Blog de Lêda Rezende

Janeiro 31 2010

 

Melhor fingir que não estou vendo.

 

Quem sabe - não está mesmo acontecendo. Eu que ando insegura. Não desta vez. Não. Ele está olhando mesmo. Só me faltava essa agora. A esta altura da vida. Ser vigia do olhar dele.

 

Coisa mais ridícula.


Vou me recompor. Manter a classe. Por que eu iria me incomodar. Por ele olhar para uma loura. Uma. Não. Duas. São duas louras. Ele está olhando para as duas. Isso é que é olhar bem dividido. E eu nem queria notar. Nem ligo para essas coisas. Vivo dizendo que cada um sabe o que faz. Ou o que olha.


Vou cuidar de comer meu frango frito. Foi para isso que viemos. Melhor mudar de pensamento. E de observação.


Acabo de lembrar. De vez em quando tenho que dar atenção a um frango.
Uma vez era um frango cru que precisava ser cozido.
Agora é a um frango frito que está pronto para ser comido.


Vou é comer com as unhas. O frango? Não. Ele.


Ele que continua passando olhares furtivos. Para as louras.
Pensa que não estou vendo.
Vou continuar falando sobre o assunto mais que interessante que surgiu agora: por que salvar as tartarugas.


Queria mesmo era uma tartaruga marinha. Das gigantes do tempo de Darwin. Para tacar na cabeça dele. Agora.


Não vou mais detestar tartarugas.
Surgiu uma finalidade para elas sobreviverem. Vou me associar àquele tal projeto. De adotar uma tartaruga. Vou adotar muitas.


Ele está tão bonito. O cabelo com os fios brancos. Contrastando com a camisa azul-escuro. Há um colorido tão iluminado no rosto dele. E ainda tem o olhar verde. Ele não tem olhos verdes. Tem o olhar verde. Tão bonito. Os gestos fortes.


Veio porque me achou triste. Ele é tão atuante. Fala pouco sobre o que faz. Age. Ele sabe como associar delicadeza à parceria. Se preocupa e age. Ele é modesto para auto-nomear os gestos de atenção. Não cobra nem aponta. Na forma carinhosa de lidar com quem gosta ele é esbanjador. Porém discreto.


Mas não se pode mesmo ter um pensamento afetuoso. Nem uma ponta de lucidez em meio à paranóia. Olha só o que ele fez. Olhou de novo para as tais louras.


Agora ele viu que eu estava percebendo. Sorriu. Sorriu para mim. Sabe bem o que eu estou pensando. E sorriu solto. Vivo repetindo que ele nunca me erra. E eu vivia dizendo que eu era invisível. Ele me vê mais que eu mesma. Como ele me disse dia desses. Com uma pontinha de aborrecimento. Ofendido. Como assim, não me via? Respondeu sério. Não me via e me sabia de cor. Que delícia de escuta.


Pronto. Agora resolveu brincar em cima do ocorrido.


Mas eu não lhe disse uma só palavra. Você que está falando de louras. Como assim me conhece. Eu estou calada. Imagino.


Eu ciumenta?


Nunca.


Estou mesmo. Encontrei quem tanto quis. Ando até escutando sininhos. Como nos filmes de Hollywood. Não abro mão dele fácil.
Posso abrir a mão é em cima dele. Isso sim. Se ele continuar olhando para as louras.


Ele sabe me ganhar. E ele sorri das minhas pequenas histerias. E olha que hoje quase vira uma grande histeria.


Vai que eu resolvo chutar o frango. E correr para o carro.
Ri.
Que pensamento mais pesado. Agressivo.
Não faria isso. Com o frango, claro.


Ri de novo.


Às vezes penso que estou sob teste. Ele estica o limite. Estica e eu ali. Ele me faz sentir que sou.
Poderia até alterar o que o filosofo disse. Nada de penso, logo existo.
Sou vista, logo – existo.
Lembrei de uma foto.


Eu não apareço no retrato. Na literalidade. Estou ao lado dele. Atrás de alguém. Mas sei que estou ali. Apareço porque o olhar dele está em minha direção. São muitos na foto. Todos olham para o fotógrafo. Só ele olha para mim. E a minha imagem não está no quadradinho. Fantástico. Me faço presente pelo olhar dele. Prescindindo do olhar voyeurista do fotógrafo para me saber fazendo parte.


Não vou dizer isso a ele. Quando ele ri porque está fazendo pirracinhas fica mais bonito ainda. Agora mesmo está tão bonito. Um riso tão aberto e enviesado. Riso enviesado é a definição certa. Exata. Do modo que ele está rindo para mim. E ainda tem aquelas ruguinhas em volta dos olhos.
E tem o olhar verde.


Verde quem está ficando sou eu. Inteira verde. Ódio verde.


Ele agora está se divertindo às minhas custas. E não consigo fingir.
Preciso reler o texto do austríaco. Sobre o ciúme. Não. Melhor deixar o austríaco fora disso. Acho mais conveniente ler sobre frango.


Ou escrever sobre como fazer um frango frito pegar fogo na mesa.
Piromagia. Essa deve ser uma terminologia bem nova.
Tão nova quanto esta minha fase.
Não tenho mesmo poderes mágicos. Senão muito mais estaria frito aqui alem do frango.


Pior mesmo sou eu estar rindo de mim mesma. Rindo para ele que ri de mim. Nós dois rindo de mim. Inacreditável.


Até o frango parece estar também rindo de mim.


Lógico. A única frita aqui sou eu.


Mania que tenho de noticia de Jornal. Ele sempre se divertiu com estas minhas matérias ocultas. Mas daria uma boa notícia: mulher acompanhada por um homem sorridente frita na mesa. E diante de um frango e de duas louras. Motivo aparente: ciúme vulgar.


Não. Teria que mudar o adjetivo. Ele disse que nada em mim é vulgar.
Adoro quando ele me diz isso.
Mas que dá vontade de fritar o restaurante todo, lá isso dá.


Sim, meu amor, vamos. Você dirige. Claro. Eu não sei o caminho. O frango frito. Sim. Estava uma delicia. Não. Louras? Tinha alguma loura lá? Não percebi.


Falei nada. Só você que falou. Você quem disse. Que elas eram louras. Meu olhar? Que tem meu olhar? Do que você está rindo?


Acho melhor mudarmos nosso cardápio para – peixe.

 

 


Dezembro 25 2009

 

Não há um só dia que não nos encontremos.

 

Os cumprimentos são rápidos e risonhos. Assim. De forma despretensiosa. E superficial. Ele sempre apressado. Eu sempre apressada. São muitos os horários a serem cumpridos. E muito mais agendas a serem atendidas.

 

Ele com um caminhar mais pesado. Mas sempre uma expressão alegre. O riso fácil emoldura os fortes traços orientais. Um sotaque marcado ainda denuncia a imigração não muito longínqua. 

 

Assim nos falávamos. Entre uma subida ou descida de escada. Os elevadores demoram muito. O jeito é caminhar. Ele sempre acrescentava. Faz bem à saúde. Este o máximo de diálogo.

 

Mas nesse dia falamos mais um pouco. Além das escadas. E dos cumprimentos superficiais.

 

Surgiu uma oportunidade. Um mesmo percurso. E lá fomos contando um pouco dos pontos biográficos. Ao menos os que pareciam mais destacados.  

 

Viera de muito longe. De uma travessia quase igual ao sol.

 

Começou pelo avô. O avô era como um personagem de um livro. Era o sábio da aldeia. Respeitado e reverenciado. Jovens e idosos de todas as idades o consultavam. Indicava poções ou dava conselhos.

 

Era um velhinho calmo. De olhar tranquilo. Mas de profundo conhecimento dos riscos do corpo mal compreendido – sob o peso da alma mal entendida. Enxergava a possibilidade da cura como uma exclusiva ação de equilíbrio entre os dois.   

 

Observara o avô - por toda a infância. Morara lá até os doze anos de idade.

 

Um dia o pai o avisara. Vamos nos mudar. Para lá. Será melhor para todos nós. Vou primeiro. Depois mando buscá-los.

 

Um ano depois estava se despedindo. Do avô. Deu-lhe - triste - o que seria de fato o último abraço. Dos amigos. Dos hábitos. Dos cheiros. Da terra. Até dos risos.

 

A mãe embalara o que tinha de importante. Privilegiou fotos e quadrinhos da casa. Entre roupas e sapatos abrigou o mais que pode da própria história.

 

Lembra dela entregando a chave da casa a um novo proprietário. Mas trancando ela mesma a porta – antes de entregar. Notou um tremor discreto das mãos dela.

 

Ele veio tão assustado que lembra a dor que sentia ao respirar. Nunca escutara falar deste país. Nem sabia em que lado da Geografia deveria olhar.

 

E nem olhou.

 

Aprendeu logo depois que as distâncias não são bem explicadas nos mapas.   

 

Nesta parte do relato riu. Um riso triste. No terceiro dia que aqui chegou – estava matriculado e frequentando uma escola pública.

 

Não sabia o idioma. Não entendia as brincadeiras dos colegas. Não compreendia as ordens dadas. Entrou em uma fase de silêncio profundo.

 

Talvez gestante de si mesmo. Nem em casa falava. E durante esse período teve um aprendizado especial.  Aprendeu a ler as expressões. Podia não entender o que falavam. Ou os chistes em volta dele. Mas já sabia ler muito bem as pequenas maldades e criticas negativas. Pela forma do olhar – sabia o pensamento de cada um.

 

Até hoje é grato a ela - uma professora. Talvez o tenha ajudado a nascer de si mesmo. Ficava com ele após as aulas. Todos os dias. Tentava ensinar um pouco mais. Os sons das letras. A forma de melhorar o sotaque. As rotinas da cidade. A compreensão de fusos e latitudes.

 

Não tinha o avô sábio por perto. Mas tinha uma sábia professora ao lado. Se sentiu mais tranqüilo.

 

Trinta e cinco anos se passaram. Desde aquele terceiro dia de imigrante. E primeiro dia de aula.

 

Em meio a esse tempo um diploma lhe foi entregue. Contou-me que escolheu esta especialidade por um motivo simples. A forma de se referir por si só já é bela. Dar a luz. A maioria vai até lá feliz. E de lá sai mais feliz ainda.

 

Até hoje se emociona com os nascimentos. E se encanta diante do tal milagre da vida. Quando dá algum conselho – lembra do avô. E se esforça para ensinar o equilíbrio.

 

Mas fez uma espécie de aspas na conversa.

 

Contou. Logo que se graduou – fez questão de retornar. Passaria lá um mês. Entre os seus de origem. Reconheceria o que deixara para trás. Apertaria as mãos dos amigos. Resgataria os hábitos. Sentiria os cheiros. Tocaria na terra. Esbanjaria os risos. Reveria os códigos.

 

Foi assim que aprendeu que as distâncias não são bem explicadas - nos mapas.

 

Viu-se estrangeiro. De lá. Concluiu com certa nostalgia. Ali não mais pertencia. Era um visitante – em desacordo. Voltou - sete quilos mais magro. Doente e em desequilíbrio - a alma e o corpo.

 

Entrou em sua casa do lado de cá. Sentou-se na primeira cadeira que encontrou. Deitou as malas no chão. Olhou em volta. Mais do que a captura de si mesmo - estava feito a sua re-integração. Talvez pela primeira vez na vida tenha compreendido as palavras do avô.

 

Recuperou rápido peso e saúde. E desta vez não esperou o terceiro dia. No dia seguinte já estava exercendo a sua função escolhida. Sorridente. Adequado. Com sotaque ainda marcado - mas com chistes compartilhados.

 

Nos despedimos com um até breve.

 

Entendi um pouco mais - o amplo milagre da Vida. Desde um avô que nunca conheci aos riscos no mapa - aprendi que uma história se compõe sempre além de si mesma.

 

Lembrei da frase. E a palavra uma vez lançada voa irrevogável.         

 

Procede.

 


publicado por Lêda Rezende às 20:21

Setembro 26 2009

 

Fiquei pensando de que ângulo se vê melhor.

 

Ângulo é sempre da ordem da intenção. Muito mais que da extensão.

O dia tinha sido especial desde o começo.

 

Começou com um susto. Vi a luz do dia clara. Invasiva. Definindo o espaço. Sem constrangimentos. Ou meias sombras. Assim. Explicita. E eu com os olhos esbugalhados. Boca aberta. Raciocínio arrancado às pressas. Do onírico ao real em tempo recorde.

 

Esqueci de ligar o despertador.

 

Como farei agora. Assim. Perguntava a mim mesma. Aflita. E não conseguia me responder. Só fiquei ali. Apavorada – diria. Agenda lotada. E essa agora. Perdi a hora.

 

Quase perdi mesmo foi o equilíbrio. Mental. Mas tão rápido quanto - quase – perdi, recuperei.

 

Era um sábado. Um sábado. O tal sonhado sábado chegara – e eu duvidava.

 

Vai lá saber por que. Confundi os dias. Ou fiquei presa na véspera. Prisioneira do despertar anterior. Nem conseguia festejá-lo. Fiquei ali catatônica. Assustada. Querendo descer escada abaixo. E diante de um dia de folga. Da tão sonhada folga. Cinco dias a esperar este dia chegar. E este desatino. Incrível.

 

Ainda bem que as pernas foram mais sábias. Vai ver entendem melhor de calendário do que se imagina. Ou não se aceitam submissas com facilidade. Ou – melhor ainda - não saem por ai a correr desatinadas. Aceitando qualquer ordem. Primeiro aguardam. Para depois agir.

 

Algum dia - escreverei sobre isso. A apologia das pernas decididas. Mas enfim. De onde estavam – não saíram. Não se moveram. Continuaram na cama. Bem esticadinhas. Aguardando a consciência tomar um rumo adequado.

 

Deixei passar o susto. E iniciei a rotina da folga.

 

Não sem uma decisão. Já que eu desautorizei o sábado – melhor deixar que ele me autorize. E deixei o dia se organizar. Por conta própria. Lembrei do poetinha. Ele sim. Entendia de sábado como ninguém. Saravá.

 

Foi uma surpresa atrás da outra.

 

Então é assim. Nem sempre sabemos. Ou impomos. As horas podem também fazer isso por nós. Este sim. Um susto agradável

 

O lugar ele escolheu. Uma surpresa. Desceu e avisou. Convidou. Vamos até lá. Um lugar ao ar livre. Um espaço aberto. Vamos sim.

 

Lindo. Nunca antes havia estado ali. A água doce e calma. A luz mais calma ainda - se espalhava pelo espelho d´água. Era um dia de delicado sol de inverno.  A mata em volta esbanjava contraste.  Garças brincavam nas bordas. Desimpedidas de compromissos. Ágeis em sua proposta.  Bicando felizes - o almoço interminável.  

 

As mesas ficavam dispostas próximas da borda.

 

Veleiros cruzavam solenes. Motores ocasionais passavam e cortavam a água. Com barulho. Placas convidavam a passeios. Uma revoada de pássaros proprietários expunha a autoridade. Uma pontezinha de madeira avançava água adentro. Oferecia e gemia a cada passada. Mas avançava com confiança.

 

Mais uma surpresa apontava saudades. A música. Falava da tarde naquela praia. Tão longe. Mas que- de repente - pareceu tão perto. Não resisti. Entrei no pequeno restaurante e aplaudi o cantor. Sorridente – agradeceu.

 

Ficamos horas caminhando diante da água doce. Impregnados do cheiro doce da água. Invadindo a pontezinha gemente. 

 

Sentamos. Observadores cuidadosos do tempo - a seguir seu ritmo.

 

Ali. Com nossas pernas – mais uma vez – esticadinhas. Só que desta vez – ao menos as minhas - confortáveis. Em acordo com o pensar.

 

A tarde foi caindo. As garças caminhando lentas para fora da água. As luzes se acendendo. Um ventinho mais frio marcava a estação. E avisava da hora.

 

Quando saímos – olhei para trás.

 

Foi aí que fiquei pensando no tal ângulo. Em todos os possíveis ângulos. Para se conviver com os dias. Com as noites. Com os erros. Com os acertos. Com os sustos. Como se fosse sempre assim. Donos disfarçados do próprio destino.

 

Comentei com ele. Adorei. Sequenciei - obrigada. Cada vez que me perguntar onde quero ir – direi aqui. Ele riu.

 

A urbanidade também tem seus misteriosos ângulos. E as suas – doces – surpresas.

 

Pensei. A Vida sabe privilegiar os dias. Sorri. Feliz.

 

 


Setembro 15 2009

 

Acordou atrasada. Não dava mais tempo para a maioria do planejado.

 

Nem entendeu o que tinha acontecido. Afinal, se tinha uma atitude que ficava sempre de fora era esta - atraso. Não faltava quem não fizesse gracinhas com sua questão de horário. Vivia adiantada.

 

Mas enfim. Se não dá – não dá mais. Concluiu e foi tratar de organizar as rotinas opcionais. Ainda deitada decidiu que iria pôr em ordem o que estava pendente. Certo. Ficava assim formalizado o dia. Com a nova agenda pronta na memória – levantou.

 

Abriu a porta do quarto. Que ficara fechada toda a noite. Quase riu. De susto. De surpresa.

 

De vez em quando assim reagia diante do inesperado. Ria. Mas desta vez riu só a metade. Um meio sorriso – digamos assim.

 

Dormira num país tropical. Acordara num dos Polos. Não importava qual. Mas num deles. Podia ser o do amigo dos presentes. Ou dos bichinhos a rigor. O frio deveria ser igual – ao que sentia naquele momento.

 

Até olhou para trás. Conferiu. Sim. Era o quarto dela. O apartamento dela.

 

Pelo vidro da porta do terraço teve mais uma certeza. Sim. Era a cidade dela. Evitou se beliscar para garantir estar acordada. Não era necessário. Tudo conferia. Só a temperatura estava discordante.

 

Agora entendera o motivo do atraso. O corpo se atrapalhou. Vai ver com o frio súbito entendeu como também uma mudança de fuso horário. Sempre achou o corpo meio que esquecido. Agora já estava achando o corpo intelectual demais. Ou voluntarioso. Estava a tomar decisões - sozinho.

 

Encerrada esta primeira etapa – prosseguiu com o que o atraso e o corpo decidiram por ela. Com algum descrédito – tentou não ser exagerada. Entre um tira-coloca-tira casacos - optou por um estilo meio-termo.

 

Esquecera que nesta vida isso é um erro grave. Ao menos ela assim registrava. Nunca o meio termo se adequa a seja lá o que for. Antes os extremos que os meios termos. E sempre pensara assim.

 

Criticava severamente quem fumasse cigarro light. Ou bebesse refrigerante diet. Ou ingerisse bebidas alcoólicas com excesso de gelo. Bege sempre fora a cor que lhe provocava dúvidas. Até do caráter do portador. Achava que ou era para ser só culpa - ou para ser só prazer. Ou só cor - ou só negro. Mais ou menos assim. Quem passasse a vida em tons pastéis não entendia de vida. Nem de razão de vida. Se estava certa ou errada não importava. Importava a apologia dos extremos.

 

E agora essa. Justo ela – num amanhecer como aquele - escolhera um meio termo. Enfim, tentou acreditar no acerto mais do que no erro. Nada de precipitações. Já estava até gostando de ter se atrasado. Persistiu no meio termo de roupa e de idéias.

 

Foi para o Banco. Fazia tempo que não a encontrava. A Gerente. Foram muito amigas numa época. Logo que veio morar na cidade. Depois com os horários da rotina cada vez mais estreitos – os encontros se fizeram cada vez menos frequentes. Falavam ocasionalmente pelo telefone. Foi um re-encontro agradável. Riram do passado. Dos comportamentos do passado.

 

E tudo ficou parecendo ainda mais passado. Até fez um gracejo. É sempre assim. Quando se fala muito do ontem – o ontem fica muito mais distante ainda. Riram. O que tinha que ser resolvido – foi resolvido.

 

Foi quando teve que descer na Avenida. Desceu tranqüila.

 

De repente olhou. Assim. Quase à toa. Para o termômetro do poste. Que fica no centro da Avenida. Nas chamadas ilhas. Olhou para a ilha. Leu o número registrado no termômetro. E quase deu um pulo. Só não deu porque as pernas estavam já congelando.

 

O termômetro sempre marcava a mais. Lógico. Com a quantidade de carros e ônibus passando – alterava a leitura sempre para mais. Para mais. Então ainda era menos do que o registro informava. Estava escrito. Em números claros. Assim. Branco no preto. Nada bege. Oito graus. Oito graus.

 

Podia-se até dizer que tudo estava sob controle até aquele momento. Oito graus. O corpo leu. Entendeu. E exagerou. Começou a tremer. Abraçou-se ao lencinho do pescoço e ao casaco como se os transformassem em irmãos. Xifópagos. Grudou-se neles.

 

Numa trêmula virada de cabeça – viu-se diante de uma lojinha. Vendiam cachecol de lã e luvas de lã. Não teve dúvida. Juntou o virar trêmulo da cabeça, os dedos trêmulos e apontou com a voz trêmula o que precisava. A mocinha trouxe os pedidos.

 

Agora sou uma prima dos agasalhos. Digamos assim. Não mais irmã xifópaga. Comentou isso.

 

A mocinha nada disse. Mas fez um olhar estranho para ela enquanto recebia o pagamento. Talvez até amedrontado.

 

Mas ela desconsiderou. Sentindo-se melhor - pensou. Que venha o frio. Em qualquer tom. Com ou sem exageros.  Agora estava mais adequada para prosseguir.

 

Com a tal agenda opcional do atraso. Sorriu feliz.

 

Estava calorosamente inaugurada a Temporada de Inverno.

 

 


Setembro 13 2009

 

A discussão parecia séria.

 

Elas falavam e falavam. Não conseguiam atingir um acordo. Porque nem bem uma se calava – a outra retomava. Parecia que já estavam assim há um longo tempo.

 

Poderia se supor até desde sempre. As questões eram as mesmas. Comuns. Antigas. Seculares. Milenares. Parecia cena de déjà-vu.

 

Deviam regular entre três a quatro décadas - no máximo. Faziam expressões de intensa maturidade. De extensa profundidade. Gesticulavam com as certezas nas pontas dos dedos.

 

Viravam-se uma para a outra com ar de inspeção pessoal. Como se circulasse uma pré censura. Que cada uma pesasse bem o que fosse falar. Coisa difícil. Mas nunca impossível. Isso dava para acreditar só de olhar para elas.

 

De repente vi a expressão de uma delas.

 

Triste. Até submissa. Mais escutava que falava. Parecia que solicitava um aparte. Ou tentava erguer a mão. A pedir permissão. Ou talvez socorro. Como uma náufraga. Tentando chamar a atenção do navio. Para se expor. Menos. Ou quem sabe se impor. Mais.

 

A mão denunciava o pedido. Demonstrava o corpo por trás dela. Da mão. E todo o temor por trás do corpo. E a sempre possível solidão lá – emoldurando o temor. Ou o contrário.

 

Mas ficou ali. Tentando a permissão. Dava até a impressão de estar entediada. Mas não era uma avaliação fácil.

 

Era ela - o objeto da discussão.

 

A vida dela estava em acareação. Basculava entre o certo e o errado. Entre a culpa e a desculpa. Entre o feito e o desfeito.

 

Parecia um tribunal. Como se houvessem aberto uma sessão. Todos seguiam uma ordem. E obedeciam a uma desordem. Pela expressão que fazia - teria que ser a jurada de si mesma. A cada fala das incorporadas promotoras e defensoras. Sim. Porque elas alternavam. Mas não perdoavam. Nem a defesa perdoava. Era a defesa contrária. Não tinha juiz. Ou talvez tivesse. Mas ainda não se manifestara.

 

Havia algo ainda mais interessante naquela confusão.

 

Não olhavam para ela. Falavam dela. Isso estava claro pela sinalização dos dedos. Apontavam. Até diziam a palavra - ela. Ou – dela. Mas não olhavam para ela. Discutiam sobre ela. Mas a tratavam como ausente. Falavam-se entre si. Poderosas.

 

Mas nem tudo neste mundo é exclusivamente o que parece.

 

Ela começou a rir. Rir mesmo. Abaixou a tal mão supostamente erguida e começou a rir.  Até amparou a bolsa para que não caísse do colo com o riso. Segurar a bolsa para rir foi perfeito. Não vi nada mais adequado até aquele momento.

 

As outras silenciaram por um segundo. Depois um minuto. Depois caladas – mesmo - olharam para ela. Pela primeira vez. Desde que ali chegaram e se acomodaram - cada uma em seu Lugar de escolha.

 

A situação parecia se inverter.

 

Já não dava mais para saber quem era navio. Quem era náufrago. Muito menos onde estava o mar. Um riso modificou toda a cena. O cenário. Jurados e advogados. Como se fosse cada uma para um lado. Assim. De repente.

 

O riso se fez juiz.

 

Entre condenados e absolvidos - o riso bateu o martelo. Os do navio pareciam se debruçar sobre a murada. O náufrago parecia pensar se estava melhor com sua tábua. Ou sua bolsa. Uma cena cômica.

 

Elas fizeram um ar de irritação. Afinal. Só queriam ajudar. E estavam realmente preocupadas. E ela ria assim. Em meio a uma conversa sobre ela. Uma conversa dela.

 

Não respondeu objetivamente. Levantou. De um salto só. E já com a chave do carro na mão. A tal mão da bolsa e que parecia antes erguida. 

 

E disse. Assim. Despretensiosamente. Desculpem. Obrigada. Licença.

 

Usou todo este vocabulário polido. E continuou. Comecei a ficar com uma dúvida. De quem teria mais dó. De vocês. De mim. De nós todas. Foi ai que - vai lá saber por que - me lembrei. 

 

Achei que iríamos almoçar em casa. Daí vocês telefonaram e me convidaram para almoçar neste restaurante.

 

Havia já colocado um peixe para assar.  Esqueci de desligar o forno. Está lá já há mais de quatro horas. Ainda rindo completou. Por isso dizem que o peixe morre pela boca. Sorrindo - saiu.

 

Lembrei de uma fala da minha avó. Muitas vezes o auxílio vem do esquecimento, menina, muitas vezes o auxílio vem do esquecimento.

 

Estava - assim - encerrada a sessão.

 


Setembro 11 2009

 

O cenário era o mais - .

 

Parou na palavra mais. Faltou palavra. Sobrou questão. Faltou frase. Sobrou pontuação.

 

Assim. Como uma poesia invertida. Lembrou até do dramaturgo Frances. Ele estava correto. E atual. Era verdadeiro o teatro do absurdo. 

 

A caminhada era em direção à música. A um concerto. Conhecia a orquestra. Conhecia o local. Garantia de prazer com certeza absoluta.

 

Lembrei dela. Íamos muito. A última vez foi com ela. Ainda não tinha optado pelo teatro do além mar. Já acordei enviando recadinhos. Malvada - escrevi rindo. Adivinha para onde vou hoje.

 

O dia estava frio. O céu de um belo azul turquesa. Um ventinho tranqüilo percorria as pessoas e as árvores. Em volta do Teatro - prédios antigos restaurados davam um quase sofisticado toque de elegância - ao antes envelhecido e descuidado. Poucas pessoas passavam caminhando. Só um ou outro que parara o carro mais distante do local do concerto.

 

Foi nesse percurso que surgiu uma esquina.

 

A caminho do concerto.  E foi na virada da esquina que pareceu virar o mundo. Ao avesso. Ou ao direito. Isso nunca se sabe mesmo. Mas parecia que tinha virado. Talvez até coubesse um túnel. O do tempo.  Tudo isso me veio à mente. Aos borbotões. Pode até ter faltado palavra ou frase. Para completar o mais. Porém não faltaram - mais.

 

Ali poderia caber tudo. O começo. O meio. Até o fim. Do mundo. Parecia que espaço e tempo tinham se desordenado de repente. Onde era para ser centro – se transformara no final. Onde era para ser contemporâneo - se transformara em medieval. Mais ou menos assim.

 

Passível de se dizer - assombroso. Ou pavoroso. Ou deprimente. Ou assustador. Ou melancólico. Tudo com um mais na frente de cada adjetivo.

 

Ela vinha. Caminhava seminua. Devagar. Parecia completamente à vontade. Aliás. Termo realmente adequado. Não ria alto. Não chorava.

 

Tinha o sorriso mais tranqüilo – outro mais – que se poderia supor. A roupa suja e rasgada cobria-lhe as partes escolhidas pelo tecido. Não por ela. O que expunha e o que ocultava era um mero detalhe aleatório. Onde não tivesse furos ou faltas – estava coberto o corpo.

 

Olhou para mim. Com aquele mesmo sorriso-tranquilo-social. Fez um aceno com a cabeça.

 

Lembrei do ar sofisticado dos prédios envelhecidos. Só que ao contrário deles - não fora restaurada. Muito menos acolhida. Morava onde deitasse. E sua casa era uma sacola que segurava com a mesma tranqüilidade que sorria.

 

Era jovem. Deveria nem ter chegado à terceira década.

 

Alguns ainda dormiam pelas calçadas. Outros comiam. Outros simplesmente restavam ali. Não olhavam nem para ela - nem entre si.

 

Estanques no particular de cada história. De cada destino.

 

Depois do aceno que me fez, virou-se para o céu. Olhou. Conferiu. Não sei bem o que. Mas pareceu encontrar o que buscava. Fez uma volta sobre si mesma – sentou num degrau da calçada. Displicente com as roupas e seus rasgados permissivos – abriu a sacola. E se concentrou.

 

Quem sabe - uma Pandora de si mesma. Moderna portadora das aflições antigas. Ou o contrário.

 

Mas esta não é uma avaliação fácil - nem confiável.

 

Na esquina seguinte - outro cenário. Surpreendente - não fosse a certeza do procurado.

 

Mudava tudo. Desde cores a cheiros. Desde passantes a ocupantes. Dava até para uma confusão mental. Como se os atores desta peça urbana e a construção apropriada para a encenação - estivessem em desencontro.

 

Lá estava o belo Teatro. Suntuoso. Imponente. E com a fachada em restauração.  Incrível.

 

Até olhei para trás. Ela não estava. Esta não era a esquina dela. Ou ela não era desta esquina.

 

Nas escadarias as pessoas aguardavam. Excessos de tecidos cobriam os corpos. Meias e botas. Sorridentes e falantes – muitos aguardavam a abertura.  O dia frio convidava a agasalhos coloridos. E era um –mais – de delicada sobriedade. Quase uma celebração.

 

Veio o primeiro aviso. O segundo. A orquestra começou.

 

O regente ergueu a batuta.  Excessos e faltas se igualaram e se diferenciaram.  A música preencheu espaços. Enfiou-se em cantinhos. Aguçou sentidos. Liberou emoções. Como se despisse a cada um por inteiro. E cobrisse a cada um por partes.  

 

Na saída voltei pelo mesmo caminho. A Pandora de si mesma e a sua caixa - dormiam aconchegadas.

 

Estava assim – mais - marcado o domingo.

 


Agosto 26 2009

 

A sala estava cheia. Cadeiras e poltronas ocupadas.

 

Não havia um só espaço para sentar. Ele chegou com ar tranquilo. Parecia sereno. Sabedor do que exatamente fazia ali. Olhou em volta. Confirmou.

 

Não tinha mesmo onde sentar – aceitou. Vestia-se elegante. Sóbrio. Os óculos de aro preto lhe davam mais idade que a pele e a postura. Rendia-se ao frio através de um cachecol. De pé encostou a um canto da parede. Abriu um livro.

 

Parecia que estava só. O seu mundo estava dentro do livro. Não fora dele. Como se estivesse em uma bolha. Uma redoma. Vai lá saber.

 

Nada o desconcentrava. Nem barulho. Nem o murmúrio das vozes de quem também esperava. Nem quando ela derrubou o envelope que segurava. Nada o desconcentrava. 

 

A expressão acompanhava o que lia. Parecia uma exposição de mímica facial. O corpo – imóvel. Os ombros encostados na parede. As mãos virando as páginas. E no rosto o reflexo do texto. Às vezes sério. Outras com cenho franzido. Outras vezes parecia que lera algo engraçado. Surgia uma meia covinha na face. Passava as páginas com suavidade. Devia ser alguém que realmente gostava de livros. Com muito cuidado o manuseava. Uma delicadeza de quem sabe como é sutil o lidar com as palavras.

 

O atendimento estava atrasado – ali ficou por muito tempo. Até me pareceu que chegara adiantado. Devia ser cuidadoso com o tempo. Como demonstrava ser com o livro.

 

Aliás - devia ser cuidadoso com tudo. Com os livros. Com a própria imagem.

 

Os cabelos um pouco grisalhos tinham um corte adequado ao rosto. Uma daquelas pessoas que, por ser discreto – acaba por chamar a atenção.

 

Conclui isso quando olhei em volta. Muitos olhavam para ele. Meio que ocupavam o tempo observando a elegância e discrição dele.

 

Assim estavam todos. A assim a sala de espera se comportava. Salvo um ou outro que levantava para um pouco mais de água – a maioria aguardava sua vez. Com calma e tolerância.

 

Uma mocinha escutava música de forma egoísta e batia os pés no chão. Uma possível denúncia do ritmo do que escutava. Um egoísmo com certa socialização. Digamos assim.  

 

A mocinha que derrubara o envelope o continha com força entre os dedos.

 

Duas moças sussurravam algo sobre amores e pudores.

 

Uma senhora fazia uma dança com duas agulhas entre os dedos. E uma mágica em forma de meia parecia surpreender a quem acompanhava os movimentos dela.

 

Foi ai que veio o que se poderia dizer - segundo ato. Se um Teatro fosse. Ou - um molto vivace. Se um andamento musical fosse.

 

Mas não foi. Não era.

 

A mocinha do som egoísta sentiu algum calor. Mesmo diante do frio precoce. Talvez causado pelo bater de pés. Ou pelo calor do ritmo que escutava. Isso não se soube. Nem foi perguntado.

 

Ela levantou. Foi até junto dele. Junto dele tinha uma janela. Abriu. Assim. Sem mais nem por que. Sem consultar. Sem avisar. Abriu.

 

Ele, concentrado – continuou a ler o tal livro. Talvez tenha erguido de leve a sobrancelha. Mas não ergueu sequer o olhar. Permaneceu de pé. Agora junto ao ventinho da janela. Mas com toda a elegância já definida desde a chegada.

 

Alguém gritou. Em alto e explícito som. Uma barata. Entrou voando pela janela. Está ali. No cachecol dele.

 

De repente tudo voava. Não só a infeliz invasora.

 

O livro voou longe. Despaginado. Quase fraturado. Aberto. Exposto. Desencapado. Uma tristeza.

 

O cachecol foi arrancado às pressas para fora do pescoço. No seu vôo sem escala prevista - se enfiou nas agulhas dançantes da mágica senhora. De onde saiu voando já mais acompanhado e foi se espatifar no chão enfiado em duas agulhas.  

 

E bem ao lado das mocinhas sussurrantes sobre amores e pudores. Que perderam os pudores – e talvez os amores – e saíram com pernas e gritos para fora de onde estavam contidas.

 

Entre gritos, vôos rasantes e acrobacias – vieram os seguranças.

 

Queriam saber onde. Quando. Quem. Esqueceram do por que. Atropelados, pelas duas mocinhas ex-sussurrantes, tentavam chegar até a senhora das agulhas.

 

Impossível.

 

O elegante e concentrado leitor agarrou um deles pelo braço e suplicou. Ao menos foi o que pareceu pelo tom de voz. Uma súplica. Dizia com voz trêmula. Matem. Matem.

 

Tem situações especificas que um simples - por que - faz falta. Tivessem perguntado o por que dos súbitos vôos e gritos – saberiam do que se travava.

Mas não foi preciso. A mocinha do som egoísta trazia entre os delicados dedinhos – uma mariposa.

 

Ela não tremia a mão porque segurava a mariposa. Acredito que a mariposa - de tão  assustada – tremia a mão dela. Da mocinha.  Disse – era uma mariposinha. Assim. No diminutivo.  

 

O segurança retirou a mão dele do braço exigido.

 

Todos se olharam. Ela olhou para todos. A mariposinha por certo – não quis olhar para ninguém. Saiu – tão logo pode - voando janela a fora.

 

Quase igual a ela – fez o leitor elegante. Quase. Pegou o livro despaginado. O cachecol desalinhado. E, pálido, saiu. Meio que voando – de tão apressado. Mas - pela porta.

 

Mas igual a ela – tremia. Só não se perguntou mais uma vez o por que. Se de temores. Ou se de pudores.

 

Escutou-se um riso vindo do cantinho da sala. Foi a vez da senhora das agulhas mágicas. Devia ter a resposta.

 


Agosto 22 2009

 

Fiquei lendo o que ela escreveu e pensando.

 

Fui até mais além. Fui aos pensamentos por trás dos pensamentos. O que sempre é um risco para a lucidez. Mas enfim. Lucidez é coisa que se perde aqui – acha ali. É saber aproveitar do efeito elástico. Isso a vida vai ensinando.

 

Se tem conceito que não se estabelece é este. O da lucidez. Cada um faz sua leitura. Sua assinatura. Sem esquecer a crítica amadurecida e imatura. E assim se vai construindo e destruindo no dia-a-dia - a lucidez.

 

Assim pensando - fiquei diante do texto. E o texto diante de mim. Por um tempo.

 

Havia chegado tarde. E naquele estado de final de jornada. Poderia até dizer estado letárgico. Sim. Não queria mais pensar. Muito menos decidir. A jornada cobrara seu alto preço em decisões. Estava exausta. E num estilo sofisticado. Colocando as costas da mão por sobre a testa.

 

Mas vi que chegou uma mensagem. Optei por ler. Era ela. Vai lá e leia. Depois se puder comente. Um recadinho tímido. Fosse uma voz eu diria que era rouca. Mas na escrita sugeria letras minúsculas. Discreto e recatado. O recadinho.

 

Obedeci de imediato.

 

Vou ter muito que agradecer a ela. A começar pela sabedoria. E pela forma refinada de expor. Pela maneira singela. Como se me mostrasse um álbum de fotos delicadas. Timidamente impressas em papel fino. Envoltas em papel de seda. Que precisavam ser desenroladas e tocadas por mãos hábeis. Para que nada se perdesse. Ou fizesse riscos encobridores. Coisa mais linda.

 

Pela primeira vez acho que entendi. A originalidade da escrita. A força da escrita. As marcas que pode deixar.

 

Aprendi com ela. Escrever também é assim.  Escrever é como fotografar. Ler pode ser como olhar para uma foto.

 

Essa idéia me levou a lugares onde nunca fui. Vi fotos em cada página escrita. Redesenhei textos. Revelei relatos antigos. Guardei os esquecidos negativos. Fui de lembrança em lembrança enquadrando as imagens. Foi aí que rebusquei todos os cantinhos por trás dos pensamentos. Assim me senti.

 

Ela descrevia a nós todos. Coloria a descrição.

 

Era como se – olhando para o texto – lesse fotos. Como fazia aquela minha amiga. Discorria sobre as fotos. E colocava textos nas imagens. Ela foi mais sábia. Metaforizou imagens - uma a uma - no texto. E esbanjou instantâneos. Desconsiderou poses. Deliberadamente recusou imitações.

 

Ficou no silêncio. E no próprio silêncio – nos expôs. Nos organizou.

 

Impossível não lembrar a minha avó. Ela sempre dava um aviso. Nunca leia sem emoldurar as páginas, menina, nunca leia sem emoldurar as páginas. Não entendia muito bem – nem muito mal – o que ela me dizia. Achava complicado.

 

Agora sim. Tantos anos depois. Agora entendi. Até repeti aquele meu aceno positivo em memória dela. Estava correta.  Foi lendo o texto que compreendi. E consegui emoldurar as páginas. Mais ainda. Emoldurei parágrafos. Separei por cores. Por nuances.

 

Dava para ver os risos. Os dentes brancos. As taças. As cores dos vinhos.

 

Dava até para enxergar os códigos e simulações. Tudo estava na foto. As pessoas eram poucas. Cabiam num pequeno enquadramento. A moldura não deixava ninguém de fora.

 

Assim fiquei diante do texto dela. Como que subitamente despertada.

 

Compondo fotos. E decompondo palavras. E vale o vice-versa.

 

Muito mais que um limite impreciso – é um des-limite preciso. De quem escreve e descreve. Para quem lê e assimila.

 

Mesmo por trás da lente. Amparado por um tripé de letras. Até se usasse aquele paninho preto dos fotógrafos de rua antigos. Decidindo por onde começar. Como continuar. Salvaguardando ângulos. Priorizando luzes.

 

Nada impede - o fotógrafo fica na foto. Estava ela ali. Focando. Escolhendo. Gravando. Mas estava dentro. Todo o tempo.

 

Não sei se ela sabe. Se entendeu. Ou se disfarçou. Mas – independente - a mágica se fez. Esta também uma possibilidade que somente a escrita permite.

 

 

Esta é a verdadeira magia da letra. Não porque vira contra o feiticeiro. Mas porque inclui o feiticeiro. 

 


Agosto 16 2009


Ela sempre alertava. Muitas vezes as faltas são tantas que acabam ocupando lugares indevidos.

 

Não sei se são muitas. Ou se estão muitas. Ou se as vemos muitas. Meio complicado falar de falta. Expõem metades. Pelas metades. É sempre um paradoxo.

 

E pela metade muitas vezes são as explicações. E os excessos ambíguos da falta de explicações. Os descuidos com as gentilezas. O desuso das delicadezas.

 

Eis um terreno fértil. Com enorme rapidez fica-se pleno de faltas. Falta de interpretação. Falta de motivos. Falta de compreensão. Falta de confiança. Falta de lealdade. Falta de reciprocidade. Falta de conclusão. Falta de solidariedade. Falta de afetuosidade. A antiga e sempre conceituada falta de paciência. Isso sem esquecer a falta de compostura. Ou a sempre citada falta de condescendência. Que tantas vezes é aliada da falta de coragem.Ou da falta de conceito. Mas não se pode esquecer jamais - a falta de resposta.

 

Assim eu estava. Diante deste redemoinho de faltas. O telefone tocou. E o som fez um corte no tempo das faltas. Por que nas faltas do tempo isso já é comum.

 

Ela viera por uns dias. Rápidos. Era uma festa de família. Teria que participar. Mas conseguiu uma breve saída. Para vir até aqui.

 

Aguardei feliz. Chegou feliz. Desbravadora e vencedora dos trilhos. Nos trilhos. Confiante na decisão. Sorridente com a conclusão. Impossível errar o caminho. Já começamos a rir desde esta frase. Muito mais que uma frase.

 

Tudo reafirmava os caminhos trilhados. Não no destino. Mas na Vida. E certos. Ao menos parecia até o momento.

 

Quando sentamos para o vinho – nos repetimos. Rimos e choramos. Como no tempo das inaugurações do exílio. Ela no dela. Eu no meu. E o som das teclas fazendo vínculo entre nós duas.

 

Foram tempos difíceis. Mas nunca em tempo algum nos falamos tanto.

 

Nunca contamos tanto uma sobre a outra. Nunca soubemos tanto de nós.

 

Ali sim. Não havia falta de assunto. Eis uma falta abolida. Enfim uma. Até comemoramos. Podia faltar tudo. Mas nossa conversa era abundante. Um mais jorrar de palavras. De comparações. De questionamentos. De textos lidos. De textos a ler. Ela reclamava a impossibilidade do trabalho externo. Eu invejava o ócio temporário. Dela. E ela ria da minha agenda se construindo. Ou se paginando.

 

Descobrimos o sabor das páginas. Que só passam a existir quando preenchidas. Só se folheia o que está preenchido. Parece óbvio. Mas nem tanto. Páginas em branco são completas. De faltas. Não se brinca de olhar para elas por muito tempo.

 

Lá um dia me avisou. Arrumei as malas. E voltou para as raízes.

 

Depois disso – alguns hiatos. Um silêncio. Um retorno. Uma noticia. Um bilhete. Um sufoco. Um até mais. E por muito tempo nos afastamos. Da nossa história. Da nossa rotina. Até que um dia – faltou assunto. E sobrou silêncio. A tristeza - por saber mais faltas – se fez presente.

 

Agora estávamos ali.

Naquele momento. Sentadinhas nas cadeiras - na cozinha. A tentar atropelar o mínimo possível. Os relatos. Os excessos do - eu me lembro. Os inúmeros - você não sabia. Incontáveis - nem sei por que não lhe disse.

 

Quase foi preciso contratar um cronômetro.  De emergência. Ou uma nova emenda. Uma legislação de urgência. Você fala. Ela fala.

 

Fez um comentário. Sobre duas coisas que fazia bem. Dirigir e criar. E torcia pelo futuro. Para continuassem sendo elogiadas. Mesmo que num tempo passado. Rimos porque não faltou tempo. Achei genial a informação. E o pedido. Daria até para inscrição em pórtico. Passado. Presente. Futuro. Numa única eleição.

 

Mas enfim. Lembrei do Filósofo santificado. Ele falava isso. Que não existe futuro nem passado. Só presente. Porque é nele que falamos. Seja em que tempo for. Perfeito.

 

Quando nos despedimos – já todo o velho código estava re-paginado. Os risos resgatados.

 

As faltas pareciam diminuídas. Mas nunca se sabe. Talvez tenham escapado pela porta da saída. Ou ficaram atrás das cortinas. Ou se esconderam como poeira sob o tapete. Até ri quando pensei nisso. Pode-se passar a Vida toda permitindo que ele acolha faltas e erros. Deixando por cima risos e acertos.

 

O tapete como o Presente do Filósofo. Salvaguardando. O Futuro do Presente. Eis a enevoada solução. Arriscada por certo. Pisar sobre faltas é atividade que requer arte. Muito mais que sabedoria. Até por que quem sabe – não pisa.

 

Mas como dizia a minha avó. O que falta e o que sobra é sempre misterioso, menina, o que falta e o que sobra é sempre misterioso.

 

Olhou para trás. Deu um sorriso. E lá voltou pelos trilhos até o encontro agendado para a festa. Dia seguinte voaria cedo para as raízes.


Agosto 06 2009

 

Eis a questão inicial. O tempo passa muito rápido. Não dava para acreditar.

 

Lembrei o poetinha favorito. De um versinho breve. Tão breve quanto a Vida. Algo sobre quem é aquele envelhecido ali que me olha. No espelho.

 

Pode-se até amor-daçar o desperta-dor. Pode-se esconder o objeto. Só o objeto. Por que o tempo fica ali. Servindo-se de si mesmo. E servindo-se do outro.

 

Impossível não pensar.

 

Como dizia a minha avó.  Sempre parece que foi ontem, menina, sempre parece que foi ontem.

 

Foi assim que me senti – de repente. A  serviço do tempo. Como uma habitante do seu cárcere privado. 

 

Mas os planejamentos já se iniciavam. Dava para ler nas entrelinhas das comunicações. Dos olhares. Das frases ditas com rapidez. Estilo ao bom entendedor. Cada ano vem com uma novidade. Uma orgia de criatividades.

Cada um expondo seus afetos de forma especial.

 

Lembro de uma vez. Quando cheguei de volta em casa. Ele havia iluminado a sala toda com pequeninas velas. Muitas. Nem dava para saber quantas.

 

Pareciam estrelinhas contratadas. Ali. Em cada lado que virasse – um pontinho de luz delicada. Da cozinha rescendia um odor quase onírico. A música fora escolhida com total adequação – havia sido a primeira música.

Lembro quando entrei na sala. E vi os brilhos no escuro. A música. O cheiro.

 

Passei um tempo em posição de surpresa. De pé. As duas mãos no rosto. Um riso assanhadinho entre as mãos. A mais pura expressão de prazer.

 

Lembro da pergunta dele. Não vai entrar. Na mesinha muitos pacotinhos enrolados com laços e papeis brilhantes. O vinho no balde. A mesa posta. O olhar dele. O riso. Uma festa. Entrei. Sentei. O difícil foi tirar as duas mãos do rosto. O riso foi fácil. Ficou para sempre.

 

Até hoje – quando lembro sinto o cheiro e vejo as cores.

 

Uma outra vez caiu num domingo.

 

Ele levantou antes. Desceu. Da cama escutei uns barulhinhos. Perguntei se estava tudo bem. Sim.

 

De repente muitos barulhinhos. E pés pela escada acima. Estavam todos lá. Ela também estava do lado de cá do mar. E ali. Dentro de casa. Todos. Risos e risos.

 

Me convidaram a descer. Estava lá uma festa. De flores. Um pacote enorme enrolado de branco com fita vermelha - descansava seu peso no sofá.

 

A mesa. A mesa estava linda. Toda arrumada. Com tudo que agradaria aos deuses gregos. E eles todos felizes. Ela só ria. E apontava a sua parte na composição. Para destacar o – lhe conheço bem.

 

Tantos anos que ela não participava deste festejo. A comemoração passou a ser múltipla. Não faltaram motivos. Desta vez a música era mais comunitária. Regida apenas por risos e vozinhas.

 

Naquele dia deu para entender o que falam sobre a magia do afeto.

 

Agora escuto os burburinhos. Vejo olhares enviezados. Desta vez ela não virá. O além mar está mais além. Mas hoje cedo já se fez presente.

 

Informou da celebração. Antecipadamente. Como contagem regressiva. Sempre atenta. E delicada. Já acordei rindo.

 

Foi aí que veio o tal de repente. Aliás veio duas vezes.  Sempre explico a ele porque gosto de ópera. Acho que ele já entendeu. Se não entendeu vai entender. Quando ler.

 

De repente o Tempo passa. E passa mesmo. Ciente da sua função. Com absoluto desprezo por reclamações. Vai lá fazendo um percurso que nem sequer é planejado. Lida com tudo com total despropósito. Este é o Tempo.

 

Mas de repente também o Tempo traz as respostas. Os retornos. Os possíveis merecimentos.

 

Entre esses dois de repente – discordei de mim mesma. Depois me convenci de mim mesma. Para depois entrar em estado de dialética.  

 

Diferente do meu poetinha querido, me reconheci.  E,feliz, dei um beijinho no espelho.

 

Não fiquei tão-somente a serviço do Tempo.

Também o fiz existir a meu serviço.

 


Agosto 04 2009

 

Pode parecer redundante. E é. Isso não se discute. Nem se tenta esconder. A emoção superou a emoção.

 

Se ele escutasse perguntaria. O que isso significa. Esta é uma pergunta que ele sempre faz. A pergunta pelo significado exato.

 

Não há frase escutada, nem texto lido - que a pergunta não venha acoplada. É tão justa que nem hífen interfere. Ou nem hífen tem autorização para cortar a questão. Junto com a postulação - algumas vezes até esboça um riso. Não sei se da tal pergunta. Ou da idéia alheia. Isso é sempre difícil de qualificar.

 

Cada um pensa o que decide. Mas revela apenas o que não censura. A si próprio. Ninguém gosta de se colocar em posição de resposta. Só em posição de pergunta. Uma boa escolha. Sábia. No mínimo - também - cautelosa.

 

Mas fiquei ali. Lendo e relendo a mensagem. Com a emoção superando a emoção.

 

Então tudo dera certo. Mesmo de tão longe. Mesmo sem participação materializada. Sem conhecimentos das faces. Ou das interfaces. Foi só indicar a vontade. Seguir a sequência. Obedecer aos comandos. E deixar lá.

 

E agora o retorno. Assim. Mais de repente que de repente. Ela avisava. Consegui. Chegaram. Estão lindos. A impressão é ótima. Até a embalagem de envio é muito bonita. E adequada.

 

Nem sei quantas vezes li e reli. Esse recadinho.

 

Já fui logo acrescentando. Na imaginação. Será que ela leu comendo bolo de nozes. Será que fez um cafezinho. Será que estava sentada na mesa da cozinha. Não faltaram - será.

 

E o mais engraçado é que nem respostas. As respostas - as tinha. Podia vê-la recebendo. Abrindo. Sorrindo. Podia sentir o entusiasmo. O acolhimento. A pontinha de orgulho por participar. Podia até ver a pressa em abrir logo. Mas sem perder a delicadeza. O cuidado. Para não rasgar o papel. Podia descolar ou desamarrar. Mas nunca rasgar.

 

Lembrei do mestre austríaco. Ele que comentava sobre o papel. O mais importante nem sempre é o que está escrito. E sim saber que a pessoa está passando as mãos no que foi escrito. Isso é belo. Alguém que nos conhece – toca nas frases que inventamos. Nunca o entendi tanto quanto hoje. Tantos anos de estudo. E um aviso decodifica toda uma teoria. Maravilha.

 

Mas foi assim. Ela fez o pedido. O pedido foi atendido. Em cima do que foi escrito. Tudo muito rápido.

 

Fiquei pensando no tempo. Ela saiu daqui. E foi para lá. Além mar. Tempo e espaço deslocados. Ou recolocados. Nunca se sabe.

 

Lembrei da minha avó. Ela falava sobre isso com uma seriedade não muito habitual. Cada vez que a via falar com aquela expressão - eu sentava. Como se o ato de sentar me fizesse mais atenta. Ou formalizasse com mais rigor. O que ela – meio à toa – falava.

 

Tempo e espaço não são relógio nem mapa, menina, tempo e espaço não são relógio nem mapa.  

 

Procede. Agora estava o conceito demonstrado. Ela – além mar. Eu – muito aquém do mar dela. Daqui escrevi. De lá publicaram. Ela escrevia o bilhete de recebimento. Eu lia o aviso de leitura. Dá até para ter confusão mental. Ri.

 

Pensei. Preciso comemorar. Preciso contar. Para quem incentivou. Para o mundo. Para mim mesma.

 

Foi o que fiz. Nesta ordem. O mundo estava ocupado. Com seu ritmo. Seus acertos. Sua rotina. Muito justo. Compreendi.

 

E fiquei com o mim mesma. Desta vez imitei o mestre francês. Fui para o espelho. Olhei e comemorei. Numa solidariedade afetuosa.

 

No final do dia - outro recadinho dela. Havia se descoberto lá dentro. Na dedicatória. Nos relatos. E informou. Ao receber - sentara na cozinha. Na bandejinha diante dela colocou um bolinho. Partiu duas fatias. Leu tomando um cafezinho com uma gotinha de conhaque. Sorrindo para as páginas.

 

Conferiu o tempo. A distância. Acreditou na simulação. Confiou na execução.

 

Entre além e aquém – esqueceu a Semântica. A Sociologia. Até a Filosofia. A fantasia apagou os mares. Ai esqueceu - por fim - a Geografia.

 

Assim me informou. Assim li. Assim entendi. E assim uma publicação - se fez ao contrário. Exatamente como deve ser.

 

À noite ele me trouxe flores. Fiquei - Muito Feliz. Com letra maiúscula.

 

Preciso marcar a data de hoje. Fui dormir - sorrindo - pensando nisso.

 


Agosto 01 2009

 

Quando li o recado demorei a acreditar.

 

Acendi a luz. Abri a porta da varanda. Um pouco de iluminação também externa podia ajudar. A clarear. Até a esclarecer. Limpei os óculos. Ajeitei de novo a cadeira. Até reiniciei o portador. Uma brisa entrou suave.

 

Depois de tantos anos. Um recadinho estilo - procura-se. Era eu a procurada. Era ela quem procurava.

 

Cada vez que eu pensava isso – queria repetir o ritual de configuração. Lá se ia de novo limpar os óculos. Até ria.

 

Certo. Vamos ver do que se trata.

 

Desde que sai de lá nunca mais tive notícias. Ou melhor. Tive algumas. Terceirizadas. Estava se solidarizando com quem escolhera. Como uma ajudante voluntária e fraterna. Não importava. Se já vali. Se já valeu. Devia saber o que fazia. E aprovei. Sem interferências. Muito menos queixumes. Não tinha tempo.

 

Entre as caixas da mudança e as idas a hospitais para coração descompassado – só me restava o tempo exato para ter calma.

 

Quando as caixas saíram vazias e o coração compassou - no final da tarde tinha o café.

 

Ela vinha com bolinhos de nozes e sotaques. Não dava tempo para queixumes. O riso começou a ocupar o espaço com franca e exposta decisão.

 

O tempo passou. Os dias se somaram e foram completando a década.

 

Mas lá estava o recadinho. Procura-se. Uma década depois. Parecia que os dias estavam se dividindo. Para explicar um tempo que passou. Como se folheasse um calendário antigo. De trás para frente. Ou vai ver era mesmo de frente para trás.

 

Como dizia a minha avó. Não se comprometa com o calendário, menina, não se comprometa com o calendário.

 

Tinha razão. Fatos e atos podem ser partilhados com qualquer um de nós. Mas as datas de um calendário são sempre alheias - também a qualquer um de nós. Foi uma sensação inicial. Assim. Confusa. Ambígua. Surpresa. Tudo ao mesmo tempo. Ao ler o recadinho.

 

Decidi responder. Achou. Estou aqui. Resolvi complementar a informação com dados atualizados.

 

Li e reli umas trinta vezes. Aumentava os relatos. Cortava. Fiquei um tempo entre o prolixo e o sucinto. Entre um imposto e um exposto. Optei por este Lugar - entre um e outro. Mas me identifiquei.

 

Até me assustei. Quando a gente se identifica – se qualifica. Ou o contrário. Diante de si próprio. Foi o que descobri. E lá me vi de novo - às voltas com o calendário.

 

Escrever avisando aqui estou – fez novamente passar as páginas dele. Desta vez de todo lado. De frente para trás. De trás para frente. Deu até vontade de encontrar um ainda não impresso. Um da frente para frente.

 

Mas enfim. Depois de ler e reler. Informei. Confirmei. Achou.

 

Foi como se – eu - tivesse me achado. Depois de uma década.

 

As pessoas do passado têm esta capacidade. Ou funcionalidade. Quando voltam – é como se uma materialização se procedesse. A formalidade da informação - como um balcão de cartório. Vai-se relatando os dados na suposição que o outro – do outro lado do balcão – os esteja registrando com a valorização procedente.

 

Só depois descobrimos que os tais dados só são importantes para nós mesmos. Eles é que nos localizam. O outro apenas os transcreve. E nos devolve. E ficamos com os nossos dados em volta de nós – vida a fora.

 

Não era um balcão. Não tinha funcionário. Não se reconhecia a firma. Protocolarmente falando.

 

Mas tinha uma explicação. Uma descrição. Uma até possível entonação. Como uma anamnese de saúde. De sobrevivência. Com umas gotinhas de orgulho. Uma dose quase medicamentosa de vaidade. E uma overdose de alegria egocentrada. Pelas escolhas. Pelas conquistas. Pelas parcerias estabelecidas. Até pelas perdas. As perdas estão sempre presentes. Mas o motivo é nobre. Elas expõem as escolhas. Procede.

 

Sentada diante do texto – li tudo que escrevi. Desta vez fugi ao habitual. Não imaginei o que ela pensaria ao ler. Fiquei imaginando o que eu pensaria disso – há uma década.

 

Os dados foram enviados. Com os anos colados a eles.

 

O calendário - discreto - observava silencioso sobre a mesa.

 


Julho 29 2009

 

O primeiro pensamento foi o habitual. Corriqueiro. Não acredito que isto está acontecendo. Até esboçou um sorriso. Mas no pensamento.

 

Sim. Rir de expressão facial seria arriscado. Todos que estavam ali dentro não tinham a menor intenção de rir. Ou de ver alguém a rir. A coisa parecia séria. As pessoas em volta pareciam assustadas. Somando tudo isso chegou a uma outra banal conclusão. Deve haver um risco.

 

Ajeitou-se melhor na cadeira. Buscou um mínimo de conforto. Nem que fosse pura fantasia. Conforto era objeto inexistente. Naquele lugar e naquela situação. Mas enfim. Buscou fingir que se aconchegava. E se aconchegou a si mesma. Não sem antes tomar uma atitude. Considerava-se uma pessoa de atitude. Agora era o momento de se provar isso.

 

Controlou o riso mais uma vez. Até se desentendeu. Devia ser alguma nova patologia. Porque ninguém em saudável raciocínio teria vontade de rir. Ali. Aquela hora. E com aquela temeridade. Mas permitiu a vontade. E proibiu a exposição da tal vontade. Se persistisse – prometeu. Buscaria uma ajuda profissional. Medicamentosa. Até cirúrgica. Mas alguma cura teria que ter.

 

Já que a esta altura já se sentia com a doença instalada.

 

Resolvido isso – mudou de texto. Abriu o ladinho da bolsa. Acrescentou aos pensamentos o objeto auditivo egóico. Seu tenor preferido a privilegiava com suas árias preferidas. Nem ousou pensar a palavra - perfeito. Ai já não seria uma patologia susceptível de cura.  Ai já seria buscar a ira do Universo. E isso já seria demais. Até para ela. Censurou na primeira letra da palavra. E ficou ali a escutar. A voz. A música. O coro. O relato dramático em decibéis corretos.

 

Por um segundo veio uma palavra nova. Legado.

 

Sim. Se a situação era de risco. Se a gravidade estava já denunciada e aceita. Qual seria seu legado.

 

Complicado. Aprendera algo.  O que foi dito – permanece. O que foi esquecido de ser dito – também permanece. Mesmo o sujeito oculto - continua sendo chamado de sujeito. E as pessoas complementam. Uns diriam – falei com ela hoje. Outros – faz tempo que não falo com ela. Mais alguns – passou o dia todo trabalhando. Mais outros - ela reclamava tanto do horário. De uns - condescendência. De outros - informações. De mais outros - considerações. As pessoas acabam por preencher com frases – as faltas materializadas.

 

Mudou novamente de texto. Porque lembrou deles. Sem comentários. Já que não podia rir – também não iria chorar. Deu - a si mesma - um titulo. Extremista. Fez até um discreto sim com a cabeça. Ninguém notou.  

 

Um senhor mais alto – de pé – informou. Foi um problema com o da frente. Algo que ver com os trilhos. A chuva está muito forte. Acho que vamos todos ter sair. E caminhar por aquela minúscula trilhazinha. Bem coladinha no paredão. Para subirmos.

 

Concluiu. Eu não. Não vou. Tenho horror de caminhar em lugar apertado.

 

E ele sempre diz que sou malcriada. Junto os dois e daqui não saio.

 

Aumentou o som. O tenor se espalhou. Melhor escutar aquela ópera. Que a outra que estava se construindo.

 

Ia fechar os olhos quando ela veio falando. Gesticulava alto. Queria organizar um motim. Sobre os trilhos. Dar queixa. E naquela situação. Não deu para segurar. Riu. A cena ficou patética. Amotinados no subterrâneo e sobre trilhos molhados. Nem aquele francês pensou nisso. E olha que ele adorava um fosso. Devia ter nascido aqui e agora. Ia se espalhar mais que o tenor nos  ouvidos dela.

 

Foi interrompida por outro. Com ar de sábio - levantou. Ergueu a mão. E a voz. Deu até um pigarrinho antes de falar. Pediu calma. Avisou. Excitação gasta oxigênio. Uma senhorinha sentadinha – até então alheia a tudo - levantou o queixo. O olhar. Em direção a ele. E balançou a cabeça – como se a frase lhe lembrasse algo já passado. O olhar pareceu mais distante que a saída.

 

Nova interrupção. Um gritinho fino informou. Subitamente. Matei. Matei. Passei agora para uma segunda fase. Todos se viraram. Tudo era sinal de perigo. Identificado o matador – todos voltaram a sua posição anterior. E ele feliz – acionava rápido com seus dedinhos as teclas do joguinho. E ria a cada possível mudança de fase.   

 

O frio foi cedendo espaço. Ao calor. E a maioria retirava casacos. Capas. Lenços. Uma semi nudez sem objetivo. Apenas o ato pelo ato. Como se bastasse um suar – para todos se despirem. Fez lembrar o mestre austríaco.

 

Veio uma suave voz - saindo por um tubinho com tela. Informou. Estamos re-iniciando o trajeto. Pedimos desculpas pelo transtorno. As chuvas causaram problemas. Mas já estamos com a situação sob controle. E avisou a próxima parada.

 

Ele começou a vestir o casaco e comentou. Com a absoluta segurança dos pessimistas. Lá em cima está bem pior do que aqui embaixo. Hoje ninguém volta para casa.

 

 

Impossível resistir. Ela riu. Alto. 

 


Julho 25 2009

 

Os debates ficaram agendados. Os temas estabelecidos. O grupo se reuniu para o proposto.

 

A questão – naquele momento - era básica. Ele tentou formular com sobriedade. A traição está em que Lugar. Na emoção. Na omissão. Na materialização. Ou na obviedade da informação. Ou pior ainda. Na ambigüidade de um riso sorrateiro e explícito.

 

Ao final desta longa frase dita de forma entrecortada – um silêncio adequado se fez.

 

A cada um coube um pensar. Mas a ninguém parecia caber um responder. Pelo menos de imediato. Não houve um só já sei. Parecia que cada um se perguntava muito além da demanda.

 

Ela decidiu. Nada de tanto silêncio. Parecia indignada. Por que ninguém responde. Onde já se viu. Quem nunca se sentiu assim. Traída. Sofrida. Rejeitada. Revoltada. Quem nunca disse - eu que me dei tanto.

 

Surgiram alguns risinhos disfarçados. Parecia ser este exatamente o resumo das perguntas entrecortadas. Mas ninguém se atreveu a falar. Sequer a insinuar. Não era caso de gracejos. Era. Mas não para ela. Mais ou menos assim. Respeitaram a seriedade dela. Calaram-se e escutaram.

 

Traição é fato de escuta. Muito mais do que de fala.

 

Estava tensa. Mexia a colher do cafezinho como se cavasse a terra. Parecia querer exumar alguma mágoa antiga. Para vê-la – talvez - transformada em esqueleto. Ou em pó. Vai lá saber. Apertava a colherzinha com tanta força que os dedinhos até estavam esbranquiçados.

 

A voz começou rouca. Traição não é questão de Lugar. Nem de lugar. É mais uma questão de falta de assento. De falta de olhar. Traição é esvaziar uma pessoa. Totalmente. Expondo sua intimidade a outro. Traição é da ordem do visceral. Por isso dói tanto.

 

Parecia conversa de intelectual daquele país. Lá sim. Cada fala tinha uma total ausência de significado. E ampla plenitude de linguagem. Quem de fora estava - sempre concluía. Entendi nada. Mas sei que é importante. Muito importante. E não faltaram publicações e mais publicações sobre estes tão importantes- nada entendido.

 

Alguém teve uma idéia na sequência da escuta.  E expôs rapidamente a tal idéia. Aqui também tem vinho. Olharam para ele. Riram aliviados.

 

Optaram pelo vinho. Mesmo correndo o risco daquela frase em latim. A esta altura qualquer risco parecia menor que a exumação. Foi a sensação que deu.

 

Alguns se levantaram. Caminharam pesado. Como se cobrissem algum túmulo com os pés. Outros se recostaram na cadeira. Como se buscassem um conforto. Um ou outro olhou para fora da janela. O olhar parecia invejar quem passava isento.

 

Ela sentou. Dispensou o café. Fosse a colherzinha um ser vivo e estaria grata. Até poderia respirar de novo. Ergueu a mão. Firme. Quase todos a olharam. Menos os que observavam os isentos passando na calçada.

 

E calma, muito calma, se dirigiu para a bandeja das taças. No rosto estava uma expressão de falei o certo. Pegou uma taça de vinho branco. Bem gelado. O copo solidário suava o excesso.

 

Comentou. Que cada um exponha seu recato. Eu de minha parte, decidi enterrar o meu. Continuou. Acho que virá um temporal. Pegou mais uma taça da bandeja. Fez um quase ballet na volta. Sentou com uma expressão de falei forte. Falem vocês agora. Ordenou.

 

Vai lá saber por que – acabou de ordenar e sentar - a cadeira virou.

 

Virou e caiu. De costas. Com ela dentro. Colada nas costas da cadeira. Pernas não tão coladas assim. A saia confirmando a existência da lei da Gravidade. Uma nova maquillage inaugurava o rosto. Refrescado pela rápida colaboração do vinho. Um susto. Um grito. Um desacato.

 

Levantou-se com ajuda. Recolheu o mais exposto. Secou o rosto.

 

Quando riu – todos riram. E as respirações retomaram o ritmo correto.

 

Traição, traídos e traidores voltaram ao seu devido Lugar. Entre risos e piadinhas cada um revelou e disfarçou seu pudor. Houve uma inútil tentativa de falas e pequenas pontuações sobre gestos e atos.

 

Em meio ao ocorrido - ficou encerrada a temática. Mal solucionada pelas palavras. Mas muito bem explicada por um objeto. Procedia.

 

Muitas vezes uma súbita performance se faz  necessária. E elucidativa. Foi o que concluíram de mais imediato.

 

 


Julho 16 2009

 

Os anos passaram mesmo.

 

Ela nem se dera conta. Termo exato. Não contara o tempo. Os dias. As mudanças das estações. Não deu importância. Nem ao calendário lunar. Só ao que somasse ou multiplicasse. Esta uma forma segura. Ou uma tentativa bizarra. De não angustiar - pelo que não tem. Olhando apenas - para o que tem. Estava se sentindo adequada. Aprendera algo. Aprendera a seguir com os dias. Para a frente.

 

Se escolhera disfarçar a falta - nada melhor que viver de somar. E lá se ia.

 

Somava roteiros. Descobertas. Novidades. Até nomes de ruas.

Mas não é bem assim. Dias também se contam para trás. Porque são particulares. E cada um tem seu próprio calendário. Seu gregoriano de plantão. Como uma emergência providencial.

 

Ao abrir da porta - teve uma sensação estranha. Como se tivesse estado desmemoriada. Ou em estado de esquecimento. Durante muito tempo. Naquele momento se deu conta. Do tempo.

 

Estava bem mais atrás. Quando ela deu a ordem de saída. Seguiu a fila. Ainda no mesmo estado. Caminhava lenta. Compassada. Com olhar de rotina. Sem alardes. Sem manifestações. Não deu para negar um detalhe. Mínimo. Um súbito frio que escolhera o estômago. Dela. Como um posseiro. Impulsivo. Aqui vou estar.

 

Ela desconsiderou. Deveria ser o cansaço.

 

Chegou à porta. Diante da escada. Entendeu uma frase banal. Da tal luz no fim do túnel. Nunca viu tanta similaridade. E entendeu o tal friozinho posseiro.

 

Primeiro o cheiro.

 

O cheiro de mar. De maresia. De berço. De sereia. De fartura. Respirou forte. Como para despertar um sentido até já esquecido.

 

Naquele momento importava respirar. Respirar. Como o primeiro dos atos. Como o primeiro dos instintos. Lembrou de tudo. De tantos. De todos. De teorias. Isso numa única inspiração.

 

Até fechou os olhos. Os sentidos exigem – muitas vezes – privilégios. Concedeu.

 

Deu mais um passo. Sentiu a luz. Uma luz forte. Mas calma. Encheu todo o espaço. Os olhos não demoraram a se acostumar. Mas demoraram a acreditar. Como tinham conseguido compreender.  A distância da luz. E por tanto tempo.

 

Descendo a escada sentiu o calor. Na pele. Nos cabelos. Como um abraço. O calor contornava o corpo como uma manobra de revitalização. Emoldurando, despertava. Como uma aura festiva. Assim sentia.

 

Pareceu escutar um bem vinda.

 

Cercada pelo cheiro. Pela luz. Pelo calor. Decodificado todos os sinais. Na emoção. No corpo. Concluiu. Estou aqui. Como se a memória só naquele momento estivesse despertado. E aberto as suas gavetinhas. Expondo fotos. Marcas. Traços. A própria história. Desde sempre.

 

Obedeceu. Agradeceu.

 

Foi seguindo o percurso estabelecido. De vez em quando até fechava os olhos para sentir mais forte o cheiro. Depois abria os olhos com muito cuidado.

 

Como se assim pudesse separar cor por cor. Com lentidão. Para que nada escapasse. Ficara tomada de egoísmo. Egoísmo pelo puro prazer de quem retorna. Não sabia se havia esquecido aquela intensidade das cores. Ou se havia se defendido – acinzentando a tal intensidade daquelas cores. Tantas vezes o que parece - não é o que parece.

 

É muito mais fácil viver o prisma inteiro que um único ângulo.

 

Escutou sotaques. Regionalismos. Palavras que nunca mais dissera. Comportamentos que nunca mais tivera.

 

Recostou no carro. A cabeça um pouco para trás. E assim ficou. O tempo que o percurso durou. Virando com vagar para mais um detalhe. Ou para saber das ausências. Das mudanças. Das descrenças.

 

Foi retomando seu registro. Entendendo a própria presença. Se incluindo no estilo. Se re-compondo. Poderia sentir. Dizer. Repetir. Escutar. Sou daqui.

 

Olhou para todos os lados. Para todos os espaços. E respirou - tranqüila.

 

Por um período - estava de volta. Apertou forte a mão dele na dela. Sorriu.

 

 

 


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