Blog de Lêda Rezende

Dezembro 25 2009

 

Não há um só dia que não nos encontremos.

 

Os cumprimentos são rápidos e risonhos. Assim. De forma despretensiosa. E superficial. Ele sempre apressado. Eu sempre apressada. São muitos os horários a serem cumpridos. E muito mais agendas a serem atendidas.

 

Ele com um caminhar mais pesado. Mas sempre uma expressão alegre. O riso fácil emoldura os fortes traços orientais. Um sotaque marcado ainda denuncia a imigração não muito longínqua. 

 

Assim nos falávamos. Entre uma subida ou descida de escada. Os elevadores demoram muito. O jeito é caminhar. Ele sempre acrescentava. Faz bem à saúde. Este o máximo de diálogo.

 

Mas nesse dia falamos mais um pouco. Além das escadas. E dos cumprimentos superficiais.

 

Surgiu uma oportunidade. Um mesmo percurso. E lá fomos contando um pouco dos pontos biográficos. Ao menos os que pareciam mais destacados.  

 

Viera de muito longe. De uma travessia quase igual ao sol.

 

Começou pelo avô. O avô era como um personagem de um livro. Era o sábio da aldeia. Respeitado e reverenciado. Jovens e idosos de todas as idades o consultavam. Indicava poções ou dava conselhos.

 

Era um velhinho calmo. De olhar tranquilo. Mas de profundo conhecimento dos riscos do corpo mal compreendido – sob o peso da alma mal entendida. Enxergava a possibilidade da cura como uma exclusiva ação de equilíbrio entre os dois.   

 

Observara o avô - por toda a infância. Morara lá até os doze anos de idade.

 

Um dia o pai o avisara. Vamos nos mudar. Para lá. Será melhor para todos nós. Vou primeiro. Depois mando buscá-los.

 

Um ano depois estava se despedindo. Do avô. Deu-lhe - triste - o que seria de fato o último abraço. Dos amigos. Dos hábitos. Dos cheiros. Da terra. Até dos risos.

 

A mãe embalara o que tinha de importante. Privilegiou fotos e quadrinhos da casa. Entre roupas e sapatos abrigou o mais que pode da própria história.

 

Lembra dela entregando a chave da casa a um novo proprietário. Mas trancando ela mesma a porta – antes de entregar. Notou um tremor discreto das mãos dela.

 

Ele veio tão assustado que lembra a dor que sentia ao respirar. Nunca escutara falar deste país. Nem sabia em que lado da Geografia deveria olhar.

 

E nem olhou.

 

Aprendeu logo depois que as distâncias não são bem explicadas nos mapas.   

 

Nesta parte do relato riu. Um riso triste. No terceiro dia que aqui chegou – estava matriculado e frequentando uma escola pública.

 

Não sabia o idioma. Não entendia as brincadeiras dos colegas. Não compreendia as ordens dadas. Entrou em uma fase de silêncio profundo.

 

Talvez gestante de si mesmo. Nem em casa falava. E durante esse período teve um aprendizado especial.  Aprendeu a ler as expressões. Podia não entender o que falavam. Ou os chistes em volta dele. Mas já sabia ler muito bem as pequenas maldades e criticas negativas. Pela forma do olhar – sabia o pensamento de cada um.

 

Até hoje é grato a ela - uma professora. Talvez o tenha ajudado a nascer de si mesmo. Ficava com ele após as aulas. Todos os dias. Tentava ensinar um pouco mais. Os sons das letras. A forma de melhorar o sotaque. As rotinas da cidade. A compreensão de fusos e latitudes.

 

Não tinha o avô sábio por perto. Mas tinha uma sábia professora ao lado. Se sentiu mais tranqüilo.

 

Trinta e cinco anos se passaram. Desde aquele terceiro dia de imigrante. E primeiro dia de aula.

 

Em meio a esse tempo um diploma lhe foi entregue. Contou-me que escolheu esta especialidade por um motivo simples. A forma de se referir por si só já é bela. Dar a luz. A maioria vai até lá feliz. E de lá sai mais feliz ainda.

 

Até hoje se emociona com os nascimentos. E se encanta diante do tal milagre da vida. Quando dá algum conselho – lembra do avô. E se esforça para ensinar o equilíbrio.

 

Mas fez uma espécie de aspas na conversa.

 

Contou. Logo que se graduou – fez questão de retornar. Passaria lá um mês. Entre os seus de origem. Reconheceria o que deixara para trás. Apertaria as mãos dos amigos. Resgataria os hábitos. Sentiria os cheiros. Tocaria na terra. Esbanjaria os risos. Reveria os códigos.

 

Foi assim que aprendeu que as distâncias não são bem explicadas - nos mapas.

 

Viu-se estrangeiro. De lá. Concluiu com certa nostalgia. Ali não mais pertencia. Era um visitante – em desacordo. Voltou - sete quilos mais magro. Doente e em desequilíbrio - a alma e o corpo.

 

Entrou em sua casa do lado de cá. Sentou-se na primeira cadeira que encontrou. Deitou as malas no chão. Olhou em volta. Mais do que a captura de si mesmo - estava feito a sua re-integração. Talvez pela primeira vez na vida tenha compreendido as palavras do avô.

 

Recuperou rápido peso e saúde. E desta vez não esperou o terceiro dia. No dia seguinte já estava exercendo a sua função escolhida. Sorridente. Adequado. Com sotaque ainda marcado - mas com chistes compartilhados.

 

Nos despedimos com um até breve.

 

Entendi um pouco mais - o amplo milagre da Vida. Desde um avô que nunca conheci aos riscos no mapa - aprendi que uma história se compõe sempre além de si mesma.

 

Lembrei da frase. E a palavra uma vez lançada voa irrevogável.         

 

Procede.

 


publicado por Lêda Rezende às 20:21

Dezembro 10 2009

 

Começou a contar de repente. Tão de repente quanto a lembrança veio.


Pelo menos assim conclui. Como dizia a minha avó. Jamais perca a chance de escutar as lembranças, menina, jamais perca a chance de escutar as lembranças.


Lembrança é coisa séria. E muito mais séria se da infância. Porque é uma lembrança constituída. Construída. Esclarecida. E, principalmente, não compromissada.


Assim são as lembranças da infância. Não nos deixa dúvida. E nos deixa em dívida. Com a nossa memória. Com os nossos prazeres. Que depois até se multiplicam. Ou podem se multiplicar. Mas nunca igual como na infância. Com aquela sensação plena de prazer. Que toda a infância envolve. Seja de que forma for. Não tem preço. Nem taxa cambial. Muito menos selo de made in. Tem que ver com entrega. Com aceitação. Com riso. Estes sim. Os indicadores do afeto. Como um mercado de afeto sem nota fiscal. Mas com o aval do olhar.


E ele contou.


Quando se sentiu familiado. Assim mesmo. Familiado. Que nada tem que ver com familiarizado. Estava certo. Familiado é integrado. Juntado. Compartilhado. Familiado diz muito mais. Mesmo que não se fale assim. Não importa. Sente-se assim. E explica-se bem melhor. Pela primeira vez estava entre tios e primos. Lembrava da voz dela. Melhor dizendo. Lembrava das palavras dela .Porque do rosto esquecera. Perfeito.


A voz dela orientava a olharem para o céu. Lá veriam uma barba branca esvoaçada. Uma mão esticada segurando uma cordinha. Do trenó. E muita cor. No meio da noite. Que estava já chegando a hora.


Lembrou de várias cabecinhas viradas para cima. Como devem ser os bons sonhos.


Lembrou que olhou. Nem precisou se esforçar muito. Porque logo viu. E feliz riu. Era verdade. Exatamente como a voz descrevia. Viu tudo isso. Viu até barulho. Viu o vento na barba. Viu que os presentes meio que se batiam uns nos outros. Muitas caixas. Mal cabiam naquele espaço. Mas cabiam. E nem caíam. Escutou os sinos. Escutou risos. E muitas cores. Muito brilho. Uma luz toda especial. Em cima dos presentes. Das fitas e da barba.


Alguém os mandou dormir. Para que pela manhã estivesse já tudo arrumado.


Obedeceram. Obedeceu. Foi dormir pensando no céu. No vento. Nas cores. Na barba. Dormiu em meio a esses quadros. A essas imagens. Mágicas.


Quando acordou pela manhã teve que segurar o rosto. Com as duas mãozinhas.


Em volta da enorme árvore estava uma montanha maior ainda. De presentes. Muitas caixas coloridas. Sentiu-se de novo familiado.  Ele vira o percurso. Enxergara no céu. Sabia como tinham chegado ali. E como fora difícil com o vento que fazia.


E eles ali. Descabeladinhos. Descalços. Com uma pressa que jamais sentira de novo pela vida a fora. Com tamanha urgência e ansiedade. Era preciso abrir logo. E cada um tinha um nome. Era preciso ver seu nome. Alguém tinha que ler seu nome no pacotinho. Para tomar posse como destinatário. Engraçado como isso depois se torna comum. E sem brilho. Ou sem aquele brilho.


Não lembrava a comida. Não lembrava o depois. Lembrava do seu presentinho. Uma imensa carruagem. Com lona. Com cavalinhos. Com rodinhas que giravam. Olhou encantado. E cada um deles abriu o que era seu. Em nome e - por conseqüência - em direito.


Passaram o dia brincando. De vez em quando ele olhava para o céu. Queria poder agradecer. Mas não via o dono da barba.


Achou que nunca mais o veria. Depois daquela noite.


Em meio ao relato da lembrança riu. Riu mesmo. Não devia ser uma montanha de presentes. Não devia ser enorme a árvore. Nem devia ser tão grande a carruagem.


E fez um gestual imaginário. Um muito obrigado. A quem não teve a idéia - de fotografar.


A criatividade na descrição de uma lembrança dá muito mais realidade do que uma foto. Uma foto apenas expõe uma cena. Congelada. Nada mais que isso. Não revela a dimensão do que se vive - no instante da foto.


E ele, que vivia em volta de papéis, pela primeira vez ficou feliz com a falta de documentação histórica.


Riu. 


Deu um salto da poltrona. Assim. Sem mais nem por que. Olhou atentamente para o céu. Teve uma súbita impressão. De ver um sorriso cúmplice. Dirigindo-se a ele. E meio encoberto. Por uma barba branca.


Tranquilo, sentou de volta na poltrona. E com uma suave sensação - de agradecimento cumprido.

 

 


Outubro 20 2009

 

O aviso veio explícito. Claro. Objetivo.

 

É proibido beijar. É proibido abraçar. É proibido falar muito próximo.

 

Fiquei observando. Os comportamentos de cada um. À proporção – e este é o termo exato – que ela avisava. O olhar. A expressão facial. O gestual.

 

Diria até que se estava mais próximo a uma equação. E muito longe de um simples aviso com palavras. Ou com explicações. A equação de cada um que escutava não se somava com a do outro. Não havia uma conta. Ou uma soma. Nem uma divisão. Ou um parêntesis. Talvez – com muita benevolência - um x. 

 

Havia subitamente o conjunto vazio. Assim. Corpos estanques. Algo por aí. Quase uma matemática. Não fosse eu péssima com números e equações. Mas foi só o que me ocorreu enquanto olhava.

 

Este tipo de aviso - expõe.

 

Cada um a buscar em seu próprio corpo o limite de si mesmo. O corpo como uma prioridade extrema. Dava até para dizer que transcendeu a idéia da matéria em si. Uma metafísica ao contrário.

 

Provocou uma certa sonoridade. Pelo discreto re-acomodar nas cadeiras. Já todos se entendiam - num total conformismo com o distanciamento afetivo.

 

Ela que veio avisar – avisou rindo. Como se alheia estivesse ao ambiente. Ou ao risco. Deve ser como jogo de criança. Ganha quem fala primeiro.

 

Foi só o que me ocorreu ao vê-la dar um tom chistoso. Nem de longe pensei em associar ao Marquês. A dose do Marquês já está creditada em excesso.

 

Mas enfim. Deu um ar cômico diante da interdição. De repente - completou. Nem aqui – nem em casa. Cuidado com os familiares. Não teve jeito – venceu o Marquês.

 

Tudo começara com uma gripe. Desta vez. É o que parece. Porque impossível não generalizar. Algo como cíclico. As perdas diante dos desconhecidos, conhecidos e próximos – põem Dor como alvo. Para que o esclarecimento se faça objetivo. Procede.

 

De tempos em tempos – desde a antiguidade - surge uma doença universal. E lá se vem o isolamento. Não só dos doentes. Mas – e principalmente - dos sadios. Uma triste poesia abstrata. Todos lêem. Acreditam. Até se emocionam. Mas cada um vai compor as suas rimas da forma que mais se proteja. Também procede.

 

E existe nada mais imperativo de proteção - do que a interdição dos afetos.

 

Incrível. Como uma interminável expiação de culpa arcaica. Mais ou menos assim. Complicado definir a demanda individual diante de um temor coletivo. Ou o contrário.

 

Após o aviso não havia mais diferença entre o disfarçado temeroso e o suposto infectante. Ambos circulavam - quase igual a um falo. Da posse de um para a posse do outro. Cada um como portador exclusivo da praga.

 

Diante do outro também portador exclusivo da mesma praga. Um espelho - sem o país das maravilhas. E sem o coelho. Vai ver por isso se perdeu a hora.

 

Não faltaram as piadinhas defensivas. Uma forma suavizada de acatar. E – ao mesmo tempo – justificar. Não sei se conto em casa. Ela vai perguntar com quem me beijava aqui. Ainda bem que tenho um namoro virtual. Posso mandar beijo o tempo todo. Vou arrumar também um marido virtual. Por isso prefiro só meu cantinho. Nada de parceiros. Solidão faz bem à saúde.

 

E assim este dia seguiu. Cada um como seu advogado. E promotor do outro. Ou até um vice-versa cabe aí.

 

Quem chegava para as consultas oferecia e recebia um formal, polido e adequado - cumprimento. As salas sempre que possível - ficaram com portas abertas. É preciso que o ar circule.

 

Até ri quando escutei este comentário. E lembrei as tantas e tantas placas que têm nas ruas daqui. Nunca feche o cruzamento. Via alternativa. Não ultrapasse a faixa amarela. Via com câmeras filmadoras.  

 

Agora é preciso acrescentar mais uma. Interna. Privativa. Asséptica. Para combinar bem com o Lugar. Para fazer parte – se acumpliciando. Não importa se é social. Cordial. Fraternal. Sensual. Não há diferença. Novos tempos. Real e triste. Beijar não faz só sapinho. Beijar faz porquinho.

 

Nem bem tinha encerrado este pensamento - sobre os trilhos - e entraram duas pessoas. Estava super lotado. Pelo horário e pelo dia. As pessoas se amontoavam. A pressa do retorno era bem maior que a lógica do espaço.

 

Mas enfim. Eles entraram. Um homem e uma mulher. Seguravam as barras de ferro. Cuidavam para não cair sobre os outros. Ou os outros não caírem sobre eles. Estavam de máscara.

 

Impossível não parafrasear o mestre inglês. O resto é silêncio.

 

 


Setembro 13 2009

 

A discussão parecia séria.

 

Elas falavam e falavam. Não conseguiam atingir um acordo. Porque nem bem uma se calava – a outra retomava. Parecia que já estavam assim há um longo tempo.

 

Poderia se supor até desde sempre. As questões eram as mesmas. Comuns. Antigas. Seculares. Milenares. Parecia cena de déjà-vu.

 

Deviam regular entre três a quatro décadas - no máximo. Faziam expressões de intensa maturidade. De extensa profundidade. Gesticulavam com as certezas nas pontas dos dedos.

 

Viravam-se uma para a outra com ar de inspeção pessoal. Como se circulasse uma pré censura. Que cada uma pesasse bem o que fosse falar. Coisa difícil. Mas nunca impossível. Isso dava para acreditar só de olhar para elas.

 

De repente vi a expressão de uma delas.

 

Triste. Até submissa. Mais escutava que falava. Parecia que solicitava um aparte. Ou tentava erguer a mão. A pedir permissão. Ou talvez socorro. Como uma náufraga. Tentando chamar a atenção do navio. Para se expor. Menos. Ou quem sabe se impor. Mais.

 

A mão denunciava o pedido. Demonstrava o corpo por trás dela. Da mão. E todo o temor por trás do corpo. E a sempre possível solidão lá – emoldurando o temor. Ou o contrário.

 

Mas ficou ali. Tentando a permissão. Dava até a impressão de estar entediada. Mas não era uma avaliação fácil.

 

Era ela - o objeto da discussão.

 

A vida dela estava em acareação. Basculava entre o certo e o errado. Entre a culpa e a desculpa. Entre o feito e o desfeito.

 

Parecia um tribunal. Como se houvessem aberto uma sessão. Todos seguiam uma ordem. E obedeciam a uma desordem. Pela expressão que fazia - teria que ser a jurada de si mesma. A cada fala das incorporadas promotoras e defensoras. Sim. Porque elas alternavam. Mas não perdoavam. Nem a defesa perdoava. Era a defesa contrária. Não tinha juiz. Ou talvez tivesse. Mas ainda não se manifestara.

 

Havia algo ainda mais interessante naquela confusão.

 

Não olhavam para ela. Falavam dela. Isso estava claro pela sinalização dos dedos. Apontavam. Até diziam a palavra - ela. Ou – dela. Mas não olhavam para ela. Discutiam sobre ela. Mas a tratavam como ausente. Falavam-se entre si. Poderosas.

 

Mas nem tudo neste mundo é exclusivamente o que parece.

 

Ela começou a rir. Rir mesmo. Abaixou a tal mão supostamente erguida e começou a rir.  Até amparou a bolsa para que não caísse do colo com o riso. Segurar a bolsa para rir foi perfeito. Não vi nada mais adequado até aquele momento.

 

As outras silenciaram por um segundo. Depois um minuto. Depois caladas – mesmo - olharam para ela. Pela primeira vez. Desde que ali chegaram e se acomodaram - cada uma em seu Lugar de escolha.

 

A situação parecia se inverter.

 

Já não dava mais para saber quem era navio. Quem era náufrago. Muito menos onde estava o mar. Um riso modificou toda a cena. O cenário. Jurados e advogados. Como se fosse cada uma para um lado. Assim. De repente.

 

O riso se fez juiz.

 

Entre condenados e absolvidos - o riso bateu o martelo. Os do navio pareciam se debruçar sobre a murada. O náufrago parecia pensar se estava melhor com sua tábua. Ou sua bolsa. Uma cena cômica.

 

Elas fizeram um ar de irritação. Afinal. Só queriam ajudar. E estavam realmente preocupadas. E ela ria assim. Em meio a uma conversa sobre ela. Uma conversa dela.

 

Não respondeu objetivamente. Levantou. De um salto só. E já com a chave do carro na mão. A tal mão da bolsa e que parecia antes erguida. 

 

E disse. Assim. Despretensiosamente. Desculpem. Obrigada. Licença.

 

Usou todo este vocabulário polido. E continuou. Comecei a ficar com uma dúvida. De quem teria mais dó. De vocês. De mim. De nós todas. Foi ai que - vai lá saber por que - me lembrei. 

 

Achei que iríamos almoçar em casa. Daí vocês telefonaram e me convidaram para almoçar neste restaurante.

 

Havia já colocado um peixe para assar.  Esqueci de desligar o forno. Está lá já há mais de quatro horas. Ainda rindo completou. Por isso dizem que o peixe morre pela boca. Sorrindo - saiu.

 

Lembrei de uma fala da minha avó. Muitas vezes o auxílio vem do esquecimento, menina, muitas vezes o auxílio vem do esquecimento.

 

Estava - assim - encerrada a sessão.

 


Setembro 11 2009

 

O cenário era o mais - .

 

Parou na palavra mais. Faltou palavra. Sobrou questão. Faltou frase. Sobrou pontuação.

 

Assim. Como uma poesia invertida. Lembrou até do dramaturgo Frances. Ele estava correto. E atual. Era verdadeiro o teatro do absurdo. 

 

A caminhada era em direção à música. A um concerto. Conhecia a orquestra. Conhecia o local. Garantia de prazer com certeza absoluta.

 

Lembrei dela. Íamos muito. A última vez foi com ela. Ainda não tinha optado pelo teatro do além mar. Já acordei enviando recadinhos. Malvada - escrevi rindo. Adivinha para onde vou hoje.

 

O dia estava frio. O céu de um belo azul turquesa. Um ventinho tranqüilo percorria as pessoas e as árvores. Em volta do Teatro - prédios antigos restaurados davam um quase sofisticado toque de elegância - ao antes envelhecido e descuidado. Poucas pessoas passavam caminhando. Só um ou outro que parara o carro mais distante do local do concerto.

 

Foi nesse percurso que surgiu uma esquina.

 

A caminho do concerto.  E foi na virada da esquina que pareceu virar o mundo. Ao avesso. Ou ao direito. Isso nunca se sabe mesmo. Mas parecia que tinha virado. Talvez até coubesse um túnel. O do tempo.  Tudo isso me veio à mente. Aos borbotões. Pode até ter faltado palavra ou frase. Para completar o mais. Porém não faltaram - mais.

 

Ali poderia caber tudo. O começo. O meio. Até o fim. Do mundo. Parecia que espaço e tempo tinham se desordenado de repente. Onde era para ser centro – se transformara no final. Onde era para ser contemporâneo - se transformara em medieval. Mais ou menos assim.

 

Passível de se dizer - assombroso. Ou pavoroso. Ou deprimente. Ou assustador. Ou melancólico. Tudo com um mais na frente de cada adjetivo.

 

Ela vinha. Caminhava seminua. Devagar. Parecia completamente à vontade. Aliás. Termo realmente adequado. Não ria alto. Não chorava.

 

Tinha o sorriso mais tranqüilo – outro mais – que se poderia supor. A roupa suja e rasgada cobria-lhe as partes escolhidas pelo tecido. Não por ela. O que expunha e o que ocultava era um mero detalhe aleatório. Onde não tivesse furos ou faltas – estava coberto o corpo.

 

Olhou para mim. Com aquele mesmo sorriso-tranquilo-social. Fez um aceno com a cabeça.

 

Lembrei do ar sofisticado dos prédios envelhecidos. Só que ao contrário deles - não fora restaurada. Muito menos acolhida. Morava onde deitasse. E sua casa era uma sacola que segurava com a mesma tranqüilidade que sorria.

 

Era jovem. Deveria nem ter chegado à terceira década.

 

Alguns ainda dormiam pelas calçadas. Outros comiam. Outros simplesmente restavam ali. Não olhavam nem para ela - nem entre si.

 

Estanques no particular de cada história. De cada destino.

 

Depois do aceno que me fez, virou-se para o céu. Olhou. Conferiu. Não sei bem o que. Mas pareceu encontrar o que buscava. Fez uma volta sobre si mesma – sentou num degrau da calçada. Displicente com as roupas e seus rasgados permissivos – abriu a sacola. E se concentrou.

 

Quem sabe - uma Pandora de si mesma. Moderna portadora das aflições antigas. Ou o contrário.

 

Mas esta não é uma avaliação fácil - nem confiável.

 

Na esquina seguinte - outro cenário. Surpreendente - não fosse a certeza do procurado.

 

Mudava tudo. Desde cores a cheiros. Desde passantes a ocupantes. Dava até para uma confusão mental. Como se os atores desta peça urbana e a construção apropriada para a encenação - estivessem em desencontro.

 

Lá estava o belo Teatro. Suntuoso. Imponente. E com a fachada em restauração.  Incrível.

 

Até olhei para trás. Ela não estava. Esta não era a esquina dela. Ou ela não era desta esquina.

 

Nas escadarias as pessoas aguardavam. Excessos de tecidos cobriam os corpos. Meias e botas. Sorridentes e falantes – muitos aguardavam a abertura.  O dia frio convidava a agasalhos coloridos. E era um –mais – de delicada sobriedade. Quase uma celebração.

 

Veio o primeiro aviso. O segundo. A orquestra começou.

 

O regente ergueu a batuta.  Excessos e faltas se igualaram e se diferenciaram.  A música preencheu espaços. Enfiou-se em cantinhos. Aguçou sentidos. Liberou emoções. Como se despisse a cada um por inteiro. E cobrisse a cada um por partes.  

 

Na saída voltei pelo mesmo caminho. A Pandora de si mesma e a sua caixa - dormiam aconchegadas.

 

Estava assim – mais - marcado o domingo.

 


Agosto 19 2009

 

Ela viu a porta aberta e entrou para um cumprimento.

 

Sentou com suavidade. Puxou a cadeira para mais perto da mesa. Muito polida. Estava bem maquiada. Batom discreto. Os cabelos longos e com cachos soltos emolduravam a face. Tinha aneizinhos nos dedos. Uma roupa em tons claros adequada para a ocasião e estação. Assim. Toda uma lógica percorria gestos e atitudes.

 

Falava com voz serena acompanhada de um riso contido.

 

Na hora pensei esta palavra. Contida. Não dei o destaque necessário. A esta observação. Errei. Sempre que algo der um sinal de alerta – deve-se estar atenta ao sinal de alerta. Este é um princípio básico. Do Manual da Socialização. Ou da Sobrevivência. Me chamou a atenção. Mas fiquei escutando o que dizia. Ela falou. Com todo aquele jeitinho dócil. Olhava também com certa docilidade. Certa docilidade. Outra observação – notei e desconsiderei.

 

Como dizia sempre a minha avó. Fica atenta ao erguer espontâneo da própria sobrancelha, menina, fica atenta ao erguer espontâneo da própria sobrancelha.

 

Ela estava mais uma vez certa. Dava até para comparar com o mestre austríaco. Sobrancelha é o melhor analista de uma situação. De uma atuação. Como se lesse sempre primeiro que os olhos. Ou escutasse muito mais que os ouvidos. Deve ter uma ligação direta especial com o cérebro. Como sentinela. Ergue-se como sinal de alerta máxima. E nem sempre é valorizada. Acaba-se por desconsiderar esta vigilante proteção.

 

E assim foi. Lembro que as minhas sobrancelhas se ergueram uma ou duas vezes. Mas fiquei - diante da docilidade - com ingenuidade. Mais ou menos por aí.

 

Fez um gesto sobre a mesa. Arrumou com toda uma sequência os papéis que estavam em desalinho. Acariciou os papéis na ordem que colocou.

 

Ajustou mais uma vez a cadeira em direção a mesa. Falou algo sobre gostar muito do que fazia. E sobre ser uma pessoa com uma dose alta de paciência e metodologia. Até usou esta palavra. Metodologia. O serviço de casa era cansativo. Mas tinha tanta metodologia que acabava ficando mais fácil.

 

O marido a questionava. Achava que nem tudo fazia bem. Achava que tinha culpa por alguns desacertos. Em especial da saúde. Por um tempo essas observações a incomodaram. Atualmente – não. Sabia que fazia o melhor possível. E garantia que ninguém faria melhor do que ela.

 

Tinha uma mania de limpeza quase obsessiva. Mas preferia assim que lidar com poeiras e sujeiras num ambiente de convivência familiar.

 

A cada frase encerrada – ou a cada ponto de continuação surgia um sorriso. Quase como um hífen. Ligando palavras e amenos trejeitos faciais.

 

Interrompeu um pouco o que falava. Pediu com a mesma voz dócil. Gostaria de um copo com água. Estava frio. Mas sentia sede.

 

Recebeu o copo. Colocou sobre a mesa. Num movimento casual para ajeitar a bolsa sobre o colo – derrubou o copo.

 

Ai sim. Foi a vez que fiz o tal aceno positivo em memória da minha avó.

 

Era uma outra pessoa diante de mim. O copo caiu. Não quebrou. A água se espalhou sob a mesa.

 

Ela ficou vermelha. O cabelo parecia que tinha até encolhido. Ou aumentado o número de cachos. A voz parecia ter dado um adeus eterno à docilidade. Nada de voz orquestradinha. Agora era voz tempestuosa.

 

Gritou. Eu odeio isso. Odeio o que faço. Odeio a ele. Odeio ter que cuidar dos outros. Odeio cuidar da casa. Odeio essa sujeira.  

 

Desta vez acho que até meus cílios se fizeram companheiros das sobrancelhas. Mas já era tarde.

 

Tentei acalmar. Acidentes acontecem.

 

Olhou séria para mim. Olhava para a água no chão e se desculpava. E esbravejava contra tudo e contra todos. Nem escutava o que lhe era dito.

 

No final de um tempo – o tempo superou a si mesmo. Pegou os objetos que estavam já numa cadeira ao lado. Perguntou pelas horas. Ajeitou os cabelos. E saiu.

 

Olhei para o chão molhado. Para os papéis alinhados na mesa. Para a porta.

 

Precisei de um tempo para que as minhas sobrancelhas e cílios voltassem ao local de nascimento. Pareciam estar já penduradinhos no teto.

 

A mocinha da limpeza entrou. Apagou o registro. O dia prosseguiu. Embora diferente do jeito que começou.

 

Recuperada - relembrei meu querido amigo indiano. É a água que cuida da limpeza. Seja da forma que for.

 

Consegui até rir.

 


Agosto 16 2009


Ela sempre alertava. Muitas vezes as faltas são tantas que acabam ocupando lugares indevidos.

 

Não sei se são muitas. Ou se estão muitas. Ou se as vemos muitas. Meio complicado falar de falta. Expõem metades. Pelas metades. É sempre um paradoxo.

 

E pela metade muitas vezes são as explicações. E os excessos ambíguos da falta de explicações. Os descuidos com as gentilezas. O desuso das delicadezas.

 

Eis um terreno fértil. Com enorme rapidez fica-se pleno de faltas. Falta de interpretação. Falta de motivos. Falta de compreensão. Falta de confiança. Falta de lealdade. Falta de reciprocidade. Falta de conclusão. Falta de solidariedade. Falta de afetuosidade. A antiga e sempre conceituada falta de paciência. Isso sem esquecer a falta de compostura. Ou a sempre citada falta de condescendência. Que tantas vezes é aliada da falta de coragem.Ou da falta de conceito. Mas não se pode esquecer jamais - a falta de resposta.

 

Assim eu estava. Diante deste redemoinho de faltas. O telefone tocou. E o som fez um corte no tempo das faltas. Por que nas faltas do tempo isso já é comum.

 

Ela viera por uns dias. Rápidos. Era uma festa de família. Teria que participar. Mas conseguiu uma breve saída. Para vir até aqui.

 

Aguardei feliz. Chegou feliz. Desbravadora e vencedora dos trilhos. Nos trilhos. Confiante na decisão. Sorridente com a conclusão. Impossível errar o caminho. Já começamos a rir desde esta frase. Muito mais que uma frase.

 

Tudo reafirmava os caminhos trilhados. Não no destino. Mas na Vida. E certos. Ao menos parecia até o momento.

 

Quando sentamos para o vinho – nos repetimos. Rimos e choramos. Como no tempo das inaugurações do exílio. Ela no dela. Eu no meu. E o som das teclas fazendo vínculo entre nós duas.

 

Foram tempos difíceis. Mas nunca em tempo algum nos falamos tanto.

 

Nunca contamos tanto uma sobre a outra. Nunca soubemos tanto de nós.

 

Ali sim. Não havia falta de assunto. Eis uma falta abolida. Enfim uma. Até comemoramos. Podia faltar tudo. Mas nossa conversa era abundante. Um mais jorrar de palavras. De comparações. De questionamentos. De textos lidos. De textos a ler. Ela reclamava a impossibilidade do trabalho externo. Eu invejava o ócio temporário. Dela. E ela ria da minha agenda se construindo. Ou se paginando.

 

Descobrimos o sabor das páginas. Que só passam a existir quando preenchidas. Só se folheia o que está preenchido. Parece óbvio. Mas nem tanto. Páginas em branco são completas. De faltas. Não se brinca de olhar para elas por muito tempo.

 

Lá um dia me avisou. Arrumei as malas. E voltou para as raízes.

 

Depois disso – alguns hiatos. Um silêncio. Um retorno. Uma noticia. Um bilhete. Um sufoco. Um até mais. E por muito tempo nos afastamos. Da nossa história. Da nossa rotina. Até que um dia – faltou assunto. E sobrou silêncio. A tristeza - por saber mais faltas – se fez presente.

 

Agora estávamos ali.

Naquele momento. Sentadinhas nas cadeiras - na cozinha. A tentar atropelar o mínimo possível. Os relatos. Os excessos do - eu me lembro. Os inúmeros - você não sabia. Incontáveis - nem sei por que não lhe disse.

 

Quase foi preciso contratar um cronômetro.  De emergência. Ou uma nova emenda. Uma legislação de urgência. Você fala. Ela fala.

 

Fez um comentário. Sobre duas coisas que fazia bem. Dirigir e criar. E torcia pelo futuro. Para continuassem sendo elogiadas. Mesmo que num tempo passado. Rimos porque não faltou tempo. Achei genial a informação. E o pedido. Daria até para inscrição em pórtico. Passado. Presente. Futuro. Numa única eleição.

 

Mas enfim. Lembrei do Filósofo santificado. Ele falava isso. Que não existe futuro nem passado. Só presente. Porque é nele que falamos. Seja em que tempo for. Perfeito.

 

Quando nos despedimos – já todo o velho código estava re-paginado. Os risos resgatados.

 

As faltas pareciam diminuídas. Mas nunca se sabe. Talvez tenham escapado pela porta da saída. Ou ficaram atrás das cortinas. Ou se esconderam como poeira sob o tapete. Até ri quando pensei nisso. Pode-se passar a Vida toda permitindo que ele acolha faltas e erros. Deixando por cima risos e acertos.

 

O tapete como o Presente do Filósofo. Salvaguardando. O Futuro do Presente. Eis a enevoada solução. Arriscada por certo. Pisar sobre faltas é atividade que requer arte. Muito mais que sabedoria. Até por que quem sabe – não pisa.

 

Mas como dizia a minha avó. O que falta e o que sobra é sempre misterioso, menina, o que falta e o que sobra é sempre misterioso.

 

Olhou para trás. Deu um sorriso. E lá voltou pelos trilhos até o encontro agendado para a festa. Dia seguinte voaria cedo para as raízes.


Agosto 06 2009

 

Eis a questão inicial. O tempo passa muito rápido. Não dava para acreditar.

 

Lembrei o poetinha favorito. De um versinho breve. Tão breve quanto a Vida. Algo sobre quem é aquele envelhecido ali que me olha. No espelho.

 

Pode-se até amor-daçar o desperta-dor. Pode-se esconder o objeto. Só o objeto. Por que o tempo fica ali. Servindo-se de si mesmo. E servindo-se do outro.

 

Impossível não pensar.

 

Como dizia a minha avó.  Sempre parece que foi ontem, menina, sempre parece que foi ontem.

 

Foi assim que me senti – de repente. A  serviço do tempo. Como uma habitante do seu cárcere privado. 

 

Mas os planejamentos já se iniciavam. Dava para ler nas entrelinhas das comunicações. Dos olhares. Das frases ditas com rapidez. Estilo ao bom entendedor. Cada ano vem com uma novidade. Uma orgia de criatividades.

Cada um expondo seus afetos de forma especial.

 

Lembro de uma vez. Quando cheguei de volta em casa. Ele havia iluminado a sala toda com pequeninas velas. Muitas. Nem dava para saber quantas.

 

Pareciam estrelinhas contratadas. Ali. Em cada lado que virasse – um pontinho de luz delicada. Da cozinha rescendia um odor quase onírico. A música fora escolhida com total adequação – havia sido a primeira música.

Lembro quando entrei na sala. E vi os brilhos no escuro. A música. O cheiro.

 

Passei um tempo em posição de surpresa. De pé. As duas mãos no rosto. Um riso assanhadinho entre as mãos. A mais pura expressão de prazer.

 

Lembro da pergunta dele. Não vai entrar. Na mesinha muitos pacotinhos enrolados com laços e papeis brilhantes. O vinho no balde. A mesa posta. O olhar dele. O riso. Uma festa. Entrei. Sentei. O difícil foi tirar as duas mãos do rosto. O riso foi fácil. Ficou para sempre.

 

Até hoje – quando lembro sinto o cheiro e vejo as cores.

 

Uma outra vez caiu num domingo.

 

Ele levantou antes. Desceu. Da cama escutei uns barulhinhos. Perguntei se estava tudo bem. Sim.

 

De repente muitos barulhinhos. E pés pela escada acima. Estavam todos lá. Ela também estava do lado de cá do mar. E ali. Dentro de casa. Todos. Risos e risos.

 

Me convidaram a descer. Estava lá uma festa. De flores. Um pacote enorme enrolado de branco com fita vermelha - descansava seu peso no sofá.

 

A mesa. A mesa estava linda. Toda arrumada. Com tudo que agradaria aos deuses gregos. E eles todos felizes. Ela só ria. E apontava a sua parte na composição. Para destacar o – lhe conheço bem.

 

Tantos anos que ela não participava deste festejo. A comemoração passou a ser múltipla. Não faltaram motivos. Desta vez a música era mais comunitária. Regida apenas por risos e vozinhas.

 

Naquele dia deu para entender o que falam sobre a magia do afeto.

 

Agora escuto os burburinhos. Vejo olhares enviezados. Desta vez ela não virá. O além mar está mais além. Mas hoje cedo já se fez presente.

 

Informou da celebração. Antecipadamente. Como contagem regressiva. Sempre atenta. E delicada. Já acordei rindo.

 

Foi aí que veio o tal de repente. Aliás veio duas vezes.  Sempre explico a ele porque gosto de ópera. Acho que ele já entendeu. Se não entendeu vai entender. Quando ler.

 

De repente o Tempo passa. E passa mesmo. Ciente da sua função. Com absoluto desprezo por reclamações. Vai lá fazendo um percurso que nem sequer é planejado. Lida com tudo com total despropósito. Este é o Tempo.

 

Mas de repente também o Tempo traz as respostas. Os retornos. Os possíveis merecimentos.

 

Entre esses dois de repente – discordei de mim mesma. Depois me convenci de mim mesma. Para depois entrar em estado de dialética.  

 

Diferente do meu poetinha querido, me reconheci.  E,feliz, dei um beijinho no espelho.

 

Não fiquei tão-somente a serviço do Tempo.

Também o fiz existir a meu serviço.

 


Julho 29 2009

 

O primeiro pensamento foi o habitual. Corriqueiro. Não acredito que isto está acontecendo. Até esboçou um sorriso. Mas no pensamento.

 

Sim. Rir de expressão facial seria arriscado. Todos que estavam ali dentro não tinham a menor intenção de rir. Ou de ver alguém a rir. A coisa parecia séria. As pessoas em volta pareciam assustadas. Somando tudo isso chegou a uma outra banal conclusão. Deve haver um risco.

 

Ajeitou-se melhor na cadeira. Buscou um mínimo de conforto. Nem que fosse pura fantasia. Conforto era objeto inexistente. Naquele lugar e naquela situação. Mas enfim. Buscou fingir que se aconchegava. E se aconchegou a si mesma. Não sem antes tomar uma atitude. Considerava-se uma pessoa de atitude. Agora era o momento de se provar isso.

 

Controlou o riso mais uma vez. Até se desentendeu. Devia ser alguma nova patologia. Porque ninguém em saudável raciocínio teria vontade de rir. Ali. Aquela hora. E com aquela temeridade. Mas permitiu a vontade. E proibiu a exposição da tal vontade. Se persistisse – prometeu. Buscaria uma ajuda profissional. Medicamentosa. Até cirúrgica. Mas alguma cura teria que ter.

 

Já que a esta altura já se sentia com a doença instalada.

 

Resolvido isso – mudou de texto. Abriu o ladinho da bolsa. Acrescentou aos pensamentos o objeto auditivo egóico. Seu tenor preferido a privilegiava com suas árias preferidas. Nem ousou pensar a palavra - perfeito. Ai já não seria uma patologia susceptível de cura.  Ai já seria buscar a ira do Universo. E isso já seria demais. Até para ela. Censurou na primeira letra da palavra. E ficou ali a escutar. A voz. A música. O coro. O relato dramático em decibéis corretos.

 

Por um segundo veio uma palavra nova. Legado.

 

Sim. Se a situação era de risco. Se a gravidade estava já denunciada e aceita. Qual seria seu legado.

 

Complicado. Aprendera algo.  O que foi dito – permanece. O que foi esquecido de ser dito – também permanece. Mesmo o sujeito oculto - continua sendo chamado de sujeito. E as pessoas complementam. Uns diriam – falei com ela hoje. Outros – faz tempo que não falo com ela. Mais alguns – passou o dia todo trabalhando. Mais outros - ela reclamava tanto do horário. De uns - condescendência. De outros - informações. De mais outros - considerações. As pessoas acabam por preencher com frases – as faltas materializadas.

 

Mudou novamente de texto. Porque lembrou deles. Sem comentários. Já que não podia rir – também não iria chorar. Deu - a si mesma - um titulo. Extremista. Fez até um discreto sim com a cabeça. Ninguém notou.  

 

Um senhor mais alto – de pé – informou. Foi um problema com o da frente. Algo que ver com os trilhos. A chuva está muito forte. Acho que vamos todos ter sair. E caminhar por aquela minúscula trilhazinha. Bem coladinha no paredão. Para subirmos.

 

Concluiu. Eu não. Não vou. Tenho horror de caminhar em lugar apertado.

 

E ele sempre diz que sou malcriada. Junto os dois e daqui não saio.

 

Aumentou o som. O tenor se espalhou. Melhor escutar aquela ópera. Que a outra que estava se construindo.

 

Ia fechar os olhos quando ela veio falando. Gesticulava alto. Queria organizar um motim. Sobre os trilhos. Dar queixa. E naquela situação. Não deu para segurar. Riu. A cena ficou patética. Amotinados no subterrâneo e sobre trilhos molhados. Nem aquele francês pensou nisso. E olha que ele adorava um fosso. Devia ter nascido aqui e agora. Ia se espalhar mais que o tenor nos  ouvidos dela.

 

Foi interrompida por outro. Com ar de sábio - levantou. Ergueu a mão. E a voz. Deu até um pigarrinho antes de falar. Pediu calma. Avisou. Excitação gasta oxigênio. Uma senhorinha sentadinha – até então alheia a tudo - levantou o queixo. O olhar. Em direção a ele. E balançou a cabeça – como se a frase lhe lembrasse algo já passado. O olhar pareceu mais distante que a saída.

 

Nova interrupção. Um gritinho fino informou. Subitamente. Matei. Matei. Passei agora para uma segunda fase. Todos se viraram. Tudo era sinal de perigo. Identificado o matador – todos voltaram a sua posição anterior. E ele feliz – acionava rápido com seus dedinhos as teclas do joguinho. E ria a cada possível mudança de fase.   

 

O frio foi cedendo espaço. Ao calor. E a maioria retirava casacos. Capas. Lenços. Uma semi nudez sem objetivo. Apenas o ato pelo ato. Como se bastasse um suar – para todos se despirem. Fez lembrar o mestre austríaco.

 

Veio uma suave voz - saindo por um tubinho com tela. Informou. Estamos re-iniciando o trajeto. Pedimos desculpas pelo transtorno. As chuvas causaram problemas. Mas já estamos com a situação sob controle. E avisou a próxima parada.

 

Ele começou a vestir o casaco e comentou. Com a absoluta segurança dos pessimistas. Lá em cima está bem pior do que aqui embaixo. Hoje ninguém volta para casa.

 

 

Impossível resistir. Ela riu. Alto. 

 


Julho 08 2009

Acordou no horário habitual. Com a reclamação habitual.

Já. Nem vi o tempo passar. Nem vi o sono passar. Nem deu tempo de sonhar.

 

Isso é um absurdo. Um contra-senso.

 

Os sonhos já devem estar fazendo fila para poder sair. Vai ter sonho atropelado. Empurrado. Ou, quem sabe, caidinho fora da fila. Até os sonhos - sempre tem algum deles mais esperto. Outro mais lento. E vai vencer o mais sábio. Ou o mais amadurecido. O amadurecido observa mais tranqüilo. E sempre chega na hora acertada. Sonho jovem sempre é impetuoso.

 

Deve ser assim a formação do pesadelo. É apenas uma falta. De logística. De hierarquia. De ordem na saída. De respeito na fila. Enfim. Assim se constróem os pesadelos. Da falta de liberação organizada.

 

Mas assim fazia. Todos os dias. As mesmas queixas. Desta vez uma pequena diferença.

 

Resolveu dizer isso a ele. Talvez para dar vazão aos sonhos impossibilitados de sucederem. Resolveu formalizar verbalmente a queixa. E naquela hora. Tão cedo.

 

E formalizou. Ou melhor, tentou formalizar. Se assustou. Nada saiu da garganta. Ficou a princípio preocupada. Seria por conta do amontoado de sonhos. Alguma sufocação por excesso. Sonhos reunidos impedindo a realidade. Dava até para ser slogan.

 

Repetiu. Nada de novo. Simplesmente assim. A voz não saia. Não saia.

 

Tocou nos lábios. Precisava ter certeza de que se moviam. Sim. Moviam com segurança. Mas a voz não saia.

 

Ele dormia feliz e ausente de toda aquela mais nova alteração.

 

Acordara sem voz. Vai lá saber exatamente por que.

 

Lembrou. O dia tinha sido terrível.

 

Se somasse as horas de fala sem parar dariam quase sete horas. Explicara métodos. Avisara riscos. Complementara orientações. Recomendara prudência. Lembrou até de uma orientação filosófica. Disse a ela. Melhor relatar apenas o que fez e o que viu. Se externar opinião já virou pessoal. Lembre-se disso. Não esquecia o olhar dela. No início tão feroz. Olhar de salto alto. Depois tão temeroso. Olhar já de chinelinho. Enfim.

 

E ainda teve aquele telefonema. Tarde. Bem tarde. Ficou tensa. Com ela. Sabia dos perigos. Das causas e até dos efeitos. E se confirmasse. Como poderia ajudá-la. As dores da alma se somando às dores do corpo. Dela. Delas.

 

Lidou com idiossincrasias. Verossimilhanças. Teve de tudo. Só podia dar nisso.

 

Chegou de volta no final do dia. Cumpriu todo um ritual. Já estava até se acostumando. Era algo que detestava. Viver de véspera. Mas como o dia começava muito cedo não tinha opção. Ou o dia começaria mais cedo ainda. Fez o que tinha que ser feito. Organizou o dia seguinte.

 

Foi assim que adormeceu. Depois de um dia intenso. E um ritual cumprido.

 

Quase um cochilo. Foi nisso que pensou quando acordou. E recompôs toda a

véspera.

 

Riu. Na véspera reclamava. De viver de véspera. Agora reclamava. De viver do dia anterior.

 

Não deve ter sido à toa. Que acordara sem voz. Tentou novamente falar com ele. Desistiu. A voz não saia. Assunto encerrado.

 

Saiu ela - então. De corpo inteiro. Ou quase inteiro. Pensou. Se a voz emudece – o corpo cala. Mas não tinha certeza disso. Nem do contrário. Concluiu. Sem voz e sem sonho – a vida fica mais complicada. Riu. 

 

Seguiu os tais trilhos. Sem bondade e sem voz. Sem sonho. Mas com sono.

 

Enfim algo tinha. Não estava esvaziada de tudo. Tinha sono. Muito sono.

 

Com o passar do dia a voz deu algumas notas de presença. Tímida. Mas audível. O sono se foi.

 

Na volta para casa riu. Eis um dia diferente. Não dá para reclamar pelo menos de uma coisa. Monotonia. Isso jamais.

 

Torceu por muitos sonhos. Nesta noite.

 

 


Maio 30 2009

Naquela manhã acordou como sempre - pontual e correto em suas atitudes. Mantendo a responsabilidade. Não se atrasava. Lá se foi. Dirigindo e concluindo os pensamentos da noite.

 

Sempre tranqüilo. Muitos o citam até como o único completamente feliz.

 

Está sempre bem. Fiel e leal às suas propostas. Bem-humorado. Solidário.

 

Tem um estilo pragmático. Sem atos emergenciais. Não gosta de precipitações. Ou melhor, não gosta mais. Afasta qualquer possibilidade de fantasias sem fundamento. Ou de ideal romântico. Nisso não acredita mais. Mesmo tão jovem. Pesa com cautela as atitudes. Tudo tem risco. E preço. Portanto é sempre bom regatear nos impulsos.

 

Estacionou o carro. Iniciou as tarefas do dia. Não são poucas. É bem titulado. Tem muitas atribuições. Nem teve mais tempo para pensamentos filosóficos. Nem nas conclusões da noite. O dia já estava a cumprir sua finalidade. Da lógica à logística.

 

Esta era a sua rotina. Neste dia teve algo diferente. Não demorou muito e recebeu uma mensagem da Diretoria. Que para lá se dirigisse. De imediato. Ainda encerrou o que fazia com calma e - obedeceu. Subiu.

 

Nunca se soube de uma Direção que não fosse em cima. Acima. Deve ter alguma simbologia. Além da óbvia. Pensou nisso também enquanto subia. Deu até uma risadinha. Nos tempos atuais não é das melhores mensagens. Dirija-se imediatamente à Diretoria. Mas o amadurecimento para não ser precipitado incluía também sustos. Não tomava sustos antes que o susto chegasse. Não tremia em pré. Só em pós. E se assim se fizesse necessário.

 

Tremera em pré e em pós quando o irmão se submeteu a uma cirurgia. A uma dolorosa e demorada cirurgia. Neste dia sim. Perdera o amadurecimento. O pragmatismo. A racionalidade. Ali o corpo tremeu. Diante. Depois. Durante. Foi esta uma das raras vezes.

 

Sorriram quando entrou. Convidaram a sentar. Sentou. Sorriu de volta.

 

Apertos de mãos. Abracinhos. Aceita algo para beber. Um cafezinho. Água mineral com gelo e limão. Fique à vontade. Ele ali. Agradecendo e esperando. E vice- versa.

 

Um deles levantou e entregou uma papeleta. Para que assinasse. Explicou antes que ele lesse. Representaria a empresa numa reunião internacional. Uma reunião de todas elas espalhadas pelo mundo. Seria um conferencista. O representante deste país na conferência. Hoje é segunda. O vôo sai na sexta à noite. Ficará por dois dias na metade do percurso. Depois seguirá para lá. O mesmo será feito na volta. A diferença de fuso é melhor aceita pelo corpo com esta divisão. Aqui está o seu tema. Boa sorte e parabéns. A empresa reconhece seus méritos e tem total certeza da escolha correta. Combinado. Então fechado. Apenas se organize para uma semana fora.

 

Desceu. Não contou se tremeu. Mas nem quis elevador. Preferiu mesmo as escadas. Desceu os degraus como que para acordar. Viver este segundo despertar. Com parcimônia. Passo a passo. Mas sorrindo. Sozinho. Por dentro. Por fora. Pelos olhos. Pelos cantinhos. Fez uma busca geográfica.

 

Restava uma dúvida localizatória. Com exatidão. Procurou no mapa. Mais sorrisos. Então era ali que ficava. Dez horas de fuso. Ainda bem que tinha a tal divisão. Passaria dois dias lá na ida e dois dias na volta. No meio – o local a tal conferência.  Já se imaginou até amigo do jornaleiro. Acenando na despedida. Riu. Estava feliz. Muito feliz. Uma viagem premiada. Já viajara muito. Desde bem pequeno. Mas nunca imaginara em ir até lá. Nem no mais sonhado dos sonhos. Ou nas mais ousadas fantasias megalomaníacas.

 

E lá estava. Com passagem. Hospedagem. Protagonizando uma conferência. Tendo a curiosidade como parceira. Uma semana. Sorriu.

 

Avisou primeiro à mulher. Recém casadinhos. Ela não sabia se ria ou chorava. Ganhou o riso solidário. Depois a família. Não faltaram risos e parabéns. Festejos. Palavras de entusiasmo.

 

Na primeira parada olhou para o alto. A cidade construída. Sem passado. Só presente. O passado se representava pelo estilo das pessoas. Não pela arquitetura. Cada um contava – através do rosto e da indumentária – uma parte da história de um povo. As construções pareciam de cidade do futuro.

 

Como aquela do desenho animado da sua infância. Olhou para cima. Os imensos prédios. Os reflexos de uns nos outros. Parecia uma cidade dentro de cidade.As poucas pessoas circulando pelas ruas. Os belos e numerosos carros nas avenidas. As roupas. Os que seguiam a tradição - rigorosamente. Os que abriram mão dela - rebeldemente.

 

No começo da tarde foi para um passeio. No deserto. Continuou olhando para o alto. Para o sol. Depois para o pôr-do-sol. Para a imensidão de perder de vista. Para aquela luz mágica.

 

De uma esquina para outra parecia ter mudado o século. De um desenho animado futurista para outro - da idade da Terra.

 

Enviou uma foto. Sorrindo. Lindo. Feliz. Montado no alto de um camelo.

 

Viva a Vida e suas surpresas. Ergueu um brinde – ao Alto.  

 

 

 


Abril 06 2009

Ela decidira fazer uma dieta. Estava gorda. Queria retomar o corpo. O rosto. No lugar onde deixara. Há anos. O corpo. E as curvas. Riu da pobreza da piadinha. Estava tão decidida que já estava sentindo a roupa folgada. E só tivera a idéia. Isso é que é fé. Em milagres.

 

Eram tantas as dietas com nome. Tinha de nome de universidade famosa. De outras menos famosas. De astros do céu. De frutas. De zodíaco. Tinha até de aromas. O que não faltava era título de dieta. Era só escolher um título. E acreditar.

 

Indicaram um professor chinês. Era um Especialista em dieta leve. Para corpos pesados. Assim falavam dele. Não soube se também o contrário. Sobre isso não informaram.

 

Achou maravilhoso - uma metodologia oriental. Bem mais sofisticada. Já estava cansada. De ficar liquidificando couve. Até suas unhas já estavam ficando verdes. De tanta couve no desjejum. E o excesso de peso nada de amadurecer e cair. Ou de tomar suco de abacaxi com gengibre. Ou de seguir uma receita aromatizante. Diziam que aromatizar também ajuda a queimar calorias. Perfumou por muito tempo com essência de canela o ambiente da casa e do trabalho. Quase foi demitida. Ninguém mais agüentava se sentir trabalhando dentro de um capuccino.

 

Concluiu.  Já tinha feito tudo de ocidental. Agora era a vez do oriental.

 

Marcou a consulta. Chegou até mais cedo para garantir o atendimento.

Mostrar interesse. Vai que perde a hora. Chinês entende de relógio. Mas daqueles alternativos. Que nem sempre funcionam como o prometido no original. Preferiu não arriscar.

 

Sentou-se numa poltroninha vermelha.  A salinha era toda decorada com tons vermelhos e dourados. Pensou de imediato num dragão. Temeu rir. Por trás do cérebro uma voz fazia chistes. Assim que ele emagrecia. Os corpos pesados. Com fogo de dragão. Ajeitou-se na cadeira. Como numa espécie de ordem. Para que parasse de rir. Do tal dragão imaginário. Não queria aborrecer o chinês. Vai lá ele vira um ninja. Não sabia mais se ninja era chinês ou japonês. Bom, mas não estava ali para isso. Só queria perder peso. Não ganhar  - cultura.

 

Ele foi logo fazendo um sinal para que ela entrasse. Na salinha de atendimento. Ele entrou atrás dela. Com ar de mestre milenar. Fez uma volta qual um dançarino. Era bem magrinho. Pisava leve. Sentou diante dela. Sério. Muito sério. Ela foi logo também se sentando.

 

Idéia errada. Ele fez um sinal negativo com a cabeça. E apontou com o dedo. Assim mandou que ficasse de pé. Ficou. Ele olhou. Olhou de novo. Ela já se sentiu desconfortável. Ele demorava  muito olhando. Ficou assustada. Será que tinha tanta área corpórea assim. Devia estar pior que imaginava.

 

Cada parte do corpo que ele olhava ela cobria. Com as mãos. Estava parecendo já um teatro de mímica. Ou conversa de surdo-mudo. Desta vez quase riu. Com muito esforço se conteve. Depois ele repetiu o sinal com o dedo. Apontou a cadeira. Assim mandou que se sentasse. Sentou. Nunca estivera numa consulta tão silenciosa. Mas entendeu como um estilo oriental. Refinado.

 

De repente ele falou. Ao menos assim ela supôs. Que ele estava falando. E com ela. Exatamente o que não entendia. Ele falava rápido e com lábios meio fechados.

 

Ele falou. Apontou. Para ela. Para o que ela supôs serem os pontos de acúmulo de gordura. Ficou feliz por ter ido lá. Viu seriedade. Foi o que pensou na hora. E rapidamente concluiu. Pensou errado.

 

Ele rabiscou um papel. Pareceu que assinara o nome. Entregou a ela. Era um papel delicado. Tinha um símbolo vermelho e dourado no cabeçalho. Leu. Era uma orientação impressa. Constava uma prescrição. Chá de folha de couve com gengibre pela manhã.  No almoço acrescentava um copo de suco de abacaxi a um cozido com couve.  À noite uma sopa quente de couve com as folhas cortadas ao comprido. Tinha isso. Ao comprido.  Podia comer alguns legumes. Uma fruta ou outra. Acrescentou falando uma importante recomendação. Para ela. Olhando sério para ela. Com o tal dedo apontando para o rosto. Dela. Só fechar boquinha.

 

Ficou mais amarela que ele.

 

Esqueceu que a China é milenar. Esqueceu da paz. Ensinou a ele quem é que manda. Nada de fechar boquinha. Ficou desbocada em segundos. Foi uma ordem e um contra ato. Algo por aí.  Uma situação constrangedora. Por sorte o chinês não se interessou. Pelas sugestões dela.  

 

Tivesse ele acrescentado o que ela falou como sugestão para emagrecer - e toda uma cultura milenar e um povo estariam, anatomicamente, desfigurados.

 

 

 


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