Blog de Lêda Rezende

Dezembro 07 2009

 

Cedo já fui cuidar das organizações.

 

Mas antes o cuidado de conferir. Temperatura e chuva. Nada de alarmante. E hoje então. É a data de início da nova estação. Do ano. Esta sim. Desde ontem já bastante festejada.

 

Não pude deixar de lembrar a minha avó. Trate a véspera sempre como véspera, menina, trate a véspera sempre como véspera.

 

Afoita – fui logo festejando. Descrevendo. Nomeando. Vai lá mais saber o que. Passei a véspera adiantando o dia. Mais ou menos assim. Talvez um velho hábito. Ou uma tola pressa em viver. Mas só agora me apercebo deste meu estilo. Vai ver ofendi uma florzinha aqui ou ali. Enfim. O que está feito está feito.

 

Agora vou ficar mais atenta. Acho. Talvez.

 

Subimos juntos na ladeira. Os meus espirros e eu. Uma sociedade imbatível. Solidária. Nem sei quem era mais fielmente parceiro. Os espirros comigo. Ou eu com eles.

 

Sim. Lá vinha outra gripe com força total. Daquelas que já pulou a classificação 1. Já deve estar na 3.

 

Um horror. Ossinhos rebeldes. Nariz que humilharia qualquer plantador de tomate. Olhos piores do que a recomendação do colírio. Ou dos óculos escuros. Um pisar especialmente criado para a ocasião.

 

Lembrava um daqueles filmes onde a roda da carruagem girava em sentido contrário à direção que segue. Sim. Efeito caleidoscópico. Eis uma descrição verdadeira.  

 

E viva a segunda feira. Nada de reclamar.

 

Mas não encerrava aí. A chuva se fez presente. Uma chuva forte. Objetiva.

 

Se é para inundar – pode deixar comigo. Inundou. A temperatura caiu. O frio veio rápido fazer seu papel de figurante. E estava assim instalado o Teatro do Possível.

 

Tudo estava lento. As paradas se sucediam. O fino deslizar do freio sobre os trilhos dava arrepios intermináveis. Mal acabava um ramo dos arrepios – outro já se iniciava. Melhor ficar logo arrepiada de uma vez. Pensei num milésimo de aborrecimento.

 

Mas continuei. E o dia se fez dentro do mais ou menos programado. Entre espirros e tosses. Mas também não foi assim tão monótono. Teve febre. É preciso sempre acrescentar. Nada de minimizar.  

 

Incrível. Não podia ser diferente. Na saída. Ao termino da atividade – mais chuva. E o frio já se fez mais. Virou protagonista. O ventinho vinha certeiro cortando e atravessando a pele. Nunca tinha escutado sobre arrepio de ossos.

 

Mas existe. Vai ver não prestei atenção.

 

Mas estava na hora de por um fim. Resignada – vim feliz para casa. A cada pensamento – em pouco tempo já estarei aquecida - vinha um contraponto. A porta abria. E o frio entrava direto para me cumprimentar. Ou aos meus espirros. Enfim. Para evitar mais os tais contrapontos – parei de pensar. Pensando ou não – estaria em casa logo.

 

E assim aconteceu. Não sem tomar a minha dose correta de chuva.

 

Com a gripe fazendo um percurso nada sorrateiro – decidi por um chá quente. Um daqueles maravilhosos concentrados de chá verde. Um presente para um dia de transtorno. E completei com um banho fervente.

 

Água. Devo ter algum problema grave com água. E sobre isso nunca a minha avó falou. Lembrei do dia da banheira. Hoje foi o dia do chuveiro.

Até quis pesquisar. Quem inventou o chuveiro. Um gênio. Aquela água quente a descer pelo corpo - maravilhoso. Fiquei um pouco mais. Sai. Do Box.

 

Pisei. Na água. De novo – pensei.  Acho que já vivi isto antes. Não dá para rir no Teatro da Repetição.

 

Todo o banheiro estava inundado. A água saiu do chuveiro e aceitou o ralinho interno. Mas vai lá saber por que - desdenhou o ralo externo. E - farta de si mesma - transbordou.

 

Vi que nadava um desavisado fiozinho de cabelo. Um desgarrado. Merecido pensei. Alguém tinha que ser punido. Melhor punir o tal fio desgarrado. Quem mandou cair.

 

De repente - me preocupei. Estava eu ali espirrando e em meio a uma enchente doméstica – a brigar com um fiozinho de cabelo. E com o dedo em riste.

 

Dei ordem de calma. A mim mesma. E me obedeci. Desde o dia da banheira nasceu um aprendizado. O pescoço é giratório. Foi um presente anatômico divino. Pode-se sempre olhar em outra direção.

 

Foi o que fiz. Deixei fiozinho, tapetes e sandálias à própria sorte. Não sou Comandante. Ou Almirante. Posso – com tranqüilidade - ser a primeira a abandonar o navio.

 

E assim fiz. E me deitei. Optei por prestigiar meus espirros. Estes sim – não me deixaram nem um segundo.

 

Melhor dormir. E ceder ao Teatro do Onírico.

 

Amanhã tem mais.

 

 

publicado por Lêda Rezende às 14:50

Julho 29 2009

 

O primeiro pensamento foi o habitual. Corriqueiro. Não acredito que isto está acontecendo. Até esboçou um sorriso. Mas no pensamento.

 

Sim. Rir de expressão facial seria arriscado. Todos que estavam ali dentro não tinham a menor intenção de rir. Ou de ver alguém a rir. A coisa parecia séria. As pessoas em volta pareciam assustadas. Somando tudo isso chegou a uma outra banal conclusão. Deve haver um risco.

 

Ajeitou-se melhor na cadeira. Buscou um mínimo de conforto. Nem que fosse pura fantasia. Conforto era objeto inexistente. Naquele lugar e naquela situação. Mas enfim. Buscou fingir que se aconchegava. E se aconchegou a si mesma. Não sem antes tomar uma atitude. Considerava-se uma pessoa de atitude. Agora era o momento de se provar isso.

 

Controlou o riso mais uma vez. Até se desentendeu. Devia ser alguma nova patologia. Porque ninguém em saudável raciocínio teria vontade de rir. Ali. Aquela hora. E com aquela temeridade. Mas permitiu a vontade. E proibiu a exposição da tal vontade. Se persistisse – prometeu. Buscaria uma ajuda profissional. Medicamentosa. Até cirúrgica. Mas alguma cura teria que ter.

 

Já que a esta altura já se sentia com a doença instalada.

 

Resolvido isso – mudou de texto. Abriu o ladinho da bolsa. Acrescentou aos pensamentos o objeto auditivo egóico. Seu tenor preferido a privilegiava com suas árias preferidas. Nem ousou pensar a palavra - perfeito. Ai já não seria uma patologia susceptível de cura.  Ai já seria buscar a ira do Universo. E isso já seria demais. Até para ela. Censurou na primeira letra da palavra. E ficou ali a escutar. A voz. A música. O coro. O relato dramático em decibéis corretos.

 

Por um segundo veio uma palavra nova. Legado.

 

Sim. Se a situação era de risco. Se a gravidade estava já denunciada e aceita. Qual seria seu legado.

 

Complicado. Aprendera algo.  O que foi dito – permanece. O que foi esquecido de ser dito – também permanece. Mesmo o sujeito oculto - continua sendo chamado de sujeito. E as pessoas complementam. Uns diriam – falei com ela hoje. Outros – faz tempo que não falo com ela. Mais alguns – passou o dia todo trabalhando. Mais outros - ela reclamava tanto do horário. De uns - condescendência. De outros - informações. De mais outros - considerações. As pessoas acabam por preencher com frases – as faltas materializadas.

 

Mudou novamente de texto. Porque lembrou deles. Sem comentários. Já que não podia rir – também não iria chorar. Deu - a si mesma - um titulo. Extremista. Fez até um discreto sim com a cabeça. Ninguém notou.  

 

Um senhor mais alto – de pé – informou. Foi um problema com o da frente. Algo que ver com os trilhos. A chuva está muito forte. Acho que vamos todos ter sair. E caminhar por aquela minúscula trilhazinha. Bem coladinha no paredão. Para subirmos.

 

Concluiu. Eu não. Não vou. Tenho horror de caminhar em lugar apertado.

 

E ele sempre diz que sou malcriada. Junto os dois e daqui não saio.

 

Aumentou o som. O tenor se espalhou. Melhor escutar aquela ópera. Que a outra que estava se construindo.

 

Ia fechar os olhos quando ela veio falando. Gesticulava alto. Queria organizar um motim. Sobre os trilhos. Dar queixa. E naquela situação. Não deu para segurar. Riu. A cena ficou patética. Amotinados no subterrâneo e sobre trilhos molhados. Nem aquele francês pensou nisso. E olha que ele adorava um fosso. Devia ter nascido aqui e agora. Ia se espalhar mais que o tenor nos  ouvidos dela.

 

Foi interrompida por outro. Com ar de sábio - levantou. Ergueu a mão. E a voz. Deu até um pigarrinho antes de falar. Pediu calma. Avisou. Excitação gasta oxigênio. Uma senhorinha sentadinha – até então alheia a tudo - levantou o queixo. O olhar. Em direção a ele. E balançou a cabeça – como se a frase lhe lembrasse algo já passado. O olhar pareceu mais distante que a saída.

 

Nova interrupção. Um gritinho fino informou. Subitamente. Matei. Matei. Passei agora para uma segunda fase. Todos se viraram. Tudo era sinal de perigo. Identificado o matador – todos voltaram a sua posição anterior. E ele feliz – acionava rápido com seus dedinhos as teclas do joguinho. E ria a cada possível mudança de fase.   

 

O frio foi cedendo espaço. Ao calor. E a maioria retirava casacos. Capas. Lenços. Uma semi nudez sem objetivo. Apenas o ato pelo ato. Como se bastasse um suar – para todos se despirem. Fez lembrar o mestre austríaco.

 

Veio uma suave voz - saindo por um tubinho com tela. Informou. Estamos re-iniciando o trajeto. Pedimos desculpas pelo transtorno. As chuvas causaram problemas. Mas já estamos com a situação sob controle. E avisou a próxima parada.

 

Ele começou a vestir o casaco e comentou. Com a absoluta segurança dos pessimistas. Lá em cima está bem pior do que aqui embaixo. Hoje ninguém volta para casa.

 

 

Impossível resistir. Ela riu. Alto. 

 


Julho 03 2009

Assim as cenas se fizeram. E se desfizeram.No meio da tarde. De um dia calmo. Quente. Rotineiramente útil. Formalmente inútil. Subserviente.

 

Assim pensaram.

 

Por um momento a escuta.

 

Ela aparentava ter dez anos de idade. Os demais entre seis a nove anos. Deveriam ser ao todo nove. Ela foi avisando. Vai ter que calar. Obedecer. Não tem ninguém aqui para lhe defender.

 

Ele parecia ter menos de oito anos de idade. A frase não foi pior do que o olhar dele. Solitário. Assustado. Mas capturador. Dividiam uma certa quantia. Saldo de pára-brisas e flanelas.

 

Quando o nível emocional sobe – o racional vem em auxílio. Só o contrário é que nunca acontece. Esta é uma das poucas certezas que se acumula com o tempo. Racional em excesso produz excesso de racional.

 

Parecia uma pessoa - dois olhares. O mesmo olhar assustado se transformou. Rápido. Olhou sério. Frio. Para o outro que estava ao lado. E foi completando. Se cuida você também. Quando ela sair - eu que vou comandar. E a voz era rouca. Muito rouca.

 

E assim os olhares continuavam. Trocando de assustado em assustador. Como um efeito progressivo. Ou uma contaminação progressiva.

 

No momento seguinte a correria.

 

A chuva veio súbita. Forte. Impetuosa. Sumiram os olhares. Os comandos. A voz rouca. As idades se dispersaram.

 

O temporal veio como um deus feroz. Arrancou proteção individual. Mostrou o avesso do esperado. Não havia cobertura eficaz.  Nem coletiva. Nem social. As águas tomaram conta das calçadas. Das ruas. Das casas. Até dos elevadores. Invadiu onde pode. Alcançou onde não se acreditava. As luzes apagaram. A sinalização se foi.

 

No inicio não havia movimentos.  Além da chuva. Do vento.  Parecia mágica. Pontos de venda de emergência surgiram. Muitos. E muitos tentando comprar uma garantia. Bolsas e carteiras expondo com rapidez a possibilidade da solução. Como o teatro do Absurdo.

 

Logo depois a dança.

 

Objetos voando. As mãos. Muitas mãos. Como um ballet de mãos para o alto. Mais para o alto. Uns erguiam os braços. Outros mais afoitos pulavam. Tentavam trazer de volta o que virava para o lado errado. Ou que partia para um destino ignorado.

 

Uma dança quase filosófica – não fosse a explícita realidade dos fatos.

 

A chuva - impedia a visão direcionada.

O vento – impunha as desordens com frivolidade.

Os raios - pichavam impunemente o céu.

As mãos - dançavam soltas sem regência.

Os objetos - voavam experimentando a liberdade de expressão.  

As sirenes - cumpriam a sua função de cuidado.

As luzes vermelhas - tentavam cortar caminhos sem solução. 

As portas - fechavam com rapidez.

 

O espaço sumiu. Desapareceu por um tempo. Submergiu. Não havia mais limites. Nem degraus. Aqui eu piso. Ali você passa. Era tudo uma falta só. Não sei onde piso. Você não sabe onde passa.

 

Os corpos se fizeram marcados. Pela água. Pela roupa deslocada. Sem pudor. Sem escolha.

 

Por fim um retorno ao primitivo.

 

Sob uma marquise muitos em busca do abrigo. Empurrando. Disputando. Trocando olhares frios.

 

Já que ali não tinha quem defendesse. Só restava impor. Foi o que pareceu.

 

Cada um ao seu modo. Salvaguardando o que mais interessava. Naquele momento a própria segurança.

 

Mais profundamente – a própria existência. Igual à partilha. Foi o que pareceu.

 

 


Junho 15 2009

A mocinha do boletim meteorológico parecia feliz. Avisava que os dias seriam lindos-dias-de-sol-de-verão. Acabou de informar e confirmar. E se despediu. Feliz quatro dias de feriados a todos.

 

Ela já foi logo se incluindo.

 

Tanto tempo sem sentir o sol na pele. Ou chovia. Ou ela trabalhava. Não havia sincronicidade. Do querer com o ter. Até se sentiu poeta. Poeta do sol.

 

Riu.

 

Mas agora ali estava ela. Com o sol. Sob o sol. E o restinho de óleo protetor. Avisava no rótulo. Anti-envelhecimento. Provavelmente para ambos. Para ela – para o óleo. Confiou nisso naquele momento. Aliás – naquele momento – ela era a imagem caricaturada da confiança.

 

Ele permitira. Poderia, sim, ficar lá embaixo. Tinha um espaço disponível. Não tinha cobertura – mas a mocinha do boletim meteorológico informou que não choveria. Combinado. Ele ficaria lá então.

 

E o terraço se transformou. Só dela. Viva o doce sabor do egoísmo. E ainda tem gente que discursa contra. Nem pensar. Achou que até escapou um obá.

 

Quatro dias de folga. Plenos. De sol. De céu. De dolce far niente.

 

Esparramada. Pensou esta palavra letra por letra. Assim ficou na espreguiçadeira. Palavras perfeitas. Ambas.

 

Levantava. Caminhava. Sentava. Deitava. De vez em quando recordava a adolescência. E conferia as diferenças de marcas entre o exposto e o oculto.

 

Na água estava a cadeira. Inflável. Quase uma chaise longue. Já estava até sofisticando os pensamentos. Riu de novo. Mas lá estava. Balançando com absoluta serenidade sobre a água. Quem inventou o inflável entendia de prazer. Seja qual for o viés. Cada um com seu pedido. Ou com sua idealização. Mas quem inventou sabia. Inflável. E ela inflada. De pueril alegria.

 

E nem precisava dizer aquelas três palavras. Saia – Fora - Não. Pensou até que elas tinham saído do dicionário. Riu de novo. Estava mais que poeta. Já estava também filósofa. Viva o ócio. Sempre dizia e repetia. Só falta agora o ócio aceitar o convite. E ir morar para sempre a lado dela. Como feliz e inspiradora companhia.

 

Abriu as portas. Todas. Do quarto via o mundo. Os prédios. O céu. A luz entrava sem formalidade. Já com a intimidade de quem sabe. O tamanho da permissão. E ainda sem as três palavras. Aquelas que nem vale repetir.

 

Não é porque não as pronuncia que vai ficar lembrando. Não teria sentido. Sentido. Outra palavra perfeita. Falta em sentido tudo o que sobra em sentido. E por ai vai.

 

Um chá. Já estava na jarra. Em cima da mesinha. Geladinho. Por sobre uma toalha branquinha. Feita de uma fibra especial - a toalha. Presente que recebera de lá. Onde tudo é aproveitado, apreciado e vendido. Naquele mercado. Um modelo.

 

Com a porta aberta do quarto o som se fez intenso. Colocou as músicas preferidas. Alternando. Entre ritmos e tons. Entre líricos e populares. Os ouvidos também merecem uma festa. Não é festa só de olhos. Ou só de pele. Ou só de economia de palavras. Se não se toma um certo cuidado - a imaginação pode acabar ficando deficiente.

 

Há algum tempo começou a entender as mil artimanhas do prazer. Tudo que tem que ser igualmente satisfeito. Vai ver por isso prazer é sempre da ordem do difícil. Ou do impossível. Nisso as queixas sempre vencem. Qualquer queixa, por mais tola que seja – convence. Queixa já é da ordem do perfeito. Do completo. Nem bem formulada – já incorporada. Tão diferente do prazer. Este nem bem formulado – já inacabado.

 

De repente o vento mudou. A cor do céu também. Viu um traço luminoso ao longe. Um risco. Seguido de outro. E mais outro. O que poderia – talvez - ser chamado de uma nuvem se aproximava. Era uma formação escura. Densa. Decidida. Pareceu estacionar. No exato espaço sobre a espreguiçadeira. Sobre a cadeira inflável. As toalhas, subitamente desarvoradas, dançavam sem rumo e sem ritmo. Assim. De repente.

 

Queria saber como encontrar aquela mocinha. A do boletim meteorológico. A que descreveu os dias de feriado. Como uma tela. De impressionista.

 

Mudou rápido o pensamento. Onde ele estava não tinha cobertura.

 

Correu. Fechou a espreguiçadeira. Esvaziou a cadeira inflável. Recolheu as mesinhas. Cobriu as marcas da diferença. Deu adeus à recriada adolescência - tão rápido quanto à verdadeira.

 

Ele subiu. Olhou para o terraço. Marcou imediatamente o espaço. Deitou no meio dele. Desconsiderou a chuva. A cobertura.

 

Lembrou de um desenho animado. Havia um deles. Sorria por entre os dentes a cada batalha travada e vencida com algum humano. Teve a impressão que ele fizera o mesmo. Tinha certeza de que escutara um riso fino. Seguido daquelas três palavras. E dirigidas a ela. A ela.

 

Fechou as portas. A chuva continuava. Os tracinhos luminosos ainda riscavam o céu acinzentado. Ele ainda deitado no terraço. As cadeiras amontoadas na salinha. O chá descuidado sobre a escrivaninha. Num cantinho, murcha, se acomodava a ex-sofisticada chaise longue.

 

Relembrou. As “erínicas” três palavras. Mas não as verbalizou. Em nenhuma direção.

 

Silenciosa, ligou a televisão. Alguém oferecia um novo tipo de desodorante. A uma mocinha que precisava não suar no calor.

 

 

Riu. De impressionista a realista foi um pulo quase tão rápido quanto aquela demonstração de verão.

 

Perdoou - a mocinha relatora do boletim meteorológico.   

 

 


Maio 25 2009

Ele telefonou cedo.  E já foi mais informando que perguntando. Se eu estava lembrada. Da data. Fazia já um ano. Naquele exato dia. Um ano. Até ri.

 

Agora podia rir também com a pergunta. Como poderia esquecer. E avisei.

Já deixei uma mensagem para você. Mais cedo ainda que sua ligação. Riu. Se sentiu prestigiado.

 

Todos nós lembramos. A notícia e o ato. Os detalhes. A dor. A angústia. A esperança. A dúvida. A certeza. O tempo. As horas. Tantas horas. Muitas horas. O dia todo. Nunca ninguém poderia estar preparado. Para tanta espera. Diante de uma porta. Esperando a porta se abrir. Esperando uma noticia. Esperando um alento. Esperando um som. Uma frase. Sim. Hoje sabemos. A espera era mesmo por uma frase. Uma frase curta. Objetiva.  O alivio. Apenas isso. Acabou. Tudo bem. Estas palavras.

 

Durou um dia inteiro para serem escutadas. Um dia inteiro de espera. E enfim a porta abriu. Já noite. E a frase veio. Como desejada. Ou ainda melhor. Uma frase curta. Objetiva. Mas veio com muitos risos. Foi dita assim. Acabou. Tudo bem. Entre risos. E todos nós choramos. Diante da frase acompanhada dos risos. Afinal – e no final – as lágrimas expõem também a alegria. É uma das muitas formas da alma sorrir. Imprevisível. Independente. Subversiva. Mas eficaz.  

 

Sim. Um ano.

 

Ele teve a idéia. Achou indicado. Fazer uma extravagância. Uma comemoração fora de hábito. Assim falou. Vamos todos fazer uma extravagância.

 

Ele podia pedir tudo.

 

Nunca pensei desta forma sobre os pedidos. Eles existem para também validar a existência. Assim. De forma redundante. A existência - por si só - já é redundante. Vive-se porque vive-se. 

 

O convite se espalhou entre nós. O da tal extravagância. Logo depois das atividades. Da rotina do trabalho. Vamos todos jantar diante do mar. Escutando as ondas. Quem sabe até dando uma passadinha com os pés na areia. Tocando uma espuminha aqui. Outra ali. Com delicadeza. Adivinhando a praia na noite. Um jantar especial. 

 

Descemos a serra.

 

Chuva entende muito pouco de existência. E principalmente de pedido. Isso tudo ela desconsidera. Pois assim foi. A chuva fortalecida desceu a serra junto. Fiel companheira. Não saiu de perto. Fosse um boletim meteorológico diria que a visibilidade era nula. Porque era. Só aquela cortina de água. Mas se tem que ser – que seja. Não houve desistências. Houve até quem sugerisse seguir uma plaquinha escrita – retorno. Indignação geral. Tímida e arrependida até emendou para - contorno. E todos riram. Houve piadinhas.

 

Se não chegarmos até o mar – ele por certo chegará até nós. Não faltou humor. Bom humor.

 

A chegada foi bela. A chuva se retirou aos poucos. Acalmou a si própria e a todos nós. E parou. O restaurante escolhido ficava quase mar adentro. Num píer. Piso de madeira. Vidros em volta. Lindo. Abrimos os vidros perto da nossa mesa. O vento entrou. O cheiro salgado invadiu o salão. Brincou com nossos cabelos.

 

Em torno da praia - as luzes das casas. Como um colar no mar. E aquele murmúrio. De ondinhas quebrando. Tudo costurado como uma colcha delicada de retalhos. Coloridos pela lembrança de cada um. Cada um por seu viés. Por sua memória. Por sua seleção.

 

Ali estávamos. Manufaturando o nosso feriado. Artesanalmente. Em meio à chuva da ida e – depois - à neblina na volta. No semi-escuro da serra.

Escutando a música de nossas vozes. De nossos risos.  Sem seqüelas. Sem temores. Dando o assunto passado por encerrado. E uma comemoração presente e futura por iniciada. A história não precisou ser re-escrita de forma cruel. Manteve a sua escrita certa. Nas linhas certas. Com o título certo.

 

Acredito que esta seja a magia da Vida. A ambigüidade do tempo que passa. A duplicidade entre o que se leva e o que se trás. O pertinente entre o que se lembra e o que se esquece. O factual entre o que se marca e o que se apaga.

 

Há ainda o mistério entre o que se escreve e o que se traduz. Um brinde. Dia dois de fevereiro. Uma festa lá no mar. Uma festa diante do mar.

 

 


Maio 01 2009

Minha avó avisava sempre. As cores da Vida estão na rotina, menina, estão na rotina. Esta frase veio de repente. Na minha lembrança. É verdade.  Acho que a rotina começa quando se abre a porta da própria casa. Num retorno. Numa volta. Sente-se o que foi construído para ser rotineiro. Neste instante. Sente-se na pele. Nas vísceras. Nas batidas do coração. Até na pouca voz. Ou nos excessos dela. Da voz. Pode parecer que significa nada. Mas significa o rumo. O norte. O posicionamento. Diante de tudo. Até da Vida. Mas bem que podia ser sem exagero.

 

Chave na porta. Antes de entrar - todos morenos. O sol fizera sua marca. E algumas até já estavam se desmanchando. Mas denunciavam. O clima. As roupas usadas. A frequência. Tudo isso marcado pelo sol. Como tatuagem.

 

Pode-se fazer toda uma leitura a partir daí.  Efêmera, talvez. Pois nunca se sabe que marcas o sol faz.  Mas uma coisa é certa. Ele nunca deixa de fazer. Não dever ser à toa que o chamam com nome e título de nobreza.  

 

Foi mais ou menos assim. Teve um pré-porta. Suave. Tranqüilo. Como se até nas férias coubessem um missão cumprida.  Há todo um ritual. Na volta. O principal é procurar a chave. A chave da tal porta. Que dá acesso à rotina. Sempre um olha para o outro. E pergunta com quem está. E cada um aponta para o outro. Incrível como esse diálogo se repete. Sempre. Por toda a vida. Com quem está a chave. E ela sempre circula. Agora até ri. Mas não dá para filosofar. Ele foi logo avisando. Sábio. Ou mais que isso.

 

Vidente. Enfim. O portador da chave a encontrou. Abriu a porta. E teve o acesso permitido. À rotina.

 

Nunca vi rapidez igual. Os antes morenos bronzeados se transformaram. Ficaram cinza esverdeados. A visão foi mais forte que a força do tal portador do nome e sobrenome. Brancos. Como se dos picos das montanhas nevadas tivessem vindo. Uma nova leitura poderia ser feita. Até as marcas fugiram.

 

Havia escutado durante a ausência que lá só chovia. Escutara assim. Sem nenhuma atenção. Ou com total desatenção. O que ainda é pior. Como se nada tivesse com isso. Com a notícia. Com a informação.  Muito menos com a chuva. Estava sentindo o sol na pele. Chuva passou a ser ficção. Não uma questão. Desdenhou. Estavam longe. Passeando. Com pouca roupa e muita imaginação. Olhos atentos ao novo. Possibilitando uma nova impregnação na retina. De cores. De luzes. De morros. De montanhas. De ondas. Ouvidos capturando sotaques. Noticias locais. Locais. Separando sugestões. Às vezes cada um meio que cantarolava aquela canção antiga. Continua lindo. Em todos os meses. E riam. Se o sol nasceu para todos eles disputavam. A sua parte na herança. Com afinco. Com avidez. Assim se conduziam. Perfeito.

 

Perfeito não foi bem a primeira palavra pronunciada. No pós-porta. A chave parecia até queimar. Nas mãos. Um já querendo doar ao outro. Ou a qualquer outro. A tal chave. Os olhos paralisaram. Fez até barulhinho movê-los.

 

Era verdade. Chovera. Muito.

 

Transbordara. Repetiu esta palavra sem parar. Transbordara. Quando mudou foi o tempo do verbo. Transbordou. Ele fazia coro. Ela dizia e ele repetia. O inverso também se fez. A água afoita descera as escadas. E se instalara na sala. Nos tapetes. Atrás da porta. Quase riu porque lembrou a outra música. Bem diferente da anterior. Do continua lindo. Porém mais forte. Emocional. Coisa para tenor. E soprano. Dos pés aos pés da cama.

Dava para cantar a música toda. Cabia em tudo. Em especial no desespero.

 

Permitia até a parte do sem carinho.

 

Nem entraram. Ou melhor. Teve um mínimo lapso. De tempo. Como dizem os mais exatos. Mas entraram. Firmes. Ele fez uma piadinha. Nada como por os pés no chão. Ele referia-se ao ar. Ela entendeu como à água.

 

Conseguiram rir. Mas não de imediato. Teve um outro lapso. De tempo. Mas enfim. O momento estava mais carente de atitude do que de dialética. Malas em cima dos sofás. Sapatos fora da anatomia adequada. E vivas aos paninhos. Era já a segunda vez que celebravam. Os paninhos. Quis até descobrir quem foi o inventor deles. Dos paninhos. Repetiu com voz agora de contralto. E uma sobrancelha mais levantada. Vai ver algum adorador do sol. O mesmo, quem sabe, que lhe dera nome e título de nobreza.

Tira daqui. Põe ali. Ali não. Mais pra lá. Não, lá em cima. Agora sim. Cuidado com a escada. Nossa. Que queda. Depois se examina. Tem mesmo nada. Que não esteja molhado.  Mas já está acabando. Esta parte se vê depois. Não. Ela só virá dentro de quinze dias. Não é verdade. Comentou com voz de barítono. E as duas sobrancelhas mais levantadas. Sim. Melhor ver logo então. Já. Tão tarde. O tempo voa. Água também. Acho que somente nós não sabíamos. Agora já sabemos.

 

Viva as cores da rotina. Não fala assim dela. Certo. Está perdoado.

 

Missão cumprida. Missão. Cumprida. Sentados por cima das malas. No sofá. Agora rindo.


Com voz rouca. E sobrancelhas despencadas.



Abril 01 2009

Acordara muito cedo. Tinha mil afazeres antes de sair para a rotina profissional.

 

Com filhos pequenos muito cedo sempre já é atrasado.

 

Por mais que fosse organizada. Tinha um hábito. Planejava a vida de véspera. Escolhia a roupa. Organizava papéis. Separava documentos. Deixava a agenda já na página certa. Para o dia seguinte. Achava prático.

 

Neste dia não foi diferente. Acordou cedo. Mas algo saíra de fora da ordem.

 

Esquecera a janela aberta e a chuva molhara toda a salinha. Olhou resignada. Para o relógio primeiro. Para o chão depois. Fez um cálculo. Daria tempo. Com um pano e acessórios secou o chão. Sentiu que tomara a decisão certa e no tempo adequado. As crianças não escorregariam e na volta à noite tudo estaria em ordem. Se auto vangloriou. Sempre tomava decisões corretas. Riu. Guardou o paninho. Foi acordar as crianças.

 

A esta altura já mais apressada. O tempo não sorri para as boas ou más decisões. Fica lá. Só cuidando da função dele. As decisões correm por conta do autor. Exclusivamente.

As crianças levantaram. Duas. Duas crianças. Começaram a se arrumar. Não agiam iguais a ela. As crianças vivem o dia. Não se atentam a viver de véspera. Não antecipam o dia seguinte. Procede. E lá ficaram. Procura uma coisa dali. Outra daqui. Esquecem os dentes. Voltam. Escovam os dentes. Esquecem a torneira aberta. Voltam. Fecham a torneira. Não acham o material do dia. Procuram. Não encontram definitivamente. Solicitam ajuda. E por aí vai. E ela já olhando o relógio. Tinha uma reunião. Nem pensar em se atrasar. Imagina. Era A Pontualidade. Se alguém procurasse o significado desta palavra no dicionário -  encontraria a foto dela.

 

Tomou mais uma decisão. Já arrumada. Pensou. Imagina só. Para que tirar o liquidificador de cima do móvel. Para fazer o leite dos filhos. Que idéia. E passara anos fazendo a mesma atitude. Nada prática. Colocou o leite. O chocolate. Até bananas dentro. Exibida com sua nova idéia. E a idéia lhe fazia ganhar tempo. Tirar tudo do lugar. Bater. Recolocar. Isso já a faria perder preciosos minutos. Decidiu que acordara carregada de novas e boas decisões. Orgulhou-se de si própria.

 

Chamou as crianças. Já arrumadinhas. E ligou o liquidificador.

 

Voltou a si um tempo depois. Ficara ali. Catatônica. Olhos esbugalhados. Obviamente depois de limpá-los. Os olhos. As crianças a chamavam de volta a si. Assustados. Quase chorando.

 

Ligara o liquidificador. Sem querer, vai lá saber por que - ou o que – algo enroscara no fio. Que esticou o liquidificador ligado. Que desceu do alto do móvel. Cumprindo sua qualificação. Liquidificando. Sem a tampa e caindo. Caindo. De alto a baixo. E achocolatando tudo. E a todos. Com bananas enfeitando cabelos, roupas. Como pedacinhos decorativos. Do que não pôde ser totalmente liquidificado. Nada sobrara.Ou faltara. Nem a roupa dela. Nem o uniforme das crianças. Nem o cabelo. Os cabelos. Chão e paredes.

 

Nem todo decorador e sua sabedoria teriam conseguido aquele efeito.

 

Quando finalmente voltou a si, se é que o estado seguinte assim pode ser denominado, notou que perdera a visão de um olho. Por ele nada enxergava. Imaginou que a tampa devia ter batido em seu rosto. E com o trauma perdera a visão. Tinha lido há pouco um relato parecido. Estava tudo escuro. E frio. Com desespero informou que estava cega de um olho. Diante dos gritos das crianças. Passou a mão no rosto. Que tragédia. Justo ela. Que vivia de véspera. Que injustiça. E na passada de mão tirou dos olhos o leite com o chocolate e a banana grudada. Enxergou de volta. Estava curada. As crianças ainda choravam. Ela desatou a rir. E as crianças choraram mais alto ainda.    

 

Telefonou para o escritório. Nunca havia feito isso antes. Avisou que tivera um problema. De véspera. Que iria chegar muito atrasada. Pensaram que ela tinha sido seqüestrada. Que era um código. Um apelo. Qualquer coisa. Menos que ela se atrasasse. Isso nunca. Ela bateria até no sequestrador. Temeram. Pelo seqüestrador. Foi difícil convencê-los do fato. Mas conseguiu.

 

Quando a véspera se restabeleceu, saiu. Com as crianças.

 

Encontrou a vizinha no elevador. Que comentou. Está atrasada hoje.

 

Pensou em tudo. Cadeira elétrica. Enforcamento. Cabelos arrancados. Rosto riscado por unhas. Respondeu por entre os dentes. Coisas do liquidificador. Virou-se e saiu.

 

O salto do sapato exibia um pedacinho de banana.

 

A vizinha – se percebeu - não avisou.

 

 


Março 27 2009

E lá estavam todos. Conforme o demandado. Conforme o combinado. Para a noite festiva. Como um brinde de Martini impresso. Sem esquecer as azeitonas. Genial.

 

Quando cheguei já o vi. Sorridente. Bonito. Alegre. O vermelho da gravata em compasso com a alegria pelo encontro. Parecia cansado. Mas atento. E feliz. Para todos sorria. Um sorriso acolhedor. Além do exclusivo profissional. Competente em ambos.

 

Todos foram aos poucos se agrupando. Um temporal havia brindado o trânsito pouco antes. Mas os convidados foram chegando. Juntos. Separados. Daqui. Dali. De lá. Felizes. Todos se sentindo dentro do intitulado no convite.

 

Rimos muito. As três. Com um espaço tão maravilhoso. Uma vista panorâmica de arrepiar. E iniciamos a noite bem ali. Justamente ali. Nada elegante. Mas, repensando. Apropriado.  Sim. Sempre se pode dar mais um retoque. Um treino. Rimos por conta disso. Diante do espelho. Falando ao mesmo tempo. As três. Mas com total compreensão do falado. Individual e coletivo.

 

Nos reunimos a eles. Comidas e bebidas adequadas no lugar adequado. Mais uma vez. E os risos. Principalmente os risos. Este é o meu som preferido. Risos em burburinhos. Aqui e ali. Isso sem falar nos olhares. Estes sim. Denunciavam bem os motivos. Por todos estarem ali. Com ou sem temporal.

 

Olhar é muito mais pragmático do que riso.

 

Ele veio de lá. Foi apresentado. Se apresentou. Parecia surpreso, constrangido e disposto. Tudo ao mesmo tempo. Todos se conheciam por escrito, digamos assim. Difícil falar com a letra. Afinal, letra não tem tom de voz. Não tem sotaque. Não tem mímica. Muito menos coletividade.

 

Na letra o exercício da solidão ganha sempre o primeiro prêmio.

 

É nessas horas que entendo os escritores. Poetas. Até os Pintores. O silêncio. Mas foi nesse Lugar. Com letra maiúscula que a letra expôs sua face. Mostrando suas imagens. As emoções já haviam sido demonstradas. Naquele outro mundo paralelo onde todos nós acabamos por nos identificar. Simbolicamente. Esta noite foi diferente. Foi a noite do corporalmente. Inclusive corporativamente. Procede.

 

Depois das apresentações já fui logo agradecendo. Pelo Lugar que me deu. Pelos Campos.  Nos dois mundos. E informo. Surgiu uma nova malinha. A de sorrisos. Lembrei da minha avó. Sempre me ensinou. Os sorrisos vão e voltam, menina, vão e voltam.  

 

Todos se apresentaram a ele se reportando às citações anônimas. Onde cada um estava num escrito. Desconheço apresentação mais verdadeira. Cada um se expondo e se impondo. Via um texto. Seu Lugar no texto. Eles também. Ele ainda ajudando com a bolsa.

 

De repente ele mesmo, o meu querido e gentil amigo da bolsa, resolve me dar mais notícias. Sobre novos lançamentos. Não achou suficiente o susto do escritor lusitano. Agora mais esse. O fato limitante. Dos pobres mortais nos quais me incluo. Como se não bastasse cada vez que visito os escritos dele.

 

Sempre me sinto na Idade Média. Na velha e boa Idade Média que tanto quis ter vivido. Ele faz isso com malvada sabedoria. Ver as fotos e ler o texto que ele escreve já me coloca no túnel do tempo. Seriam aqueles lá carros. Ou seria este objeto que fica em minha garagem. Difícil. Só não vou dizer que esta é uma das outras linhas difíceis de demarcação porque esta não é. A linha é bancariamente visível. E a Ilha é bem conhecida.

 

Depois outro susto. Então era ela. A autora de tantos testes. Do alto da sua delicadeza se revelou. Muito riso. A bolsa quase caiu do ombro dele. com o pulo que eu dei. E naquele mesmo espaço que eu também circulava. Com escritos técnicos. De sim e de não. Ela com o “se” e eu com os “sim e não”. 

 

Vai ver foi por isso. Nunca soubemos uma da outra. E circulávamos com nossas letrinhas com tanta tranqüilidade. Numa exposição de idéias e de “se”. Não esqueço os testes dos “se”. Se você é ciumenta. Se você é ansiosa. Se você é tímida. Se você tem baixa auto-estima. Nem lembro mais. Lembro que tentei responder alguns. Eu era tantos “se” positivos que desisti.  Me vi sem cura. E até bendizendo a psicóloga do passado. Como ele me disse dia desses. Mesmo sendo tão jovem. Já tem tanta sabedoria. Não é que as pessoas não mudam. As pessoas não aprendem. Ele está certo. Melhor ler sobre os novos automodelitos!  E acreditar que essa coisa de teste pode ser maravilhosa. Para uns. A mim nunca beneficia. Rimos com a descoberta.

 

Notei que uma das participantes do Lugar estava sozinha. Sem jeito. Tensa. Imaginei o quanto é complicado estar num lugar e não estar ao mesmo tempo. Sim. Porque percebi que ela só queria fugir. Mas tinha que ficar. Igual letra de samba canção. Um lenço vermelho no pescoço parecia uma corda.

 

Por onde de vez em quando ela repetia o mesmo gesto. Esticava. Acho que vou aconselhar aos menos avisados. Em situações de desconforto. Deixem os lenços em casa. Já que têm que levar os pescoços. Ri. Mas fui até ela.

 

Convidei para se integrar. Agradeceu. Percebi que sentiu uma pontinha de alívio. Um amparo. Não é possível. Inacreditável. Ela. A mocinha do lenço vermelho. A responsável oculta pelo espaço dos testes do “se” e dos escritos técnicos. Conclusão quase copiando o paradoxo do grego. Todos os mundos são pequenos.

 

E assim foi a noite. Do Martini digitalizado à possibilidade real de risos, sustos e surpresas. Acho que na dose igual. Com o passar das horas foi se esvaziando. Cada um buscando seu norte. Solidários. Isolados.

 

Ele me abraçou. Falou em tom suave para mim. Disse que estava muito feliz. Pela noite. Por mim. Pelas conquistas. Em terrenos tão desconhecidos. Pela coragem na exposição. Foi o que falou. E repetiu.

 

Quando saímos, ofereceu-se para levá-lo até o local indicado. Ele que viera de tão longe. Chovia e estava frio. Viajaria no dia seguinte. De volta para lá.

Acredito que teve algum excesso de bagagem. Uma de mão. As imagens de cada um. As outras três mais pesadas deve ter despachado. Uma de exclamações. Outra de sorrisos. E a maior de todas. Esta sim. Pagou caro pelo excesso. Da amizade conquistada.

 

Mas acho que vale! Tomara que ele concorde! Com este excesso! 

 


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