Blog de Lêda Rezende

Janeiro 07 2010


A decisão foi ótima.

 

Sim. Café da manhã ao estilo oriental. Nada do habitual ocidental. Sem horários e sem tarefas. Maravilhoso. Um contraponto à realidade da rotina. Com o passaporte imaginário de turistas. Pelo menos esta a intenção.

 

Perfeito. Viva a Liberdade. E com a cidade esvaziada. Tudo bem mais fácil e bizarro. Como uma excursão dentro de casa. Mais ou menos assim. Vamos ver os contornos como dificilmente o fazemos. Rimos. A Filosofia realmente é dependente do nada-braçal. Assim ele arrematou o discurso.

 

Já acordamos comemorando a temperatura. Sem mangas compridas. Sem botas. Sem casacos. Uma verdadeira libertação. Ao menos de braços e pernas. Rimos e saímos.

 

Já na descida sentimos o ambiente modificado. A ladeira vazia. Só um ou outro passinho provocava eco. Muitas lojinhas abertas. Poucos visitantes lá dentro.

 

Descemos para o nosso percurso sobre trilhos.

 

Desta vez não estava lotado. Assentos vazios se dispunham como ofertas simbólicas. Em todos os espaços. Era um final de feriado prolongado. Por certo muitos haviam saído da cidade. Trocas se fizeram. Lotaram as estradas. Os aeroportos. Os caminhos de subida e descida. E deixaram os da rotina esvaziados. Procede.

 

Tudo se passou com a rapidez de um virar de cabeça. E invejei ferozmente os artistas plásticos. Um mínimo de dom. E poderia repassar toda uma emoção.

 

Por que aquela composição merecia uma tela.  Até um óleo sobre tela.

 

Ela parecia bem envelhecida. Muito mais que a cronologia. Sentada - diante de si mesma. Uma sacola preta – parecendo pesada - estava aos pés dela.

Talvez amparando mais do que amparada. Usava óculos de lentes mais espessas. Os cabelos iam até os ombros. Lisos. Desalinhados. Fios brancos cruzavam através de fios tingidos. Sem maquillage. Não parecia sofrer deste dito grande problema. A mal falada vaidade.

 

Vez ou outra arrumava a bolsa preta - também envelhecida – no colo.

 

Desconfiada talvez do clima - portava um cachecol. Leve no tecido - mas pesado na cor. Azul escuro. Caia sobre uma blusa branca com botões pretos. A saia preta se unia ao preto gasto dos sapatos. Assim estava ela. Sentada.  

A expressão era misteriosa. Não sei se feliz. Se preocupada. Ou se até ausente em pensamento. Apenas estava sentada. E cuidava dos poucos pertences. Mas também de forma algo displicente. Não parecia cuidadosa. Nem consigo mesma. Nem com os objetos.

 

Ele estava sentadinho ao lado dela. Deveria ter talvez oito anos. Magrinho. Cabelos castanhos cortado bem curtinhos. Mas que não impedia que uma franjinha de raros fios lhe caísse pela testa. Talvez ainda não conhecesse a prudência da desconfiança. Estava com uma bermudinha vermelha. Uma camisetinha de mangas curtas branca. Um tênis. Meias curtas branquinhas.

 

Foi um instante especial.

 

Ele olhava em frente. Caladinho. Mas notei que ergueu um pouco os olhinhos. Como se uma lembrança boa o tivesse visitado. Um possível pensamento surpresa. Naquele especial instante.

 

Abriu mais os olhos. Acomodou-se melhor no assento. Virou-se para ela. Que continuava olhando para frente. Mesmo que na frente nada pudesse ver. Só uma janelinha que passeava pelo percurso escuro.

 

Mas ele a olhou. Deu um sorriso leve. Sorriso de criança. Feliz.

 

Passou o braço por dentro do braço dela. Se amparou um pouco. Fez uma expressão especial. Um sorriso. Um meio sorriso. Não sei. Como se a proteção do mundo estivesse definida. Ali. Com seu pequeno bracinho por entre o braço dela. Com a cabeça encostada nela. Numa diagonal de afeto encontrado.

 

De repente foi como se o mundo tivesse uma nova rotação. De paz. De tranqüilidade absoluta. De segurança. Impossível descrever em palavras uma emoção. Lembrei até o poeta. Ele estava certo. As verdadeiras emoções ocorrem em um terreno onde uma palavra jamais pisou.

 

Não sei se a palavra foi antes. Ou se viria depois. Ou se poderia ser dispensada. Nem importa.

 

Mas não lembro ter visto nada parecido. Com a expressão dele. Com o gesto do abraço lateral. Confiante no ombro certo. Sim. Tudo ali parecia certo. Perfeitamente certo.

 

E se há uma avaliação isenta de erros – é a avaliação da infância. Ao menos enquanto a infância é infância.

 

Ela parecia ter voltado. Olhou para ele. Deu um sorriso leve enquanto cedia o braço. E também se aconchegou. Já não dava mais para saber quem se sentia seguro com quem. De onde vinha o amparo.

 

Nossa parada chegou.  Antes da deles. Mas não resisti. Olhei para trás. Ela parecia rejuvenescida de repente. A atitude descuidada se modificara. Estava agora em parceria. Talvez assim reconhecida.

 

Sorri para ele. Que me devolveu o riso. Olhou mais uma vez para ela.

Apertou mais ainda o braço. Parecia orgulhoso. E ela parecia feliz.

 

Desci dispensando o tal passaporte imaginário de turista. 

 

 


Novembro 08 2009


Eis o estilo dela. Pontualidade.

 

Talvez mais que um estilo – uma necessidade.  Para o tipo de atividade profissional. Complicada. Dificultada -  por ser mulher. Não importam as feministas. As machistas. Ou contestadores de conceitos. Ou de preconceitos.

 

Há limites que permanecem até se apagados. Isso pode não ser provado. Mas por certo é comprovado.

 

Mas enfim. Sabia disso. Por isso era exigente. Mas consigo mesma. As barreiras eram muitas. As críticas estabelecidas. Chistes e slogans circulando. Quase ameaçadores em volta dos atos e decisões. Mas não introjetava tais textos. Lia e dispensava. Digamos assim.

 

Os colegas - todos do sexo masculino. Só ela ali. Sentadinha. Aguardando os chamados. Fingindo agrupamento. Mas se sabendo solitária.

 

Avisara pelo telefone. Ainda estou presa no trânsito. Chegarei dez minutos atrasada. Concordei. Sem problema. Ainda estamos dentro do horário.

 

Ela chegou. Sorrindo. Como sempre se apresentava. Feliz. Como sempre aparentava.

 

Viera de outro Estado. Do sul. Nem se lembrava do período de vida que não trabalhara.

 

O pai tinha uma pequena fazenda. Um roçado como se dizia de onde vinha. Enorme – sob os olhos infinitos das crianças. Talvez sem exagero – sob os olhos limitados dos adultos.

 

Viviam do plantado e criado. E por vezes do vendido. Assim passara toda a infância – sem consumismo. A adolescência - sem rebeldia. A juventude – esta já com muita fantasia.  Seis crianças. O pai e a mãe. Esse o seu universo por muitos anos. E a terra.

 

Ainda escuro o pai os acordava. A mãe os aconchegava. Não com beijos. Muito menos com afagos. Mas com o acolhimento – metaforizado - do calor.

 

O calor que já vinha da cozinha. Antes mesmo de saírem das caminhas - a casa já estava aquecida com o fogo aceso. O barulho das panelas de alças de ferro fazia coro aos galos e aves madrugadoras.  E estes aos pequenos bocejos das carinhas sonolentas.

 

A mãe fazia o pão. O pai fazia as linguiças. O irmão mais velho trazia o leite - ainda quente da recente ordenhada. Quando o dia trazia a claridade do sol – já estavam alimentados e a caminho da suas tarefas com a terra.

 

Faz uma expressão quase visionária. A terra a encantava.

 

A parte dela era cuidar das sementes. Jogava com sua mãozinha as bolinhas. E algum dos irmãos jogava a terra por cima. Riu. Sempre empurrava um pouquinho mais com o pé. Como se para ter a certeza de que não fugiriam.

 

Vai lá saber. O que pensa uma criança diante da terra e suas sementes. Mas assim fazia. O irmão já habituado - esperava. E só depois que ela repetisse o gesto - seguiam para o próximo cavadinho.

 

Adorava ver as sementes. E aguardar as plantas se erguerem do chão. Ficava fascinada. Por um tempo acreditou numa magia. Uma criação própria.

 

Tinha um duende lá debaixo. Que recebia os grãozinhos. E devolvia as plantinhas. Por isso tinha que agradá-lo com as sementes. Era o almoço do duende.

 

Nunca soube de onde tirara esta idéia. Mas também nunca comentou com a família. Esta sua idéia de Agricultura. Riu.

 

A vida se fazia em torno das estações do ano. Dos nascimentos. Lembra de temores. Se choveria muito. Se demoraria de chover. Se a geada impediria uma boa colheita.

 

Isso sim. Faz parte até hoje de alguns sonhos noturnos.

Mesmo já tão distante. No tempo e no espaço.

 

Agora estava aqui. Cercada de asfalto. De concretos. A vida mudara. Não tinha mais os pais. Os irmãos casaram. Novos núcleos se estabeleceram.

 

Somente ela viera para cá. Por motivos de casamento. Agora já desfeito. Preferia não falar sobre o ocorrido. Cuida de uma filha e dois netos.

 

O desjejum até hoje é um momento especial para ela. A única refeição do dia que sente enorme prazer. Ainda acorda cedo. Antes do sol nascer já está a caminho do ponto. Em seu carro. Ao serviço dos seus inúmeros passageiros.

 

Chegamos ao local combinado. Ela ressaltou. E no horário exato.

 

Ainda senti o cheiro do pão.

 

O orquestrado barulho das panelas substituiu buzinas e freadas. Vi o duendezinho recebendo as sementes pela terra úmida. Me surpreendi com o verde da planta nascendo.

 

Lamentei. O percurso fora curto para tão bela história.

 

Olhei para ela. Uma mulher jovem. No corpo. Na expressão. Mas principalmente - na emoção. Ainda estava com o sorriso que o relato associara. E conclui. Algo se mantivera. Ela continuava plantando. Semeando.

 

Olhei para o céu. Choveria. Sorri tranquila. Os duendezinhos por certo entregariam as plantinhas.

 

Assim iniciei a minha rotina. Assim ela prosseguiu com a dela.

 

 


Novembro 06 2009

 

É uma época de riscos. E de perdas.

 

Isso sem dúvida. As noticias tristes se sucedem. Não adianta fingir que não está acontecendo. Está. É. Cada um com seu temor. Cada um se ausentando de uma socialização. Férias se prolongando.  As ordens são de privacidade.

 

Que os grupos sociais se preservem – se dissolvendo. Esta a tentativa de evitar a propagação.

 

Fosse vivo o mestre surrealista – até ele se assustaria. A Idade Média contracenando com a Idade Contemporânea.

 

Ele chegou. Impossível passar despercebido.

 

Lindo. Cabelinho no corte moderno. Os fios na contradição da Gravidade. A queda da maçã em desafio por um punhadinho de gel. E ele todo orgulhoso da imagem. Perfeito.
 

A mãe segurava-lhe a mãozinha. Ele caminhava confiante. Pequenino – mas confiante. Tinha um jeitinho de feliz. Olhava com atenção em volta. Caminhava entre apressado e contido. Uma tossezinha atrapalhava os comentários que fazia. O vermelhinho do rosto denunciava uma temperatura fora do padrão. Mas parecia desconsiderar.

 

Ela veio. Conferiu a rotina da chegada. Escutou a história. A queixa da mãe. Os sintomas dele.

 

Ele ficou sentadinho. Talvez esperando que o chamassem. Ou só exibidinho em sua arrumação. Vez por outra tocava nos cabelinhos eriçados. Verificava se a desordem estava em ordem. E abaixava as mãos - mais tranqüilo. Como se os próprios dedos valessem por um espelho. Mais uma vez - perfeito. Sábio até. 

 

Ela veio. Sorriu para ele. Fez um comentário para a mãe. Colocou os dois sentados juntos no final da sala. Na última filinha de cadeiras. Só eles.

 

Fez para ele um gracejo. Depois foi colocando uma máscara. No rosto dele.

 

Informava com segurança na voz. Isso não dói. E - objetiva - amarrou os lacinhos da máscara por trás da cabecinha dele.

 

Foi um ato e um gritinho. Assim. Dupla geminada. Sincronismo absoluto.

 

Ele chorou.

 

Ela – surpresa - se assustou. Até se afastou um pouco. Demorou a entender.

 

Quando a dor não é física – fica-se com uma dificuldade maior ainda de mensuração. Ou de compreensão.

 

Mas ele continuou com seu protesto.  Chorou alto. E disse com a voz filtrada pelo material sintético. Estou com medo disso. Desta máscara. Não quero. Quero ir embora. A mãe o acarinhou.

 

Alguém veio em direção a ele. Com voz calma. Explicou. Você agora é o super herói. Por isso está de máscara. Eles todos usam também. Está tão bonito assim. E nem sabemos mais quem é você agora. Igual a um super herói. Ninguém sabe quem é ele e nem o nome dele.

Falou nem tão perto – nem tão longe. Poderia dizer – reservada. Mas tentou assim consolar.

 

Esta foi uma das cenas que não se esquece.

 

Ele parou de chorar. Dava para ver os olhinhos dividindo o espaço com o tecido verde da máscara. Por cima do nariz. A sobrancelha erguidinha. Virou o rosto semi -coberto. E disse. Mesmo com a voz entrecortada. Não sou super herói. Mentira. Ela disse que estou doente. Por isso estou de máscara. Para que ninguém mais fique doente. Super herói não fica doente.

 

Alguns que escutaram – riram.

 

Lembrei do filósofo estudioso do riso. Tem razão. Só é cômico o que excede o trágico. Aquela cena era trágica. Pior ainda. Era também um paradoxo. Não tinha como ser resolvida. Tinha como ser acatada. São ordens. Foi o que ela falou. São cuidados necessários. Completou alguém duas filas à frente.

 

Falou ainda chorando. Manda pararem de me olhar.

 

Submetia-se a uma súbita exclusão. Cuidou da imagem antes de sair de casa. E justamente a imagem – o primeiro item a ser ocultado. Sugeriam ser um super herói. Mas o colocaram sentadinho - distante. Parecia ter um objeto que o escondia – mais se destacava exposto.


O olhar do outro que autoriza. Ou desautoriza. E isso ele sabia ler muito bem. Melhor que qualquer um. Escrevia seu texto como se a folha em branco só a ele pertencesse.

 

Só não sei se pior - ou melhor - do que o espelho.

 

Quando o chamaram pelo nome - olhou para a mãe. Ajustou melhor a máscara. Não passou a mão mais nos cabelinhos.

 

Com voz conformada perguntou: sou eu?

 

 


Outubro 24 2009

 

O telefone me acordou. Um aviso protocolar. A rotina começava - já.

 

Nem sei bem como desci as escadas. Erro - sei. Rápido. Muito rápido.

 

Até lembrei o dia que dancei abraçada ao corrimão. Um ballet exótico. Nada sensual. Numa tentativa de não me fragmentar no chão da sala. Tentativa e êxito. Mesmo que durante uma semana negasse. Nada de estranho com o meu caminhar. Como se não vissem. Faz de conta que tenho nada. Faz de conta que acreditam. Assunto encerrado.

 

Enfim. Desci as escadas já informando. Estou com pressa. Tenho uma sequência a ser seguida. Antes de chegar lá. No trabalho. Onde mais seria.

 

Lógico. Você não tem que entender. Se eu não disser. Tudo bem. Depois discutimos semântica. Deixa para lá. Depois explico. É mal educado falar durante a mastigação.  Sim. Amanhã falamos.

 

E já fui quase empurrando o elevador. E reclamando com as correntes lentas.

 

Nestas horas me lembro de lá. Da brisa do mar serenando ânimos. Do cheiro de café da manhã com tapioca. Da relativa calma diante do inevitável. Até o barulhinho da rede no prendedor. Lembro tudo. Mesmo que em segundos. Como uma viagem da matéria. Transcendental. Dá até para suspirar.

 

Mas enfim. Estou cá. Foi para cá que vim. Melhor deixar de cheirar o carro. Nunca terá cheiro de maresia. Até ri.

 

Ainda bem que não é longe. Este o primeiro pensamento. Parada com o trânsito emperrado. Não andava para lado nenhum. E quase foi o último pensamento. A buzina delicada me fez virar para o lado.  Abri o vidro.

 

Pois não. Um simpático senhor sorria para mim. Até ai tudo bem. Vai ver queria se socializar. Mas não. Avisou com a fala e com o dedo. Apontou. Está muito baixo. Deve ter furado. Vá rápido a um posto.

 

Não sabia se ria. Se chorava. Ou se descia do carro e torcia o dedo dele. E a idéia dele de cidadania solidária. Como assim rápido. Não tinha saída. O trânsito parado. E ele vem me apontar um pneu furado de emergência. Não deveria ter família.

 

Mas agradeci. Muito obrigada. Muito gentil. Uma lady. E eu que dizia que não era nem lady nem santa. Contradição total. Exatamente o oposto. Uma verdadeira santa inglesa. Ou inglesa santa. Certo. Mais semântica. Hoje deve ser o dia Nacional da Semântica.

 

Mas consegui. Eis um posto.

 

Então tem um prego. Vai poder trocar. Espero sim. É verdade. Coincidência existe sim. Então ele chegou com o mesmo problema. E por um segundo eu seria primeira. Não faz mal. Espero. Sim. Sou bem calma. E ele deve ser cego. Pensei. Mas calei.

 

Não. Ela já foi. Sim. Ela achou que você chegaria no horário. E eu achei que chegaria a tempo. Opiniões combinadas em agendas descombinadas. Quase um poema.

 

Sim. Você é a segunda pessoa que me fala isso hoje. Sobre mim. Devo ser mesmo. Muito calma. Ou só tem cego por aqui. Nada. Deixa para lá. Sem problema. Entregue em meu nome. Não esqueça. Por favor.

 

Sim. Nem sei como consegui chegar. E na hora. Pode mandar entrar. Ainda bem. Se me chamasse de calma – eu ia descer. Como assim. Sou uma Lady. E Santa. E com letra maiúscula. Ia descer para me internar. Depois lhe conto o que foi. Esta manhã. Mas pode mandar entrar. Rimos.

 

Ele entrou junto com eles. Tinha uma covinha exposta por um mal disfarçado sorrisinho. As mãos estavam enfiadas no bolsinho da calça.

 

Eles avisaram. Ele estava todo feliz porque ia lhe ver hoje. Tem uma novidade para lhe contar. Verdade. Ele que quer falar.

 

Ele me olhou. Chegou mais perto. E disse como um segredinho. Mas com muita seriedade. E firmeza na voz.

 

Tirou a mão do bolsinho da calça e ergueu o dedinho para me informar.

- apendi a fasser cici em pé –

 

Olhei para ele. Lindo. Feliz. Envaidecido com seu aprendizado. Orgulhoso de si mesmo. Dei um beijo de parabéns. E celebramos na sala esta grande – e verdadeira – conquista.

 

Diante daquela frase - tudo o mais ficou tão banal. Pneus. Furos. Horários.

Ficou tudo isso tão superficializado. Diante da alegria de quem se entende crescendo – e sabe já fazer xixi em pé.

 

Pode parecer tão simples. Mas não é.

 

Poucas vezes entendi com tanta objetividade – o progresso. Ou me ensinaram com tanta suavidade - a evolução.

 

O crescimento. Isto sim - é importante.

 

Agradeci ao Universo o privilégio da escuta. E o dia se fez completamente válido.

 

 


Outubro 22 2009

 

Eram muitos os temores. Sempre.

 

Vivia sob constante pressão. E nem sempre como meta de educação. Mas enfim. Ideias e ideais nem sempre caminham de mãos dadas.

 

Entretanto - não podia negar. A cada aborrecimento ou obstáculo – assim se recompunha.

 

Você quem contou. Se não ela nunca saberia. Isso não vale. Você bem sabia o que iria acontecer. Quando ela soubesse. Mas - observe aquele mosquitinho. Ali na cortina. Lá em cima. Viu agora. Certo.

 

Ele é um disfarce. Na realidade é um monstro terrível. E maior do que este quarto. Ele é meu amigo. O mosquitinho. Muito meu amigo. E viu o que você me fez. E agora está ali disfarçado. Quando você dormir vai lhe engolir. Inteirinho.

 

E você nunca mais vai contar a ela. Pare de chorar. Se ela escutar vai acontecer de novo. E será já. Que ele vai lhe engolir. Fica calado logo.

 

Vai sim. Vai deixar amarrar seu pé - no meu. O cordão é comprido. Tem bastante. Dá para passar pelo chão. E de uma cama até a outra cama.

 

Vamos dormir assim. Se eu tiver medo – lhe acordo. Claro. Estico seu pé. E você acorda. E meu medo passa. Ela não vai ver. E só vai saber se você contar.

 

Acho bom não esquecer o meu amigo mosquitinho. Esta sim. Está escondido. Eu sei onde. Mas você não pode vê-lo. E só aparecerá se você não me ajudar.

 

Vou esconder em sua mochila. Eis um lugar onde não vão procurar. Sim. As notas. Estão ruins. Não sou boa naquela matéria. Mas se souberem agora – adeus festinhas de aniversário. Depois entrego. Não vai contar. Pensa bem.

 

Não se preocupe. Depois eu retiro de lá. E nunca vou contar que você ajudou. A esconder. Claro. Para de ser medroso. Já falei.

 

E assim se vão seguindo. E assim se foram. As soluções imediatistas da infância.

 

Ela nem sabia por que ficara lembrando. Tudo já estava tão distante.

 

O tempo já estava tão avançado. Nem espaço. Nem tempo. Nem convivência. Nada mais era parte do cotidiano deles.

 

Mas as lembranças foram chegando. Sem pedir autorização. Invasivas. Autoritárias. Mas procedentes.

 

As lembranças são sempre oportunas, menina, as lembranças são sempre oportunas.

 

Escutara isso um dia da avó de uma amiga. Lembrava até de alguns detalhes. Era um dia quente de verão. Estavam numa praia. A avó começara a falar do próprio passado. E alguém sugerira mudar de assunto. Para que não ficasse triste. Ela virou-se para a neta e falou isso. Das oportunidades das lembranças. Estava certa.

 

Eram muitas recordações. E sequer sabia como ordená-las. Mas deu liberdade total. Até facial. Podia se imaginar com mil expressões diferentes. 

 

De riso a choro. Sem pular as de tensão ou de alívio que circulam sempre entre as duas. E na ordem desejada.

 

Eis algo em que a consciência não tem poder. A celebração das lembranças. Fica tão fora do pragmático.

 

Em meio a essa lúdica bagunça mental – deu um pulo da cadeira. Então era por isso. Era o aniversário dele. Pensara nisso o mês todo. Fizera vários cartões imaginários. Quase fundara uma retórica nova – tamanho o conteúdo dos discursos que criara. E justo no dia estava saindo da memória. Quase.

 

Imagina se ele soubesse. Que ela tanto lembrara como esquecera. Ele que iria ficar amigo do tal mosquitinho. Deu até um tapinha na testa. Riu. A avó tinha mesmo razão.

 

Ficou com uma dúvida. Será que ele se recordava. De tudo aquilo.

 

A infância é tão seletiva e encobridora em termos de fatos. De atos então. Parece outra vida. Não existe outra fase em que a observação seja tão particular. E sem rodeios. Cada um vendo o mundo por olhinhos tão especiais. Por isso quando coincidem lembranças – é sempre uma surpresa.

 

Quantas vezes ela escutara um pasmo– você também se lembra disso. Inúmeras.

 

Mas é preciso a maturidade adequada para assimilar a infância.  As contradições. As buscas. E a falta absoluta de inquietações.

 

Estas só chegam depois. Na infância – não. O pensamento mágico - junto às praticidades instantâneas - permite um colorido nunca mais re-inventado.

 

Levantou. Telefonou para ele.

 

Já atendeu rindo. Sabia que era você. Vi um mosquitinho passando por mim há pouco - parecia feliz. Ao menos não quis me engolir.

 

Riram. Muito.

 

 


Julho 18 2009

 

Tomou uma decisão. Vou separar as fotos.

 

E entregar cada pacotinho ao seu dono. Aos donos das respectivas imagens. Poderiam –eles - contar a história delas. Ou recontar o que escutaram sobre a história deles. Teriam uma prova documental diante de relatos. E a cores.

 

O ao vivo ficaria por conta das falas. Dos textos acrescentados. Das invenções encobridoras das falhas de memória. Mas tinha certeza. Nada ficaria sem uma resposta. No mínimo um acréscimo fantasioso.

 

Lembrou da avó de uma amiga. Não existe relato verdadeiro se não somar a ele uma fantasia menina, se não somar a ele uma fantasia.

 

Sentou ao lado das gavetas. Decidida. E começou a seleção.

 

Do mesmo jeito que veio a idéia veio uma sensação nova. Não diria estranha porque tudo era familiar. Apenas o tempo fez um contorcionismo. Virava de ponta-cabeça. Esticava membros. Saltava olhos. Pulava arcos. Assim se sentia a cada foto. Ria. Se emocionava.

 

Até cantou uma musiquinha diante de uma das fotos. Se surpreendeu.

 

Aquela música estava tão dentro das gavetas quanto aquelas fotos. Incrível. O que uma foto trás junto com ela.

 

Diante de algumas outras escapou uma lágrima fugaz. Secou rapidamente.

 

Não estava ali para isso. Estava para organizar. Metodologizar. Assim denominou a atitude. Tomara a decisão de forma pragmática. Esvaziaria um espaço. Abriria oportunidade para novos tipos de ocupação. Dos tais espaços. E assim se auto-recriminou. Por lágrimas. Afinal nem havia motivos. Fotos são sinais de vida. De vida festejada. Por isso registrada.

 

Em meio às fotos lembrou-se dela.

 

Era uma fotógrafa especial. Uma amiga também especial. Diferenciada. Via cores extras no arco-íris. Vivia analisando fotos. Desvendando mistérios pelas posturas nas fotos. Analisando contextos familiares.

 

Não havia foto que ela não lesse de uma outra forma. Nunca em cima do que estava registrado. Se era foto de família ia logo avisando - este gosta mais deste do que daquele. Olha a inclinação da cabeça. Pende para o lado dele. Se era uma foto solitária ou diante de algum ponto turístico - também informava. Olha o jeito das mãos. Está um pouco decepcionado com o que viu. Ou, observe o riso. É tímido.

 

E assim ela ia analisando mais que vendo.

 

Sempre fora divertido ver fotos com ela ao lado. Se era um lugar mais formal, sentia um olharzinho discreto. Cúmplice. E já sabia. A análise estava a todo vapor. Mas respeitava o pudor alheio. Ou a cegueira alheia. Que cada um desvendasse suas fotos. Ou fotografasse seus mistérios. Quando ela o fazia – quando ela fotografava, mais se compadecia do que se divertia. Via sob a lente - a nudez da alma de cada um. E sofria pela imensa pobreza do humano. Pelas vezes que se cobria de panos - para ficar a nu. Ou que percorria fotografando o mundo – porque não sustentava fotografar a própria casa. E por aí seguia.

 

Interrompeu o pensamento para tomar mais uma decisão.

 

Metodologia nunca fora seu forte. Deixava que as coisas se amontoassem na ordem dita espontânea. Alguém uma vez sugeriu um termo nada sofisticado. Bagunça. Não se ofendeu. Sorriu. Procedia.

 

Entendia um pouco a vida assim. Sob o viés deste termo nada sofisticado. Ao menos assim parecia fazer com a sua própria. Riu de forma resignada.

 

Estivesse a amiga fotógrafa ali e lá se ia mais uma análise selvagem.

 

Tentou primeiro separar por fases. Depois desistiu. Achou melhor por lugares. Desistiu de novo. Talvez mais certo por tamanhos.  Não deu certo. Já estava até se irritando com a idéia. Ou com a forma de agir com a idéia.

Recusou a irritação. Aceitou a organização. Em parte.

 

Levantou. Pegou duas grandes sacolas. Amontoou as fotos. Colocou-as sem divisão. E sem ordenação alguma.  Dentro das sacolas. Considerou a mais sábia dentre as mais sábias das decisões.

 

Como se sentira assim. Tão poderosa. Ela organizando fotos que entregaria aos seus donos. Absurdo. Prepotência. Entregaria assim. Do jeito que estavam. Em sacolas. E que cada um organizasse e dividisse de acordo com sua intenção. Com a sua invenção. E acima de tudo com sua própria idéia de ordenação e posse.

 

Quando levantou que notou. Estava cantarolando ainda a tal música engavetada.

Sorriu tranquila.


Ficara com a parte que lhe cabia.

 

 


Julho 14 2009

Daqui dá para ver com clareza. O gestual dele. O aspecto excepcional. A tranqüilidade de alguma forma adquirida. A ocupação de alguma forma conquistada.

 

Ficava ele ali. Na janela. Por horas. Brincando de bolhinha de sabão. Um potinho. O arco. E as bolhinhas se fazendo, voando e se desfazendo. Umas - maiores.  Outras - menores.  Não tem hora. Não tem turno. De repente ele começa a sua possível tarefa. Dentro da impossível ordem.

 

Sopra com delicadeza, embora o corpo seja forte e pesado. A cada bolhinha para e observa. Inclina-se um pouco para frente. Como um observador do percurso. Segue com o olhar. Talvez esta seja sua única forma de se libertar.

 

Diante de todo um contexto aprisionado.

 

Quem sabe expressa sua imobilidade assim. Pela mobilidade das bolhas. Ou se faz identificado. Pela curta mobilidade. Iguais a ele – elas também têm o caminho limitado. Ou o tempo. Mas diferentes dele – elas podem sair e voar. Mesmo que depois desapareçam. Como fora de si – e conduzidas pelo vento - partir.

 

Não parece ser importante o tempo de vida. Das bolhinhas. Mas o tempo de fabricação. Assim se pode chamar. O tempo que começam a voar por determinação dele. Libera as bolhinhas. Dá uma espiadinha. Vê a saída delas. E já retoma a produção. E repete o gestual. Por horas. Calmo. Sereno.

 

Como deveria ser todo autor. Diante da própria produção.

 

Houve uma vez uma festa de Natal. Podia se escutar as vozes. Os barulhos. Observando bem podia até escutar o olhar dele. O olhar vibrava. Ansioso pelo presente. Mexia as mãos. O corpo dançava um para lá e para cá com ritmo compassado.

 

Entregaram.

 

Alguém veio. Abriu bem a janela. Ele acompanhou. Prepararam. E ligaram a máquina. Uma máquina de fazer bolhinhas. Assim. Prática. Ligava e elas saiam. Simples. E numerosas. Saiam aos montes. Muitas. De uma só vez. E voavam pela janela a fora. Com altivez. Independência. E com um barulho próprio. Uma mágica ao alcance de um aperto de um botão.

 

A princípio ele olhou. Parado. Nem ergueu as mãos. Nem acompanhou com o olhar.

 

As bolhinhas saíram pela janela e ele entrou para a sala. Assim. De imediato. Como um ballet sem música. Sem tempo de perdas. Mas carregado de perda de tempo. Com sincronicidade. Mas sem simultaneidade. Assim ficou diante da máquina. Que independia da vontade dele. Que substituía sua rotina por um aperto de botão. Não sabia como lidar. Parecia temeroso. Como se tivesse perdido o controle. Da sua vida. Da sua janela.

 

Não comandava mais. Havia uma validade na quantidade. E a ele agora não mais pertencia. Vivia sob controle. Agora perdera seu único comando.

 

Assim parecia expor. Com a saída da janela. Com o descaso com as bolhas soltas. Dispersas. Aos montes. De repente deu as costas para elas. E sumiu para dentro da casa.

 

A máquina, solitária, lá ficou por um tempo obedecendo ao botão.

 

Parou de brincar. A janela se fechou. Não mais aparecia.

 

Um dia a janela foi aberta. Ele veio feliz. Parecia feliz. Com o potinho. O arco.

 

Mas algo se modificara.

 

Antes já chegava libertando as bolhinhas. Desta vez - primeiro olhou. Em volta. Para cima. Para baixo. Para os lados. Até para dentro da casa. Segurava o potinho com um gesto protetor. O arco entre eles. Apertadinho na mão. Talvez buscasse a traição. Ou o descontrole. Parecia procurar pela ausência, muito mais que pela presença. Buscava uma certeza. Talvez tenha aprendido que até as certezas oscilam. E nem sempre estão do lado favorável.

 

Depois de todo esse cuidado colocou o potinho na murada. Acariciou o arco. Mergulhou no potinho. E sorriu. As bolhinhas saíram pelo mundo afora. De novo. Mas desta vez sob sua orientação. Sob sua guarda.

 

E manteve a produção de acordo com a própria vontade. Exibindo no rosto a expressão feliz de quem cria. Mesmo que depois perdesse o controle. Não importava.

 

A criação é mais importante que o prazo da entrega. Ou da durabilidade.

 

 


Julho 07 2009

 

Decisões são da ordem da auto imposição. Assim fez. Nem bem tomou a decisão e já pôs mãos à obra.

 

Termo bem adequado. Parecia uma obra. Uma construção.

 

Já acordou pensando. Vou arrumar os livros. Nem sabia explicar por que a decisão. Detestava arrumação. E por um motivo simples. Bem simples. Detestava ver a desarrumação que uma arrumação provocava.

 

Alguém havia lhe dito. O por que desta reação. Lembrava, certamente, a desarrumação interna. Como um espelho. Por isso se angustiava.

 

Na época até ficou atenta. Agora decidiu deixar a interpretação de fora. Ao menos naquele momento. Mal dava conta da idéia. Imagina da etiologia da idéia.

 

Riu e prosseguiu na decisão. Cedeu a este primeiro pensamento do despertar. Se tinha um motivo – descobriria.

 

Começou pela estante da frente. Alguma ordem tinha que ter. Para enfrentar a desordem. Escolheu a ordem decorativa, digamos assim.

 

Auxiliada por um paninho, álcool e óleo para couro – lá se foi. Se sentiu uma restauradora daquele famoso Museu. Não faltou nem a máscara descartável. Afinal. Nem só de restauração vivem os alergistas. E vale mais uma vez o contrário. Em parte.

 

Uma idéia realmente de mosteiro. Estilo auto flagelação.

 

Parecia ter tido um começo. Em algum momento começou. Mas confirmava nunca ter fim. Em algum momento assim pensou. Sim. A cada livro retirado para ser adequadamente catalogado – uma nova fileira tinha que ser remanejada.

 

E quando remanejava e dava por encerrado - descobria um volume perdido. Que pertencia justamente – à prateleira que já tinha encerrado. Foram muitas idas e vindas. Sobe e desce. Desvira e vira.

 

Já mais calma resolveu – vai lá saber também por que - abrir os livros.

 

Viu que todos – ou quase todos - tinham datas. E local onde os comprara.

 

Alguns até com dia e hora. E a estação do ano. Até riu. Nem lembrava mais - assim fazia.

 

E assim fez por muito tempo. A cada livro comprado registrava. Os dados do dia da compra. Até o boletim meteorológico. Riu de verdade. Mas não deixou de achar muito boa a idéia. Congratulou a si mesma. Em um deles viu que tinha escrito. Primavera sem flores e com muita chuva. Viu o ano. Será que fora mesmo. Ou seria ela que estava se sentindo assim. Deveria ter anotado melhor. Em um outro estava lá. Dia de sol, final da tarde - a livraria estava vazia. Novamente não sabia se era a sensação dela com ela mesma.

 

De repente caiu um papel. De dentro de um outro volume desgarrado. Amareladinho. O papel. Meio amassadinho. Ou melhor, enrugadinho. O tempo não poupa nem os papeis, pensou.

 

Lembrou daquele poeta. Ele falava isso num poema. De um papel amarelado encontrado num livro. Mas que rasgara sem abrir e ler. Não queria mexer com o passado. Mais ou menos assim, pelo que recordava da poesia.

 

Fez diferente. Abriu. E leu.

 

Era um bilhetinho dela. Avisando que tinha adorado a temporada que tinha passado lá. Que fora muito bem acolhida. E que a adorava muito. Que se sentiu fazendo parte real da família. E que estava com saudades.

 

Quase chorou. Incrível. Ela agora estava casada com ele. E fazia realmente parte da família. E escreveu esse bilhetinho ainda tão criança.

 

Foi em meio a tudo isso que teve uma luz. E que luz. Tirou até a tal máscara. Melhor espirrar que sufocar. Quando a luz vem é preciso se estar exposta. Ficou até de pé.

 

Estantes. Uma real autobiografia. Ou uma prova autobiográfica. Os próprios livros. Estes que se compram e guardam em alguma prateleira. Os lidos e até os não lidos.  Porque são resultado de uma escolha. Denunciam a evolução. A formação do pensamento. De época em época. O crescimento emocional. Não importa o estilo. Importa esta composição.

 

Pelas datas relembrou lugares. Pessoas. Estados de espírito. Movimentos. Ideologias. Filosofias. Entendeu as que ficaram. Compreendeu as que se foram. Assimilou as que se construíram. Avaliou as que sucumbiram.

 

Olhou para os livros como para si mesma. Passou a mão de leve pelas capas. Leu com carinho seus registros. Foi assim organizando - com súbita tranquilidade - toda a estante.

 

Entendeu o próprio pensamento.

 

Ali. Sentada. Diante da tal estante da frente. E de frente para a estante. Ali viu sua vida. Suas buscas. Seus achados e perdidos. E deu um riso particular. Para esta sua idéia ao despertar. Do despertar.

 

Procedia.

 

 


Julho 03 2009

Assim as cenas se fizeram. E se desfizeram.No meio da tarde. De um dia calmo. Quente. Rotineiramente útil. Formalmente inútil. Subserviente.

 

Assim pensaram.

 

Por um momento a escuta.

 

Ela aparentava ter dez anos de idade. Os demais entre seis a nove anos. Deveriam ser ao todo nove. Ela foi avisando. Vai ter que calar. Obedecer. Não tem ninguém aqui para lhe defender.

 

Ele parecia ter menos de oito anos de idade. A frase não foi pior do que o olhar dele. Solitário. Assustado. Mas capturador. Dividiam uma certa quantia. Saldo de pára-brisas e flanelas.

 

Quando o nível emocional sobe – o racional vem em auxílio. Só o contrário é que nunca acontece. Esta é uma das poucas certezas que se acumula com o tempo. Racional em excesso produz excesso de racional.

 

Parecia uma pessoa - dois olhares. O mesmo olhar assustado se transformou. Rápido. Olhou sério. Frio. Para o outro que estava ao lado. E foi completando. Se cuida você também. Quando ela sair - eu que vou comandar. E a voz era rouca. Muito rouca.

 

E assim os olhares continuavam. Trocando de assustado em assustador. Como um efeito progressivo. Ou uma contaminação progressiva.

 

No momento seguinte a correria.

 

A chuva veio súbita. Forte. Impetuosa. Sumiram os olhares. Os comandos. A voz rouca. As idades se dispersaram.

 

O temporal veio como um deus feroz. Arrancou proteção individual. Mostrou o avesso do esperado. Não havia cobertura eficaz.  Nem coletiva. Nem social. As águas tomaram conta das calçadas. Das ruas. Das casas. Até dos elevadores. Invadiu onde pode. Alcançou onde não se acreditava. As luzes apagaram. A sinalização se foi.

 

No inicio não havia movimentos.  Além da chuva. Do vento.  Parecia mágica. Pontos de venda de emergência surgiram. Muitos. E muitos tentando comprar uma garantia. Bolsas e carteiras expondo com rapidez a possibilidade da solução. Como o teatro do Absurdo.

 

Logo depois a dança.

 

Objetos voando. As mãos. Muitas mãos. Como um ballet de mãos para o alto. Mais para o alto. Uns erguiam os braços. Outros mais afoitos pulavam. Tentavam trazer de volta o que virava para o lado errado. Ou que partia para um destino ignorado.

 

Uma dança quase filosófica – não fosse a explícita realidade dos fatos.

 

A chuva - impedia a visão direcionada.

O vento – impunha as desordens com frivolidade.

Os raios - pichavam impunemente o céu.

As mãos - dançavam soltas sem regência.

Os objetos - voavam experimentando a liberdade de expressão.  

As sirenes - cumpriam a sua função de cuidado.

As luzes vermelhas - tentavam cortar caminhos sem solução. 

As portas - fechavam com rapidez.

 

O espaço sumiu. Desapareceu por um tempo. Submergiu. Não havia mais limites. Nem degraus. Aqui eu piso. Ali você passa. Era tudo uma falta só. Não sei onde piso. Você não sabe onde passa.

 

Os corpos se fizeram marcados. Pela água. Pela roupa deslocada. Sem pudor. Sem escolha.

 

Por fim um retorno ao primitivo.

 

Sob uma marquise muitos em busca do abrigo. Empurrando. Disputando. Trocando olhares frios.

 

Já que ali não tinha quem defendesse. Só restava impor. Foi o que pareceu.

 

Cada um ao seu modo. Salvaguardando o que mais interessava. Naquele momento a própria segurança.

 

Mais profundamente – a própria existência. Igual à partilha. Foi o que pareceu.

 

 


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