Blog de Lêda Rezende

Outubro 25 2009

 

Olhei o relógio.

 

Pela diferença de fuso já é aniversário dela. Lá. Além mar.

 

Fiquei pensando o que dizer a ela. Como explicar em palavras escritas - toda a nossa cumplicidade. Como dar entonação à letra. Todos esses anos que participamos de nossos aniversários. E os outros tantos que deixamos de compartilhar a data.

 

Desde que ela se mudou para lá. Há muitos anos. Nunca mais parabéns para você de pertinho. Cantado. Abraçado. E que agora estou eu aqui. Lembrando. Saudando. Num silêncio de um teclado. Ou - na musicalidade que o teclado também permite. Como uma sinfonia particular. Onde o ritmo acelera ou acalma – de acordo com a emoção a ser descrita.Um Allegro e um pianissimo simultâneos.

 

Ultimamente está virando rotina. Comemorando de cá. E os aniversariantes de lá.

 

Ri. Impossível conter o riso. Festejo é assim. Sempre um riso vem conjugado. Um pretérito perfeito.

 

Lembrei a última vez. Ela estava aqui. Morávamos perto. A casa dela se preencheu de amigos. Ninguém sabe organizar uma festa do jeito dela. Prática. E linda. A festa. Ela também. Lógico.

 

E as comidas. Maravilhosas. Descobri que manga em cubinhos entrelaçada com couve refogada em tirinhas é quase um símbolo. Ou uma natureza bem viva. De prazerosa refeição. Nacionalista. Ingredientes combinados. Adequados ao paladar e à digestão. Perfeito.

 

E o bacalhau. A linha entre o espiritual e o material fica tão apagada.

 

E as sobremesas. Inesquecíveis.

 

Às vezes disfarçava. Burlava a confiabilidade alheia. Tudo que ela fazia era perfeito. Portanto podia transgredir. De vez em quando falsificava. E - de um bolo qualquer comprado – uma obra de arte surgia. E negava a receita. Coisas da minha mãe. Ela quem me ensinou. E ria da própria transgressão.

 

A mesa impecável. Toalhas lindas recebiam a louça delicada. Compunham uma vista alegre. As taças. Os vinhos. O champagne. Um banquete para os amigos queridos. E a energia afetiva a fazia parecer descansada. Como se num SPA estivesse toda a tarde. Para receber os convidados na noite.

 

E o riso - sempre feliz. E os braços - sempre acolhedores.

 

Lembro de uma vez em especial. Logo que vim morar aqui. Ela tranquila me apresentava. Aos mais supostamente esquecidos. E desconsiderava perguntas indelicadas. Ou impedia que chegassem até a mim. Não queria saber de constrangimentos. O período era difícil. Ela sabia. Não possibilitaria mais dor. Ou invasões de privacidade.

 

Sempre respeitou. Nunca questionou. Não iria permitir o contrário. Fosse de quem fosse.

 

E todos acatavam. E acataram. Sempre. Até que desistiram de questionamentos.

 

E o tempo passou.

 

O último aniversário dela aqui.

 

Sabíamos que seria um longo tempo assim. Ela além mar. E nós todos aqui. Comemorando o dia dela – sem ela.

 

Mas deixou para nós muita sabedoria.

 

 

Na delicadeza do trato. Na organização de uma reunião informal. Na formalidade de afetos. Na disposição emocional de acarinhar.

 

Premiava a cada um com seu sabor preferido. Separava até os lugares. Sabia onde cada um gostava de sentar. E deixava o espaço já quase que nomeado. Deixa para ela este cantinho. É mais tímida. Ela não gosta de calor. Deixa perto da janela. E por ai seguia.  

 

 

Ensinou que as festas são para os amigos. Importa o que eles gostam. Não entendia festa com egoísmo. Festa não é para o dono da casa. É para os convidados.

 

Hoje. Não estou lá. Mas sei exatamente como está seguindo. A programação. O festejo. O cardápio. As flores. O cheiro percorrendo a sala.

 

E mesmo com muitas pontinhas de inveja – fico feliz por todos eles.

 

Estão diante dela. Podendo conviver na rotina. Cantando os votos da data querida de lá. Que são diferentes dos cantados de cá. Mas com a mesma intenção. Por certo. Ora, pois.

 

E adivinho o riso dela. Os agradecimentos.

 

O olharzinho sorrateiro de vez em quando esticado - em direção a todos nós. Que aqui estamos. Deste lado de cá do descobrimento. Celebrando e cantando de dentro do nosso coração. Enviando para alguma estrelinha que passe. Para que ela receba de lá.

 

Parabéns - Lia querida. Muitas saudades. Muitas felicidades. 

 

 


Setembro 28 2009

 

Não esquecia um determinado comentário dela.

 

Escreveu dizendo. Achava muito bonito. Fazer uma festa apenas os seis. Tem quem discorde. Quem ache que festa tem que ter muito mais pessoas. Mais distantes. Ou mais sociais. Afins e sem fins. Elogiou isso. Fazer festa familiar. E ser tão divertido. Sempre.

 

Participara uma vez. De uma destas festas. Era o aniversário dela. Veio junto com a outra amiga para prestigiá-la. E se transformaram em oito. Foi muito bom. Não faltaram motivos para risos. A celebração se estendera pelo dia e entrara pela noite. Uma festa. Este o termo correto. E achara maravilhosa.

 

Códigos e referências sem explicações necessárias. Risos e dados rascunhados – passado a limpo. Sem aborrecimentos. Sem contratempos. Sem críticas maldosas. Sem mágoas.

 

Sim. Ela estava certa. Sempre era muito bom.

 

Nesta noite não foi diferente.

 

O convite partiu dele. O inverno chegou. Vamos celebrar antes que acabe. Com esta informação do aquecimento global nunca se sabe. Todos riram. Convite aceito.

 

A mesa estava em ordem. Tudo feito dentro do solicitado. Cada um poderia se servir diante da sua preferência. O frio circulava com tranqüilidade. Lá fora uma chuva leve dava um toque bucólico.

 

Ela riu. Sempre se divertiu com este termo.

 

A modernidade permitiu que fosse tudo feito à mesa. Com todos em volta. Como um banquete antigo diante das genialidades modernas. Não se precisou do ir e vir. Tudo ficou disposto e exposto. Aquecido. Aquecendo.

 

Não se fugiu à rotina. Como assim - acabou. Então substitui. Faz assim mesmo. Vai ficar bom. Ela não gosta de alho. Ela não come bem passada. Ela só quer mal passada.

 

Este queijo, não. Acha até bonito. Mas não gosta. Este sim. Sim. Deixa que sirvo. Ponha mais para cá. Agora ficou longe dela. Quase derramou. Não, não sujei nada.

 

Quem levantar vai ter que pegar também mais isso. A família denuncia de onde veio. Sim. Até ele. Veio do lado oposto. E já está igual. Ninguém quer levantar. Deixa - eu vou. Então ótimo.

 

O cheiro do queijo derretido se misturava aos cheiros dos molhos da carne e aos pães selecionados. O vinho circulava de mão em mão. Os lugares escolhidos indicavam as preferências de cada um.

 

Elas estavam lindas. Como sempre. Participativas. Integradas - muito mais do que integrantes.

 

Eles se compartilhavam e partilhavam da história de cada um - entrelaçada com a do outro.

 

A música escolhida fora nenhuma. A voz de cada um parecia fazer o coro perfeito. A batuta era erguida ao som de talheres e facas. Tudo em total harmonia com os estalinhos do óleo nos quadradinhos de carne.

 

O cheiro doce do chocolate veio fazer o contraponto. Deliciou. Acolheu. Fez o grand finale. Em alto estilo.

 

Foi ai que lembrou a observação dela. Da reunião a seis. Sem precisar de suportes para ter graça.

 

Olhando para eles – se sentiu orgulhosamente feliz. Muito feliz. E muito orgulhosa. De si mesma. Tivesse uma medalha por perto e já teria se atracado a ela. Assim estava se sentindo.

 

Orgulho. Eis mais um sentimento com múltiplas leituras. Não permite solidão. Ou isolamento. A vaidade até pode ser ato parcialmente isolado. Pode ser dividido apenas com o espelho. O orgulho, não. Em especial este tipo de orgulho. Sempre vem do outro. Ou pelo outro. Como um presente doado. Perseguido de forma direta, mas conquistado de forma indireta. Não vem de si para si.

 

Foi o que aprendeu naquele momento. Observando-os.

 

Sentindo a mistura de cheiros. Diante do riso festivo de cada um. Da intimidade positiva em volta de uma mesa. Onde o simbólico se fazia quase táctil de tão factual.

 

Compreendeu perfeitamente. A importância de códigos bem estabelecidos. Seja qual for a relação. Para que possam ser corretamente lidos. E espontaneamente respeitados.

 

Até lembrou a velha frase. In vino veritas. Podia ser. Mas era verdadeira a visão. A sensação. Não era fruto de uma embriaguês. Era fruto de uma realidade.

 

Eles eram adequados ao tempo e às funções. Felizes. Afetuosos. Éticos e bem sucedidos. Com a idéia coerente de ambiente. De presente.

 

Era uma noite fria de um sábado de inverno.

 

E o anunciado aquecimento global se fazia verdadeiro e instalado. Estava todo ali - na sala. Em volta da mesa.

 

Riu tranquilamente aquecida.

 

 


Setembro 17 2009

 

Não era possível. Justo naquele dia.

 

Inacreditável. Tantos dias para acontecer e tinha que ser justo naquele dia.

 

Mas decidira. Ia fingir que não estava acontecendo. Embora estivesse estampado na face. Estava sim, acontecendo. Ou melhor, estava instalada. Instaurada. Creditada. Debitada. E ela – irritada. Com este contra tempo e contra senso. Mas enfim. Não tinha como modificar. Ao menos não tão rapidamente como desejava.

 

Lembrou que era uma reação anual. Não sabia se agradecia pela anuidade ou se rebelava. Por ter que comemorar. O tal mais um ano.  Mas não deixava de pensar - justo naquele dia.

 

Mas era verdade. Todos os anos. Desde que viera morar na cidade escolhida.

 

Todos os anos na mesma época. Só esquecera de conferir a data e a hora. Deveria ser assim. Cronometrado. No dia tal. Em tal data. E na tal hora. Como prazo de validade de latinha de conserva. Expira dia tal. Expirar.

 

Palavra que a deixou ainda mais rebelde. Inspirar e expirar.

 

Ato simples. Automático. Nem se percebe. Menos naquele dia não sabia o que era mais difícil. Expirar ou inspirar. E ainda havia o espirrar para compor a tríade.

 

Sim. Estava acometida da gripe sazonal. Podia até ser um termo elegante. Mas a gripe nada tinha de elegante.

 

E para completar – a voz.

 

Qual voz – poderiam perguntar os mais invasivos. Nada de voz. Sumira. Até o pensamento era mais audível do que a fala. Abria a boca. Fazia aquele enorme esforço para respirar. Para tentar com que uma só cordazinha vocal funcionasse. Uma que fosse. Mesmo que saísse estranho. Nada. Nem uma só. Um eterno murmúrio. Serviria para nome de filme. Mas a realidade era uma só - estava angustiante.

 

Mesmo assim foi cumprir o combinado.

 

Avisou. Pelo recadinho escrito. Estou já na escadaria. E ainda acrescentou – por escrito – risos.

 

Pareciam amigos antigos. Um reconhecimento. Já se apresentaram rindo.

 

Ele   jovem, alegre. Centrado. Polido. Atencioso. E vale destacar - com voz.
Sim. Um verdadeiro e completo comunicador.

 

Não vai se dizer que ela não se esforçou. Seria uma injustiça. Se o justo era que fosse naquele dia – o injusto seria negar que não se esforçara.

 

Esforçou-se. Falou. Desculpou-se. São surpresas das mudanças bruscas de temperatura. Ele concordou.

 

Ela descobriu que respirar pode ser acessório de luxo. Pode ser dispensado algumas vezes. E por alguns segundos se deu ao imposto e irrevogável luxo de escutar e falar sem um só gole de oxigênio. Parecia já uma maratona.

 

Contou até a própria história.  A história do encontro. Da parceria. Do filme que assistiram ainda sem se conhecer. E como casaram.

 

Depois - escutou. Ele tinha muitos relatos fortes. Curiosos. Interessantes. Familiares. Informativos. Até relato médico. Discorreram sobre joelhos e jogos.

 

Tivesse ela um pouco só mais de voz e explicaria que aquele deveria ser o dia da letra jota.

 

Justo. Joelho. Jogos. Justiça.  Até o nome do filme era com jota.

 

Mas achou desnecessário. Gastaria muitas letras por causa de uma. Pulou esta parte. Não sem antes ficar preocupada com a baixa oxigenação cerebral - dela. Já devia estar causando seus efeitos. Haja visto a celebração que ia propor para uma letra. Ainda bem que sobrou um pouco de bom senso. Ou de oxigênio.  Para manter o silêncio.

 

Ele chegou e saíram todos juntos para jantar.

 

Ela pensou rapidamente – mas bem rapidamente - sobre mais estas letras jota. Mas a esta altura já não falava mesmo. Ele - sempre gentil – fez as vezes dela. E o jantar transcorreu com alegria e confiança. Onde cada um revelou o que achou necessário. Com um off e com um on – para que nada se perdesse ou se ganhasse de desnecessário.

 

O riso correu solto. O que começara na casualidade de um texto lido – se estendeu na concretização de uma amizade incondicional.

 

Estava feita a celebração. Com voz. Sem voz. Com oxigênio. Sem oxigênio. Até com jotas. Riram quando se encontraram. Riram quando se despediram.

 

No caminho de volta para casa, abraçada a ele – entre febre, espirros e mais alguns jotas - lembrou da avó daquela amiga. Ela repetia muito.

 

A força de uma amizade se mede pela alegria do encontro, menina, a força de uma amizade se mede pela alegria do encontro.

 

Procedia. Procede.

 

 


Agosto 13 2009

 

Ele escolheu o lugar. Eles concordaram. Nós aceitamos.

 

Estava tudo perfeito. Nada fora do estilo habitual. Marcaram a hora de nos pegar. Com eles dois iríamos encontrar já no lugar combinado.

 

Começamos a nos arrumar. Tudo com muita calma. Ainda fazia parte dos festejos. Mas agora imitávamos – em parte - o título do livro. Seis. Não éramos. Somos. E lá organizamos os seis o restante das risadas e congratulações.

 

De repente uma idéia.

 

As idéias são assim. Nunca sabemos se estão contra ou a favor. Ele sugeriu. Uma taça de vinho antes de chegarem. Depois descemos. Dá tempo. Aliás – tempo é o que mais temos hoje.

 

Concordei. Procedia.

 

Já arrumados – iniciamos nosso festejo particular.

 

Sentamos diante da mesinha. Organizamos taças e guardanapinhos. Tudo com muita delicadeza. Em tempos de comemoração toda a gentileza é pouca. Ele, cuidadoso, foi se adiantando – eu lhe sirvo.

 

Abriu a portinha de vidro. Olhou. Escolheu. Pegou a garrafa que descansava na prateleira.

 

Solidária a tal garrafa. Ou a prateleira. Não quis vir sozinha. Veio em conjunto com mais três. E foram abruptamente ao chão. Assim. Sem mais nem por que. Sem maiores explicações. Sem menores detalhes. Sem grandes considerações.

 

Caíram. Unidas. Deviam ser da mesma videira. Vai ver vieram na mesma importação. Nascidas e criadas juntas. Um primor de união. Pensei num daqueles milésimos de segundo. Que surgem diante destas pequenas tragédias. Concessões do bom humor que ajudam a manter a sanidade.

 

Por um segundo antes o cenário parecia em ordem. O piso branco. Os tapetes – azul e branco. As cadeiras com a madeira envernizada bege.  Os sapatos com tom e brilhos corretos. A saia longa colorida dava um toque informal. A calça de um jeans acinzentado já avisava da chegada do inverno. Assim. Tudo sob controle.

 

Por um segundo depois – o cenário já se re-organizava de forma espontânea. Pelo piso branco escorria apressado e caudaloso o líquido vermelho. Os pedaços de vidro sugeriam um mosaico sem limites sob o brilho da luz do teto. Os tapetes afogados pareciam ter engordado de repente. E lentamente a cor deles ia mudando. Muito mais lenta e no inverso da nossa. Nós rapidamente de corados passamos a brancos. Esverdeados até diria.

 

Os sapatos. Estes sim. Se adequaram rapidamente ao ambiente. Vermelhos e com lasquinhas de vidro. Pareciam os sapatos mágicos daquele filme clássico-preferido dos irmãos do Norte. Só não tínhamos as pedras amarelas para seguir. A saia – mais colorida que antes - pingava o vermelho com uma delicadeza especial. A calça – já distante do tal jeans acinzentado - não mais anunciava o inverno. Homenageava uma arena. O touro já tinha vindo. E - certamente - vencido.

 

Não mais havia espaço sem cor. Ou vazio. Exceto dentro da portinha de vidro. Lá sim. Tudo continuava com a temperatura mantida. Nos espaços projetados. Com a calma da frieza. Ou com a frieza da calma. Aquela altura não dava mais para ser teórico.

 

Entre pulinhos para não aumentar a composição do tal mosaico e corridas aos paninhos para diminuírem a tal arena – o riso se fez.

 

Impossível nos olhar e não rir. Uma pergunta não calava. Falamos mesmo o que a respeito da sobra do tempo. Mais risos. Panos jogados às pressas.

 

Roupas trocadas como se num desfile de modas – tamanha a ligeireza dos gestos. Sapatos retirados com cuidado. Telefone tocando. Avisos de – já estamos aqui. Podem descer.

 

E nós ali. Entre os verbos. Poder. Querer. Dever. Descer.

 

Escolhemos o verbo - telefonar. Avisamos a ela. A ela. Quando chegar amanhã pela manhã – cuidado. Quatro garrafas de vinho se quebraram. No chão. Acho que escutei um possível o que. Com alguns decibéis mais sofisticados. Não sei bem.

 

Desliguei.

 

Talvez esta tenha sido uma frase da minha bisavó. Já não posso garantir. Se não tiver a solução – apenas feche a porta. Sugestão obedecida – ato praticado.

 

Já no carro - vi um brilho na meia dele. Um caquinho de vidro a enfeitava. Retirei com delicadeza.

 

Mas não contamos a eles.

 


Julho 12 2009

Ela me telefonou. A noite mal se instalara. E ela agia como madrugada afora.

 

Passara a semana toda pensando o que fariam. Na sexta. Mil programações.

 

Tinham duas comemorações pessoais. Acreditou. Ele viria mais cedo. Para comemorarem.  Organizou o roteiro. Escolheu os cardápios. Organizou o vestuário. Seria uma noite festiva.

 

Fazia tempos que eles não tinham tantos motivos. Para festejo. Para celebração. Sim. Esta a palavra certa. Celebração. Decidiram por celebrar os bons acontecimentos da semana.

 

Quando me telefonou estava emocional. Passional. Parecia filme italiano. Podia ate vê-la gesticular.

 

Ri baixinho. Não queria provocar mais emoções fortes. Quando ela se desacreditava ela se descomprometia. Com o mundo. Com as etiquetas. Com as regras.

Parecia que entrava em narcose. Porque todo o jeitinho calmo e suave se transformava.  Em explosão.

 

Lembrei a minha avó. Ela dizia sempre. Cuidado com as pontuações, menina, cuidado com as pontuações. Nunca vi ninguém que se adaptasse tão bem ao tal aviso de alerta.

 

Falava sempre doce. Com vagar. Nas frases dela continham de tudo. Desde hífen até exclamações. Mas tudo muito suave. Compassado. Parecia uma harpa. Com toda a leveza musical. Como um dedilhar pelas cordas.

 

Até a hora que se desacreditava.  Ai sim. Nem toda bateria faria tanto efeito. Era um ressoar de múltiplas sonoridades. Simultâneas. Sincrônicas. Um outro tipo - de pontuação - surgia.

 

Uma amiga a tinha convidado. Teriam um encontro para um café. Um vinho. Qualquer líquido acessório. Cancelou. Cancelou. Ele avisou que viria cedo. Preferiu esperar por ele. E não fazer encontros com pressa.

 

E ficou sozinha em casa.

 

Nem acreditou. Depois daquela semana só de problemas. Tudo bem. Nem lembrava mais se tivera problemas. Mas isso não importava. Assim foi logo dizendo. Quando perguntei pelos problemas. Importava que ficara só. Numa noite de sexta.

Dormiria sozinha. Conversaria sozinha.

 

Já estava na fase da bateria. Esta é uma fase onde só produz sons. Não escuta sons. Mais ou menos assim.

 

Mas houve um segundo de silêncio. Um segundo bem fugaz. Por onde pude dizer uma palavrinha. Uma frase. Por que não deixa para reavaliar amanhã. Nada melhor que o dia seguinte. E ainda é cedo.

 

Não respondeu. Ou melhor, não deu tempo de responder. Acho. Porque de repente escutei um som estranho. Algo como um gritinho. Um risinho. Difícil decifrar sons ao telefone. O som seguinte foi um estalinho.

 

Ela voltou a falar com uma voz doce. Aquela de sempre. A pré-bateria. Ele voltara. Não atrasara muito. O trânsito que atrapalhou a pontualidade do relógio. Não a dele. Até contou isso rindo. Estava cheia de graça. Graça até demais.

 

Antes de desligar escutei a explicação. Dela para ele.

 

Foi ela que estava preocupada com você. Ainda me perguntou se eu não me desconfortava. Por você marcar e não vir. Ou por estar em festinhas com suas colegas de trabalho. Imagina. Logo você. Sempre cuidadoso. Afetuoso. Coisa de amiga. Eu estava apenas lhe esperando e lendo. Quando ela telefonou.

 

De novo o som seguinte foi um estalinho. E o telefone foi desligado.

 

Do lado de cá – ou de lá – pensei. Preciso comprar uma tuba.  Vamos ver onde a harpa ficará nesta orquestra.

 

 


Julho 06 2009

Fiquei olhando para ele. Sentado próximo a mim. Quase em minha frente. Quase. Falando. Por horas.

 

Vi quando chegou. Foi pontual. Na hora agendada – estava lá. Era o que parecia. Estar lá. Deveria conviver com aquele grupo há muito tempo.

 

Havia uma certa desenvoltura no caminhar entre eles. E todos o conheciam. Mas poucos se dirigiam a ele. Ou poucos ofereciam um espaço a ele. Ele cumprimentava efusivo. Exagerado - até poderia se dizer. Recebia de volta um riso social. Formal e polido. Mais ou menos assim.

 

Não sentou. Circulava entre o ambiente. Os passos fortes e rápidos. Mais fortes e rápidos que a situação solicitava. Carregando, sobre os sapatos, o verniz escuro da ansiedade.

 

A postura lembrava a de uma emergência. Como se tivesse vivendo um prazo a expirar. Passava de um canto a outro. Da porta à janela. Da janela à porta. Seu corpo parecia saído de uma dança flamenca. Esguio – mas exausto.

 

Esta a idéia que sugeria. Girava sobre si mesmo. Olhava para os lados. Para cima. Para baixo. Dava uma idéia de agitação. Muito mais interna que externa. A externa apenas coreografava a interna.

 

O olhar seguia o ritmo dos passos. Da dança. Cansado. Mas curioso. Olhar ávido. Ávido por retorno. Ávido por espaço. Ávido – talvez muito mais - por espelho. Mas era um olhar ambíguo. Como os passos. A busca parecia já vir com a certeza. Parecia conformado. Como se soubesse desde sempre o acolhimento que teria.

 

Comecei a entender. Atuava para si mesmo.

 

Ainda tinha o riso. Vez ou outra escapulia. Um riso alto. Frenético. Mas parecia ter o fim determinado. Como se o riso não tivesse destinatário. Era apenas uma obrigação do remetente – para o remetente. Os lábios continham o riso com a mesma força e rapidez dos passos.

 

Por fim escolheu uma mesa. Fazia dos objetos - íntimos companheiros. Acariciava a caneta. Dobrava e desdobrava o guardanapo. Percorria os dedos pelo copo de cima a baixo. Passava de leve os dedos pela toalha sobre a mesa. Assim - também - se amparava. Muito mais que nos passos - alegóricos em sua rapidez. Ou no olhar - míope de si mesmo. Menos ainda no riso aleatório.

 

E tão rápido quanto a escolha - começou a falar. Começou a expor.

 

Sentou-se diante deles. Ofereceu-se como um totem. Desfilou tabus.

 

Lembrei o mestre austríaco. Teria se encantado. Ou se desiludido de uma vez. Vai lá saber. São muitas as nuances da interpretação. Cabem – sempre - todos os tipos e gêneros.

 

Falava a idéia e contrapunha – sozinho - a idéia adversária. Fez um diálogo monologado. Ou um monólogo dialogado. Diante de todos. Discutiu. Concordou. Discordou. Recitou. Foi enfático em alguns momentos. Depois eufêmico por poucos instantes. Em seguida alheio. E repetia – quase matematicamente - esta sequência.

 

Sugeriu grifes. Citou filósofos. Redesenhou telas. Criticou conceitos. Exortou preconceitos. Ofereceu banquetes. Em nome da audiência. Fez da retórica uma dialética. E vice-versa. Desafiou paradoxos. A dança parecia não mais ter fim.

 

Alguém tentou um aparte. Ia discordar. Começou a fala com a palavra não.

 

Incauto. Ou inocente. Não se desafia um totem. Corre-se o risco imediato de ser imolado.

 

E assim foi. Não acabou de registrar a primeira nota e a regência se fez violenta. Alterou o tom de voz. A salada quase saiu do espaço que a continha. Uma taça balançou. O guardanapo encolheu.  

 

A vítima se recolheu. Se acautelou.

 

Notei que a mulher que o acompanhava apertou-lhe o braço. Num sinal de alerta. Sempre atentas. As mulheres. Não deve ser à toa que a preservação da espécie gira em volta delas.

 

Olhei para ele mais uma vez. Desta vez de forma bem mais disfarçada. Temi por outra imolação.

 

Diante da fala. Dos gestos. Dos objetos acariciados. Da luz do sol que vinha da janela. Diante de tanta citação. De tanta teoria. Não me lembro. Jamais. De ter visto alguém mais triste e solitário.

 

E o imitei. Concordei comigo mesma. Igual a ele. E desta forma me fiz mais próxima. Mesmo silenciosa. Tentei diminuir a solidão dele. Ao menos diante de mim para mim. Novamente igual a ele.

 

Conclui. Melhor mudar de mesa. Levantei e ri. Desta vez de forma bem menos disfarçada.

 

Ele me olhou - não devolveu o riso. O almoço acabou. Sai pensando. Se a solidão tem culpa. Ou desculpa.

 

 


Junho 29 2009

 

Estava calada. Aliás, nos últimos dias pouco falara. Algo estranho acontecia com o seu corpo. Sentia desânimo. Vontade de ficar na cama o dia todo. Já acordava assim. Nesse total desalento. Algumas pessoas mais próximas notaram a mudança dela. Até as mais distantes perceberam.

 

Justo ela.

 

Vivia em constante atividade. Nem bem acabava uma tarefa e já organizava outra. Fins de semana agitados. Ia ao cinema. Ao teatro. Ao parque. A Feirinha de Artesanato. Quando estava se sentindo sem opção ia até visitar canil. Mas parada - não ficava. Nada de ficar em casa deitada.

 

Alertava. Desativar a vida em Vida é ofender ao Universo. O Universo pretende ação. E lá se ia com suas idéias motoras em profusão.

 

Mas estava desse jeito. E sentia um mal estar ocasional. Em especial no final do dia. Atribuiu ao cansaço. Muito cansaço. Não sabia explicar do que. Ou contra o que. Com tudo isso acabara diminuindo o seu ritmo. Deveria estar descansada. Mas parecia esgotada.

 

Um dia acordou em absoluto mal estar. Não saiu da cama todo o final de semana.

 

Ele ficou apavorado. Ofereceu tudo. Negou tudo. Reclamou. Acarinhou. Fez sugestão de bom gosto. De mau gosto. Provocou. Ameaçou. Até comentou que devia ser coisa da idade. Aí ate se afastou um pouco. Achou que poderia sofrer uma agressão física. Mas nada a fez reagir. Ela só dormia e acordava. O esforço maior - foi mudar o lado do travesseiro.

 

Decidiu. Na segunda vamos ao médico. Ela respondeu. Nem pensar.

 

Estava com medo. Uma amiga sempre dizia. Depois que se descobre – o processo se acelera. Não. Ficaria assim. Era só cansaço mesmo. Vai ver acumulado. De muitos anos de atividade. Lá um dia o corpo cansou. Pronto. Foi isso. Mais um tempo deitada e o corpo esqueceria o cansaço.

 

Corpo tem memória fraca. Disso tinha certeza. Corpo esquece o que é frio – no verão. E o que é calor – no inverno. E vai ver o dela se atrapalhou. Confundiu agitação com inércia. E estava exercendo seu despreparo mnêmico. Isso. Até gostou deste diagnóstico.

 

Não fosse a pouca vontade de falar até teria dito isso a ele. Mas com uma certa tontura se aproximando e se afastando continuamente - achou melhor calar e pouco se mover.

 

Nada o convenceu. Na segunda foram para o hospital.

 

Ela pouco reclamou. Estava pálida. Sentia um desconforto no estômago daqueles que só se contava em filmes. Concluiu. O corpo deve estar se lembrando de algum filme. Deve ter esquecido que o final de semana acabou.

 

Foi para a sala do médico.

 

Entrou. Sentou diante dele. Ele ao lado. Apavorado. Olhava para o médico.

 

Ela explicava. Ou tentava explicar. Foi logo avisando sobre a teoria do esquecimento do corpo. Ou sobre o corpo confuso.

 

Solicitou alguns exames. De emergência. Já. Ela ainda tentou recusar. Mas a tontura a fez sentar de vez na cadeira.

 

Duas horas de espera - pelos resultados.

 

Enfim. O médico apareceu. Segurava alguns envelopes nas mãos. Avisou que precisava de mais um exame para confirmar a suspeita. Suspeita. Olhou para o marido que apertou a mão dela.

 

Entraram juntos. Ela deitou. Ele fazia o exame e olhava para a tela. Tudo que ela via era a cor sob muitas nuances. E movimentos. A esta altura já estava se sentindo mudando de espaço. E tão jovem. Quem diria.  

 

O médico sorriu. Para os dois. E falou. Não sei se o corpo esqueceu. Ou se o corpo lembrou. Mas são três. Três. Devem se lembrar em mais ou menos sete ou oito meses. Agora é seguir acompanhando.

 

O marido perdeu a voz.

 

Ela chorou.

 

Lembrou da amiga. A da teoria dos processos descobertos - e acelerados.

 

Riu. E todos riram juntos.

 

Estão lindos. Sim. Não param. Decidi comemorar. Quatro aninhos. E estão tão bem.

 

Ele está na natação. Ganhou uma medalha ontem.
Ele escolheu judô. Até incentivei. Para ver se sossega um pouco. Ele vive sob propulsão motora.  
Ele não. É tranqüilo. Adora ficar sem nada fazer. Adora uma cama e uma televisão no final de semana.

 

 

É verdade. Falou rindo. Eu nem lembrava mais disso.

 

 

 



Junho 28 2009

Nunca fizera algo sequer parecido. Sempre fora tímida. Recatada - como uma prima mais sarcástica a denominava. Quando queria ser mais cruel a chamava de recatadinha.

 

Estava sempre com expressão calma. Tão calma que até sugeria um conformismo. E devia ser. Porque de nada reclamava. Ou criticava. Enfim.

 

Vivia em um silêncio simples. Daqueles que nunca diz nada. Porque tem mesmo nada a dizer. Silêncio carregado de si mesmo.

 

Acordara cedo. Leu alguns jornais. Era um sábado chuvoso. Nublado. Cinza.

 

Ligou o computador.

 

Se alguém quisesse explicar o que seria um corte no tempo – ali estava. Materializado. Tudo mudara. Não o tempo. Estava ainda cinza e frio. Mas ela sim. Estava vermelha e acalorada.

 

Diante da tela. Agitada. Falando pelos dedinhos o que nunca falara pelos lábios. Pela vida toda. Na busca de encurtar o tédio usou a curiosidade. Nada melhor que a curiosidade para diagnosticar o tédio. E afastar as suas causas.  

Era uma sala de pessoas da mesma faixa de idade. Não do mesmo sexo. Nem da mesma disponibilidade. Mas estavam lá. Por certo com a mesma projeção que ela. Amparados pelos textos. Pelas palavras. Buscando mais semelhanças que diferenças. E encontrando mais diferenças que semelhanças.

 

Nem viu o tempo passar. Ele era mais objetivo. Perguntou o que queria saber. Respondeu o que queria ceder. Por horas ali ficaram. Tentando ler mais as entrelinhas que as linhas. Parecia um teste. Vocacional. Admissional.  Psico-social. Enfim passional.

 

Foi tudo tão rápido que já estavam até discutindo. Quase brigaram. Fizeram as pazes. Combinaram. Sim. Conheço. Vou lá ocasionalmente. Mas pode ser sim. O horário está perfeito. Até lá. Como assim. Vai ter que descobrir. Está certo. Saia vermelha. Só isso. Calça jeans não vale. Vou falar com todos lá.

 

Certo. Malha vermelha. Adorei. Combinado.

 

Desligou a tela. E parecia que ela se ligara. Numa voltagem alta. Porque começou a correr pela casa. Procurando saia. Blusa. Sandália. Sapato. Sandália. Alta. Baixa. Olhou para os dedos. Horríveis. Não os dedos. As unhas.

 

Telefonou para o salão. Não tinha mais reserva. Fez uma expressão de horror. A mocinha deve ter visto. Porque arrumou um horário em seguida.

 

Passou as mãos pelos cabelos. Não poderia ir assim. Telefonou de novo. Para o mesmo salão.  A esta altura a mocinha já estava permissiva. Foi um tal de pode sim. Claro. Pode deixar. Dá-se um jeito. Pode vir. Finalizou com um autoritário vem logo.

 

Obedeceu. Foi.

 

Sentiu um toque no braço. Você por aqui. Hoje. Que aconteceu. Você sempre tão sem vaidade. Decidiu assistir televisão de unhas pintadas. Riu.

 

Era a prima – a do recatada. Não poupava ironia. E se divertia. Parecia que nada mais tinha a fazer. A não ser perguntar e responder. Sim. Não aguardava por respostas. Satisfazia-se com as perguntas. Em parte. A outra parte era comentar a programação da noite. Não a convidaria porque sabia que ela não ia gostar. Poderia sentir sono cedo. E deixaria todos preocupados por voltar sozinha.

 

Por um segundo se calou. A prima do recatada. Talvez para buscar fôlego.

 

Procedimento correto. Porque foi nesta brecha que ela falou. E a prima quase- seriamente - perdeu o fôlego que – divertidamente - buscara.

 

Não iria. Obrigada. Por favor. Pinte de vermelho. Tenho um encontro. Hoje à noite. Pode deixar com cachos soltos. Não. Quero soltos. Nada de cabelos presos. Sim. Como ia dizendo. Tenho um encontro. Quando. Hoje. Pela manhã. Eu de camisola. Ele de cueca. Um encontro casual. Que deu certo.

 

Marcamos mais tarde. Para dar tempo de trocar a camisola. E ele cobrir a cueca. Depois explico com calma. Agora quero fazer uma massagem. E riu.

 

Riu mesmo.

 

Não desistiu. Não tremeu. Nem temeu. Escolheu a blusa. Colocou a saia vermelha. Combinado é combinado. Sandália. Fez o próprio reconhecimento diante do espelho. E saiu.

 

Ele chegou. Bela malha vermelha. Pensou mas não comentou. Ela se aproximou primeiro. Deu um beijo sorridente - mas cauteloso. Ele sorriu.

 

Falou qualquer coisa. Com o barulho do lugar ela não entendeu. Sorriu de volta. Ele indicou uma mesa. Ela aceitou. Escolheram bebidas. Ele fez um comentário. Você é sempre assim decidida. Ela negou. E se eu estivesse acompanhado. Ou esperando alguém. Por que você faria isso. Sabia que eu viria.  Ele fez um ar estranho. Ela notou. Mas desconsiderou.

 

De repente olhou para a porta de entrada. Do restaurante.

 

Lá estava. Bem ali. Um senhor. Com uma malha vermelha e um vasinho de flores. Pesquisava o ambiente por trás dos óculos.

 

Olhou para o seu parceiro de mesa. Entendeu as perguntas.

 

Riu. Só riu. Não tinha mesmo muito a fazer. Imaginou. Se a prima do recatada estivesse ali.

 

 

 


Junho 21 2009

Ele se fora.

 

Tempos depois que se deu conta. Nunca se sentira tão só na vida toda. Até aquele dia. Quando ele se foi. Solidão. Ampla e irrestrita. Fiel. Apegada a ela.

 

Na cidade para onde se mudara com ele não tinha parentes. Nem padrinhos. Nem comadres. Pensou isso e até riu. Tinha amigos. Mas não tinha ombro amigo. Isso veio descobrir na época. A diferença entre amigo e ombro amigo. É muito mais que filosófica. Ou conceitual. É material. Assim. Nua e crua verdade. Talvez melhor definindo. É factual.

 

Espalhou as cinzas onde ele pediu. Junto com os filhos. Ainda menores. Obedeceu ao pedido. Cumpriu as promessas.

 

E se viu só. Duas crianças. Sem a casa – ele vendera pouco antes de partir. Sem o carro – ele fizera o mesmo.  Num pequeno imóvel alugado. Desconfortável. Amontoado. Cobrira as janelas com um papel. Da rua se via a intimidade dela.

 

Sempre repetia uma frase. Página virada. Página virada quer dizer muito. Tem relação com o tempo. Tem relação com o espaço. Tem relação com o ato. E foi desse tripé que se amparou.

 

O tempo. Esse foi sua primeira intervenção. Noite e dia passaram a ter um só relógio. Nem sol. Nem lua. Rapidamente vistoriou papéis. Aprendeu a ler documentos jurídicos. A interpretar cantinhos de seguros. Leu todas as letras minúsculas – e põe minúsculas nisso – dos contratos. Estudou tanto que até discutiu com advogados. Com contadores. E os convenceu.

 

Vencer já era uma outra etapa. Agora precisava primeiro convencer. Convenceu. Isso em tempo recorde. Em menos de um mês deu entrada em protocolos nunca dantes imaginados. A cada resposta tediosa que escutava de é só aguardar – devia fazer um olhar especial. Especial de assustador.

Porque todos emendavam. E garanto que vai ser logo. Descobriu assim que se pode domesticar até o tempo.

 

O espaço. Concluiu antes de qualquer aviso. Não poderia continuar ali. Naquele lugar exposto. Eles que sempre foram tão recatados. E decidiu que iria ser dona de novo. Entendeu bem o significado de Casa Própria. Aí cabiam as letras maiúsculas. Aproveitou todas as brechas da sua profissão.

 

Montou um novo viés. A aceitação foi excelente. Juntou daqui. Catou dali. Economizou de lá. Em dois meses já estava se mudando. Desta vez para um lugar bem alto. Vigésimo andar. Devassado talvez por algum passarinho mais afoito. Apenas.

 

Eles ficaram felizes. Comemoraram o quarto novo. Individual. Com seus códigos e insígnias. Nesta noite dormiu tranqüila. Sentiu que albergando – se albergava. Antes de dormir olhou em volta. Sorriu. Discreta - chorou.

 

Dormiu com tanta segurança que pela manhã até perdeu a hora. Todos riram. Isso nunca acontecia a ela. E todos gostaram de voltar a rir em conjunto. Foi um desjejum perfeito. Do corpo e da alma.

 

O ato. Organizou a rotina. Horários. Compromissos. E cada um fizesse a sua parte. Para que todos pudessem usufruir de uma tranqüilidade comunitária. Esta virou a palavra em seguida ao ato. Não sabia se esta era a ordem certa. Palavra - primeiro.  Ato - depois. Ou, ato primeiro - palavra depois. Fazia tempo que não pensava mais no Fiat Lux. Agora a sincronicidade se fazia necessária e impositiva. Leis teriam que ser cumpridas. Os filhos entenderam.  Se não entenderam – aceitaram.  Isso era o de menos. O importante era prosseguir com maturidade.

 

Até ria quando pensava isso. Maturidade é coisa de quem tem tempo. Para ficar com pequenos devaneios. Para extrair grandes conclusões. Ela não tinha dedicação para tanto. Para a filosofia. Estava - cada dia mais - pragmática. E isso agora era amadurecimento. Pragmatismo. Que fiquem os desavisados com suas conclusões igualmente desavisadas.

 

Teve uma instante de contra-senso. Para dar conta – perdeu as contas. Em meio a papéis e decretos – comia. Barras e barras de chocolate. Nem sabia quantos. E a noite ficava mais doce. Esta a desculpa interior. Interior.

 

Porque o exterior se impunha sem desculpas. Foram quinze quilos. Este o saldo da tal página virada.  

 

Mãos à obra. Nada de excessos. Se auto-limitou. Lá se foram os quinze invasivos quilos. Cabelos cortados. Tingidos. Luzes. O que mais gostou.

 

Também era uma adoradora das metáforas. Luzes nos cabelos.

 

Com sua casa. Com seu carro. Com seus filhos. Com sua profissão em atividade. Deu conta.

 

Se perdeu algo nesse meio tempo – nem notou. Meio tempo. Assim poderia se resumir até de forma poética.

 

Meio tempo. Ação inteira. Espaço completo. Agora sim poderia dizer aquela palavra - que no começo se sentia tímida.

 

Ela vencera.

 

 


Junho 09 2009

De repente chegou a mensagem. Uma longa mensagem. Depois de muito tempo. Nem acreditei quando vi o nome no remetente. Ela estava ali. Se despojando. Não se expondo- mais se impondo. Relatando o silêncio. Muito mais que as palavras. Mas também não poupando palavras para falar do silêncio. Não se justificava. Se diagnosticava. Foi o que me pareceu.

 

Passei dias lendo e relendo.

 

Deve ser assim quando não se sabe as respostas. Muito menos as perguntas.

 

Como dizia a minha avó. As perguntas têm sempre mais conteúdo que as respostas, menina, as perguntas têm sempre mais conteúdo que as respostas.

 

E por isso fiquei assim. Só lendo. Relendo.

 

Contava que se afastara dos mais próximos e privilegiara os mais formais.

 

Os mais distantes. Buscava quem não via há dez anos. Mas não queria conversar com quem se despedira ontem.  

 

Fiquei com uma dúvida. Nunca os mais afastados – ou formais – mudarão de posição. Será assim. Posição estagnada. Ou será que vai se girando. Cada vez que a proximidade vence – passa-se a diante. Isso também não combina com a ela que eu conheci.

 

Continuei. Fez outros relatos. Sobre o choro fácil. Desautorizado, mas dominante. Sobre o sono difícil. Autorizado, mas desobediente. Sobre as condutas idealizadas. Banalizadas, mas sequeladas.

 

Fiquei eu estagnada. Nem próxima. Nem distante. Nem há dez anos. Nem ontem à noite. Por muitos dias. Nem sei mais quantos. Acho que fiquei projetada. Vai lá saber. Vai ver um silêncio puxa outro. E a memória não perdoa. Lembrei a frase do Francês. Quando a falta é muito grande as palavras também faltam. Devia ser isso. Faz tempo que não discuto com o Francês. Tenho me identificado com as idéias dele. Nunca pensei que isso pudesse acontecer. Eu concordar com as idéias dele. Do Frances. Mas enfim.

 

Lembrei de outra amiga. Também recém retornada. Nova sincronicidade. Mas esta me desejou serenidade. Vai ver alcancei. Ela deve ter me desejado com muita fé.

 

Ela é linda. Tem um sorriso lindo. Cabelos mais lindos ainda. Um estilo doce. Afetuoso. A voz dela só me traz vontade de sorrir. É uma voz sincera. Até pueril. Não tem voz de adulto desconfiado. Tem voz de criança crédula. Mas com a profundidade de quem já sabe. Ou de quem já duvida. Só de pensar – escuto. O jeito dela de falar meu nome. Rindo. Meu nome sempre vinha acompanhado de um riso. Com sotaque. Transmite segurança. Mas nem por isso é alheia. Aos sentimentos cruéis da humanidade. Reconhece os limites. Percebe as distorções dos limites. Inteligente. Mente interpretativa. Talvez esta a melhor definição dela. Possuidora de uma mente interpretativa. E refinada. Muito refinada.

 

Lembro das noites e noites que passamos nos comunicando. Com letras. Sem voz. Sem imagem. Diminuindo distâncias. Uma em cada exílio. Tentando fazer dele – do nosso exílio - o nativo. O natural. Sem raízes – mas com caules. Algo por aí. O monitor deveria se assustar de tantas risadas. Pela pobreza das nossas supostas metáforas. Ríamos e chorávamos. A nosso favor e contra nós.

 

E quando ela vinha. Saia do exílio dela e vinha até o nosso. Ele até ia dormir.

 

Sabia que a conversa seria longa. In vino veritas. Sentadas na cozinha. O vinho belo, formoso, sofisticado. Em nossa frente. Depois acabado, destituído, garrafa. No lixo. No intervalo - falávamos. Muito. Entre risos e risos. A veritas sempre vencia. 

 

Não posso. Imaginá-la chorando. Insone. Incrédula. Solitária. Racional. Escolhendo os distantes. Se distanciando dos próximos. Se aproximando dos rótulos. Guardando bulas. Escondendo sinapses. Alternando químicas. Seqüenciando idéias. Afastando atos. Colecionando saudades. Vivendo de social. Ou socialmente vivendo.  

 

Leio o aviso. Da distância concedida. Proibido particularidades. Só amenidades. Não chegue perto. Pode falar daí mesmo. Do portão. Cuidado. Ouvido bravo.

 

Mas quero que saiba. Adorei. Fiquei feliz. Com a proximidade distante. Ou com a distância aproximada. Tanto faz. Não importa. Importa é que podemos continuar. Seja onde for o tal portão.

 

Assim é a amizade.

 

Quase beijei o mensageiro.

 

 


Junho 06 2009

Acordei hoje lembrando lá. Deste período lá.

 

Sim. Já comprei tudo. De supermercado também. Fica difícil ir ao supermercado agora. Ou falta tudo. Ou se encontra nada. Sem falar nos acessos. Que são alterados. A cidade fica muito cheia. Sim. Do mundo todo.

 

Muitos sotaques. Muitos idiomas. Uma Babel dançante. Ótimo. É verdade.

 

Um povo hospitaleiro. Disso não se discorda.

 

Acorda. Acordei já. Sim. Este ano começou mais cedo. Cada ano isso muda.

 

Começa mais cedo. E acaba mais tarde. Deve ser. É  verdade. Este circuito cada vez mais divulgado. Se pagam caro os hotéis têm esse direito. De ver da janela. Maravilha. Para eles. Para os hotéis. Até para as janelas.

 

Não escutei. Fala mais alto. Não escutei ainda. Fala mais alto ainda. Não.

 

Não consegui sair de casa. Está tudo bloqueado. Sim. E ainda tem aqueles vendedores. Isso sem falar nas cozinhas nas ruas. Parece que todas as cozinhas do mundo estão na minha rua. Tem cheiro e fumaça de todo tipo.

 

Daria para fazer uma enquete. Se alguém se interessasse. Por enquetes. Mais do que pelas frituras. Sim. Tudo aqui é frito. Muda só a cor. Mas é frito. O cheiro de fritura pode até ser tocado. Fica denso.   

 

Sim. Também pensei a mesma coisa. Achei que ia cair para dentro da sala. A porta da varanda. Que trepidação. Tive até uma confusão mental. Como se estivessem tocando aqui na sala. A noite toda. O dia todo. A porta só trepida.

 

E faz um barulhinho fino. Do metal. Do vidro. Vai lá saber. Nem sei mais.

Impossível. Se deixar aberta - arrisco uma ruptura de tímpano. Se fechar - o calor fica insuportável. Sim. Tem que ligar o ar condicionado. O tempo todo.

 

Mas daí a trepidação parece que aumenta. Fosse eu Física diria que tem um novo efeito.  Aqui. O efeito tampão. Ou efeito sucção. Ou efeito dobrado. De tudo isso ao mesmo tempo. Sei lá. Também não sou Física. Só está me dando desespero. Porque se fecha e liga o ar - parece que a trepidação aumenta. E o cheiro das frituras - entram. Sei lá por onde. Só entram e ficam. Aqui dentro. Perene.

 

O telefone. Não escutei. Não dá para escutar mesmo. Nada além do ritmo. E dos convites. Milhões de vezes repetidos. Tira o pé do chão, galera. Se realmente obedecessem tantas vezes quanto solicitados - teríamos um novo espaço. Aéreo. Levitação. Nem indiano conseguiria. Tantos.  

 

Há quatro dias. Sem parar. Devem parar. Mas não aqui. Aqui nem bem passa um, já vem chegando outro. E a ordem prossegue. Tira o pé do chão, galera.

 

Você queria descer a ladeira. Para ver de perto. Ver o que exatamente.

 

Porque se não souber tirar o pé do chão - corre risco. De ficar com o pé no chão. Por uns dois anos. Com fraturas. Cominutivas. Nem pensar.

 

Não me diga. E ele correu. Por isso acabou no hospital. Dizem que não se pode correr. Tem que ficar parado. Procurando um cantinho. Para deixar passar a onda. Que onda. Ou melhor, que passar. Não passa. Só nas Cinzas. E cinzas de todo o tipo.

 

Tira o pé do chão, galera. Pela milionésima vez. Em quinze minutos.

 

PeloamordeDeus. Tirem logo esse raio de pé do chão.  A voz era de homem. Agora mudou. É de mulher. Não de homem. Não. De mulher. Não importa. Só a ordem importa.

 

Porta. Acho que vai quebrar a vidraça. Tem muita trepidação. Será que alguma vez me livro disso. Vou pedir para o Universo. Alguém tem que me ajudar. A tirar o pé – fora daqui.

 

Que silêncio. Absoluto. E os passarinhos mais ousados - cantando o seu refrão. Reconheci. É um bem-te-vi. A brisa está leve. Sim. Vou tomar um pouco de sol. Dar um mergulhinho. Está tão lindo o dia. E a cidade tão calada. Há apenas o som forte - do silêncio.

 

Aqui é só em determinado lugar. Ou pré-determinado. Estabelecido. Tem Lugar para isso. Nem sei se aqui mandam tirar o pé do chão. Vai quem gosta. E só quem gosta vai. Vai-Vai.

 

Liguei a televisão. No canal que retransmite de lá. A mocinha gritou no microfone. Tira o pé do chão, galera.  

 

Sorri. Leve. Solta. Voltamos para o sol. E para o nosso adorado silêncio – optativo.  

 

Com os pés – relaxadinhos – no chão.

    

 


Junho 04 2009

Se me contassem talvez não acreditasse. Parecia mesmo cena de filme.

Lá estava eu. E lá estava diante de mim. Todo o material espalhado. No chão. Pelo chão. A pasta abrira e caíra tudo. Gráficos. Separatas. Agenda. Tudo.

 

Fingi calma. Tranquilidade. Primeiro agradeci. Ao universo. Porque não acontecera lá dentro. Mas aqui fora. E nem caíra por sobre os trilhos. Caíra no melhor lugar que podia cair. Lembrei da minha avó. Sempre comentava.

 

O pior nem sempre é o pior, menina, o pior nem sempre é o pior. Procedia.

 

Por isso fiz o tal agradecimento. E até ri. Não nego que um pouco entre os dentes. Certo. E com os olhos nipônicos. É verdade. Um estilo raivoso-agradecido. Se é que isso existe. Mas se não existe – passou a existir. Mas enfim. Não é mesmo fácil. Administrar uma situação destas. Notei que alguns olhavam. Outros desviavam. Outros ainda olhavam até para cima. E nada havia em cima para olhar.  

 

Enfim. Abaixei. Comecei a juntar. Os papeis. E a possível serenidade.

 

Aquela mão. Esta foi a visão inicial. Em meio aos papeis. Aquela mão me entregava uma pequena pilha. Meio desalinhada. Mas já agrupada. Entre o pegar, aceitar e agradecer deve ter demorado toda a eternidade. Ou um milésimo de segundo. Impossível mensurar. Em seguida - o pulo. Com os papeis caindo novamente no chão. Tempo é relativo. Entendi agora. Toda aquela fórmula. Por que assim funcionou. O tempo presente. Passado. Futuro. Imediato. Retardado. Me virei para agradecer. Levantei os olhos.

 

Estendi a mão. E um outro fragmento do tempo se fez atuante.Se é que este é o termo correto.

 

Quantos anos. Muitos anos. Não nos víamos há muitos anos. E estava ele ali. Com os papeis na mão. E a agenda. Parecia cena de surrealismo.

 

Lembrei até do relógio escorrido.

 

Conseguimos rir. Juntamos mais uma vez os papeis. Sob todas as formas. Da real à metafórica.

 

Lembrei que ele adorava as metáforas. Adorava as figuras de Linguagem. Vai lá saber por que. Mas achava que a vida só tinha graça se lida assim. Através das muitas figuras de Linguagem.

 

Ele estava bem. Agora estava bem. A profissão - se colocada num gráfico - subira e descera durante este período. Riu quando olhou que eu segurava - gráficos. Mas, afinal, se recuperara.

 

Passara momentos difíceis. Muito difíceis. Emocional também. Parecia que só existia sempre uma possibilidade. Única. A errada. Porque só o errado vencia. Como se fosse uma moeda com o mesmo desenho. Nos dois lados.

 

Podia fazer o que fosse. Só dava errado. Lutara muito, lá ia a tal figura de Linguagem. Este hábito não perdera. Mas acrescentara algo. Um gesto se unia à palavra. Isso era novo.

 

Enfim lá um dia mudou. A situação mudou. Apareceu um certo. Comemorou. Com sutileza. Delicadeza e sigilo. Temeu que o errado voltasse. Poderia se sentir requisitado. Vai lá saber o que fazer nestas situações. Por isso escolheu o tal delicado sigilo. Mas não voltou. Desde aquela época. O certo permanecera alerta. E cotidiano. Ficara bem. De emoção. De situação. De profissão.

 

Estava envelhecido.  A tal moeda do mesmo desenho cobrara uma parte da sua pele. Dos seus cabelos. Do seu olhar. Mas conservava o sorriso. O de antes. E as piadinhas em volta do difícil. Do tempo difícil.

 

Perguntou por ele. Ficou feliz com o desfecho. Perguntou por ela. Lamentou as notícias tristes. Lembrava das noites de macarronada. Das risadas nas discussões de filmes. Do destempero dela. Esta a palavra perfeita. Ela sempre destemperada. Dos ímpetos de briga dos outros dois. Da solidão rebelde dela.

 

Parecia refazer um retrato. De cada um. Como se isso ajudasse.  O escoar do tempo. Ou das faltas.

 

Quando parou de falar e perguntar – me olhou. Senti que ficara triste.

 

Confessou. Muitas vezes não atendeu ao telefone. Para não ter que falar. Que contar. Agora entendia. Bobagem. E ele que sempre criticara a vaidade. Vai ver era por isso. Se sabia dominado. Pela vaidade.

 

Separamos os papeis. Rimos da metáfora. Demos um abraço. Pediu que avisasse aos outros. Trocamos os meios de contato. Dedicou um abraço especial para ele.

 

Cheguei em casa -  contei. Ficou surpreso. Comemorou o resultado feliz. Dele. E também dos papeis.

 

Agradeceu o abraço. Sorriu. Notei o olhar - de repente - um pouco distante.

 

Acho que também lembrou as noites de macarronada. Demos o assunto por encerrado.

 

Do jeito que estes assuntos devem - e podem -  ser encerrados. Com um talvez.

 

 


Junho 01 2009

Devem já ter inventado algo melhor. Mas naquele momento só pensava nisso. Obsessivamente. Não poderia existir sensação melhor. Nem certeza mais evidente. Ou planejamento mais adequado. Sequer idéia mais agradável.

 

O momento ia chegando e eu me despojando. Encerrando as formalidades. Liberando a escuta. Despertando o instinto primitivo. Trazido pelo encanto. Como por um encanto, melhor referindo. Entre o abrir e fechar de pálpebras – respirava alegria.

 

Assim entrei em casa. Muitos quilômetros de trilhos depois. Na sexta feira.

Já começando a anoitecer.  Bendita sexta feira. Folga de final de semana.

 

Inteirinho. Sem compromissos profissionais. Sem tarefas. Sem relógios. Sem programação definida. Um feliz excesso de sem.

 

A meteorologia informava. O clima estava oscilante. Mas nem me incomodei.

Em geral tudo é oscilante.

 

Não parei para pensar - nesta observação filosófica. A de que tudo é oscilante. Deveria. Filosofia é assim. Se você a deixa inquieta é porque ela está certa. Quase como um axioma. Rimado - mas nem por isso menos verdadeiro.

 

O jantar se propunha maravilhoso. A música escolhida em conjunto. Sentamos diante de nós. Diante da mesa. O rubro na taça dava um toque mais profundo.  O colorido do cardápio sugeria uma certa leveza. A mistura dos aromas indicava uma celebração. Nossas vozes emolduravam os assuntos.

 

Sim. Estava inaugurado o final de semana. Podia ser repetitivo. Semanal. Lógico. Mas sempre é festejado quase como único. Porque dá o ponto final. Na lista de obediência. Final-de-semana deveria ser definido como Final-de-Obediência. Por que é o que se faz. Desobedece-se regras socialmente estabelecidas. Para se privilegiar regras individualmente reconhecidas. Perfeito.  E como dizia o Frances. Só se repete o que não tem completude. Ainda bem. Pensei eu.  

 

De repente - uma nova sensação. Melhor dizendo. Uma sensação nova. Mais forte. Mais contundente. Isso para não dizer objetiva. Decidi fingir que não via. Ou que não era comigo. Endereço errado.

 

Não funcionou.

 

Aquela dorzinha não saia de perto. Das costas. Dos braços. Dos olhos. Até dos joelhos. Dorzinha xifópaga. Assim parecia. Porque para onde eu virasse – ela virava junto. Até para onde eu olhasse. Ela se permitia também olhar.

 

Me recusei a admitir.

 

Mas ela não estava predisposta a rejeição. Ou a discussão. A dorzinha. Queria se fazer destacada. Queria atenção.

 

Admiti.

 

Sai da mesa. Do som escolhido. Do colorido dos pratos. Do rubro na taça. E fui verificar o que se passava. Um frio percorreu todo o corpo. Mas percebi que não percorreu o ambiente. Um frio talvez mais egoísta. Com mania de privacidade. E escolheu a mim. Apenas a mim.

 

Não terminei o pensamento.

 

Uma tontura impetuosa me fez pensar na frase do mexicano. Sim. Nunca mais. Mas nem era mexicano o tal rubro. E eu nem tinha ainda começado. Deveria ser forte. Fazia efeito no tocar dos dedos no cristal. Vive la patrie. Dele. Porque a minha estava acabada.

 

 

Aquele apitinho foi decisivo. Demorou um pouco a se manifestar. Mas quando veio foi com um estilo dissociativo. Apitou de um lado. Cai deitada do outro. O frio egoísta se impondo. Não havia volume que desse conta. Nem em número. Nem em plumas. Nem em penas.

 

Engolir comprimido tremendo deveria ter algum mérito. Processo também dissociativo. A mão não obedecia ao que a boca – disponível - aguardava. O braço não obedecia ao que a mão - ansiosa - intentava. Nada parecia ter ordem.

 

Daí me lembrei. Do pensamento filosófico. Em geral tudo é oscilante.

 

Foi o último pensamento eficaz. Que me lembro. Estava assim decidida a programação do final de semana.

 

As regras seriam ditadas por um apitinho. Os festejos em volta de um comprimidinho. A dança compassada por um frio egoísta. A parceria evidenciada pela gemelaridade. Corpo e dor. Maestros rígidos e explícitos.

 

Conclui. Entre calafrios. Filosofia rimada nem sempre é verdadeira.

 

Em geral – nem tudo é oscilante. 

 

 

 


Maio 25 2009

Ele telefonou cedo.  E já foi mais informando que perguntando. Se eu estava lembrada. Da data. Fazia já um ano. Naquele exato dia. Um ano. Até ri.

 

Agora podia rir também com a pergunta. Como poderia esquecer. E avisei.

Já deixei uma mensagem para você. Mais cedo ainda que sua ligação. Riu. Se sentiu prestigiado.

 

Todos nós lembramos. A notícia e o ato. Os detalhes. A dor. A angústia. A esperança. A dúvida. A certeza. O tempo. As horas. Tantas horas. Muitas horas. O dia todo. Nunca ninguém poderia estar preparado. Para tanta espera. Diante de uma porta. Esperando a porta se abrir. Esperando uma noticia. Esperando um alento. Esperando um som. Uma frase. Sim. Hoje sabemos. A espera era mesmo por uma frase. Uma frase curta. Objetiva.  O alivio. Apenas isso. Acabou. Tudo bem. Estas palavras.

 

Durou um dia inteiro para serem escutadas. Um dia inteiro de espera. E enfim a porta abriu. Já noite. E a frase veio. Como desejada. Ou ainda melhor. Uma frase curta. Objetiva. Mas veio com muitos risos. Foi dita assim. Acabou. Tudo bem. Entre risos. E todos nós choramos. Diante da frase acompanhada dos risos. Afinal – e no final – as lágrimas expõem também a alegria. É uma das muitas formas da alma sorrir. Imprevisível. Independente. Subversiva. Mas eficaz.  

 

Sim. Um ano.

 

Ele teve a idéia. Achou indicado. Fazer uma extravagância. Uma comemoração fora de hábito. Assim falou. Vamos todos fazer uma extravagância.

 

Ele podia pedir tudo.

 

Nunca pensei desta forma sobre os pedidos. Eles existem para também validar a existência. Assim. De forma redundante. A existência - por si só - já é redundante. Vive-se porque vive-se. 

 

O convite se espalhou entre nós. O da tal extravagância. Logo depois das atividades. Da rotina do trabalho. Vamos todos jantar diante do mar. Escutando as ondas. Quem sabe até dando uma passadinha com os pés na areia. Tocando uma espuminha aqui. Outra ali. Com delicadeza. Adivinhando a praia na noite. Um jantar especial. 

 

Descemos a serra.

 

Chuva entende muito pouco de existência. E principalmente de pedido. Isso tudo ela desconsidera. Pois assim foi. A chuva fortalecida desceu a serra junto. Fiel companheira. Não saiu de perto. Fosse um boletim meteorológico diria que a visibilidade era nula. Porque era. Só aquela cortina de água. Mas se tem que ser – que seja. Não houve desistências. Houve até quem sugerisse seguir uma plaquinha escrita – retorno. Indignação geral. Tímida e arrependida até emendou para - contorno. E todos riram. Houve piadinhas.

 

Se não chegarmos até o mar – ele por certo chegará até nós. Não faltou humor. Bom humor.

 

A chegada foi bela. A chuva se retirou aos poucos. Acalmou a si própria e a todos nós. E parou. O restaurante escolhido ficava quase mar adentro. Num píer. Piso de madeira. Vidros em volta. Lindo. Abrimos os vidros perto da nossa mesa. O vento entrou. O cheiro salgado invadiu o salão. Brincou com nossos cabelos.

 

Em torno da praia - as luzes das casas. Como um colar no mar. E aquele murmúrio. De ondinhas quebrando. Tudo costurado como uma colcha delicada de retalhos. Coloridos pela lembrança de cada um. Cada um por seu viés. Por sua memória. Por sua seleção.

 

Ali estávamos. Manufaturando o nosso feriado. Artesanalmente. Em meio à chuva da ida e – depois - à neblina na volta. No semi-escuro da serra.

Escutando a música de nossas vozes. De nossos risos.  Sem seqüelas. Sem temores. Dando o assunto passado por encerrado. E uma comemoração presente e futura por iniciada. A história não precisou ser re-escrita de forma cruel. Manteve a sua escrita certa. Nas linhas certas. Com o título certo.

 

Acredito que esta seja a magia da Vida. A ambigüidade do tempo que passa. A duplicidade entre o que se leva e o que se trás. O pertinente entre o que se lembra e o que se esquece. O factual entre o que se marca e o que se apaga.

 

Há ainda o mistério entre o que se escreve e o que se traduz. Um brinde. Dia dois de fevereiro. Uma festa lá no mar. Uma festa diante do mar.

 

 


Maio 15 2009

Ficou parada. A boca aberta. Os olhos escancarados. Fria. Gelada. Paralisada. Parecia que só havia um movimento. O coração batia. E batia descompassado. Só o som do coração se escutava. Do coração dela.  Acho que não. Não foi só o dela. Todos deram sua contribuição. Com as batidas aceleradas. Em meio a um silêncio rigoroso. Quase silêncio de inverno.

 

Como aquilo pode acontecer. Em meio aos pulinhos e risinhos. Assim. De repente.O ambiente ficou como que congelado. Como quando se congela uma imagem. Uma foto congelada

 

Ele tinha decidido pela compra. Assim o fez. Escolheu o modelo desejado. Não poupou. Era uma decisão sem discussão. Objetiva. Sem figuras de Linguagem. Sem retórica convincente. Sem dialética. Assim. Crua e objetiva. Vou comprar. Comprou. Tela ampla. Todos os maravilhosos recursos da atual tecnologia. Backlight. Objeto de dar tanto orgulho quanto prazer. Por possuir.

 

Ficou linda. Num canto da sala. Com todos os equipamentos em espaços corretos. Conforto no ponto certo. Até uma mini adega completava o conjunto. Tudo calculado para dar toda a possibilidade de conforto.

 

Complementou. Veio o novo brinquedo. Daqueles que são pura festa com vantagens. Podia ser jogado com movimentos físicos além de dedinhos em controle. Maravilha. Tinha para todo gosto. Corrida. Esqui. Guerra. Travessia. Fitness. Boliche.

 

Alta sofisticação na mesma proporção que a alta satisfação. Assim ele ficou. Assim ele sentiu. Satisfeito. Quando viu tudo em funcionamento. Sorriu. Feliz. Um espaço lúdico. Mesmo que para gente já bem grande.

 

Decidiram por uma, também lúdica, inauguração. Convidaram amigos mais próximos. Queridos. Aceitaram. Comidinhas. Bebidinhas. Competição e risos. Na melhor forma de convivência. Concorrência esportiva. Sem angústias. Sem riscos. Com lealdade. Diversão pela diversão. Ela sempre muito delicada. Recebia os amigos com todos os cuidados. Para que todos se sentissem bem vindos. Acolhidos.

 

Depois de algumas competições escolheram continuar com um boliche.

 

Sugestão aceita de imediato. Primeiro eles. Muitos risos. Poucos acertos.

 

Chegou então na vez dela. Sempre fora muito boa em boliche. Assim pelo menos destacou. Nem bem a sugestão foi aceita. E já foi logo dizendo. De mim agora ninguém ganha. Disse rindo. Ficou de pé.

 

Já prática - dispensou determinados cuidados. Não prendeu o controle no pulso. Conforme indicado. Avisado. Até pressionado. Dispensou. Segurou o controle. Fez o gesto. Foi logo dizendo. Observem a pontuação. Assim. Em alto e confiante som. Orgulhosa das habilidades. E um risinho associado.

 

Ergueu a mão. Fez o gesto correto. Quando apertou o botãozinho. Não apertou.Não tinha mais botãozinho. O controle voou. Voou decidido. Qual mesmo uma bola de boliche desinformada. E lá se foi direto. Num strike, digamos, incorreto. Aquele som fino. Plasmático. Nem todo violino daria conta.

 

Partiu. Quebrou. A tela.

 

Parada. Ela ficou ali. De pé. A mão ainda erguida. Vazia. O escuro diante dela. E o silêncio. Salvo uma ou outra inspiração mais forte. Com um sonzinho tímido gutural acoplado.

 

Olhou para ele. Estava sentado atrás dela. Pálido. Os amigos. Pálidos.

 

Parecia até uma doença contagiosa súbita. Nem risos nem cores. Apenas o negro e a palidez.

 

Ele acalmou. Consolou. Acidentes acontecem. Tudo bem que falou gago. E nunca fora gago. Mas devia estar fazendo parte da tal doença súbita.

 

Os amigos ainda ficaram um pouco mais. Comentando. Repetindo. Solidarizando. Quando se despediram, ela os abraçou. Agradeceu, até sorriu.

 

Nem bem fechou a porta - chorou. Chorou. Chorou. Chorou a noite toda.

 

Discutiu metafísica. Recalculou até o horário de verão. Nada. Nada resolveu. Concluiu. Realidade é assim. Imutável.

 

Nem todas. Ainda bem. Algumas podem ser recicladas. Digamos assim. A solução se fez presente.

 

Ele curou a gagueira. Ambos curaram a palidez. Os amigos voltaram. A festa continuou de onde tinha parado. Ela não tira mais o prendedor do pulso. Como bracelete.

 

Mas sem strike.   

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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