Blog de Lêda Rezende

Fevereiro 12 2010

 

Trabalhar em Hospital como Pediatra da Emergência nos abre um mundo onde todas as possibilidades são viáveis.

 

Todos os pensamentos, por mais absurdos e sonhadores que possam parecer, sempre acabam minimizados diante da realidade criativa de um paciente ou de acompanhantes de paciente de Pronto Socorro!

 

Num plantão de 12 horas, que começa das 7h da manhã e vai até as 7h da noite, ao final do dia não tem médico que já não esteja esgotado e torcendo para que nada de mais grave dê entrada pela porta de vai-e-vem que dá acesso à sala de emergência.

 

Mas ...qual o que! É justamente no final do dia que tudo se avoluma. E a tal porta nem bem vai, já vem!

 

É sempre nos últimos minutos do segundo tempo, como diria um bom apreciador dos esportes, que lá se vem a porta.

 

E eis uma família composta por pai e mãe, uma ajudante babá, e um bebê de 2 aninhos de idade.

 

Todos reswidentes numa casa de dois andares comunicados através de uma escada que desemboca, digamos assim, na sala de estar.

 

Os adultos - auxiliados por um decorador - decidem fazer uma decoração extravagante em sua sala de estar.

 

Na lateral da escada colocam uma enorme pedra, sabe-se lá com que intuito decorativo. Talvez fingir que se vive numa montanha? Fingir que é a Idade da Pedra? Afastar maus olhados? Desconfortar visitantes indesejados sugerindo que nela – na pedra – se acomodem? Difícil saber a intenção.

 

Ou teria ele – o decorador - o nome de Herodes e estava praticando sua atividade profissional disfarçadamente?

 

Enfim, não se sabe nem se soube ao certo. O fato é que o bebê decide ele mesmo, por sua conta e autoria, descer as escadas sozinho. Sozinho no ato como o foi na decisão de descer.

 

E desce. Quase conseguindo quando, de repente, escorrega nos três últimos degraus. E cai. E bate a cabecinha onde? Na pedra. Sim, não tinha uma almofada. Ali, tinha uma pedra!

 

Um objeto inanimado de decoração. Aliás, um duro objeto inanimado de decoração.  

 

E lá se pôs o bebê a chorar, expondo assim a sua dor, como protesto indignado do propósito desconhecido do tal decorador.

 

Cena seguinte: bem no final do plantão médico de 12 horas.

 

Todos da família da pedra, aflitos, invadem como avalanche a porta de vai-e-vem, se esbarrando na que vem e recebendo de volta a que vai. Atrapalhados a correr e a pedir ajuda.

 

O bebê, sacudido na correria, carregado de qualquer jeito, apenas observa.

 

Em meio ao “vôo com turbulência” que faz do colo do pai para o colo da mãe, ele mexe os olhinhos – tranqüilo. Talvez numa tentativa de decorar, não a sala da casa como os adultos já o fizeram, mas decorar na memória todos os cenários e falas à sua volta.

 

Os adultos tentam explicar o que aconteceu. Tentam explicar a pedra. A escada. O susto. A decisão mal informada do bebê. Tentam explicar.

 

Não conseguem se dar conta do inexplicável de um acidente evitável.

 

Com seu pequeno “galinho” na testa, já sem choro e sem grito, ele, o portador efetivo do trauma decorativo, observa este mundo tão cheio de atrativos e emoções dos adultos.

 

Desprotegido por certo pelo decorador, mas protegido com certeza absoluta pelos Anjos, ele tenta entender se aquilo é um festejo ou um desespero.

 

Aprende bem cedo que entre um e outro a linha é bem tênue.

 

E quando vai fazer os exames específicos para resguardá-lo de algum risco, ri. Ri. Dobra a risadinha.

 

E todos acabam rindo também. Uns de alívio. Outros de cansaço. E ele, provavelmente e piedosamente, de todos.

 

Eram 7h da noite, fim de plantão  da equipe do dia na Emergência Pediátrica.

Quem eram as crianças?

 



Janeiro 31 2010

 

Melhor fingir que não estou vendo.

 

Quem sabe - não está mesmo acontecendo. Eu que ando insegura. Não desta vez. Não. Ele está olhando mesmo. Só me faltava essa agora. A esta altura da vida. Ser vigia do olhar dele.

 

Coisa mais ridícula.


Vou me recompor. Manter a classe. Por que eu iria me incomodar. Por ele olhar para uma loura. Uma. Não. Duas. São duas louras. Ele está olhando para as duas. Isso é que é olhar bem dividido. E eu nem queria notar. Nem ligo para essas coisas. Vivo dizendo que cada um sabe o que faz. Ou o que olha.


Vou cuidar de comer meu frango frito. Foi para isso que viemos. Melhor mudar de pensamento. E de observação.


Acabo de lembrar. De vez em quando tenho que dar atenção a um frango.
Uma vez era um frango cru que precisava ser cozido.
Agora é a um frango frito que está pronto para ser comido.


Vou é comer com as unhas. O frango? Não. Ele.


Ele que continua passando olhares furtivos. Para as louras.
Pensa que não estou vendo.
Vou continuar falando sobre o assunto mais que interessante que surgiu agora: por que salvar as tartarugas.


Queria mesmo era uma tartaruga marinha. Das gigantes do tempo de Darwin. Para tacar na cabeça dele. Agora.


Não vou mais detestar tartarugas.
Surgiu uma finalidade para elas sobreviverem. Vou me associar àquele tal projeto. De adotar uma tartaruga. Vou adotar muitas.


Ele está tão bonito. O cabelo com os fios brancos. Contrastando com a camisa azul-escuro. Há um colorido tão iluminado no rosto dele. E ainda tem o olhar verde. Ele não tem olhos verdes. Tem o olhar verde. Tão bonito. Os gestos fortes.


Veio porque me achou triste. Ele é tão atuante. Fala pouco sobre o que faz. Age. Ele sabe como associar delicadeza à parceria. Se preocupa e age. Ele é modesto para auto-nomear os gestos de atenção. Não cobra nem aponta. Na forma carinhosa de lidar com quem gosta ele é esbanjador. Porém discreto.


Mas não se pode mesmo ter um pensamento afetuoso. Nem uma ponta de lucidez em meio à paranóia. Olha só o que ele fez. Olhou de novo para as tais louras.


Agora ele viu que eu estava percebendo. Sorriu. Sorriu para mim. Sabe bem o que eu estou pensando. E sorriu solto. Vivo repetindo que ele nunca me erra. E eu vivia dizendo que eu era invisível. Ele me vê mais que eu mesma. Como ele me disse dia desses. Com uma pontinha de aborrecimento. Ofendido. Como assim, não me via? Respondeu sério. Não me via e me sabia de cor. Que delícia de escuta.


Pronto. Agora resolveu brincar em cima do ocorrido.


Mas eu não lhe disse uma só palavra. Você que está falando de louras. Como assim me conhece. Eu estou calada. Imagino.


Eu ciumenta?


Nunca.


Estou mesmo. Encontrei quem tanto quis. Ando até escutando sininhos. Como nos filmes de Hollywood. Não abro mão dele fácil.
Posso abrir a mão é em cima dele. Isso sim. Se ele continuar olhando para as louras.


Ele sabe me ganhar. E ele sorri das minhas pequenas histerias. E olha que hoje quase vira uma grande histeria.


Vai que eu resolvo chutar o frango. E correr para o carro.
Ri.
Que pensamento mais pesado. Agressivo.
Não faria isso. Com o frango, claro.


Ri de novo.


Às vezes penso que estou sob teste. Ele estica o limite. Estica e eu ali. Ele me faz sentir que sou.
Poderia até alterar o que o filosofo disse. Nada de penso, logo existo.
Sou vista, logo – existo.
Lembrei de uma foto.


Eu não apareço no retrato. Na literalidade. Estou ao lado dele. Atrás de alguém. Mas sei que estou ali. Apareço porque o olhar dele está em minha direção. São muitos na foto. Todos olham para o fotógrafo. Só ele olha para mim. E a minha imagem não está no quadradinho. Fantástico. Me faço presente pelo olhar dele. Prescindindo do olhar voyeurista do fotógrafo para me saber fazendo parte.


Não vou dizer isso a ele. Quando ele ri porque está fazendo pirracinhas fica mais bonito ainda. Agora mesmo está tão bonito. Um riso tão aberto e enviesado. Riso enviesado é a definição certa. Exata. Do modo que ele está rindo para mim. E ainda tem aquelas ruguinhas em volta dos olhos.
E tem o olhar verde.


Verde quem está ficando sou eu. Inteira verde. Ódio verde.


Ele agora está se divertindo às minhas custas. E não consigo fingir.
Preciso reler o texto do austríaco. Sobre o ciúme. Não. Melhor deixar o austríaco fora disso. Acho mais conveniente ler sobre frango.


Ou escrever sobre como fazer um frango frito pegar fogo na mesa.
Piromagia. Essa deve ser uma terminologia bem nova.
Tão nova quanto esta minha fase.
Não tenho mesmo poderes mágicos. Senão muito mais estaria frito aqui alem do frango.


Pior mesmo sou eu estar rindo de mim mesma. Rindo para ele que ri de mim. Nós dois rindo de mim. Inacreditável.


Até o frango parece estar também rindo de mim.


Lógico. A única frita aqui sou eu.


Mania que tenho de noticia de Jornal. Ele sempre se divertiu com estas minhas matérias ocultas. Mas daria uma boa notícia: mulher acompanhada por um homem sorridente frita na mesa. E diante de um frango e de duas louras. Motivo aparente: ciúme vulgar.


Não. Teria que mudar o adjetivo. Ele disse que nada em mim é vulgar.
Adoro quando ele me diz isso.
Mas que dá vontade de fritar o restaurante todo, lá isso dá.


Sim, meu amor, vamos. Você dirige. Claro. Eu não sei o caminho. O frango frito. Sim. Estava uma delicia. Não. Louras? Tinha alguma loura lá? Não percebi.


Falei nada. Só você que falou. Você quem disse. Que elas eram louras. Meu olhar? Que tem meu olhar? Do que você está rindo?


Acho melhor mudarmos nosso cardápio para – peixe.

 

 


Janeiro 25 2010

 

Nem acredito no que estou vendo.


Não é que é ele ali?

 

Nunca venho aqui e justo hoje tivemos que vir os dois. E ainda tem esta fila que não anda. Nem a minha nem a dele. Queria saber mais geometria.

 

Estamos num paralelo ou numa perpendicular? Já esqueci disso tudo. Também vê se isso é lá pensamento para me deter. Pior é encontrá-lo aqui, assim, ao vivo e de corpo inteiro. Sempre o vi pela metade.

 

Será que o mundo foi construído no tempo em quem um caixa digitava as compras?

 

E pensar que nem Roma foi construída em um dia! Devia ter caixa e computador lá também. E duas, provavelmente.

 

Ele continua olhando. Será que me reconheceu ou está pensando que sou outra pessoa? Ou pensando que sou outra e se também vizinha dele?

 

Deve ter mais vizinhas que ele fica olhando, afinal, tem que revezar o turno e as pessoas.

 

Todos trabalham, acho que só ele não.

Será que aquela senhora vai demorar muito retirando as compras do carrinho? Talvez eu devesse ir ajudá-la, mas vai lá que ele pensa que eu estou desfilando para ele.

 

Deve ter mil taras, sempre soube que uma tara puxa outra.

 

Ainda bem que aqui está bem cheio de gente, se ele se atreve a alguma coisa dou um escândalo.

 

Ele iria adorar se soubesse que enfim eu dei um escândalo por me sentir ameaçada.

 

Mas será que eu daria mesmo? Acho que as ameaças acabam por me paralisar. Belo diagnóstico: ela sofre de paralisia de ameaça. Ridícula mesmo eu. Na minha idade e com uma paralisia destas. Devia era me envergonhar.

 

Ele está olhando de novo, agora sinto o olhar em meu cabelo. Que vontade de passar a mão na cabeça, mas ele vai achar que estou sabendo para onde ele está olhando. Tenho mania de pegar meu cabelo. Desde pequena faço isso.

 

Ele tem razão quando fala que não cresci.
É verdade. Ou cresci conservando o que não devia. As manias, os medos.
Queria que ele estivesse aqui comigo, mas ele não viria, não quer que sejamos vistos fazendo compras como casal casado. Mas bem que eu gostaria de mostrar a ele o tal vizinho.

 

Essa fila parece que vai durar a vida toda. Ele está agora bem atras de mim, acho que de uma perpendicular...ou seria uma diagonal? De nada adiantou estudar tanta geometria, numa emergência de descrição, sumiu tudo.

 

Quem mandou aquela moça desistir do lugar? Agora sim, estamos mesmo perto.

 

Será que tem algo de errado com meu sapato?
Ou será que a outra tara dele é podofilia?

 

Será que não tem gerente aqui? Alguém tem que vir ver o que se passa com este computador. Será mesmo tão difícil vencer de uma máquina?

 

Então ele gosta de comer saladas, não é? Só tem salada naquele carrinho, parece a selva. Deve ser para não engordar e não cair da janela.

 

Quase ri agora pensando nele gordo se espremendo na janela para olhar a vizinhança.

 

Sim, porque agora tenho certeza de que ele faz isso com toda a vizinhança.
É um tarado público. Um tarado com olhar promíscuo.

 

Pronto, agora ri mesmo.

 

Ele nem vai acreditar quando eu contar que fiquei tão perto do vizinho. Pior que vai me perguntar como o reconheci tão rápido se é ele quem me olha e não eu para ele. Agora ele está ficando meio ciumento. Ou finge, não sei. Ele é tão seguro.

 

Acho que vou desistir desta fila. Mas sempre tem aquela coisa de quando se troca de fila ela anda e a que vamos para. Ele agora está também olhando para o meu carrinho. Vai pensar que sou alcoólatra, porque só tem bebidas. mas estavam na oferta e não quis perder, afinal o inverno está chegando.

 

Mas o que estou eu fazendo? Me explicando para ele em pensamento? Compro o que eu quiser e que cada um pense o que quiser.

 

Ele iria dizer que sou desaforada. Adoro quando ele me diz isso. Me sinto tão corajosa. Acho que ele fala para me estimular, ele bem sabe que sofro daquela paralisia que não quero repetir o nome nem em pensamento mais.

 

Até que enfim a fila começou a andar. A dele ainda não. Ótimo, assim saio antes dele e desapareço. Ele não vai saber por onde vou. Que bobagem. Se ele sabe onde moro por que iria querer saber um simples roteiro de acesso?

 

Adorei meu Português agora. Preciso falar sempre assim.

 

Mas que azar o meu. Agora é ele que está na frente.
Pronto.
Ele já se vai agora.
Vou fingir que não vi que ele está olhando para trás.
Pronto.
Se foi.

 

Voltou. Voltou? Porque será que voltou?

 

Ah! Esqueceu um pacote. Está falando com a moça do caixa.
Ficou de frente para mim.
Me olhou. Devolvi um olhar bem sério.

 

Mas... não acredito no que estou vendo, todo esse tempo eu aqui indignada e:
o “vizinho” não é o vizinho!

 

 

publicado por Lêda Rezende às 23:59

Janeiro 16 2010

 

Tomei a decisão de uma sentada só. Vou sim. Vou fazer uma reforma radical. Facial.

 

Indicaram um cirurgião, daqueles que só se vê em cinema, quero dizer, que são para as atrizes de cinema. Famoso. Excelente. Respeitado. Acho que até condecorado. 

Coragem. Agendei.


Lá estava eu sentadinha na sala de espera. Tinha planejado ir bem arrumada, salto alto, blazer, tudo que dá o toque mágico e acesso direto para sentar num lugar daqueles.


Não deu certo. O trânsito emperrou, o tempo voou e lá se fui do jeito que estava trabalhando. Com a realidade explicitamente estampada na face e na roupa.


Após me identificar arrumei um lugarzinho mais discreto a aguardar o chamado.

Já me senti - de imediato - diante de um possível chamado divino. era de maravilhar a imponência do lugar. Melhor até dizer Lugar. Ali nada cabia em minúscula. E quase ri quando pensei nisso.


De repente - em minha direção - veio uma mulher alta. Formas voluptuosas - como diriam os italianos caso a vissem. Usava uma calça justa preta. Botas de salto alto. Blusa também preta e curta - com um decote que ratificava a correção do meu pensamento anterior. Nada ali era para ser citado em minúsculo.


Olhei para ela enquanto ela escolhia um lugar, digo, Lugar. E escolheu bem ao meu lado.

 

Pensei cá comigo: mas com tanto espaço por que eu teria que servir de contraste. Mas tudo bem . Passou. Foi só um pensamento fugidio.


Aliás - eu deveria ter agido igual ao pensamento e ser eu a fugidia. Muito mais me esperava.

 

Ao meu lado sentou-se a enfim a tal mulher alta. Os cabelos longos eram enfeitados com alguns fios cobre. Uma farta franja recobria-lhe a testa.

 

Mas - eis que mudou de idéia. Levantou-se e foi até uma maquina de cafezinho. Não - foi engano. Voltou.

 

Era um novo tipo de mulher. Mulher atual. Lábios grossos – preenchidos. Glúteos erguidos – reforçados. Peitos mais erguidos ainda – complementados. Pele facial hirta – paralisada.


Atendeu o celular. Notei que havia um esgar lateral mais forte do lado direito. Ela se esforçava - acho eu - na adaptação do novo e provavelmente invejado preenchimento labial.

 

Fosse a minha avó viva chamaria logo de beiçola e estava resolvido o assunto. Mas esta palavra também não cabia num Lugar como aquele.


Percebi que ela me olhou e olhou para o outro lado dela. Daí notei que tinha uma outra mulher sentada. Esta sim - com proporções bem expansivas. Sem nenhuma avareza em termos de dobras por sobre a calça que usava. Tentava disfarçar com uma blusa preta e mais solta. Mas o tecido foi mais avaro que as formas - e muito ficou exposto.

 

Parecia um pouco tranqüila. Até quando olhou para a mulher de cabelos com fios de cobre e em maiúsculas distribuidas pelo corpo. Dai modificou a expressão. E tentou se acomodar melhor na cadeira. Me pareceu que queria sumir. Difícil.

 

A mulher dos cabelos de cobre que minha avó teria praticado a desfeita terminológica, após olhar para um lado e outro, (entenda-se a moça das sobras de um lado e eu que era só faltas do outro) deu um sorriso tranqüilo e feliz. Estava maravilhosa.

 

Sentada - com a coluna ereta - desconsiderou um encosto bem acolchoado do sofá de couro e abriu um livro. Vi o titulo. Procedia.

 

Olhei para a minha frente. Lá estava sentada uma outra moça magrinha. Tinha o rosto recoberto por uma pasta branca. Pensei. Esta será responsável por muitas noites minhas de insônia. Me auto-recriminei. Não se faz assim com quem está muito mais disposto que exposto. Ou vice-versa.


Escutei meu nome.


Era chegada a minha vez. Uma mocinha sorridente me orientava o caminho. Lembrei da letra de uma música antiga. Algo como “talvez a derradeira noite de luar”. Pensei tudo isso em segundos. Subi as escadas e fui atender ao tal chamado divino que até meu nome já sabia.

 

Diante deste novo Deus, que modifica o que o outro insistiu em fazer, e que recria sem quebrar costelas nem multiplicar pães, me sentei. Falei o que me incomodava.

 

Modesta eu.


Porque ele foi rápido. E apontou - olhando o meu rosto. E com a avidez de um tomógrafo. E parecendo pasmo com a minha modéstia foi perguntando. E ali, e lá e mais aquilo e mais isso não lhe incomodam.

 

Me vi diante de um rosto que não podia ser o meu. Não me vi diante porque sequer me arrisquei a me olhar. Melhor dizer que me imaginei.

 

Levantou. Eu o segui com o olhar. Era alto, elegante. Mas o que mais me chamou a atenção foram os sapatos. Belos. Só me distrai dos sapatos porque notei a testa. Fronte lisa. Como se diria isso em latim - pensei. Porque a testa dele merecia uma citação em Latim. Ou Grego. Na impossibilidade desta tradução me contive e me detive. Ou me abstive de qualquer comentário.

 

Não importa. Importa que - apenas com o olhar - ele já havia me desfeito e me refeito. E eu mal me sentara diante dele.

 

Foi incisivo. Nada de cosméticos mais resolveria. Ousei citar um outro método também utilizado. Quase riu.

 

De nada adiantaria. Era cirúrgica a questão. E nada de poupar áreas. Todas estavam comprometidas. E muito. A gravidade cumprira muito bem seu propósito. Teria salvação. Mas só com a reconstrução.


Pegou um papel, fez contas. Anotou números. E me entregou. E me deu um conselho. Passe a noite olhando para o seu rosto.


Olhei para o dele. Olhei para os olhos. Para a testa sem citação em Latim nem Grego. Para os sapatos dei só uma passadinha de leve. E respondi.

Se passar noite olhando para o meu rosto - pela manhã troco de especialista. Procuro um psiquiatra.


Agradeci. Sorri. Desci. Olhei a sala. Os pacientes.


Era um novo planeta. Um novo Deus. Criador e criaturas ao alcance de um papel com números.

 

Este dava um papelzinho com números. O Outro podia até ter errado - mas ao menos não me deu um papelzinho. Talvez mais sábio. Vai lá saber o que pode fazer um insatisfeito.


Decidi. Ainda não. Por enquanto vou ficar no mesmo planeta. Vou recorrer as alternativas. Lembrei da amiga que me disse um dia que eu adoro alternativas. Estava certa. Está certa.


Quem sabe daqui a alguns anos - se a gravidade me permitir ao menos enxergar.

 

Sorri.


Joguei o papel fora e voltei para casa.

 

Não sei se triste, resignada ou feliz. É preciso um tempo maior que uma noite para se saber. Mas - pelo menos - voltei sem a tal aconselhada tarefa noturna.


Brindei às habituais.

 

 

publicado por Lêda Rezende às 10:23

Janeiro 05 2010

 

Ao final do dia - o cheiro invadiu a casa.

 

Lembrei do livro. O autor - já bem vivido - explicava. O paladar começa pelo nariz. Perfeito. Nunca li nada mais adequado. Nem importam os dados da Fisiologia. Ou da Anatomia. Muito mais vale a Filosofia. Não existe órgão do sentido excludente. Eis uma táctil e aromática verdade.

 

Já acordei assim. Como guiada pela manufatura. Ou pela ansiedade das mãos.

 

O dia amanhecera um pouco silencioso. Diante de um frio insistente em ficar. E de uma garoa persistente em desobedecer. Nada de espaço primaveril. Mas as estações devem ter lá um próprio manual de instruções.

Que sigam - de acordo. E que nós daqui nos adaptemos – sem acordo.

 

Enfim esta não é a minha tarefa.

 

A minha daquele dia já havia sido definida. Há trinta e dois anos. Agora era uma questão apenas operacional.

 

E desde cedo comecei os preparativos. Mas não sem uma organização. Coloquei música. Em um sequência que surgiu de repente. Nada muito programado. Mas acatado. Como um ritual. Talvez seja assim a arte da manipulação dos alimentos. Muito mais que facas e pratinhos. Um ritual especial - por si só - se estabelece e se confirma. Alheios a nós. E tantas e tantas vezes sequer percebemos.

 

Desta vez foi especial. Fiz como que compactuando. Ao menos dentro do possível de uma racionalidade.

 

Corta. Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

 

A música se fez sábia. Sim. Nada do que foi será igual ou do jeito que já foi um dia.

 

As mãos e ingredientes se fizeram um só. Difícil até saber quem comandava quem. Ou o que.

 

Mas lá fiquei. Entre músicas e memórias. E aí foi impossível não lembrar a minha avó. Ela repetia com muita segurança. Cozinhar e viver - é a arte de saber dosar, menina, cozinhar e viver - é a arte de saber dosar. Procede.

 

Corta. Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

 

Olhei para o colorido dos ingredientes. Para a disposição deles em panelas e pratos. Parecia uma rosa dos ventos. Ri. Vai lá saber de onde saiu esta idéia.

 

Vai ver foi da música que tocava. Amanheceu o espetáculo. Como uma chuva de pétalas. Ri e continuei dando toques e retoques. Afinal – não é só de boa intenção que sobrevive o paladar.

 

A esta altura já estava misturando mais ingredientes que os da realidade culinária. Tentei me acalmar. Deve ser assim que se cozinha. Uma pitada de história. Uma ponta de saudade. Um ramo de alegria. Uma colher de nostalgia. Uma dose de contradição. E por aí vai. O importante é estar em sincronia com o processo. Um erro em cada parceria – uma pitada que seja – e lá se vai o doce sabor do proposto.

 

E foi em meio a tantos rituais e conclusões – que ao final do dia - o cheiro invadiu a casa.

 

Delicado. Independente. Intenso. Surpreendente. Delicioso.

 

Saiu de dentro dos continenti e se espalhou. Pela cozinha. Pela sala. Por todas as varandas. Subiu as escadas. Passou pelo terraço. Mexeu com os deuses.

Sorriu para o Banquete. E voltou – completo - para dentro de onde saíra.

 

Ao final da tarde – parei. O dia cabia dentro da noite que chegava.

 

Na cozinha os sinais de guerra estavam já apagados. Tudo parecia composto de magia. E não deixava de ser. Não havia sinal de ato braçal. E sim de ato manual. Pode parecer semelhante – mas não é.

 

Continuei. Agora caminhando e olhando em volta. Gostei do que vi. A mesa posta em tons suaves. Tudo em azul e branco. Num canto discreto orquídeas cor-de-rosa. Penduradinhas em seus cachos faziam o contraste mais belo. As taças altas pareciam sair de pedestais. A sala se enfeitava com efeitos múltiplos de um festejo conquistado.

 

A campainha tocou. Eles chegaram. Parecia até nome de filme. Seis à mesa.

 

Ri. Os brindes foram feitos. Votos renovados. Fotos atualizadas.

 

A música continuou. Parceira simbólica dos gestos e falas. Godiamo, la tazza e il cantico la notte abbella e il riso.

 

Estava confirmada a comemoração. E já parte da história de todos nós.

 

 


Janeiro 03 2010

 

Eis uma lição que não aprendia.

 

Mesmo com a advertência da avó. Sempre tratava a véspera como se o dia marcado já fosse. Enfim – este o estilo dela. E algumas vezes - dava bem certo. Vai ver por isso persistia.

 

E desta vez não foi diferente. Lógico. Desde a véspera estava em torno do festejo.

 

Ontem. Tudo acontecera ontem.

 

Casualmente pudera sair mais cedo da atividade. E lá se foi bem feliz. Animada - até se diria.  Planejara com cuidado o trajeto. O meio para seguir o trajeto. Tudo bem adequado. O objetivo já estava definido.

 

A temperatura caiu. Estava com ares de primavera. Ela. Mas a temperatura não. O vento do inverno viera sabe-se lá de onde fazer parceria com uma consistente chuva.

 

Mas não se incomodou. Muitas vezes é bom caminhar no frio. E na chuva. Desdenhou e seguiu. Perfeito.

 

Lá chegou. Olhou. Virou. Mexeu. Rondou. Escolheu. Ou melhor - confirmou o que já havia escolhido há alguns meses.

 

Sim. Ele iria adorar. Eis mais uma certeza diante de si. Conhecia bem o jeito dele. Afinal ela o ensinara desde bem pequeno. Conforto em primeiro lugar. Para que os instantes de preguiça sejam bem tratados. São especiais esses instantes. E muitas vezes se esquece de agradá-los com o acolhimento que merecem.

 

Tudo muito bem. Resolvido. Restava apenas um detalhe. Mínimo. Aliás - de mínimo só o tal detalhe. Por que o presente não. Era grande. Poderia ser medido em cúbicos. E vinha dentro de uma linda – e enorme – sacola vermelha. De uma elegância de dar gosto. Mas este o detalhe mínimo que esquecera. Fora sobre trilhos.

 

Mas aguarda mais um. O próximo. Depois desse. Só mais uma chance. Algum deverá vir mais vazio. Eu e minhas ideias. Mas enfim. Somos mesmo uma boa dupla. Minhas ideias e eu. E lógico. Agarrada à minha bela sacola vermelha. Já somos quase um trio. Tudo bem que até lembra um trio carnavalesco. Bem que poderiam ter criado uma cor mais discreta. Um volume deste ficaria melhor num tom bege. Café com leite. Ocre. Sei lá. Mas usaram e abusaram da iluminação.

 

Foi pensando assim. Com muita calma e parcimônia – que deu certo.

 

Conseguiu chegar de volta em casa. Com sua bela sacola vermelha. A esta altura – já do agrado.

 

Já estava quase acendendo as velinhas e comendo o bolo. Riu.

Sentou-se diante do excesso de rubro. E de repente não estava mais ali. Ela.

 

Lembrou do dia. Daquele dia há trinta e dois anos.

 

Um dia mágico. Pela primeira vez saberia o que é este sentimento. Lembra de alguém lhe arrumando os cabelos. Pediu que fizessem uma trança. Os cabelos eram longos. Uma voz saltou rápida. Quase um grito. Não. Parem já. Trança não pode. Os índios dizem que não faz bem nesta situação. Não entendeu bem o que os índios faziam ali. Mas nem tentou questionar. Acatou. Acataram. Soltaram o trançado de imediato. E alguém lhe fez algo que deveria ser um-sei-lá-o-que.

 

E assim foi. Deitada na maca. Assustada. Mas feliz.

 

Escutou o primeiro tom de comunicação dele com o mundo. Um chorinho surgiu em meio aos movimentos de médicos e enfermeiras. E os fez parar e compartilhar da emoção.

 

Fixou em todos – sorrisos. Escutou algumas observações. Tudo bem. É perfeito. É lindo. Ele veio - com ele enroladinho. Ainda chorando. Colocou deitadinho sobre o tórax dela.

 

Olhou. Jamais esqueceria esta imagem. Jamais esqueceu.

 

Tocou na pele macia. Ainda úmida. Passou a mão pelos cabelinhos. Ele pareceu se aconchegar. E parou o chorinho. Um conhecimento e um reconhecimento se estabeleceram. De imediato. E para sempre.  

 

E entendeu o amor materno. Neste instante. Diante de alguns. Diante de si mesma. Dentro de uma sala gelada. Tremendo de frio. E de alegria. Uma emoção impossível de se transcrever. Uma emoção que tão-somente se inscreve. E dentro de cada um.

 

Chorou. Sentiu o coração bater mais forte.

 

Disse-lhe um bem vindo. Baixinho e emocionado. Eu amo você. De agora em diante não saberei mais o que é Vida sem você.

 

O telefone. Quase deu um pulo quando escutou o toque. O som a tirou de lá. E a trouxe de volta para cá. Não estava deitada na maca. Mas sentada no sofá da sala. E bem em frente - a sacola vermelha.

 

Mas sorriu ao escutar a voz. Era ele.

 

Queria contar sobre a surpresa de um presente. Quase caíra de costas. Era o que queria. A cor era azul. E tinha uma lista branca na lateral. Por dentro bege. Bem esperto. Riram. Festejaram.

 

Combinaram como seria o dia seguinte. Este sim. O dia exato.

 

Quando desligou continuou rindo. Lembrou uma frase muito comum. Mas nem por isso menos verdadeira. Simples e objetiva como toda sabedoria.

 

Quem herda aos seus não degenera.

 

Lá estava ele comemorando também de véspera.  Perfeito.

 

 


Dezembro 31 2009

 

Nunca saíra daquela pequena cidade.

 

Nascera e se tornara adulta no mesmo bairro. Toda a vida circulara diante dos mesmos códigos.

 

O bairro onde nascera portava uma simbologia. Vinha de um tempo de escravos. Mas se chamava Liberdade. Havia música pelas esquinas. Havia danças. Rituais ecléticos preenchiam de esperanças os corações. A comida era vendida nas ruas – o que dava um cheiro peculiar.

 

Tudo funcionava como se fora um universo particular. Girando não sei se dentro ou fora – do universo social.

 

Ali fora alfabetizada. Orientada. Vinha de um núcleo familiar pequeno. Apenas mais uma irmã. Cedo conheceu o parceiro. Cedo casou. Mudaram-se com os poucos pertences e presentes para uma casa pequena. Próxima da família de ambos. E lá ficaram por toda a vida.

 

Um dia avisou. De um ímpeto só. Escolhera mais um outro futuro. Trabalharia na área da saúde. O marido se surpreendeu. Desde quando. Por que. Para que.  Melhor ficar a fazer o que tem em casa.

 

As perguntas foram muitas. As insinuações mais ainda. Desconsiderou uma por uma. Continuou apenas informando a composição da decisão.

 

Vai lá saber o que despertou nela. Nunca soube ao certo a causa. Mas lidou muito bem com as consequências.

 

Estudou com dificuldade. Precisava trabalhar para completar o curso. Precisava de livros. De roupas brancas. De material próprio. Mas na mesma proporção das dificuldades – encontrou soluções. Não tinha a quem solicitar. Se é assim – concluiu – solicito a mim mesma.  

 

Trabalhou. Noite e dia. Intercalando livros com cuidados da casa e do filho recém nascido. Amamentou com ele no colo e o livro na mesinha ao lado. Assim estudava. Lavou e passou roupa recitando nomes e técnicas de procedimentos.  

 

Decorou pequenas fórmulas. Revisou contas.  

 

Enfim concluiu o curso. Fez um concurso. Público. Aprovada- entrou para o seu primeiro emprego. Feliz. Conseguira.

 

E lá está há quarenta anos. Quarenta anos. Neste mesmo emprego. Sem faltas. Sem atrasos. Sem queixas. Muitos entraram e saíram. Muitos chefiaram. Muitos outros desistiram. Mas ela continuou.

 

Decisão é parceira da existência. Uma vez conquistada – para sempre priorizada.    

 

O filho cresceu. O marido mais apressado - se foi numa noite depois de algum sofrimento. Cuidou dele até o final. Chorou. E foi guardando as lembranças nas dobras do lencinho.  

 

Assim poderia ser contada a vida dela. Desse jeito linear. Mas nem sempre a vida entende que pode assim ser vivida. E surge uma contramão aqui ou ali. Um desvio.

 

De tanto cuidar – descuidou de si mesma. E o corpo não perdoa descuidos. Cobra. Aponta. Expõe.

 

Fez a cirurgia. Chorou quando lembrou o tempo que amamentava. Chorou pelo passado. Pelo presente. E pelas perdas. E duvidou – pela primeira vez - do futuro. E talvez pela primeira vez na vida toda – reclamou. Desaprovou.

Mas sabia fazer rimas. E continuou. Lutou.  

 

E durante essa poesia que inventou – surgiu uma oportunidade. Única. E para ela. Que nunca de lá saíra. Que nunca atravessara outros mares. Nem terras. Nem sotaques. Para ela o Mundo era muito maior que um globo. Ou um planeta. Era de uma imensidão que assustava. E quando pensava assim – segurava o portão da casa com força.

 

Mas recebeu um convite. Talvez até uma ordem. Vou mandar lhe buscar. Você ficará um mês aqui. Com todos nós. Desde que saímos daí sonhamos com esse dia.  Agora o dia chegou. Vai passear pela cidade. Vai descansar. Vai conhecer onde moramos. Vai escutar outros sons. Virá de avião. Nada de estrada.

 

Eis uma imagem inesquecível. Ela sozinha. Com uma roupa branca. Um casaquinho bege sobre os ombros. Uma pequena valise nas mãos. Um sorriso tão feliz que – incontido - saiu dela e iluminou todo o saguão.

 

Veio. Abraçou um por um que a aguardava. Escaparam lagriminhas emocionadas. E falou. Então é assim. Então estou aqui. E só demoraram duas horas e vinte minutos. Pensei que fosse tão longe.  

 

E o mês se fez alegre. Trocou de Liberdade. E celebrou também a nova. Fez-se de econômica a consumidora. De curiosa a integrada.

 

E como na Vida não existe Matemática nem lógica – quando retornou – repetiu os exames. Estava curada. Já não temia. Aprendera sobre distâncias e espaços. Sobre limites e infinitos.

 

E nunca mais segurou - assustada - o portão da casa com força.

 


 


Dezembro 21 2009

 

 

E lá estávamos a caminho do mar.  

 

Eles nos levaram. Também iriam para uma outra viagem. Seria a chance de desejar - mais uma vez - mais felicidades. Para o Novo que ia começar.   


Últimos atos – corretos. Horário - correto. Local – correto. Documentos – correto. Todos os corretos em ordem correta de aprovação.

 

Feito a parte protocolar. Com toda a calma. Direto para um cafezinho. Nada como um pouco de cafeína. Em cima da adrenalina. Rimos. Deliciosa aquela doce sensação. Do pré-embarque. Já superada a fase de preparatória. Agora já estávamos dentro. Do campo. Perfeito. 

 

Enquanto caminhava lembrei dela. Me avisou que iria para o mesmo lugar. Ver os fogos na praia. Ver a virada no mar. Sentir os grãos da areia na pele. A água espumante tocar a alma. Até imaginou se nos encontraríamos. Concluímos que seria não muito fácil.  

 

Ficaríamos em lados opostos. Da agulha da bússola. Até ri quando lembrei do chiste. Entre a mutante a a imitante. Muitas palavras se construíram.   

 

Lembrei da minha avó. Muitas vezes lembramos do que está bem perto, menina, muitas vezes lembramos do que está bem perto.  

 

Foi assim. Lembrei dela. Lembrei a minha avó. Virei e ela estava lá. Não a minha avó. Ela. Inacreditável.

 

Os mais místicos diriam – procede. Os mais incrédulos diriam – viável. Os mais tendenciosos diriam – possível. Os mais céticos diriam – invenção. Os mais alheios diriam – combinado. 

 

Não importa. Ela estava lá. Pela segunda vez. Ela sozinha. E nós ali. Como que para acolhê-la.  

 

Nos conhecemos num cenário parecido. Todos viajando. Também pelo ar. Um vôo dentro e fora de nós mesmos. Nas idéias. Pelas idéias. Na tecnologia. Da possibilidade virtual para quase impossibilidade de um real. Todos se identificando. Tímidos. Mas conscientes. Dos limites e da falta deles. Afinal há um mundo onde só idéias dominam.  

 

Em volta de um outro onde as imagens limitam. Assim foi nossa apresentação. Ela sozinha - a amiga faltara. Solitária em meio aos participantes. Não os conhecia. Juntou-se a nós. Aí começaram as surpresas. Descobrimos tantos amigos em comum. E tão queridos. Também em comum. Ele também se apresentou. Tinha vindo de longe. Também tímido. Eles dois ainda estavam juntos. Foi uma noite de solicitação.  

 

De um para outro. De todos para um. Até de um para todos. Embora nem nos déssemos conta disso na hora. Quase sempre é assim. Primeiro solicitamos. Depois nos apresentamos. Tolice pensar que é o inverso.  

 

Agora estava ali. No cafezinho. No lugar da tal cafeína por cima da adrenalina. Quando escutou seu nome levantou a cabeça. Quando nos viu, gritou. Abriu a boca. Abriu os olhos. Rimos. Nos abraçamos. Em meio aquela multidão. Aqueles inúmeros possíveis traslados. Estávamos na mesma hora. No mesmo lugar. Indo para o mesmo destino.  

 

Ela sozinha. A amiga estava em outro local. A mesma amiga da outra vez. A que faltou. Havia um chiste. Sensação mística pode dar em consulta. Com o psiquiatra. Rimos. Lembramos da consulta. Deveria ser agendada. O mais rápido possível. Rimos mais. De repente, a pergunta básica. Um pouco temerosa. Pela resposta. E a resposta veio certa. Certeira, como diriam de onde ele veio. Os mesmos números. Sequenciais. De assento. Vizinhos de assento. Quase ligamos para o psiquiatra ali mesmo. De imediato. Consulta de emergência. Antes da virada. Sem fogos. Sem ondas. Nada de alma resfriada. Rimos.   

 

Ela tranquila - questionava. Ele solidário - registrava. Eu atenta - aguardava. E nós todos  compreendemos. Assim são os permeios da vida. Lá um dia nos vemos diante de uma nova situação. De uma nova coincidência. Que não sabemos os motivos. Mas entendemos a  mensagem.  

 

E essa é a magia da vida. A magia que rege o Universo.   

 

Conversamos durante a travessia. Pela primeira vez todos nós falamos. De nós mesmos. De nossas histórias. Uma sinopse. De nossas vidas pessoais. Mas nem por isso menos particularizada. Das necessidades de mudanças. Das certezas dos pedidos. Da torcida pelo atendimento. Ela enfática. Iria fazer uma lista. De tudo que planejava. E ia seguir. À risca. Com ou sem risco. Rimos mais uma vez. Só não perguntei se tinha lembrado. Da tal agendinha. E do lápis.  

 

O tempo cumpriu seu prazo. Sentimos a terra firme. Seguimos as  nossas bússolas.  

Ou – vai lá saber - as nossas bússolas nos seguiram.

 


Dezembro 19 2009

 

Não imaginava que fosse assim.

 

Tão cansativo. Deveriam mudar o termo. De preparativo para preparatório. Parece o mesmo. Mas não é. Como todas as palavras parecidas - não querem dizer a mesma coisa. O mesmo significado. Nunca pensei. Ou já esqueci. Esqueço fácil o que é complicado. Como é cansativo. E emocionante. Por isso é um preparatório.

 

Essa olimpíada de véspera. De viagem.

 

Lembrei da minha avó. Ela sempre me alertava. Todo prazer tem antes e depois, menina, todo prazer tem antes e depois.

 

É verdade. Não sei como não observei isso antes. Observar é o termo certo. Porque foi só o que fiz. O dia todo. Hoje. E o dia de observar deveria ser amanhã. Porque é o dia da viagem. E ainda tem quem diga que o bom são os preparativos. Ou preparatórios. Vou orientar quem me disser isso - a procurar um especialista. Em doenças do psicológico.

 

Isso já é complicado. Uma só pessoa. Dois tempos. Não pessoais. Ambientais. Um de lá. Outro de cá. No tempo de cá estou me sentindo naquela tal cidade. A da neblina. Porque é só o que vejo do terraço. Paisagem bucólica. Enevoada. Brumas. Há uma semana - brumas. Quando modifica - relâmpago. Quando ele se encerra – brumas. Depois – relâmpagos. Uma roda viva de névoa e luz. Uma calma e outra acelerada. Como a urbanidade.

 

Não posso negar. E sempre vale lembrar. Com brumas. Ou com relâmpagos. Eu amo esta cidade.

 

Mas vou lá. Para o tempo de lá. Lugar de sol e mar. Praia. Areia. Pés ao vento. Cabelos ao sol. Não importa se resseca. A pele. O cabelo. Sei lá. As unhas. Não importa. Tanto tempo que não sinto - o mar. O cheiro do mar.

 

Até contei para aquele meu amigo distante. Que mora em frente a outro mar. Vai ver nem ele sabe. Que o mar tem cheiro. É preciso algum distanciamento. Para que depois se possa surpreender. Com o cheiro do mar.

 

Arruma daqui. Lembra dali. Ajeita mais um lugarzinho. Isso sim. Isso não. Absurdo. Sem isso não vou. Não vai caber. Vai sim. Tem que caber. Agora já não sei. Melhor tirar. Melhor deixar. Não. Basta uma. Não. Não vou me mudar para lá. Certo. Então concordo. Mas duvido. Não se preocupe. Sei como resolver. Certo. Então você resolve. Combinado. É verdade. Nem me lembrava. Acho que ainda cabe. Está bem. Retiro.

 

De repente – parei.

 

Me dei conta. Aliás, verbo quase certo. Fiz conta. Uma semana. Sete dias. Cento e sessenta e oito horas.  Sentei. Em meio ao isso-sim-isso-não. Que faria. Que farei. Como lidar com a falta do meu acesso diário. Das minhas leituras. Das minhas releituras. Dos comentários. Nunca senti uma verdade mais fisicamente do que neste momento. Toda escolha tem uma perda. Procede.

 

Crises de abstinência. Imaginei mil cenas. Letras gigantes nas paredes rindo. Gritando meu nome. Frases inteiras aparecendo e sumindo. Em meio às ondas. Nomes de autores se auto-escrevendo na areia. Meus dedinhos se movendo sem minha ordem. Eu tremendo ao passar por qualquer loja de informática.

 

E piorou. Se isso fosse possível. Mas foi. Possível. Possibilidade é persistente. Não sai fácil. Nem bem eu tentava entender. A possibilidade da tal crise de abstinência - e outra se instalou. Crise de carência. E a pergunta veio. Crua. Fria. Congelada. Em meio às brumas e envolta em relâmpagos imaginários. Será que notariam. Será que perceberiam.

 

Quase se somou mais uma. Mais outra. Crises seqüenciais. Crise de ausência - não vou mais. Crise de presença - vai sim. Crise de superioridade - deixa para lá. Crise de tecnologia - vou levar junto. Crise de obediência - é só uma semana. Crise de relatividade - cada um tem seu tempo.

 

O que não faltava em crise, sobrava em temeridade. Como a individualidade.

 

Lembrei dela. Disse que também iria para lá. Coincidência. Sim. Também. Adoro. Ver a tal queima de fogos. A virada do Ano na praia. Até imaginou se nos encontraríamos. Quem sabe. Tomara que sim. Ela é bem mais mutante. Do que eu. Avisou que ia levar um caderninho. E um lápis. Assim. Simples. Mutante e adaptante. Admirável.

 

O jeito será virar imitante. Certo. Poderei anotar. Rabiscar. Não perder a idéia central. Algo por aí. Mas não poderei enviar. Agora só na volta. Dos sete dias. De retirante a viajante. Agora uma nova espera. Retornante.

 

Crise é assim. Endoidante.

 

Certo. Cabe. Coube. Nada mais. Enfim. Fechou. Fechou. Vamos sim. Não é bom chegar em cima da hora. Principalmente nesta época. Estou. Peguei. Tranquei. Vamos. Desliguei sim.

 

Ainda bem que aqui tem este tipo de lojinha. Quem diria. Sim. Poderia me dizer quanto custa. Certo. Quero sim. Sim. Com esta tela - pequena - melhor ainda. Levo dentro da bolsa. Nada de desertar desejos de posse - no outro. É verdade.


Agora sim.


Viva a certeza do acesso. Viva a possibilidade do accessível. Vamos logo. Estão chamando para o embarque.


 


Dezembro 15 2009

 

O jantar fora maravilhoso.

 

Eles vieram cedo. E desde cedo a alegria estivera instalada. E circulando. Nos sofás. Nas cadeiras. Nas poltronas. Pela varanda. Pelo terraço. Incrível como as sensações funcionam. A alegria é objeto de qualificação. Não de quantificação.

 

Alegria faz murmúrio, como um roçar de tecidos finos. Como o passar de dedos em cristais trabalhados.  Um doce e suave murmúrio. Só quem a sente - entende. Foi o que todos descobriram na noite. Feliz. Felizes.

 

Distância foi outra descoberta. A rapidez como ela se anula. Ele estava distante. Ela junto com ele. Entre serras. Mas na hora dos brindes estavam ali. Juntos. Mais uma vez não se pode negar. Viva a tecnologia. Que permite dar um som ao coração.

 

Não resistiu. Fez mais um brinde.  À inteligência que permitiu a evolução. Algo por aí. Depois do pipocar discreto de bolhinhas nas taças não se pode exigir muito mais. Até riu. O espaço incluído. Incluindo. A distância foi vencida pela alegria. Pela afetividade.

 

No dia seguinte tinha mais. E os da serra estariam presentes. Corporalmente.

 

Lembrou a avó da amiga mais uma vez. Toda festa tem as próprias cores, menina, toda festa tem as próprias cores.

 

E foi cuidar das cores da dela.

 

Arrumou a mesa. Organizou o serviço. Colocou os presentinhos no lugar. Catou papel. Dispensou o dispensável. Organizou o indispensável. Ele só elogiava. Notou uma sutil diferença no olhar dele. Como se estivesse vendo algo novo nela. Que não vira antes. Não decifrou muito bem. A etiologia como diziam alguns. Mas gostou do que viu. No olhar dele para ela. E ficou ainda mais feliz na elaboração.

 

Todos reunidos. Sempre quis assim. Reunião por união. Não por datas. Ou por prioridades outras. Mas por união. E assim eles eram. Todos. Por isso a alegria era tão delicada. E, ao mesmo tempo, tão exposta.

Começaram as surpresas. As trocas. Os beijos. Os abraços. As boas intenções. As pluralizadas idéias. O toque de cada um. No conjunto para todos. Olhou em volta e pensou. Palavras não dão conta. Fotos não explicam. Aquarelas não dimensionam. A real emoção.

 

A Arte tenta. A cada tentativa, uma nova busca. Passam-se os anos. Modificam-se os estilos. De cavernas para os museus. De clássico para cubismo. De impressionismo para expressionismo. Olho em testa. Gritos em pontes. Grafites. Textos antigos com roupagem nova. Textos novos com leitura antiga. Não importa. A procura é de literalidade. De decifração da emoção. Mas isso só existe mesmo dentro de cada um. Cada um tem sua leitura. E sua memória. Baseada em seus códigos. Por isso não se consegue a transcrição perfeita.

 

A coletividade na Arte é mais uma tentativa. De dar conta da falta de coletividade. Para que se torne sustentável. A existência de cada um.

 

Foi em meio a esse pensamento - vindo sabe-se lá de onde - que escutou seu nome e o dele.

 

E entregaram uma caixa. Verde. Linda. Toda de etiquetas. Com os nomes deles. Abriu.

Esqueceu da delicadeza da alegria. Nada mais de roçar de sedas ou cristais. Abandonou toda a recém criada teoria da Arte. O mais novo conceito de coletividade. Qual o que.

 

Tivesse um cristal perto e teria se espatifado o coitado. Com o grito de feliz surpresa que ela deu. Ali estava o que ela queria há tanto tempo. Havia até pesquisado nas lojas. Mas achou que ainda não era o momento adequado.

 

Tinha fila. E a fila tinha que andar. Aprendera esse controle. Em meio ao seu descontrole habitual. Na hora do controle nem se entendeu. Mas se obedeceu. Pode-se assim dizer.

 

E agora estava ali. Nas mãos deles. Nas mãos dela. Adorou. Muito. Repetiu tanto isso. Até avisou que só conseguia pensar nisso. A partir daquele momento. A única coisa que falou com objetividade foi da cor. Do objeto desejado e recebido. Vermelha. E brincou. Adorou. Estava numa fase rubra.

 

Todos riam com a expressão dela. Porque ela só falava e repetia. Que maravilha. Adorei. Adorei. E repetia.

 

Colocou no lugar devido. Era uma preciosidade. Pela forma da entrega. Pelo critério da escolha. Todos eles se juntaram. Combinaram. Decidiram. Fizeram acontecer. E ela ali. Feliz. Repetindo. Adorei. Adorei. Ele olhava para ela e ria. Compreendia. O pensamento por trás do pensamento dela.

 

Ela sempre carinhosa. Ela que colocara os adesivos. Com tanto cuidado. Eles todos assinaram. Era muito mais que um presente. Era toda uma composição. Todo um trajeto. Até que chegasse às mãos deles.

 

E o mesmo foi feito entre eles. Cada um recebia sua caixa elaborada. Uma troca. Com a surpresa-do-desejado dentro. Mais um pouco e nasceria outra teoria sobre a Arte. Ou sobre a Coletividade.

 

Riu meio de cantinho. Mas não explicou.  

 

Eis o valor. Entendeu a fala da avó. É verdade. Toda festa tem mesmo cores próprias.E repetiu mais uma vez. Adorei. Ele existe.

 

 


Dezembro 10 2009

 

Começou a contar de repente. Tão de repente quanto a lembrança veio.


Pelo menos assim conclui. Como dizia a minha avó. Jamais perca a chance de escutar as lembranças, menina, jamais perca a chance de escutar as lembranças.


Lembrança é coisa séria. E muito mais séria se da infância. Porque é uma lembrança constituída. Construída. Esclarecida. E, principalmente, não compromissada.


Assim são as lembranças da infância. Não nos deixa dúvida. E nos deixa em dívida. Com a nossa memória. Com os nossos prazeres. Que depois até se multiplicam. Ou podem se multiplicar. Mas nunca igual como na infância. Com aquela sensação plena de prazer. Que toda a infância envolve. Seja de que forma for. Não tem preço. Nem taxa cambial. Muito menos selo de made in. Tem que ver com entrega. Com aceitação. Com riso. Estes sim. Os indicadores do afeto. Como um mercado de afeto sem nota fiscal. Mas com o aval do olhar.


E ele contou.


Quando se sentiu familiado. Assim mesmo. Familiado. Que nada tem que ver com familiarizado. Estava certo. Familiado é integrado. Juntado. Compartilhado. Familiado diz muito mais. Mesmo que não se fale assim. Não importa. Sente-se assim. E explica-se bem melhor. Pela primeira vez estava entre tios e primos. Lembrava da voz dela. Melhor dizendo. Lembrava das palavras dela .Porque do rosto esquecera. Perfeito.


A voz dela orientava a olharem para o céu. Lá veriam uma barba branca esvoaçada. Uma mão esticada segurando uma cordinha. Do trenó. E muita cor. No meio da noite. Que estava já chegando a hora.


Lembrou de várias cabecinhas viradas para cima. Como devem ser os bons sonhos.


Lembrou que olhou. Nem precisou se esforçar muito. Porque logo viu. E feliz riu. Era verdade. Exatamente como a voz descrevia. Viu tudo isso. Viu até barulho. Viu o vento na barba. Viu que os presentes meio que se batiam uns nos outros. Muitas caixas. Mal cabiam naquele espaço. Mas cabiam. E nem caíam. Escutou os sinos. Escutou risos. E muitas cores. Muito brilho. Uma luz toda especial. Em cima dos presentes. Das fitas e da barba.


Alguém os mandou dormir. Para que pela manhã estivesse já tudo arrumado.


Obedeceram. Obedeceu. Foi dormir pensando no céu. No vento. Nas cores. Na barba. Dormiu em meio a esses quadros. A essas imagens. Mágicas.


Quando acordou pela manhã teve que segurar o rosto. Com as duas mãozinhas.


Em volta da enorme árvore estava uma montanha maior ainda. De presentes. Muitas caixas coloridas. Sentiu-se de novo familiado.  Ele vira o percurso. Enxergara no céu. Sabia como tinham chegado ali. E como fora difícil com o vento que fazia.


E eles ali. Descabeladinhos. Descalços. Com uma pressa que jamais sentira de novo pela vida a fora. Com tamanha urgência e ansiedade. Era preciso abrir logo. E cada um tinha um nome. Era preciso ver seu nome. Alguém tinha que ler seu nome no pacotinho. Para tomar posse como destinatário. Engraçado como isso depois se torna comum. E sem brilho. Ou sem aquele brilho.


Não lembrava a comida. Não lembrava o depois. Lembrava do seu presentinho. Uma imensa carruagem. Com lona. Com cavalinhos. Com rodinhas que giravam. Olhou encantado. E cada um deles abriu o que era seu. Em nome e - por conseqüência - em direito.


Passaram o dia brincando. De vez em quando ele olhava para o céu. Queria poder agradecer. Mas não via o dono da barba.


Achou que nunca mais o veria. Depois daquela noite.


Em meio ao relato da lembrança riu. Riu mesmo. Não devia ser uma montanha de presentes. Não devia ser enorme a árvore. Nem devia ser tão grande a carruagem.


E fez um gestual imaginário. Um muito obrigado. A quem não teve a idéia - de fotografar.


A criatividade na descrição de uma lembrança dá muito mais realidade do que uma foto. Uma foto apenas expõe uma cena. Congelada. Nada mais que isso. Não revela a dimensão do que se vive - no instante da foto.


E ele, que vivia em volta de papéis, pela primeira vez ficou feliz com a falta de documentação histórica.


Riu. 


Deu um salto da poltrona. Assim. Sem mais nem por que. Olhou atentamente para o céu. Teve uma súbita impressão. De ver um sorriso cúmplice. Dirigindo-se a ele. E meio encoberto. Por uma barba branca.


Tranquilo, sentou de volta na poltrona. E com uma suave sensação - de agradecimento cumprido.

 

 


Dezembro 06 2009

 

O amanhecer fora suave. Ainda bem.

 

Sem muito sol. Nenhuma chuva. Nem muitas nuvens. Com leve azul. Um dia para ser seguido de acordo com a vontade de cada um. Cabiam todos os gostos. E estilos.

 

Pode se conhecer um pouco mais os habitantes de uma cidade - pela atitude da cidade em torno deles. Pela forma como é construída. Pela forma como é concluída. Ou mais ainda – pela forma como acolhe a demanda de cada um dos seus moradores.

 

Nas ruas e nos jardins as flores já se antecipavam ao calendário sazonal. Os tons variavam entre amarelinhos, rosas e roxinhos. Assim enfeitavam aqui e ali. Com uma delicadeza que dava prazer de olhar.

 

Até o Parque já mudara seus tons. Surgiu um festival de cores. Muito lindo.

 

No dia que avisassem – é hoje – já estavam em pleno acordo. Viva o tempo da Primavera. Nada mais de cinza. De preto. De marrom. De botas. De corpos recobertos. Do pudor excessivo do inverno.

 

Agora todos estavam coloridos. Sandálias percorriam rápidas as calçadas. Os gramados. Bermudas liberam os que os agasalhos por tanto tempo recobriram. O chão já não tem mais o brilho frio da garoa.

 

Não há mais temor no esbarrar. Já não há tanto caminhar de cabeça baixa. As pessoas olham para cima. Para quem passa.  Cruzam e entrecruzam as ruas e as vitrines. Mais expostas. Menos pudorosas.

 

Até os comerciais mudaram.

 

Nada mais de feira de linha. De lã. De malha. De couro. De vinho.

 

Agora é protetor solar. Mil marcas e ofertas. Cervejas. Refrigerantes. Frutas.

 

Já não há mais toldos. Aquecedores. Janelas fechadas. Nos bares - mesinhas nas calçadas. Nos restaurantes - cardápios giram em torno de saladas e bebidas frias.

 

Nunca notei. Até me surpreendi. Mas é verdade. Ri-se muito mais diante do Sol.

 

E foi diante deste cenário que ele sugeriu o lugar. Perfeito. Depois ainda poderíamos caminhar um pouco. E presentear a retina com as alamedas floridas. Estava iniciado o fim de semana.     

 

Ela chegou. Já devia estar na oitava década.

 

Bonita. Elegante. Uma blusinha fina de cor verde recobria um conjunto bege. A pele clara. Os cabelos grisalhos bem arrumados. Um sutil ar de segurança dava o arremate final.

 

Escolheu a mesa. Sentou-se com cuidado. Olhou em volta com pouca curiosidade. Parecia estar muito bem acompanhada. Com ela mesma. Olhou em direção ao céu algumas vezes. Logo que chegou. Talvez para conferir as possibilidades. Confiante na própria conclusão - acalmou-se.

 

Quando o garçom lhe entregou as opções - foi decidida. Iniciou com um vinho branco. Um comportado convidado – digamos assim. Servida – pareceu se deliciar com a escolha.  Daí em diante o mundo ficou bem particular. Comeu com parcimônia.

 

De vez em quando girava o olhar pelo ambiente. E dele também se servia. Mas nada que apontasse para algum tipo de busca. Mantivera a curiosidade. Mas já dispensara a ansiedade.

 

Ela estava só. Mas não solitária. Parecia brindar algum tipo de vaidade. De orgulho. Havia algum pecado capital em torno dela. E, certamente, festejado. Disso não havia dúvida.

 

Manteve todo o tempo uma expressão de tranquilidade. Fosse o que fosse que aprendera na Vida – dera-lhe boas alegrias. Algo por aí. Difícil entender a ideia atrás do gestual. Mas ela - mesmo discreta - era exposta. Ao menos o suficiente para permitir este risco de avaliação.

 

Com a mesma objetividade que se serviu – deu por encerrado. Recebeu um discreto cumprimento de quem a atendia. Devolveu na mesma medida.

 

Quando saiu deixou a taça ainda com um pouco de vinho. O guardanapo realinhado. A cadeira cuidadosamente recolocada na posição. Mesmo na ausência – deixou marcada sua sóbria elegância. Como um sinal de respeito – por onde passava. E se comprazia.

 

Olhei para as mesas em volta. Alguns conversavam animados. Outros mais cuidadosos como temendo ser escutados. Um casal trocava beijinhos carinhosos. Um senhor reclamava do trânsito constante.

 

Solitário é quem não participa. Ou se conclui dependente por antecipação. Quem assustado - se recolhe. Ou temeroso de se expor por si mesmo – se afasta da vida.

 

Eis o que ela me ensinou. Com sua taça de vinho e sua tranqüila elegância por companhia.

 

Comentei com ele enquanto caminhávamos pelas alamedas com florzinhas recém brotadas. 

 

 

 


Dezembro 05 2009


Acordou no horário adequado. O dia da retomada chegara.

 

Parecia título de filme de guerra. Até riu. Nem sabia de onde tirara a ideia. Mas já que veio – permaneceu. Esta nova fase obediente estava já cronificando. Mas enfim. Quem sabe será uma etapa valorosa. Confiava nos pequenos revezes. Pequenos – olhou de soslaio em sinal de advertência – ao Universo.

 

Eis aí. Já batendo na porta. O Dia da Retomada. Não tinha montes. Nem castelos. Nem barricadas. Nem arco. Nem flecha. Nem espada transfixada em pedra.

 

Era apenas o reinício. Continuaria exatamente de onde tinha parado.

 

Cedo desceu. Com calma. Sem atropelos. Ainda estava convalescendo. Um passo errado e lá se ia tudo a perder. Nem pensar. Ainda estava bem na borda da memória tudo que sentira. As dores. Os desconfortos. De perfeito só a nevasca no sétimo andar. Doce e suave fruto de uma simples e objetiva medicação. No mais - a realidade não poupou sinais de efetiva presença.

 

Mas corajosa – enfrentara. Este mérito não permitia avareza. Principalmente de si mesma. Sobrava ego. Elogiava-se. Congratulava-se. Mais um pouco e se medalhava.

 

Diante de tanto - ele ria. Divertido. Já afeito ao estilo dela – concluiu. Está melhorando rápido. Esta já é quase ela. Sábio.

 

Mas acabou. Agora era tratar de possibilitar a rotina. Axioma imediato. Nada existe no mundo que seja mais apressado do que a rotina. Em se restabelecer. Quando avisada – já tem que ser. Um verdadeiro e perfeito instantâneo. Nem bem se pensa e já está lá. Cumprindo as funções. É tão acelerado o processo que demora a compreensão exata do tempo.

 

Enfim.

 

Obedeceu. Lembrou até da música. Como era de costume. Não era. Mas estava. Por um tempo recente. Só não garantia a durabilidade do estilo subserviente. Vai lá saber quando tudo muda.

 

Mas se deu um direito. Pensar e refletir. Mesmo esta palavra que sempre rejeitou. Refletir. Mas não lhe ocorreu outra no momento. Ficou com esta mesmo.

 

Rotina deveria ter um significado especial no Dicionário. Lembrou uma definição que lera há pouco tempo. Num dia de provável muito ócio – e nenhuma criatividade.

 

Pesquisara esta palavra. Rotina.

 

E lá encontrara.  Num dos mais conceituados. Caminho habitualmente seguido ou trilhado; caminho já sabido.  Hábito de fazer as coisas sempre da mesma maneira, maquinal  ou inconscientemente, pela prática, imitação. Hábito inveterado que se opõe a inovações ou progresso. Feitio e espírito conservador. Relutância contra o que é novo. Costume antigo.

 

Deu vontade de escrever para o autor. Pode até ser o que eles definem. Não iria discordar de tamanho estudo. Ou conclusão. Mas podia ao menos reclamar. Avisar. Vai ver não notaram. Ou então não vivem uma - Rotina.

 

Informaria. Com delicadeza. Mas com absoluta firmeza. Falta completar. Rotina é praticamente um ser. Um ser objetivo e de pouca conversa. É autoritária. Impiedosa. Demandante. Qual uma retórica de si mesma. Algo por aí. Mas nada fez. Devia ainda ser o efeito da nevasca. A tal do sétimo andar. Riu.

 

Todo este complicado processo durou o tempo de lá chegar. O percurso. Tanta exacerbação neuronal num trajeto. Quase riu. E com tantos cuidados no caminho. Tinha que estar atenta. Afinal – era uma convalescente ainda. Perfeito.

 

Chegou. Tudo estava tão igual. Em tão curta ausência - tão longo afastamento.

 

Sentiu-se um pouco alheia. E um pouco participante. Sensação estranha. Voltar e retomar pareciam mais simples vistos de casa. Ou - durante a discussão. Com o inocente autor de dicionário.

 

Subiu. Abriu a porta da sala. Ela cuidadosa – já deixara o protocolo em local habitual. Esperou que chegasse - com beijos e abraços. Tudo estava arrumado. O material específico na pasta preta. A listagem da agenda na posição correta da chamada. Tudo disposto do jeito que ela gostava. Até a cortina já estava aberta.  

 

Nova e deliciosa descoberta. Simples. Mas prazerosa. Tinha retomado. Reiniciado. Recuperado.

 

Rotina – também - é Vida. Sorriu feliz.  

 

Chamou o primeiro atendimento.

 

 

 


Dezembro 01 2009

 

Lembrara do sábio Poetinha camarada. Era claro e objetivo. Por isso mesmo um Poeta.

 

Nada como o tempo para passar.

 

Esta frase ficou guiando o amanhecer. Repetiu-se muitas vezes. Autoritária. Persistente.

Procedia. Já se fazia quinze dias. Desde aquela tarde.

 

Ficou com alguns lapsos solidários aos lapsos da consciência. Lembrava da injeção. Lembrava das mãos dele apertando as dela. Lembrava que nevara no sétimo andar. Riu. Aquela risadinha lúdica por entre os lábios. Por isso adorava as defesas da emoção. A neve fora muito companheira. O local era frio. Melhor um deslocamento. Correto.

 

Passara estes dias em casa.

 

Deitada - no início. Parecia que nunca mais se moveria. Devia ser algum Festival de Gemidos. Deveria estar participando de um deles. E vai ver não lembrava. Fora inscrita – sem autorização. Até sem solicitação. Mas enfim.

 

Não fugia ao estilo dela. Eis algo inegável. Era dramática - mas se divertia com o libreto. Ocasionalmente gemia. E deitada ficava.

 

Foi assim que lembrou o Poetinha.

 

Foi mais rápido do que o previsto. Se sentiu como renascida. Foi até o espelho. Se confirmou.  Daí em diante o ritmo mudou. Sentou. Caminhou. Desceu. Subiu. Participou.

 

Viu a chuva do terraço. A cor cinza dominava a paisagem. Enevoava a visão. Obstaculizava os detalhes. Encobria as mil e tantas janelinhas. Desordenava os mil e tantos prédios. À sua frente apenas uma cortina de água.

 

Teve de tudo. De garoa a temporal. Raios e trovões. Depois o céu azul. O calor. A brisa. O clima parecia seguir uma ordenação. Dentro do caos absoluto. Fosse um pouco mais paranóica e acharia que tudo era com ela. Mesmo que a favor. Riu de novo.

 

Mas o mundo gira na posição correta. Principalmente quando há um calor a mais. Como se as Leis da Física se tornassem viáveis. Quase compreensíveis. Tudo parece mais nobre. Nem sabia se este era o termo correto. Mas foi o primeiro que veio à mente. Obedeceu.

 

Recordou desde o dia da decisão. Desde o agendamento.

 

Ele acatara. Acolhera. Que seja assim então. Sem nenhum apesar de. E ela se sentiu bem. Muito bem.

 

Antes. Muito antes. Desde há dez anos. Ele sempre compactuando. Na singularidade das rotinas. Nas parcerias das definições. Presente. Mesmo – se - não corporalmente. Dedicado. Cuidadoso. Não faltavam mimos. Nem gracinhas. Nem ombro. Na ausência física - telefonava.

 

Mas a partir daquela tarde - ratificou. Entendeu letra por letra - o significado da palavra companheirismo.

 

Nada tem a ver com solidariedade. Com preocupação. Com certidão.

 

Companheirismo é uma atitude. Uma emoção. Maior que um ato. Menor que um fato. Acima de um contrato.  

 

Expõe-se no olhar. Na modulação da voz. Nas sugestões mais simples. Surge por inteiro. E compõe a própria tela – aos pedacinhos. Não é invasivo. Nem acidental. Pode até carregar alguma temeridade. Mas é pleno de afetuosidade. É sutil. Mas inflexível. É doce. Mas perspicaz. Não compartilha com nenhuma outra filosofia nem mandamento. Vive a exclusividade do gestual.

 

Companheirismo é da ordem da precedência. Antecedência. Tem um tempo particular. Que desarticula proposições e mediações. E vive num espaço próprio. Não questiona parcialidades.

 

Descobriu – surpresa - que não é uma opção. Não sabia bem o que era. Vai ver a chuva também interferia na nitidez. Das conclusões. Até riu.

 

Olhou para dentro do terraço. Viu a casa. Os quadros. Os móveis. As fotos nas mesinhas. Parecia tão iluminada. Perfumada. Entrou. Continuou consigo mesma. Quase numa dialética enviezada. Não achava a saída. Se fosse um mérito – era minimizar o ser. E fazer dele um estar. Não era bem isso. Era muito além - disso.

 

Teve enfim uma mágica sensação de percepção. Riu. O telefone tocou. Era ele. Perguntou pelo cansaço. Pelo descanso. Pelo dia. Pela rotina mudada. Pela planejada. Até pela dispensada. Riram.

 

Entendeu. Companheirismo é ligação. Ergueu um brinde metafórico – às metáforas tradutoras da Vida.

 

Jogou um beijo em direção a ele.


 


Novembro 29 2009

 

O acidente fora terrível.

 

Uma profissão onde o acidente era o oposto exato ao proposto. Foram cedo cumprir suas funções. Rotineiras. Tentavam colocar os pontos subterrâneos de ligação de luz. Dentro da terra. Submetidos ao mundo.

 

Na explosão – ficaram no escuro. Queimados. Lá embaixo. Os dois.

 

Retirados – foram encaminhados ao local de socorro. Desorientados. Gementes. Ainda sem compreensão. Os acidentes são rápidos. O entendimento é lento. Como uma defesa. Do corpo. Da emoção. Da sensação.

 

É preciso mais que uma explosão – para que o pensamento se adeque a uma situação súbita. Seja ela qual for. Assim eles estavam. Assim chegaram à Unidade de Emergência.

 

Corpos queimados. Retorcidos. Contaminados. Entre o que impede e o que invade – uma fronteira tinha se rompido.

 

Ela encerrara o período de especialização. Um dia avisara. Jamais voltaria a cuidar de queimados. Delicada - sentia o peso da dor já no atendimento. Rigorosa nos procedimentos – temia nem sempre ter acesso ao necessário. E diante de si mesma – assim decidiu. Não. Nunca. Atuaria em outras áreas.

 

Esta não cabia mais a ela. Em uma só modulação vocal - convenceu ao outro e a si mesma. Repetiu. Não. Nunca. Decisão exposta e imposta.

 

Escutei uma vez alguém comentar. O Universo é surdo diante de nãos e nuncas. Perfeito. Deve ser esta a explicação.

 

Eles chegaram. No momento exato em que ela chegava. Um encontro. O encontro. Inadiável. Irrecusável. Sim. Agora mesmo.

 

E a partir do encontro – quarenta dias se seguiram. Uma nova rotina se estabeleceu.

 

Durante este tempo - ambos inconscientes. Respiravam por tubos.

 

Alimentavam-se por tubos. Nada sabiam. Nada viam. Nada escutavam. Corpos presentes - nas ausências.

 

Cuidou deles no silêncio. Durante os quarenta dias seguintes acordou às seis horas da manhã. Pontualmente. Ia para a Unidade. E os operava. Todos os dias. Enxertos. Remoções. Composições. Fazia todos os procedimentos necessários. Silenciosa. Como eles.

 

E à medida que eles melhoravam – ela ia se transformando. Só descobriu isso um tempo depois.

 

Nem toda pele é externa.

Há sempre uma outra. Invisível. Intocável materialmente. Mas que também faz contornos. Que também pode ser ferida. Ou festejada. Que permeia as emoções. Reorganiza um novo corpo dentro do inconsciente de cada um. Vai se construindo junto com o amadurecimento. Não da idade. Mas da própria Vida.

 

Algumas vezes imaginava como seria o despertar. Deles.

 

O dela já acontecera. Desde o primeiro encontro. Agora restava o deles. Para complementar o dela. Mais ou menos assim - também - é a Vida. Enfim.

 

Imaginava a apresentação. A confirmação. Que diriam quando acordassem. Havia um conhecimento de um lado. O dela. E um desconhecimento do outro. O deles.

 

Às vezes até ria. Mulher. Magrinha. Com suaves traços orientais. Jovem. Não alta. Eles iriam se assustar. Mas seguia. Diariamente. Cumpria com integridade o que a si propusera.

 

Chegou o dia. Eles acordaram. Primeiro um. Logo depois o outro.

 

Se olharam. Se viram.  Se enxergaram. Assim. Pareciam se constituir pelo olhar. Primeiro individual. Depois a busca pela parceria. Numa sequência quase perfeita. Se re-conheceram.

 

Revistaram a pele externa. Iniciaram – solitários - a recomposição da pele interna. Lembraram o acidente. Escutaram a explosão. Foi um período complicado. Havia um passado não vivido para ser assimilado. Com uma etapa faltante. Qual um nascimento – só que com memória. E o resto seria composto pelo outro. Pelo relato do relato.

 

Há um ano eles a visitam nas datas ditas especiais. Gratos. Íntegros. As marcas que portam – não impedem a vida que tinham. Exercem suas atividades dentro do planejado.

 

Ela feliz - elogia. Não a ela. Mas à pele deles. À coragem deles. Mesmo que aparentemente ausentes. Venciam suas batalhas na Unidade - como na função profissional. O objetivo persistira - concluir com luz.

 

Há algo inegável. Eles chegaram. No momento exato em que ela chegava. Um encontro. O encontro. Inadiável. Irrecusável. Sim. Agora mesmo.

 

Semelhante à pele - nem toda Luz é a visível.

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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