Blog de Lêda Rezende

Dezembro 31 2009

 

Nunca saíra daquela pequena cidade.

 

Nascera e se tornara adulta no mesmo bairro. Toda a vida circulara diante dos mesmos códigos.

 

O bairro onde nascera portava uma simbologia. Vinha de um tempo de escravos. Mas se chamava Liberdade. Havia música pelas esquinas. Havia danças. Rituais ecléticos preenchiam de esperanças os corações. A comida era vendida nas ruas – o que dava um cheiro peculiar.

 

Tudo funcionava como se fora um universo particular. Girando não sei se dentro ou fora – do universo social.

 

Ali fora alfabetizada. Orientada. Vinha de um núcleo familiar pequeno. Apenas mais uma irmã. Cedo conheceu o parceiro. Cedo casou. Mudaram-se com os poucos pertences e presentes para uma casa pequena. Próxima da família de ambos. E lá ficaram por toda a vida.

 

Um dia avisou. De um ímpeto só. Escolhera mais um outro futuro. Trabalharia na área da saúde. O marido se surpreendeu. Desde quando. Por que. Para que.  Melhor ficar a fazer o que tem em casa.

 

As perguntas foram muitas. As insinuações mais ainda. Desconsiderou uma por uma. Continuou apenas informando a composição da decisão.

 

Vai lá saber o que despertou nela. Nunca soube ao certo a causa. Mas lidou muito bem com as consequências.

 

Estudou com dificuldade. Precisava trabalhar para completar o curso. Precisava de livros. De roupas brancas. De material próprio. Mas na mesma proporção das dificuldades – encontrou soluções. Não tinha a quem solicitar. Se é assim – concluiu – solicito a mim mesma.  

 

Trabalhou. Noite e dia. Intercalando livros com cuidados da casa e do filho recém nascido. Amamentou com ele no colo e o livro na mesinha ao lado. Assim estudava. Lavou e passou roupa recitando nomes e técnicas de procedimentos.  

 

Decorou pequenas fórmulas. Revisou contas.  

 

Enfim concluiu o curso. Fez um concurso. Público. Aprovada- entrou para o seu primeiro emprego. Feliz. Conseguira.

 

E lá está há quarenta anos. Quarenta anos. Neste mesmo emprego. Sem faltas. Sem atrasos. Sem queixas. Muitos entraram e saíram. Muitos chefiaram. Muitos outros desistiram. Mas ela continuou.

 

Decisão é parceira da existência. Uma vez conquistada – para sempre priorizada.    

 

O filho cresceu. O marido mais apressado - se foi numa noite depois de algum sofrimento. Cuidou dele até o final. Chorou. E foi guardando as lembranças nas dobras do lencinho.  

 

Assim poderia ser contada a vida dela. Desse jeito linear. Mas nem sempre a vida entende que pode assim ser vivida. E surge uma contramão aqui ou ali. Um desvio.

 

De tanto cuidar – descuidou de si mesma. E o corpo não perdoa descuidos. Cobra. Aponta. Expõe.

 

Fez a cirurgia. Chorou quando lembrou o tempo que amamentava. Chorou pelo passado. Pelo presente. E pelas perdas. E duvidou – pela primeira vez - do futuro. E talvez pela primeira vez na vida toda – reclamou. Desaprovou.

Mas sabia fazer rimas. E continuou. Lutou.  

 

E durante essa poesia que inventou – surgiu uma oportunidade. Única. E para ela. Que nunca de lá saíra. Que nunca atravessara outros mares. Nem terras. Nem sotaques. Para ela o Mundo era muito maior que um globo. Ou um planeta. Era de uma imensidão que assustava. E quando pensava assim – segurava o portão da casa com força.

 

Mas recebeu um convite. Talvez até uma ordem. Vou mandar lhe buscar. Você ficará um mês aqui. Com todos nós. Desde que saímos daí sonhamos com esse dia.  Agora o dia chegou. Vai passear pela cidade. Vai descansar. Vai conhecer onde moramos. Vai escutar outros sons. Virá de avião. Nada de estrada.

 

Eis uma imagem inesquecível. Ela sozinha. Com uma roupa branca. Um casaquinho bege sobre os ombros. Uma pequena valise nas mãos. Um sorriso tão feliz que – incontido - saiu dela e iluminou todo o saguão.

 

Veio. Abraçou um por um que a aguardava. Escaparam lagriminhas emocionadas. E falou. Então é assim. Então estou aqui. E só demoraram duas horas e vinte minutos. Pensei que fosse tão longe.  

 

E o mês se fez alegre. Trocou de Liberdade. E celebrou também a nova. Fez-se de econômica a consumidora. De curiosa a integrada.

 

E como na Vida não existe Matemática nem lógica – quando retornou – repetiu os exames. Estava curada. Já não temia. Aprendera sobre distâncias e espaços. Sobre limites e infinitos.

 

E nunca mais segurou - assustada - o portão da casa com força.

 


 


Dezembro 21 2009

 

 

E lá estávamos a caminho do mar.  

 

Eles nos levaram. Também iriam para uma outra viagem. Seria a chance de desejar - mais uma vez - mais felicidades. Para o Novo que ia começar.   


Últimos atos – corretos. Horário - correto. Local – correto. Documentos – correto. Todos os corretos em ordem correta de aprovação.

 

Feito a parte protocolar. Com toda a calma. Direto para um cafezinho. Nada como um pouco de cafeína. Em cima da adrenalina. Rimos. Deliciosa aquela doce sensação. Do pré-embarque. Já superada a fase de preparatória. Agora já estávamos dentro. Do campo. Perfeito. 

 

Enquanto caminhava lembrei dela. Me avisou que iria para o mesmo lugar. Ver os fogos na praia. Ver a virada no mar. Sentir os grãos da areia na pele. A água espumante tocar a alma. Até imaginou se nos encontraríamos. Concluímos que seria não muito fácil.  

 

Ficaríamos em lados opostos. Da agulha da bússola. Até ri quando lembrei do chiste. Entre a mutante a a imitante. Muitas palavras se construíram.   

 

Lembrei da minha avó. Muitas vezes lembramos do que está bem perto, menina, muitas vezes lembramos do que está bem perto.  

 

Foi assim. Lembrei dela. Lembrei a minha avó. Virei e ela estava lá. Não a minha avó. Ela. Inacreditável.

 

Os mais místicos diriam – procede. Os mais incrédulos diriam – viável. Os mais tendenciosos diriam – possível. Os mais céticos diriam – invenção. Os mais alheios diriam – combinado. 

 

Não importa. Ela estava lá. Pela segunda vez. Ela sozinha. E nós ali. Como que para acolhê-la.  

 

Nos conhecemos num cenário parecido. Todos viajando. Também pelo ar. Um vôo dentro e fora de nós mesmos. Nas idéias. Pelas idéias. Na tecnologia. Da possibilidade virtual para quase impossibilidade de um real. Todos se identificando. Tímidos. Mas conscientes. Dos limites e da falta deles. Afinal há um mundo onde só idéias dominam.  

 

Em volta de um outro onde as imagens limitam. Assim foi nossa apresentação. Ela sozinha - a amiga faltara. Solitária em meio aos participantes. Não os conhecia. Juntou-se a nós. Aí começaram as surpresas. Descobrimos tantos amigos em comum. E tão queridos. Também em comum. Ele também se apresentou. Tinha vindo de longe. Também tímido. Eles dois ainda estavam juntos. Foi uma noite de solicitação.  

 

De um para outro. De todos para um. Até de um para todos. Embora nem nos déssemos conta disso na hora. Quase sempre é assim. Primeiro solicitamos. Depois nos apresentamos. Tolice pensar que é o inverso.  

 

Agora estava ali. No cafezinho. No lugar da tal cafeína por cima da adrenalina. Quando escutou seu nome levantou a cabeça. Quando nos viu, gritou. Abriu a boca. Abriu os olhos. Rimos. Nos abraçamos. Em meio aquela multidão. Aqueles inúmeros possíveis traslados. Estávamos na mesma hora. No mesmo lugar. Indo para o mesmo destino.  

 

Ela sozinha. A amiga estava em outro local. A mesma amiga da outra vez. A que faltou. Havia um chiste. Sensação mística pode dar em consulta. Com o psiquiatra. Rimos. Lembramos da consulta. Deveria ser agendada. O mais rápido possível. Rimos mais. De repente, a pergunta básica. Um pouco temerosa. Pela resposta. E a resposta veio certa. Certeira, como diriam de onde ele veio. Os mesmos números. Sequenciais. De assento. Vizinhos de assento. Quase ligamos para o psiquiatra ali mesmo. De imediato. Consulta de emergência. Antes da virada. Sem fogos. Sem ondas. Nada de alma resfriada. Rimos.   

 

Ela tranquila - questionava. Ele solidário - registrava. Eu atenta - aguardava. E nós todos  compreendemos. Assim são os permeios da vida. Lá um dia nos vemos diante de uma nova situação. De uma nova coincidência. Que não sabemos os motivos. Mas entendemos a  mensagem.  

 

E essa é a magia da vida. A magia que rege o Universo.   

 

Conversamos durante a travessia. Pela primeira vez todos nós falamos. De nós mesmos. De nossas histórias. Uma sinopse. De nossas vidas pessoais. Mas nem por isso menos particularizada. Das necessidades de mudanças. Das certezas dos pedidos. Da torcida pelo atendimento. Ela enfática. Iria fazer uma lista. De tudo que planejava. E ia seguir. À risca. Com ou sem risco. Rimos mais uma vez. Só não perguntei se tinha lembrado. Da tal agendinha. E do lápis.  

 

O tempo cumpriu seu prazo. Sentimos a terra firme. Seguimos as  nossas bússolas.  

Ou – vai lá saber - as nossas bússolas nos seguiram.

 


Novembro 15 2009

 

Nem acreditava.

 

Tantos anos sem praticar a  impulsividade. Teve um tempo que era atleta nessa modalidade. Ao menos assim considerava. Estilo medalha de ouro. Por certo não perderia uma maratona – caso houvesse uma. Ou restasse concorrentes.

 

Houve um tempo de ponderação. E nesse tempo a razão fez a regência.

 

Vai lá saber o que deu nesse dia. Uma revirada. Não diria reviravolta porque parecia não ter a tal volta. Vai ver foi um sonho cubista. Algo assim. Bem fora do habitual-recente. Provocou um momento de atenção. Um insight.

 

Quem sabe fez lembrar o tempo que escorre - por entre muros e dedos. Ou fez despertar para o meio tempo que a vida corre -  entre planos e promessas. Enfim. 

 

Nem lembrava mais do  estilo construído. E constituído. Havia esquecido esta parte. Sim. Antes era diferente. Sempre agia em comum acordo - com a  vontade. Mas já fazia tanto tempo. Nem dava para datar mais quando fora a ultima vez. Quando o impulso fora um ato realizado. 

 

Mas não importa. Nem o tempo surrealista escorre pra trás. Nem o para trás escorre no tempo realista.

 

Desta vez retomaria de onde parara. Seria - sem recuos. Melhor conceder um pouco de autoridade à ideia. Mas também não foi sem esforço.

 

A situação fez lembrar um dos conselhos da avó. E' sempre tão contraditória a manutenção das decisões, menina, é sempre tão contraditória a manutenção das decisões. Estava certa.

 

Acordar com a ideia. Decidir  como se decide um sonho. Sem a interferência do consciente. Eis um processo por si só - comprometedor. 

 

Mas ato e fato estavam destinados a uma parceria. Ao menos desta vez. Depois veria o que fazer. Caso surgisse algum tipo de impedimento. Ou de restrição. O depois deve ter sido inventado justamente para ser usado. Perfeito.

 

Conclusão definida.

 

Este o mês de aniversário dele. Desde o primeiro dia do mês fizera surpresinhas. Presentinhos. Colocados em lugares e horários especiais. Para tornar ainda mais especial a data. Todos sempre faziam piadinhas. Do quanto é bom fazer aniversario no final do mês. Mas para quem lhe conhece. Destacavam rindo. Tem muitos e muitos dias de presentinhos e pequenos mimos.

 

Enfim. Mas desta vez o desfecho será diferente. No dia exato estaremos lá. Comemorando lá.

 

Cedo telefonei para ela. Expus a direção. Ela foi logo avisando. Deixa comigo. Farei a parte braçal do plano. Desligamos rindo.

 

Não nego. Por um segundo o pensamento circulou pela cabeça. Um frio percorreu coluna vertebral. Não. Vou avisar que desisti. Que foi um acesso banal de insanidade. Temporária. Já estou curada.

 

Acho que ela lê pensamento. Mesmo à distância. Fui pegando o telefone para informar - já fui atendendo. Era ela.

 

Consegui tudo. Fica tranquila. Uma beleza de ideia. E a muito baixo custo. Perfeito. Anota o número do vôo. E imprime também o voucher do hotel. Boa viagem. Divirtam-se.

 

Sentei. Estava deflagrada a retomada da impulsividade. Que vengam los nuevos dias. Ri.  Três dias de festejos. Em terras para ele ainda desconhecidas. Uma festa diferente.

 

Mas sempre se sabe. Nada é perfeito. Aprendi rapidamente um novo axioma. Pelo menos - novo para mim. Rotina - tem este nome por que não admite surpresas. Nem perdoa impulsos. Assim. Simples.

 

Não teve opção. Agenda adiantada. Horários acrescentados. Jornada triplicada. Nada é depois. Outro axioma. Rotina entende até de antecipação. Mas nunca de adiamento. Foi um tal de acelerar e pré-estabelecer como nunca dantes imaginado.

 

E o corre daqui. Acelera dali. Retoma de lá. Aceita de cá.

 

Vencidas. A rotina. E eu.

 

E foi de repente que anunciei. Assim. Com ar de quem apenas sugere. Falei contendo o riso.

 

Este ano será estilo cumpleaños. Não. Não em casa. Será no Caminito. Quizá a Media Luz. Riu. Acho que até duvidou da própria escuta.

 

Entreguei os impressos. Riu de novo. Mas com olhos bem abertos. Adorou. Celebrou.

 

As malas já estão prontas. Como diz a canção: de tarde, té con masitas. De noche, tango y cantar.

 

 


Novembro 02 2009

 

Ele veio de lá. Feliz.

 

Fazia já alguns anos que não nos víamos. Trabalhamos juntos por muito tempo. Saíra de repente. Mal nos despedimos. Questões burocrático-egóicas. Algo por aí.

Estas são sempre as grandes questões. Sempre nascem desta dupla. Mal explicada. Mal conjugada. Ou muito mal dissociada.  Mas imperiosa.

 

Quando sobra hífen - não há o corte no momento certo. E apagam um espaço. Mais ou menos assim.

 

Minha avó nunca deixou de avisar. Muito eu é sinal de pouco meu, menina, muito eu é sinal de pouco meu.

 

Acho que só hoje entendi o que ela falava. Foi preciso anos e anos para assimilar. A linha quase transparente entre o eu e o meu. Sábia - sempre.

Mas desci. Direto para o local indicado.

Tinha uns exames a fazer. Estava entre corajosa e temerosa. Exames nunca são da ordem do conforto. Ou da diversão.

Mesmo que alguns estudiosos digam o contrário. Ou os seguidores do Marquês. Não faltam teorias. Apologias. Tratados. Mestres de todo o mundo. Austríacos. Franceses. Portugueses. Italianos.

 

O mundo girando em volta de uma dolorosa teoria. Sobre dor e alegria. Sobre sofrimento e satisfação. O homem sendo apto para a dor. Muito mais do que para prazer. Até os poetas se manifestam - sofrer por amor.

 

Nem sei quem são esses. Os estudados.  Os aptos para a dor. Eu não. Detesto dor.

Foi assim que desci. Com este pensamento tentando ocupar o outro.  O dos exames. Brigar com estudiosos de nada resolve. Mas ocupa o espaço do medo. Para isso resolve. E muito.

 

Afinal nesses tempos de tantas contínuas e perigosas mutações – exame é indício de risco. Ou de contaminação.

Não era a situação do momento. Mas não tinha escolha. Era fazer os exames.  Anuais. Rotineiros. Necessários. Procede. Obrigatórios. E pronto. E assim continuei.  Me repetindo – para me ordenar. Obedeça. E pensar que sempre fui rebelde. Nada de temer agulhas. Onde já se viu.

 

Tudo bem. Obedeci.

Foi em meio ao local do exame que o avistei. Eu entrando na sala dos exames. Ele na sala do atendimento. Em frente.

Vi que abriu os olhos. E sem metáfora. Abriu mesmo. Se surpreendeu. Veio em minha direção. Passos apressados.  Com um sorriso. Expressão de confraternização. Desconsiderou as limitações.

 

Foi logo avisando. Em pé diante de mim. Voltei.

 

Como se a materialização não fosse confiável. Apenas suposta. Respondi com um chiste. O bom filho à casa torna.

E fiquei observando.

 

Por que – voltar - se transforma em ato. Muito mais do que em fato. Precisa de desculpas. Sempre. 

 

Cada um com suas demandas. E espelhos.

 

Informou. Esta é a primeira vez. Nunca voltei de onde sai. Repetiu muitas vezes. Esta é a primeira vez. Continuou se explicando. Devia ser importante para ele. Se sentir convidado. Ou aceito. Ou vai lá saber o que.

 

Eu até ri. E falei. De onde saiu – ou para onde saiu. Desconsiderou. Fez bem. 

E continuou desconsiderando. Estes exames vão resultar todos normais. Você está ótima. Agradeci. Um lorde em termos de gentileza.

 

Vamos lá. Tomar um cafezinho. E você me conta desse longo tempo - que você continuou aqui. E eu lhe conto do meu - que fiquei tão distante daqui.

 

Ela. Convidei mas não quis voltar. Casou. Neste último verão. Está feliz. Ele. Sim. Desde que saiu também está em outra Instituição. Ele. Não está bem. Acho que precisa voltar. Ele. Também não se acertou. Quem sabe também volta. Ele. Está feliz com o novo cargo.

Falamos em poucos minutos. Mas acho que nunca falamos tanto. Soubemos dos amigos. Contamos de nós mesmos. Rimos das consequências  - e até das causas.

 

Voltamos rápido para as nossas atividades. A rotina – digamos assim - estava lotada.

 

Olhamos um para o outro. De repente. Com expressão de susto-risonho.

 

Esquecemos o cafezinho. Intacto. Em cima da mesa. Rimos.

 

Não importa. Tem café em todas as estações do ano. E em todos os horários. Até qualquer outro intervalo. Qualquer dia.

 

Foi a primeira vez que voltei de onde sai. Repetiu. E completou. Mas estou feliz por isso.

Ri. Viva a sexta-feira.

 


Outubro 17 2009

 

O almoço fora programado com antecedência.

 

Os convites distribuídos em tempo dito hábil.  As agendas adequando-se a uma quebra da rotina.

 

Assim foi durante a semana. A comemoração antecipada visava uma homenagem. Aos que lá trabalham. Cumprindo suas funções. Minimizando dores. Provocando risos. Acalmando angústias. Acolhendo aflições.

 

Sejam quais forem as incertezas. Partindo de onde partirem. Há toda uma metodologia para diminuir ou impedir sofrimentos.

 

Um almoço comemorativo. Assim ficou acertado. Em tal dia. Em tal hora.

 

O salão foi aberto pontualmente. Como deve ser. Uma disciplina é sempre requerida. Seja no festejo. Seja no cotidiano. Não importa. Disciplina também é uma das formas de expor respeito. E dispor hierarquia. Enfim. Na hora exata - abriram o salão.

 

As mesas estavam lindas. Toalhas vermelhas sobre forro branco davam um brilho de alegria. As taças avisavam cores e sabores. Os mais próximos se agrupavam em volta de lugares escolhidos. O riso e o murmurinho lembravam que nem só de pão.

 

A camerata se postava em frente. E ao suave e doce som dos acordes – foi iniciado o ato festivo. E daqui e de lá se escutavam cumprimentos e confraternizações.

 

Convidado – ele subiu para o pronunciamento.

 

Lembrei dos milhares de discursos que já escutei. Das inúmeras falsas analogias e eufemismos que sempre os discursos carregam. E das muitas e muitas delongas que tanto desconfortam.

 

Mas não desta vez.

 

Assim começou. Com citação em Latim. Primo non nocere. Primeiro não prejudicar. Primeiro não ferir. A frase atribuída ao primeiro de todos – foi repetida diante de todos nós. Seguidores no juramento e no trabalho.

 

Foi um belo discurso. Adequado ao fato. Identificado com o ato. Qual um recordatório. Mas sem demandas.

 

Fiquei pensando na frase de abertura.

 

Nos que ali estavam. Ocupando e agilizando o próprio Lugar. E nos que já se foram. Mas que de vazio deixaram apenas o espaço. A memória preenche muitas falas. Como disse o poeta. Ressuscitar começa pela palavra – do outro. E ao escutar os nomes dos que se foram – senti uma presença não da matéria. Essa já não importa. Mas do contexto. Do trabalho exercido. Sem a nítida separação de dia e noite. De casa e trabalho. De segunda ou feriado.

 

Convocados em seus nomes – deixavam a força do seu profissionalismo exposto. Perfeito.   

 

Enfim. Passeei pelos caminhos das escolhas. Olhei para ela que estava ao meu lado. Vi que – emocionada com a escuta- disfarçava uma lágrima afoita.

 

As expressões mudavam. Cada um convivendo com o próprio registro.  Com a vocação descoberta sabe-se lá como. Por isso mesmo - misteriosa. Não há resposta satisfatória para quando alguém requer uma explicação objetiva. Um porque.

 

Não se sabe exatamente a época. Não se entende perfeitamente os motivos. Vai muito além do pragmático. E de repente a decisão surge. E uma elaboração prossegue. E todo um novo equilíbrio se faz necessário. Desde a primeira aula. Desde o primeiro aviso. Desde o primeiro morto que ensina.

 

E uma vez diante de quem pede alívio – nunca mais se desprende do ato em si.  

 

Lembrei de um comentário que ele me fez. Há muitos anos. Num daqueles dias de final exaustivo de trabalho que se ameaça um – para mim chega. Ri. Ele me viu organizando um jantar. Um simples jantar.

 

Olhou para mim. E muito sério falou. Ou, melhor, fez uma observação. Com tom de voz calma. Uma vez pertencente a esta categoria – jamais se libera. Você está arrumando um jantar. Mas não apenas organizando pratos e talheres. Você está organizando como quem cuida. É isso que faz de você – a sua escolha.

 

Lembro que fiquei em silêncio. Uma espécie de siga a seta. Mas me senti acalmada. E feliz.

 

Primeiro não ferir. Primeiro não prejudicar. Seja no que for. Seja da forma que for. Mas é preciso estar em estado de - para entender. Para introjetar. E acatar. Há todo um sentimento não esclarecido. Mas nem por isso menos estabelecido.

 

Aplaudi a fala do colega que discursou – com batimentos felizes de aurículas e ventrículos. E sinceras sístoles e diástoles.

 

Voltei na hora certa para cuidar da agenda. Subi rindo as escadas. Foi uma bela comemoração.

 

 


Outubro 11 2009

 

Encerrou a fala desta forma. Com este comentário.

 

A frase ficou em destaque. Por alguns minutos. Ou horas. Vai lá saber. A palavra sempre dispõe do tempo ao seu bel prazer. Enfim.

 

É uma pena.

 

Assim disse. E nem parecia muito concentrada. Parecia em estado de ausência. Estava assim ultimamente. Como se numa nova parceria – mais efetiva. Ou quem sabe conquistada - entre ela mesma e o mundo.

 

Devia ter lá seus motivos.

 

Motivos. Esta uma palavra multi-dimensionável. Especialmente para ela. Adequa-se bem. Cabe em qualquer espaço. Justifica possíveis transtornos. Pressupõe adiáveis desconfortos. E já disponibiliza desculpas.

 

Era afável. Divertida. Solidária. Desde que a conheci. E lá se vão tantos e tantos anos. Mas tinha motivos para tudo. Do emocional ao físico. Fosse o que fosse - tinha motivos.

 

Acompanhava sempre um - de sobra. Este - de sobra - parecia mais fundamental até do que os tais motivos. Era pronunciado com mais ênfase. Como se precisasse se servir de uma acústica. Ou a acústica estaria a serviço dos excessos. Algo por ai.

 

Passava – com tranqüilidade - uma sensação. A de que motivos e sobras são de ordem impessoal. Quase relativizada. Não precisa ser determinada. Muito menos qualificada.

 

Motivos e sobras são questões tanto estéticas quanto funcionais. E sugerem um lugar mais universal do que pessoal. Nunca a escutei se referir aos tais motivos de sobra - dentro de si. Sempre eles estavam - de fora.

 

As sobras pareciam vir como paradoxais contribuições externas.

 

Mas também não era o momento para digressões teóricas. Até dera vontade de rir. O que mais sobrava eram digressões e teorias. As faltas estavam circulando por outra esfera. Não importava se mais ao alcance ou se muito além do alcance. Apenas circulando - como toda falta.

 

Mas assim falava. Assim se expressava. Relatava a situação. O motivo da ligação. Parecia um não mais acabar de queixa. Nada era tratado de forma pontual. Muito menos sugerindo uma continuidade. Sim. Parecia mais um possível excesso de ponto e vírgula.

 

Foi nesse momento que entendi a força dos motivos de sobra. Como cravados dentro de um vazio. Os motivos. E as sobras.

 

Lembrei a minha avó. Se sobra motivo é porque falta razão, menina, se sobra motivo é porque falta razão.

 

E ali fiquei. Entre a palavra e a expressão. Tentando ultrapassar a linha que cruza o ato e a fala.

 

Dizia o mestre francês que primeiro vem a palavra. Depois o ato. Tão difícil simplificar.

 

De repente me veio uma curiosidade. Talvez por que escutei um barulho reconhecido. Perguntei assim. Sem mais nem por que. Onde estava.

 

Respondeu tranqüila. Suave. Sentada naquela praia que você gosta. Sob um quiosque. Olhando o mar. O final de tarde está lindo. O inverno aqui está uma beleza. Sol, céu e mar. Nada de frio.

Por isso lhe liguei daqui. Faz bem reclamar do interno diante de um externo tão belo.

 

Tenho motivos de sobra para falar daqui. Sem me preocupar quem escuta. Ou quem interrompe. Ela sempre volta na hora exata. Parece que adivinha que preciso falar. E já chega cheia de perguntas e demandas. Lembra até aquela sua amiga. A que nunca podia conversar ao telefone. Porque os filhos a interrompiam. Você deve se lembrar disso. Sempre comentávamos. Agora pareço com ela.

 

Ela já vai entrando e avisando. Pare o que está fazendo. Desliga o telefone. Preciso lhe falar. Como se fosse uma emergência. Você sabe. Ela sempre age assim. E sem motivo algum.

 

Ri. Muito. Achei perfeito. Pensei isso enquanto fechava a porta da varanda. Para que a chuva e o frio não se transformassem em meus hóspedes.

 

Ela continuou. Depois de um fôlego só - avisou. Agora me vou. Acabou o pôr-do-sol. Está escurecendo. Vou voltar. Amanhã vai ser um dia complicado no trabalho. Se eu enlouquecer acredite – não teve jeito. Terei motivos de sobra.

 

Tem feito dias tão lindos. Se você estivesse aqui iria adorar. Mas está ai no frio. É uma pena. E rindo – se despediu.

 

E rindo – me despedi.

 

O frio aumentara. Peguei um casaco. Entrei em Estado de Força Educadora. Sim. Comportada. Recatada. Até repressora. Sem desconsiderar o valor da Força Amistosa.

 

A palavra pena não teve seu contraponto. Nem uma resposta mais diferenciada. Em linguagem talvez não tão ortodoxa – digamos assim.

 

E – pensando bem – sem motivos ou sobras.

 


Outubro 07 2009

 

O ambiente estava tranquilo.

 

Uma ou outra mesinha ocupada. As pessoas conversavam com suavidade.

A Cafeteria ficava num falso subsolo. Dentro de um local de salas de cinema. Reservada e cultural. 

 

Uma parede de vidro ficava quase ao nível da calçada da Avenida. De um lado – as mesas dispostas para refeições maiores. Do outro lado – a Cafeteria. Um clima de acolhimento percorria com delicadeza o ambiente. O cheiro de café dava um toque de serenidade.

 

Pelo vidro se via o movimento da Avenida. Intenso. Uns passavam carregando agasalhos. Outros os tinham dobrados nos braços. Outros ainda, incautos ou incrédulos, tremiam diante do desacreditado.

 

Mas uma similaridade era geral. Social. Poderia até dizer - democrática.

 

Todos caminhavam apressados. Passadas firmes - e fortes.

 

Não se viravam para a vitrine. Não encaravam as pessoas. Só se desviavam e continuavam. Olhavam para frente. Objetivos.  

 

Lembro que foi uma das primeiras observações que fiz quando me mudei. Completamente imigrante – me sentava solitária em algum Café. Em geral numa específica esquina. Sempre levava um livro. Jamais era aberto. O livro dinâmico passava e virava as páginas ora com rapidez. Ora lentamente. Mas deixando um fio de continuidade implícito.

 

Nunca se sabe o caminho de uma metáfora. Enfim.

 

Eu observava. Sentada e presente. Mesmo despercebida - como se ausente. O ir e vir. Os casais. O comportamento dos casais. O exposto dos solitários. A forma como as pessoas caminhavam nas ruas. Como se dirigiam às mesas. Como percorriam corredores. Não importava a estação do ano. Não importava a roupa ou sapatos que portassem. O pisar era o mesmo. Forte. Decidido. Como uma marcha sem banda. Mas ritmada.

 

Impossível não lembrar aquele autor.

 

Ele dizia que se conhece a cidade onde se está pelo caminhar das pessoas. O caminhar do Homem. Como uma Qualidade. Ou uma falta dela. Sim. O autor conhecia realmente as cidades. E muito mais ainda - conhecia as pessoas.

 

Mas – escolhida a mesinha - sentamos.

 

Começamos a nos decodificar. Desfolhamos as idéias. Desvinculamos os roteiros. Desentendemos as formalidades. Rimos das dificuldades.

 

Enquanto ele também não chegava – fomos quase refazendo o percurso da Vida. De cada um. E de cada par.

 

De repente começou a falar das filhas. Duas. Pequenas. Bem pequenas. Cada uma com seu estilo. Com suas pequenas birrinhas. Com suas personalidades se compondo.

 

Nunca pensara em filhos por preferências. Meninos ou meninas. Era abrangente. Queria ser pai.

 

Estava esclarecida assim a sua posição diante do mundo. E se via agora pai de duas meninas. Falou os nomes. Falou dos tons de pele. Das nuances dos diálogos. Dos momentos de reflexões. Delas. Da importância dos limites. Da complicada dosagem equilibrada de limitar os limites. Do unificar - sem desvalorizar - sabedoria e autoridade.

 

Foi aí que compreendi. O que dizia o mestre Frances. Muito mais que um pai da realidade. Só funciona o pai real.

 

Tão de repente quanto começou a falar - fez um gesto. Brusco.

Virou a cabeça numa rapidez que nunca vi igual. Podia até ter problemas no joelho – como referiu. Mas o pescoço estava em absoluta ordem. Assim.

 

Virou. De uma vez. Como que procurando.

 

Olhou para o lado - como que tocado por um chamado.

 

Não da Avenida. Ou das pessoas que passavam apressadas. Ou do pisar forte de alguém apressado. Ou muito menos atraído pelo cheiro do café delicioso. Que desfilava numa bandeja esfumaçando a salinha. Nada disso.

 

Na mesa ao lado sentava numa cadeirinha uma menina. Bem pequena.

 

Enfeitava a sonoridade do local com sua vozinha suave. Cabelinhos pretinhos. Franjinha. Vestidinha de inverno. Sorridente. Foi sentando e falando. Ele foi escutando e virando. Assim. Sincrônico. Simultâneo.

 

Resgatado - continuou de onde tinha parado.

 

Mas comentou. Discreto. Saudoso. Parecia a voz da minha filha.

 

Talvez não fosse de expor as emoções. Vai ver por isso gostava de poesias. Poesia é o Lugar certo de disfarçar. É expondo versos que melhor se ocultam as sutilezas ou as certezas. Da alma. Nisso também os poetas são sábios. Quanto mais os identificamos, mais os perdemos de vista. Procede.

 

Mas enfim. Até me desconcentrei um pouco da conversa.

 

Pensei no virar brusco. Na lembrança da voz da filha. Que estava em outra cidade.

 

Pode ser esta - também - uma das formas de definir um pai. Uma definição possível. Ou – melhor ainda - uma tradução possível.

 

Assim. Sem frases de efeito. Sem frases sem efeito. Sem alegorias na Avenida. Pela certeza do Lugar - simplesmente e assumidamente - de pai.



Setembro 26 2009

 

Fiquei pensando de que ângulo se vê melhor.

 

Ângulo é sempre da ordem da intenção. Muito mais que da extensão.

O dia tinha sido especial desde o começo.

 

Começou com um susto. Vi a luz do dia clara. Invasiva. Definindo o espaço. Sem constrangimentos. Ou meias sombras. Assim. Explicita. E eu com os olhos esbugalhados. Boca aberta. Raciocínio arrancado às pressas. Do onírico ao real em tempo recorde.

 

Esqueci de ligar o despertador.

 

Como farei agora. Assim. Perguntava a mim mesma. Aflita. E não conseguia me responder. Só fiquei ali. Apavorada – diria. Agenda lotada. E essa agora. Perdi a hora.

 

Quase perdi mesmo foi o equilíbrio. Mental. Mas tão rápido quanto - quase – perdi, recuperei.

 

Era um sábado. Um sábado. O tal sonhado sábado chegara – e eu duvidava.

 

Vai lá saber por que. Confundi os dias. Ou fiquei presa na véspera. Prisioneira do despertar anterior. Nem conseguia festejá-lo. Fiquei ali catatônica. Assustada. Querendo descer escada abaixo. E diante de um dia de folga. Da tão sonhada folga. Cinco dias a esperar este dia chegar. E este desatino. Incrível.

 

Ainda bem que as pernas foram mais sábias. Vai ver entendem melhor de calendário do que se imagina. Ou não se aceitam submissas com facilidade. Ou – melhor ainda - não saem por ai a correr desatinadas. Aceitando qualquer ordem. Primeiro aguardam. Para depois agir.

 

Algum dia - escreverei sobre isso. A apologia das pernas decididas. Mas enfim. De onde estavam – não saíram. Não se moveram. Continuaram na cama. Bem esticadinhas. Aguardando a consciência tomar um rumo adequado.

 

Deixei passar o susto. E iniciei a rotina da folga.

 

Não sem uma decisão. Já que eu desautorizei o sábado – melhor deixar que ele me autorize. E deixei o dia se organizar. Por conta própria. Lembrei do poetinha. Ele sim. Entendia de sábado como ninguém. Saravá.

 

Foi uma surpresa atrás da outra.

 

Então é assim. Nem sempre sabemos. Ou impomos. As horas podem também fazer isso por nós. Este sim. Um susto agradável

 

O lugar ele escolheu. Uma surpresa. Desceu e avisou. Convidou. Vamos até lá. Um lugar ao ar livre. Um espaço aberto. Vamos sim.

 

Lindo. Nunca antes havia estado ali. A água doce e calma. A luz mais calma ainda - se espalhava pelo espelho d´água. Era um dia de delicado sol de inverno.  A mata em volta esbanjava contraste.  Garças brincavam nas bordas. Desimpedidas de compromissos. Ágeis em sua proposta.  Bicando felizes - o almoço interminável.  

 

As mesas ficavam dispostas próximas da borda.

 

Veleiros cruzavam solenes. Motores ocasionais passavam e cortavam a água. Com barulho. Placas convidavam a passeios. Uma revoada de pássaros proprietários expunha a autoridade. Uma pontezinha de madeira avançava água adentro. Oferecia e gemia a cada passada. Mas avançava com confiança.

 

Mais uma surpresa apontava saudades. A música. Falava da tarde naquela praia. Tão longe. Mas que- de repente - pareceu tão perto. Não resisti. Entrei no pequeno restaurante e aplaudi o cantor. Sorridente – agradeceu.

 

Ficamos horas caminhando diante da água doce. Impregnados do cheiro doce da água. Invadindo a pontezinha gemente. 

 

Sentamos. Observadores cuidadosos do tempo - a seguir seu ritmo.

 

Ali. Com nossas pernas – mais uma vez – esticadinhas. Só que desta vez – ao menos as minhas - confortáveis. Em acordo com o pensar.

 

A tarde foi caindo. As garças caminhando lentas para fora da água. As luzes se acendendo. Um ventinho mais frio marcava a estação. E avisava da hora.

 

Quando saímos – olhei para trás.

 

Foi aí que fiquei pensando no tal ângulo. Em todos os possíveis ângulos. Para se conviver com os dias. Com as noites. Com os erros. Com os acertos. Com os sustos. Como se fosse sempre assim. Donos disfarçados do próprio destino.

 

Comentei com ele. Adorei. Sequenciei - obrigada. Cada vez que me perguntar onde quero ir – direi aqui. Ele riu.

 

A urbanidade também tem seus misteriosos ângulos. E as suas – doces – surpresas.

 

Pensei. A Vida sabe privilegiar os dias. Sorri. Feliz.

 

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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