Blog de Lêda Rezende

Dezembro 27 2009

 

Já estava pronta para sair.

 

De repente notou uma luzinha vermelha. Piscando. Pela fresta da bolsa. Por certo um recadinho. Resolveu ler de uma vez.

 

Estava lá. Escrito. Hoje foi suspenso o atendimento. Teve um problema com os computadores. Uma falha técnica mais complicada. Outro com a luz. Não precisa vir. Será feito um re-agendamento parcializado.

 

Atendimento suspenso. Re-agendamento parcializado.  Achou o máximo.

 

Comparou a uma figura de linguagem. Ou a uma obra literária.

 

Mas quase pulou. Primeiro de susto. Era a primeira vez na vida que fazia um pedido e acontecia. Literalmente. Inacreditável.

 

Acordara com sono. Como sempre. Daí pensou. Bem que hoje podia ser cancelado o atendimento.  E eu poderia dormir mais um pouco. Mas imagina. Se me aconteceria uma maravilha desta. Nunca. Acelerou e foi cuidar de obedecer as ordens do relógio. Cruel objeto. Pensou entre os dentes. Mas prosseguiu.

 

Mal acabou de ler o recadinho - se auto-conferiu.

 

Checou – estava viva.  Correu para um espelho. Deveria estar iluminada. Não estava. O espelho mostrou o habitual. Optou por reler o recadinho. Vai ver fora uma alucinação. Não foi. Lá estava.

 

Que belo recadinho. Que lindíssimo texto. Desdenhou dos poetas. Nenhum faria uma composição tão emocionante quanto aquela. Riu. Riu de novo.

 

Tudo bem. Pediu perdão aos poetas. Por precaução. Vai ver que os deuses que cuidem deles poderia se aborrecer. Não queria mais surpresas. Aquela estava já perfeita.

 

Pensou. Fosse a Idade Média e já sabia onde iria parar. Mas não era. Pelo menos a da cronologia da Humanidade. Idade Média só a dela. Particular. Riu dessa bobagem também.

 

Se primeiro quase pulou de susto – de segundo pulou de alegria.

 

Olhou para a bolsa com o material. Para os papéis. Para a roupa que vestia. Em especial para o relógio no braço. E se despediu. Deles. De todos estes – adereços.

 

Mas se o pedido foi atendido – a vontade vinculada foi descartada.

 

Que dormir que nada. O sono foi-se como mágica. Deveria ser isso. Era o Dia da Magia. Ela que não tinha conhecimento. Riu de si mesma de novo. Estava se sentindo já uma humorista. De primeira categoria.

 

Mas enfim – dormir seria desdenhar do pedido inicial. Jamais faria isso. Poderia ser visto como um menosprezo. Estava com muito zelo em relação aos deuses amigos. Mais uma vez riu.

 

Despiu-se da proposta inicial e vestiu-se da adquirida. Sim. Iria à praia. Desceria a serra. E iria ver o mar.

 

Perfeito. Idéia de gênio. Foi mais uma vez se olhar no espelho. Deveria estar iluminada mesmo. Riu para o refletido. Que devolveu à altura.

 

Quando se compreendeu – já estava lá.

 

Em pé na areia. Diante do seu tão amado mar. Pontinhos prateados aqui e ali brilhavam na água docemente salgada. Faziam quase um cortejo de pequenas luzes. Lindo.

 

Algumas mesinhas de cimento ficavam na areia. Com banquinhos em volta. Escolheu um deles e sentou. Para uma alegria tão grande - alguns rituais.

 

Ficou um tempo apenas olhando. Brincava com a chave do carro entre os dedos. Deixou que o sol escolhesse os pontos da pele que iria tocar.

 

Depois com muita calma foi em direção à água. Estava morna. Pequenas ondinhas deixavam a espuma branquinha na borda. Que sumiam com delicadeza.

 

Mergulhou. Pulou. Brincou. Jogou água para cima. Para baixo. Riu. Viva o Dia da Magia.

 

Lembrou o tempo em que seguia as definições do mestre austríaco. Mas desta vez se colocou mais à parte. Nada de passagem ao ato. Como o mestre definia atitudes intempestivas.

 

Fez o habitual brinde e – rindo - informou. Para o Universo. Que me perdoe o Mestre. Mas este foi Além do Princípio do Prazer. E muito além dos Atos Falhos. Sem Homem dos Lobos.  Sem Totem ou Tabu. E principalmente sem Perturbações Psicogênicas da Visão.

 

Este foi um verdadeiro Ato de Passagem. Passagem feliz. Até o mar. Diante do mar. Num dia em que um erro da tecnologia cedeu espaço à realização plena de uma fantasia.

 

Foi a vez do impossível vencer o possível. E mergulhou – mais uma vez.

 

Voltou no começo da tarde - muito feliz. 

 

Amanhã retomarei a tal agenda parcializada. Perfeito. 

 

 


Dezembro 19 2009

 

Não imaginava que fosse assim.

 

Tão cansativo. Deveriam mudar o termo. De preparativo para preparatório. Parece o mesmo. Mas não é. Como todas as palavras parecidas - não querem dizer a mesma coisa. O mesmo significado. Nunca pensei. Ou já esqueci. Esqueço fácil o que é complicado. Como é cansativo. E emocionante. Por isso é um preparatório.

 

Essa olimpíada de véspera. De viagem.

 

Lembrei da minha avó. Ela sempre me alertava. Todo prazer tem antes e depois, menina, todo prazer tem antes e depois.

 

É verdade. Não sei como não observei isso antes. Observar é o termo certo. Porque foi só o que fiz. O dia todo. Hoje. E o dia de observar deveria ser amanhã. Porque é o dia da viagem. E ainda tem quem diga que o bom são os preparativos. Ou preparatórios. Vou orientar quem me disser isso - a procurar um especialista. Em doenças do psicológico.

 

Isso já é complicado. Uma só pessoa. Dois tempos. Não pessoais. Ambientais. Um de lá. Outro de cá. No tempo de cá estou me sentindo naquela tal cidade. A da neblina. Porque é só o que vejo do terraço. Paisagem bucólica. Enevoada. Brumas. Há uma semana - brumas. Quando modifica - relâmpago. Quando ele se encerra – brumas. Depois – relâmpagos. Uma roda viva de névoa e luz. Uma calma e outra acelerada. Como a urbanidade.

 

Não posso negar. E sempre vale lembrar. Com brumas. Ou com relâmpagos. Eu amo esta cidade.

 

Mas vou lá. Para o tempo de lá. Lugar de sol e mar. Praia. Areia. Pés ao vento. Cabelos ao sol. Não importa se resseca. A pele. O cabelo. Sei lá. As unhas. Não importa. Tanto tempo que não sinto - o mar. O cheiro do mar.

 

Até contei para aquele meu amigo distante. Que mora em frente a outro mar. Vai ver nem ele sabe. Que o mar tem cheiro. É preciso algum distanciamento. Para que depois se possa surpreender. Com o cheiro do mar.

 

Arruma daqui. Lembra dali. Ajeita mais um lugarzinho. Isso sim. Isso não. Absurdo. Sem isso não vou. Não vai caber. Vai sim. Tem que caber. Agora já não sei. Melhor tirar. Melhor deixar. Não. Basta uma. Não. Não vou me mudar para lá. Certo. Então concordo. Mas duvido. Não se preocupe. Sei como resolver. Certo. Então você resolve. Combinado. É verdade. Nem me lembrava. Acho que ainda cabe. Está bem. Retiro.

 

De repente – parei.

 

Me dei conta. Aliás, verbo quase certo. Fiz conta. Uma semana. Sete dias. Cento e sessenta e oito horas.  Sentei. Em meio ao isso-sim-isso-não. Que faria. Que farei. Como lidar com a falta do meu acesso diário. Das minhas leituras. Das minhas releituras. Dos comentários. Nunca senti uma verdade mais fisicamente do que neste momento. Toda escolha tem uma perda. Procede.

 

Crises de abstinência. Imaginei mil cenas. Letras gigantes nas paredes rindo. Gritando meu nome. Frases inteiras aparecendo e sumindo. Em meio às ondas. Nomes de autores se auto-escrevendo na areia. Meus dedinhos se movendo sem minha ordem. Eu tremendo ao passar por qualquer loja de informática.

 

E piorou. Se isso fosse possível. Mas foi. Possível. Possibilidade é persistente. Não sai fácil. Nem bem eu tentava entender. A possibilidade da tal crise de abstinência - e outra se instalou. Crise de carência. E a pergunta veio. Crua. Fria. Congelada. Em meio às brumas e envolta em relâmpagos imaginários. Será que notariam. Será que perceberiam.

 

Quase se somou mais uma. Mais outra. Crises seqüenciais. Crise de ausência - não vou mais. Crise de presença - vai sim. Crise de superioridade - deixa para lá. Crise de tecnologia - vou levar junto. Crise de obediência - é só uma semana. Crise de relatividade - cada um tem seu tempo.

 

O que não faltava em crise, sobrava em temeridade. Como a individualidade.

 

Lembrei dela. Disse que também iria para lá. Coincidência. Sim. Também. Adoro. Ver a tal queima de fogos. A virada do Ano na praia. Até imaginou se nos encontraríamos. Quem sabe. Tomara que sim. Ela é bem mais mutante. Do que eu. Avisou que ia levar um caderninho. E um lápis. Assim. Simples. Mutante e adaptante. Admirável.

 

O jeito será virar imitante. Certo. Poderei anotar. Rabiscar. Não perder a idéia central. Algo por aí. Mas não poderei enviar. Agora só na volta. Dos sete dias. De retirante a viajante. Agora uma nova espera. Retornante.

 

Crise é assim. Endoidante.

 

Certo. Cabe. Coube. Nada mais. Enfim. Fechou. Fechou. Vamos sim. Não é bom chegar em cima da hora. Principalmente nesta época. Estou. Peguei. Tranquei. Vamos. Desliguei sim.

 

Ainda bem que aqui tem este tipo de lojinha. Quem diria. Sim. Poderia me dizer quanto custa. Certo. Quero sim. Sim. Com esta tela - pequena - melhor ainda. Levo dentro da bolsa. Nada de desertar desejos de posse - no outro. É verdade.


Agora sim.


Viva a certeza do acesso. Viva a possibilidade do accessível. Vamos logo. Estão chamando para o embarque.


 


Outubro 11 2009

 

Encerrou a fala desta forma. Com este comentário.

 

A frase ficou em destaque. Por alguns minutos. Ou horas. Vai lá saber. A palavra sempre dispõe do tempo ao seu bel prazer. Enfim.

 

É uma pena.

 

Assim disse. E nem parecia muito concentrada. Parecia em estado de ausência. Estava assim ultimamente. Como se numa nova parceria – mais efetiva. Ou quem sabe conquistada - entre ela mesma e o mundo.

 

Devia ter lá seus motivos.

 

Motivos. Esta uma palavra multi-dimensionável. Especialmente para ela. Adequa-se bem. Cabe em qualquer espaço. Justifica possíveis transtornos. Pressupõe adiáveis desconfortos. E já disponibiliza desculpas.

 

Era afável. Divertida. Solidária. Desde que a conheci. E lá se vão tantos e tantos anos. Mas tinha motivos para tudo. Do emocional ao físico. Fosse o que fosse - tinha motivos.

 

Acompanhava sempre um - de sobra. Este - de sobra - parecia mais fundamental até do que os tais motivos. Era pronunciado com mais ênfase. Como se precisasse se servir de uma acústica. Ou a acústica estaria a serviço dos excessos. Algo por ai.

 

Passava – com tranqüilidade - uma sensação. A de que motivos e sobras são de ordem impessoal. Quase relativizada. Não precisa ser determinada. Muito menos qualificada.

 

Motivos e sobras são questões tanto estéticas quanto funcionais. E sugerem um lugar mais universal do que pessoal. Nunca a escutei se referir aos tais motivos de sobra - dentro de si. Sempre eles estavam - de fora.

 

As sobras pareciam vir como paradoxais contribuições externas.

 

Mas também não era o momento para digressões teóricas. Até dera vontade de rir. O que mais sobrava eram digressões e teorias. As faltas estavam circulando por outra esfera. Não importava se mais ao alcance ou se muito além do alcance. Apenas circulando - como toda falta.

 

Mas assim falava. Assim se expressava. Relatava a situação. O motivo da ligação. Parecia um não mais acabar de queixa. Nada era tratado de forma pontual. Muito menos sugerindo uma continuidade. Sim. Parecia mais um possível excesso de ponto e vírgula.

 

Foi nesse momento que entendi a força dos motivos de sobra. Como cravados dentro de um vazio. Os motivos. E as sobras.

 

Lembrei a minha avó. Se sobra motivo é porque falta razão, menina, se sobra motivo é porque falta razão.

 

E ali fiquei. Entre a palavra e a expressão. Tentando ultrapassar a linha que cruza o ato e a fala.

 

Dizia o mestre francês que primeiro vem a palavra. Depois o ato. Tão difícil simplificar.

 

De repente me veio uma curiosidade. Talvez por que escutei um barulho reconhecido. Perguntei assim. Sem mais nem por que. Onde estava.

 

Respondeu tranqüila. Suave. Sentada naquela praia que você gosta. Sob um quiosque. Olhando o mar. O final de tarde está lindo. O inverno aqui está uma beleza. Sol, céu e mar. Nada de frio.

Por isso lhe liguei daqui. Faz bem reclamar do interno diante de um externo tão belo.

 

Tenho motivos de sobra para falar daqui. Sem me preocupar quem escuta. Ou quem interrompe. Ela sempre volta na hora exata. Parece que adivinha que preciso falar. E já chega cheia de perguntas e demandas. Lembra até aquela sua amiga. A que nunca podia conversar ao telefone. Porque os filhos a interrompiam. Você deve se lembrar disso. Sempre comentávamos. Agora pareço com ela.

 

Ela já vai entrando e avisando. Pare o que está fazendo. Desliga o telefone. Preciso lhe falar. Como se fosse uma emergência. Você sabe. Ela sempre age assim. E sem motivo algum.

 

Ri. Muito. Achei perfeito. Pensei isso enquanto fechava a porta da varanda. Para que a chuva e o frio não se transformassem em meus hóspedes.

 

Ela continuou. Depois de um fôlego só - avisou. Agora me vou. Acabou o pôr-do-sol. Está escurecendo. Vou voltar. Amanhã vai ser um dia complicado no trabalho. Se eu enlouquecer acredite – não teve jeito. Terei motivos de sobra.

 

Tem feito dias tão lindos. Se você estivesse aqui iria adorar. Mas está ai no frio. É uma pena. E rindo – se despediu.

 

E rindo – me despedi.

 

O frio aumentara. Peguei um casaco. Entrei em Estado de Força Educadora. Sim. Comportada. Recatada. Até repressora. Sem desconsiderar o valor da Força Amistosa.

 

A palavra pena não teve seu contraponto. Nem uma resposta mais diferenciada. Em linguagem talvez não tão ortodoxa – digamos assim.

 

E – pensando bem – sem motivos ou sobras.

 


Outubro 04 2009

 

Ela era desse jeito.

 

Um pensamento - cérebro a dentro  –  e o dia a fora a tentar  entender. O tal pensamento.

 

Tudo começara quando ela lhe disse uma frase. Talvez mais.

Quase um relato. Não justificável. Incoerente. Até desnecessária.

 

As horas passavam. Ela progredia com a rotina. Mas um intervalinho que surgisse lá vinha o pensamento invasor. Talvez até mais autoritário do que invasor. Não dava descanso enquanto não solucionava. Como um inseto em busca da luz. Até ria quando assim definia.

 

Mas se o pensamento era autoritário – obedecia. Submissão ao raciocínio sempre fora sua tendência. Não desprezava idéias formadas. Não cancelava observações afoitas. Creditava sabedoria ao que irrompia sem muita solicitação.

 

Mas manteve o bom humor. Cumpriu o estabelecido. Seriedade e risos adequados.

 

Foi nesse vai-e-vem de busca que voltou para casa.

 

No percurso discursou soluções. Abstraiu linhas divisórias. Contracenou consigo mesma. Usou de artilharia pesada. Fantasiou até estratégias de deserto. Mas dirigiu com tranqüilidade. Sem pressa.

 

Pressa mesmo quem teria que ter era as instâncias. Mentais. Ou emocionais.

 

Ela apenas dirigiu. E fez as suas suposições. Confiante que numa delas estaria o fio condutor. Não de um choque. Ou de um curto circuito. Mas de uma posição definida ao final da acareação.

 

Encontraria a solução conveniente. E seria claramente eficiente. Completou a sequência de ente - com consciente e inconsciente. O Mestre austríaco não escapou. Foi chamado ao banco de jurados. Ou de condenados. Nesse momento – riu. Eis um Lugar onde sempre o Mestre basculava.

 

Quase uma questão inglesa.

 

Chegou de volta em casa. O porteiro a aguardava.

Entregou-lhe um pacote. Pelo selo compreendeu - vinha de longe. Bem longe.

 

Ai tudo mudou.

 

Nada mais de pensamento. De fantasmas. Ou de mestres. A Áustria ficou em seu devido Lugar. Bem longe. O cérebro desconsiderou as buscas. Os ingleses ficaram para trás. Eles que resolvessem suas questões. Os tais entes sequenciais se retiraram. Fio condutor - só do elevador que a levou para dentro. Mais ou menos assim. Abrupta – eis a palavra perfeita.

 

Ele avisara. O livro lhe será enviado. Queria que ela opinasse. Opinasse. Incrível. Um poeta pedira opinião - dela. D’além mar. Enviou o endereço. Mas quase desacreditou na remessa.

 

A remessa existiu. Existia. Saíra da de lá. Fora empacotada. Selada. E assim atravessara o Oceano. E estava ali. Fazendo mais uma travessia. Das mãos do porteiro para as mãos dela.

 

Já foi entrando em casa e abrindo. A capa era bela. Objetiva.

 

Mas entendeu o autor no momento que viu a primeira página. Depois da capa. E a última página. Antes da contra capa.

Ali. Sem nada escrito - um papel de cor azul.  Antecipando e encerrando as letras.

 

O mesmo azul que ele relatara um dia. Sobre a cor dos papéis das cartas enviadas de avião. Há tantos anos. Escritas até o final de um papelzinho azul. Em meio às chamadas de combate. A guerra cortando as frases. O azul da letra viva numa situação de possibilidade de morte. No passado.

 

Aquele papel - na primeira e na última página. Simbólico. Silencioso. Colorindo um tempo. Qual uma tímida biografia.

 

A poesia já se expunha desde a página não escrita. Se fazia dona do texto em seu silêncio. Em sua cor. Sóbria. Discreta. Delicada. E os versos - acolhidos - dando relevo à emoção. Belíssimos.  

 

Tinha que ser um Poeta. Só um Poeta.

 

Lembrou do Santo filósofo. Ele afirmava. Não havia passado nem futuro. Só presente. Porque é no presente que se fala. Seja do passado ou do futuro. Trazendo-os no tempo. Para junto de si. Pela primeira vez ela entendeu completamente. O sentido. O significado. A idéia quase concreta do Tempo. Perfeito.

 

Dentro havia uma dedicatória.  No final ele acrescentou. Desejo muitas felicidades. E muita inspiração para escrever com o carinho e a inteligência com que o faz.

 

Lera o que ela escrevera. De lá. De tão longe. Comentara. Elogiara. Assim se identificara. E se aproximara.

 

Fez um brinde gestual ao Poeta distante.

 

Se sentiu presenteada – na acepção dupla do termo.

 

E prestigiada – na acepção egoica da palavra.

 

Obrigada.

 

 


Setembro 08 2009

 

Ficou um tempo buscando uma palavra. Uma.

 

Mas que pudesse denunciar. Que funcionasse. Isso. Uma palavra funcional. Eis a qualificação perfeita.

 

Mas nada é perfeito. Faltava a palavra.

 

Era momento de comemoração. Sentia isso. E se desentendia.  Se sentia – por que não conseguia  decodificar.  Lembrou que fez um chiste para ele. E se a anestesia anestesiou as  minhas ideias. Sempre se corre qualquer tipo de risco. Diante de qualquer tipo de intervenção. E nem tudo no mundo é orgânico.

 

Ele - artista – sabe ler o avesso do avesso de um prisma. Não busca potes. Nem duendes. Cria o ouro de dentro das cores.  Já foi logo recusando a ideia proposta. Comparou até a resistência a cianetos.

 

Ela riu. Se sentiu medicada.

 

Queria muito poder esclarecer. Esclarecer nem sempre é prerrogativa de problema. Ou de formal. Pode ser apenas uma porta. Um portal. Exagerada do jeito que sempre foi - substituiu. Acrescentou.  Esclarecer é como um arco. Um arco de triunfo. Real.

 

Pensou em dicionários. Mas eles só contem verbetes. E não seria o caso. De verbetes o mundo está cheio. Deve mesmo estar faltando é palavra. Pode parecer uma mesma significação. Mas a tradução é diferente.

 

Um verbete explica. Ordena. Racionaliza.

 

Uma palavra implica. Desorganiza. Emociona.

 

Morava longe. Um mar além. Uma distância que se media em águas e espumas. Com ondas e com calmaria. De lá para cá muito se fez. E de cá para lá muito se refez.

 

Nem sabia mais quando começara. Muito menos como. Mas se comunicavam. Por isso ela avisara. Vou dar uma sumidinha. Desta vez a questão é corporal. Notaram um excesso. Vão localizar a possibilidade de falta. Quando puder retorno. Assim. Um recadinho para ele. E para os mais próximos. Sem importar quantas marés depois seria entregue a mensagem. Seria entregue.

 

Ele foi solidário. Escreveu. Ponderou. Gracejou. Reclamou. Até se auto intitulou. Neurastênico. Estou neurastênico. Onde já se viu. Um artista. Que doa cor a ouro. E o contrário também. Que entende de avesso. Se chamar de neurastênico. Assim.

 

Viu todos os recadinhos de uma vez. Quando os excessos foram retirados a e as faltas perdoadas.

 

Leu. Adorou. Festejou. Mas se sentiu menos. Continuava sem encontrar a palavra.

 

Até se revoltou. Quase praguejou. Já estava perdendo até a classe. Renegou a própria profissão. Queria mesmo era ser inventora. Não para construir máquinas. Queria criar uma retórica nova. Para o agradecimento exprimir.

 

Queria um poder. Uma magia. Fantasia. Inspiração.

 

Pediu tudo que vinha à mente. Olhou para cima. Até para baixo. Pegou uma caneta. Vai ver assim facilita. Caneta e papel à mão. Ficou ali. Parada.

Em busca da tal palavra. Que revelasse toda a emoção. Sem freios. Sem contenção. Mas nada aconteceu.

 

Teve uma ideia. Alternativa. Poderiam ser símbolos. Quem sabe. Um símbolo muitas vezes vale por muitas palavras. Muito mais que apenas uma.

 

Ainda sem solução. Nada entendia de símbolos. E símbolo lembrava matemática. Ela odiava matemática. Fingiu resignação.

 

Pensou. Outra alternativa. Quem sabe uma tela. Poderia desenhar com exatidão. E numa única aquarela fazer brilhar a verdade da gratidão.

 

Mas... impossível criar. Vai ver tem mais faltas que pensava.

 

Nem cores. Nem flores. Nem Semiologia nova. A criatividade não devia mesmo ser seu forte.

 

Lembrou da avó da amiga. Ela dizia. A repetição também tem as suas singularidades, menina, a repetição também tem as suas singularidades.

 
Aceitou. Andava bem obediente nos últimos dias.

 

Talvez uma só palavra. Há muito já inventada. Talvez - em sua simplicidade - resuma o desfecho. E permita todo esse difícil traduzir.

 

Mais tranqüila virou-se em direção ao mar de lá. Por cima de ondas e marés altas. Abaixou-se diante da leveza de um corajoso barquinho de papel. Colocou uma garrafinha com seu bilhetinho dentro. Manuscrito. Com cuidado. Letrinha por letrinha. Qual um bordado. Escreveu.

 

Obrigada.

 

 
 

Julho 16 2009

 

Os anos passaram mesmo.

 

Ela nem se dera conta. Termo exato. Não contara o tempo. Os dias. As mudanças das estações. Não deu importância. Nem ao calendário lunar. Só ao que somasse ou multiplicasse. Esta uma forma segura. Ou uma tentativa bizarra. De não angustiar - pelo que não tem. Olhando apenas - para o que tem. Estava se sentindo adequada. Aprendera algo. Aprendera a seguir com os dias. Para a frente.

 

Se escolhera disfarçar a falta - nada melhor que viver de somar. E lá se ia.

 

Somava roteiros. Descobertas. Novidades. Até nomes de ruas.

Mas não é bem assim. Dias também se contam para trás. Porque são particulares. E cada um tem seu próprio calendário. Seu gregoriano de plantão. Como uma emergência providencial.

 

Ao abrir da porta - teve uma sensação estranha. Como se tivesse estado desmemoriada. Ou em estado de esquecimento. Durante muito tempo. Naquele momento se deu conta. Do tempo.

 

Estava bem mais atrás. Quando ela deu a ordem de saída. Seguiu a fila. Ainda no mesmo estado. Caminhava lenta. Compassada. Com olhar de rotina. Sem alardes. Sem manifestações. Não deu para negar um detalhe. Mínimo. Um súbito frio que escolhera o estômago. Dela. Como um posseiro. Impulsivo. Aqui vou estar.

 

Ela desconsiderou. Deveria ser o cansaço.

 

Chegou à porta. Diante da escada. Entendeu uma frase banal. Da tal luz no fim do túnel. Nunca viu tanta similaridade. E entendeu o tal friozinho posseiro.

 

Primeiro o cheiro.

 

O cheiro de mar. De maresia. De berço. De sereia. De fartura. Respirou forte. Como para despertar um sentido até já esquecido.

 

Naquele momento importava respirar. Respirar. Como o primeiro dos atos. Como o primeiro dos instintos. Lembrou de tudo. De tantos. De todos. De teorias. Isso numa única inspiração.

 

Até fechou os olhos. Os sentidos exigem – muitas vezes – privilégios. Concedeu.

 

Deu mais um passo. Sentiu a luz. Uma luz forte. Mas calma. Encheu todo o espaço. Os olhos não demoraram a se acostumar. Mas demoraram a acreditar. Como tinham conseguido compreender.  A distância da luz. E por tanto tempo.

 

Descendo a escada sentiu o calor. Na pele. Nos cabelos. Como um abraço. O calor contornava o corpo como uma manobra de revitalização. Emoldurando, despertava. Como uma aura festiva. Assim sentia.

 

Pareceu escutar um bem vinda.

 

Cercada pelo cheiro. Pela luz. Pelo calor. Decodificado todos os sinais. Na emoção. No corpo. Concluiu. Estou aqui. Como se a memória só naquele momento estivesse despertado. E aberto as suas gavetinhas. Expondo fotos. Marcas. Traços. A própria história. Desde sempre.

 

Obedeceu. Agradeceu.

 

Foi seguindo o percurso estabelecido. De vez em quando até fechava os olhos para sentir mais forte o cheiro. Depois abria os olhos com muito cuidado.

 

Como se assim pudesse separar cor por cor. Com lentidão. Para que nada escapasse. Ficara tomada de egoísmo. Egoísmo pelo puro prazer de quem retorna. Não sabia se havia esquecido aquela intensidade das cores. Ou se havia se defendido – acinzentando a tal intensidade daquelas cores. Tantas vezes o que parece - não é o que parece.

 

É muito mais fácil viver o prisma inteiro que um único ângulo.

 

Escutou sotaques. Regionalismos. Palavras que nunca mais dissera. Comportamentos que nunca mais tivera.

 

Recostou no carro. A cabeça um pouco para trás. E assim ficou. O tempo que o percurso durou. Virando com vagar para mais um detalhe. Ou para saber das ausências. Das mudanças. Das descrenças.

 

Foi retomando seu registro. Entendendo a própria presença. Se incluindo no estilo. Se re-compondo. Poderia sentir. Dizer. Repetir. Escutar. Sou daqui.

 

Olhou para todos os lados. Para todos os espaços. E respirou - tranqüila.

 

Por um período - estava de volta. Apertou forte a mão dele na dela. Sorriu.

 

 

 


Julho 03 2009


 

Nasci de frente pro mar
sigo as marés
altos baixos
perigo risco
barulho viração
eterno movimento
sem esperar
procuro alcançar
como as ondas
a areia
construo destruo
altero renovo
anuncio denuncio

exponho.


Quem sabe
tivesse eu nascido
de frente pro lago
seria calma serena
silenciosa
a esperar alguém afoito
uma pedrinha jogar
para me mover
em círculos lentos
até suavemente sumirem
e voltar a ser parada
cercada imóvel
plana
espelho
só refletir o que está fora
esconder o que está dentro.

 

 


Junho 17 2009

O convite chegou de repente. No começo de uma noite de muito calor - e pouca opção.

 

Convidava para o casamento dele. De repente - este virou o termo repetido. Porque as lembranças iam chegando de repente. E aos montes. Como dizia a minha avó. Só as lembranças nos comandam, menina, só as lembranças nos comandam. Ri sozinha.

 

Posso sim. Posso falar agora. Que aconteceu. Que voz tristinha. Sim. É arriscado. O período. Pode acontecer, sim. Sua mãe não vai gostar mesmo. Mas sossega. Nada vai acontecer. Alguém Cuida da juventude hormonal. Fica calmo.

 

Ainda bem. Acalmou agora. Mas faz favor. Veja se toma mais cuidado. Eu sei que é difícil. Mas a adolescência também tem mais ocupações. Além desta específica. Ainda bem que voltou a rir.

 

Pode lógico. Passa a semana aqui. Não importa se acabamos de nos mudar. Que graça tem uma casa se não for para receber os amigos. Diz a ele que pode vir. Sim.

 

Só rindo. Então vai ficar o dia todo aí. Em frente a este aquecedor. Vai ficar bem passado, isso sim. Tem razão. A temperatura aqui nem de longe está lembrando a de lá. Sei disso. Sim. Sinto saudades. Mas tinha que vir. E vim.

 

Assim. Sem muita dialética. Dialética virou foi queixo tremendo. De frio. Toma mais um. Edredom de plumas. Esse deve esquentar. Só cuida para não causar um incêndio. Com o aquecedor ligado o dia todo. Vai levar o aquecedor para o exame - também. Prometo nem vou rir mais.

 

Não nos víamos há anos. Muitos anos. Desde aquele último inverno. O do aquecedor acoplado. Ao corpo. Não sabia que ele havia sido requisitado. Soube na hora. Viera comemorar com o amigo de toda a vida. De pequenos a adultos. Mesmo distantes – sempre presentes. Nas noticias. Nas opiniões. Nos acertos. Nas profissões. Nas decisões. Nas escolhas afetivas.  

 

Nos encontramos no cortejo. Me viu. Veio feliz.  Em direção a mim. No dia exato e no momento exato. De toda aquela matrimonial confusão. Brinco perdido. Chuva sob marquise. Foco de luz nas costas. Gata assustada em sofá. Ameaça de desmaios em altar. Ele chegou. Sorrindo. Com aquele sorriso leve. Comemorativo. Abriu os braços. Não parava de me beijar, de me abraçar. Repetia meu nome mil vezes. E ria. Fiquei emocionada. Ainda bem. Que deixei este tipo de alegria plantada. Para ser colhida num reencontro.

 

Há uma certa fase da vida que as pessoas não sorriem simplesmente. Elas celebram. Comemoram. Riso tem uma outra equivalência. E quando essa equivalência desaparece e fica só o riso – muitos chamam de amadurecimento. As celebrações se recolhem. Já não há mais tanto festejo.  

 

Tem gente que já nasce com o riso amadurecido. E há os mais afortunados que o resguardam de qualquer distrofia. Às vezes amadurecer também equivale a uma distrofia. Mas enfim. Lá estava ele.

 

Cresceu belo. Forte. Saudável. Competente.  Brilhante. Mas manteve o riso comemorativo. Amadureceu sem se tornar um distrófico emocional.

 

Telefonou para fazer o convite. Fazia questão. Que lá estivéssemos. Casaria lá. Na cidade de onde vim. O trajeto se invertia. Agora nós que iríamos.

 

Tanto tempo sem voltar. Após um segundo de apnéia – escutando o convite pelo telefone – retomei.  O fôlego. O susto. A intenção. A voz.

 

Lá pode até ter brinco perdido, mas não tem chuva. Nem gata. Nem foco de luz. Nem prédio com marquise.

 

Tem sol. Tem mar. Tem cheiro de mar no começo do dia, no meio do dia e no final do dia. Tem cheiro de mar na brisa da noite, da meia noite. Tem até isso. Meia noite. Tem vista. Tem banquinhos para ver a vista. Tem coqueiro.

 

Tem paralela. Tem modelo. Tem forte. Tem ladeira. Tem uma sereia acolhedora de peito aberto. E  farol sinalizador de que está perto. Tem alta e tem baixa. Tem fita. Tem conta. Tem cor de ouro nas panelas. Tem mil molhos nas tigelas.Tem caldo. Tem lambreta. Tem até sururu. Lá tem tanto que nunca mais vi.

 

Tem a amizade que desprezou geografia. Que prestigiou afetos. Que memorizou amparo. E tudo em tão juvenis tempos. E contratempos.

 

Voltar requer sempre mais coragem que partir. Mas lá vamos nós. Outra vez sob o olhar de Manturna. Apertem os cintos. Entre céus e terras, passando pelo doce azul do mar. Uma certeza - o riso festivo se fará coro e cor. 

 

 


Maio 25 2009

Ele telefonou cedo.  E já foi mais informando que perguntando. Se eu estava lembrada. Da data. Fazia já um ano. Naquele exato dia. Um ano. Até ri.

 

Agora podia rir também com a pergunta. Como poderia esquecer. E avisei.

Já deixei uma mensagem para você. Mais cedo ainda que sua ligação. Riu. Se sentiu prestigiado.

 

Todos nós lembramos. A notícia e o ato. Os detalhes. A dor. A angústia. A esperança. A dúvida. A certeza. O tempo. As horas. Tantas horas. Muitas horas. O dia todo. Nunca ninguém poderia estar preparado. Para tanta espera. Diante de uma porta. Esperando a porta se abrir. Esperando uma noticia. Esperando um alento. Esperando um som. Uma frase. Sim. Hoje sabemos. A espera era mesmo por uma frase. Uma frase curta. Objetiva.  O alivio. Apenas isso. Acabou. Tudo bem. Estas palavras.

 

Durou um dia inteiro para serem escutadas. Um dia inteiro de espera. E enfim a porta abriu. Já noite. E a frase veio. Como desejada. Ou ainda melhor. Uma frase curta. Objetiva. Mas veio com muitos risos. Foi dita assim. Acabou. Tudo bem. Entre risos. E todos nós choramos. Diante da frase acompanhada dos risos. Afinal – e no final – as lágrimas expõem também a alegria. É uma das muitas formas da alma sorrir. Imprevisível. Independente. Subversiva. Mas eficaz.  

 

Sim. Um ano.

 

Ele teve a idéia. Achou indicado. Fazer uma extravagância. Uma comemoração fora de hábito. Assim falou. Vamos todos fazer uma extravagância.

 

Ele podia pedir tudo.

 

Nunca pensei desta forma sobre os pedidos. Eles existem para também validar a existência. Assim. De forma redundante. A existência - por si só - já é redundante. Vive-se porque vive-se. 

 

O convite se espalhou entre nós. O da tal extravagância. Logo depois das atividades. Da rotina do trabalho. Vamos todos jantar diante do mar. Escutando as ondas. Quem sabe até dando uma passadinha com os pés na areia. Tocando uma espuminha aqui. Outra ali. Com delicadeza. Adivinhando a praia na noite. Um jantar especial. 

 

Descemos a serra.

 

Chuva entende muito pouco de existência. E principalmente de pedido. Isso tudo ela desconsidera. Pois assim foi. A chuva fortalecida desceu a serra junto. Fiel companheira. Não saiu de perto. Fosse um boletim meteorológico diria que a visibilidade era nula. Porque era. Só aquela cortina de água. Mas se tem que ser – que seja. Não houve desistências. Houve até quem sugerisse seguir uma plaquinha escrita – retorno. Indignação geral. Tímida e arrependida até emendou para - contorno. E todos riram. Houve piadinhas.

 

Se não chegarmos até o mar – ele por certo chegará até nós. Não faltou humor. Bom humor.

 

A chegada foi bela. A chuva se retirou aos poucos. Acalmou a si própria e a todos nós. E parou. O restaurante escolhido ficava quase mar adentro. Num píer. Piso de madeira. Vidros em volta. Lindo. Abrimos os vidros perto da nossa mesa. O vento entrou. O cheiro salgado invadiu o salão. Brincou com nossos cabelos.

 

Em torno da praia - as luzes das casas. Como um colar no mar. E aquele murmúrio. De ondinhas quebrando. Tudo costurado como uma colcha delicada de retalhos. Coloridos pela lembrança de cada um. Cada um por seu viés. Por sua memória. Por sua seleção.

 

Ali estávamos. Manufaturando o nosso feriado. Artesanalmente. Em meio à chuva da ida e – depois - à neblina na volta. No semi-escuro da serra.

Escutando a música de nossas vozes. De nossos risos.  Sem seqüelas. Sem temores. Dando o assunto passado por encerrado. E uma comemoração presente e futura por iniciada. A história não precisou ser re-escrita de forma cruel. Manteve a sua escrita certa. Nas linhas certas. Com o título certo.

 

Acredito que esta seja a magia da Vida. A ambigüidade do tempo que passa. A duplicidade entre o que se leva e o que se trás. O pertinente entre o que se lembra e o que se esquece. O factual entre o que se marca e o que se apaga.

 

Há ainda o mistério entre o que se escreve e o que se traduz. Um brinde. Dia dois de fevereiro. Uma festa lá no mar. Uma festa diante do mar.

 

 


Maio 07 2009

Estava decidido. Passaria o final de semana em casa. Lendo. O livro dele - a fascinara. Mais uma vez. A cada nova frase lida – quase uma hora de silêncio. Tentando entender todo o processo. O que gerou a frase. E o que a frase gerava. Até riu. Seria lido com calma. Não sabia por quanto tempo. Não que fosse volumoso. Em páginas. Era volumoso fora das páginas. Maravilhoso. Ele era e sempre seria seu autor favorito.

 

Havia o título. Começou a se apaixonar desde o título. Na hora nem se dera conta. Do por que o título também a atraíra. Assim são os livros. Ou os autores. Escrevem uma idéia. E são desapropriados dela por quem os lê. Assim. Desde o titulo. Enfim. Que cada um se utilize do fato. Como sendo fruto do próprio ato. E em meio às páginas sigam as duas trajetórias. Compondo e descompondo a cada nova linha.   

 

Era um mar calmo. O céu estava azul. E fazia aquele barulhinho doce. Suave. De ondinhas quebrando. Na areia. Tudo que uma criança compreendia. Tudo estava ali. Ela era bem pequena. Não diria corajosa. Era afoita e curiosa. Talvez termos mais adequados.

 

Lembrava do final de tarde na praia. Em especial daquele final de tarde. Ele veio e perguntou. Quem queria passear de jangada. De jangada. Ele estava ao lado dela. Recusou. Temeu. Ela concordou e o abraçou. Considerou prudente. Não ir.  

 

Ela olhou. Para o mar. Para a jangada. Para as pessoas que iriam. Sorriu. Decidiu e avisou. Eu vou. Assim. Com a voz de criança. Com a decisão tranqüila. Que só as crianças sabem ter. Não temem pelas escolhas. Porque não temem ainda pelas perdas. Para as crianças o mundo realmente gira. E trás de volta o que não pode ser escolhido num mesmo momento. O depois - é logo ali. Não existe a possibilidade do nunca mais. E quando existe o nunca mais a tradução é outra. É como um talvez. A infância é sempre talvez.

 

Enfim. Deu a mão a ele. Entrou correndo na água. E subiu na jangada.  

 

A jangada dançou. Na água salgada. Com pontinhos brilhantes aqui e ali. Balançando. Alternando as madeirinhas. Dentro e fora da água. Ele ficava de pé. Segurava o remo. Um banquinho de madeira amparava uma sacolinha. Uma rede. Se ninguém ia sentar – ela também não iria. Também ficou de pé.  

 

Ela segurou na mão dele. E sorria. Feliz. Olhou de volta para a areia. Ele ainda estava lá. Abraçado a ela. Sentiu aquela pontinha de orgulho. Não recusara a enorme aventura. Deve ter até erguido mais a cabecinha. Mas disso não lembrava. Lembrava dos pés. Lembrava que olhou para os pés. E viu que a água entrava por entre as madeiras. E daí por entre seus dedinhos. Fazia cócegas. Achou maravilhoso. Maravilhosa a sensação.

 

O jangadeiro olhava para ela e mostrava o mar.

 

Explicava o mar. Ela atenta. Nunca mais na vida esqueceria aquela explicação. E nem esqueceria que para entender o mar é preciso uma explicação. O mar não é assim tão simples. Água. Sal e onda. O mar é outro lugar. Que também tem suas curvas e suas retas. Seus mistérios e seus códigos. Tudo vai depender da explicação. E do conhecimento. De quem o apresenta. Sempre que ia para o mar - lembrava dele. E da seriedade com que explicava. E a concentração que ela ficava. Para que nada deixasse de ver.

 

Escutando e olhando. Sentiu-se diante de uma majestade.  

 

Ali ficara não por muito tempo. Aprendendo sobre jangadas e mar. Sobre mar e coragem. Sobre riscos e efeitos. Hoje sabia que fora um passeio curtinho. Na época se sentiu uma desbravadora. Como se há dias no mar.

Riu das lembranças.

 

O livro, que estava no colo, escorregou. O segurou antes que caísse. Releu o título. Aí então compreendeu. Acariciou a capa. Sorriu. Olhou para os próprios pés. Brincou com os dedos no tapete. Em terra firme como na água. O que valem são as sensações.

 

Lembrou da amiga. Que tinha um amigo indiano. Um dia ela lhe contara algo que ele falara.

 

É preciso um espaço para que a pena flutue – tranqüila. 

 


Abril 14 2009

Morava de frente para o mar. Via o mar de todos os ângulos. Acompanhava as cores. A força. O brilho. Durante muitos anos justificou assim o seu estilo.

 

Alegava que nascera de frente para o mar. Isso a fazia se sentir privilegiada.

 

E desculpada. Porque deveria ter contribuído. Afinal maré muda a cada turno. E ela mudava quase assim. Nesta frequência. Justificava. Todos sempre riram da explicação. Mas nunca discordaram. Vai lá saber o que a geografia é capaz de fazer. Com a vida de uma pessoa.

 

E acrescentava. Com total tranqüilidade. Se tivesse nascido de frente para o lago teria sido diferente. Seria calma. Serena. Teria conduta expectante.

Como diziam onde trabalhava. Conduta expectante. Achava lindo. Sabia que não combinava com ela. Mas achava lindo. Suave. Esse tipo de fato. Ou de ato. Deve ser diferente quem nasce de frente para um lago. Sempre parado. Até que alguém ali jogasse uma pedrinha Dependia da pedrinha. E do outro. Que jogasse. Um lago tem margem. Tem limite de movimento. Não faltava filosofia. Ou explicação geográfica.  

 

Mas nem tudo na vida é lembrança. Geografia. Ou filosofia. A memória fica de espreita. Lá um dia se revela. E desvela. Descobriu isso. E ficou pasma.

 

Passou um dia de turismo com um amigo. Um amigo querido que viera de longe. Tinham apenas este dia juntos. Algo como uma escala. Ele aproveitou para revê-la. Na tarde decidiram passear pela cidade. O amigo tinha esta mania. Pontos turísticos. Não iria contrariar o visitante. E foi com ele. Falando e dirigindo. Apontando e nomeando. Foram muitos os pontos visitados. Da cidade.

 

De repente decidiu mostrar a ele – ao amigo – o bairro onde nascera. Morara ali por muitos anos. Mudara-se para o bairro atual quase adolescente. Nunca havia feito isso antes. Desta vez seguiu a intuição. E foi. Apontar este outro pedacinho da sua história. Pelo viés da arquitetura. Entrou no bairro. Na rua. Parou em frente ao prédio. Foi fazendo voltas. Entrando com cuidado. As lembranças devem ser revistas como muita delicadeza. Não se pode rever assim. De súbito. De súbito pode sugerir descaso. E descaso com o passado pode causar riscos. Ele achou lindo. Ela sorriu. Com calma. E com o olhar quase de criança. Como se fosse reincorporando a infância ao caminhar pela rua. Por isso tem mesmo que se ir com calma. Quando se decide visitar a origem. Porque a vida dá uma giradinha. De leve, mas para trás.

 

Enfim. Lá estava. Olhou o prédio. A janela do quarto dela. E sabe-se lá porque olhou para o outro lado. Como se estivesse procurando a vista que via da janela. A paisagem da infância. Pobre amigo. O susto foi em dois idiomas. Estrangeiro ele era. E estranha ela ficou parecendo. Com o grito espantado que deu. Gritou e segurou a boca. Prendeu até o fôlego. Deve ter mudado de cor. Porque o amigo estrangeiro pegou o celular de imediato.

 

Pareceu a ela que discou apenas três números. Segurou a mão dele. Cortou a ligação. Voltou a respirar. Esforçou-se para explicar a ele. Também em dois idiomas alternados. O motivo do susto. Ele nada entendia. Assim pareceu a ela. Tudo ficara muito confuso de repente.

 

Diante da janela do quarto onde nascera – e morara - até a adolescência estava, nada mais nada menos, que um enorme lago. Um lago. Cercado de margem. Margem com grama verdinha. Mas um lago. Como pode esquecer. Não entendia. Pensou até no mestre austríaco. Ele deveria ter a resposta. Mas ela não tinha. Ficou olhando para o lago. Lembrou então das vezes que ficara na janela. Curiosa. Para aquela imensidão. Aquele excesso de água.  Gente sempre em volta. A água ali. Parada. Escura. E ela da janela. Parada. Olhando. Com seu olhar de criança. Que tentava entender o mundo em volta.

 

Não tinha mais sua explicação favorita. Nascera de frente para o lago.

 

Lembrou de novo do mestre austríaco. Pensou. Refletiu. Tinha que descobrir uma alternativa. Para ela mesma. Muito mais que para os outros. Por fim decidiu. Sentiu-se aliviada. Até explicada. Segura de si de novo. Vai ver era a pedrinha. Sim. Ela deveria ser a tal pedrinha. A que fazia as ondinhas. No tal lago. A que punha a calma em movimento. Riu.

 

Continuou – agora satisfeita - o turismo com o amigo estrangeiro. Ele mal olhava para a paisagem. Vai ver temia tirar os olhos de cima dela. E mais um susto acontecer. Estava suficiente já de sustos para uma escala. Pareceu mais atento. À hora do vôo de volta. 

 

 

 

publicado por Lêda Rezende às 23:51

Março 22 2009

 É verdade. Nem notei. Dez anos. Agora a dúvida. Logo eu que detesto dúvida. Tinha que surgir uma justo agora. Justo hoje.
Aconteceu muita coisa? Aconteceu pouca coisa? Só me vem à mente perguntas.
Ri.
Se eu soubesse respondê-las - nem teriam surgido.
Conclusão à moda austríaca.

E ainda nem me decidi se parece. Se parece pouco tempo ou muito tempo.

Ele quando soube, comemorou. Depois a pergunta. Arrependeu? Assim. Pergunta solta. Ele sempre faz pergunta solta. Quando quer fingir que não tem importância. A pergunta. Mas sei que é quando tem. Perguntou e se pôs a fazer alguma coisa. Disfarçou. Barbas de molho. Esta expressão sempre me lembra ele. Também tem outra. Pulga atrás da orelha.
Ri.
Ele percebeu. Mas preferiu não comentar. Discreto em tudo.  Por tudo.

Aquele dia foi incrível.

Sai de lá. Chega aqui. Em menos de doze horas o Universo trocado. Cenário trocado. Paredes trocadas. Rostos apagados. Rostos apresentados.
Cento e noventa e seis caixas.  Não esqueço este número. Cento e noventa e seis.
Entraram por uma porta. Eu saí pela outra. Para o Hospital.

Caixa sempre é questão. Uma já é. Mas cento e noventa e seis é terremoto.
Ri de novo.
Era mesmo o que parecia.  Meu coração. Parecia um terremoto. Batia de todo o jeito. E de toda falta de jeito.
Acabei no Hospital.

Caixa entrando e eu saindo. Ele que me levou. O mais velho. O mais novo ficou. Angustiado. Rimos muito no caminho. O motorista do táxi não entendia. Era urgente porque era mortal. Como poderia se rir tanto disso. Nem nós sabíamos.

O médico até desconsiderou. Avisou ríspido. Quem está morrendo não ri. Conclui rápido. Ele não entendia nada de morte. Muito menos de riso.
Mas acatei.

Voltei. No mesmo dia. Voltou o compasso. Do coração. Eu sempre fui descompassada.Sempre tive problema de conteúdo e continenti. Não cabia. Nada cabia. Empurrava daqui. Ajeitava dali. Fiz doação. No final: casa arrumada. Casa montada - como diziam de onde vim.
A posse se renovava a cada trinta dias.

Lembrei que tinha um fantasma. Ri agora. Todos o viram. Mudava até as coisas do lugar. Um dia ele sumiu.
Deixou que a integração de posse ficasse para mim. Ou minha.

Ele brinca que sou desorientada. Descompassada pode ser. Desorientada não. Não sei. Talvez sim. Nunca entendi de bússola. Nem sequer compreendo os pontos cardeais. Seguia as setas. Foi por uma dessas setas que nos conhecemos. Uma história simples. Ou uma simples história.
Não parece filme. Não parece do outro mundo. Um encontro. Começa com o olhar. O dele. O olhar sempre traz o impossível de ser dito.
Continua com as palavras. As minhas. Se organizam com o ato. Conjunto.

Eles ainda moravam comigo. Eles chegavam das aulas à noite. Jantávamos juntos. Sempre rindo. Nos divertíamos com qualquer coisa.
Tinha um frigobar. No vestíbulo. Passinhos na noite.
Não era o fantasma. Farra no frigobar. Farra de chocolate.
E pela manhã só embalagens vazias.
Ninguém dizia de quem foi o ataque maior.
Ri mais uma vez.

Lembrei do frio. Aquecedor pela casa toda.
Eram tantos que possibilitava a idéia de usar protetor solar.

Ri quase alto.

Nem sabia as ruas. A cada nova esquina um susto. Benditas placas. Ou bendito seja o inventor das placas. Minha vida pendurada num fio.  Olhava para cima e descobria os rumos.  Me sentia numa nau. Arrecifes de um lado. Tubarões do outro. Icebergs mais adiante.

A Nau dos Insensatos. Ou da insensata solitária.  Gostei da analogia.

Ele não entendia como eu gostava do trânsito. Transito. As ruas eram mais minhas a cada dia. Se eram minhas, não faziam mal. Podia demorar nelas. Até hoje gosto das ruas. Gosto da intimidade conquistada.

Ele me achava corajosa. Inteligente disse um dia.
Quase dei um pulo.
Esta palavra sempre me soou tão alheia a mim.  Lembro do dia em que contei isso a ele. O motivo do tal alheiamento. Tive um diagnóstico de retardo de raciocínio. Algo por aí. Ele riu. Negou. Até se irritou. Falava sempre que eu era inteligente.
E a palavra começou a me soar mais próxima e menos verbete.

Muitas vezes ele ria ao me ver sair. Todos já me conheciam. O jornaleiro. A mocinha da livraria. O segurança do estacionamento. Até o judeu mal humorado da lavanderia. Era mal humorado. Mas quando me via sorria. Tinha um neto. Escutei todas as gracinhas dele. Mas nunca o conheci.

A cidade me incorporou. E eu ela. Não sou natural daqui. Mas escolho. Sou artificial daqui.
Ri.
Vou escrever isso em meus registros.

E tinha ela. Era ótimo. Ela vinha todos os dias no final da tarde. Tomávamos chá e comíamos bolo. Ríamos muito. Ajudamos a saúde financeira da fábrica dos bolos
Não sei qual de nós duas era a mais solitária. Talvez as duas. Ou nenhuma das duas.
Só sei que ríamos e comíamos. Quando estava frio era café com conhaque. Poucas vezes choramos.
Agora caiu uma lágrima. Ela se mudou para bem longe. Depois do mar. Quem sabe um dia uma de nós escreve um livro. O Banquete na Cozinha. Perdão Platão. Mas o nosso era mais divertido. E nunca chegou o Alcebíades bêbado. Agora ri mesmo e ele viu.

Me olhou. Viu que estava rindo. Acho que viu que escondi a lágrima. Deve saber tudo que estou pensando. Ele sabe tudo de mim. Sempre. Às vezes tem ciúme. Do tempo que não encontramos a seta. A seta que nos encontrou. Nega. Diz que não se incomoda. Mas sei bem que se incomoda.

Bobagem. Pare com isso. Que abraço gostoso. Sim. Como poderia estar arrependida? Muito bom.

Sim, é verdade. A ignorância é que permite a coragem. Eu tinha as duas. Que sorte a minha.

Concordo. Tudo deu certo. Dez anos. Sim. Sem dúvidas. Aconteceu muita coisa.

Muita coisa boa, maravilhosa.

Viva a artificialidade. Também amo você. Muito.


publicado por Lêda Rezende às 00:42

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