela.

 

Fechou as portas. A chuva continuava. Os tracinhos luminosos ainda riscavam o céu acinzentado. Ele ainda deitado no terraço. As cadeiras amontoadas na salinha. O chá descuidado sobre a escrivaninha. Num cantinho, murcha, se acomodava a ex-sofisticada chaise longue.

 

Relembrou. As “erínicas” três palavras. Mas não as verbalizou. Em nenhuma direção.

 

Silenciosa, ligou a televisão. Alguém oferecia um novo tipo de desodorante. A uma mocinha que precisava não suar no calor.

 

 

Riu. De impressionista a realista foi um pulo quase tão rápido quanto aquela demonstração de verão.

 

Perdoou - a mocinha relatora do boletim meteorológico.   

 

 


Maio 09 2009

O calor estava terrível. Foi assim que entrei em casa. Resmungando. Alucinando. Água gelada. Piscina com gelo. Roupa com flocos de neve embutidos. E lá no fundo da visão - uma cachoeira gelada. Água despencando de uma pedra congelada. Alucinei até nevasca. Borrasca. Avalanche.

 

Não faltou criatividade no processo alucinatório. Mas enfim. Voltei. Com calor. Sem nevasca. Sem borrasca e sem avalanche. E com um nada diplomático humor.

 

Nem bem entrei em casa e o interfone foi demonstrando o poder da sua existência.

 

Não acreditei. Ela precisava falar. Relatar. Discorrer. Pensei todas estas palavras diante de um único golinho de água. Porque já fui ficar a postos. Para o tal relato. Me senti diante de uma novela. E nem novela eu assisto.

Agora ia assistir a novela delivery.

 

Bom. Melhor parar com o mau humor e acatar. Ceder.

 

Como de hábito ela já foi entrando e falando. Desta vez faltou o choro. Se é que se pode falar assim de um choro. Choro não falta. Talvez lágrimas faltem. Mas foi logo contando. Aquele almoço tinha sido curioso.

Gesticulava com cautela. Como uma mulher esclarecida.

 

O lugar que ela sempre gostava de ir. Ele estava gentil. Comentava a mudança. As dificuldades. As alterações na rotina. Mas já estava tudo acertado. Inclusive já tinha onde morar. Que rápido. Surpreendente. E num bairro que sempre quis. Que maravilha. Estava eufórico. Muito já estava embalado. Que rapidez. E muito ainda restava embalar. Isso sempre se resolve fácil. Fez piadinhas. Nada como um plástico-bolha. Riu. Sozinho.

 

Em meio a uma mastigada e outra, ele falou. Pronta para a travessia. Assim. Esta fora a palavra. Travessia. Ela pensou mil loucuras com esta palavra. Mil sugestões. Inclusive anatômicas. Mas só pensou. Como assim travessia. Já está tudo feito. Tudo decidido. Nem sabia onde se encaixava. Ele fez nova piadinha. Encaixada. Encaixotada. Mas uma vez riu. Sozinho. Mas não pareceu notar. Em nenhuma das duas vezes.

 

Nada mais disse a ele. Silenciou. Como uma mulher desiludida.

 

Voltou para casa. Não se viram por dois dias. Hoje viera novo convite. Mais um almoço. Quase riu. Comentou algo sobre peso. Achei que poderia ser uma metáfora. Mas permiti apenas a literalidade. Pareceu mais adequado.

 

Desta vez ele repetiu os planos e acrescentou mais novidades. Ele fez alguma observação rindo. Sobre a viagem e os amigos. Ela não entendeu muito bem. Ele riu. Enfim. Riso é da ordem do pessoal. Riso compartilhado já é outro setor. E ela estava já em outro setor.

 

Melhor dizendo. Nem tinha trocado de setor. Avisara já no trabalho. Cancelara a possibilidade da transferência. Desde o primeiro almoço.

Desejou que ele fizesse uma excelente travessia. O que mais pensou não falou. Sobre a tal travessia. Deu um beijo na saída. Ele correspondeu. Avisou que ligava assim que chegasse lá.

 

Comentou rapidamente. Onde tudo tinha mudado. E onde ela perdera. Talvez uma fala. Um corte. Vai ver errara. Como continuista. Algo por aí. Mas não lembrava. Melhor fechar as cortinas.

 

Desta vez entendi que água não seria necessário. Lógico que pensei numa bacia com gelo. Mas ofereci um café. Aceitou.

 

Segurou com a mão discretamente trêmula. Mas nada derramou. Como uma mulher, talvez, amadurecida.

 

Quando se despediu - combinou um chá. Um cinema. Mas alertou. Nada de almoço.

 

Desta vez riu. Como uma mulher, quem sabe, renascida.

 

Lembrei do meu amigo indiano. O som sempre persiste, independente da veracidade do silêncio.

 

 


Maio 01 2009

Minha avó avisava sempre. As cores da Vida estão na rotina, menina, estão na rotina. Esta frase veio de repente. Na minha lembrança. É verdade.  Acho que a rotina começa quando se abre a porta da própria casa. Num retorno. Numa volta. Sente-se o que foi construído para ser rotineiro. Neste instante. Sente-se na pele. Nas vísceras. Nas batidas do coração. Até na pouca voz. Ou nos excessos dela. Da voz. Pode parecer que significa nada. Mas significa o rumo. O norte. O posicionamento. Diante de tudo. Até da Vida. Mas bem que podia ser sem exagero.

 

Chave na porta. Antes de entrar - todos morenos. O sol fizera sua marca. E algumas até já estavam se desmanchando. Mas denunciavam. O clima. As roupas usadas. A frequência. Tudo isso marcado pelo sol. Como tatuagem.

 

Pode-se fazer toda uma leitura a partir daí.  Efêmera, talvez. Pois nunca se sabe que marcas o sol faz.  Mas uma coisa é certa. Ele nunca deixa de fazer. Não dever ser à toa que o chamam com nome e título de nobreza.  

 

Foi mais ou menos assim. Teve um pré-porta. Suave. Tranqüilo. Como se até nas férias coubessem um missão cumprida.  Há todo um ritual. Na volta. O principal é procurar a chave. A chave da tal porta. Que dá acesso à rotina. Sempre um olha para o outro. E pergunta com quem está. E cada um aponta para o outro. Incrível como esse diálogo se repete. Sempre. Por toda a vida. Com quem está a chave. E ela sempre circula. Agora até ri. Mas não dá para filosofar. Ele foi logo avisando. Sábio. Ou mais que isso.

 

Vidente. Enfim. O portador da chave a encontrou. Abriu a porta. E teve o acesso permitido. À rotina.

 

Nunca vi rapidez igual. Os antes morenos bronzeados se transformaram. Ficaram cinza esverdeados. A visão foi mais forte que a força do tal portador do nome e sobrenome. Brancos. Como se dos picos das montanhas nevadas tivessem vindo. Uma nova leitura poderia ser feita. Até as marcas fugiram.

 

Havia escutado durante a ausência que lá só chovia. Escutara assim. Sem nenhuma atenção. Ou com total desatenção. O que ainda é pior. Como se nada tivesse com isso. Com a notícia. Com a informação.  Muito menos com a chuva. Estava sentindo o sol na pele. Chuva passou a ser ficção. Não uma questão. Desdenhou. Estavam longe. Passeando. Com pouca roupa e muita imaginação. Olhos atentos ao novo. Possibilitando uma nova impregnação na retina. De cores. De luzes. De morros. De montanhas. De ondas. Ouvidos capturando sotaques. Noticias locais. Locais. Separando sugestões. Às vezes cada um meio que cantarolava aquela canção antiga. Continua lindo. Em todos os meses. E riam. Se o sol nasceu para todos eles disputavam. A sua parte na herança. Com afinco. Com avidez. Assim se conduziam. Perfeito.

 

Perfeito não foi bem a primeira palavra pronunciada. No pós-porta. A chave parecia até queimar. Nas mãos. Um já querendo doar ao outro. Ou a qualquer outro. A tal chave. Os olhos paralisaram. Fez até barulhinho movê-los.

 

Era verdade. Chovera. Muito.

 

Transbordara. Repetiu esta palavra sem parar. Transbordara. Quando mudou foi o tempo do verbo. Transbordou. Ele fazia coro. Ela dizia e ele repetia. O inverso também se fez. A água afoita descera as escadas. E se instalara na sala. Nos tapetes. Atrás da porta. Quase riu porque lembrou a outra música. Bem diferente da anterior. Do continua lindo. Porém mais forte. Emocional. Coisa para tenor. E soprano. Dos pés aos pés da cama.

Dava para cantar a música toda. Cabia em tudo. Em especial no desespero.

 

Permitia até a parte do sem carinho.

 

Nem entraram. Ou melhor. Teve um mínimo lapso. De tempo. Como dizem os mais exatos. Mas entraram. Firmes. Ele fez uma piadinha. Nada como por os pés no chão. Ele referia-se ao ar. Ela entendeu como à água.

 

Conseguiram rir. Mas não de imediato. Teve um outro lapso. De tempo. Mas enfim. O momento estava mais carente de atitude do que de dialética. Malas em cima dos sofás. Sapatos fora da anatomia adequada. E vivas aos paninhos. Era já a segunda vez que celebravam. Os paninhos. Quis até descobrir quem foi o inventor deles. Dos paninhos. Repetiu com voz agora de contralto. E uma sobrancelha mais levantada. Vai ver algum adorador do sol. O mesmo, quem sabe, que lhe dera nome e título de nobreza.

Tira daqui. Põe ali. Ali não. Mais pra lá. Não, lá em cima. Agora sim. Cuidado com a escada. Nossa. Que queda. Depois se examina. Tem mesmo nada. Que não esteja molhado.  Mas já está acabando. Esta parte se vê depois. Não. Ela só virá dentro de quinze dias. Não é verdade. Comentou com voz de barítono. E as duas sobrancelhas mais levantadas. Sim. Melhor ver logo então. Já. Tão tarde. O tempo voa. Água também. Acho que somente nós não sabíamos. Agora já sabemos.

 

Viva as cores da rotina. Não fala assim dela. Certo. Está perdoado.

 

Missão cumprida. Missão. Cumprida. Sentados por cima das malas. No sofá. Agora rindo.


Com voz rouca. E sobrancelhas despencadas.



Abril 09 2009

Nunca mais brinco. Prometo. Vou até emitir um documento. Nunca mais brinco com a palavra Susto. Vou até mandar para um reconhecimento de assinatura. Em duas vias. E emoldurar.

 

Feriado. E na segunda-feira. Presente divino. Certo. Do prefeito. Para mim agora um semi-deus. De repente eis um feriado prolongado. E saber que na segunda ainda é domingo. Que maravilha. Tanto tempo que não folgo na segunda.  

 

Sol durante o final de semana. Piscina. Estilo férias no terraço. Sim. Vamos fazer então o churrasco. No sábado. No final do dia. Nós seis. Ainda bem que somos. Nada de título de livro. Vamos aproveitar. E nada de preocupação. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Que delícia. Sim. Só ele sabe fazer um churrasco assim. Só ele. Sim. Todos concordamos. Que churrasco maravilhoso.

 

Cuidado. Não se preocupe. Copos quebram mesmo. Sim. Caiu escada abaixo e espatifou bem embaixo da escada. Vou só pegar os pedaços maiores. Não tem importância alguma. Fica tranqüila. Hoje é só festa. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Sensacional a idéia dele. Mas trouxe inteira. E nunca sei o que fazer com ela inteira. Em geral só compro a cauda. Mas não tem problema. Sim. É só colocar para ferver. Aferventar como se diz lá de onde vim. Duas panelas grandes. Temperos picados. Que cheiro maravilhoso. Cuidado para não se queimar. Deixa aí mesmo. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Não acredito. Outro copo. Mas tudo bem. Certo. Empurra então para debaixo da cama. Sim. Melhor mesmo tirar o tapete. Vamos colocar na varanda. Assim não tem risco de alguém se cortar.  Sim. Fica tranquilo. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Tão bom dormir na hora que se quer. Especialmente no domingo. E sem preocupações com o dia seguinte. Tomei até uma taça de vinho. E domingo à noite. Coisa raríssima. Viva meu feriadão. Se eu não gostasse desse prefeito agora mudaria de idéia. Meu prefeito preferido. Ainda bem. Vivas para o prefeito.

 

Mas não coloquei o despertador. Que será que houve. Esta hora. Não é o despertador. É o celular. Encontrei. Sim. Eu mesma. O que aconteceu.

 

Certo. Está doente e vai para o hospital. Agora. Hoje. Desejo melhoras.

 

Obrigada. Não se preocupe. Saúde e doença não dão aviso prévio. Certo.

 

Certo. Repeti isso para mim. Trinta vezes. No mínimo. Certo. Certo. Olhei em volta. Olhei até para o calendário. Era realmente segunda-feira. Do feriado. Feriadão. Que maravilha. Sai do quarto. E já continuei de pé. Nada de cair de costas. Com Sustos. Este Susto foi mega campeão. Mas o amor pela vida falou mais alto. Gritou, melhor dizendo. Tinha muito vidrinho pelo chão. Podia me cortar. E de acordo com a queda cortar até a língua. O que poderia parecer merecido.

 

Tomei uma decisão. Filosófica. Começar de cima para baixo. De baixo para cima seria uma espécie de contramão. Consegui rir. Sozinha. Contramão era a palavra exata. Lembrei do prefeito. Que dera o feriado. Feriadão. Ele que cruzasse meu caminho agora. Ia ver a mão e a contra mão. Ia ver bem de perto.

 

Muito bem. Deixa conferir. Vassouras. Apanhador. Baldinho. Paninhos. Saquinhos de lixinho. Acho melhor assim. Falar no diminutivo. Para que fique mais suave. Leve. Afinal são pequenas tarefas.  Pequenas. Novamente repeti para mim. Trinta vezes. No meu feriado. Feriadão. Este não consigo - falar no diminutivo.

 

Melhor guardar o biquíni. Não vai dar tempo mesmo. Mas tudo bem. Sol envelhece. Quem sabe é uma ajudinha divina. Melhor deletar este segundo pensamento. Sobre a ajudinha divina. Ele às vezes se Aborrece. E fica Vingativo. Chega já de problemas. Por hoje.

 

Mesmo querida. É o que você sugere. Que faça uma massagem. Logo depois que colocar tudo no Lugar. Tão delicadinha. Agora me exigi um diminutivo. Poderia ser perigoso. Às vezes uma palavrinha se modifica. Assim. À toa. E vira uma palavra maior. Obrigada pela idéia. Uma massagenzinha.

 

Sim. Estou quase acabando. Me chamou de exagerada. Achou que exagerei. Não fazia mal do jeito que estava. Que simpático. Poderia ficar assim a semana toda. Que solidário. Sim. Vou desligar. Posso não conseguir um diminutivo adequado agora. Deixa pra lá.

 

Então você acha que foi isso. Ela colocou uma câmera escondida. E viu da casa dela. Daí faltou hoje. Hilário. Não fosse a minha pressa e ficaria aqui. Rindo ao telefone. Por horas. Com você. Muito criativo. Depois a gente organiza a criatividade.

 

Já é tão tarde. Mas não faz mal. Acabou. Acabei. Acabamos. Acabaram. Comigo. Acho que caiu meu oxigênio cerebral. Tirando aquela escorregadinha que dei com o paninho. E uma leve torcidinha no pé. Tudo ficou prontinho como num passe de mágica.

 

Viva o diminutivo.  Apaga o feriadão. Palmas para os caquinhos de vidro. Saudações para a massagista. Acenos para a câmera oculta. Quanto ao prefeito – melhor esquecer.  Nada de qualificar o prefeito.

 

Amanhã – felizmente – já é dia de Trabalho. Repeti isso trinta vezes. No mínimo.

 

 


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