Blog de Lêda Rezende

Junho 25 2009

 

A semana fora toda complicada. Aguardava o resultado. Não conseguia se concentrar.

 

E o que mais queria era se concentrar. Para esquecer que aguardava o resultado. Mas não havia jeito. Nem bem dava uma pequena tarefa por encerrada e lá vinha o pensamento. Melhor dizendo – uma cachoeira de pensamentos. Lembrou até do nome daquele filme. Sim. Uma torrente.

Mil teorias. Mil planos. Mil contradições. Não faltou o inevitável por que eu.

 

Entre raiva e condescendência. De si. Dos outros. Lembrou do russo. Mas não cometera crime algum. Mas também sabia. Crime nem sempre tem objeto e objetivo explícito. Em geral é implícito mesmo. E mesmo assim é crime. Se irritou com o russo.

 

Nunca imaginara. Que uma resposta provocasse tanta aflição. Aliás - não a resposta. A falta dela. Estava difícil conviver com a falta dela. Da resposta.

 

Queria comiseração.

 

Nem bem formulou este pensamento e já o retirou da lista. Nada mais triste que um olhar de comiseração. Receber esse olhar. Ler no outro a sua situação. Esse olhar só é maravilhoso quando não se precisa dele. Ai sim. É perfeito. Dá até para inclinar a cabeça. Uma quedinha para afagos. Fazer ar de mais comiseração.

 

Com motivo, não. É diferente. E divergente. Fica-se ainda mais destituída. Mais desorientada. Empobrecida de valor próprio. Doeria muito mais. Não brincaria com isso. Até se sentiu desanimada.

 

Ainda tinha uma outra questão. Quem iria buscar. O resultado. Ela sozinha. Ou solicitaria companhia. Mas quem escolheria. Ele ficaria muito tenso. E nem contara a ele. Como poderia falar assim. Vamos lá. Vamos juntos. Ele nada sabia. Não seria saudável. Detestou esta palavra. Ela era amiga, mas muito delicada. Ela também era muito ansiosa. E ela própria não gostava de se expor. Entendia que exposição só quando se está sob controle.  Caso contrário dá mesmo é em muito caso contrário.  

 

Ótimo. Grande idéia. Mandaria um moto boy. Do moto boy até riu.

 

Imaginou ele chegando. Trazendo o envelope. Ela já até derrubando o coitado. O capacete caindo. A moto despencada no chão. Ela arrancando o envelope das mãos dele. Ela abrindo. Se agarrando no pescoço dele.

 

Parava ai o pensamento. Se agarrando por que. Por que dera negativo. Ou porque dera positivo. E lá voltava ao pensamento número um.

 

Pior é não poder mandar acelerar o resultado. Quer dizer. Poder - podia.

 

Poderia se lamentar. Falar do excesso de angústia. Esbravejar. Falar alto. Chorar baixinho. Fazer uma verdadeira cena convincente. Mas onde se escondera a coragem. Ao menos isso aprendera. Coragem era algo evanescente. Aparecia e sumia numa rapidez além das medidas. Nem bem se sentia a presença, e ela já ia se ausentando.

 

Continuou trabalhando. Achava incrível ninguém perceber como ela estava agindo. Mudara alguns hábitos. Era um tal de água e cafezinho que pensou em pedir aumento – para pagar a conta da cantina. Só a mocinha da cantina deveria estar feliz. Nunca vendera tanto. Em tão pouco tempo. Enfim alguém estava feliz. Viva a mocinha da cantina.

 

Quase engasgou. Com o cafezinho. Notou que estava bebendo um gole de cada alternado. Café quente e água gelada. Viu isso pelo olhar da mocinha. Que discreta virou de lado. Foi mudar o canal da televisão. Procede.

 

O celular tocou. Escorregou da mão dela e caiu na latinha do lixo.

 

A colega olhou para ela e riu. Solta. Leve. Olhou o riso dela e pensou.

 

Suspendeu o pensamento. Melhor deixar assim. Sem pensamentos. Achou o celular entre os papeis. Ainda tocava.

 

Atendeu. Era de lá.

 

Pode vir buscar o resultado do exame, senhora. Claro, Já está pronto. Ele achou que quanto mais rápido melhor. Não, senhora. Não abro exames. Desculpe. Também não perguntei. A senhora virá buscar hoje ainda. Certo. Estarei aqui sim.

 

Vou sozinha. Pronto.

 

Decidiu pelo elevador. Era só uma escada. Mas achou que o elevador seria melhor. Teria companhia. Escada é solitária. Cada um sobe e desce e nem se olha. Só se afasta. Num elevador ninguém se afasta e se olha.

 

Achou que estava grave. Deveria já estar disseminado. E já no cérebro. Ninguém pensa tanta bobagem - tão rápido. Sorriu para a mocinha do elevador. Sorriu para todos no elevador.

 

Desceu. Entrou na sala. Disse o nome. Foram pegar o exame. Recebeu. Agradeceu.

 

Pelo jeito que falou até achou que falara em outro idioma. Um dialeto talvez. Nem ela mesma entendera o que dissera à mocinha. Sem importância. Ela lhe dera as costas. Atendia já outra pessoa.

 

Não abriu. Saiu. Optou pela escada. Não queria que ninguém a olhasse. E queria que se afastassem.

 

Era um momento daqueles de extrema solidão.

 

Abriu o resultado. No último degrau da escada. Já perto da saída. Estava escrito. Negativo. Negativo. Negativo.

 

Subiu a escada de volta. Desceu pelo elevador.

Queria agora que todos a olhassem. E não se afastassem.

 

Nunca mais se descuidaria por tanto tempo. Fez as pazes com o russo.

 

Nunca mais. Falou isso para a mocinha do elevador. Que a olhou sem nada entender. Mas sorriu.

 

 


Junho 19 2009

Morara toda a vida lá. Numa cidadezinha onde a terra, o sol, a lua, a pouca chuva - eram as fronteiras e as sem-fronteiras conhecidas.

 

Apaixonara-se. Talvez. Mas ele disse que iam morar juntos. Que ia cuidar dela. Acreditou. Talvez.

 

Ficou grávida. Nem chegaram a morar juntos. Nem ele cuidou dela. Foi não-sabe-para-onde. Um lugar por certo bem distante. Não soube mais dele.

 

Viveu de talvez. Foi amparada pelos parentes. Desamparada pelos mesmos parentes. Acolhida e cobrada. Não tem rima, mas tem realidade. Talvez.

 

O tempo passou. Numa conta certa. A barriga cresceu. Sentiu uma dor.

 

Talvez tivesse chegado a hora. Assim falaram para ela. Foi para um pequeno hospital. Nasceu. Menino. Bem pequenino. Deu o nome do santo do dia. Viu num calendário do hospital. Decidiu. Seria este o nome dele. Foi o primeiro nome que viu depois que ele nasceu. O santo ajudaria. Confiou nos sinais.

 

Notou que estavam todos um pouco sérios. Começaram uma explicação. Curta. Mas prolongada. Para quem não sabia muito bem o que explicar.

 

Assim pensou.

 

Segundo entendeu do médico ele tinha um probleminha. Mas quem sabe teria alguma solução. Talvez. Precisaria de muitos exames. Na cidadezinha não havia possibilidade.

 

Assim começou a tecer a poesia dela.

 

Com a ajuda de amigos e vizinhos conseguiu uma consulta numa cidade próxima. Talvez melhor equipada. Nada concluíram. Nem diagnóstico. Nem prognóstico.

 

E de versinho em versinho chegou até a cidade grande. Enorme. Uma viagem longa. Difícil. Mas enfrentou. Todo o tempo. Noite e dia sem dormir. Cuidava do filho no espaço minúsculo do assento onde estava.

 

Quando chegou nem sabia bem onde - e já estava no hospital. Com o filho. Se sentiu igual a ele. Sem prognóstico. Mas aguardou.

 

Estava muito magra. Tinha os músculos dos braços bem marcados. Era bem jovem ainda. Mas as marcas da pele desconsideravam a cronologia. Ou o contrário. As mãos rudes e ásperas pareciam leves. Tocava os cabelos do filho com muita suavidade.

 

Sentada com ele no colo escutou o que buscara. Uma certeza. Qualquer uma serviria. Não poderia era administrar os não-sei. Não suportaria mais talvez. O saber lhe dava nomes. Diminuía a angústia. Permitia o medo.

 

Medo é mais fácil de assimilar. Porque já se sabe do que é. Na angústia fica-se balançando numa dor que não tem vínculo. Nem com o corpo, nem com a alma.

 

Estava cansada de talvez. 

 

Definido. A doença era sem resgate. Haveria uma aparente evolução física normal - tempo de calmaria. Assim tentava entender. Depois uma queda na evolução natural - até a fase terminal. Não seria muito curta. Mas também não seria muito longa. Passaria por vários estágios. Seriam necessárias algumas intervenções. Algumas mais complicadas. Outras mais simples. Mas faria muitas delas.

 

Foi-lhe dito assim. Com delicadeza. Mas com a sinceridade necessária.

 

Escutou. Compreendeu.

 

Abraçou o filho. Sorriu para ele. Disse com um sotaque forte. Vamos tocando a vida. Já chegamos até aqui. Parecia impossível. E já chegamos. Agora vamos continuar. Consegui um lugar para nós dois morarmos. E um trabalho que posso também ficar com ele. Vou mudar. Não volto mais para lá. Aqui ele terá melhores cuidados. De onde vim - vai ter nunca o que tem aqui. 

 

Olhou em volta. Para cima. Para as paredes. Deu a impressão de que olhava toda a cidade. Daquela cadeirinha onde estava sentada – visualizava a geografia. Um vôo além do marcado. Dimensionava o espaço numa forma de reduzi-lo. Do tempo já entendera. E não queria mais discussão sobre quanto. Nem quando. Escolhera apenas o onde. Isso era o que entenderia dali em diante. Do onde.

 

Falou com a métrica certa. Uma estrofe perfeita. Onde as palavras faziam marcações corretas.

 

Não havia queixa. Não destacava lamentos. Muito menos referência a sorte. Ou à falta dela.

 

Havia emoção. Solidão. Intenção. Ela era toda a atemporalidade.

 

Quando levantou sorriu com ar de criança. Talvez o único instante em que a idade cronológica se igualou à aparente. Pareceu tão frágil. Tão assustada.

 

Mas se recompôs rápido. No instante seguinte já carregava o filho. A esperança. As certezas. E a força. Visível nas veias dilatadas do braço fino, mas musculoso. Na sacola que segurava tinha o desenho de uma flor.

 

Tinha dor. Mas tinha flor. Tinha rima. Tinha certeza. Tinha valor. Tinha clareza. Tinha pranto. Tinha santo. Ele tinha partido. Ele tinha nascido.

 

 

Somando tudo, tinha tanto. 

 

 



Maio 05 2009

Ele me deu de presente. Para que o percurso se tornasse mais sereno. Adorei. Ele sabe ser este um dos meus grandes prazeres. A música. Escolhi o assento. Acomodei os objetos. Nem olhei para os lados. Coloquei meus fones. Me concentrei. E de forma explicitamente egoísta. Pressionei o que seria um botãozinho.

 

Começou a tocar. Em segundos tudo mudou.  Como um virar de uma esquina.  Como um virar de cabeça.  Já não estava mais por sobre os trilhos. Já não parecia mais integrante daquela paisagem. A escuta me trasladou. Assim. Rápido. Fugaz. De uma ponta a outra. Não como uma saída de emergência. Como uma saída para a tranqüilidade. E lá estava naquele país das maravilhosas tortas. Do rio que tem cor. Dos bosques nos pontos altos.

 

Das bodegas com vinho e violino.  E lá me vi. E caminhei. Embalada pela suavidade da música. Aquele objeto minúsculo tinha mais poder que o previsto. Poderoso e simples. Um toque. Foi só dar um toque naquele mínimo botãozinho e a magia se cumpriu.

 

Ali fiquei sentadinha. Alheia. Fora do local. Quando chegasse ao destino antecipado, me recomporia. Sairia das bodegas. Guardaria o violino. Colocaria a torta na geladeira. E pediria licença aos bosques.

 

Tudo muito perfeito. Aliás, perfeito até demais. Como dizia minha avó. Cuidado com a falsa ausência, menina, muito cuidado com a falsa ausência.

Procede. O Físico tinha razão. Impossível. Não se ocupa dois lugares. Ao mesmo tempo. Mesmo que um seja e o outro esteja. Acaba-se voltando. Um sinal.  Um barulhinho. Um resmungar. Um suspiro. Uma planta. Algo nos

recaptura. E todo um cenário é desmontado em segundos.

 

Voltei por um vaso. E uma planta.

 

Lá estava ele. Diante de mim. De pé. Com uma mocinha ao lado. Segurava um vaso com uma planta. Envoltos num papel transparente esverdeado. Ao lado deles, estava outra moça. Segurando na barra. Um pouco desconfortável. Ao menos parecia. Era não muito alta. E tentava se adequar entre a bolsa e uma sacolinha. E ainda administrar a barra. Tudo isso com uma dose de elegância. Não cedia fácil. Tinha lá sua pose. E um olhar mais crítico ou severo. Para quem a rodeava. Um blazer claro tentava dar um toque sofisticado à calça jeans. Saltos altos a faziam supor mais alta.

 

Ele ali. Com seu vaso e sua plantinha enrolada. Pareceu que não tentava dar toque algum. Nem de sofisticação. Muito menos de elegância. Até porque só tinha olhos para a plantinha. Comentou qualquer coisa com a mocinha que o acompanhava. Ela respondeu. Me pareceu que alertava. Não seria prudente. Ele não pareceu dar importância. Ao comentário dela. Queria mostrar. A planta. Ela cedeu. E ele sorriu. Abriu o pacotinho. Retirou o papel protetor. Expôs a planta. A mocinha que o acompanhava não teve muito tempo para olhar.

 

Veio o local de parada. Um pouco brusca. Na dúvida, onde se apoiar, aconteceu o pior. A plantinha fez uma espécie de dança. Entre mãos e dedos.

 

E caiu. Mas não assim. Uma queda simples. Ou uma simples queda. Caiu por cima da moça. A que tinha lá sua pose. A terra estava seca. Pois foi de pó marrom que o blazer claro se tingiu. Assim. Pó e terra unidos. Por cima dela.

 

Do blazer. Do cabelo. Da bolsa. Um desastre.  Ela se olhava. Acho que nunca mais verei outro olhar tão congelado. A cada gesto de tentativa de limpeza – mais impregnava. O marrom se fez estampa. Em toda a roupa.

 

Ele abaixou. Tentou pegar a planta. Vai lá saber aonde vai. Ou até aonde vai. A ira de uma mulher. A desconstrução de uma pose. Ou a destruição de uma sofisticação.

 

Ele só viu um salto. Um sapato. No máximo uma perna. Firme. Endurecida. E girando. Em cima da planta. Esmagada. Olhou para ela. Deduzi. Vai reclamar. Ela o olhou de volta. E ainda jogou um pouco da terra que estava por cima dos ombros. Dela. Sobre ele.  Ele viu o olhar. Sentiu a terra. E disse apenas - Desculpe. Só isso. Tinha amor à vida.

 

Chegou minha vez. Sai das bodegas. Guardei o violino. Coloquei a torta na geladeira. E pedi licença aos bosques. Desci. Com uma sensação estranha.

Do que tinha sido realidade. Ou fantasia.

 

Objeto perigoso aquele do botãozinho minúsculo.

 

Ri. Mas só o fiz quando tive a certeza de que ela não veria. O meu riso. Também tenho amor à vida.

 


Maio 03 2009

Entraram os quatro.

 

Pela forma que ele entrou, previ novidades. O riso estava solto. Porém sereno. Não era um riso de irreverência. Ao contrário. Era de muita reverência. Estava com um certo ar de nobreza. Desde o virar de cabeça até o caminhar. Ele que sempre é tão afoito. Agitado. Estava assim. Com um estilo parcimonioso e elegante.

 

De repente, entendi. Trouxera a mãe. Para me apresentar. Ele a abraçou e avisou quem eu era. Lembrou a origem. A função. Ele já havia lhe falado antes. Agora era para unir imagem com relato. Ela me dirigiu um olhar sério, mas cúmplice. Foi o que me pareceu.

 

Ela viera da parte de cima do mapa. De uma região onde só as atitudes podem salvar. Palavras não causam bons efeitos.Talvez más conseqüências. São fatos diferentes.

A viagem fora longa. Difícil. Cansativa. Mas comentou que tinha tranquilidade em relação ao tempo. Ao difícil. E ao cansaço. Tudo tem um prazo. Portanto acaba.

 

Aguardou sem queixas o prazo ser cumprido. Para ver o filho. A neta que não conhecia. A nora. Os outros filhos não foram. Não dera tempo. Falou com um certo ar de resignação.

 

Tinha um rosto sereno. Expressão tímida, porém decidida. As mãos ásperas - expressavam carinho. As pernas um pouco arqueadas - denunciavam firmeza. A pele seca - tinha um toque morno. Sentou-se com recato - mas expôs seu estilo. Quando falava olhava nos olhos. Quando calava olhava para o chão. Parecia que só se dava de acordo com a necessidade. Nada desperdiçava.

 

A vida não tinha sido das mais fáceis. Comentamos da cisterna. Do nascimento deste seu filho. Do grito. Da água umedecendo a terra. Do balde caído. Da seca. Recontou a história. Lembrava da própria dor e do choro dele. Riu quando contou das amigas correndo. Apavoradas. Como se fosse o primeiro nascimento no mundo. Elas gritavam e choravam mais que eles dois. Ela que pediu calma. E foi dizendo o que fazer. Quando ficou de pé já foi com o filho no colo. Saíra de dentro dela para os braços dela. Ele fez um gracejo. Sobre a terceirização. Ela não riu. Continuou contando. Não precisou que ninguém o segurasse para ela. Uma mãe sabe como segurar seu filho. Seja qual for a situação. Olhou para ele. Como se só naquele momento lhe notasse a altura. Vi que se orgulhava dele. E de si própria. E olhou com um sorriso grato para a nora.

 

Um dia o marido a ofendeu. Desacatou. Não entendeu bem o motivo. Na pequena casa. Diante dos filhos. Quis agredi-la, mas se conteve. Só avisou. Vou embora. Antes que ele se retirasse - o olhar dela já se retirara dele. Não o olhou mais. Até o momento que saiu. E nunca mais o viu. Nem procurou ver. Um homem que dá as costas para a família não merece ser chamado. Ou convocado. E nunca mais falou dele ou sobre ele. Cuidou dos filhos. Como pode.

 

Quando ele veio de lá para cá - ela não chorou. Sentiu uma enorme tristeza.

 

Mas não chorou. Aprendeu a não gastar as lágrimas com tristezas. A tristeza sobrava lá de onde viera. Resolveu, vai lá saber por que, ser econômica com o uso das lágrimas. Ou usá-las sob suas próprias justificativas. Só chorava quando, feliz, se emocionava. Como no momento que o viu ao descer do ônibus. E viu a neta. Aí sim. Procedia. Chorou com alegria. Esbanjou lágrimas.

 

Chorou na sala mais uma vez. Ao pegar a neta no colo. E ver-lhe o riso. Acariciou-lhe a pele macia. O cabelinho. Arrumou a saiazinha dela. Discreta, secou uma ou outra lágrima mais insistente.

 

Na despedida abriu uma sacolinha. De dentro tirou algo como uma barra. Retangular. Pesada. Cabia nas duas mãos. Enroladinha num papel azul. Era um doce típico da sua região. Me entregou. Com o olhar mais carinhoso e afetuoso que faz tempo não encontro. E agradeceu. Em nome do filho. Da nora. Da neta. E da terra seca de onde viera. Fiz minhas as palavras dela. E acrescentei o nome dela ao meu agradecimento.

 

Caiu outra lágrima. Sorri. Compreendi. Ela estava feliz.


Abril 30 2009

Começou a contar de repente. Tão de repente quanto a lembrança veio. Pelo menos assim conclui. Como dizia a minha avó. Jamais perca a chance de escutar as lembranças, menina, jamais perca a chance.

 

Lembrança é coisa séria. E muito mais séria se da infância. Porque é uma lembrança constituída. Construída. Esclarecida. E, principalmente, não compromissada. Assim são as lembranças da infância. Não nos deixa dúvida. E nos deixa em dívida. Com a nossa memória. Com os nossos prazeres. Que depois até se multiplicam. Ou podem se multiplicar. Mas nunca igual como na infância. Com aquela sensação plena de prazer. Que toda a infância envolve. Seja de que forma for. Não tem preço. Nem taxa cambial. Muito menos selo de made in. Tem que ver com entrega. Com aceitação. Com riso. Estes sim. Os indicadores do afeto. Como um mercado de afeto sem nota fiscal. Mas com o aval do olhar.

 

E ele contou. Quando se sentiu familiado. Assim mesmo. Familiado. Que nada tem que ver com familiarizado. Estava certo. Familiado é integrado. Juntado. Compartilhado. Familiado diz muito mais. Mesmo que não se fale assim. Não importa. Sente-se assim. E explica-se bem melhor. Pela primeira vez estava entre tios e primos. Entendi.

 

Lembrava da voz dela. Melhor dizendo. Lembrava das palavras dela .Porque do rosto esquecera. Perfeito.

 

A voz dela orientava. A olharem para o céu. Lá veriam uma barba branca esvoaçada. Uma mão esticada segurando uma cordinha. Do trenó. E muita cor. No meio da noite. Que estava já chegando a hora. Lembrou de várias cabecinhas viradas para cima. Como devem ser os bons sonhos. Lembrou que olhou. Nem precisou se esforçar muito. Porque logo viu. E feliz riu. Era verdade. Exatamente como a voz descrevia. Viu tudo isso. Viu até barulho.

 

Viu o vento na barba. Viu que os presentes meio que se batiam uns nos outros. Muitas caixas. Mal cabiam naquele espaço. Mas cabiam. E nem caíam. Escutou os sinos. Escutou risos. E muitas cores. Muito brilho. Uma luz toda especial. Em cima dos presentes. Das fitas e da barba.

 

Alguém os mandou dormir. Para que pela manhã estivesse já tudo arrumado.  Obedeceram. Obedeceu. Foi dormir pensando no céu. No vento. Nas cores. Na barba. Dormiu em meio a esses quadros. A essas imagens. Mágicas.

 

Quando acordou pela manhã teve que segurar o rosto. Com as duas mãos.

 

Em volta da enorme árvore estava uma montanha maior ainda. De presentes. Muitas caixas coloridas. Sentiu-se de novo familiado.  Ele vira o percurso. Enxergara no céu. Sabia como tinham chegado ali. E como fora difícil com o vento que fazia.

 

E eles ali. Descabeladinhos. Descalços. Com uma pressa que jamais sentira de novo pela vida a fora. Com tamanha urgência e ansiedade. Era preciso abrir logo. E cada um tinha um nome. Era preciso ver seu nome. Alguém tinha que ler seu nome no pacotinho. Para tomar posse como destinatário.

 

Engraçado como isso depois se torna comum. E sem brilho. Ou sem aquele brilho.

 

Não lembrava a comida. Não lembrava o depois. Lembrava do seu presentinho. Uma imensa carruagem. Com lona. Com cavalinhos. Com rodinhas que giravam. Olhou encantado. E cada um deles abriu o que era seu. Em nome e - por conseqüência - em direito. Passaram o dia brincando. De vez em quando ele olhava para o céu. Queria poder agradecer. Mas não via o dono da barba.

Achou que nunca mais o veria. Depois daquela noite.

 

Em meio ao relato da lembrança riu. Riu mesmo. Não devia ser uma montanha. De presentes. Não devia ser enorme. A árvore. Nem devia ser tão grande. A carruagem.

 

E fez um gestual imaginário. Um muito obrigado. A quem não teve a idéia - de fotografar.

 

A criatividade na descrição de uma lembrança dá muito mais realidade do que uma foto. Uma foto apenas expõe uma cena. Congelada. Nada mais que isso. Não revela a dimensão. Do que se vive na hora. Da foto.

 

E ele, que vivia em volta de papéis, pela primeira vez ficou feliz com a falta de documentação histórica.

 

Riu. Deu um salto da poltrona. Assim. Sem mais nem por que. Olhou atentamente para o céu. Teve uma súbita impressão. De ver um sorriso cúmplice. Dirigindo-se a ele. E meio encoberto. Por uma barba branca.

 

Tranquilo, sentou de volta na poltrona. E com uma suave sensação - de agradecimento cumprido.

 

 


Março 25 2009

Quando escutou o nome, entrou.


Chegou sério. Assustado, imagino. É realmente temeroso ir sozinho.  Desconheço quem chegue tranqüilo. Diante da suspeita possibilidade de dor em lugares específicos como este. Segurava uma ficha dentro de um envelope plástico com seus dados pessoais. Formal. Receoso. Diria até reservado - dentro do que a sua idade permitia. Seu gestual era limitado. Como se a contenção exterior lhe ajudasse na interior. Vi que se esforçava para fazer ou dizer nada que pudesse ser entendido como errado. Me pareceu, logo depois que se ajeitou na cadeirinha, muito mais cuidadoso que formal. Mas enfim. Esta também é outra daquelas linhas de difícil separação. Entregou-me, responsável, o envelope.


Tentava arrumar pernas e braços. Numa cadeirinha que o cabia com folga. Perguntou pela real possibilidade de dor. Neguei. Interessou-se, então, pelos objetos sobre a mesa. Nomeados e qualificados, acalmou-se. Mas não sem antes dar uma olhada ampla pela sala. Olhou os outros da idade dele que estavam ali – quase - na mesma situação que ele. Todos estavam acompanhados. Viu que ninguém chorava. Deve ter aprendido. Precaução nunca é demais. Pareceu mais confiante. Deu um meio sorriso.


Se ninguém chorava ele também não precisaria temer. Na igualdade sentiu-se amparado. Pela coletividade sentiu-se, talvez, menos ameaçado. Puxou a cadeirinha para mais perto. A esta altura já mais adequado à sua idade. Começou a fazer pequenas investigações, com as mãos, em papéis e materiais expostos.


Perguntei pelos responsáveis diretos. Uma senhora o acompanhava. Preferia, sabe-se lá porque, ficar nem muito perto, nem muito longe. Se necessário, se solicitada efetivamente, se aproximaria mais. Apontei uma outra cadeira, convidei a se sentar também. Recusou. Estava bem. Preferia ficar de pé. Tinha pressa. Gostaria que tudo acabasse logo. Tinha muito a fazer fora dali. Explicou. Sem pudor. Nem meia voz. O pai está detido. A mãe se foi há quase seis meses. Mora comigo. Sou parente. Afastada. Tenho outros a quem cuidar. Ele me dá muita ocupação. Tem um problema. E não tem ninguém para resolver. Mas não tive jeito. Tive que assumir. Ele não tinha mais ninguém. Que eu saiba. Contou sem olhar para ele. Sem tocá-lo. Falou sem recatos. Como um brechó de sentimentos. Gastos. Rotos. Amontoados. Cada um que descobrisse o melhor que ainda pudesse ser usado. E o pegasse para si. Ficou silencioso. Acho que sabia disso.


Contou-me ele mesmo a sua história. Afirmou orgulhoso. Sou um menino de seis anos. Sei fazer muitas coisas, sozinho. Foi uma vez visitar o pai na detenção.  A mãe ainda morava com ele. Não tinha ido viajar. Viajara mas ele sabia que ela ia voltar. Conforme avisou. Quis conhecer o lugar onde o pai estava. E que de lá não podia ainda sair. Ainda. Repetiu. Escutei. Atenta. Contou-me os motivos. Em nenhum momento baixou os olhos. Falava diante de mim.


Foi fazer uma brincadeira. Subiu no beliche de cima. Fez de conta que estava numa escorregadeira. Num parque. A escada escorregou antes dele. Caiu. A acompanhante arrematou a história. Como se fosse uma roupa velha do tal brechó. Perdeu a visão do olho esquerdo nesta hora.


Ele foi logo me dizendo que seria por pouco tempo. Faria um transplante. De córnea.  Alguém, que não precisava mais, ia dar um olho para ele. Avisaram que não doía. E que quando abrisse os olhos enxergaria pelos dois. Ao mesmo tempo. Mesmo que tapasse um. Ou outro. Enxergaria. Passou os dedos no olho ferido. Como uma demonstração.


De repente deu um pulo da cadeirinha. Ficou tão sério que até me assustei. Não sabia o que acontecera. Perguntou pela data. Pelo dia da semana. Conferiu os dados. Confirmou uma outra data. E dia. Pareceu relaxar. Informou feliz. O pai será liberado na próxima semana. Disse data e dia.


Fazia previsões neste todo-futuro. Iria esperá-lo em casa. De vez em quando conferia. Virava em direção à senhora que o acompanhava à distância. Tinha planos. Mas tinha uma dúvida. Que mais parecia um receio de impedimento. Não sabia onde o pai iria dormir. Tinham muitos na casa. Acalmou-se na mesma rapidez que se preocupara. Tinha já a solução. Dormiria na cama dele. Simples. Resolvido. O pai nunca mais o deixaria. Iriam morar juntos numa casa só deles.


Neste momento a acompanhante se aproximou.  Desdenhou da confiança. Falou das vezes repetidas que já fora detido. Justificou a decisão da mãe. Usou adjetivos nada elogiosos. Para o pai. Falou de abandono. De mentiras. De deveres não cumpridos. Do que sobrecarregara a ela. De tudo que desqualificava. O pai. A situação. Só não percebeu que desqualificou a ela também. Na queixa se incluía sem perdão. Nem observou o jeito que ele se virara para vê-la melhor. Esta foi a única vez que ele se moveu para olhá-la. Com a mesma falta de pudor e recato que ela. Olhou de frente. Como num ajuste de visão. Quem sabe em busca da visão correta. Uma espera. Uma cumplicidade. Difícil decifrar. Deve ter enxergado pelos dois olhos. Pensei. Este olhar que ela nem se interessou. Nem percebeu. Ele não esquecerá. Nem depois do transplante. Em seguida ele ficou de costas para ela. Como se longe dali já estivesse.


Interrompi as palavras dela. Não por ela. Mas por ele. Pelo pai. Pelo dia ansiado. Pelos planos. Pela cama já dividida. Pela solidão apaziguada. Pelo amparo antecipado.


Impossível se saber exatamente quem ajuda a quem. Quem favorece a quem. Idade não é garantia. Sexo não é definição. Privacidade não é abuso. Destino não é criação. Estatuto nem sempre é lei. O contrário também vale. Tentei dizer isso a ela. Mas a vi se afastar com indiferença.


Ele continuou sentado aguardando. Quando acabamos o proposto ele se levantou.


Quando ia sair, sorriu. A senhora se retirou na frente dele. Ele atrás dela. Seguindo. Mas fazendo também seu caminho.


Já na porta, virou-se de repente. Para mim. E me fez uma recomendação. Não esqueça. Repetiu o dia e a data que o pai sairia de lá para a casa deles. E sorriu ao afirmar. Prefiro esperar em casa. Mas se eu for buscar, vou ficar do lado de fora. Não vou entrar lá. Para não cair de novo. Sorriu, acenou e se foi.


Não pude deixar de lembrar o mestre austríaco. O estudioso francês. O filósofo alemão. Havia veracidade, maturidade e sabedoria nestas palavras.


E ditas de forma, por isso mesmo, tão simples e ingênua. 


 


Março 24 2009

 

Perguntou de onde eu viera. Esclarecida a minha procedência se sentiu mais à vontade. Foi o que me pareceu na hora. Porque desatou a falar. O que deveria ser uma conversa - com limites dirigidos - se transformou num monólogo estilo vôo livre.

  

A mulher observava. Calada. Fiquei com uma dúvida. Se ela estava carinhosamente atenta. Ou entediadamente dispersa. Esta separação é bem difícil em alguns casos. E este era um deles. Mas ela ficou ao lado. Do lado. Olhando para ele. Esta também é uma forma de afeto.   

 

Informou ser tenso e agitado. Desde pequeno.  Rimos. Muito. De onde ele viera todos são conhecidos como tranqüilos e descansados. Explicou. Tinha uma explicação plena de sabedoria. Escutei. Até deixei os aparelhos de lado para escutá-lo.  

 

Começou pelo sol. O sol sempre cruel e pontual. O inverso também é válido. Nunca faltava. Nem um dia do ano. Vinha cedo e só saia depois de deixar o chão fervente. Dia após dia. Todo o tempo entre o sol e a noite.

 

Veio entender o que eram estações do ano quando de lá saiu e para cá veio. Achou a coisa mais linda do mundo. As mudanças na cidade de acordo com a época do ano.  

 

Pela primeira vez na vida se interessou em comprar roupas. O primeiro casaco de frio. Não reclamou. Festejou. Parecia coisa do outro mundo.  Nem conseguia dormir olhando-o pendurado na frente da cama. Adorou. Tremia de frio - mas comemorava os arrepios. Como uma festa no corpo. Sorriu quando falou isso. 

 

A mãe grávida, dele - trabalhava na roça.  

 

Ele nascera diante de uma cisterna. Diante de um balde caído no chão. Diante da pouca água derramada. Entre gemidos e correria. A força da mãe para conseguir a água provocara-lhe o nascimento. Antecipado.  

 

Foi nesse cenário que veio ele ao mundo. A um mundo pleno de calor. De ambas as formas. Nunca entendeu. Como sobreviveu. Principalmente depois que viu a filha nascer. Envolta em tantos cuidados.  Num ambiente especial. Só para nascimentos. Achou surpreendente. Os dois nascimentos. O dele. E o dela.

 

Mas retomou o enunciado inicial. O por que de ser agitado e tenso. Eis a razão. Enfim justificava. Desde o primeiro olhar viu correria. Estava explicado o fato e assim entendido. Lembrei do livro do alemão. 

 

Ele fora o primeiro que viera para cá. Ainda adolescente. Mal sabia onde estava. Tinha medo. Mas enfrentava. Numa noite, sabe-se lá porque, tomou uma decisão. A segurança das pessoas iria ser a sua função. Assim fez. E até hoje faz. Lá se vão trinta e sete anos desde o dia da cisterna. E vinte de proteção desde o dia da decisão.  

 

Contou, com uma ponta de vaidade à mostra, um elogio. Num dia de condecoração. Ficou feliz porque o elogio englobava todos da sua região de nascimento. Foi elogiado e citado como um entre tantos que de lá vinham que honravam a profissão. Muito mais que orgulho por si, sentiu orgulho por um povo. O seu povo. Homenageado num discurso de condecoração. Ficou radiante. Quase igual ao primeiro dia de frio. O corpo tremeu. Pelos muitos que nascem diante da cisterna. Por outros tantos que nascem na solidão de um roçado. Mais ainda pelos que nascem e nem suportam esta solidão. E se vão. Sem nada por aqui verem. Nem a beleza das estações do ano.  

 

Os demais irmãos vieram depois dele. Todos hoje graduados. Nível universitário. Falou com satisfação. De um dever cumprido. Acolhera a todos. Com muita dificuldade conseguiu protegê-los. Descobriu, assustado, que muito mais fácil se protege um estranho que um parente. Riu. Não perguntei por que.  

 

Deixei que falasse. Diante de mim. Da mulher com olhar duvidoso. E da filha que nunca saberia o que era uma cisterna.  

 

Muito longe de ser nostálgico. Ele era feliz. É feliz. Sente-se em acordo com sua vida. Aprendi com ele que esta é a verdadeira sensação de felicidade. Estar em acordo. Com a vida. 

 

A mulher riu de repente. Falou que eu não deveria estar compreendendo nada.  Onde já se viu. Falar assim. Ir contando sobre cisternas e baldes. Mas notei algo interessante. Ela - mesmo reclamando - repetia a história. Recontava.

  

Saíram os três. Depois de risos e abraços. Gracejos sobre a origem. Congratulações pelo elogio.  

 

Fechei a porta. Sentei. Olhei pela janela. O dia estava frio. Muito frio. Céu cinza. Uma garoinha deixava o chão mais brilhante que molhado. Lembrei do compositor das estações do ano. Da delícia do som que sai dos violinos. Das mudanças nos acordes com as mudanças das estações. Sempre o escutei. Sempre gostei.  Mas acho que nunca o compreendi completamente. 

 

Compreendi hoje. Entre baldes e cisternas.

  

 


Março 23 2009

Lembrei dela. Melhor dizendo. Lembro muito dela. Todo o tempo. Passei anos da minha infância escutando os conselhos dela. A alguns obedeci. A outros desobedeci. Pela vida a fora. Conselho é assim. Vem vida a dentro e fica – muitas vezes – vida a fora.

 

Um dia, vai lá saber o porque, criou um culpado para os erros no mundo. Era culpado por fatos gerais e particulares, Tudo era culpa do Sputnik.

 

Acho que até hoje ainda é. Culpa do Sputnik. Ela estava certa. E nem sabia como estava. As buscas acabam em mudanças fora do procurado. Nem sempre o encontrado é o adequado ao pesquisado. Acho que ela entendia bem isso. Entendia das utilidades e inutilidades. Das buscas úteis e dos encontros inúteis. Do prudente e do infinito. Da generosidade e da facilidade. Da dificuldade e da conveniência.Entendia de antônimos como nunca mais conheci alguém em toda a minha vida. Só não compreendia os sinônimos. Estes sempre a amedrontavam.

 

Não sofria com as mudanças.  Rebelava-se.Tentava se adaptar ao modo dela. Mesmo que às avessas. Lembro do telefone. Brigava com o telefone. Achava que soava alto. Que assustava muito mais que informava. Que demandava muito mais que ofertava. Uma sábia. Não conseguia diminuir o volume. Quando ensinavam esquecia. E brigava de novo a cada toque. Achava suspeito falar assim. Conversar com alguém sem ver o rosto. A expressão. Mal sabia. Que ia falar sem ver. E que nem faltava muito para isso.

 

Muitas vezes nos surpreendemos com nosso destino. E já são - muitas vezes - cronicamente anunciados. Com a bula oculta, mas presente. De como conviver com eles. De uma outra forma. Como um saber não sabido, como diria o Francês.

Isso dá muito que pensar. Vou pensar sobre isso algum dia.

 

Ela vinha de um tempo de escravos. Mas se orgulhava da família de origem. Alforriaram os escravos antes que a Princesa ordenasse. Não falava do passado. Ou falava muito pouco. Só sobre o passado histórico. Sociológico. Nunca sobre o particular. Não devia ter sido muito bom. Preferia criticar o Sputnik. Era mais simples.

 

Diziam que era braba. Mas oferecia o colo. Respeitava e acolhia os menos amados. E numa época em que faltas eram corriqueiras. Tratadas com indiferença. Despudoradamente.

 

Um dia - nem lembro mais porque - me prometeu um pente de enfeitar o cabelo. E me mostrou o pente. Fiquei espantada com a surpresa. E encantada com o objeto.

Guardava como uma lembrança de um tempo de riqueza. Enrolado em papéis finos. Amarrotados. E me vejo diante do prometido. Lembro do brilho dele no quarto pouco iluminado. Dentro do armário de madeira escura. Como uma mágica. Tinha pedras incrustadas. Era preto. E tinha uns dentes enormes. O pente. Não ela. Ri. Não devia ser tão enorme. Eu que era pequena. Ri de novo. Agora que me lembrei. Já fui pequena.

 

Sonhei anos com esse dia. Quase criei um feriado. Denominei O Dia do Pente. Ela fez um adendo. Uma entrelinha. Tinha que ser uma menina bem comportada. Eis uma palavra em total desacordo. Para uns tem um tipo de leitura. Para outros uma leitura oposta. Acho que sempre segui na oposta.
 

A infância acabou. Nem sei se me comportei bem. Ou mal. Não sei se foi por punição ou por esquecimento. Mas o pente nunca veio.

 

Um dia fez silêncio. Fechou os olhos por conta própria e se foi. Sem Sputnik. Sem alarde.

 

Fiquei sem o pente. Mas com uma malinha de conselhos. Às vezes brilham. Vejo até dentes grandes neles - em algumas situações. Tento usá-los da melhor maneira. Possível e desejável. Abro sempre que se faz necessário. Ás vezes na hora certa. Outras na hora errada. Outras, atrasada. Maioria das vezes até adiantada. Mas é uma malinha com vontade própria. Assim me parece.

 

Guardo-a agora junto a uma outra malinha. A de exclamações. Esta mais recente.

 

Não vejo parceria melhor !

 

 

publicado por Lêda Rezende às 21:19

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