Blog de Lêda Rezende

Dezembro 31 2009

 

Nunca saíra daquela pequena cidade.

 

Nascera e se tornara adulta no mesmo bairro. Toda a vida circulara diante dos mesmos códigos.

 

O bairro onde nascera portava uma simbologia. Vinha de um tempo de escravos. Mas se chamava Liberdade. Havia música pelas esquinas. Havia danças. Rituais ecléticos preenchiam de esperanças os corações. A comida era vendida nas ruas – o que dava um cheiro peculiar.

 

Tudo funcionava como se fora um universo particular. Girando não sei se dentro ou fora – do universo social.

 

Ali fora alfabetizada. Orientada. Vinha de um núcleo familiar pequeno. Apenas mais uma irmã. Cedo conheceu o parceiro. Cedo casou. Mudaram-se com os poucos pertences e presentes para uma casa pequena. Próxima da família de ambos. E lá ficaram por toda a vida.

 

Um dia avisou. De um ímpeto só. Escolhera mais um outro futuro. Trabalharia na área da saúde. O marido se surpreendeu. Desde quando. Por que. Para que.  Melhor ficar a fazer o que tem em casa.

 

As perguntas foram muitas. As insinuações mais ainda. Desconsiderou uma por uma. Continuou apenas informando a composição da decisão.

 

Vai lá saber o que despertou nela. Nunca soube ao certo a causa. Mas lidou muito bem com as consequências.

 

Estudou com dificuldade. Precisava trabalhar para completar o curso. Precisava de livros. De roupas brancas. De material próprio. Mas na mesma proporção das dificuldades – encontrou soluções. Não tinha a quem solicitar. Se é assim – concluiu – solicito a mim mesma.  

 

Trabalhou. Noite e dia. Intercalando livros com cuidados da casa e do filho recém nascido. Amamentou com ele no colo e o livro na mesinha ao lado. Assim estudava. Lavou e passou roupa recitando nomes e técnicas de procedimentos.  

 

Decorou pequenas fórmulas. Revisou contas.  

 

Enfim concluiu o curso. Fez um concurso. Público. Aprovada- entrou para o seu primeiro emprego. Feliz. Conseguira.

 

E lá está há quarenta anos. Quarenta anos. Neste mesmo emprego. Sem faltas. Sem atrasos. Sem queixas. Muitos entraram e saíram. Muitos chefiaram. Muitos outros desistiram. Mas ela continuou.

 

Decisão é parceira da existência. Uma vez conquistada – para sempre priorizada.    

 

O filho cresceu. O marido mais apressado - se foi numa noite depois de algum sofrimento. Cuidou dele até o final. Chorou. E foi guardando as lembranças nas dobras do lencinho.  

 

Assim poderia ser contada a vida dela. Desse jeito linear. Mas nem sempre a vida entende que pode assim ser vivida. E surge uma contramão aqui ou ali. Um desvio.

 

De tanto cuidar – descuidou de si mesma. E o corpo não perdoa descuidos. Cobra. Aponta. Expõe.

 

Fez a cirurgia. Chorou quando lembrou o tempo que amamentava. Chorou pelo passado. Pelo presente. E pelas perdas. E duvidou – pela primeira vez - do futuro. E talvez pela primeira vez na vida toda – reclamou. Desaprovou.

Mas sabia fazer rimas. E continuou. Lutou.  

 

E durante essa poesia que inventou – surgiu uma oportunidade. Única. E para ela. Que nunca de lá saíra. Que nunca atravessara outros mares. Nem terras. Nem sotaques. Para ela o Mundo era muito maior que um globo. Ou um planeta. Era de uma imensidão que assustava. E quando pensava assim – segurava o portão da casa com força.

 

Mas recebeu um convite. Talvez até uma ordem. Vou mandar lhe buscar. Você ficará um mês aqui. Com todos nós. Desde que saímos daí sonhamos com esse dia.  Agora o dia chegou. Vai passear pela cidade. Vai descansar. Vai conhecer onde moramos. Vai escutar outros sons. Virá de avião. Nada de estrada.

 

Eis uma imagem inesquecível. Ela sozinha. Com uma roupa branca. Um casaquinho bege sobre os ombros. Uma pequena valise nas mãos. Um sorriso tão feliz que – incontido - saiu dela e iluminou todo o saguão.

 

Veio. Abraçou um por um que a aguardava. Escaparam lagriminhas emocionadas. E falou. Então é assim. Então estou aqui. E só demoraram duas horas e vinte minutos. Pensei que fosse tão longe.  

 

E o mês se fez alegre. Trocou de Liberdade. E celebrou também a nova. Fez-se de econômica a consumidora. De curiosa a integrada.

 

E como na Vida não existe Matemática nem lógica – quando retornou – repetiu os exames. Estava curada. Já não temia. Aprendera sobre distâncias e espaços. Sobre limites e infinitos.

 

E nunca mais segurou - assustada - o portão da casa com força.

 


 


Dezembro 19 2009

 

Não imaginava que fosse assim.

 

Tão cansativo. Deveriam mudar o termo. De preparativo para preparatório. Parece o mesmo. Mas não é. Como todas as palavras parecidas - não querem dizer a mesma coisa. O mesmo significado. Nunca pensei. Ou já esqueci. Esqueço fácil o que é complicado. Como é cansativo. E emocionante. Por isso é um preparatório.

 

Essa olimpíada de véspera. De viagem.

 

Lembrei da minha avó. Ela sempre me alertava. Todo prazer tem antes e depois, menina, todo prazer tem antes e depois.

 

É verdade. Não sei como não observei isso antes. Observar é o termo certo. Porque foi só o que fiz. O dia todo. Hoje. E o dia de observar deveria ser amanhã. Porque é o dia da viagem. E ainda tem quem diga que o bom são os preparativos. Ou preparatórios. Vou orientar quem me disser isso - a procurar um especialista. Em doenças do psicológico.

 

Isso já é complicado. Uma só pessoa. Dois tempos. Não pessoais. Ambientais. Um de lá. Outro de cá. No tempo de cá estou me sentindo naquela tal cidade. A da neblina. Porque é só o que vejo do terraço. Paisagem bucólica. Enevoada. Brumas. Há uma semana - brumas. Quando modifica - relâmpago. Quando ele se encerra – brumas. Depois – relâmpagos. Uma roda viva de névoa e luz. Uma calma e outra acelerada. Como a urbanidade.

 

Não posso negar. E sempre vale lembrar. Com brumas. Ou com relâmpagos. Eu amo esta cidade.

 

Mas vou lá. Para o tempo de lá. Lugar de sol e mar. Praia. Areia. Pés ao vento. Cabelos ao sol. Não importa se resseca. A pele. O cabelo. Sei lá. As unhas. Não importa. Tanto tempo que não sinto - o mar. O cheiro do mar.

 

Até contei para aquele meu amigo distante. Que mora em frente a outro mar. Vai ver nem ele sabe. Que o mar tem cheiro. É preciso algum distanciamento. Para que depois se possa surpreender. Com o cheiro do mar.

 

Arruma daqui. Lembra dali. Ajeita mais um lugarzinho. Isso sim. Isso não. Absurdo. Sem isso não vou. Não vai caber. Vai sim. Tem que caber. Agora já não sei. Melhor tirar. Melhor deixar. Não. Basta uma. Não. Não vou me mudar para lá. Certo. Então concordo. Mas duvido. Não se preocupe. Sei como resolver. Certo. Então você resolve. Combinado. É verdade. Nem me lembrava. Acho que ainda cabe. Está bem. Retiro.

 

De repente – parei.

 

Me dei conta. Aliás, verbo quase certo. Fiz conta. Uma semana. Sete dias. Cento e sessenta e oito horas.  Sentei. Em meio ao isso-sim-isso-não. Que faria. Que farei. Como lidar com a falta do meu acesso diário. Das minhas leituras. Das minhas releituras. Dos comentários. Nunca senti uma verdade mais fisicamente do que neste momento. Toda escolha tem uma perda. Procede.

 

Crises de abstinência. Imaginei mil cenas. Letras gigantes nas paredes rindo. Gritando meu nome. Frases inteiras aparecendo e sumindo. Em meio às ondas. Nomes de autores se auto-escrevendo na areia. Meus dedinhos se movendo sem minha ordem. Eu tremendo ao passar por qualquer loja de informática.

 

E piorou. Se isso fosse possível. Mas foi. Possível. Possibilidade é persistente. Não sai fácil. Nem bem eu tentava entender. A possibilidade da tal crise de abstinência - e outra se instalou. Crise de carência. E a pergunta veio. Crua. Fria. Congelada. Em meio às brumas e envolta em relâmpagos imaginários. Será que notariam. Será que perceberiam.

 

Quase se somou mais uma. Mais outra. Crises seqüenciais. Crise de ausência - não vou mais. Crise de presença - vai sim. Crise de superioridade - deixa para lá. Crise de tecnologia - vou levar junto. Crise de obediência - é só uma semana. Crise de relatividade - cada um tem seu tempo.

 

O que não faltava em crise, sobrava em temeridade. Como a individualidade.

 

Lembrei dela. Disse que também iria para lá. Coincidência. Sim. Também. Adoro. Ver a tal queima de fogos. A virada do Ano na praia. Até imaginou se nos encontraríamos. Quem sabe. Tomara que sim. Ela é bem mais mutante. Do que eu. Avisou que ia levar um caderninho. E um lápis. Assim. Simples. Mutante e adaptante. Admirável.

 

O jeito será virar imitante. Certo. Poderei anotar. Rabiscar. Não perder a idéia central. Algo por aí. Mas não poderei enviar. Agora só na volta. Dos sete dias. De retirante a viajante. Agora uma nova espera. Retornante.

 

Crise é assim. Endoidante.

 

Certo. Cabe. Coube. Nada mais. Enfim. Fechou. Fechou. Vamos sim. Não é bom chegar em cima da hora. Principalmente nesta época. Estou. Peguei. Tranquei. Vamos. Desliguei sim.

 

Ainda bem que aqui tem este tipo de lojinha. Quem diria. Sim. Poderia me dizer quanto custa. Certo. Quero sim. Sim. Com esta tela - pequena - melhor ainda. Levo dentro da bolsa. Nada de desertar desejos de posse - no outro. É verdade.


Agora sim.


Viva a certeza do acesso. Viva a possibilidade do accessível. Vamos logo. Estão chamando para o embarque.


 


Novembro 17 2009

 

Quase não acreditei.

 

Abri a porta do quarto. E fui em direção às escadas. Assim. Com a sequência reconhecida. No habitual da rotina. O ato em si. Mas desta vez fugia ao destino.

 

Desta vez um rumo novo. Uma direção escolhida. Uma data festiva a ser comemorada. E tinha hora certa para dar inicio. A hora da partida sendo a mesma do inicio. Perfeito.

 

Lembrei logo da minha avó. Ela afirmava com propriedade. Entre o que começa e o que termina não tem sequer uma linha, menina, entre o que começa e o que termina não tem sequer uma linha.

 

Foi pensando nisso que sai do quarto. Entre a alegria da novidade. E o pensamento já antigo.

 

Primeiro o susto.

 

Estava tudo branco. Não via a paisagem. Só a cor branca se fazia plena. Muitos pensamentos se enfileiraram. Talvez em auxilio. Lembrei do Ensaio. Lembrei do Disco. Fiquei tentando adivinhar as cores. Compreender o excesso. Parada. Antes mesmo de descer as escadas tudo já havia ocorrido.

 

Não faltaram ideias. Ou recordações. E tudo diante do branco de uma paisagem ocultada. Enfim.

 

Depois a decisão.

 

Desci as escadas. Do lado de dentro - sala estava envolta no branco. Do terraço não se via nem o gradil. Como se houvesse nada além da imensidão branca. Ocupando todo o espaço. Apagando obstáculos. Limites. Acessos. Coerente com o incompreensível.

 

Mas lá me fui dar conta do planejado. Sem filosofias. Sem construções literárias. Tinha que prosseguir em tempo. Pelo tempo. Dentro do tempo. Que o branco lá ficasse.

 

Pragmatismo em ação. Tudo resolvido.

 

O que sobrou em branco - sobrou em falta. Faltava teto. Esta a explicação lógica. Sem teto – sem pouso. Sem pouso – sem decolagem. Simples assim.

 

Podia-se olhar o branco pelo tempo que agradasse. Mas do solo. Só isso. Enfim. Várias parcerias se estabeleceram. E lá ficamos a aguardar que pelo menos uma delas se dissolvesse. Para que o projeto continuasse dentro de uma possível execução.

 

Quando o Disco iniciou sua decomposição – o azul foi se aproximando. Enfim.

 

Cores e nuances iniciaram as suas tarefas. Com o mundo colorido – voltou-se ao propósito inicial.

 

Já não era sem tempo - disseram alguns. Olha o tempo que perdi – comentaram outros. Agora não chegarei mais a tempo – falou alguém com tristeza na voz.

 

Alguns se olharam. Outros ficaram dentro dos seus pensamentos. Talvez nem tão brancos como antes a paisagem. As expressões eram bem tensas. Talvez estivessem no oposto do Disco. Vai lá saber as conseqüência de uma total brancura. E alheia a qualquer avanço tecnológico. Uma brancura por si só.

 

Uma cor – é uma cor. Apenas isso.

 

Quando todos se acomodaram – os avisos começaram.

 

Orientações sobre segurança. O que é proibido. O que é permitido. O que é impossível de ser transgredido. Seguidos de explicações. Situações independentes da nossa vontade. Assim explicavam. Como uma valiosa informação prestada.

 

Sentados e acalmados – houve uma sensação de tranqüilidade. Como se já afivelados – o tempo voltasse ao controle. Cada um com sua solução. Ou sua dificuldade. Mas com absoluta expectativa de aceitação.

 

Olhei para o infinito. Para os muitos tons de azul até o rosa. Mas abaixo se via um branco denso.

 

Optei por escutar uma música. Coloquei os fones. Foi instantâneo. Uma outra viagem se fez. Isolada da formal. Descompromissada com as técnicas. Ou com as coincidências. Quase deu uma confusão mental.

 

Ri. Tocava uma marcha. Nupcial. Uma bela orquestração. Belíssima. E no momento da subida do vôo. Assim. Como se uma regência de fora se fizesse presente. Como uma necessidade.

 

Acordei no branco. Sentei diante do azul. Em proximidade total com o Universo. Se assim se pode dizer.  Um casamento realmente se fazia.

 

O plano da partida e a vontade da chegada. O azul e o branco. As nuvens e o metálico do progresso. O plano e o ato. O gesto e o fato. O riso e a festa.

 

Não sei se foi um recadinho. Uma desculpa. Um sinal. Isso não se sabe jamais. Não tem provas. Nem documentos. E cabe a cada um fazer e desfazer os códigos. Muito mais internos do que externos. E conforme se apresentam.

 

Conclui. Perfeito. Assim devem ser as comemorações.

 

Olhei para ele. Apertei a mão. Sorri.

 

 


Novembro 15 2009

 

Nem acreditava.

 

Tantos anos sem praticar a  impulsividade. Teve um tempo que era atleta nessa modalidade. Ao menos assim considerava. Estilo medalha de ouro. Por certo não perderia uma maratona – caso houvesse uma. Ou restasse concorrentes.

 

Houve um tempo de ponderação. E nesse tempo a razão fez a regência.

 

Vai lá saber o que deu nesse dia. Uma revirada. Não diria reviravolta porque parecia não ter a tal volta. Vai ver foi um sonho cubista. Algo assim. Bem fora do habitual-recente. Provocou um momento de atenção. Um insight.

 

Quem sabe fez lembrar o tempo que escorre - por entre muros e dedos. Ou fez despertar para o meio tempo que a vida corre -  entre planos e promessas. Enfim. 

 

Nem lembrava mais do  estilo construído. E constituído. Havia esquecido esta parte. Sim. Antes era diferente. Sempre agia em comum acordo - com a  vontade. Mas já fazia tanto tempo. Nem dava para datar mais quando fora a ultima vez. Quando o impulso fora um ato realizado. 

 

Mas não importa. Nem o tempo surrealista escorre pra trás. Nem o para trás escorre no tempo realista.

 

Desta vez retomaria de onde parara. Seria - sem recuos. Melhor conceder um pouco de autoridade à ideia. Mas também não foi sem esforço.

 

A situação fez lembrar um dos conselhos da avó. E' sempre tão contraditória a manutenção das decisões, menina, é sempre tão contraditória a manutenção das decisões. Estava certa.

 

Acordar com a ideia. Decidir  como se decide um sonho. Sem a interferência do consciente. Eis um processo por si só - comprometedor. 

 

Mas ato e fato estavam destinados a uma parceria. Ao menos desta vez. Depois veria o que fazer. Caso surgisse algum tipo de impedimento. Ou de restrição. O depois deve ter sido inventado justamente para ser usado. Perfeito.

 

Conclusão definida.

 

Este o mês de aniversário dele. Desde o primeiro dia do mês fizera surpresinhas. Presentinhos. Colocados em lugares e horários especiais. Para tornar ainda mais especial a data. Todos sempre faziam piadinhas. Do quanto é bom fazer aniversario no final do mês. Mas para quem lhe conhece. Destacavam rindo. Tem muitos e muitos dias de presentinhos e pequenos mimos.

 

Enfim. Mas desta vez o desfecho será diferente. No dia exato estaremos lá. Comemorando lá.

 

Cedo telefonei para ela. Expus a direção. Ela foi logo avisando. Deixa comigo. Farei a parte braçal do plano. Desligamos rindo.

 

Não nego. Por um segundo o pensamento circulou pela cabeça. Um frio percorreu coluna vertebral. Não. Vou avisar que desisti. Que foi um acesso banal de insanidade. Temporária. Já estou curada.

 

Acho que ela lê pensamento. Mesmo à distância. Fui pegando o telefone para informar - já fui atendendo. Era ela.

 

Consegui tudo. Fica tranquila. Uma beleza de ideia. E a muito baixo custo. Perfeito. Anota o número do vôo. E imprime também o voucher do hotel. Boa viagem. Divirtam-se.

 

Sentei. Estava deflagrada a retomada da impulsividade. Que vengam los nuevos dias. Ri.  Três dias de festejos. Em terras para ele ainda desconhecidas. Uma festa diferente.

 

Mas sempre se sabe. Nada é perfeito. Aprendi rapidamente um novo axioma. Pelo menos - novo para mim. Rotina - tem este nome por que não admite surpresas. Nem perdoa impulsos. Assim. Simples.

 

Não teve opção. Agenda adiantada. Horários acrescentados. Jornada triplicada. Nada é depois. Outro axioma. Rotina entende até de antecipação. Mas nunca de adiamento. Foi um tal de acelerar e pré-estabelecer como nunca dantes imaginado.

 

E o corre daqui. Acelera dali. Retoma de lá. Aceita de cá.

 

Vencidas. A rotina. E eu.

 

E foi de repente que anunciei. Assim. Com ar de quem apenas sugere. Falei contendo o riso.

 

Este ano será estilo cumpleaños. Não. Não em casa. Será no Caminito. Quizá a Media Luz. Riu. Acho que até duvidou da própria escuta.

 

Entreguei os impressos. Riu de novo. Mas com olhos bem abertos. Adorou. Celebrou.

 

As malas já estão prontas. Como diz a canção: de tarde, té con masitas. De noche, tango y cantar.

 

 


Novembro 11 2009

 

Há um saber oculto nas obviedades.

 

Entendi ou descobri sem querer. Ou por muito querer. Enfim. São muitos os desvios que levam às conclusões. Conclusões nunca são lineares.

 

E não foi diferente em relação às obviedades. Elas podem ser tolas. Podem ser desacreditadas. Ou excessivamente criticadas. Muitas vezes transformam um assunto entediante em horas de risos. Ou servem quase de imolação para algum desavisado. E vítima e algoz - trocam de Lugar sem nem perceber.

 

Não importa. Há algo nelas que vai além. Há certa singularidade. Ou talvez um confortável amparo. Que muito acalma a quem se apóia – sabiamente - nas obviedades.

 

Assim fiquei hoje.

 

Há um ano estávamos em grande festejo. Era uma dupla comemoração. Melhor ser mais justa. Era uma multi-comemoração. Ela se libertava. De dores e temores. De choros e pudores. De tanta lágrima caída. De tanta solidão contida. De tanta razão exigida. Das noites mal dormidas. Dos dias exaustivos. Das breves pausas para retomar um fôlego - por si já esgotado.

 

A outra metade teve que ir mais cedo. Numa pressa sem explicação. Mas com a devida aceitação. Sim. Há sempre o que não pode ser mudado.

 

Fazia a primeira viagem por sua conta e autoria. Decidira assim. De um golpe só. Aliás - só - era o alter ego dela. Ela e só.  Até ri agora. Era verdade. Uma dupla unitária. Ou uma unidade dupla. Perfeito. Cada um se sustenta com os parâmetros que escolhe.

 

Mas assim foi. Decidiu. Vou sim. Vou me dar este presente. Aniversário é um precedente. Procedente.

 

Chegou num belo dia de sol. De céu azul. De brisa fresca. Já do avião começara a sorrir. Junto com seu alter ego. Conteve-se um pouco porque se sentiu observada. Mas só um pouco. Estava iniciada a temporada do riso. Quem quiser que duvidasse. Ou reclamasse. Mas não com ela. Nem a ela. Estava em paz.

 

Lembro que pôs as malas no chão com delicadeza. Olhou em volta do ambiente novo. Abriu a porta da varanda. Percorreu com o olhar a paisagem de inúmeros prédios e milhões de janelinhas. E sorriu.

 

Sentiu-se em terra firme. Sentiu um prazer que há muito esquecera. Ou arquivara.

 

O tempo do arquivo - acabou. Abriu cofres e gavetas. E se expôs.

 

Tinha se dado um habeas corpus. E ia usá-lo com todo o direito conquistado.

 

Teve de tudo. Excessos brotaram de todos os cantinhos. Vinho. Compras. Música. De escafandro a borboleta – circulou com sua alegria quase de criança.

 

No teatro a atriz desnudava o corpo para falar da alma. Na vida real ela desnudava a alma – para entender o corpo.

 

Espíritos de vivos e de mortos foram convocados numa cozinha. Uma festa se fez em torno das memórias. A noite permitiu o riso irônico. O vinho coloriu as narrativas. As concordâncias e discordâncias se entrelaçaram até se igualarem. O macarrão do desjejum fez o dia seguinte se estabelecer como – liberdade.

 

Chorou. Riu. Acreditou. Comemorou.

 

Já se vai um ano. Um ano.

 

Desta vez ela não virá. A comemoração será onde mora. Na cidade escolhida. Os amigos reunidos. Equalizado. Sim. Místico e profano. Só não sei se em igual percentual. Equalizado para ela nem sempre é igual a meio a meio. Esta é ela. E seu fiel alter ego. 

 

Já cedo enviou um recadinho. Há um ano estávamos todos em festejos aí. Nunca vou esquecer. Completou no final do recadinho. Estávamos fazendo a maior farra ... ah! que saudades!

 

Cinqüenta anos - de anos especiais. Um por um. Eis alguém que validou todo o registro. Valorizou todo o cartório. Considerou toda a ascendência. Compactuou com a descendência.

 

Assim faz. A cada dia. Respeita e cumpre o prometido.

 

Eis como descobri o valor das obviedades. E a tranquilidade que elas oferecem. Saber assimilar o que é óbvio - possibilita a continuidade da emoção. Mesmo que tantas vezes encoberta pela razão - sempre há por onde escapar.

 

Valorizar a alegria da Existência é sempre a melhor forma de festejar – mesmo que isso seja óbvio.

 

Por isso importa a comemoração. A cada ano. Não faz diferença onde. Há situações em que espaço é limite mais interno do que externo.

 

Saudade também é motivo de parabéns. Tristeza é festejo sem saudade.

 

Do lado de cá do Mapa todos nós erguemos as taças - pelo seu aniversário.

 

 


Setembro 29 2009

 

Sim. Adorava a Lua cheia.

 

Estivesse onde estivesse – parava. Olhava para a Lua. Como se a visse pela primeira vez. Como – talvez - teria olhado a primeira pessoa. Com o olhar curioso. E a expressão surpresa. Diante da beleza de uma Lua cheia.

 

Brilhante. Como um farol - na noite universal.

 

Sempre pensava nas distâncias. Nas pessoas que estariam olhando. Em que outros lugares. Comentando com outros idiomas. Com outros sotaques.

 

Que contornos estariam sendo destacados. De flores em um jardim. De barcos em algum mar distante. De alguma casa simples num lugar deserto. Em algum pinheiral envolto em neve. Ou um simples terraço de um prédio. Urbano. Como estava ela ali. A Lua com qualidades altruístas. Dava-se. Expunha-se. Só isso.  

 

A cada Lua cheia - se sentia presenteada. Pela natureza. Pelo Universo. Até pela Vida em si. Não importava. Funcionava sempre como um momento de paz. Total. Absoluta.

 

E foi assim.

 

Estava descendo a escada. Viu que os degraus estavam claros. Uma luz vinha de cima. Olhou para cima. Despretensiosa. Até desatenta. Olhou como se olha. Sem preocupação de enxergar. Virou a cabeça.

 

Ficou surpresa. Fez até aquela voz que as crianças fazem. Um sustinho de alegria. Viu a Lua. Redonda. Linda. Pura luz. Atravessando o vidro do teto da escada. Subiu de volta. Já atenta e cheia de pretensão. Foi para o terraço aberto.

 

Deitou em uma cadeira. Ficou ali. Imóvel. Olhando. Como se diante de um espetáculo. Como se diante de um aviso. Silêncio. Onde qualquer movimento poderia prejudicar o efeito. Mais ou menos assim.

 

Lembrou de tantos lugares onde já tinha parado - para olhar a Lua. As lembranças vieram felizes.

 

Lembrou da primeira vez que foi lá. A cidade eterna. Subiu numa colina. Encostou-se na estátua da mulher heroína e ficou lá. A Lua cheia contornava a figura de pedra. A altivez da escultura parecia se submeter. A todo aquele brilho. Pensou. Nunca quero esquecer este momento.

 

Ordem dada. Ordem obedecida. Nunca esqueceu.

 

E já se iam tantos anos. Na época ainda era muito mais crédula do que observadora. Hoje era o contrário. Era muito mais observadora do que crédula.

 

Mais ainda olhava a Lua com olhos de infância. Quando tudo é simples e possível. Onde a beleza é apenas beleza. Sem questões de estética. Sem filosofias sobre a existência.

 

Lembrou também de quando estava lá ainda. Na cidade de onde viera. Lembrou do risquinho delicado da luz da lua no mar. De longe – lá do horizonte - até a espuminha da água na praia. Até a areia ficava mais clara. Branquinha. E quando criança saia em noites assim para catar as conchinhas. Conchas da noite são mais belas que as conchas do dia. Assim explicava. Vai lá saber por que.

 

E foi um tal de lembrar de Lua – e de luar -  que não acabava mais.

 

Lembrou até dos índios e a sua conta de nascimento. Quantas luas.

 

Lembrou dos contos assustadores. Sempre partindo das ideias dos adultos. Como se temessem. A luz de cima em meio à noite. Como se esta luz permitisse – expor o que não podia ou não devia.

 

A luz da Lua contornando também as maldades. Nunca havia pensado nisso. Só ali. Naquele instante.

 

O céu estava claro. Muito claro. Muitas estrelinhas. Desconsideravam a tal urbanidade. Não competiam com a luz dos prédios.

 

Um ou outro avião cruzava entre elas. Ficou imaginando se as pessoas dentro olhavam e sorriam emocionadas. Diante de tão perto da Lua.

 

Riu quando lembrou a amiga de além mar.

 

Uma noite ela falou via a comunicação habitual. Por letras e barulhinhos no teclado. Estou daqui olhando a Lua. Vai lá você também. Olha para ela. E assim – é como se estivéssemos nos olhando. Riu.

 

Há sempre um modo de se diminuir distâncias. E minimizar saudades.

 

Olhou mais uma vez para o céu. Sentiu o luar em volta dela. Brincou de sombras com o brilho por sobre as pedras do terraço.

 

Levantou. Encostou-se na muradinha com o gradil de ferro. Era esta uma noite de inverno. Sentiu um friozinho na pele. Quase um arrepio.

 

Antes de entrar jogou – com um sorriso - um beijo para a Lua.

 

Também não iria mais esquecer esta noite de luar no terraço. Ordem dada.

 

 


Setembro 20 2009

 

Impossível negar. Foi uma surpresa.

 

Daquelas que pode até provocar aceleração do coração. Descoramento súbito da face. Ou o oposto. Rubor facial intenso.

 

Aquele recadinho me tirou da rotina. Liberou pensamentos. Fiquei muito tempo pensando nos poderes. Em todos os poderes. Mas em especial no poder da letra. Isso sem deixar de destacar a rapidez da comunicação. Mas naquele momento me pareceu o de menos. O poder da letra sim. Este o maior dos poderes.

 

A viagem dos caracteres mundo a fora – mal – ou bem - saídos de uma idéia.

 

Não importa a história pessoal. De quem escreve – ou de quem lê. Não importa o conhecimento físico. De quem escreve – ou de quem lê.

 

Nenhuma real materialização se faz necessária. Este é o mais belo poder de uma letra. O seu percurso é mais solitário do que a sua função. Mas nem por isso menos acolhido. Ou menos considerado.

 

E desde sempre. Há escritores antigos que não se tem sequer uma descrição do seu rosto. Há textos saídos dos lugares mais esquecidos do mundo. Há frases célebres de autores anônimos.

 

Mas o contrário não existe. É pela letra – seja qual for a intenção por trás dela- que uma atemporalidade se torna possível. E a espacialidade. A ligação entre o autor e sua letra só se torna forte pelo crivo do outro. É o leitor que cinzela o que foi esboçado. Este sempre o poder da letra. Alheio ao seu causador.

 

Mudam os idiomas. Mudam as tradições.  Trocam-se os terrenos. Ideologias. Convenções. Estilos se multiplicam. Mas a letra circula exercendo sua função de percorrer. Livre do idealizador. Desgarrada do autor.  Mais ou menos por aí.

 

Até lembrei dela. Uma vez se irritou. E avisou. Não quero saber de interpretação com esta pergunta. Qual a idéia do autor. A idéia do autor é mistério que não interessa. Muitas vezes até para ele. É pela idéia do leitor que um texto desperta e respira. O texto nasce e cresce nas mãos de quem o lê. A partir da avaliação de quem o lê. Procede.

 

Foi entre estes pensamentos que fiquei surpresa diante do recadinho. Um recadinho. Uma sugestão. Um esclarecimento.

 

Vinha d’além mar. Alguém de tão longe se apresentava. Sou seu leitor. Pedia permissão para opinar. Incrível. Como um poema. Ou uma poesia. Assim me veio a sensação na solicitação. Na opinião. Na delicadeza incluída na mensagem.

 

Por que não tenta. Se não tentou já prolongar suas  pequenas fotografias que são verdadeiros instantâneos - e dar-lhes  consequência.  Desculpe minha pretensão e arrojo em lhe estar a sugerir isso,  mas acho que seria capaz de fazer algo muito bom.

 

Vinha de tão longe a sugestão. Acrescentara uma pequena identificação pessoal. Lutara na guerra da Guiné.

 

Contou sobre o tempo de soldado na Guiné. Escrevia uns chamados aerogramas. Eram uns simples papeis azuis. Levezinhos por causa do avião.

 

Escrevia duma ponta à outra nos momentos vagos da guerra. Depois recomeçava a luta e parava o aerograma. Por vezes andava uns dias a escrever o mesmo - antes de ir ao correio.

 

Ele não me conhecia. Eu não o conhecia.

 

Sabia do meu estilo. Opinava de forma filosófica. Como filosófica tem que ser qualquer decifração de códigos. Só assim uma leitura se faz - por si só – uma tradução. Onde o que menos importa - é o idioma.

 

Apresentou-se pela opinião. Continuou pelas desculpas. Encerrou o aperto de mão com um trecho da história pessoal.

 

O texto instantâneo se unia ao texto histórico. Um relato por sobre o conto. E o conto por sobre o relato.

 

Escrever em instantâneos. Fiquei pensando nisso. No instantâneo da escrita. Isso sem falar em tantas consequências possíveis - do prolongamento de um texto. Adorei.

 

Foi ai que veio a real surpresa. Da magia da letra.

 

A Guiné ficou quase na esquina. Dava até para ver o soldado escritor – a pegar seus papeizinhos azuis. Consegui até vê-lo lendo os meus textos. Agora já numa outra etapa de vida. Onde a guerra e os aerogramas são tácteis apenas na memória.

 

Obrigada. Pelo retorno. Por me fazer - realmente - existir. Agradeço muito. Vou tentar. Já estou tentando. Se conseguir lhe envio. Algum dia.

 

Se possível em papeis azuis.

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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