Blog de Lêda Rezende

Dezembro 17 2009


Não dá tempo.

 

Esta ficou a frase oficial. Tomou como acessório. No final do ano. Entre o trabalho e as férias dela. Dela. Mais uma vez tivera esta idéia. Não aprendia mesmo. Já era a terceira vez que dava férias a ela nesta época. Devia ter um traço masoquista. Pensou. Melhor agendar um especialista nesse tipo de patologia. Porque só poderia mesmo ser uma patologia.

 

Mas enfim. Agora não tinha mais jeito. Era fazer de conta. De conta que não estava cansada. De conta que daria conta. De conta que sozinha se faz mais rápido. De conta que não queria chorar de arrependimento. Tanto fez de conta que acreditou. Não reclamou. Sequer comentou.

 

E lá se foi organizar a festa. Quase chorou. Não dava mais tempo para a árvore. Nem um só lugar tinha mais. Para vender. Alugar. Até emprestar.

 

Imaginou mil soluções. Mas todas dentro do inviável. Nada de arrancar galhos das ruas. Muito menos das casas. Ou sair correndo com as árvores das vitrines. Ou tirar da sala da vizinha. Não sabia como fazer.

 

Lembrou da avó de uma amiga. Só na falta brota criatividade, menina, só na falta brota criatividade. E resolveu usar a própria. Criatividade.

 

Nada de sair por aí pegando a dos outros. Aliás, nem pode. Nem serve. Criatividade é igual uma impressão digital. Cada um com a sua. Até para copiar tem que ter criatividade.   

 

Caminhava há um tempo. Em busca da tal solução criativa. A falta estava já em posição antagônica. Porque era o que mais sobrava. Estava até com vontade de se zangar com a avó da amiga. Mas seria uma briga desleal. Desistiu.

 

Vai lá saber por que, virou-se para a vitrine daquela lojinha. Assim. De repente. De forma despretensiosa. Até poderia dizer desesperançada. Em meio à avenida. Em meio ao tumulto. E viu. A solução para sua festa de Natal. Até olhou para o céu. Ou para o espaço que os prédios permitiam - para ver o céu. Olhou. Deu uma piscadinha. Agradeceu.

 

Saiu de lá feliz. Não saltitou porque o cansaço não permitia. Mas a emoção saltitava pelo corpo. Muitas vezes isso funciona. E muito bem. A emoção faz o que o físico já não obedece.

 

A sacola não era grande. Nem pesada. Mas cabia toda uma festa dentro dela. Esta foi outra coisa que aprendeu. Naquela hora. Naquela situação. De imediato.  Volume e finalidade cumprida não são sinônimos.

 

Já em casa nem deixou o tempo passar. Logo iniciou sua tarefa. Foi tão divertido que nem assim denominou. Dividiu por todo o ambiente. Colocou em lugares nunca dantes imaginados. Não faltou cantinho. Pontinha. Cabeceira de cadeira. Pé de mesa. Abat-jour. Moldura. Porta retrato. Corrimão de escada. Puxador de porta. Até torneira de lavabo. Castiçal. Fio de telefone. Galhinho de planta.

 

Com calma organizou - o jantar. Já nem se cobrou pelas férias dela.

 

Quando eles chegaram - só riam. Adoraram. E cada um descobria em mais um lugar bizarro. Mais um. Que o outro não tinha visto.  

 

Concluíram. A sala toda era uma árvore de Natal. Contaram sessenta lacinhos vermelhos. Com miolinho dourado. Por toda a sala. E sorriram felizes com a surpresa. A cada momento se escutava um gritinho. E uma risada. Com decibéis de surpresa acoplados.  Avisando – mais um ali. Mais outro lá. Ele achou maravilhosa. A idéia. E a composição da idéia. Ganhou muitos abraços e beijinhos. Pelo ato. Pelo fato.

 

No circular pelo ambiente teve uma sensação. De escutar um “eu não disse”. Nada comentou.

 

Olhou a casa toda. Achou linda. Gostou. A mesa posta. O colorido vermelho. A alegria de todos em volta. A cumplicidade. A solidariedade. A afetividade. Brindaram felizes. Sorriu satisfeita.

 

Feliz Natal. Disseram todos. Entre abraços e risos. Feliz Natal. Respondeu. Sorriu. Também em direção onde supôs escutar a advertência.

 

Acrescentou um brinde aos amigos.Palpáveis. Virtuais. Recentes. Antigos. Presentes. Ausentes. Distantes. Próximos.

 

Feliz Natal!

 

 


Dezembro 06 2009

 

O amanhecer fora suave. Ainda bem.

 

Sem muito sol. Nenhuma chuva. Nem muitas nuvens. Com leve azul. Um dia para ser seguido de acordo com a vontade de cada um. Cabiam todos os gostos. E estilos.

 

Pode se conhecer um pouco mais os habitantes de uma cidade - pela atitude da cidade em torno deles. Pela forma como é construída. Pela forma como é concluída. Ou mais ainda – pela forma como acolhe a demanda de cada um dos seus moradores.

 

Nas ruas e nos jardins as flores já se antecipavam ao calendário sazonal. Os tons variavam entre amarelinhos, rosas e roxinhos. Assim enfeitavam aqui e ali. Com uma delicadeza que dava prazer de olhar.

 

Até o Parque já mudara seus tons. Surgiu um festival de cores. Muito lindo.

 

No dia que avisassem – é hoje – já estavam em pleno acordo. Viva o tempo da Primavera. Nada mais de cinza. De preto. De marrom. De botas. De corpos recobertos. Do pudor excessivo do inverno.

 

Agora todos estavam coloridos. Sandálias percorriam rápidas as calçadas. Os gramados. Bermudas liberam os que os agasalhos por tanto tempo recobriram. O chão já não tem mais o brilho frio da garoa.

 

Não há mais temor no esbarrar. Já não há tanto caminhar de cabeça baixa. As pessoas olham para cima. Para quem passa.  Cruzam e entrecruzam as ruas e as vitrines. Mais expostas. Menos pudorosas.

 

Até os comerciais mudaram.

 

Nada mais de feira de linha. De lã. De malha. De couro. De vinho.

 

Agora é protetor solar. Mil marcas e ofertas. Cervejas. Refrigerantes. Frutas.

 

Já não há mais toldos. Aquecedores. Janelas fechadas. Nos bares - mesinhas nas calçadas. Nos restaurantes - cardápios giram em torno de saladas e bebidas frias.

 

Nunca notei. Até me surpreendi. Mas é verdade. Ri-se muito mais diante do Sol.

 

E foi diante deste cenário que ele sugeriu o lugar. Perfeito. Depois ainda poderíamos caminhar um pouco. E presentear a retina com as alamedas floridas. Estava iniciado o fim de semana.     

 

Ela chegou. Já devia estar na oitava década.

 

Bonita. Elegante. Uma blusinha fina de cor verde recobria um conjunto bege. A pele clara. Os cabelos grisalhos bem arrumados. Um sutil ar de segurança dava o arremate final.

 

Escolheu a mesa. Sentou-se com cuidado. Olhou em volta com pouca curiosidade. Parecia estar muito bem acompanhada. Com ela mesma. Olhou em direção ao céu algumas vezes. Logo que chegou. Talvez para conferir as possibilidades. Confiante na própria conclusão - acalmou-se.

 

Quando o garçom lhe entregou as opções - foi decidida. Iniciou com um vinho branco. Um comportado convidado – digamos assim. Servida – pareceu se deliciar com a escolha.  Daí em diante o mundo ficou bem particular. Comeu com parcimônia.

 

De vez em quando girava o olhar pelo ambiente. E dele também se servia. Mas nada que apontasse para algum tipo de busca. Mantivera a curiosidade. Mas já dispensara a ansiedade.

 

Ela estava só. Mas não solitária. Parecia brindar algum tipo de vaidade. De orgulho. Havia algum pecado capital em torno dela. E, certamente, festejado. Disso não havia dúvida.

 

Manteve todo o tempo uma expressão de tranquilidade. Fosse o que fosse que aprendera na Vida – dera-lhe boas alegrias. Algo por aí. Difícil entender a ideia atrás do gestual. Mas ela - mesmo discreta - era exposta. Ao menos o suficiente para permitir este risco de avaliação.

 

Com a mesma objetividade que se serviu – deu por encerrado. Recebeu um discreto cumprimento de quem a atendia. Devolveu na mesma medida.

 

Quando saiu deixou a taça ainda com um pouco de vinho. O guardanapo realinhado. A cadeira cuidadosamente recolocada na posição. Mesmo na ausência – deixou marcada sua sóbria elegância. Como um sinal de respeito – por onde passava. E se comprazia.

 

Olhei para as mesas em volta. Alguns conversavam animados. Outros mais cuidadosos como temendo ser escutados. Um casal trocava beijinhos carinhosos. Um senhor reclamava do trânsito constante.

 

Solitário é quem não participa. Ou se conclui dependente por antecipação. Quem assustado - se recolhe. Ou temeroso de se expor por si mesmo – se afasta da vida.

 

Eis o que ela me ensinou. Com sua taça de vinho e sua tranqüila elegância por companhia.

 

Comentei com ele enquanto caminhávamos pelas alamedas com florzinhas recém brotadas. 

 

 

 


Novembro 08 2009


Eis o estilo dela. Pontualidade.

 

Talvez mais que um estilo – uma necessidade.  Para o tipo de atividade profissional. Complicada. Dificultada -  por ser mulher. Não importam as feministas. As machistas. Ou contestadores de conceitos. Ou de preconceitos.

 

Há limites que permanecem até se apagados. Isso pode não ser provado. Mas por certo é comprovado.

 

Mas enfim. Sabia disso. Por isso era exigente. Mas consigo mesma. As barreiras eram muitas. As críticas estabelecidas. Chistes e slogans circulando. Quase ameaçadores em volta dos atos e decisões. Mas não introjetava tais textos. Lia e dispensava. Digamos assim.

 

Os colegas - todos do sexo masculino. Só ela ali. Sentadinha. Aguardando os chamados. Fingindo agrupamento. Mas se sabendo solitária.

 

Avisara pelo telefone. Ainda estou presa no trânsito. Chegarei dez minutos atrasada. Concordei. Sem problema. Ainda estamos dentro do horário.

 

Ela chegou. Sorrindo. Como sempre se apresentava. Feliz. Como sempre aparentava.

 

Viera de outro Estado. Do sul. Nem se lembrava do período de vida que não trabalhara.

 

O pai tinha uma pequena fazenda. Um roçado como se dizia de onde vinha. Enorme – sob os olhos infinitos das crianças. Talvez sem exagero – sob os olhos limitados dos adultos.

 

Viviam do plantado e criado. E por vezes do vendido. Assim passara toda a infância – sem consumismo. A adolescência - sem rebeldia. A juventude – esta já com muita fantasia.  Seis crianças. O pai e a mãe. Esse o seu universo por muitos anos. E a terra.

 

Ainda escuro o pai os acordava. A mãe os aconchegava. Não com beijos. Muito menos com afagos. Mas com o acolhimento – metaforizado - do calor.

 

O calor que já vinha da cozinha. Antes mesmo de saírem das caminhas - a casa já estava aquecida com o fogo aceso. O barulho das panelas de alças de ferro fazia coro aos galos e aves madrugadoras.  E estes aos pequenos bocejos das carinhas sonolentas.

 

A mãe fazia o pão. O pai fazia as linguiças. O irmão mais velho trazia o leite - ainda quente da recente ordenhada. Quando o dia trazia a claridade do sol – já estavam alimentados e a caminho da suas tarefas com a terra.

 

Faz uma expressão quase visionária. A terra a encantava.

 

A parte dela era cuidar das sementes. Jogava com sua mãozinha as bolinhas. E algum dos irmãos jogava a terra por cima. Riu. Sempre empurrava um pouquinho mais com o pé. Como se para ter a certeza de que não fugiriam.

 

Vai lá saber. O que pensa uma criança diante da terra e suas sementes. Mas assim fazia. O irmão já habituado - esperava. E só depois que ela repetisse o gesto - seguiam para o próximo cavadinho.

 

Adorava ver as sementes. E aguardar as plantas se erguerem do chão. Ficava fascinada. Por um tempo acreditou numa magia. Uma criação própria.

 

Tinha um duende lá debaixo. Que recebia os grãozinhos. E devolvia as plantinhas. Por isso tinha que agradá-lo com as sementes. Era o almoço do duende.

 

Nunca soube de onde tirara esta idéia. Mas também nunca comentou com a família. Esta sua idéia de Agricultura. Riu.

 

A vida se fazia em torno das estações do ano. Dos nascimentos. Lembra de temores. Se choveria muito. Se demoraria de chover. Se a geada impediria uma boa colheita.

 

Isso sim. Faz parte até hoje de alguns sonhos noturnos.

Mesmo já tão distante. No tempo e no espaço.

 

Agora estava aqui. Cercada de asfalto. De concretos. A vida mudara. Não tinha mais os pais. Os irmãos casaram. Novos núcleos se estabeleceram.

 

Somente ela viera para cá. Por motivos de casamento. Agora já desfeito. Preferia não falar sobre o ocorrido. Cuida de uma filha e dois netos.

 

O desjejum até hoje é um momento especial para ela. A única refeição do dia que sente enorme prazer. Ainda acorda cedo. Antes do sol nascer já está a caminho do ponto. Em seu carro. Ao serviço dos seus inúmeros passageiros.

 

Chegamos ao local combinado. Ela ressaltou. E no horário exato.

 

Ainda senti o cheiro do pão.

 

O orquestrado barulho das panelas substituiu buzinas e freadas. Vi o duendezinho recebendo as sementes pela terra úmida. Me surpreendi com o verde da planta nascendo.

 

Lamentei. O percurso fora curto para tão bela história.

 

Olhei para ela. Uma mulher jovem. No corpo. Na expressão. Mas principalmente - na emoção. Ainda estava com o sorriso que o relato associara. E conclui. Algo se mantivera. Ela continuava plantando. Semeando.

 

Olhei para o céu. Choveria. Sorri tranquila. Os duendezinhos por certo entregariam as plantinhas.

 

Assim iniciei a minha rotina. Assim ela prosseguiu com a dela.

 

 


Outubro 16 2009

 

É passional. Muito passional.

 

Sempre agiu assim. Já o conheci assim. Com o vermelho da emoção sobrecarregada – colorindo o rosto de linhas bem marcadas. Belo. Contrastando com o grisalho dos cabelos e o esverdeado do olhar. Um colorido explícito. Denunciava a alma – sem texto. Incrível. Foi a primeira palavra que me veio à mente.

 

Algumas vezes até o senso de justiça ficava um pouco de lado. Mas era atento. A injustiça lhe feria até a alma. Tentava sempre uma parceria. O passional com o racional. Nem sempre conseguia. Mas nunca desistia. E com o passar dos anos – foi ficando cada vez mais atento.

 

Tem um dom. Especial – como todo dom. Tem uma sensibilidade ímpar. Enxerga além do previsto. Ou até do malvisto. Mas só se expõe quando quer. Quando não – comporta-se como um trabalhador braçal. Enche-se de tarefas e silêncios. E age como se nada importasse. Assim se ampara. Assim se enfrenta.

 

Divide um estilo entre a timidez e a ousadia. Não sem alguma dificuldade na dosagem certa. A balança pode pender para um lado mais afoito. Ou menos objetivo. E – muitas vezes – o resultado foi negativo. Errou talvez mais do que acertou. Ou o contrário. Nunca se sabe mensurar com a certeza. Venceu grandes batalhas. Perdeu boas oportunidades. O tempo é autoritário.

 

Descobriu também depois. Mas aprendeu a conviver com o que não pode ser resgatado.

 

Este é mais um dos seus traços. Acata. Não se rebela se a luta é desleal. Lutar contra o Tempo – já se entra perdendo. Lutar contra as perdas – impede as novas conquistas. Nisso é um sábio. Nada de ficar correndo atrás de prejuízos. A vida caminha para frente.

 

Expõe a alegria pessoal com recato. Impõe solidão nos momentos de grande tristeza. Sobreviveu a dores e amores. Aos possíveis erros de avaliação. Às possíveis punições da credulidade da juventude. Agora – bem mais cuidadoso – se preserva. Melhor um pouco de charme bem dosado do que o coração aberto por inteiro.

 

Não perdeu um mínimo que fosse da característica sedutora. Ou da sensualidade. Sedução e sensualidade. Para ele – forças vitais.

 

Tem um olhar curioso sobre o Universo de uma forma geral. E um olhar disfarçado sobre as belas particularidades do mundo. Divide o que sente – com quem sabe escutar. Cala-se diante do desatento. Ou do seletivo. Não quer ser apenas instrutor. Quer mais. Quer talvez ser provocador. Provocar projetos. Provocar futuros.  

 

Tem ternura na alma. O desconforto do outro lhe causa dor. Enfim. É suave e forte. Como um poeta. Como um músico. Muito mais lhe importa a sonoridade das palavras. O brilho das cores. Ou o simbólico dos detalhes.

 

Aprendeu que nem tudo que é belo é real. E nem tudo que é triste é sofrimento.

 

E assim vai seguindo o caminho. Perseguindo os objetivos. Contornando as imperícias. Regozijando-se com as conquistas.

 

Foi o que pensei ao vê-lo hoje. Decidido. Já foi logo avisando. Desde cedo.

 

Não importa o Tempo. Muito menos a temperatura. Não importa se aquece. Não importa se esfria. Vou relaxar diante das águas. Vou ficar diante do vento. Vou buscar o equilíbrio. É só o que permite que se fique numa vertical. Assim. Entre o vento e a água. Vou dominar com os braços. Vou firmar com os pés.  Vou vencer sem contradizer. Vou entender a favor – estando contra. Ou vice-versa. Tanto faz. Vou aprender a ser. Muito mais do que a estar.

 

No começo pode-se cair. Músculos e pensamentos nem sempre andam de mãos dadas. Podem até se desentender. Mas assim é em qualquer aprendizado. Para cada código há uma leitura específica.

 

Por um segundo ainda olhou para trás. Ainda pensou em voltar. Mas este também não era o estilo dele. Uma vez diante de uma criação – seguia. Confirmava.

 

Quando uma ideia chegava de súbito – respeitava.

 

E esta viera assim. De repente. Num amanhecer cansado. Ou por um dormir angustiado. Vai lá saber. Mas viera. Isso o que importa. Iria sim. Buscaria os meios. Transformaria ideias em atitudes. Este outro dos seus traços.

 

E de traço em traço – como que deliberadamente – vai se compondo. Refinando a sinfonia interior. Tentando desenhar seu próprio destino. Cuidadoso. Como se utilizasse um pincel com um único pelinho. Pintando com delicadeza e sutileza. Mas com firmeza - e vontade própria - no risco.

Sempre fiel e leal – consigo mesmo. Com o vermelho no rosto. Ocasionalmente.

 

Inegável e proporcional. Além do sentimento afetuoso - o admiro tanto quanto o invejo.

 


Setembro 29 2009

 

Sim. Adorava a Lua cheia.

 

Estivesse onde estivesse – parava. Olhava para a Lua. Como se a visse pela primeira vez. Como – talvez - teria olhado a primeira pessoa. Com o olhar curioso. E a expressão surpresa. Diante da beleza de uma Lua cheia.

 

Brilhante. Como um farol - na noite universal.

 

Sempre pensava nas distâncias. Nas pessoas que estariam olhando. Em que outros lugares. Comentando com outros idiomas. Com outros sotaques.

 

Que contornos estariam sendo destacados. De flores em um jardim. De barcos em algum mar distante. De alguma casa simples num lugar deserto. Em algum pinheiral envolto em neve. Ou um simples terraço de um prédio. Urbano. Como estava ela ali. A Lua com qualidades altruístas. Dava-se. Expunha-se. Só isso.  

 

A cada Lua cheia - se sentia presenteada. Pela natureza. Pelo Universo. Até pela Vida em si. Não importava. Funcionava sempre como um momento de paz. Total. Absoluta.

 

E foi assim.

 

Estava descendo a escada. Viu que os degraus estavam claros. Uma luz vinha de cima. Olhou para cima. Despretensiosa. Até desatenta. Olhou como se olha. Sem preocupação de enxergar. Virou a cabeça.

 

Ficou surpresa. Fez até aquela voz que as crianças fazem. Um sustinho de alegria. Viu a Lua. Redonda. Linda. Pura luz. Atravessando o vidro do teto da escada. Subiu de volta. Já atenta e cheia de pretensão. Foi para o terraço aberto.

 

Deitou em uma cadeira. Ficou ali. Imóvel. Olhando. Como se diante de um espetáculo. Como se diante de um aviso. Silêncio. Onde qualquer movimento poderia prejudicar o efeito. Mais ou menos assim.

 

Lembrou de tantos lugares onde já tinha parado - para olhar a Lua. As lembranças vieram felizes.

 

Lembrou da primeira vez que foi lá. A cidade eterna. Subiu numa colina. Encostou-se na estátua da mulher heroína e ficou lá. A Lua cheia contornava a figura de pedra. A altivez da escultura parecia se submeter. A todo aquele brilho. Pensou. Nunca quero esquecer este momento.

 

Ordem dada. Ordem obedecida. Nunca esqueceu.

 

E já se iam tantos anos. Na época ainda era muito mais crédula do que observadora. Hoje era o contrário. Era muito mais observadora do que crédula.

 

Mais ainda olhava a Lua com olhos de infância. Quando tudo é simples e possível. Onde a beleza é apenas beleza. Sem questões de estética. Sem filosofias sobre a existência.

 

Lembrou também de quando estava lá ainda. Na cidade de onde viera. Lembrou do risquinho delicado da luz da lua no mar. De longe – lá do horizonte - até a espuminha da água na praia. Até a areia ficava mais clara. Branquinha. E quando criança saia em noites assim para catar as conchinhas. Conchas da noite são mais belas que as conchas do dia. Assim explicava. Vai lá saber por que.

 

E foi um tal de lembrar de Lua – e de luar -  que não acabava mais.

 

Lembrou até dos índios e a sua conta de nascimento. Quantas luas.

 

Lembrou dos contos assustadores. Sempre partindo das ideias dos adultos. Como se temessem. A luz de cima em meio à noite. Como se esta luz permitisse – expor o que não podia ou não devia.

 

A luz da Lua contornando também as maldades. Nunca havia pensado nisso. Só ali. Naquele instante.

 

O céu estava claro. Muito claro. Muitas estrelinhas. Desconsideravam a tal urbanidade. Não competiam com a luz dos prédios.

 

Um ou outro avião cruzava entre elas. Ficou imaginando se as pessoas dentro olhavam e sorriam emocionadas. Diante de tão perto da Lua.

 

Riu quando lembrou a amiga de além mar.

 

Uma noite ela falou via a comunicação habitual. Por letras e barulhinhos no teclado. Estou daqui olhando a Lua. Vai lá você também. Olha para ela. E assim – é como se estivéssemos nos olhando. Riu.

 

Há sempre um modo de se diminuir distâncias. E minimizar saudades.

 

Olhou mais uma vez para o céu. Sentiu o luar em volta dela. Brincou de sombras com o brilho por sobre as pedras do terraço.

 

Levantou. Encostou-se na muradinha com o gradil de ferro. Era esta uma noite de inverno. Sentiu um friozinho na pele. Quase um arrepio.

 

Antes de entrar jogou – com um sorriso - um beijo para a Lua.

 

Também não iria mais esquecer esta noite de luar no terraço. Ordem dada.

 

 


Julho 14 2009

Daqui dá para ver com clareza. O gestual dele. O aspecto excepcional. A tranqüilidade de alguma forma adquirida. A ocupação de alguma forma conquistada.

 

Ficava ele ali. Na janela. Por horas. Brincando de bolhinha de sabão. Um potinho. O arco. E as bolhinhas se fazendo, voando e se desfazendo. Umas - maiores.  Outras - menores.  Não tem hora. Não tem turno. De repente ele começa a sua possível tarefa. Dentro da impossível ordem.

 

Sopra com delicadeza, embora o corpo seja forte e pesado. A cada bolhinha para e observa. Inclina-se um pouco para frente. Como um observador do percurso. Segue com o olhar. Talvez esta seja sua única forma de se libertar.

 

Diante de todo um contexto aprisionado.

 

Quem sabe expressa sua imobilidade assim. Pela mobilidade das bolhas. Ou se faz identificado. Pela curta mobilidade. Iguais a ele – elas também têm o caminho limitado. Ou o tempo. Mas diferentes dele – elas podem sair e voar. Mesmo que depois desapareçam. Como fora de si – e conduzidas pelo vento - partir.

 

Não parece ser importante o tempo de vida. Das bolhinhas. Mas o tempo de fabricação. Assim se pode chamar. O tempo que começam a voar por determinação dele. Libera as bolhinhas. Dá uma espiadinha. Vê a saída delas. E já retoma a produção. E repete o gestual. Por horas. Calmo. Sereno.

 

Como deveria ser todo autor. Diante da própria produção.

 

Houve uma vez uma festa de Natal. Podia se escutar as vozes. Os barulhos. Observando bem podia até escutar o olhar dele. O olhar vibrava. Ansioso pelo presente. Mexia as mãos. O corpo dançava um para lá e para cá com ritmo compassado.

 

Entregaram.

 

Alguém veio. Abriu bem a janela. Ele acompanhou. Prepararam. E ligaram a máquina. Uma máquina de fazer bolhinhas. Assim. Prática. Ligava e elas saiam. Simples. E numerosas. Saiam aos montes. Muitas. De uma só vez. E voavam pela janela a fora. Com altivez. Independência. E com um barulho próprio. Uma mágica ao alcance de um aperto de um botão.

 

A princípio ele olhou. Parado. Nem ergueu as mãos. Nem acompanhou com o olhar.

 

As bolhinhas saíram pela janela e ele entrou para a sala. Assim. De imediato. Como um ballet sem música. Sem tempo de perdas. Mas carregado de perda de tempo. Com sincronicidade. Mas sem simultaneidade. Assim ficou diante da máquina. Que independia da vontade dele. Que substituía sua rotina por um aperto de botão. Não sabia como lidar. Parecia temeroso. Como se tivesse perdido o controle. Da sua vida. Da sua janela.

 

Não comandava mais. Havia uma validade na quantidade. E a ele agora não mais pertencia. Vivia sob controle. Agora perdera seu único comando.

 

Assim parecia expor. Com a saída da janela. Com o descaso com as bolhas soltas. Dispersas. Aos montes. De repente deu as costas para elas. E sumiu para dentro da casa.

 

A máquina, solitária, lá ficou por um tempo obedecendo ao botão.

 

Parou de brincar. A janela se fechou. Não mais aparecia.

 

Um dia a janela foi aberta. Ele veio feliz. Parecia feliz. Com o potinho. O arco.

 

Mas algo se modificara.

 

Antes já chegava libertando as bolhinhas. Desta vez - primeiro olhou. Em volta. Para cima. Para baixo. Para os lados. Até para dentro da casa. Segurava o potinho com um gesto protetor. O arco entre eles. Apertadinho na mão. Talvez buscasse a traição. Ou o descontrole. Parecia procurar pela ausência, muito mais que pela presença. Buscava uma certeza. Talvez tenha aprendido que até as certezas oscilam. E nem sempre estão do lado favorável.

 

Depois de todo esse cuidado colocou o potinho na murada. Acariciou o arco. Mergulhou no potinho. E sorriu. As bolhinhas saíram pelo mundo afora. De novo. Mas desta vez sob sua orientação. Sob sua guarda.

 

E manteve a produção de acordo com a própria vontade. Exibindo no rosto a expressão feliz de quem cria. Mesmo que depois perdesse o controle. Não importava.

 

A criação é mais importante que o prazo da entrega. Ou da durabilidade.

 

 


Junho 15 2009

A mocinha do boletim meteorológico parecia feliz. Avisava que os dias seriam lindos-dias-de-sol-de-verão. Acabou de informar e confirmar. E se despediu. Feliz quatro dias de feriados a todos.

 

Ela já foi logo se incluindo.

 

Tanto tempo sem sentir o sol na pele. Ou chovia. Ou ela trabalhava. Não havia sincronicidade. Do querer com o ter. Até se sentiu poeta. Poeta do sol.

 

Riu.

 

Mas agora ali estava ela. Com o sol. Sob o sol. E o restinho de óleo protetor. Avisava no rótulo. Anti-envelhecimento. Provavelmente para ambos. Para ela – para o óleo. Confiou nisso naquele momento. Aliás – naquele momento – ela era a imagem caricaturada da confiança.

 

Ele permitira. Poderia, sim, ficar lá embaixo. Tinha um espaço disponível. Não tinha cobertura – mas a mocinha do boletim meteorológico informou que não choveria. Combinado. Ele ficaria lá então.

 

E o terraço se transformou. Só dela. Viva o doce sabor do egoísmo. E ainda tem gente que discursa contra. Nem pensar. Achou que até escapou um obá.

 

Quatro dias de folga. Plenos. De sol. De céu. De dolce far niente.

 

Esparramada. Pensou esta palavra letra por letra. Assim ficou na espreguiçadeira. Palavras perfeitas. Ambas.

 

Levantava. Caminhava. Sentava. Deitava. De vez em quando recordava a adolescência. E conferia as diferenças de marcas entre o exposto e o oculto.

 

Na água estava a cadeira. Inflável. Quase uma chaise longue. Já estava até sofisticando os pensamentos. Riu de novo. Mas lá estava. Balançando com absoluta serenidade sobre a água. Quem inventou o inflável entendia de prazer. Seja qual for o viés. Cada um com seu pedido. Ou com sua idealização. Mas quem inventou sabia. Inflável. E ela inflada. De pueril alegria.

 

E nem precisava dizer aquelas três palavras. Saia – Fora - Não. Pensou até que elas tinham saído do dicionário. Riu de novo. Estava mais que poeta. Já estava também filósofa. Viva o ócio. Sempre dizia e repetia. Só falta agora o ócio aceitar o convite. E ir morar para sempre a lado dela. Como feliz e inspiradora companhia.

 

Abriu as portas. Todas. Do quarto via o mundo. Os prédios. O céu. A luz entrava sem formalidade. Já com a intimidade de quem sabe. O tamanho da permissão. E ainda sem as três palavras. Aquelas que nem vale repetir.

 

Não é porque não as pronuncia que vai ficar lembrando. Não teria sentido. Sentido. Outra palavra perfeita. Falta em sentido tudo o que sobra em sentido. E por ai vai.

 

Um chá. Já estava na jarra. Em cima da mesinha. Geladinho. Por sobre uma toalha branquinha. Feita de uma fibra especial - a toalha. Presente que recebera de lá. Onde tudo é aproveitado, apreciado e vendido. Naquele mercado. Um modelo.

 

Com a porta aberta do quarto o som se fez intenso. Colocou as músicas preferidas. Alternando. Entre ritmos e tons. Entre líricos e populares. Os ouvidos também merecem uma festa. Não é festa só de olhos. Ou só de pele. Ou só de economia de palavras. Se não se toma um certo cuidado - a imaginação pode acabar ficando deficiente.

 

Há algum tempo começou a entender as mil artimanhas do prazer. Tudo que tem que ser igualmente satisfeito. Vai ver por isso prazer é sempre da ordem do difícil. Ou do impossível. Nisso as queixas sempre vencem. Qualquer queixa, por mais tola que seja – convence. Queixa já é da ordem do perfeito. Do completo. Nem bem formulada – já incorporada. Tão diferente do prazer. Este nem bem formulado – já inacabado.

 

De repente o vento mudou. A cor do céu também. Viu um traço luminoso ao longe. Um risco. Seguido de outro. E mais outro. O que poderia – talvez - ser chamado de uma nuvem se aproximava. Era uma formação escura. Densa. Decidida. Pareceu estacionar. No exato espaço sobre a espreguiçadeira. Sobre a cadeira inflável. As toalhas, subitamente desarvoradas, dançavam sem rumo e sem ritmo. Assim. De repente.

 

Queria saber como encontrar aquela mocinha. A do boletim meteorológico. A que descreveu os dias de feriado. Como uma tela. De impressionista.

 

Mudou rápido o pensamento. Onde ele estava não tinha cobertura.

 

Correu. Fechou a espreguiçadeira. Esvaziou a cadeira inflável. Recolheu as mesinhas. Cobriu as marcas da diferença. Deu adeus à recriada adolescência - tão rápido quanto à verdadeira.

 

Ele subiu. Olhou para o terraço. Marcou imediatamente o espaço. Deitou no meio dele. Desconsiderou a chuva. A cobertura.

 

Lembrou de um desenho animado. Havia um deles. Sorria por entre os dentes a cada batalha travada e vencida com algum humano. Teve a impressão que ele fizera o mesmo. Tinha certeza de que escutara um riso fino. Seguido daquelas três palavras. E dirigidas a ela. A ela.

 

Fechou as portas. A chuva continuava. Os tracinhos luminosos ainda riscavam o céu acinzentado. Ele ainda deitado no terraço. As cadeiras amontoadas na salinha. O chá descuidado sobre a escrivaninha. Num cantinho, murcha, se acomodava a ex-sofisticada chaise longue.

 

Relembrou. As “erínicas” três palavras. Mas não as verbalizou. Em nenhuma direção.

 

Silenciosa, ligou a televisão. Alguém oferecia um novo tipo de desodorante. A uma mocinha que precisava não suar no calor.

 

 

Riu. De impressionista a realista foi um pulo quase tão rápido quanto aquela demonstração de verão.

 

Perdoou - a mocinha relatora do boletim meteorológico.   

 

 


Maio 30 2009

Naquela manhã acordou como sempre - pontual e correto em suas atitudes. Mantendo a responsabilidade. Não se atrasava. Lá se foi. Dirigindo e concluindo os pensamentos da noite.

 

Sempre tranqüilo. Muitos o citam até como o único completamente feliz.

 

Está sempre bem. Fiel e leal às suas propostas. Bem-humorado. Solidário.

 

Tem um estilo pragmático. Sem atos emergenciais. Não gosta de precipitações. Ou melhor, não gosta mais. Afasta qualquer possibilidade de fantasias sem fundamento. Ou de ideal romântico. Nisso não acredita mais. Mesmo tão jovem. Pesa com cautela as atitudes. Tudo tem risco. E preço. Portanto é sempre bom regatear nos impulsos.

 

Estacionou o carro. Iniciou as tarefas do dia. Não são poucas. É bem titulado. Tem muitas atribuições. Nem teve mais tempo para pensamentos filosóficos. Nem nas conclusões da noite. O dia já estava a cumprir sua finalidade. Da lógica à logística.

 

Esta era a sua rotina. Neste dia teve algo diferente. Não demorou muito e recebeu uma mensagem da Diretoria. Que para lá se dirigisse. De imediato. Ainda encerrou o que fazia com calma e - obedeceu. Subiu.

 

Nunca se soube de uma Direção que não fosse em cima. Acima. Deve ter alguma simbologia. Além da óbvia. Pensou nisso também enquanto subia. Deu até uma risadinha. Nos tempos atuais não é das melhores mensagens. Dirija-se imediatamente à Diretoria. Mas o amadurecimento para não ser precipitado incluía também sustos. Não tomava sustos antes que o susto chegasse. Não tremia em pré. Só em pós. E se assim se fizesse necessário.

 

Tremera em pré e em pós quando o irmão se submeteu a uma cirurgia. A uma dolorosa e demorada cirurgia. Neste dia sim. Perdera o amadurecimento. O pragmatismo. A racionalidade. Ali o corpo tremeu. Diante. Depois. Durante. Foi esta uma das raras vezes.

 

Sorriram quando entrou. Convidaram a sentar. Sentou. Sorriu de volta.

 

Apertos de mãos. Abracinhos. Aceita algo para beber. Um cafezinho. Água mineral com gelo e limão. Fique à vontade. Ele ali. Agradecendo e esperando. E vice- versa.

 

Um deles levantou e entregou uma papeleta. Para que assinasse. Explicou antes que ele lesse. Representaria a empresa numa reunião internacional. Uma reunião de todas elas espalhadas pelo mundo. Seria um conferencista. O representante deste país na conferência. Hoje é segunda. O vôo sai na sexta à noite. Ficará por dois dias na metade do percurso. Depois seguirá para lá. O mesmo será feito na volta. A diferença de fuso é melhor aceita pelo corpo com esta divisão. Aqui está o seu tema. Boa sorte e parabéns. A empresa reconhece seus méritos e tem total certeza da escolha correta. Combinado. Então fechado. Apenas se organize para uma semana fora.

 

Desceu. Não contou se tremeu. Mas nem quis elevador. Preferiu mesmo as escadas. Desceu os degraus como que para acordar. Viver este segundo despertar. Com parcimônia. Passo a passo. Mas sorrindo. Sozinho. Por dentro. Por fora. Pelos olhos. Pelos cantinhos. Fez uma busca geográfica.

 

Restava uma dúvida localizatória. Com exatidão. Procurou no mapa. Mais sorrisos. Então era ali que ficava. Dez horas de fuso. Ainda bem que tinha a tal divisão. Passaria dois dias lá na ida e dois dias na volta. No meio – o local a tal conferência.  Já se imaginou até amigo do jornaleiro. Acenando na despedida. Riu. Estava feliz. Muito feliz. Uma viagem premiada. Já viajara muito. Desde bem pequeno. Mas nunca imaginara em ir até lá. Nem no mais sonhado dos sonhos. Ou nas mais ousadas fantasias megalomaníacas.

 

E lá estava. Com passagem. Hospedagem. Protagonizando uma conferência. Tendo a curiosidade como parceira. Uma semana. Sorriu.

 

Avisou primeiro à mulher. Recém casadinhos. Ela não sabia se ria ou chorava. Ganhou o riso solidário. Depois a família. Não faltaram risos e parabéns. Festejos. Palavras de entusiasmo.

 

Na primeira parada olhou para o alto. A cidade construída. Sem passado. Só presente. O passado se representava pelo estilo das pessoas. Não pela arquitetura. Cada um contava – através do rosto e da indumentária – uma parte da história de um povo. As construções pareciam de cidade do futuro.

 

Como aquela do desenho animado da sua infância. Olhou para cima. Os imensos prédios. Os reflexos de uns nos outros. Parecia uma cidade dentro de cidade.As poucas pessoas circulando pelas ruas. Os belos e numerosos carros nas avenidas. As roupas. Os que seguiam a tradição - rigorosamente. Os que abriram mão dela - rebeldemente.

 

No começo da tarde foi para um passeio. No deserto. Continuou olhando para o alto. Para o sol. Depois para o pôr-do-sol. Para a imensidão de perder de vista. Para aquela luz mágica.

 

De uma esquina para outra parecia ter mudado o século. De um desenho animado futurista para outro - da idade da Terra.

 

Enviou uma foto. Sorrindo. Lindo. Feliz. Montado no alto de um camelo.

 

Viva a Vida e suas surpresas. Ergueu um brinde – ao Alto.  

 

 

 


Maio 07 2009

Estava decidido. Passaria o final de semana em casa. Lendo. O livro dele - a fascinara. Mais uma vez. A cada nova frase lida – quase uma hora de silêncio. Tentando entender todo o processo. O que gerou a frase. E o que a frase gerava. Até riu. Seria lido com calma. Não sabia por quanto tempo. Não que fosse volumoso. Em páginas. Era volumoso fora das páginas. Maravilhoso. Ele era e sempre seria seu autor favorito.

 

Havia o título. Começou a se apaixonar desde o título. Na hora nem se dera conta. Do por que o título também a atraíra. Assim são os livros. Ou os autores. Escrevem uma idéia. E são desapropriados dela por quem os lê. Assim. Desde o titulo. Enfim. Que cada um se utilize do fato. Como sendo fruto do próprio ato. E em meio às páginas sigam as duas trajetórias. Compondo e descompondo a cada nova linha.   

 

Era um mar calmo. O céu estava azul. E fazia aquele barulhinho doce. Suave. De ondinhas quebrando. Na areia. Tudo que uma criança compreendia. Tudo estava ali. Ela era bem pequena. Não diria corajosa. Era afoita e curiosa. Talvez termos mais adequados.

 

Lembrava do final de tarde na praia. Em especial daquele final de tarde. Ele veio e perguntou. Quem queria passear de jangada. De jangada. Ele estava ao lado dela. Recusou. Temeu. Ela concordou e o abraçou. Considerou prudente. Não ir.  

 

Ela olhou. Para o mar. Para a jangada. Para as pessoas que iriam. Sorriu. Decidiu e avisou. Eu vou. Assim. Com a voz de criança. Com a decisão tranqüila. Que só as crianças sabem ter. Não temem pelas escolhas. Porque não temem ainda pelas perdas. Para as crianças o mundo realmente gira. E trás de volta o que não pode ser escolhido num mesmo momento. O depois - é logo ali. Não existe a possibilidade do nunca mais. E quando existe o nunca mais a tradução é outra. É como um talvez. A infância é sempre talvez.

 

Enfim. Deu a mão a ele. Entrou correndo na água. E subiu na jangada.  

 

A jangada dançou. Na água salgada. Com pontinhos brilhantes aqui e ali. Balançando. Alternando as madeirinhas. Dentro e fora da água. Ele ficava de pé. Segurava o remo. Um banquinho de madeira amparava uma sacolinha. Uma rede. Se ninguém ia sentar – ela também não iria. Também ficou de pé.  

 

Ela segurou na mão dele. E sorria. Feliz. Olhou de volta para a areia. Ele ainda estava lá. Abraçado a ela. Sentiu aquela pontinha de orgulho. Não recusara a enorme aventura. Deve ter até erguido mais a cabecinha. Mas disso não lembrava. Lembrava dos pés. Lembrava que olhou para os pés. E viu que a água entrava por entre as madeiras. E daí por entre seus dedinhos. Fazia cócegas. Achou maravilhoso. Maravilhosa a sensação.

 

O jangadeiro olhava para ela e mostrava o mar.

 

Explicava o mar. Ela atenta. Nunca mais na vida esqueceria aquela explicação. E nem esqueceria que para entender o mar é preciso uma explicação. O mar não é assim tão simples. Água. Sal e onda. O mar é outro lugar. Que também tem suas curvas e suas retas. Seus mistérios e seus códigos. Tudo vai depender da explicação. E do conhecimento. De quem o apresenta. Sempre que ia para o mar - lembrava dele. E da seriedade com que explicava. E a concentração que ela ficava. Para que nada deixasse de ver.

 

Escutando e olhando. Sentiu-se diante de uma majestade.  

 

Ali ficara não por muito tempo. Aprendendo sobre jangadas e mar. Sobre mar e coragem. Sobre riscos e efeitos. Hoje sabia que fora um passeio curtinho. Na época se sentiu uma desbravadora. Como se há dias no mar.

Riu das lembranças.

 

O livro, que estava no colo, escorregou. O segurou antes que caísse. Releu o título. Aí então compreendeu. Acariciou a capa. Sorriu. Olhou para os próprios pés. Brincou com os dedos no tapete. Em terra firme como na água. O que valem são as sensações.

 

Lembrou da amiga. Que tinha um amigo indiano. Um dia ela lhe contara algo que ele falara.

 

É preciso um espaço para que a pena flutue – tranqüila. 

 


Abril 30 2009

Começou a contar de repente. Tão de repente quanto a lembrança veio. Pelo menos assim conclui. Como dizia a minha avó. Jamais perca a chance de escutar as lembranças, menina, jamais perca a chance.

 

Lembrança é coisa séria. E muito mais séria se da infância. Porque é uma lembrança constituída. Construída. Esclarecida. E, principalmente, não compromissada. Assim são as lembranças da infância. Não nos deixa dúvida. E nos deixa em dívida. Com a nossa memória. Com os nossos prazeres. Que depois até se multiplicam. Ou podem se multiplicar. Mas nunca igual como na infância. Com aquela sensação plena de prazer. Que toda a infância envolve. Seja de que forma for. Não tem preço. Nem taxa cambial. Muito menos selo de made in. Tem que ver com entrega. Com aceitação. Com riso. Estes sim. Os indicadores do afeto. Como um mercado de afeto sem nota fiscal. Mas com o aval do olhar.

 

E ele contou. Quando se sentiu familiado. Assim mesmo. Familiado. Que nada tem que ver com familiarizado. Estava certo. Familiado é integrado. Juntado. Compartilhado. Familiado diz muito mais. Mesmo que não se fale assim. Não importa. Sente-se assim. E explica-se bem melhor. Pela primeira vez estava entre tios e primos. Entendi.

 

Lembrava da voz dela. Melhor dizendo. Lembrava das palavras dela .Porque do rosto esquecera. Perfeito.

 

A voz dela orientava. A olharem para o céu. Lá veriam uma barba branca esvoaçada. Uma mão esticada segurando uma cordinha. Do trenó. E muita cor. No meio da noite. Que estava já chegando a hora. Lembrou de várias cabecinhas viradas para cima. Como devem ser os bons sonhos. Lembrou que olhou. Nem precisou se esforçar muito. Porque logo viu. E feliz riu. Era verdade. Exatamente como a voz descrevia. Viu tudo isso. Viu até barulho.

 

Viu o vento na barba. Viu que os presentes meio que se batiam uns nos outros. Muitas caixas. Mal cabiam naquele espaço. Mas cabiam. E nem caíam. Escutou os sinos. Escutou risos. E muitas cores. Muito brilho. Uma luz toda especial. Em cima dos presentes. Das fitas e da barba.

 

Alguém os mandou dormir. Para que pela manhã estivesse já tudo arrumado.  Obedeceram. Obedeceu. Foi dormir pensando no céu. No vento. Nas cores. Na barba. Dormiu em meio a esses quadros. A essas imagens. Mágicas.

 

Quando acordou pela manhã teve que segurar o rosto. Com as duas mãos.

 

Em volta da enorme árvore estava uma montanha maior ainda. De presentes. Muitas caixas coloridas. Sentiu-se de novo familiado.  Ele vira o percurso. Enxergara no céu. Sabia como tinham chegado ali. E como fora difícil com o vento que fazia.

 

E eles ali. Descabeladinhos. Descalços. Com uma pressa que jamais sentira de novo pela vida a fora. Com tamanha urgência e ansiedade. Era preciso abrir logo. E cada um tinha um nome. Era preciso ver seu nome. Alguém tinha que ler seu nome no pacotinho. Para tomar posse como destinatário.

 

Engraçado como isso depois se torna comum. E sem brilho. Ou sem aquele brilho.

 

Não lembrava a comida. Não lembrava o depois. Lembrava do seu presentinho. Uma imensa carruagem. Com lona. Com cavalinhos. Com rodinhas que giravam. Olhou encantado. E cada um deles abriu o que era seu. Em nome e - por conseqüência - em direito. Passaram o dia brincando. De vez em quando ele olhava para o céu. Queria poder agradecer. Mas não via o dono da barba.

Achou que nunca mais o veria. Depois daquela noite.

 

Em meio ao relato da lembrança riu. Riu mesmo. Não devia ser uma montanha. De presentes. Não devia ser enorme. A árvore. Nem devia ser tão grande. A carruagem.

 

E fez um gestual imaginário. Um muito obrigado. A quem não teve a idéia - de fotografar.

 

A criatividade na descrição de uma lembrança dá muito mais realidade do que uma foto. Uma foto apenas expõe uma cena. Congelada. Nada mais que isso. Não revela a dimensão. Do que se vive na hora. Da foto.

 

E ele, que vivia em volta de papéis, pela primeira vez ficou feliz com a falta de documentação histórica.

 

Riu. Deu um salto da poltrona. Assim. Sem mais nem por que. Olhou atentamente para o céu. Teve uma súbita impressão. De ver um sorriso cúmplice. Dirigindo-se a ele. E meio encoberto. Por uma barba branca.

 

Tranquilo, sentou de volta na poltrona. E com uma suave sensação - de agradecimento cumprido.

 

 


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