Blog de Lêda Rezende

Novembro 06 2009

 

É uma época de riscos. E de perdas.

 

Isso sem dúvida. As noticias tristes se sucedem. Não adianta fingir que não está acontecendo. Está. É. Cada um com seu temor. Cada um se ausentando de uma socialização. Férias se prolongando.  As ordens são de privacidade.

 

Que os grupos sociais se preservem – se dissolvendo. Esta a tentativa de evitar a propagação.

 

Fosse vivo o mestre surrealista – até ele se assustaria. A Idade Média contracenando com a Idade Contemporânea.

 

Ele chegou. Impossível passar despercebido.

 

Lindo. Cabelinho no corte moderno. Os fios na contradição da Gravidade. A queda da maçã em desafio por um punhadinho de gel. E ele todo orgulhoso da imagem. Perfeito.
 

A mãe segurava-lhe a mãozinha. Ele caminhava confiante. Pequenino – mas confiante. Tinha um jeitinho de feliz. Olhava com atenção em volta. Caminhava entre apressado e contido. Uma tossezinha atrapalhava os comentários que fazia. O vermelhinho do rosto denunciava uma temperatura fora do padrão. Mas parecia desconsiderar.

 

Ela veio. Conferiu a rotina da chegada. Escutou a história. A queixa da mãe. Os sintomas dele.

 

Ele ficou sentadinho. Talvez esperando que o chamassem. Ou só exibidinho em sua arrumação. Vez por outra tocava nos cabelinhos eriçados. Verificava se a desordem estava em ordem. E abaixava as mãos - mais tranqüilo. Como se os próprios dedos valessem por um espelho. Mais uma vez - perfeito. Sábio até. 

 

Ela veio. Sorriu para ele. Fez um comentário para a mãe. Colocou os dois sentados juntos no final da sala. Na última filinha de cadeiras. Só eles.

 

Fez para ele um gracejo. Depois foi colocando uma máscara. No rosto dele.

 

Informava com segurança na voz. Isso não dói. E - objetiva - amarrou os lacinhos da máscara por trás da cabecinha dele.

 

Foi um ato e um gritinho. Assim. Dupla geminada. Sincronismo absoluto.

 

Ele chorou.

 

Ela – surpresa - se assustou. Até se afastou um pouco. Demorou a entender.

 

Quando a dor não é física – fica-se com uma dificuldade maior ainda de mensuração. Ou de compreensão.

 

Mas ele continuou com seu protesto.  Chorou alto. E disse com a voz filtrada pelo material sintético. Estou com medo disso. Desta máscara. Não quero. Quero ir embora. A mãe o acarinhou.

 

Alguém veio em direção a ele. Com voz calma. Explicou. Você agora é o super herói. Por isso está de máscara. Eles todos usam também. Está tão bonito assim. E nem sabemos mais quem é você agora. Igual a um super herói. Ninguém sabe quem é ele e nem o nome dele.

Falou nem tão perto – nem tão longe. Poderia dizer – reservada. Mas tentou assim consolar.

 

Esta foi uma das cenas que não se esquece.

 

Ele parou de chorar. Dava para ver os olhinhos dividindo o espaço com o tecido verde da máscara. Por cima do nariz. A sobrancelha erguidinha. Virou o rosto semi -coberto. E disse. Mesmo com a voz entrecortada. Não sou super herói. Mentira. Ela disse que estou doente. Por isso estou de máscara. Para que ninguém mais fique doente. Super herói não fica doente.

 

Alguns que escutaram – riram.

 

Lembrei do filósofo estudioso do riso. Tem razão. Só é cômico o que excede o trágico. Aquela cena era trágica. Pior ainda. Era também um paradoxo. Não tinha como ser resolvida. Tinha como ser acatada. São ordens. Foi o que ela falou. São cuidados necessários. Completou alguém duas filas à frente.

 

Falou ainda chorando. Manda pararem de me olhar.

 

Submetia-se a uma súbita exclusão. Cuidou da imagem antes de sair de casa. E justamente a imagem – o primeiro item a ser ocultado. Sugeriam ser um super herói. Mas o colocaram sentadinho - distante. Parecia ter um objeto que o escondia – mais se destacava exposto.


O olhar do outro que autoriza. Ou desautoriza. E isso ele sabia ler muito bem. Melhor que qualquer um. Escrevia seu texto como se a folha em branco só a ele pertencesse.

 

Só não sei se pior - ou melhor - do que o espelho.

 

Quando o chamaram pelo nome - olhou para a mãe. Ajustou melhor a máscara. Não passou a mão mais nos cabelinhos.

 

Com voz conformada perguntou: sou eu?

 

 


Novembro 02 2009

 

Ele veio de lá. Feliz.

 

Fazia já alguns anos que não nos víamos. Trabalhamos juntos por muito tempo. Saíra de repente. Mal nos despedimos. Questões burocrático-egóicas. Algo por aí.

Estas são sempre as grandes questões. Sempre nascem desta dupla. Mal explicada. Mal conjugada. Ou muito mal dissociada.  Mas imperiosa.

 

Quando sobra hífen - não há o corte no momento certo. E apagam um espaço. Mais ou menos assim.

 

Minha avó nunca deixou de avisar. Muito eu é sinal de pouco meu, menina, muito eu é sinal de pouco meu.

 

Acho que só hoje entendi o que ela falava. Foi preciso anos e anos para assimilar. A linha quase transparente entre o eu e o meu. Sábia - sempre.

Mas desci. Direto para o local indicado.

Tinha uns exames a fazer. Estava entre corajosa e temerosa. Exames nunca são da ordem do conforto. Ou da diversão.

Mesmo que alguns estudiosos digam o contrário. Ou os seguidores do Marquês. Não faltam teorias. Apologias. Tratados. Mestres de todo o mundo. Austríacos. Franceses. Portugueses. Italianos.

 

O mundo girando em volta de uma dolorosa teoria. Sobre dor e alegria. Sobre sofrimento e satisfação. O homem sendo apto para a dor. Muito mais do que para prazer. Até os poetas se manifestam - sofrer por amor.

 

Nem sei quem são esses. Os estudados.  Os aptos para a dor. Eu não. Detesto dor.

Foi assim que desci. Com este pensamento tentando ocupar o outro.  O dos exames. Brigar com estudiosos de nada resolve. Mas ocupa o espaço do medo. Para isso resolve. E muito.

 

Afinal nesses tempos de tantas contínuas e perigosas mutações – exame é indício de risco. Ou de contaminação.

Não era a situação do momento. Mas não tinha escolha. Era fazer os exames.  Anuais. Rotineiros. Necessários. Procede. Obrigatórios. E pronto. E assim continuei.  Me repetindo – para me ordenar. Obedeça. E pensar que sempre fui rebelde. Nada de temer agulhas. Onde já se viu.

 

Tudo bem. Obedeci.

Foi em meio ao local do exame que o avistei. Eu entrando na sala dos exames. Ele na sala do atendimento. Em frente.

Vi que abriu os olhos. E sem metáfora. Abriu mesmo. Se surpreendeu. Veio em minha direção. Passos apressados.  Com um sorriso. Expressão de confraternização. Desconsiderou as limitações.

 

Foi logo avisando. Em pé diante de mim. Voltei.

 

Como se a materialização não fosse confiável. Apenas suposta. Respondi com um chiste. O bom filho à casa torna.

E fiquei observando.

 

Por que – voltar - se transforma em ato. Muito mais do que em fato. Precisa de desculpas. Sempre. 

 

Cada um com suas demandas. E espelhos.

 

Informou. Esta é a primeira vez. Nunca voltei de onde sai. Repetiu muitas vezes. Esta é a primeira vez. Continuou se explicando. Devia ser importante para ele. Se sentir convidado. Ou aceito. Ou vai lá saber o que.

 

Eu até ri. E falei. De onde saiu – ou para onde saiu. Desconsiderou. Fez bem. 

E continuou desconsiderando. Estes exames vão resultar todos normais. Você está ótima. Agradeci. Um lorde em termos de gentileza.

 

Vamos lá. Tomar um cafezinho. E você me conta desse longo tempo - que você continuou aqui. E eu lhe conto do meu - que fiquei tão distante daqui.

 

Ela. Convidei mas não quis voltar. Casou. Neste último verão. Está feliz. Ele. Sim. Desde que saiu também está em outra Instituição. Ele. Não está bem. Acho que precisa voltar. Ele. Também não se acertou. Quem sabe também volta. Ele. Está feliz com o novo cargo.

Falamos em poucos minutos. Mas acho que nunca falamos tanto. Soubemos dos amigos. Contamos de nós mesmos. Rimos das consequências  - e até das causas.

 

Voltamos rápido para as nossas atividades. A rotina – digamos assim - estava lotada.

 

Olhamos um para o outro. De repente. Com expressão de susto-risonho.

 

Esquecemos o cafezinho. Intacto. Em cima da mesa. Rimos.

 

Não importa. Tem café em todas as estações do ano. E em todos os horários. Até qualquer outro intervalo. Qualquer dia.

 

Foi a primeira vez que voltei de onde sai. Repetiu. E completou. Mas estou feliz por isso.

Ri. Viva a sexta-feira.

 


Outubro 20 2009

 

O aviso veio explícito. Claro. Objetivo.

 

É proibido beijar. É proibido abraçar. É proibido falar muito próximo.

 

Fiquei observando. Os comportamentos de cada um. À proporção – e este é o termo exato – que ela avisava. O olhar. A expressão facial. O gestual.

 

Diria até que se estava mais próximo a uma equação. E muito longe de um simples aviso com palavras. Ou com explicações. A equação de cada um que escutava não se somava com a do outro. Não havia uma conta. Ou uma soma. Nem uma divisão. Ou um parêntesis. Talvez – com muita benevolência - um x. 

 

Havia subitamente o conjunto vazio. Assim. Corpos estanques. Algo por aí. Quase uma matemática. Não fosse eu péssima com números e equações. Mas foi só o que me ocorreu enquanto olhava.

 

Este tipo de aviso - expõe.

 

Cada um a buscar em seu próprio corpo o limite de si mesmo. O corpo como uma prioridade extrema. Dava até para dizer que transcendeu a idéia da matéria em si. Uma metafísica ao contrário.

 

Provocou uma certa sonoridade. Pelo discreto re-acomodar nas cadeiras. Já todos se entendiam - num total conformismo com o distanciamento afetivo.

 

Ela que veio avisar – avisou rindo. Como se alheia estivesse ao ambiente. Ou ao risco. Deve ser como jogo de criança. Ganha quem fala primeiro.

 

Foi só o que me ocorreu ao vê-la dar um tom chistoso. Nem de longe pensei em associar ao Marquês. A dose do Marquês já está creditada em excesso.

 

Mas enfim. Deu um ar cômico diante da interdição. De repente - completou. Nem aqui – nem em casa. Cuidado com os familiares. Não teve jeito – venceu o Marquês.

 

Tudo começara com uma gripe. Desta vez. É o que parece. Porque impossível não generalizar. Algo como cíclico. As perdas diante dos desconhecidos, conhecidos e próximos – põem Dor como alvo. Para que o esclarecimento se faça objetivo. Procede.

 

De tempos em tempos – desde a antiguidade - surge uma doença universal. E lá se vem o isolamento. Não só dos doentes. Mas – e principalmente - dos sadios. Uma triste poesia abstrata. Todos lêem. Acreditam. Até se emocionam. Mas cada um vai compor as suas rimas da forma que mais se proteja. Também procede.

 

E existe nada mais imperativo de proteção - do que a interdição dos afetos.

 

Incrível. Como uma interminável expiação de culpa arcaica. Mais ou menos assim. Complicado definir a demanda individual diante de um temor coletivo. Ou o contrário.

 

Após o aviso não havia mais diferença entre o disfarçado temeroso e o suposto infectante. Ambos circulavam - quase igual a um falo. Da posse de um para a posse do outro. Cada um como portador exclusivo da praga.

 

Diante do outro também portador exclusivo da mesma praga. Um espelho - sem o país das maravilhas. E sem o coelho. Vai ver por isso se perdeu a hora.

 

Não faltaram as piadinhas defensivas. Uma forma suavizada de acatar. E – ao mesmo tempo – justificar. Não sei se conto em casa. Ela vai perguntar com quem me beijava aqui. Ainda bem que tenho um namoro virtual. Posso mandar beijo o tempo todo. Vou arrumar também um marido virtual. Por isso prefiro só meu cantinho. Nada de parceiros. Solidão faz bem à saúde.

 

E assim este dia seguiu. Cada um como seu advogado. E promotor do outro. Ou até um vice-versa cabe aí.

 

Quem chegava para as consultas oferecia e recebia um formal, polido e adequado - cumprimento. As salas sempre que possível - ficaram com portas abertas. É preciso que o ar circule.

 

Até ri quando escutei este comentário. E lembrei as tantas e tantas placas que têm nas ruas daqui. Nunca feche o cruzamento. Via alternativa. Não ultrapasse a faixa amarela. Via com câmeras filmadoras.  

 

Agora é preciso acrescentar mais uma. Interna. Privativa. Asséptica. Para combinar bem com o Lugar. Para fazer parte – se acumpliciando. Não importa se é social. Cordial. Fraternal. Sensual. Não há diferença. Novos tempos. Real e triste. Beijar não faz só sapinho. Beijar faz porquinho.

 

Nem bem tinha encerrado este pensamento - sobre os trilhos - e entraram duas pessoas. Estava super lotado. Pelo horário e pelo dia. As pessoas se amontoavam. A pressa do retorno era bem maior que a lógica do espaço.

 

Mas enfim. Eles entraram. Um homem e uma mulher. Seguravam as barras de ferro. Cuidavam para não cair sobre os outros. Ou os outros não caírem sobre eles. Estavam de máscara.

 

Impossível não parafrasear o mestre inglês. O resto é silêncio.

 

 


Julho 26 2009

 

Acordou com o dia já programado de véspera.


Adorava isso. A sua programação adiantada. Dormia sabendo o dia seguinte. Mais ou menos assim. Não era metódico. Nem obsessivo. Era programado. Palavras com sentido diverso. E funcionalidade ainda mais diversa.


E assim seguia seu estilo. Alguns até opinavam. Faziam elucubrações carregadas de teorias sobre o ato em si. Dava de ombros. Escutava mas não antagonizava.


Alguém um dia lá sugeriu. Vai ver é uma aposta na vida. No dia seguinte estará vivo. Vai ver é isso. Funciona como ordem prévia. De rotina a ser cumprida. Nada afastando a possibilidade da interrupção. Da já cuidada rotina. Desde a véspera.


Desta vez acatou. Não que estivesse em total acordo. Acordo era muito difícil de conseguir com ele. Sempre tinha um se ou um mas. Os mais próximos até se surpreenderam. Ela perguntou. Não vai falar que não. Riram. Ele não riu.


Ficou pensando. Não dizia refletindo porque cansara desta palavra. Deste verbo. Refletir passou a lhe sugerir uma observação superficial. Como uma leitura das primeiras linhas. Desconsiderando todo o parágrafo. Como uma alegoria. Sempre cabia mais imagem do que texto. Uma idéia particular. Mas não abria mão.


Assim fora mais aquela noite. A roupa da manhã já separada. A chave do carro sobre a mesa. O café da manhã já deliberado. E dormiu.


Pela manhã já se sentiu reconhecido. Tudo estava conforme o planejado. Logo era muito mais uma questão de reconhecimento. Do que de conhecimento. Assim acreditou. Tinha lá seus instantes de credulidade. Quase lúdica.


Saiu. Foi cumprir o já agendado.


Parece que alguém não entendeu muito bem. Ou se fez de desentendido.


Em meio ao rumo determinado – um susto.


Ela veio de lá. Desconsiderando listas. Projetos. Estilos. Ordens prévias. Obstáculos. Vai lá saber o que programara na véspera. Mas foi uma pancada só. E um estridente grito do metal com metal. Como uma cruel dor aguda e cortante.


Seu carro restava ali. Como diriam os poetas do além mar. E restava era a palavra mais correta. Uma parte se fora. E a que restara não se sustentava. Qual um doloroso divórcio. Onde um não sabia o que fazer sem o outro. Mas já se entendendo separados. As partes destacadas estavam bastante machucadas. Para fazer uma analogia - novamente - poética.


Olhou rapidamente para o relógio. Olhou com calma para si mesmo. A parte externa estava íntegra. Nada parecia ter sido perdido. De si mesmo.


Ela veio. Com um manual de explicações. Sim. Do jeito que falava parecia ler o Manual do Descontrole. Falava alto e ritmado. Fazia as pontuações de forma correta - mas desordenada. Explicava o por que do acidente.


Por um segundo o pensamento se deslocou. Achou maravilhoso. Que alguém soubesse explicar acidentes daquela forma.


Mas logo se recolocou. Respondeu com monossílabos. Objetivos. Claros. Talvez apenas não muito polidos. Mas para uma dama descontrolada – era o máximo que podia conter. Ela era a responsável por toda uma quebra. De metal a trato. Desconsiderando por total o dia seguinte - dele. 


Os meios de solução chegaram. Foi tudo resolvido protocolarmente. Protocolarmente.


Seguiu para a rotina. De taxi. Voltou para casa de noite. De taxi. Quando chegou informaram. Não tinha luz. Subiu as escadas. Muitas. Pela primeira vez se arrependeu. A vista era bela. Sim. Os braços abertos Dele pareciam mais próximos. E acolhedores.


Ficava mais lindo visto da sacada. Mas as escadas eram infinitas.


Superada mais esta etapa - entrou. Nada poderia mais ser feito. À falta da energia elétrica se agregaram muitas outras faltas.


Encontrou uma daquelas lanterninhas de página. Decidiu. Vou vencer mais este inesperado. Abriu um livro que recebera. Começou a ler. O texto falava sobre idéias num carro. Ou sobre a falta de micro num carro. Algo por aí. Na segunda palavra carro do texto – fechou o livro.


Precisava apenas repensar sobre o susto.  E todas as suas variantes. Sobre o evitável - previsto. Ou o inevitável - imprevisto. Ou o inevitável - previsto. Ou ainda sobre o evitável – imprevisto.


Riu. Concluiu. Foi tão somente uma discordância de tempo. Ou de espaço. Só isso. Nada tinha que ver com a véspera. Ou com o programado. Com a tal lanterninha – começou a organizar o dia seguinte. Agora com algumas novas adequações.


E foi dormir. Sem maiores nem menores - reflexões. 


 


Junho 24 2009

 

Estava ali. Sentadinha. Parecia tão pequena. Tão frágil. Mas estava decidida. Isso a fazia mais alta. Mais forte.


Decisão sempre provoca uma tri-dimensão. Na expressão. Na fala. No gestual.  Vem de dentro para fora. Causa impressão e denuncia posição.  


Eram muitos hematomas. No tórax. Nos braços. Na face. Um ferimento no lábio. Parecia que sentia uma dor abdominal. Passava a mão sobre a barriga de minutos em minutos. Já não chorava mais. Talvez tivesse já consumido seu estoque conceitual de lágrimas.


Ela se aproximou. Tinha uma prancheta nas mãos. Levou-a até um lugar reservado.


Uma reserva relativa - o corpo expunha as marcas de uma situação.


Não sabia bem o que tinha dito. Achava que fora nada. Em excesso. Ou tão provocador. Mas ele estava irritado. E daí só se lembra da dor. No corpo. Muita. Lembra que pediu piedade. Usou esta palavra. Palavra errada. Ele se descontrolou mais. Quando escutou o pedido de piedade. Não parava. Ela caiu e levantou várias vezes. Até que não conseguiu mais levantar. Ele saiu.


Passou um tempo. Com ajuda de uma mesa próxima, virada, conseguiu ficar de pé. E pediu ajuda. Agora estava ali. Diante de exames e curativos. E perguntas. E desconfianças.


Sim. Sempre há quem olhe com desconfiança. Porta-se junto com as marcas – as possibilidades de culpa. Assim parecia ler no olhar dela. Mas nada falou. Estava cansada.  


Outra pessoa entra na sala - e avisa. Ele está aí. Quer falar com ela. Informamos que dependeria dela. Se aceita falar ou não. Ela terá que dar queixa para que alguma atitude Legal possa ser tomada.


Ela disse que não precisava repetir. Ela escutava. E estava ali. Falavam como se ela estivesse ausente. Mas ela estava ali. Sim. Poderia falar com ele. Poderia deixá-lo entrar. Alguém repetiu. Está certa disso. Ela confirmou com um meneio de cabeça.


Ele entrou. Olhou para ela com ar de surpresa. Tentou se aproximar. Ela ergueu a mão. Não. Só queria que visse de perto. O que fez. O resultado do que fez. Só isso. Agora vou registrar a queixa.


Ele repetiu o ar de surpresa. Por que isso. Não precisa. Perdão. Nunca mais vai acontecer. Você não sabe o dia que tive hoje. E depois ainda teve aquela ida rápida ao bar. Deve ter sido por isso. Deixa disso. Vamos voltar para nossa casa. Você não tem ninguém. Você sabe disso. Não vai ter quem cuide de você. Não vai ter quem lhe sustente. Vai morar onde. Nas ruas. Na casa de alguma colega. Sabe que não vai ter jeito. Esquece isso e vamos embora. Não posso perder meu emprego por uma bobagem de uma briga em casa. Faz favor. Nunca mais vai acontecer. Você sabe que lhe amo. E temos os nossos planos. Vou ao seu emprego. Digo que você ficou doente. Eles vão entender. Uns dias em casa e - tudo voltará ao normal.


Assim ele falou. Assim ela escutou. Sentada na maca. Tocando a barriga dolorida. Abrindo o olho com dificuldade.


Ele repetiu. Vai trabalhar muito. Vai ficar sozinha. Não vai ter quem lhe proteja. Não vai encontrar mais companhia. Vai viver na solidão. Esperando que alguém lhe queira um dia. Mas você não vai conseguir.


Falou já irritado. A enfermeira deu um passo à frente. Olhou para a porta. O segurança caminhava já em direção à sala. Ele falara alto.


Nessa hora ela riu. Ou esboçou um riso. Então era assim que seria a vida dela. Dali para frente. Não entendeu a diferença. Dali para trás. Sempre fora solitária. Trabalhava muito. Não tinha beijo. Não tinha abraço. E agora ele dizia isso. Enfim. Até ficou grata a ele. Ele formalizara o que ela vivia sem assimilar.


Mandou que ele saísse. Pediu um espelho. Chorou. Diante do espelho. Da sua imagem retorcida. Distorcida. Ferida.


Quando acabou o curativo e os exames necessários – registrou a queixa.


Muito tempo depois a re-encontrei. Tinha uma expressão tranqüila. Morava sozinha. Comprara sua moradia. Assim se referiu. Tinha sido promovida no emprego. Estava bem. Sorria com suavidade.


Não perguntei pelo percurso. Pelo discurso. Pelas dores. Nem pelos amores. Apenas a abracei. 


 


Junho 21 2009

Ele se fora.

 

Tempos depois que se deu conta. Nunca se sentira tão só na vida toda. Até aquele dia. Quando ele se foi. Solidão. Ampla e irrestrita. Fiel. Apegada a ela.

 

Na cidade para onde se mudara com ele não tinha parentes. Nem padrinhos. Nem comadres. Pensou isso e até riu. Tinha amigos. Mas não tinha ombro amigo. Isso veio descobrir na época. A diferença entre amigo e ombro amigo. É muito mais que filosófica. Ou conceitual. É material. Assim. Nua e crua verdade. Talvez melhor definindo. É factual.

 

Espalhou as cinzas onde ele pediu. Junto com os filhos. Ainda menores. Obedeceu ao pedido. Cumpriu as promessas.

 

E se viu só. Duas crianças. Sem a casa – ele vendera pouco antes de partir. Sem o carro – ele fizera o mesmo.  Num pequeno imóvel alugado. Desconfortável. Amontoado. Cobrira as janelas com um papel. Da rua se via a intimidade dela.

 

Sempre repetia uma frase. Página virada. Página virada quer dizer muito. Tem relação com o tempo. Tem relação com o espaço. Tem relação com o ato. E foi desse tripé que se amparou.

 

O tempo. Esse foi sua primeira intervenção. Noite e dia passaram a ter um só relógio. Nem sol. Nem lua. Rapidamente vistoriou papéis. Aprendeu a ler documentos jurídicos. A interpretar cantinhos de seguros. Leu todas as letras minúsculas – e põe minúsculas nisso – dos contratos. Estudou tanto que até discutiu com advogados. Com contadores. E os convenceu.

 

Vencer já era uma outra etapa. Agora precisava primeiro convencer. Convenceu. Isso em tempo recorde. Em menos de um mês deu entrada em protocolos nunca dantes imaginados. A cada resposta tediosa que escutava de é só aguardar – devia fazer um olhar especial. Especial de assustador.

Porque todos emendavam. E garanto que vai ser logo. Descobriu assim que se pode domesticar até o tempo.

 

O espaço. Concluiu antes de qualquer aviso. Não poderia continuar ali. Naquele lugar exposto. Eles que sempre foram tão recatados. E decidiu que iria ser dona de novo. Entendeu bem o significado de Casa Própria. Aí cabiam as letras maiúsculas. Aproveitou todas as brechas da sua profissão.

 

Montou um novo viés. A aceitação foi excelente. Juntou daqui. Catou dali. Economizou de lá. Em dois meses já estava se mudando. Desta vez para um lugar bem alto. Vigésimo andar. Devassado talvez por algum passarinho mais afoito. Apenas.

 

Eles ficaram felizes. Comemoraram o quarto novo. Individual. Com seus códigos e insígnias. Nesta noite dormiu tranqüila. Sentiu que albergando – se albergava. Antes de dormir olhou em volta. Sorriu. Discreta - chorou.

 

Dormiu com tanta segurança que pela manhã até perdeu a hora. Todos riram. Isso nunca acontecia a ela. E todos gostaram de voltar a rir em conjunto. Foi um desjejum perfeito. Do corpo e da alma.

 

O ato. Organizou a rotina. Horários. Compromissos. E cada um fizesse a sua parte. Para que todos pudessem usufruir de uma tranqüilidade comunitária. Esta virou a palavra em seguida ao ato. Não sabia se esta era a ordem certa. Palavra - primeiro.  Ato - depois. Ou, ato primeiro - palavra depois. Fazia tempo que não pensava mais no Fiat Lux. Agora a sincronicidade se fazia necessária e impositiva. Leis teriam que ser cumpridas. Os filhos entenderam.  Se não entenderam – aceitaram.  Isso era o de menos. O importante era prosseguir com maturidade.

 

Até ria quando pensava isso. Maturidade é coisa de quem tem tempo. Para ficar com pequenos devaneios. Para extrair grandes conclusões. Ela não tinha dedicação para tanto. Para a filosofia. Estava - cada dia mais - pragmática. E isso agora era amadurecimento. Pragmatismo. Que fiquem os desavisados com suas conclusões igualmente desavisadas.

 

Teve uma instante de contra-senso. Para dar conta – perdeu as contas. Em meio a papéis e decretos – comia. Barras e barras de chocolate. Nem sabia quantos. E a noite ficava mais doce. Esta a desculpa interior. Interior.

 

Porque o exterior se impunha sem desculpas. Foram quinze quilos. Este o saldo da tal página virada.  

 

Mãos à obra. Nada de excessos. Se auto-limitou. Lá se foram os quinze invasivos quilos. Cabelos cortados. Tingidos. Luzes. O que mais gostou.

 

Também era uma adoradora das metáforas. Luzes nos cabelos.

 

Com sua casa. Com seu carro. Com seus filhos. Com sua profissão em atividade. Deu conta.

 

Se perdeu algo nesse meio tempo – nem notou. Meio tempo. Assim poderia se resumir até de forma poética.

 

Meio tempo. Ação inteira. Espaço completo. Agora sim poderia dizer aquela palavra - que no começo se sentia tímida.

 

Ela vencera.

 

 


Junho 09 2009

 

Foi uma decisão. Daquelas que a gente toma confiante. No que faz. No que fez. Por que faz. Por que fez. Calcada em propósitos e objetivos.

 

Decidi. Não fico mais.

 

Telefonei avisando. Dispensei os ganhos protocolares. Até me surpreendi. Teve choro. Lamentação. Não esperava. Emocionada, agradeci.

 

O projeto era de boa qualidade. Assim me pareceu. A idéia inovadora. Num país em que a infância é tão banalizada – se é que esse é um termo correto – o projeto me pareceu maravilhoso. Rico em detalhes. Soberano em soluções. Por isso aceitei. Feliz. E lá fiquei por algum tempo. Também feliz.

 

Começaram pequenas alterações. Internas. Ficou parecendo que a questão passara a ser mais individualizada que socializada. Ou mais particular que social.

 

Lembrei de uma frase célebre. Da minha avó. Não poder mudar não é igual a aceitar, menina, não poder mudar não é igual a aceitar.

 

Pedi para sair.

 

Daí começa uma nova etapa.

 

Ela explicou um pouco chorosa. Mas com a delicadeza habitual. Com este documento vá à rua X e lá já estará tudo resolvido. É perto daqui. Pode sim. Vá caminhando. Nem vai sentir o calor. Será rápido.

 

Uma mocinha de cabelos louros-forçados me atendeu com um sorriso. Na rua X. Leu o documento. Séria. Explicou. Precisa de mais esse documento.

 

Junte esse com mais esse e vá até a rua Y. É pertíssimo daqui. Só três quadras acima. Sim. Uma ladeira. Fica a três paralelas daqui. Daí que você sobe as três quadras.

 

Foi de lá que lhe enviaram. Eu sabia. Erram isso a todo instante. De jeito algum.

 

Você tem que voltar lá. na rua X. E avisar que o documento precisa de mais uma assinatura. Depois do exame médico. Que por sinal é feito lá mesmo. Na rua X. Sim. De onde você veio. Mas agora é rápido. E também é só descer a ladeira. Não tem mais subida.

 

Eles que não entenderam. Ou a senhora não soube explicar. Mas tudo bem.

 

Aguarde naquela salinha. Fará o exame médico.

 

Escutei meu nome. Enfim. Atendida e liberada.

 

De novo diante da mocinha de cabelos louros-forçados.

 

Agora volte até lá. Sim. Na rua Y. Mas é rápido. E perto. Já sabe onde é. Ótimo. Suba as três quadras. Não esqueça. Avise que foi daqui que encaminhamos. Da rua X.

 

Já fez o exame então. Eles reconheceram o erro. Não falaram sobre isso. Não faz mal. Devem ter reconhecido. Enfim. Pode sentar ali. E aguardar. Não sei responder. Mas vai ver não pode. Sim. Deveriam. Mas é uma questão operacional. Vai ver fica complicado. Colocar tudo no mesmo prédio. Mas quer que anote. A sugestão. Então correto. Não anoto.

 

Veio de lá. E o pedido foi seu. Desistiu. Achou que o sentido estava se perdendo. Vai lá saber. Correto. Aguarde mais um pouco. Não se preocupe.

 

Daqui a uma hora já deve ter finalizado. Sei como é horário. Sim. E trânsito desta cidade também. Mas aguarde só mais um pouco.

 

Pode entrar. Pensou errado. Não pode ser finalizado hoje. Sei que começou há três horas. Todo o processo. Mas só poderá ser finalizado lá. Aqui está o endereço. Sim. É longe tem que ser agendado. Pode escolher o dia. De nada. Melhor ir de táxi. Sim. Não é uma região muito segura. O metro fica um pouco distante. Tem estacionamento. Mas de táxi será mais fácil. Olha lá. Se não puder ir tem que avisar. Com antecedência. Sabe que não pode se desorganizar um serviço.

 

Faria mais esta gentileza. Escreva aqui. Preencha este formulário.

 

Olhei o formulário. Era quase uma entrevista. Só que invertida. Ao contrário. Entrevista de despedida. A última pergunta era interessante. Diga o que você deseja para a Instituição. Esta. Da qual você está – voluntariamente - se desligando.

 

Sou educada. Definitivamente. Contida talvez explique melhor. Os meus sinceros votos. Certo. Só os votos. Deixa pra lá os sinceros. Depois de horas. Subindo e descendo ladeira. Indo e vindo. Entre as ruas X e Y. E num calor de trinta-e-três-graus-centígrados! Queriam os meus votos.

 

Apenas isso. Contida. Recatada. Uma dama. Suada e esgotada. Mas uma dama.

 

Escrevi. Quero que ... tenham uma boa sorte.

 

 


Maio 22 2009

Decidira assim. De repente. Abriria uma vaga na rotina. Até riu depois que assim nomeou.

 

Toda arrumada para sair. Desistiu. Voltou. Nunca na vida tinha feito algo sequer parecido. Era rigorosa em sua rotina. Não faltava ao trabalho. Não chegava atrasada. Uma metódica compulsiva. Vai lá saber o que lhe dera naquele dia. Mas decidiu por acatar a sua vontade. Que seja feita, então.

 

Ficaria o dia em casa.

 

Telefonou para o escritório. A faxineira atendeu. Avisou que não iria. Estava adoentada. Riu de novo. Estava mesmo. Doente de vontade de ficar em casa. O marido sairia logo depois. Tiraria o dia para si. E dentro da sua própria casa. Quando a diarista chegasse, pediria para não incomodá-la.

 

Que fizesse de conta que ela não estava ali.

 

Assistiria a um filme. Dormiria mais um pouco. Tinha que organizar uns documentos. Faria isto no final do dia. Quando o tédio ou a culpa ameaçassem substituir o prazer do ócio. Ai uma tarefa seria útil. Na casa tinha um pequeno escritório. Embaixo da escada. Com um pequeno sofá.

 

Colocou um dos seus clássicos preferidos bem baixinho. Tirou a roupa formal e deitou. Recurvada sobre si mesma, cobriu-se com uma manta. E começou a ler um livro.

 

Escutou uma voz. Era a voz da diarista. Falava com alguém ao telefone. E dizia que já estava tudo certo. Sairia sim. No final do mês. Não. Não tinha avisado ainda. Tudo de última hora. Falou assim. Tudo de última hora. Não queria mais. Trabalhar em lugar com terraços e jardins. Lá para onde ia era um apartamento. Nem vasinho de planta tinha. Só as salas necessárias e vazias. Riu. Fez algum outro comentário que ela não entendeu. E desligou.

 

Se sentiu espiã em sua própria casa.

 

Nem bem pensou isso e escutou outra voz. Também ao telefone. Era a voz do marido. Combinava algo. A voz estava suave. Gentil. Combinava um encontro. No final da tarde. Sim. No de sempre. Eu sei que você adora. Nada de última hora. Falou assim. Nada de última hora. Outro carinhoso para você. Riu. Fez algum outro comentário que ela não entendeu. E desligou.

 

O no de sempre a fez sentir um frio. Congelou. Pior que o outro carinhoso. Pior que a tal ausência do vasinho de planta. Tudo ou nada - de última hora. Quase pegou um agasalho que estava pendurado num cabide junto à porta.

Mas ficou com uma dúvida. Entre pegar o agasalho. E se enrolar. Ou pegar dois agasalhos. Um para cada um. A diarista. E ele. Porque eles é que ficariam congelados. Quando a vissem.

 

Optou pelo efeito assombração. Saiu debaixo da escada.

 

Falou um bom dia. Atrás dela. Da diarista. Ela se virou. Pele pálida. Parecia cristalizada. Avisou calmamente. Já está liberada. Pode ir.

Ela se desculpou. Chorou. Disse que estava arrependida. Que adorava ela. Que adorava trabalhar para ela. Que tinha sido um mal entendido. Perdão. Coisas de imaturidade. Nada resolveu.

 Liberou a diarista lecorbusierista.

 

Subiu as escadas.

 

Falou um bom dia. Atrás dele. Do marido. Ele se virou. Pele pálida. Parecia cristalizado. Avisou calmamente. Já está liberado. Pode ir.

Ele se desculpou. Chorou. Disse que estava arrependido. Que adorava ela. Que adorava morar com ela. Que tinha sido um mal entendido. Perdão. Coisas de imaturidade. Nada resolveu.

 

Liberou o marido dongiovannesco.

 

Tomou mais uma decisão. Telefonou para o escritório. Confessou a mentira que inventara. Ele a liberou. Deste e de todos os dias futuros. Diferente dos outros libertados, disse apenas obrigada. Passaria lá a qualquer hora para os acertos.

 

Abriu os olhos. Ficou paralisada. Depois deu um pulo. O marido estava diante dela. Arrumado para sair. Até riu quando a viu assustada daquele jeito. Parecia um sono tão bom. Não quis lhe acordar. Desculpe se assustei.

Devia ter subido. Lógico que não iria me incomodar. E ainda ficaríamos um pouco mais juntinhos. Fez bem em ficar em casa. Você anda muito cansada.

 

Pegou o livro que estava caido no chão. Deu um beijo nela. Desejou bom dia, querida. Jantamos fora hoje, não esqueça. Já fiz as reservas. Nada de última hora. E no de sempre.

 

Passou um tempo até compreender. Depois sorriu. Muito feliz.

 

Da janela cumprimentou a diarista que, cantarolando, regava as plantas do jardim.

 

 


Abril 28 2009

Estava assustada. Com a conclusão a que chegara. Cada coisa que acontece. Cada surpresa. E as surpresas só chegam de forma tortuosa. Pode-se mesmo dizer assim. Forma tortuosa. Nunca soube de alguma surpresa linear.

 

Sempre tem que fazer com o que surpreendido dê lá seu pulo. E que pulo. Tem gente que até torce pé. Joelho. Quebra louça. Freia carro na hora errada. Cada um com sua surpresa. E tudo depende do que está a se fazer na hora. Que a surpresa chega.

 

Com ela não foi diferente. Estava trabalhando. No estilo nada como um dia após o outro. Mais rotineiro impossível. Trabalhar. Atender. Tocar o dia como dizem os mais práticos. Assim. Com seguimento em agenda.

 

E foi diante desse cenário nada emocionante que se deu a tal surpresa. Deu um pulo tão grande da cadeira que até derrubou um vasinho de flores. Foi assim. Começou pela falta. De luz. E clareou todo o ambiente. Como podia não ter notado. Desde a primeira surdez. Desde a primeira amnésia. Ai riu.

 

Amnésia serve para isso. Para ocultar. Mesmo o que nem sempre deveria ser ocultado.  Ou poderia.

 

Ela avisara. Chega de nome antigo. Vamos mudar para o nome atual. Para o que pareceu tão desejado. Foi o que pareceu na época. Vamos acreditar que aquela vontade procedia. Senão fica parecendo que não procedia. Que foi coisa impensada. Coisa de imaturidade. Sem propósito definido. E por isso virou faz-de-conta-que-não-houve. Nada disso. E retomou a decisão.

 

Não sabia se tinha retomado. Nem se era decisão. Só sabia que tinha que ser assumido. Fez o que ela não fez.  Leu o documento. E fez o orientado. Pelo documento. E atualizou o nome dela. Numa conta de luz. Simples.

Era sempre tipo qualquer dia. E os dias foram passando. Num dia esquecia. Em outro não lembrava. Parece a mesma coisa. Mas não é. Entre o não lembrar e o esquecer corre um fio. Um fio que circula e embaralha os atos. Mais ou menos isso que concluiu.

 

Em meio a uma surpresa, as idéias correm aos atropelos.

 

Mas assumiu. Pelo menos diante de si mesma. Acatou. Resolveu. E depois leu. O novo nome impresso. Gostou. Foi o que compreendeu quando leu. O próprio nome.

 

Daí em diante foi um tal de troca e aviso. Uma alteração atrás da outra. De atos conseqüentes. Atualização de documentos. Cancelamentos de outros. Renovação de mais alguns. Foi tão grande a tal iluminação mental e ambiental que acabou em salão. Salão de beleza. Foi cortar o cabelo. Mudou a cor habitual das unhas. Comprou roupa nova. Refez até o cartão de visitas. Esse um dos maiores impactos. Como pode. Ficar tantos anos se apresentando com um nome que tinha pedido para retirar. Mas se auto-desculpou. É mesmo difícil. Concluir que se está por sua própria conta e autoria. Depois de tanta tutela que se passa. Podia dizer que estava começando a se entender. Com ela mesma. E depois de tantos anos. E se parabenizou.

 

A última pequena surpresa foi a conclusão. Das surpresas. Fora preciso o empurrão dela. Que nem participara do evento anterior. Da época em que solicitara a tal retirada do nome. Nome.

 

Parece simples. Parece que é só mudar. Parece que é habitual. Parece que é apenas seguir uma lei. Um protocolo. Uma decisão judicial. Tudo isso é verdade. Mas um nome ou a retirada dele é um processo. Não orientado por diretrizes. Mas por uma outra Lei. A Lei do emocional. Do aceitável. Do ego. Ai cabe até vinganças e pequenos ódios. Ou pequenas revanches.

 

Tudo isso pensou. Tudo isso concluiu. E olhou mais uma vez para o novo cartão de visitas. Para as unhas com uma nova cor. Passou a mão pelos cabelos.  Desta vez feliz. Se sentindo mais.

 

E seguiu - desligando algumas luzes.

E acendendo outras.

 


Abril 27 2009

Estava trabalhando. Agenda cheia. Em meio a todo o tumulto dos atendimentos recebeu um telefonema de casa. A dedicada auxiliar avisava que tinha um homem nada delicado dentro da casa. E que estava lá com uma finalidade inadiável. Ia cortar a luz. Isso. Cortar a luz.

 

Ela pediu três vezes que repetisse a frase. A história. A fala do homem. Então estava escutando bem. Mas por que. Por que não tinha sido paga há dois meses. Assim. Motivo simples. Ela quase pulou da cadeira. Não entendeu. Não podia ser. Devia ser algum equívoco. Usava a modernidade Bancária para isso. Há anos.

 

A dedicada e sempre prestativa auxiliar explicou. Vai ver que foi porque solicitei para ser mudado o nome do titular. Na conta de luz. Afinal já está divorciada há oito anos. Já está mais que na hora de aceitar o nome de divorciada. E ajudei nisso. Pedi para mudar para o seu nome de divorciada. Fiz isso com a melhor das intenções. Até comentei com a senhora. Deve ter esquecido.

 

Sim. Não lembrava. Concluiu. Com isso foi tirado da modernidade do Banco. Explicado. Agora só precisava ser resolvido. Banco não se interessa por questões de ordem emocional. Ou por decisões adequadas feitas de forma inadequada. Quanto mais por falhas de escuta ou de memória. É tudo feito com muita clareza. Quase riu. Justo agora estava na iminência do escuro.

 

Iria ao Banco rapidamente pagar. Pediu para falar isso para o homem. Um homem implacável. Não aceitou aquele célebre hoje não. Por favor. E na sexta feira. Às três da tarde. Pode ficar tranqüilo. Será resolvido logo. O senhor não pode fazer isso. Devo. Respondeu assim. E ainda falou isso rindo.

 

Depois da atitude dela, ele tomaria a dele. Deu um até breve. Deixou um número para contato quando estivesse com o débito em dia. Assim poderia pedir a re-ligação. Virou-se. Saiu.

 

Foi uma correria. Do local de trabalho e pelo telefone pediu o código de barra. Nervosa só anotava errado. Desistiu. Pediu que enviasse pelo computador. Com a pressa em resolver tropeçou.  Arrancou o fio da tomada do computador de vez da parede. Não conseguiu mais fazer funcionar a rede. Desistiu. Pediu para enviar a conta pelo fax do vizinho. Que se dispôs de imediato a ajudar. Mas lamentou em seguida. Estava sem papel de fax.

 

Tinha esquecido de comprar.

 

Nesse intervalo os filhos ligaram. Estavam apavorados. O que fariam sem luz. Um queria jogar. O outro tinha um trabalho da escola. Queriam aquecer a comida. Queriam água gelada. Queriam banho quente. Tudo a depender a luz.  E ela no trabalho.

 

Cancelou a agenda e foi resolver à moda antiga. Com a conta em mãos e na frente do caixa.

 

Pagou. Tentou relatar o acontecido. Mas a mocinha do caixa em nada se interessou. Fez ar de burocrata entediada. Confirmou o pagamento e dirigiu o olhar já ao próximo. Que estava atrás dela. Neste momento ela compreendeu. Algo que nunca se dera conta. Até riu do pensamento. Conta fora a palavra mais citada em questão de minutos. Mas sim. Se dera conta. Burocracia, Conta e Banco não têm questões. Só motivos. Até se acalmou. Com a nova filosofia recém criada. Mesmo no escuro.

 

Voltou para casa. Telefonou para o número deixado pelo homem que fez o corte. Informaram que seria solucionado de imediato. A esta altura a casa era uma verdadeira capela. Vela para todo lado. E avisos de cuidado com a vela a se repetir.  E todos a pedirem banho quente e água gelada.

 

Insistiu na ligação telefônica. Desta vez teve mais uma surpresa. Ninguém sabia da primeira ligação. Esbravejou. Gritou. Perdeu a calma. A classe. A compostura. Descobriu que perder a timidez no escuro é muito mais fácil. E aproveitou então da situação. Foi tanto que falou que do outro lado pediram calma. Respondeu com palavras nada publicáveis. Avisaram que toda ligação telefônica era gravada. Respondeu em alto e bom som. Ainda bem.

 

Eles desistiram da tal água gelada. Do banho quente. Sábios. E bons ouvintes. Ou prudentes. Ainda tinham um bom apego à vida. Escutaram o que ela falara com quem atendeu na Companhia de Energia Elétrica. A forma que ela falara. Optaram por ficar em silêncio. Sob a luz de velas. Bem caladinhos e sentadinhos no sofá. Aguardando apenas.

 

Resolveu. Iriam todos a um restaurante. Jantariam por lá e na volta já estariam de luz acesa.

 

Era noite de temporal. Muita chuva. Trovoadas e relâmpagos. Faltou luz no restaurante. Em meio à escolha do jantar. E antes de pedirem a água gelada.

 

No escuro todos só escutavam as risadas. Deles.

 

 


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