Blog de Lêda Rezende

Dezembro 24 2009

 

Ela leu e comentou. Não negou. A surpresa. Leu o texto.

Ler também é uma forma de simbolizar. Uma cena. Um pensamento. Uma idéia que seja. Não importa. Importa o que  fica simbolizado. Porque disso dependem as ações. Presentes. Futuras. Para que possa ser entendido até um passado. Muitas vezes ler cria mais possibilidades do que escrever. Tudo depende da forma que se permite que venha uma simbolização. Por isso depende de cada um. Da individualidade proposta.

 

Ler é muito mais difícil que escrever.

Como dizia minha avó. Desperdice nada do que ler, menina, desperdice nada do que ler. 

 

Fez um comentário. Ri. Para o comentário. Persistiu com o chiste. Precisava do número do telefone do amigo psiquiatra. Encontros imprevistos. Pensamentos semelhantes. Histórias parecidas. Amigos circulando. Estava tudo místico demais. Muito mais do que falou o inglês sábio. Estava parecendo que havia muito mais. E muito mais mesmo. Do que a vã filosofia previa. Daí brincou. Só agendando. Queria o número.

 

Nada de virada. Queria mesmo era uma coordenada. Isso sim. Estava parecendo imprescindível. Só não perguntei se isso estava na listinha. A tal listinha que ela estava organizando. De tarefas e sonhos para serem cumpridos. Na virada. Depois da virada. 

 

E lá estava ela de frente para o mar. Num recreio. Nome de desbravamento. Igualando a si mesma. Desbravamento. Do mundo. Do entorno. Do contorno. 

 

Sempre é bom se estar atento. Ondas remexem areias. De certa forma cimentadas. Na ilusão. Na solidão. Na aparência. Agora lembrei dela. Está certa. Podem virar pó. É sempre do pó que se chega na poesia. Sábia.

 

As ondas têm poder. Ou causam efeitos. Tanto faz. Efeito é como adereço. Cada um usa como quer. Utiliza onde prefere. Nega como agrada. Vê como consegue. A olho nu ninguém enxerga. É da própria história que constrói e se des-constrói as lentes do lidar com o efeito. Seja da onda. Seja do vento. Seja da turbulência. Tudo faz parte do interno. Embora pareça tão externo.   

É preciso coragem para ver o reflexo. Como um espelho. Das ondas interiores. Bem ali. Ao alcance de uma olhadinha que seja. Uma espiadinha de leve. Mas não vejo maior motivo para festejo. Para comemoração.

 

Lembrei que contou da sua posição. Só ela. Uma menina. Eles três. Meninos.

 

Depois falou. Que expunha as emoções. Com alguma facilidade. Não sei. Mas se falou – acredito. Procede. Se não aprendesse a expor – sumiria. E me pareceu que adotou esta mesma posição - diante da vida. 

 

E se fez. Se construiu com o que aprendeu. Uma emissão de voz - plástica - delicada e firme. Um olhar que não desviava - fosse qual fosse a situação. Um caminhar reto - que denunciava decisão. Mesmo que nao soubesse para onde ir. Ninguém nunca o saberia.  Caminhava. Decidida. Olhando para a frente. Séria e firme. Aprendeu isso também. E dera muito certo. Porque trocou de lugar. De conhecimento. Para um outro lugar. Com outro tipo de conhecimento.

 

Saiu dos que não sabem dizer o que sentem. Dos que dependem do outro para falar das suas dores. Ou dos seus amores. Dos que não estão na Linguagem. E foi para o lugar onde só se diz o que se sente. Para os que lidam justamente com a Linguagem. Mesmo que não se fale das dores. Nem dos amores.


Ela que tão bem lia as entrelinhas. Agora lê os entretantos.  

 

Em meio a tudo isso sabia levar um caderninho. Um lápis. E sabia ordenar pedidos. Perfeito. Escolheu ficar escrevendo a listinha. Só com um Participante. Só Ele leria. Ao menos é a pretensão. Ou intenção. Em tempos de virada – nada é definitivo. Por isso escreve-se com lápis. 

 

Que venha a virada. Sem consulta. Com consulta. Não importa. Mas com muita força. E muita alegria. Para os que pedem. Para os que esperam. Até para os que temem.

 

Que venha a virada. Com algumas certezas e muitas dúvidas. Para que se possa continuar. Em busca. Como as ondas.

 

 


Novembro 02 2009

 

Ele veio de lá. Feliz.

 

Fazia já alguns anos que não nos víamos. Trabalhamos juntos por muito tempo. Saíra de repente. Mal nos despedimos. Questões burocrático-egóicas. Algo por aí.

Estas são sempre as grandes questões. Sempre nascem desta dupla. Mal explicada. Mal conjugada. Ou muito mal dissociada.  Mas imperiosa.

 

Quando sobra hífen - não há o corte no momento certo. E apagam um espaço. Mais ou menos assim.

 

Minha avó nunca deixou de avisar. Muito eu é sinal de pouco meu, menina, muito eu é sinal de pouco meu.

 

Acho que só hoje entendi o que ela falava. Foi preciso anos e anos para assimilar. A linha quase transparente entre o eu e o meu. Sábia - sempre.

Mas desci. Direto para o local indicado.

Tinha uns exames a fazer. Estava entre corajosa e temerosa. Exames nunca são da ordem do conforto. Ou da diversão.

Mesmo que alguns estudiosos digam o contrário. Ou os seguidores do Marquês. Não faltam teorias. Apologias. Tratados. Mestres de todo o mundo. Austríacos. Franceses. Portugueses. Italianos.

 

O mundo girando em volta de uma dolorosa teoria. Sobre dor e alegria. Sobre sofrimento e satisfação. O homem sendo apto para a dor. Muito mais do que para prazer. Até os poetas se manifestam - sofrer por amor.

 

Nem sei quem são esses. Os estudados.  Os aptos para a dor. Eu não. Detesto dor.

Foi assim que desci. Com este pensamento tentando ocupar o outro.  O dos exames. Brigar com estudiosos de nada resolve. Mas ocupa o espaço do medo. Para isso resolve. E muito.

 

Afinal nesses tempos de tantas contínuas e perigosas mutações – exame é indício de risco. Ou de contaminação.

Não era a situação do momento. Mas não tinha escolha. Era fazer os exames.  Anuais. Rotineiros. Necessários. Procede. Obrigatórios. E pronto. E assim continuei.  Me repetindo – para me ordenar. Obedeça. E pensar que sempre fui rebelde. Nada de temer agulhas. Onde já se viu.

 

Tudo bem. Obedeci.

Foi em meio ao local do exame que o avistei. Eu entrando na sala dos exames. Ele na sala do atendimento. Em frente.

Vi que abriu os olhos. E sem metáfora. Abriu mesmo. Se surpreendeu. Veio em minha direção. Passos apressados.  Com um sorriso. Expressão de confraternização. Desconsiderou as limitações.

 

Foi logo avisando. Em pé diante de mim. Voltei.

 

Como se a materialização não fosse confiável. Apenas suposta. Respondi com um chiste. O bom filho à casa torna.

E fiquei observando.

 

Por que – voltar - se transforma em ato. Muito mais do que em fato. Precisa de desculpas. Sempre. 

 

Cada um com suas demandas. E espelhos.

 

Informou. Esta é a primeira vez. Nunca voltei de onde sai. Repetiu muitas vezes. Esta é a primeira vez. Continuou se explicando. Devia ser importante para ele. Se sentir convidado. Ou aceito. Ou vai lá saber o que.

 

Eu até ri. E falei. De onde saiu – ou para onde saiu. Desconsiderou. Fez bem. 

E continuou desconsiderando. Estes exames vão resultar todos normais. Você está ótima. Agradeci. Um lorde em termos de gentileza.

 

Vamos lá. Tomar um cafezinho. E você me conta desse longo tempo - que você continuou aqui. E eu lhe conto do meu - que fiquei tão distante daqui.

 

Ela. Convidei mas não quis voltar. Casou. Neste último verão. Está feliz. Ele. Sim. Desde que saiu também está em outra Instituição. Ele. Não está bem. Acho que precisa voltar. Ele. Também não se acertou. Quem sabe também volta. Ele. Está feliz com o novo cargo.

Falamos em poucos minutos. Mas acho que nunca falamos tanto. Soubemos dos amigos. Contamos de nós mesmos. Rimos das consequências  - e até das causas.

 

Voltamos rápido para as nossas atividades. A rotina – digamos assim - estava lotada.

 

Olhamos um para o outro. De repente. Com expressão de susto-risonho.

 

Esquecemos o cafezinho. Intacto. Em cima da mesa. Rimos.

 

Não importa. Tem café em todas as estações do ano. E em todos os horários. Até qualquer outro intervalo. Qualquer dia.

 

Foi a primeira vez que voltei de onde sai. Repetiu. E completou. Mas estou feliz por isso.

Ri. Viva a sexta-feira.

 


Outubro 20 2009

 

O aviso veio explícito. Claro. Objetivo.

 

É proibido beijar. É proibido abraçar. É proibido falar muito próximo.

 

Fiquei observando. Os comportamentos de cada um. À proporção – e este é o termo exato – que ela avisava. O olhar. A expressão facial. O gestual.

 

Diria até que se estava mais próximo a uma equação. E muito longe de um simples aviso com palavras. Ou com explicações. A equação de cada um que escutava não se somava com a do outro. Não havia uma conta. Ou uma soma. Nem uma divisão. Ou um parêntesis. Talvez – com muita benevolência - um x. 

 

Havia subitamente o conjunto vazio. Assim. Corpos estanques. Algo por aí. Quase uma matemática. Não fosse eu péssima com números e equações. Mas foi só o que me ocorreu enquanto olhava.

 

Este tipo de aviso - expõe.

 

Cada um a buscar em seu próprio corpo o limite de si mesmo. O corpo como uma prioridade extrema. Dava até para dizer que transcendeu a idéia da matéria em si. Uma metafísica ao contrário.

 

Provocou uma certa sonoridade. Pelo discreto re-acomodar nas cadeiras. Já todos se entendiam - num total conformismo com o distanciamento afetivo.

 

Ela que veio avisar – avisou rindo. Como se alheia estivesse ao ambiente. Ou ao risco. Deve ser como jogo de criança. Ganha quem fala primeiro.

 

Foi só o que me ocorreu ao vê-la dar um tom chistoso. Nem de longe pensei em associar ao Marquês. A dose do Marquês já está creditada em excesso.

 

Mas enfim. Deu um ar cômico diante da interdição. De repente - completou. Nem aqui – nem em casa. Cuidado com os familiares. Não teve jeito – venceu o Marquês.

 

Tudo começara com uma gripe. Desta vez. É o que parece. Porque impossível não generalizar. Algo como cíclico. As perdas diante dos desconhecidos, conhecidos e próximos – põem Dor como alvo. Para que o esclarecimento se faça objetivo. Procede.

 

De tempos em tempos – desde a antiguidade - surge uma doença universal. E lá se vem o isolamento. Não só dos doentes. Mas – e principalmente - dos sadios. Uma triste poesia abstrata. Todos lêem. Acreditam. Até se emocionam. Mas cada um vai compor as suas rimas da forma que mais se proteja. Também procede.

 

E existe nada mais imperativo de proteção - do que a interdição dos afetos.

 

Incrível. Como uma interminável expiação de culpa arcaica. Mais ou menos assim. Complicado definir a demanda individual diante de um temor coletivo. Ou o contrário.

 

Após o aviso não havia mais diferença entre o disfarçado temeroso e o suposto infectante. Ambos circulavam - quase igual a um falo. Da posse de um para a posse do outro. Cada um como portador exclusivo da praga.

 

Diante do outro também portador exclusivo da mesma praga. Um espelho - sem o país das maravilhas. E sem o coelho. Vai ver por isso se perdeu a hora.

 

Não faltaram as piadinhas defensivas. Uma forma suavizada de acatar. E – ao mesmo tempo – justificar. Não sei se conto em casa. Ela vai perguntar com quem me beijava aqui. Ainda bem que tenho um namoro virtual. Posso mandar beijo o tempo todo. Vou arrumar também um marido virtual. Por isso prefiro só meu cantinho. Nada de parceiros. Solidão faz bem à saúde.

 

E assim este dia seguiu. Cada um como seu advogado. E promotor do outro. Ou até um vice-versa cabe aí.

 

Quem chegava para as consultas oferecia e recebia um formal, polido e adequado - cumprimento. As salas sempre que possível - ficaram com portas abertas. É preciso que o ar circule.

 

Até ri quando escutei este comentário. E lembrei as tantas e tantas placas que têm nas ruas daqui. Nunca feche o cruzamento. Via alternativa. Não ultrapasse a faixa amarela. Via com câmeras filmadoras.  

 

Agora é preciso acrescentar mais uma. Interna. Privativa. Asséptica. Para combinar bem com o Lugar. Para fazer parte – se acumpliciando. Não importa se é social. Cordial. Fraternal. Sensual. Não há diferença. Novos tempos. Real e triste. Beijar não faz só sapinho. Beijar faz porquinho.

 

Nem bem tinha encerrado este pensamento - sobre os trilhos - e entraram duas pessoas. Estava super lotado. Pelo horário e pelo dia. As pessoas se amontoavam. A pressa do retorno era bem maior que a lógica do espaço.

 

Mas enfim. Eles entraram. Um homem e uma mulher. Seguravam as barras de ferro. Cuidavam para não cair sobre os outros. Ou os outros não caírem sobre eles. Estavam de máscara.

 

Impossível não parafrasear o mestre inglês. O resto é silêncio.

 

 


Outubro 19 2009

 

O dia não fora dos mais fáceis.

 

Tudo já começara de véspera. Mudança de horário. Troca de agendamento. Alteração no local. O simples transformado na contramão.

 

A ordem se oferecendo contra a lei. A lei se fazendo firme. Para recompor a ordem. Mais ou menos assim. Nada de filosófico. Uma organização de ritmo. Sem dança. Sem compasso. Apenas uma exaltação ao – impossível.

 

Durara um dia inteiro. A dissolução da linha entre o permitido e o pertinente. Até entre a consideração e a menos importância. E custara o pensamento da noite. Não diria uma noite em vão. Este termo só existe em notas de rodapé.

 

Lembro de uma frase da minha avó. É o escuro da noite que interrompe o sonho, menina, é o escuro da noite que interrompe o sonho. Estava certa.

 

Mas o dia veio - e a solução junto com ele. Enfim.

 

Foi nesse agenda-e-troca que o de repente se autorizou. Uma cena realmente inesperada. Pelo menos a parte que me coube na cena. E justo eu que tanto admiro as vozes. Fui perder logo a minha. E no momento que mais precisei dela.

 

O que saiu da minha garganta não podia jamais ser chamado de voz. Acho que nem a primeira sonorização da humanidade foi daquele jeito. Um gutural som estranho. E uma imensa alegria única. Vai ver é assim. A primeira parceira.

 

Eu olhava em busca de um presente. O livro que ela poderia gostar. Com a falta de horário livre lá se ia um mês de atraso. E ela sempre fora pontual nas comemorações. Resolvido o tal agendamento – melhor também resolver as pendências. Talvez uma opção para relaxar.

 

Estava diante das prateleiras. Tentava pegar um livro. Por sorte lá as prateleiras são fixas. Senão o mundo teria vindo abaixo.

 

Segurei o volume escolhido. Achei adequado a ela. Adora poesias.

 

Foi ai que notei alguém do meu lado. Ele me olhou atento. Perguntou. Se eu era eu. Assim. Falou meu nome com tranqüilidade. Até aí eu ainda possuía uma voz normal. E o cérebro ainda funcionava. Aparentemente – ao menos. Confirmei. Polidamente. E curiosamente.

 

Fez um cumprimento formal – mas sorridente.

 

E continuou. Reconheci pela foto. Leio seus textos. Admiro muito sua escrita. Que bom poder lhe dizer isso pessoalmente. Que coincidência lhe encontrar aqui. Diante de uma mesma estante. Quando este espaço é enorme. E só estantes.

 

Riu. E comentou sobre um ou outro texto que mais gostara. Riu de mais algum outro. Falou de um estilo diferenciado. Esta foi o último termo de que me lembro. Estilo diferenciado.

 

Quis responder. Quis relatar minha enorme alegria. Minha surpresa. E avisá-lo de que ele fora o primeiro a me reconhecer. Que eu nem sabia que era reconhecível. Nem poderia imaginar. Não faltaram ideias. Ou discursos. Ou metáforas.

 

Mas estava já na fase dois. Eu. Já não tinha um som adequado na voz. E acho que até o encéfalo ficou catatônico.

 

Nunca me acontecera algo sequer parecido. E nunca previ que pudesse me acontecer.

 

Ele continuou falando. Comentando. Fez até algumas sugestões. Exigiu uma maior exposição da minha parte. Fez gracinhas. Deveria ter uma seta indicando os meus caminhos. Algo por aí. Falou que eu estava escondida. Bastante desenvolto. E seguro da sua apreciação.

 

Fez uma observação sobre o livro que eu escolhera. Recomendou ficar atenta às sugestões dele. Respondi um - obrigada. Obrigada de novo.

 

Até me esforcei por um terceiro - obrigada. Mas a voz já em contraponto com o entusiasmo – se isolou. Belas companheiras. Cordas vocais tímidas. Não me faltava mais nada.

 

Ele saiu. Eu fiquei ali. Com o tal livro de poesias nas mãos. O presente dela atrasado. As palavras dele me circulando - a pele.

 

Olhei em volta. Parecia que de repente só eu estava ali. O lugar havia esvaziado. Deve ser assim nessas situações. Preciso saber de alguém experiente.

 

Coloquei o livro de volta na prateleira. Ela esperaria mais um dia. Aquele momento se tornara muito meu. Não tinha como dividir. Ou ser pragmática. Não sabia se tinha entrado numa bolha. Ou saído dela.

 

Voltei feliz para casa. Ri. Com a alma. Com as mãos. Eis enfim o terceiro – obrigada. Tomara que ele leia. E compreenda. A rouquidão - e a feliz emoção que causou.

 

A noite me pareceu tão clara.

 

 


Agosto 31 2009

 

Amanhecera frio. Muito frio.

 

As nuvens pareciam amigas próximas tristes. Estavam baixas e acinzentadas. A garoa da noite dava um certo brilho no chão. O asfalto devolvia pontinhos de luz. Nas calçadas a luminosidade se fazia por inteiro.

 

Quase ri. Quase. Porque a prudência ensina a não rir quando só tem sonolentos com frio em torno. Pode parecer um pouco caso. Mas enfim.

 

O quase foi por que me lembrei daquele costureiro famoso. Estilista para ser mais respeitosa.  Lembrei do que fez com a passarela. Em seu desfile. Molhou a passarela. Para dar mais brilho. E um ar de aconchego de inverno. Ficou lindo.

 

Aqui o desfile não tinha regência famosa. Muito menos assinatura. Os passos não eram ritmados. Nem o design exclusivo. Era mesmo um faz de conta que acordei. E uma certeza do horário a ser cumprido. Mais ou menos assim.

 

E amanhecera. Com nuvem próxima ou distante. Com ritmo ou com desafino.  Muito menos com pesquisa de direitos autorais - sobre chão molhado. Era fazer o dia acontecer. Isso. Já era o bastante para um dia frio.

 

Ela sentou próxima. Tinha um ar sério. Estava bem agasalhada. Uma echarpe vermelha coloria a pele branca. E contrastava feroz com o casaco preto. Botas altas davam um ar elegante. Sentou. Acomodou a bolsa no colo. Tentou colocar o som egoísta em funcionamento.

Não funcionou. Guardou de volta na bolsa. Ergueu-se um pouco do assento. Acomodou-se como possível. Parecia conformada. Talvez precisasse escutar a música interior. Vai lá saber. Mas ficou sentada. Absorta.

 

Elas entraram falando. As duas. Sentaram de costas para onde ela estava. Não olharam em volta. Não se interessaram pelo ambiente. Estavam entretidas com o tema escolhido. E nem bem uma calava a outra já continuava. Falavam o mesmo assunto em dupla. Os comentários se sucediam. O tom de voz aumentava se a queixa ou a critica era mais forte. Não tinha música. Mas a sonoridade era vibrante.

 

Comentavam. Criticavam. Ironizavam. E se divertiam com os critérios contrariados.  

 

Ela é uma pessoa muito desagradável. Eu agüento porque às vezes me dá pena. Eu diria até estranha. Discordo. De estranha ela tem nada. É mesmo muito esperta. Observou como riu ontem no cafezinho. Ele estava perto. Ela foi logo querendo se destacar. Para mim quem gosta de destaque é blog. Eu sou bem discreta.

 

E riam. Muito.

 

Vai ver hoje. Deve chegar toda arrumada porque tem reunião. Por certo passou a noite acordada treinando. Como assim treinando o que. As caras e bocas. Nunca percebeu. Ela vive de caretinhas. No começo achei que era um tique. Nervoso. Mais risos. Vai ver já chegou lá. Deve estar escolhendo o lugar onde sentar. Para ficar diante - você bem sabe de quem. E gorda como está ficando vai ocupar toda a frente. Mais risos.

 

Algumas pessoas olhavam. Elas rindo – alheias. Não faltavam detalhes. Previsões. Análises. Conclusões. Mas nem bem fechava um ciclo – lá vinha outro. Até falavam simultâneo. O assunto parecia realmente empolgante. Afinal – vencera o sono. Desconsiderara o frio.

 

Notei que ela estava atenta. Muito atenta. A cada fala que escutava com precisão – o olhar ia se transformando.

 

Primeiro o som. Depois a imagem.

 

Tudo começou quando escutou as falas. Ergueu-se um pouco. Identificou as pessoas. Foi o que pareceu. De inicio – fez olhar de espanto. Com a continuidade – fez olhar de tristeza. Mas não se movia. Só o olhar se expunha.

 

Olhou para mim. E falou. Com voz tão triste quanto o olhar. Com as mãos apertando a bolsa.

Elas estão falando de mim. Sobre mim. Nunca pude imaginar. Trabalhamos há muitos anos juntas. E muitas vezes saímos em um final de semana ou outro. Não sabia que pensavam assim. Houve uma vez. Ela foi um pouco ríspida. E fez um critica sem propósito. Mas achei que era o cansaço. Nunca questionei.

 

Nada respondi. O que menos importava ali era uma resposta. Até porque resposta era o que mais tinha. Tinha resposta para tudo. Para o presente. Para o passado. E talvez – para o futuro.

 

Ela levantou. Ficou diante das duas. Assim. De pé. Diante delas. Com bota de salto. Echarpe vermelha. Casaco preto. Deu vontade de gritar olé.

 

Primeiro a imagem. Depois o som.

 

Disse apenas uma frase curta. Tenham um bom dia. Só isso. E um imenso silêncio se fez.

 

Fiquei pensando em sincronias. E se o som egoísta tivesse funcionado. Se tivessem se atrasado. Ou se adiantado.

 

Lembrei a minha avó. O Tempo sempre interfere no Espaço, menina, o Tempo sempre interfere no Espaço.

 

Chegou o local de descida. Ela me olhou de volta. Fez um cumprimento formal com a cabeça. E saiu.

 

Elas saíram atrás. E a seguiam de perto. Parecia que tinham perdido o esqueleto. Estavam disformes. No andar. No gesticular.

 

Ela altiva – caminhava na frente - com aparente tranqüilidade.

 

Sumiram na multidão.

 


Agosto 19 2009

 

Ela viu a porta aberta e entrou para um cumprimento.

 

Sentou com suavidade. Puxou a cadeira para mais perto da mesa. Muito polida. Estava bem maquiada. Batom discreto. Os cabelos longos e com cachos soltos emolduravam a face. Tinha aneizinhos nos dedos. Uma roupa em tons claros adequada para a ocasião e estação. Assim. Toda uma lógica percorria gestos e atitudes.

 

Falava com voz serena acompanhada de um riso contido.

 

Na hora pensei esta palavra. Contida. Não dei o destaque necessário. A esta observação. Errei. Sempre que algo der um sinal de alerta – deve-se estar atenta ao sinal de alerta. Este é um princípio básico. Do Manual da Socialização. Ou da Sobrevivência. Me chamou a atenção. Mas fiquei escutando o que dizia. Ela falou. Com todo aquele jeitinho dócil. Olhava também com certa docilidade. Certa docilidade. Outra observação – notei e desconsiderei.

 

Como dizia sempre a minha avó. Fica atenta ao erguer espontâneo da própria sobrancelha, menina, fica atenta ao erguer espontâneo da própria sobrancelha.

 

Ela estava mais uma vez certa. Dava até para comparar com o mestre austríaco. Sobrancelha é o melhor analista de uma situação. De uma atuação. Como se lesse sempre primeiro que os olhos. Ou escutasse muito mais que os ouvidos. Deve ter uma ligação direta especial com o cérebro. Como sentinela. Ergue-se como sinal de alerta máxima. E nem sempre é valorizada. Acaba-se por desconsiderar esta vigilante proteção.

 

E assim foi. Lembro que as minhas sobrancelhas se ergueram uma ou duas vezes. Mas fiquei - diante da docilidade - com ingenuidade. Mais ou menos por aí.

 

Fez um gesto sobre a mesa. Arrumou com toda uma sequência os papéis que estavam em desalinho. Acariciou os papéis na ordem que colocou.

 

Ajustou mais uma vez a cadeira em direção a mesa. Falou algo sobre gostar muito do que fazia. E sobre ser uma pessoa com uma dose alta de paciência e metodologia. Até usou esta palavra. Metodologia. O serviço de casa era cansativo. Mas tinha tanta metodologia que acabava ficando mais fácil.

 

O marido a questionava. Achava que nem tudo fazia bem. Achava que tinha culpa por alguns desacertos. Em especial da saúde. Por um tempo essas observações a incomodaram. Atualmente – não. Sabia que fazia o melhor possível. E garantia que ninguém faria melhor do que ela.

 

Tinha uma mania de limpeza quase obsessiva. Mas preferia assim que lidar com poeiras e sujeiras num ambiente de convivência familiar.

 

A cada frase encerrada – ou a cada ponto de continuação surgia um sorriso. Quase como um hífen. Ligando palavras e amenos trejeitos faciais.

 

Interrompeu um pouco o que falava. Pediu com a mesma voz dócil. Gostaria de um copo com água. Estava frio. Mas sentia sede.

 

Recebeu o copo. Colocou sobre a mesa. Num movimento casual para ajeitar a bolsa sobre o colo – derrubou o copo.

 

Ai sim. Foi a vez que fiz o tal aceno positivo em memória da minha avó.

 

Era uma outra pessoa diante de mim. O copo caiu. Não quebrou. A água se espalhou sob a mesa.

 

Ela ficou vermelha. O cabelo parecia que tinha até encolhido. Ou aumentado o número de cachos. A voz parecia ter dado um adeus eterno à docilidade. Nada de voz orquestradinha. Agora era voz tempestuosa.

 

Gritou. Eu odeio isso. Odeio o que faço. Odeio a ele. Odeio ter que cuidar dos outros. Odeio cuidar da casa. Odeio essa sujeira.  

 

Desta vez acho que até meus cílios se fizeram companheiros das sobrancelhas. Mas já era tarde.

 

Tentei acalmar. Acidentes acontecem.

 

Olhou séria para mim. Olhava para a água no chão e se desculpava. E esbravejava contra tudo e contra todos. Nem escutava o que lhe era dito.

 

No final de um tempo – o tempo superou a si mesmo. Pegou os objetos que estavam já numa cadeira ao lado. Perguntou pelas horas. Ajeitou os cabelos. E saiu.

 

Olhei para o chão molhado. Para os papéis alinhados na mesa. Para a porta.

 

Precisei de um tempo para que as minhas sobrancelhas e cílios voltassem ao local de nascimento. Pareciam estar já penduradinhos no teto.

 

A mocinha da limpeza entrou. Apagou o registro. O dia prosseguiu. Embora diferente do jeito que começou.

 

Recuperada - relembrei meu querido amigo indiano. É a água que cuida da limpeza. Seja da forma que for.

 

Consegui até rir.

 


Agosto 01 2009

 

Quando li o recado demorei a acreditar.

 

Acendi a luz. Abri a porta da varanda. Um pouco de iluminação também externa podia ajudar. A clarear. Até a esclarecer. Limpei os óculos. Ajeitei de novo a cadeira. Até reiniciei o portador. Uma brisa entrou suave.

 

Depois de tantos anos. Um recadinho estilo - procura-se. Era eu a procurada. Era ela quem procurava.

 

Cada vez que eu pensava isso – queria repetir o ritual de configuração. Lá se ia de novo limpar os óculos. Até ria.

 

Certo. Vamos ver do que se trata.

 

Desde que sai de lá nunca mais tive notícias. Ou melhor. Tive algumas. Terceirizadas. Estava se solidarizando com quem escolhera. Como uma ajudante voluntária e fraterna. Não importava. Se já vali. Se já valeu. Devia saber o que fazia. E aprovei. Sem interferências. Muito menos queixumes. Não tinha tempo.

 

Entre as caixas da mudança e as idas a hospitais para coração descompassado – só me restava o tempo exato para ter calma.

 

Quando as caixas saíram vazias e o coração compassou - no final da tarde tinha o café.

 

Ela vinha com bolinhos de nozes e sotaques. Não dava tempo para queixumes. O riso começou a ocupar o espaço com franca e exposta decisão.

 

O tempo passou. Os dias se somaram e foram completando a década.

 

Mas lá estava o recadinho. Procura-se. Uma década depois. Parecia que os dias estavam se dividindo. Para explicar um tempo que passou. Como se folheasse um calendário antigo. De trás para frente. Ou vai ver era mesmo de frente para trás.

 

Como dizia a minha avó. Não se comprometa com o calendário, menina, não se comprometa com o calendário.

 

Tinha razão. Fatos e atos podem ser partilhados com qualquer um de nós. Mas as datas de um calendário são sempre alheias - também a qualquer um de nós. Foi uma sensação inicial. Assim. Confusa. Ambígua. Surpresa. Tudo ao mesmo tempo. Ao ler o recadinho.

 

Decidi responder. Achou. Estou aqui. Resolvi complementar a informação com dados atualizados.

 

Li e reli umas trinta vezes. Aumentava os relatos. Cortava. Fiquei um tempo entre o prolixo e o sucinto. Entre um imposto e um exposto. Optei por este Lugar - entre um e outro. Mas me identifiquei.

 

Até me assustei. Quando a gente se identifica – se qualifica. Ou o contrário. Diante de si próprio. Foi o que descobri. E lá me vi de novo - às voltas com o calendário.

 

Escrever avisando aqui estou – fez novamente passar as páginas dele. Desta vez de todo lado. De frente para trás. De trás para frente. Deu até vontade de encontrar um ainda não impresso. Um da frente para frente.

 

Mas enfim. Depois de ler e reler. Informei. Confirmei. Achou.

 

Foi como se – eu - tivesse me achado. Depois de uma década.

 

As pessoas do passado têm esta capacidade. Ou funcionalidade. Quando voltam – é como se uma materialização se procedesse. A formalidade da informação - como um balcão de cartório. Vai-se relatando os dados na suposição que o outro – do outro lado do balcão – os esteja registrando com a valorização procedente.

 

Só depois descobrimos que os tais dados só são importantes para nós mesmos. Eles é que nos localizam. O outro apenas os transcreve. E nos devolve. E ficamos com os nossos dados em volta de nós – vida a fora.

 

Não era um balcão. Não tinha funcionário. Não se reconhecia a firma. Protocolarmente falando.

 

Mas tinha uma explicação. Uma descrição. Uma até possível entonação. Como uma anamnese de saúde. De sobrevivência. Com umas gotinhas de orgulho. Uma dose quase medicamentosa de vaidade. E uma overdose de alegria egocentrada. Pelas escolhas. Pelas conquistas. Pelas parcerias estabelecidas. Até pelas perdas. As perdas estão sempre presentes. Mas o motivo é nobre. Elas expõem as escolhas. Procede.

 

Sentada diante do texto – li tudo que escrevi. Desta vez fugi ao habitual. Não imaginei o que ela pensaria ao ler. Fiquei imaginando o que eu pensaria disso – há uma década.

 

Os dados foram enviados. Com os anos colados a eles.

 

O calendário - discreto - observava silencioso sobre a mesa.

 


Julho 14 2009

Daqui dá para ver com clareza. O gestual dele. O aspecto excepcional. A tranqüilidade de alguma forma adquirida. A ocupação de alguma forma conquistada.

 

Ficava ele ali. Na janela. Por horas. Brincando de bolhinha de sabão. Um potinho. O arco. E as bolhinhas se fazendo, voando e se desfazendo. Umas - maiores.  Outras - menores.  Não tem hora. Não tem turno. De repente ele começa a sua possível tarefa. Dentro da impossível ordem.

 

Sopra com delicadeza, embora o corpo seja forte e pesado. A cada bolhinha para e observa. Inclina-se um pouco para frente. Como um observador do percurso. Segue com o olhar. Talvez esta seja sua única forma de se libertar.

 

Diante de todo um contexto aprisionado.

 

Quem sabe expressa sua imobilidade assim. Pela mobilidade das bolhas. Ou se faz identificado. Pela curta mobilidade. Iguais a ele – elas também têm o caminho limitado. Ou o tempo. Mas diferentes dele – elas podem sair e voar. Mesmo que depois desapareçam. Como fora de si – e conduzidas pelo vento - partir.

 

Não parece ser importante o tempo de vida. Das bolhinhas. Mas o tempo de fabricação. Assim se pode chamar. O tempo que começam a voar por determinação dele. Libera as bolhinhas. Dá uma espiadinha. Vê a saída delas. E já retoma a produção. E repete o gestual. Por horas. Calmo. Sereno.

 

Como deveria ser todo autor. Diante da própria produção.

 

Houve uma vez uma festa de Natal. Podia se escutar as vozes. Os barulhos. Observando bem podia até escutar o olhar dele. O olhar vibrava. Ansioso pelo presente. Mexia as mãos. O corpo dançava um para lá e para cá com ritmo compassado.

 

Entregaram.

 

Alguém veio. Abriu bem a janela. Ele acompanhou. Prepararam. E ligaram a máquina. Uma máquina de fazer bolhinhas. Assim. Prática. Ligava e elas saiam. Simples. E numerosas. Saiam aos montes. Muitas. De uma só vez. E voavam pela janela a fora. Com altivez. Independência. E com um barulho próprio. Uma mágica ao alcance de um aperto de um botão.

 

A princípio ele olhou. Parado. Nem ergueu as mãos. Nem acompanhou com o olhar.

 

As bolhinhas saíram pela janela e ele entrou para a sala. Assim. De imediato. Como um ballet sem música. Sem tempo de perdas. Mas carregado de perda de tempo. Com sincronicidade. Mas sem simultaneidade. Assim ficou diante da máquina. Que independia da vontade dele. Que substituía sua rotina por um aperto de botão. Não sabia como lidar. Parecia temeroso. Como se tivesse perdido o controle. Da sua vida. Da sua janela.

 

Não comandava mais. Havia uma validade na quantidade. E a ele agora não mais pertencia. Vivia sob controle. Agora perdera seu único comando.

 

Assim parecia expor. Com a saída da janela. Com o descaso com as bolhas soltas. Dispersas. Aos montes. De repente deu as costas para elas. E sumiu para dentro da casa.

 

A máquina, solitária, lá ficou por um tempo obedecendo ao botão.

 

Parou de brincar. A janela se fechou. Não mais aparecia.

 

Um dia a janela foi aberta. Ele veio feliz. Parecia feliz. Com o potinho. O arco.

 

Mas algo se modificara.

 

Antes já chegava libertando as bolhinhas. Desta vez - primeiro olhou. Em volta. Para cima. Para baixo. Para os lados. Até para dentro da casa. Segurava o potinho com um gesto protetor. O arco entre eles. Apertadinho na mão. Talvez buscasse a traição. Ou o descontrole. Parecia procurar pela ausência, muito mais que pela presença. Buscava uma certeza. Talvez tenha aprendido que até as certezas oscilam. E nem sempre estão do lado favorável.

 

Depois de todo esse cuidado colocou o potinho na murada. Acariciou o arco. Mergulhou no potinho. E sorriu. As bolhinhas saíram pelo mundo afora. De novo. Mas desta vez sob sua orientação. Sob sua guarda.

 

E manteve a produção de acordo com a própria vontade. Exibindo no rosto a expressão feliz de quem cria. Mesmo que depois perdesse o controle. Não importava.

 

A criação é mais importante que o prazo da entrega. Ou da durabilidade.

 

 


Julho 12 2009

Ela me telefonou. A noite mal se instalara. E ela agia como madrugada afora.

 

Passara a semana toda pensando o que fariam. Na sexta. Mil programações.

 

Tinham duas comemorações pessoais. Acreditou. Ele viria mais cedo. Para comemorarem.  Organizou o roteiro. Escolheu os cardápios. Organizou o vestuário. Seria uma noite festiva.

 

Fazia tempos que eles não tinham tantos motivos. Para festejo. Para celebração. Sim. Esta a palavra certa. Celebração. Decidiram por celebrar os bons acontecimentos da semana.

 

Quando me telefonou estava emocional. Passional. Parecia filme italiano. Podia ate vê-la gesticular.

 

Ri baixinho. Não queria provocar mais emoções fortes. Quando ela se desacreditava ela se descomprometia. Com o mundo. Com as etiquetas. Com as regras.

Parecia que entrava em narcose. Porque todo o jeitinho calmo e suave se transformava.  Em explosão.

 

Lembrei a minha avó. Ela dizia sempre. Cuidado com as pontuações, menina, cuidado com as pontuações. Nunca vi ninguém que se adaptasse tão bem ao tal aviso de alerta.

 

Falava sempre doce. Com vagar. Nas frases dela continham de tudo. Desde hífen até exclamações. Mas tudo muito suave. Compassado. Parecia uma harpa. Com toda a leveza musical. Como um dedilhar pelas cordas.

 

Até a hora que se desacreditava.  Ai sim. Nem toda bateria faria tanto efeito. Era um ressoar de múltiplas sonoridades. Simultâneas. Sincrônicas. Um outro tipo - de pontuação - surgia.

 

Uma amiga a tinha convidado. Teriam um encontro para um café. Um vinho. Qualquer líquido acessório. Cancelou. Cancelou. Ele avisou que viria cedo. Preferiu esperar por ele. E não fazer encontros com pressa.

 

E ficou sozinha em casa.

 

Nem acreditou. Depois daquela semana só de problemas. Tudo bem. Nem lembrava mais se tivera problemas. Mas isso não importava. Assim foi logo dizendo. Quando perguntei pelos problemas. Importava que ficara só. Numa noite de sexta.

Dormiria sozinha. Conversaria sozinha.

 

Já estava na fase da bateria. Esta é uma fase onde só produz sons. Não escuta sons. Mais ou menos assim.

 

Mas houve um segundo de silêncio. Um segundo bem fugaz. Por onde pude dizer uma palavrinha. Uma frase. Por que não deixa para reavaliar amanhã. Nada melhor que o dia seguinte. E ainda é cedo.

 

Não respondeu. Ou melhor, não deu tempo de responder. Acho. Porque de repente escutei um som estranho. Algo como um gritinho. Um risinho. Difícil decifrar sons ao telefone. O som seguinte foi um estalinho.

 

Ela voltou a falar com uma voz doce. Aquela de sempre. A pré-bateria. Ele voltara. Não atrasara muito. O trânsito que atrapalhou a pontualidade do relógio. Não a dele. Até contou isso rindo. Estava cheia de graça. Graça até demais.

 

Antes de desligar escutei a explicação. Dela para ele.

 

Foi ela que estava preocupada com você. Ainda me perguntou se eu não me desconfortava. Por você marcar e não vir. Ou por estar em festinhas com suas colegas de trabalho. Imagina. Logo você. Sempre cuidadoso. Afetuoso. Coisa de amiga. Eu estava apenas lhe esperando e lendo. Quando ela telefonou.

 

De novo o som seguinte foi um estalinho. E o telefone foi desligado.

 

Do lado de cá – ou de lá – pensei. Preciso comprar uma tuba.  Vamos ver onde a harpa ficará nesta orquestra.

 

 


Julho 07 2009

 

Decisões são da ordem da auto imposição. Assim fez. Nem bem tomou a decisão e já pôs mãos à obra.

 

Termo bem adequado. Parecia uma obra. Uma construção.

 

Já acordou pensando. Vou arrumar os livros. Nem sabia explicar por que a decisão. Detestava arrumação. E por um motivo simples. Bem simples. Detestava ver a desarrumação que uma arrumação provocava.

 

Alguém havia lhe dito. O por que desta reação. Lembrava, certamente, a desarrumação interna. Como um espelho. Por isso se angustiava.

 

Na época até ficou atenta. Agora decidiu deixar a interpretação de fora. Ao menos naquele momento. Mal dava conta da idéia. Imagina da etiologia da idéia.

 

Riu e prosseguiu na decisão. Cedeu a este primeiro pensamento do despertar. Se tinha um motivo – descobriria.

 

Começou pela estante da frente. Alguma ordem tinha que ter. Para enfrentar a desordem. Escolheu a ordem decorativa, digamos assim.

 

Auxiliada por um paninho, álcool e óleo para couro – lá se foi. Se sentiu uma restauradora daquele famoso Museu. Não faltou nem a máscara descartável. Afinal. Nem só de restauração vivem os alergistas. E vale mais uma vez o contrário. Em parte.

 

Uma idéia realmente de mosteiro. Estilo auto flagelação.

 

Parecia ter tido um começo. Em algum momento começou. Mas confirmava nunca ter fim. Em algum momento assim pensou. Sim. A cada livro retirado para ser adequadamente catalogado – uma nova fileira tinha que ser remanejada.

 

E quando remanejava e dava por encerrado - descobria um volume perdido. Que pertencia justamente – à prateleira que já tinha encerrado. Foram muitas idas e vindas. Sobe e desce. Desvira e vira.

 

Já mais calma resolveu – vai lá saber também por que - abrir os livros.

 

Viu que todos – ou quase todos - tinham datas. E local onde os comprara.

 

Alguns até com dia e hora. E a estação do ano. Até riu. Nem lembrava mais - assim fazia.

 

E assim fez por muito tempo. A cada livro comprado registrava. Os dados do dia da compra. Até o boletim meteorológico. Riu de verdade. Mas não deixou de achar muito boa a idéia. Congratulou a si mesma. Em um deles viu que tinha escrito. Primavera sem flores e com muita chuva. Viu o ano. Será que fora mesmo. Ou seria ela que estava se sentindo assim. Deveria ter anotado melhor. Em um outro estava lá. Dia de sol, final da tarde - a livraria estava vazia. Novamente não sabia se era a sensação dela com ela mesma.

 

De repente caiu um papel. De dentro de um outro volume desgarrado. Amareladinho. O papel. Meio amassadinho. Ou melhor, enrugadinho. O tempo não poupa nem os papeis, pensou.

 

Lembrou daquele poeta. Ele falava isso num poema. De um papel amarelado encontrado num livro. Mas que rasgara sem abrir e ler. Não queria mexer com o passado. Mais ou menos assim, pelo que recordava da poesia.

 

Fez diferente. Abriu. E leu.

 

Era um bilhetinho dela. Avisando que tinha adorado a temporada que tinha passado lá. Que fora muito bem acolhida. E que a adorava muito. Que se sentiu fazendo parte real da família. E que estava com saudades.

 

Quase chorou. Incrível. Ela agora estava casada com ele. E fazia realmente parte da família. E escreveu esse bilhetinho ainda tão criança.

 

Foi em meio a tudo isso que teve uma luz. E que luz. Tirou até a tal máscara. Melhor espirrar que sufocar. Quando a luz vem é preciso se estar exposta. Ficou até de pé.

 

Estantes. Uma real autobiografia. Ou uma prova autobiográfica. Os próprios livros. Estes que se compram e guardam em alguma prateleira. Os lidos e até os não lidos.  Porque são resultado de uma escolha. Denunciam a evolução. A formação do pensamento. De época em época. O crescimento emocional. Não importa o estilo. Importa esta composição.

 

Pelas datas relembrou lugares. Pessoas. Estados de espírito. Movimentos. Ideologias. Filosofias. Entendeu as que ficaram. Compreendeu as que se foram. Assimilou as que se construíram. Avaliou as que sucumbiram.

 

Olhou para os livros como para si mesma. Passou a mão de leve pelas capas. Leu com carinho seus registros. Foi assim organizando - com súbita tranquilidade - toda a estante.

 

Entendeu o próprio pensamento.

 

Ali. Sentada. Diante da tal estante da frente. E de frente para a estante. Ali viu sua vida. Suas buscas. Seus achados e perdidos. E deu um riso particular. Para esta sua idéia ao despertar. Do despertar.

 

Procedia.

 

 


Julho 06 2009

Fiquei olhando para ele. Sentado próximo a mim. Quase em minha frente. Quase. Falando. Por horas.

 

Vi quando chegou. Foi pontual. Na hora agendada – estava lá. Era o que parecia. Estar lá. Deveria conviver com aquele grupo há muito tempo.

 

Havia uma certa desenvoltura no caminhar entre eles. E todos o conheciam. Mas poucos se dirigiam a ele. Ou poucos ofereciam um espaço a ele. Ele cumprimentava efusivo. Exagerado - até poderia se dizer. Recebia de volta um riso social. Formal e polido. Mais ou menos assim.

 

Não sentou. Circulava entre o ambiente. Os passos fortes e rápidos. Mais fortes e rápidos que a situação solicitava. Carregando, sobre os sapatos, o verniz escuro da ansiedade.

 

A postura lembrava a de uma emergência. Como se tivesse vivendo um prazo a expirar. Passava de um canto a outro. Da porta à janela. Da janela à porta. Seu corpo parecia saído de uma dança flamenca. Esguio – mas exausto.

 

Esta a idéia que sugeria. Girava sobre si mesmo. Olhava para os lados. Para cima. Para baixo. Dava uma idéia de agitação. Muito mais interna que externa. A externa apenas coreografava a interna.

 

O olhar seguia o ritmo dos passos. Da dança. Cansado. Mas curioso. Olhar ávido. Ávido por retorno. Ávido por espaço. Ávido – talvez muito mais - por espelho. Mas era um olhar ambíguo. Como os passos. A busca parecia já vir com a certeza. Parecia conformado. Como se soubesse desde sempre o acolhimento que teria.

 

Comecei a entender. Atuava para si mesmo.

 

Ainda tinha o riso. Vez ou outra escapulia. Um riso alto. Frenético. Mas parecia ter o fim determinado. Como se o riso não tivesse destinatário. Era apenas uma obrigação do remetente – para o remetente. Os lábios continham o riso com a mesma força e rapidez dos passos.

 

Por fim escolheu uma mesa. Fazia dos objetos - íntimos companheiros. Acariciava a caneta. Dobrava e desdobrava o guardanapo. Percorria os dedos pelo copo de cima a baixo. Passava de leve os dedos pela toalha sobre a mesa. Assim - também - se amparava. Muito mais que nos passos - alegóricos em sua rapidez. Ou no olhar - míope de si mesmo. Menos ainda no riso aleatório.

 

E tão rápido quanto a escolha - começou a falar. Começou a expor.

 

Sentou-se diante deles. Ofereceu-se como um totem. Desfilou tabus.

 

Lembrei o mestre austríaco. Teria se encantado. Ou se desiludido de uma vez. Vai lá saber. São muitas as nuances da interpretação. Cabem – sempre - todos os tipos e gêneros.

 

Falava a idéia e contrapunha – sozinho - a idéia adversária. Fez um diálogo monologado. Ou um monólogo dialogado. Diante de todos. Discutiu. Concordou. Discordou. Recitou. Foi enfático em alguns momentos. Depois eufêmico por poucos instantes. Em seguida alheio. E repetia – quase matematicamente - esta sequência.

 

Sugeriu grifes. Citou filósofos. Redesenhou telas. Criticou conceitos. Exortou preconceitos. Ofereceu banquetes. Em nome da audiência. Fez da retórica uma dialética. E vice-versa. Desafiou paradoxos. A dança parecia não mais ter fim.

 

Alguém tentou um aparte. Ia discordar. Começou a fala com a palavra não.

 

Incauto. Ou inocente. Não se desafia um totem. Corre-se o risco imediato de ser imolado.

 

E assim foi. Não acabou de registrar a primeira nota e a regência se fez violenta. Alterou o tom de voz. A salada quase saiu do espaço que a continha. Uma taça balançou. O guardanapo encolheu.  

 

A vítima se recolheu. Se acautelou.

 

Notei que a mulher que o acompanhava apertou-lhe o braço. Num sinal de alerta. Sempre atentas. As mulheres. Não deve ser à toa que a preservação da espécie gira em volta delas.

 

Olhei para ele mais uma vez. Desta vez de forma bem mais disfarçada. Temi por outra imolação.

 

Diante da fala. Dos gestos. Dos objetos acariciados. Da luz do sol que vinha da janela. Diante de tanta citação. De tanta teoria. Não me lembro. Jamais. De ter visto alguém mais triste e solitário.

 

E o imitei. Concordei comigo mesma. Igual a ele. E desta forma me fiz mais próxima. Mesmo silenciosa. Tentei diminuir a solidão dele. Ao menos diante de mim para mim. Novamente igual a ele.

 

Conclui. Melhor mudar de mesa. Levantei e ri. Desta vez de forma bem menos disfarçada.

 

Ele me olhou - não devolveu o riso. O almoço acabou. Sai pensando. Se a solidão tem culpa. Ou desculpa.

 

 


Julho 03 2009


 

Nasci de frente pro mar
sigo as marés
altos baixos
perigo risco
barulho viração
eterno movimento
sem esperar
procuro alcançar
como as ondas
a areia
construo destruo
altero renovo
anuncio denuncio

exponho.


Quem sabe
tivesse eu nascido
de frente pro lago
seria calma serena
silenciosa
a esperar alguém afoito
uma pedrinha jogar
para me mover
em círculos lentos
até suavemente sumirem
e voltar a ser parada
cercada imóvel
plana
espelho
só refletir o que está fora
esconder o que está dentro.

 

 


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