Blog de Lêda Rezende

Janeiro 07 2010


A decisão foi ótima.

 

Sim. Café da manhã ao estilo oriental. Nada do habitual ocidental. Sem horários e sem tarefas. Maravilhoso. Um contraponto à realidade da rotina. Com o passaporte imaginário de turistas. Pelo menos esta a intenção.

 

Perfeito. Viva a Liberdade. E com a cidade esvaziada. Tudo bem mais fácil e bizarro. Como uma excursão dentro de casa. Mais ou menos assim. Vamos ver os contornos como dificilmente o fazemos. Rimos. A Filosofia realmente é dependente do nada-braçal. Assim ele arrematou o discurso.

 

Já acordamos comemorando a temperatura. Sem mangas compridas. Sem botas. Sem casacos. Uma verdadeira libertação. Ao menos de braços e pernas. Rimos e saímos.

 

Já na descida sentimos o ambiente modificado. A ladeira vazia. Só um ou outro passinho provocava eco. Muitas lojinhas abertas. Poucos visitantes lá dentro.

 

Descemos para o nosso percurso sobre trilhos.

 

Desta vez não estava lotado. Assentos vazios se dispunham como ofertas simbólicas. Em todos os espaços. Era um final de feriado prolongado. Por certo muitos haviam saído da cidade. Trocas se fizeram. Lotaram as estradas. Os aeroportos. Os caminhos de subida e descida. E deixaram os da rotina esvaziados. Procede.

 

Tudo se passou com a rapidez de um virar de cabeça. E invejei ferozmente os artistas plásticos. Um mínimo de dom. E poderia repassar toda uma emoção.

 

Por que aquela composição merecia uma tela.  Até um óleo sobre tela.

 

Ela parecia bem envelhecida. Muito mais que a cronologia. Sentada - diante de si mesma. Uma sacola preta – parecendo pesada - estava aos pés dela.

Talvez amparando mais do que amparada. Usava óculos de lentes mais espessas. Os cabelos iam até os ombros. Lisos. Desalinhados. Fios brancos cruzavam através de fios tingidos. Sem maquillage. Não parecia sofrer deste dito grande problema. A mal falada vaidade.

 

Vez ou outra arrumava a bolsa preta - também envelhecida – no colo.

 

Desconfiada talvez do clima - portava um cachecol. Leve no tecido - mas pesado na cor. Azul escuro. Caia sobre uma blusa branca com botões pretos. A saia preta se unia ao preto gasto dos sapatos. Assim estava ela. Sentada.  

A expressão era misteriosa. Não sei se feliz. Se preocupada. Ou se até ausente em pensamento. Apenas estava sentada. E cuidava dos poucos pertences. Mas também de forma algo displicente. Não parecia cuidadosa. Nem consigo mesma. Nem com os objetos.

 

Ele estava sentadinho ao lado dela. Deveria ter talvez oito anos. Magrinho. Cabelos castanhos cortado bem curtinhos. Mas que não impedia que uma franjinha de raros fios lhe caísse pela testa. Talvez ainda não conhecesse a prudência da desconfiança. Estava com uma bermudinha vermelha. Uma camisetinha de mangas curtas branca. Um tênis. Meias curtas branquinhas.

 

Foi um instante especial.

 

Ele olhava em frente. Caladinho. Mas notei que ergueu um pouco os olhinhos. Como se uma lembrança boa o tivesse visitado. Um possível pensamento surpresa. Naquele especial instante.

 

Abriu mais os olhos. Acomodou-se melhor no assento. Virou-se para ela. Que continuava olhando para frente. Mesmo que na frente nada pudesse ver. Só uma janelinha que passeava pelo percurso escuro.

 

Mas ele a olhou. Deu um sorriso leve. Sorriso de criança. Feliz.

 

Passou o braço por dentro do braço dela. Se amparou um pouco. Fez uma expressão especial. Um sorriso. Um meio sorriso. Não sei. Como se a proteção do mundo estivesse definida. Ali. Com seu pequeno bracinho por entre o braço dela. Com a cabeça encostada nela. Numa diagonal de afeto encontrado.

 

De repente foi como se o mundo tivesse uma nova rotação. De paz. De tranqüilidade absoluta. De segurança. Impossível descrever em palavras uma emoção. Lembrei até o poeta. Ele estava certo. As verdadeiras emoções ocorrem em um terreno onde uma palavra jamais pisou.

 

Não sei se a palavra foi antes. Ou se viria depois. Ou se poderia ser dispensada. Nem importa.

 

Mas não lembro ter visto nada parecido. Com a expressão dele. Com o gesto do abraço lateral. Confiante no ombro certo. Sim. Tudo ali parecia certo. Perfeitamente certo.

 

E se há uma avaliação isenta de erros – é a avaliação da infância. Ao menos enquanto a infância é infância.

 

Ela parecia ter voltado. Olhou para ele. Deu um sorriso leve enquanto cedia o braço. E também se aconchegou. Já não dava mais para saber quem se sentia seguro com quem. De onde vinha o amparo.

 

Nossa parada chegou.  Antes da deles. Mas não resisti. Olhei para trás. Ela parecia rejuvenescida de repente. A atitude descuidada se modificara. Estava agora em parceria. Talvez assim reconhecida.

 

Sorri para ele. Que me devolveu o riso. Olhou mais uma vez para ela.

Apertou mais ainda o braço. Parecia orgulhoso. E ela parecia feliz.

 

Desci dispensando o tal passaporte imaginário de turista. 

 

 


Outubro 10 2009

 

Certo. Bom humor é fundamental.

 

Aceitar o inevitável é sinal de sabedoria. Concluir que sabe que não sabe é uma conclusão amadurecedora.  Quase heróica. Grega. Conselhos de avó nem se comenta. A perfeição das perfeições.

 

Podem ser seguidos com toda a obediência. Tudo procede. Confere. Ganha até aquele ok ao lado de cada frase. Ou de cada pensamento.

 

Assim estava. Tentando ser parcimoniosa. Prudente. Até polida – poder-se-ia dizer. Falar que estava com postura amadurecida - já beirava a redundância.

 

Tudo bem que um bom observador teria ficado mais cuidadoso. Ela estava com aquele olhar fininho. E isso sempre foi um indicativo de alerta. Aos próximos e distantes.

 

Mas impossível não reagir.

 

Acordara bem disposta. Iria continuar com seu pacote de feriados. Já o segundo dia.

 

Estabelecera até um agendamento. Bem à moda antiga. Escreveu num papelzinho. Item por item. Adaptando inclusive horários e atitudes.  Uma maravilha. Uma sequência quase divina. Devia mesmo estar numa fase grega. Isso – lógico - bem antes do olhar nipônico.

 

O papelzinho com a listinha. Este sim um fato novo. Podia até programar. Mas daquele jeito – nunca. Nem lembrava mais o dia que escrevera itens ordenados. Devia ter sido em algum momento de vida escolar. Talvez com algum desespero. Por agradar a professora. Por certo por alguma daquelas pequenas faltas.

 

Na infância as faltas e erros parecem tão tridimensionados. A altura física na infância sempre é inversamente proporcional à altura da visão dos problemas.

 

Deve ter sido numa visão assim. Exagerada. Por isso escrevera os tais itens.

 

Mas enfim. Fora isso – nunca. Ia fazendo dentro do seu ritmo. Mental.

 

Desta vez até prometera não fazer programações. Ou qualificações. Mas não resistiu ao doce sabor de uma exibição. E ainda antes de dormir pegou o tal papelzinho. E escreveu a sua programação do dia seguinte. Até numerada foi. Releu. Concordou. Acrescentou só mais um – no final. E foi dormir tranqüila. Estilo – então estamos combinados.

 

Já começou a sentir o frio no primeiro abrir de olhos.
Até pensou em verificar a própria temperatura.
Vai ver estava com febre. Mas não parecia.

Olhou em volta. O quarto estava bem escuro.
Deveria ser cedo.
Vai ver acordara no hábito dos dias ditos úteis. Olhou para o relógio. Negativo. A manhã já estava explicita.

 

De repente se deu conta. Um barulho mais insistente. Ritmado. Permanente. Nem diminuía. Nem aumentava. Aliás - já era alto o suficiente.

Somou as conclusões. Frio. Escuro. Barulho. De água

Levantou. Abriu as portas.

 

Sim. Chovia como se fosse a primeira chuva do mundo.

 

Como talvez só no tempo da criação. Muita chuva. O céu cinza forte – não possibilitava fantasias contrárias. O frio estava  contundente. Abraçou-se a uma manta - desprezada desde a véspera - no sofá.

 

Foi naquele momento – abraçada na tal manta – que o olhar nipônico se fez com toda a sua força. Nem todo ninja. Ou nem toda naja. Valia o trocadilho. Mas não riu. Sequer um esboço de riso.

 

Voltou para o quarto. Pegou o papelzinho.

 

No item um constava – sol sem moderação. Tinha até uma carinha de risinho ao lado desse item.  E continuava.  Esquecer o carro. Caminhar no Parque. Ir à Livraria. Comprar o presente dela. Caminhar na Avenida. Tomar aquele sorvete maravilhoso que só vende lá. Sim. Ir até lá.

 

O olho quase se fechou. Nem todo nipônico. Lembrou. Tinha avisado a ele desde a véspera. Sim. Poderia colocar o carro na revisão.

 

Estava sem carro. Absolutamente sem carro. Sem sol. Sem caminhadas. Sem sorvete. Com chuva. Com frio.   

 

Só uma palavra lhe vinha à mente. E nunca pensara nesta palavra.

 

Reticências. Só esta se repetia. Por certo uma palavra encobridora. Era uma moça educada. Também repetiu isso alto – como que provocando uma eficiente auto-escuta.

 

Amassou o papelzinho. Jogou na cestinha do lixo a seu lado. Olhou para ele - o papelzinho - como se olha numa despedida.

 

Sentou no sofá abraçando afetuosamente a manta. E lá ficou por algum tempo. Ela. O sofá. A manta. Três pontinhos. Olhando a chuva bater na vidraça.

 

Mas – resignou-se. Ainda teria mais dois dias.

 

E - desta vez - sem agendamentos. Prometeu a si mesma. E até sorriu. Com olhos já bem abertos.

 

 


Junho 20 2009

Ela ia falando. Eu ia acreditando. Ela não era de criar contos. Ou de sublimar encontros. Era de efetivar desencontros. Se não estava bom – destituía. Por isso fui acreditando quando avisou. Acabou.

 

Ele ia viajar. Passaria trinta dias fora a serviço da empresa. Naquele país privilegiado. Boa música. Maravilhosas orquestras. Vinhos de especiais safras. Bosques. Rio com nome de valsa. Para completar - até aquelas tortas irrecusáveis. Era bem para lá que ele iria. E para lá ele foi.

 

Observou. Não sentiu saudade da parte dele. Nem uma mínima expressão de quanto-tempo-longe. Sentiu que ia feliz. E que surgira um certo ar juvenil. Juvenil até demais. Olhou. Mudou o ângulo do olhar. Quis ser a mais justa e o menos paranóica possível.  Respirou.

 

Decidiu pesquisar. No caso de estar errada – pediria desculpas. Mas não era mulher de julgamentos errados. Era boa nisso. A própria profissão lhe exigira e lhe qualificara desta forma. Era boa em avaliações. Por isso – mesmo sabedora antecipada – temeu. E tremeu.

 

Abriu a mala. A dele. Perto da hora da saída. Ele – desatento - dava os últimos retoques na imagem. Não a viu abrir. Ainda bem. Porque o olhar dela fora da ordem do selvagem. Do devastador.

 

Encontrou. Vários presentinhos. Que delicadeza. Deveria ser uma princesinha. Sim. Por certo não era para ele usar. Eis algo que tinha absoluta certeza. Esboçou até um risinho. Mas daqueles tetânicos. Com trismo. As crisálidas devem ter trabalhado só para aquelas compras. Eram realmente belas sedas. Suaves ao toque. Belas cores. Fortes. Sedutoras. Mas delicadas no recorte.

 

Agiu.

 

Fechou a mala. Deixou dentro as lindas caixinhas intactas – porém ocas das delicadezas. E ela. Ali. completamente fora - plena de tristeza.

 

Ele se despediu. 

 

Um abraço mais rápido. Um beijo menos efusivo. Não precisa me levar. O motorista virá. Fica em casa mesmo. Olhou para trás mais uma vez ao entrar no carro. Comentou algo sobre a casa. Deu mais um adeus. E saiu.  Assim. Como um ato perfeito de premonição. Ou como um ballet contemporâneo. Cada dançarino com seu ritmo. Mas num mesmo palco.

 

E assim pareceu ser.

 

Enquanto ele de lá se assustava. Ela daqui se mobilizava. Discussões. Exageros. Emoções. Desculpas. Perdões. Nada resolveu. Avisou que era já um assunto encerrado. Um mês se passou.

 

Comecei a rir. Não foi à toa que aquele filósofo diplomata Francês ganhou o ilustre prêmio.  Entendi muito bem o que ele explicava sobre o riso. É preciso exceder duas vezes o trágico para que seja cômico. Começou a ficar cômico.

 

Assunto encerrado é o termo mais flexível que se utiliza. Ou que se desconsidera. Todos buscam a nota de rodapé. Sempre se espera uma báscula. Ele não fugiu à tal regra.

 

Voltou.

 

Chegou com as malas. Tentou abrir a porta. Não conseguiu. A chave desobedecia. Ou a fechadura não reagia. Compreendeu de imediato. Esbravejou. Um homem tão ilustre. Esbravejou.

 

Ela firme – mas assustada - telefonou para aquele número hollywoodiano. Sim. Porque até aquele dia só o reconhecia por filmes. O tal número. Veio o reforço. Ele desconsiderou. Também fez outra ligação. Para o mesmo número. A esta altura já mais suburbano que hollywoodiano. Veio outro reforço.

 

Uma porta.

 

De um lado – de dentro – ela. E sua decisão.  

Do outro lado – de fora – ele. E sua intenção.

 

Para completar as malas. Duas policias. E a porta. Imóvel. Fria. Só não diria ausente porque esta palavra não cabia. Mas ficava ali. As policias negociavam entre si. Alguém tinha que ser convencido. Demorou. Mas enfim - um consenso.

 

A porta não abriu. Ele deu as costas e se foi. Ela foi para o quarto. 

 

Nesta noite chorou. Toda a noite. Se culpou. Se recriminou. Se descabelou. Se perdoou. E se curou.

 

Não cedeu. Sabia que a concessão lhe cobraria um preço maior que a possível solidão anunciada. E o que está destituído – não pode ser restituído.

 

Pensou algo por aí. Pensou muito mais. Talvez nunca tenha pensado tanto durante uma noite. E teve mais certeza quando a noite se foi. Concluiu. No final cada um é refém dos próprios atos. Que cuide muito bem, então, do próprio cativeiro.

 

Pela manhã abriu a porta. Saiu. Para o trabalho. Para a responsabilidade. Para os propósitos e os projetos.

 

Nada quis. Nada pediu. Só caminhou no percurso que escolheu.

 

E recuperou a si mesma. Por inteiro.

 

 


Junho 15 2009

A mocinha do boletim meteorológico parecia feliz. Avisava que os dias seriam lindos-dias-de-sol-de-verão. Acabou de informar e confirmar. E se despediu. Feliz quatro dias de feriados a todos.

 

Ela já foi logo se incluindo.

 

Tanto tempo sem sentir o sol na pele. Ou chovia. Ou ela trabalhava. Não havia sincronicidade. Do querer com o ter. Até se sentiu poeta. Poeta do sol.

 

Riu.

 

Mas agora ali estava ela. Com o sol. Sob o sol. E o restinho de óleo protetor. Avisava no rótulo. Anti-envelhecimento. Provavelmente para ambos. Para ela – para o óleo. Confiou nisso naquele momento. Aliás – naquele momento – ela era a imagem caricaturada da confiança.

 

Ele permitira. Poderia, sim, ficar lá embaixo. Tinha um espaço disponível. Não tinha cobertura – mas a mocinha do boletim meteorológico informou que não choveria. Combinado. Ele ficaria lá então.

 

E o terraço se transformou. Só dela. Viva o doce sabor do egoísmo. E ainda tem gente que discursa contra. Nem pensar. Achou que até escapou um obá.

 

Quatro dias de folga. Plenos. De sol. De céu. De dolce far niente.

 

Esparramada. Pensou esta palavra letra por letra. Assim ficou na espreguiçadeira. Palavras perfeitas. Ambas.

 

Levantava. Caminhava. Sentava. Deitava. De vez em quando recordava a adolescência. E conferia as diferenças de marcas entre o exposto e o oculto.

 

Na água estava a cadeira. Inflável. Quase uma chaise longue. Já estava até sofisticando os pensamentos. Riu de novo. Mas lá estava. Balançando com absoluta serenidade sobre a água. Quem inventou o inflável entendia de prazer. Seja qual for o viés. Cada um com seu pedido. Ou com sua idealização. Mas quem inventou sabia. Inflável. E ela inflada. De pueril alegria.

 

E nem precisava dizer aquelas três palavras. Saia – Fora - Não. Pensou até que elas tinham saído do dicionário. Riu de novo. Estava mais que poeta. Já estava também filósofa. Viva o ócio. Sempre dizia e repetia. Só falta agora o ócio aceitar o convite. E ir morar para sempre a lado dela. Como feliz e inspiradora companhia.

 

Abriu as portas. Todas. Do quarto via o mundo. Os prédios. O céu. A luz entrava sem formalidade. Já com a intimidade de quem sabe. O tamanho da permissão. E ainda sem as três palavras. Aquelas que nem vale repetir.

 

Não é porque não as pronuncia que vai ficar lembrando. Não teria sentido. Sentido. Outra palavra perfeita. Falta em sentido tudo o que sobra em sentido. E por ai vai.

 

Um chá. Já estava na jarra. Em cima da mesinha. Geladinho. Por sobre uma toalha branquinha. Feita de uma fibra especial - a toalha. Presente que recebera de lá. Onde tudo é aproveitado, apreciado e vendido. Naquele mercado. Um modelo.

 

Com a porta aberta do quarto o som se fez intenso. Colocou as músicas preferidas. Alternando. Entre ritmos e tons. Entre líricos e populares. Os ouvidos também merecem uma festa. Não é festa só de olhos. Ou só de pele. Ou só de economia de palavras. Se não se toma um certo cuidado - a imaginação pode acabar ficando deficiente.

 

Há algum tempo começou a entender as mil artimanhas do prazer. Tudo que tem que ser igualmente satisfeito. Vai ver por isso prazer é sempre da ordem do difícil. Ou do impossível. Nisso as queixas sempre vencem. Qualquer queixa, por mais tola que seja – convence. Queixa já é da ordem do perfeito. Do completo. Nem bem formulada – já incorporada. Tão diferente do prazer. Este nem bem formulado – já inacabado.

 

De repente o vento mudou. A cor do céu também. Viu um traço luminoso ao longe. Um risco. Seguido de outro. E mais outro. O que poderia – talvez - ser chamado de uma nuvem se aproximava. Era uma formação escura. Densa. Decidida. Pareceu estacionar. No exato espaço sobre a espreguiçadeira. Sobre a cadeira inflável. As toalhas, subitamente desarvoradas, dançavam sem rumo e sem ritmo. Assim. De repente.

 

Queria saber como encontrar aquela mocinha. A do boletim meteorológico. A que descreveu os dias de feriado. Como uma tela. De impressionista.

 

Mudou rápido o pensamento. Onde ele estava não tinha cobertura.

 

Correu. Fechou a espreguiçadeira. Esvaziou a cadeira inflável. Recolheu as mesinhas. Cobriu as marcas da diferença. Deu adeus à recriada adolescência - tão rápido quanto à verdadeira.

 

Ele subiu. Olhou para o terraço. Marcou imediatamente o espaço. Deitou no meio dele. Desconsiderou a chuva. A cobertura.

 

Lembrou de um desenho animado. Havia um deles. Sorria por entre os dentes a cada batalha travada e vencida com algum humano. Teve a impressão que ele fizera o mesmo. Tinha certeza de que escutara um riso fino. Seguido daquelas três palavras. E dirigidas a ela. A ela.

 

Fechou as portas. A chuva continuava. Os tracinhos luminosos ainda riscavam o céu acinzentado. Ele ainda deitado no terraço. As cadeiras amontoadas na salinha. O chá descuidado sobre a escrivaninha. Num cantinho, murcha, se acomodava a ex-sofisticada chaise longue.

 

Relembrou. As “erínicas” três palavras. Mas não as verbalizou. Em nenhuma direção.

 

Silenciosa, ligou a televisão. Alguém oferecia um novo tipo de desodorante. A uma mocinha que precisava não suar no calor.

 

 

Riu. De impressionista a realista foi um pulo quase tão rápido quanto aquela demonstração de verão.

 

Perdoou - a mocinha relatora do boletim meteorológico.   

 

 


Maio 22 2009

Decidira assim. De repente. Abriria uma vaga na rotina. Até riu depois que assim nomeou.

 

Toda arrumada para sair. Desistiu. Voltou. Nunca na vida tinha feito algo sequer parecido. Era rigorosa em sua rotina. Não faltava ao trabalho. Não chegava atrasada. Uma metódica compulsiva. Vai lá saber o que lhe dera naquele dia. Mas decidiu por acatar a sua vontade. Que seja feita, então.

 

Ficaria o dia em casa.

 

Telefonou para o escritório. A faxineira atendeu. Avisou que não iria. Estava adoentada. Riu de novo. Estava mesmo. Doente de vontade de ficar em casa. O marido sairia logo depois. Tiraria o dia para si. E dentro da sua própria casa. Quando a diarista chegasse, pediria para não incomodá-la.

 

Que fizesse de conta que ela não estava ali.

 

Assistiria a um filme. Dormiria mais um pouco. Tinha que organizar uns documentos. Faria isto no final do dia. Quando o tédio ou a culpa ameaçassem substituir o prazer do ócio. Ai uma tarefa seria útil. Na casa tinha um pequeno escritório. Embaixo da escada. Com um pequeno sofá.

 

Colocou um dos seus clássicos preferidos bem baixinho. Tirou a roupa formal e deitou. Recurvada sobre si mesma, cobriu-se com uma manta. E começou a ler um livro.

 

Escutou uma voz. Era a voz da diarista. Falava com alguém ao telefone. E dizia que já estava tudo certo. Sairia sim. No final do mês. Não. Não tinha avisado ainda. Tudo de última hora. Falou assim. Tudo de última hora. Não queria mais. Trabalhar em lugar com terraços e jardins. Lá para onde ia era um apartamento. Nem vasinho de planta tinha. Só as salas necessárias e vazias. Riu. Fez algum outro comentário que ela não entendeu. E desligou.

 

Se sentiu espiã em sua própria casa.

 

Nem bem pensou isso e escutou outra voz. Também ao telefone. Era a voz do marido. Combinava algo. A voz estava suave. Gentil. Combinava um encontro. No final da tarde. Sim. No de sempre. Eu sei que você adora. Nada de última hora. Falou assim. Nada de última hora. Outro carinhoso para você. Riu. Fez algum outro comentário que ela não entendeu. E desligou.

 

O no de sempre a fez sentir um frio. Congelou. Pior que o outro carinhoso. Pior que a tal ausência do vasinho de planta. Tudo ou nada - de última hora. Quase pegou um agasalho que estava pendurado num cabide junto à porta.

Mas ficou com uma dúvida. Entre pegar o agasalho. E se enrolar. Ou pegar dois agasalhos. Um para cada um. A diarista. E ele. Porque eles é que ficariam congelados. Quando a vissem.

 

Optou pelo efeito assombração. Saiu debaixo da escada.

 

Falou um bom dia. Atrás dela. Da diarista. Ela se virou. Pele pálida. Parecia cristalizada. Avisou calmamente. Já está liberada. Pode ir.

Ela se desculpou. Chorou. Disse que estava arrependida. Que adorava ela. Que adorava trabalhar para ela. Que tinha sido um mal entendido. Perdão. Coisas de imaturidade. Nada resolveu.

 Liberou a diarista lecorbusierista.

 

Subiu as escadas.

 

Falou um bom dia. Atrás dele. Do marido. Ele se virou. Pele pálida. Parecia cristalizado. Avisou calmamente. Já está liberado. Pode ir.

Ele se desculpou. Chorou. Disse que estava arrependido. Que adorava ela. Que adorava morar com ela. Que tinha sido um mal entendido. Perdão. Coisas de imaturidade. Nada resolveu.

 

Liberou o marido dongiovannesco.

 

Tomou mais uma decisão. Telefonou para o escritório. Confessou a mentira que inventara. Ele a liberou. Deste e de todos os dias futuros. Diferente dos outros libertados, disse apenas obrigada. Passaria lá a qualquer hora para os acertos.

 

Abriu os olhos. Ficou paralisada. Depois deu um pulo. O marido estava diante dela. Arrumado para sair. Até riu quando a viu assustada daquele jeito. Parecia um sono tão bom. Não quis lhe acordar. Desculpe se assustei.

Devia ter subido. Lógico que não iria me incomodar. E ainda ficaríamos um pouco mais juntinhos. Fez bem em ficar em casa. Você anda muito cansada.

 

Pegou o livro que estava caido no chão. Deu um beijo nela. Desejou bom dia, querida. Jantamos fora hoje, não esqueça. Já fiz as reservas. Nada de última hora. E no de sempre.

 

Passou um tempo até compreender. Depois sorriu. Muito feliz.

 

Da janela cumprimentou a diarista que, cantarolando, regava as plantas do jardim.

 

 


Maio 10 2009

Maravilha. Foi a primeira palavra que me veio à mente. Nada para fazer. Dia de folga. Escolher. Foi esta a segunda palavra que pensei.  Fiz questão de acordar mais cedo. Para poder decidir com calma. Como usar meu tempo útil. Num dia chamado de inútil. Tempo útil é o que se utiliza para si próprio. Mesmo que englobe o outro. E inútil é mesmo aquele que é só protocolar. Acaba não envolvendo a ninguém. Calendário é algo pessoal e intransferível.

 

Enfim. De imediato cedi à opção mais simples. Pelo menos na primeira parte. Da folga. Assim a administraria. No mesmo lugar. Onde ficava fazendo elucubrações sobre o nada fazer.  O filme começou. Despretensioso. Animado. Fugaz. Ao menos assim pensei. Mas nada é tão fugaz nem banal. Nem mesmo um filme na sessão matutina de um dia dito inútil. Tolo engano.

 

Vivas para o ócio.  Só o ócio pode permitir os possíveis efeitos intelectuais. Não há enredo que não remeta à vida cotidiana. Aos aprendizados cotidianos. Como dizia a minha avó. É do corriqueiro que a Filosofia é construída, menina, é do corriqueiro. 

 

Ele explicava. Só tirava fotos das pessoas de costas. Sempre. Achava que era o ângulo fiel. Onde as pessoas não se ocultavam. De frente era impossível descobrir a sinceridade. As pessoas mentiam com os olhos. Disfarçavam com a boca. Iludiam com as expressões faciais. Nunca se capturava o verdadeiro de alguém de frente. Mas de costas este verdadeiro não escapava. Não tinha como ser impedido.

 

Achei perfeito.

 

E me vi de repente bem longe do lugar real. Em segundos já estava percorrendo os caminhos das situações não definidas. E re-construindo o mundo - pelas costas. Quase ri.

 

Lembrei dela. Sempre tão altiva e irônica. Desafiadora. Com suas decisões baseadas na praticidade. Lembrei das costas delas. Um pouco curvadas. Andar não tão firme. Denunciando todo um cansaço e fragilidade revertidos.

 

Lembrei dele. Com atitudes até pueris diante da vida. Mas de costas tem um porte nobre. Altivo. Como se soubesse tudo que transportava. E quisesse garantir a fragilidade da carga muito mais que de si próprio.

 

Ele. Sempre delicado. Toque leve. Olhar mais de sério que de alegre. Com suas costas largas parece muito mais impor que expor. Ou busca muito mais se impor que se expor. E, tímido porém seguro, caminha.

 

Ele. Sempre atento. Carinhoso. Alegre. As costas têm um discreto desvio para um lado. Como se tentasse dividir um pouco do que, firmemente, carrega.

 

Não faltaram costas. Dia Nacional das Costas. Não faltaram exemplos. Dos mais sérios aos mais banais. Olha-se diante de um espelho. E se vê a frente. Não inventaram ainda. Um espelho que permita toda a visão. Ainda bem.

 

Acredita-se no que se vê.

 

Agora até ri. Lembrei dos salões ditos de beleza. Após toda uma arrumação. Após todo um evento dedicado à vaidade. Após toda uma reorganização de imagem. Sempre tem alguém que vem com um espelho. E nos mostra o que está por trás. Daquela imagem. Retocada. Ou quando se compra uma roupa. Sempre alguém pergunta. Se está bom nas costas.  Interessante.  O espelho que mostra o que há por trás. É bem menor do que o outro. O que mostra o que tem pela frente.

 

E isso sem falar nas fotos turísticas. Sempre se dá as costas para o que se foi visitar.

 

Mas o mais bonito do filme foi o final. Um olha para o outro de frente. E diz. Eu não sou quem você pensa. Genial. E eu a dizer que estava assistindo a um filme – como foi mesmo – despretensioso, animado, fugaz.  Devia estar cristalizada.

 

E assim fiquei. A deixar o dia se transformar. Só não sei se de inútil a útil. Ou se de útil a inútil.

 

No final da manhã tomei uma decisão. Melhor ir caminhar. Pela avenida.

 

Ou entre a Avenida e a Alameda.  Em algum lugar vou ver o mundo. Ou vou me ver. De costas.

 

 


Maio 01 2009

Minha avó avisava sempre. As cores da Vida estão na rotina, menina, estão na rotina. Esta frase veio de repente. Na minha lembrança. É verdade.  Acho que a rotina começa quando se abre a porta da própria casa. Num retorno. Numa volta. Sente-se o que foi construído para ser rotineiro. Neste instante. Sente-se na pele. Nas vísceras. Nas batidas do coração. Até na pouca voz. Ou nos excessos dela. Da voz. Pode parecer que significa nada. Mas significa o rumo. O norte. O posicionamento. Diante de tudo. Até da Vida. Mas bem que podia ser sem exagero.

 

Chave na porta. Antes de entrar - todos morenos. O sol fizera sua marca. E algumas até já estavam se desmanchando. Mas denunciavam. O clima. As roupas usadas. A frequência. Tudo isso marcado pelo sol. Como tatuagem.

 

Pode-se fazer toda uma leitura a partir daí.  Efêmera, talvez. Pois nunca se sabe que marcas o sol faz.  Mas uma coisa é certa. Ele nunca deixa de fazer. Não dever ser à toa que o chamam com nome e título de nobreza.  

 

Foi mais ou menos assim. Teve um pré-porta. Suave. Tranqüilo. Como se até nas férias coubessem um missão cumprida.  Há todo um ritual. Na volta. O principal é procurar a chave. A chave da tal porta. Que dá acesso à rotina. Sempre um olha para o outro. E pergunta com quem está. E cada um aponta para o outro. Incrível como esse diálogo se repete. Sempre. Por toda a vida. Com quem está a chave. E ela sempre circula. Agora até ri. Mas não dá para filosofar. Ele foi logo avisando. Sábio. Ou mais que isso.

 

Vidente. Enfim. O portador da chave a encontrou. Abriu a porta. E teve o acesso permitido. À rotina.

 

Nunca vi rapidez igual. Os antes morenos bronzeados se transformaram. Ficaram cinza esverdeados. A visão foi mais forte que a força do tal portador do nome e sobrenome. Brancos. Como se dos picos das montanhas nevadas tivessem vindo. Uma nova leitura poderia ser feita. Até as marcas fugiram.

 

Havia escutado durante a ausência que lá só chovia. Escutara assim. Sem nenhuma atenção. Ou com total desatenção. O que ainda é pior. Como se nada tivesse com isso. Com a notícia. Com a informação.  Muito menos com a chuva. Estava sentindo o sol na pele. Chuva passou a ser ficção. Não uma questão. Desdenhou. Estavam longe. Passeando. Com pouca roupa e muita imaginação. Olhos atentos ao novo. Possibilitando uma nova impregnação na retina. De cores. De luzes. De morros. De montanhas. De ondas. Ouvidos capturando sotaques. Noticias locais. Locais. Separando sugestões. Às vezes cada um meio que cantarolava aquela canção antiga. Continua lindo. Em todos os meses. E riam. Se o sol nasceu para todos eles disputavam. A sua parte na herança. Com afinco. Com avidez. Assim se conduziam. Perfeito.

 

Perfeito não foi bem a primeira palavra pronunciada. No pós-porta. A chave parecia até queimar. Nas mãos. Um já querendo doar ao outro. Ou a qualquer outro. A tal chave. Os olhos paralisaram. Fez até barulhinho movê-los.

 

Era verdade. Chovera. Muito.

 

Transbordara. Repetiu esta palavra sem parar. Transbordara. Quando mudou foi o tempo do verbo. Transbordou. Ele fazia coro. Ela dizia e ele repetia. O inverso também se fez. A água afoita descera as escadas. E se instalara na sala. Nos tapetes. Atrás da porta. Quase riu porque lembrou a outra música. Bem diferente da anterior. Do continua lindo. Porém mais forte. Emocional. Coisa para tenor. E soprano. Dos pés aos pés da cama.

Dava para cantar a música toda. Cabia em tudo. Em especial no desespero.

 

Permitia até a parte do sem carinho.

 

Nem entraram. Ou melhor. Teve um mínimo lapso. De tempo. Como dizem os mais exatos. Mas entraram. Firmes. Ele fez uma piadinha. Nada como por os pés no chão. Ele referia-se ao ar. Ela entendeu como à água.

 

Conseguiram rir. Mas não de imediato. Teve um outro lapso. De tempo. Mas enfim. O momento estava mais carente de atitude do que de dialética. Malas em cima dos sofás. Sapatos fora da anatomia adequada. E vivas aos paninhos. Era já a segunda vez que celebravam. Os paninhos. Quis até descobrir quem foi o inventor deles. Dos paninhos. Repetiu com voz agora de contralto. E uma sobrancelha mais levantada. Vai ver algum adorador do sol. O mesmo, quem sabe, que lhe dera nome e título de nobreza.

Tira daqui. Põe ali. Ali não. Mais pra lá. Não, lá em cima. Agora sim. Cuidado com a escada. Nossa. Que queda. Depois se examina. Tem mesmo nada. Que não esteja molhado.  Mas já está acabando. Esta parte se vê depois. Não. Ela só virá dentro de quinze dias. Não é verdade. Comentou com voz de barítono. E as duas sobrancelhas mais levantadas. Sim. Melhor ver logo então. Já. Tão tarde. O tempo voa. Água também. Acho que somente nós não sabíamos. Agora já sabemos.

 

Viva as cores da rotina. Não fala assim dela. Certo. Está perdoado.

 

Missão cumprida. Missão. Cumprida. Sentados por cima das malas. No sofá. Agora rindo.


Com voz rouca. E sobrancelhas despencadas.



Abril 09 2009

Nunca mais brinco. Prometo. Vou até emitir um documento. Nunca mais brinco com a palavra Susto. Vou até mandar para um reconhecimento de assinatura. Em duas vias. E emoldurar.

 

Feriado. E na segunda-feira. Presente divino. Certo. Do prefeito. Para mim agora um semi-deus. De repente eis um feriado prolongado. E saber que na segunda ainda é domingo. Que maravilha. Tanto tempo que não folgo na segunda.  

 

Sol durante o final de semana. Piscina. Estilo férias no terraço. Sim. Vamos fazer então o churrasco. No sábado. No final do dia. Nós seis. Ainda bem que somos. Nada de título de livro. Vamos aproveitar. E nada de preocupação. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Que delícia. Sim. Só ele sabe fazer um churrasco assim. Só ele. Sim. Todos concordamos. Que churrasco maravilhoso.

 

Cuidado. Não se preocupe. Copos quebram mesmo. Sim. Caiu escada abaixo e espatifou bem embaixo da escada. Vou só pegar os pedaços maiores. Não tem importância alguma. Fica tranqüila. Hoje é só festa. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Sensacional a idéia dele. Mas trouxe inteira. E nunca sei o que fazer com ela inteira. Em geral só compro a cauda. Mas não tem problema. Sim. É só colocar para ferver. Aferventar como se diz lá de onde vim. Duas panelas grandes. Temperos picados. Que cheiro maravilhoso. Cuidado para não se queimar. Deixa aí mesmo. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Não acredito. Outro copo. Mas tudo bem. Certo. Empurra então para debaixo da cama. Sim. Melhor mesmo tirar o tapete. Vamos colocar na varanda. Assim não tem risco de alguém se cortar.  Sim. Fica tranquilo. Na segunda-feira ela dará o jeito certo.

 

Tão bom dormir na hora que se quer. Especialmente no domingo. E sem preocupações com o dia seguinte. Tomei até uma taça de vinho. E domingo à noite. Coisa raríssima. Viva meu feriadão. Se eu não gostasse desse prefeito agora mudaria de idéia. Meu prefeito preferido. Ainda bem. Vivas para o prefeito.

 

Mas não coloquei o despertador. Que será que houve. Esta hora. Não é o despertador. É o celular. Encontrei. Sim. Eu mesma. O que aconteceu.

 

Certo. Está doente e vai para o hospital. Agora. Hoje. Desejo melhoras.

 

Obrigada. Não se preocupe. Saúde e doença não dão aviso prévio. Certo.

 

Certo. Repeti isso para mim. Trinta vezes. No mínimo. Certo. Certo. Olhei em volta. Olhei até para o calendário. Era realmente segunda-feira. Do feriado. Feriadão. Que maravilha. Sai do quarto. E já continuei de pé. Nada de cair de costas. Com Sustos. Este Susto foi mega campeão. Mas o amor pela vida falou mais alto. Gritou, melhor dizendo. Tinha muito vidrinho pelo chão. Podia me cortar. E de acordo com a queda cortar até a língua. O que poderia parecer merecido.

 

Tomei uma decisão. Filosófica. Começar de cima para baixo. De baixo para cima seria uma espécie de contramão. Consegui rir. Sozinha. Contramão era a palavra exata. Lembrei do prefeito. Que dera o feriado. Feriadão. Ele que cruzasse meu caminho agora. Ia ver a mão e a contra mão. Ia ver bem de perto.

 

Muito bem. Deixa conferir. Vassouras. Apanhador. Baldinho. Paninhos. Saquinhos de lixinho. Acho melhor assim. Falar no diminutivo. Para que fique mais suave. Leve. Afinal são pequenas tarefas.  Pequenas. Novamente repeti para mim. Trinta vezes. No meu feriado. Feriadão. Este não consigo - falar no diminutivo.

 

Melhor guardar o biquíni. Não vai dar tempo mesmo. Mas tudo bem. Sol envelhece. Quem sabe é uma ajudinha divina. Melhor deletar este segundo pensamento. Sobre a ajudinha divina. Ele às vezes se Aborrece. E fica Vingativo. Chega já de problemas. Por hoje.

 

Mesmo querida. É o que você sugere. Que faça uma massagem. Logo depois que colocar tudo no Lugar. Tão delicadinha. Agora me exigi um diminutivo. Poderia ser perigoso. Às vezes uma palavrinha se modifica. Assim. À toa. E vira uma palavra maior. Obrigada pela idéia. Uma massagenzinha.

 

Sim. Estou quase acabando. Me chamou de exagerada. Achou que exagerei. Não fazia mal do jeito que estava. Que simpático. Poderia ficar assim a semana toda. Que solidário. Sim. Vou desligar. Posso não conseguir um diminutivo adequado agora. Deixa pra lá.

 

Então você acha que foi isso. Ela colocou uma câmera escondida. E viu da casa dela. Daí faltou hoje. Hilário. Não fosse a minha pressa e ficaria aqui. Rindo ao telefone. Por horas. Com você. Muito criativo. Depois a gente organiza a criatividade.

 

Já é tão tarde. Mas não faz mal. Acabou. Acabei. Acabamos. Acabaram. Comigo. Acho que caiu meu oxigênio cerebral. Tirando aquela escorregadinha que dei com o paninho. E uma leve torcidinha no pé. Tudo ficou prontinho como num passe de mágica.

 

Viva o diminutivo.  Apaga o feriadão. Palmas para os caquinhos de vidro. Saudações para a massagista. Acenos para a câmera oculta. Quanto ao prefeito – melhor esquecer.  Nada de qualificar o prefeito.

 

Amanhã – felizmente – já é dia de Trabalho. Repeti isso trinta vezes. No mínimo.

 

 


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