Blog de Lêda Rezende

Fevereiro 01 2010

 


Como fui fazer isso. Sou mesmo imprudente.

 

Sempre me disseram isto. Minha avó me aconselhava. Prudência acima de tudo, menina, prudência acima de tudo. Mas nada. Estou sempre esquecendo os bons conselhos. Ao menos conheço muitos seguidores deste tipo de esquecimento. Mas agora não é hora para estatísticas. Estatísticas de nada servem. Só apontam. Não solucionam.


Não era ele. Mas como eu iria adivinhar se ele é quem chega esta hora e toca a campainha.


Ele tem a chave. Mas sempre toca a campainha. Deve ser para me escutar correndo pela casa. E abrir a porta sorrindo. Ele e a vizinhança toda. Sim. Corro bem rapidinho. Fazendo barulho para ele escutar.

Mas não era ele. Como explicar. Nem sei. Com a quase falta das roupas veio a quase falta das palavras. Bem existencialista. Pensamento cru. Nu. Ri da analogia.

 

Não é só o pensamento que está nu. Ou quase nu. Já é uma forma de vestir. Quase - veste muitas vezes - muito mais. Mas se não é hora para estatísticas, imagina para filosofia. Ri. Acho que ri. Correndo pela casa. Enrolada numa toalha. E abrir a porta.

 

Foi um dia tão árduo. Acabei de voltar do cumprimento do juramento. Hipocrático. E essa me acontece. Que situação. O olhar dela. Parecia que estava vendo um fantasma. Ele. Mal me falou de tanto que ria. Ele tem bom humor. Ou já se acostumou com meu jeito. Não desse jeito. Mas não complicou.

Tudo já estava complicado. O suficiente.  Ela ficou séria. Perguntou se eu estava com algum problema. Lógico que estou. Alguém sem problema sairia correndo pela casa para abrir a porta de toalha sem nem querer saber quem poderia ser. Não falei. Pensei. Não estava com este fôlego todo. Hipócrates ficou com a maior parte. Do meu fôlego.

Lembrei da frase dele – cada uma que se escuta.

Sorri educada. Educada. Esta palavra está em total desacordo. Com a situação. Ela deve estar com medo que seja algum mal de família. Ela sempre repete aquela frase. De por um levar todos. Ou por todos levar um. Já não sei mais. Deve ter também uma toalha em meu cérebro agora.

E tinha que acontecer logo com ela. Justo com ela. Sempre julgando. Analisando. Conferindo. Decidindo. Sempre séria. Humor difícil. Bom humor difícil. Vive apreensiva. É o que me parece. Mas não estou em condições de muita apreciação. Neste momento. Nestas horas é que discordo do pensamento do austríaco. Muitas vezes é exatamente como parece.

Lembrei daquele outro dia. Também mal tinha retornado. Já atendi ao telefone me nomeando propriedade de quem estava do outro lado da linha. Eu. Sua mulher. Falei assim. Em alto e bom som. E um riso anexado.

 

Onde já se viu. Nem esperei escutar direito a voz. E já fui com a oferta. E o sujeito entendia nada. Nem eu. Foi um suor. Esta é a palavra exata. Eu e o desconhecido a tentar adivinhar quem estava errado. Ou se havia mesmo um erro a ser detectado.

 

Isso sem falar num cliente. Chamei de meu amor. Novamente pelo telefone. Ele nem sabia mais se era meu cliente. Ou pior. Que tipo de cliente ele queria ser. Devo estar ficando compulsiva. Por telefone. Por estranhos. Ri.

E ele riu muito quando soube. Ele ri feliz porque só penso que é ele.

Não sou só imprudente. Sofro de mania de surpresa. Outra conclusão sábia. Só é imprudente quem sofre de mania de surpresa. Genial. Ele tinha me dito que só viria muito tarde. Mas eu achei que faria uma chegada inesperada. E lá se fui correndo dando asas e pés à imaginação. Só devia ter colocado uma roupa. Para não passar esta vergonha. Agora ficou parecendo letra de bolero antigo.

Conclusão rápida e certeira. Imprudência é estrutura. Quem é imprudente é no ato e no pensamento. Não entende a palavra combinado. Não existe combinado não alterável. Esse é o pensamento do imprudente. Vive de inesperado. Abre portas à toa. Nem sempre dá certo. Nem sempre o final é feliz. E sempre repete que vai mudar. E quebra o combinado consigo mesmo. Só não decidi se sofre mais ou menos que o prudente. Esse é um pensamento para outra ocasião. Com menos toalha envolvida.

Ela me mandou ficar à vontade. Não iriam demorar. Como assim eu ficar à vontade. Mais. É verdade. A falta de humor conduz ao pouco raciocínio. Isso deveria já ser um axioma. Ela sempre séria. Pouco ri. Também parece não escutar o que fala. Se me colocar mais a vontade que farei. A palavra escalpelo me veio. Ri. Dela. Lógico.

Muita observação. Para quem está na situação que estou. E na sala. No sofá da sala. No velho e bom sofá da sala. Qualquer dia escreverei. Sobre este bom amigo. Acho até que já escrevi. Só não sei onde está. O texto. O sofá e a toalha eu sei. Ainda. Sim. Com licença. Acho que este é o pedido inflacionado. Universalmente. Pedir licença. Pede-se licença. E, muitas vezes, pede-se a nada. Ou para nada. Nova descoberta.

 

Sou uma filósofa quando estou abraçada a uma toalha.


Chega. Ordenei ao meu cérebro. Sossega. Chega. Já me basta a bizarra situação.

 

Melhor colocar uma roupa. Sem correria. Mais conveniente ir andando. Bem devagarinho. Até o quarto. Como se uma lady antiga fosse. Pensei em falar algo bem profundo. Uma explicação bem profunda para a situação ficar desculpada. Vieram mil idéias. Estava lendo Filosofia Alemã e esqueci de vestir a roupa. Estava pensando em fazer uma meditação zen budista e nem deu tempo de vestir a roupa. Escutei a campainha tocar e achei que era ninguém e vim confirmar.Mas nenhuma destas frases me parecia adequada. Ao inadequado da situação. Mais existencialismo. Se falar muito acabo é internada. Interditada. Algo por aí. Melhor dosar bem as palavras. Já basta a tal toalha.

Já vão. Tão rápido. Não. Já tomei banho. Quer dizer, ia tomar banho. Não. Estava saindo do banho. Nossa. Quanta confusão. De repente me parece que o mundo gira em torno de uma toalha. Está bem. Voltem sempre que quiserem. Adoro ver vocês por aqui. Que bobagem. Não precisam avisar.


Estava aguardando seu telefonema. Eu estou ótima. Só com um pouco de calor. Vou tomar um banho. Já que a toalha está tão à mão. Não. Esquece. Depois explico. Melhor usar a chave de agora em diante. Ou vai ficar na porta. Esperando eu me arrumar. Com direito a salto alto e blazer. E passos suaves. Nada mais de correria. Prudência, prudência acima de tudo. Meu novo lema. Como assim não está entendendo a minha fala? Ri. Depois vai entender.

 

publicado por Lêda Rezende às 20:44
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Janeiro 05 2010

 

Ao final do dia - o cheiro invadiu a casa.

 

Lembrei do livro. O autor - já bem vivido - explicava. O paladar começa pelo nariz. Perfeito. Nunca li nada mais adequado. Nem importam os dados da Fisiologia. Ou da Anatomia. Muito mais vale a Filosofia. Não existe órgão do sentido excludente. Eis uma táctil e aromática verdade.

 

Já acordei assim. Como guiada pela manufatura. Ou pela ansiedade das mãos.

 

O dia amanhecera um pouco silencioso. Diante de um frio insistente em ficar. E de uma garoa persistente em desobedecer. Nada de espaço primaveril. Mas as estações devem ter lá um próprio manual de instruções.

Que sigam - de acordo. E que nós daqui nos adaptemos – sem acordo.

 

Enfim esta não é a minha tarefa.

 

A minha daquele dia já havia sido definida. Há trinta e dois anos. Agora era uma questão apenas operacional.

 

E desde cedo comecei os preparativos. Mas não sem uma organização. Coloquei música. Em um sequência que surgiu de repente. Nada muito programado. Mas acatado. Como um ritual. Talvez seja assim a arte da manipulação dos alimentos. Muito mais que facas e pratinhos. Um ritual especial - por si só - se estabelece e se confirma. Alheios a nós. E tantas e tantas vezes sequer percebemos.

 

Desta vez foi especial. Fiz como que compactuando. Ao menos dentro do possível de uma racionalidade.

 

Corta. Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

 

A música se fez sábia. Sim. Nada do que foi será igual ou do jeito que já foi um dia.

 

As mãos e ingredientes se fizeram um só. Difícil até saber quem comandava quem. Ou o que.

 

Mas lá fiquei. Entre músicas e memórias. E aí foi impossível não lembrar a minha avó. Ela repetia com muita segurança. Cozinhar e viver - é a arte de saber dosar, menina, cozinhar e viver - é a arte de saber dosar. Procede.

 

Corta. Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

 

Olhei para o colorido dos ingredientes. Para a disposição deles em panelas e pratos. Parecia uma rosa dos ventos. Ri. Vai lá saber de onde saiu esta idéia.

 

Vai ver foi da música que tocava. Amanheceu o espetáculo. Como uma chuva de pétalas. Ri e continuei dando toques e retoques. Afinal – não é só de boa intenção que sobrevive o paladar.

 

A esta altura já estava misturando mais ingredientes que os da realidade culinária. Tentei me acalmar. Deve ser assim que se cozinha. Uma pitada de história. Uma ponta de saudade. Um ramo de alegria. Uma colher de nostalgia. Uma dose de contradição. E por aí vai. O importante é estar em sincronia com o processo. Um erro em cada parceria – uma pitada que seja – e lá se vai o doce sabor do proposto.

 

E foi em meio a tantos rituais e conclusões – que ao final do dia - o cheiro invadiu a casa.

 

Delicado. Independente. Intenso. Surpreendente. Delicioso.

 

Saiu de dentro dos continenti e se espalhou. Pela cozinha. Pela sala. Por todas as varandas. Subiu as escadas. Passou pelo terraço. Mexeu com os deuses.

Sorriu para o Banquete. E voltou – completo - para dentro de onde saíra.

 

Ao final da tarde – parei. O dia cabia dentro da noite que chegava.

 

Na cozinha os sinais de guerra estavam já apagados. Tudo parecia composto de magia. E não deixava de ser. Não havia sinal de ato braçal. E sim de ato manual. Pode parecer semelhante – mas não é.

 

Continuei. Agora caminhando e olhando em volta. Gostei do que vi. A mesa posta em tons suaves. Tudo em azul e branco. Num canto discreto orquídeas cor-de-rosa. Penduradinhas em seus cachos faziam o contraste mais belo. As taças altas pareciam sair de pedestais. A sala se enfeitava com efeitos múltiplos de um festejo conquistado.

 

A campainha tocou. Eles chegaram. Parecia até nome de filme. Seis à mesa.

 

Ri. Os brindes foram feitos. Votos renovados. Fotos atualizadas.

 

A música continuou. Parceira simbólica dos gestos e falas. Godiamo, la tazza e il cantico la notte abbella e il riso.

 

Estava confirmada a comemoração. E já parte da história de todos nós.

 

 


Janeiro 03 2010

 

Eis uma lição que não aprendia.

 

Mesmo com a advertência da avó. Sempre tratava a véspera como se o dia marcado já fosse. Enfim – este o estilo dela. E algumas vezes - dava bem certo. Vai ver por isso persistia.

 

E desta vez não foi diferente. Lógico. Desde a véspera estava em torno do festejo.

 

Ontem. Tudo acontecera ontem.

 

Casualmente pudera sair mais cedo da atividade. E lá se foi bem feliz. Animada - até se diria.  Planejara com cuidado o trajeto. O meio para seguir o trajeto. Tudo bem adequado. O objetivo já estava definido.

 

A temperatura caiu. Estava com ares de primavera. Ela. Mas a temperatura não. O vento do inverno viera sabe-se lá de onde fazer parceria com uma consistente chuva.

 

Mas não se incomodou. Muitas vezes é bom caminhar no frio. E na chuva. Desdenhou e seguiu. Perfeito.

 

Lá chegou. Olhou. Virou. Mexeu. Rondou. Escolheu. Ou melhor - confirmou o que já havia escolhido há alguns meses.

 

Sim. Ele iria adorar. Eis mais uma certeza diante de si. Conhecia bem o jeito dele. Afinal ela o ensinara desde bem pequeno. Conforto em primeiro lugar. Para que os instantes de preguiça sejam bem tratados. São especiais esses instantes. E muitas vezes se esquece de agradá-los com o acolhimento que merecem.

 

Tudo muito bem. Resolvido. Restava apenas um detalhe. Mínimo. Aliás - de mínimo só o tal detalhe. Por que o presente não. Era grande. Poderia ser medido em cúbicos. E vinha dentro de uma linda – e enorme – sacola vermelha. De uma elegância de dar gosto. Mas este o detalhe mínimo que esquecera. Fora sobre trilhos.

 

Mas aguarda mais um. O próximo. Depois desse. Só mais uma chance. Algum deverá vir mais vazio. Eu e minhas ideias. Mas enfim. Somos mesmo uma boa dupla. Minhas ideias e eu. E lógico. Agarrada à minha bela sacola vermelha. Já somos quase um trio. Tudo bem que até lembra um trio carnavalesco. Bem que poderiam ter criado uma cor mais discreta. Um volume deste ficaria melhor num tom bege. Café com leite. Ocre. Sei lá. Mas usaram e abusaram da iluminação.

 

Foi pensando assim. Com muita calma e parcimônia – que deu certo.

 

Conseguiu chegar de volta em casa. Com sua bela sacola vermelha. A esta altura – já do agrado.

 

Já estava quase acendendo as velinhas e comendo o bolo. Riu.

Sentou-se diante do excesso de rubro. E de repente não estava mais ali. Ela.

 

Lembrou do dia. Daquele dia há trinta e dois anos.

 

Um dia mágico. Pela primeira vez saberia o que é este sentimento. Lembra de alguém lhe arrumando os cabelos. Pediu que fizessem uma trança. Os cabelos eram longos. Uma voz saltou rápida. Quase um grito. Não. Parem já. Trança não pode. Os índios dizem que não faz bem nesta situação. Não entendeu bem o que os índios faziam ali. Mas nem tentou questionar. Acatou. Acataram. Soltaram o trançado de imediato. E alguém lhe fez algo que deveria ser um-sei-lá-o-que.

 

E assim foi. Deitada na maca. Assustada. Mas feliz.

 

Escutou o primeiro tom de comunicação dele com o mundo. Um chorinho surgiu em meio aos movimentos de médicos e enfermeiras. E os fez parar e compartilhar da emoção.

 

Fixou em todos – sorrisos. Escutou algumas observações. Tudo bem. É perfeito. É lindo. Ele veio - com ele enroladinho. Ainda chorando. Colocou deitadinho sobre o tórax dela.

 

Olhou. Jamais esqueceria esta imagem. Jamais esqueceu.

 

Tocou na pele macia. Ainda úmida. Passou a mão pelos cabelinhos. Ele pareceu se aconchegar. E parou o chorinho. Um conhecimento e um reconhecimento se estabeleceram. De imediato. E para sempre.  

 

E entendeu o amor materno. Neste instante. Diante de alguns. Diante de si mesma. Dentro de uma sala gelada. Tremendo de frio. E de alegria. Uma emoção impossível de se transcrever. Uma emoção que tão-somente se inscreve. E dentro de cada um.

 

Chorou. Sentiu o coração bater mais forte.

 

Disse-lhe um bem vindo. Baixinho e emocionado. Eu amo você. De agora em diante não saberei mais o que é Vida sem você.

 

O telefone. Quase deu um pulo quando escutou o toque. O som a tirou de lá. E a trouxe de volta para cá. Não estava deitada na maca. Mas sentada no sofá da sala. E bem em frente - a sacola vermelha.

 

Mas sorriu ao escutar a voz. Era ele.

 

Queria contar sobre a surpresa de um presente. Quase caíra de costas. Era o que queria. A cor era azul. E tinha uma lista branca na lateral. Por dentro bege. Bem esperto. Riram. Festejaram.

 

Combinaram como seria o dia seguinte. Este sim. O dia exato.

 

Quando desligou continuou rindo. Lembrou uma frase muito comum. Mas nem por isso menos verdadeira. Simples e objetiva como toda sabedoria.

 

Quem herda aos seus não degenera.

 

Lá estava ele comemorando também de véspera.  Perfeito.

 

 


Dezembro 24 2009

 

Ela leu e comentou. Não negou. A surpresa. Leu o texto.

Ler também é uma forma de simbolizar. Uma cena. Um pensamento. Uma idéia que seja. Não importa. Importa o que  fica simbolizado. Porque disso dependem as ações. Presentes. Futuras. Para que possa ser entendido até um passado. Muitas vezes ler cria mais possibilidades do que escrever. Tudo depende da forma que se permite que venha uma simbolização. Por isso depende de cada um. Da individualidade proposta.

 

Ler é muito mais difícil que escrever.

Como dizia minha avó. Desperdice nada do que ler, menina, desperdice nada do que ler. 

 

Fez um comentário. Ri. Para o comentário. Persistiu com o chiste. Precisava do número do telefone do amigo psiquiatra. Encontros imprevistos. Pensamentos semelhantes. Histórias parecidas. Amigos circulando. Estava tudo místico demais. Muito mais do que falou o inglês sábio. Estava parecendo que havia muito mais. E muito mais mesmo. Do que a vã filosofia previa. Daí brincou. Só agendando. Queria o número.

 

Nada de virada. Queria mesmo era uma coordenada. Isso sim. Estava parecendo imprescindível. Só não perguntei se isso estava na listinha. A tal listinha que ela estava organizando. De tarefas e sonhos para serem cumpridos. Na virada. Depois da virada. 

 

E lá estava ela de frente para o mar. Num recreio. Nome de desbravamento. Igualando a si mesma. Desbravamento. Do mundo. Do entorno. Do contorno. 

 

Sempre é bom se estar atento. Ondas remexem areias. De certa forma cimentadas. Na ilusão. Na solidão. Na aparência. Agora lembrei dela. Está certa. Podem virar pó. É sempre do pó que se chega na poesia. Sábia.

 

As ondas têm poder. Ou causam efeitos. Tanto faz. Efeito é como adereço. Cada um usa como quer. Utiliza onde prefere. Nega como agrada. Vê como consegue. A olho nu ninguém enxerga. É da própria história que constrói e se des-constrói as lentes do lidar com o efeito. Seja da onda. Seja do vento. Seja da turbulência. Tudo faz parte do interno. Embora pareça tão externo.   

É preciso coragem para ver o reflexo. Como um espelho. Das ondas interiores. Bem ali. Ao alcance de uma olhadinha que seja. Uma espiadinha de leve. Mas não vejo maior motivo para festejo. Para comemoração.

 

Lembrei que contou da sua posição. Só ela. Uma menina. Eles três. Meninos.

 

Depois falou. Que expunha as emoções. Com alguma facilidade. Não sei. Mas se falou – acredito. Procede. Se não aprendesse a expor – sumiria. E me pareceu que adotou esta mesma posição - diante da vida. 

 

E se fez. Se construiu com o que aprendeu. Uma emissão de voz - plástica - delicada e firme. Um olhar que não desviava - fosse qual fosse a situação. Um caminhar reto - que denunciava decisão. Mesmo que nao soubesse para onde ir. Ninguém nunca o saberia.  Caminhava. Decidida. Olhando para a frente. Séria e firme. Aprendeu isso também. E dera muito certo. Porque trocou de lugar. De conhecimento. Para um outro lugar. Com outro tipo de conhecimento.

 

Saiu dos que não sabem dizer o que sentem. Dos que dependem do outro para falar das suas dores. Ou dos seus amores. Dos que não estão na Linguagem. E foi para o lugar onde só se diz o que se sente. Para os que lidam justamente com a Linguagem. Mesmo que não se fale das dores. Nem dos amores.


Ela que tão bem lia as entrelinhas. Agora lê os entretantos.  

 

Em meio a tudo isso sabia levar um caderninho. Um lápis. E sabia ordenar pedidos. Perfeito. Escolheu ficar escrevendo a listinha. Só com um Participante. Só Ele leria. Ao menos é a pretensão. Ou intenção. Em tempos de virada – nada é definitivo. Por isso escreve-se com lápis. 

 

Que venha a virada. Sem consulta. Com consulta. Não importa. Mas com muita força. E muita alegria. Para os que pedem. Para os que esperam. Até para os que temem.

 

Que venha a virada. Com algumas certezas e muitas dúvidas. Para que se possa continuar. Em busca. Como as ondas.

 

 


Dezembro 21 2009

 

 

E lá estávamos a caminho do mar.  

 

Eles nos levaram. Também iriam para uma outra viagem. Seria a chance de desejar - mais uma vez - mais felicidades. Para o Novo que ia começar.   


Últimos atos – corretos. Horário - correto. Local – correto. Documentos – correto. Todos os corretos em ordem correta de aprovação.

 

Feito a parte protocolar. Com toda a calma. Direto para um cafezinho. Nada como um pouco de cafeína. Em cima da adrenalina. Rimos. Deliciosa aquela doce sensação. Do pré-embarque. Já superada a fase de preparatória. Agora já estávamos dentro. Do campo. Perfeito. 

 

Enquanto caminhava lembrei dela. Me avisou que iria para o mesmo lugar. Ver os fogos na praia. Ver a virada no mar. Sentir os grãos da areia na pele. A água espumante tocar a alma. Até imaginou se nos encontraríamos. Concluímos que seria não muito fácil.  

 

Ficaríamos em lados opostos. Da agulha da bússola. Até ri quando lembrei do chiste. Entre a mutante a a imitante. Muitas palavras se construíram.   

 

Lembrei da minha avó. Muitas vezes lembramos do que está bem perto, menina, muitas vezes lembramos do que está bem perto.  

 

Foi assim. Lembrei dela. Lembrei a minha avó. Virei e ela estava lá. Não a minha avó. Ela. Inacreditável.

 

Os mais místicos diriam – procede. Os mais incrédulos diriam – viável. Os mais tendenciosos diriam – possível. Os mais céticos diriam – invenção. Os mais alheios diriam – combinado. 

 

Não importa. Ela estava lá. Pela segunda vez. Ela sozinha. E nós ali. Como que para acolhê-la.  

 

Nos conhecemos num cenário parecido. Todos viajando. Também pelo ar. Um vôo dentro e fora de nós mesmos. Nas idéias. Pelas idéias. Na tecnologia. Da possibilidade virtual para quase impossibilidade de um real. Todos se identificando. Tímidos. Mas conscientes. Dos limites e da falta deles. Afinal há um mundo onde só idéias dominam.  

 

Em volta de um outro onde as imagens limitam. Assim foi nossa apresentação. Ela sozinha - a amiga faltara. Solitária em meio aos participantes. Não os conhecia. Juntou-se a nós. Aí começaram as surpresas. Descobrimos tantos amigos em comum. E tão queridos. Também em comum. Ele também se apresentou. Tinha vindo de longe. Também tímido. Eles dois ainda estavam juntos. Foi uma noite de solicitação.  

 

De um para outro. De todos para um. Até de um para todos. Embora nem nos déssemos conta disso na hora. Quase sempre é assim. Primeiro solicitamos. Depois nos apresentamos. Tolice pensar que é o inverso.  

 

Agora estava ali. No cafezinho. No lugar da tal cafeína por cima da adrenalina. Quando escutou seu nome levantou a cabeça. Quando nos viu, gritou. Abriu a boca. Abriu os olhos. Rimos. Nos abraçamos. Em meio aquela multidão. Aqueles inúmeros possíveis traslados. Estávamos na mesma hora. No mesmo lugar. Indo para o mesmo destino.  

 

Ela sozinha. A amiga estava em outro local. A mesma amiga da outra vez. A que faltou. Havia um chiste. Sensação mística pode dar em consulta. Com o psiquiatra. Rimos. Lembramos da consulta. Deveria ser agendada. O mais rápido possível. Rimos mais. De repente, a pergunta básica. Um pouco temerosa. Pela resposta. E a resposta veio certa. Certeira, como diriam de onde ele veio. Os mesmos números. Sequenciais. De assento. Vizinhos de assento. Quase ligamos para o psiquiatra ali mesmo. De imediato. Consulta de emergência. Antes da virada. Sem fogos. Sem ondas. Nada de alma resfriada. Rimos.   

 

Ela tranquila - questionava. Ele solidário - registrava. Eu atenta - aguardava. E nós todos  compreendemos. Assim são os permeios da vida. Lá um dia nos vemos diante de uma nova situação. De uma nova coincidência. Que não sabemos os motivos. Mas entendemos a  mensagem.  

 

E essa é a magia da vida. A magia que rege o Universo.   

 

Conversamos durante a travessia. Pela primeira vez todos nós falamos. De nós mesmos. De nossas histórias. Uma sinopse. De nossas vidas pessoais. Mas nem por isso menos particularizada. Das necessidades de mudanças. Das certezas dos pedidos. Da torcida pelo atendimento. Ela enfática. Iria fazer uma lista. De tudo que planejava. E ia seguir. À risca. Com ou sem risco. Rimos mais uma vez. Só não perguntei se tinha lembrado. Da tal agendinha. E do lápis.  

 

O tempo cumpriu seu prazo. Sentimos a terra firme. Seguimos as  nossas bússolas.  

Ou – vai lá saber - as nossas bússolas nos seguiram.

 


Dezembro 19 2009

 

Não imaginava que fosse assim.

 

Tão cansativo. Deveriam mudar o termo. De preparativo para preparatório. Parece o mesmo. Mas não é. Como todas as palavras parecidas - não querem dizer a mesma coisa. O mesmo significado. Nunca pensei. Ou já esqueci. Esqueço fácil o que é complicado. Como é cansativo. E emocionante. Por isso é um preparatório.

 

Essa olimpíada de véspera. De viagem.

 

Lembrei da minha avó. Ela sempre me alertava. Todo prazer tem antes e depois, menina, todo prazer tem antes e depois.

 

É verdade. Não sei como não observei isso antes. Observar é o termo certo. Porque foi só o que fiz. O dia todo. Hoje. E o dia de observar deveria ser amanhã. Porque é o dia da viagem. E ainda tem quem diga que o bom são os preparativos. Ou preparatórios. Vou orientar quem me disser isso - a procurar um especialista. Em doenças do psicológico.

 

Isso já é complicado. Uma só pessoa. Dois tempos. Não pessoais. Ambientais. Um de lá. Outro de cá. No tempo de cá estou me sentindo naquela tal cidade. A da neblina. Porque é só o que vejo do terraço. Paisagem bucólica. Enevoada. Brumas. Há uma semana - brumas. Quando modifica - relâmpago. Quando ele se encerra – brumas. Depois – relâmpagos. Uma roda viva de névoa e luz. Uma calma e outra acelerada. Como a urbanidade.

 

Não posso negar. E sempre vale lembrar. Com brumas. Ou com relâmpagos. Eu amo esta cidade.

 

Mas vou lá. Para o tempo de lá. Lugar de sol e mar. Praia. Areia. Pés ao vento. Cabelos ao sol. Não importa se resseca. A pele. O cabelo. Sei lá. As unhas. Não importa. Tanto tempo que não sinto - o mar. O cheiro do mar.

 

Até contei para aquele meu amigo distante. Que mora em frente a outro mar. Vai ver nem ele sabe. Que o mar tem cheiro. É preciso algum distanciamento. Para que depois se possa surpreender. Com o cheiro do mar.

 

Arruma daqui. Lembra dali. Ajeita mais um lugarzinho. Isso sim. Isso não. Absurdo. Sem isso não vou. Não vai caber. Vai sim. Tem que caber. Agora já não sei. Melhor tirar. Melhor deixar. Não. Basta uma. Não. Não vou me mudar para lá. Certo. Então concordo. Mas duvido. Não se preocupe. Sei como resolver. Certo. Então você resolve. Combinado. É verdade. Nem me lembrava. Acho que ainda cabe. Está bem. Retiro.

 

De repente – parei.

 

Me dei conta. Aliás, verbo quase certo. Fiz conta. Uma semana. Sete dias. Cento e sessenta e oito horas.  Sentei. Em meio ao isso-sim-isso-não. Que faria. Que farei. Como lidar com a falta do meu acesso diário. Das minhas leituras. Das minhas releituras. Dos comentários. Nunca senti uma verdade mais fisicamente do que neste momento. Toda escolha tem uma perda. Procede.

 

Crises de abstinência. Imaginei mil cenas. Letras gigantes nas paredes rindo. Gritando meu nome. Frases inteiras aparecendo e sumindo. Em meio às ondas. Nomes de autores se auto-escrevendo na areia. Meus dedinhos se movendo sem minha ordem. Eu tremendo ao passar por qualquer loja de informática.

 

E piorou. Se isso fosse possível. Mas foi. Possível. Possibilidade é persistente. Não sai fácil. Nem bem eu tentava entender. A possibilidade da tal crise de abstinência - e outra se instalou. Crise de carência. E a pergunta veio. Crua. Fria. Congelada. Em meio às brumas e envolta em relâmpagos imaginários. Será que notariam. Será que perceberiam.

 

Quase se somou mais uma. Mais outra. Crises seqüenciais. Crise de ausência - não vou mais. Crise de presença - vai sim. Crise de superioridade - deixa para lá. Crise de tecnologia - vou levar junto. Crise de obediência - é só uma semana. Crise de relatividade - cada um tem seu tempo.

 

O que não faltava em crise, sobrava em temeridade. Como a individualidade.

 

Lembrei dela. Disse que também iria para lá. Coincidência. Sim. Também. Adoro. Ver a tal queima de fogos. A virada do Ano na praia. Até imaginou se nos encontraríamos. Quem sabe. Tomara que sim. Ela é bem mais mutante. Do que eu. Avisou que ia levar um caderninho. E um lápis. Assim. Simples. Mutante e adaptante. Admirável.

 

O jeito será virar imitante. Certo. Poderei anotar. Rabiscar. Não perder a idéia central. Algo por aí. Mas não poderei enviar. Agora só na volta. Dos sete dias. De retirante a viajante. Agora uma nova espera. Retornante.

 

Crise é assim. Endoidante.

 

Certo. Cabe. Coube. Nada mais. Enfim. Fechou. Fechou. Vamos sim. Não é bom chegar em cima da hora. Principalmente nesta época. Estou. Peguei. Tranquei. Vamos. Desliguei sim.

 

Ainda bem que aqui tem este tipo de lojinha. Quem diria. Sim. Poderia me dizer quanto custa. Certo. Quero sim. Sim. Com esta tela - pequena - melhor ainda. Levo dentro da bolsa. Nada de desertar desejos de posse - no outro. É verdade.


Agora sim.


Viva a certeza do acesso. Viva a possibilidade do accessível. Vamos logo. Estão chamando para o embarque.


 


Dezembro 17 2009


Não dá tempo.

 

Esta ficou a frase oficial. Tomou como acessório. No final do ano. Entre o trabalho e as férias dela. Dela. Mais uma vez tivera esta idéia. Não aprendia mesmo. Já era a terceira vez que dava férias a ela nesta época. Devia ter um traço masoquista. Pensou. Melhor agendar um especialista nesse tipo de patologia. Porque só poderia mesmo ser uma patologia.

 

Mas enfim. Agora não tinha mais jeito. Era fazer de conta. De conta que não estava cansada. De conta que daria conta. De conta que sozinha se faz mais rápido. De conta que não queria chorar de arrependimento. Tanto fez de conta que acreditou. Não reclamou. Sequer comentou.

 

E lá se foi organizar a festa. Quase chorou. Não dava mais tempo para a árvore. Nem um só lugar tinha mais. Para vender. Alugar. Até emprestar.

 

Imaginou mil soluções. Mas todas dentro do inviável. Nada de arrancar galhos das ruas. Muito menos das casas. Ou sair correndo com as árvores das vitrines. Ou tirar da sala da vizinha. Não sabia como fazer.

 

Lembrou da avó de uma amiga. Só na falta brota criatividade, menina, só na falta brota criatividade. E resolveu usar a própria. Criatividade.

 

Nada de sair por aí pegando a dos outros. Aliás, nem pode. Nem serve. Criatividade é igual uma impressão digital. Cada um com a sua. Até para copiar tem que ter criatividade.   

 

Caminhava há um tempo. Em busca da tal solução criativa. A falta estava já em posição antagônica. Porque era o que mais sobrava. Estava até com vontade de se zangar com a avó da amiga. Mas seria uma briga desleal. Desistiu.

 

Vai lá saber por que, virou-se para a vitrine daquela lojinha. Assim. De repente. De forma despretensiosa. Até poderia dizer desesperançada. Em meio à avenida. Em meio ao tumulto. E viu. A solução para sua festa de Natal. Até olhou para o céu. Ou para o espaço que os prédios permitiam - para ver o céu. Olhou. Deu uma piscadinha. Agradeceu.

 

Saiu de lá feliz. Não saltitou porque o cansaço não permitia. Mas a emoção saltitava pelo corpo. Muitas vezes isso funciona. E muito bem. A emoção faz o que o físico já não obedece.

 

A sacola não era grande. Nem pesada. Mas cabia toda uma festa dentro dela. Esta foi outra coisa que aprendeu. Naquela hora. Naquela situação. De imediato.  Volume e finalidade cumprida não são sinônimos.

 

Já em casa nem deixou o tempo passar. Logo iniciou sua tarefa. Foi tão divertido que nem assim denominou. Dividiu por todo o ambiente. Colocou em lugares nunca dantes imaginados. Não faltou cantinho. Pontinha. Cabeceira de cadeira. Pé de mesa. Abat-jour. Moldura. Porta retrato. Corrimão de escada. Puxador de porta. Até torneira de lavabo. Castiçal. Fio de telefone. Galhinho de planta.

 

Com calma organizou - o jantar. Já nem se cobrou pelas férias dela.

 

Quando eles chegaram - só riam. Adoraram. E cada um descobria em mais um lugar bizarro. Mais um. Que o outro não tinha visto.  

 

Concluíram. A sala toda era uma árvore de Natal. Contaram sessenta lacinhos vermelhos. Com miolinho dourado. Por toda a sala. E sorriram felizes com a surpresa. A cada momento se escutava um gritinho. E uma risada. Com decibéis de surpresa acoplados.  Avisando – mais um ali. Mais outro lá. Ele achou maravilhosa. A idéia. E a composição da idéia. Ganhou muitos abraços e beijinhos. Pelo ato. Pelo fato.

 

No circular pelo ambiente teve uma sensação. De escutar um “eu não disse”. Nada comentou.

 

Olhou a casa toda. Achou linda. Gostou. A mesa posta. O colorido vermelho. A alegria de todos em volta. A cumplicidade. A solidariedade. A afetividade. Brindaram felizes. Sorriu satisfeita.

 

Feliz Natal. Disseram todos. Entre abraços e risos. Feliz Natal. Respondeu. Sorriu. Também em direção onde supôs escutar a advertência.

 

Acrescentou um brinde aos amigos.Palpáveis. Virtuais. Recentes. Antigos. Presentes. Ausentes. Distantes. Próximos.

 

Feliz Natal!

 

 


Dezembro 15 2009

 

O jantar fora maravilhoso.

 

Eles vieram cedo. E desde cedo a alegria estivera instalada. E circulando. Nos sofás. Nas cadeiras. Nas poltronas. Pela varanda. Pelo terraço. Incrível como as sensações funcionam. A alegria é objeto de qualificação. Não de quantificação.

 

Alegria faz murmúrio, como um roçar de tecidos finos. Como o passar de dedos em cristais trabalhados.  Um doce e suave murmúrio. Só quem a sente - entende. Foi o que todos descobriram na noite. Feliz. Felizes.

 

Distância foi outra descoberta. A rapidez como ela se anula. Ele estava distante. Ela junto com ele. Entre serras. Mas na hora dos brindes estavam ali. Juntos. Mais uma vez não se pode negar. Viva a tecnologia. Que permite dar um som ao coração.

 

Não resistiu. Fez mais um brinde.  À inteligência que permitiu a evolução. Algo por aí. Depois do pipocar discreto de bolhinhas nas taças não se pode exigir muito mais. Até riu. O espaço incluído. Incluindo. A distância foi vencida pela alegria. Pela afetividade.

 

No dia seguinte tinha mais. E os da serra estariam presentes. Corporalmente.

 

Lembrou a avó da amiga mais uma vez. Toda festa tem as próprias cores, menina, toda festa tem as próprias cores.

 

E foi cuidar das cores da dela.

 

Arrumou a mesa. Organizou o serviço. Colocou os presentinhos no lugar. Catou papel. Dispensou o dispensável. Organizou o indispensável. Ele só elogiava. Notou uma sutil diferença no olhar dele. Como se estivesse vendo algo novo nela. Que não vira antes. Não decifrou muito bem. A etiologia como diziam alguns. Mas gostou do que viu. No olhar dele para ela. E ficou ainda mais feliz na elaboração.

 

Todos reunidos. Sempre quis assim. Reunião por união. Não por datas. Ou por prioridades outras. Mas por união. E assim eles eram. Todos. Por isso a alegria era tão delicada. E, ao mesmo tempo, tão exposta.

Começaram as surpresas. As trocas. Os beijos. Os abraços. As boas intenções. As pluralizadas idéias. O toque de cada um. No conjunto para todos. Olhou em volta e pensou. Palavras não dão conta. Fotos não explicam. Aquarelas não dimensionam. A real emoção.

 

A Arte tenta. A cada tentativa, uma nova busca. Passam-se os anos. Modificam-se os estilos. De cavernas para os museus. De clássico para cubismo. De impressionismo para expressionismo. Olho em testa. Gritos em pontes. Grafites. Textos antigos com roupagem nova. Textos novos com leitura antiga. Não importa. A procura é de literalidade. De decifração da emoção. Mas isso só existe mesmo dentro de cada um. Cada um tem sua leitura. E sua memória. Baseada em seus códigos. Por isso não se consegue a transcrição perfeita.

 

A coletividade na Arte é mais uma tentativa. De dar conta da falta de coletividade. Para que se torne sustentável. A existência de cada um.

 

Foi em meio a esse pensamento - vindo sabe-se lá de onde - que escutou seu nome e o dele.

 

E entregaram uma caixa. Verde. Linda. Toda de etiquetas. Com os nomes deles. Abriu.

Esqueceu da delicadeza da alegria. Nada mais de roçar de sedas ou cristais. Abandonou toda a recém criada teoria da Arte. O mais novo conceito de coletividade. Qual o que.

 

Tivesse um cristal perto e teria se espatifado o coitado. Com o grito de feliz surpresa que ela deu. Ali estava o que ela queria há tanto tempo. Havia até pesquisado nas lojas. Mas achou que ainda não era o momento adequado.

 

Tinha fila. E a fila tinha que andar. Aprendera esse controle. Em meio ao seu descontrole habitual. Na hora do controle nem se entendeu. Mas se obedeceu. Pode-se assim dizer.

 

E agora estava ali. Nas mãos deles. Nas mãos dela. Adorou. Muito. Repetiu tanto isso. Até avisou que só conseguia pensar nisso. A partir daquele momento. A única coisa que falou com objetividade foi da cor. Do objeto desejado e recebido. Vermelha. E brincou. Adorou. Estava numa fase rubra.

 

Todos riam com a expressão dela. Porque ela só falava e repetia. Que maravilha. Adorei. Adorei. E repetia.

 

Colocou no lugar devido. Era uma preciosidade. Pela forma da entrega. Pelo critério da escolha. Todos eles se juntaram. Combinaram. Decidiram. Fizeram acontecer. E ela ali. Feliz. Repetindo. Adorei. Adorei. Ele olhava para ela e ria. Compreendia. O pensamento por trás do pensamento dela.

 

Ela sempre carinhosa. Ela que colocara os adesivos. Com tanto cuidado. Eles todos assinaram. Era muito mais que um presente. Era toda uma composição. Todo um trajeto. Até que chegasse às mãos deles.

 

E o mesmo foi feito entre eles. Cada um recebia sua caixa elaborada. Uma troca. Com a surpresa-do-desejado dentro. Mais um pouco e nasceria outra teoria sobre a Arte. Ou sobre a Coletividade.

 

Riu meio de cantinho. Mas não explicou.  

 

Eis o valor. Entendeu a fala da avó. É verdade. Toda festa tem mesmo cores próprias.E repetiu mais uma vez. Adorei. Ele existe.

 

 


Dezembro 10 2009

 

Começou a contar de repente. Tão de repente quanto a lembrança veio.


Pelo menos assim conclui. Como dizia a minha avó. Jamais perca a chance de escutar as lembranças, menina, jamais perca a chance de escutar as lembranças.


Lembrança é coisa séria. E muito mais séria se da infância. Porque é uma lembrança constituída. Construída. Esclarecida. E, principalmente, não compromissada.


Assim são as lembranças da infância. Não nos deixa dúvida. E nos deixa em dívida. Com a nossa memória. Com os nossos prazeres. Que depois até se multiplicam. Ou podem se multiplicar. Mas nunca igual como na infância. Com aquela sensação plena de prazer. Que toda a infância envolve. Seja de que forma for. Não tem preço. Nem taxa cambial. Muito menos selo de made in. Tem que ver com entrega. Com aceitação. Com riso. Estes sim. Os indicadores do afeto. Como um mercado de afeto sem nota fiscal. Mas com o aval do olhar.


E ele contou.


Quando se sentiu familiado. Assim mesmo. Familiado. Que nada tem que ver com familiarizado. Estava certo. Familiado é integrado. Juntado. Compartilhado. Familiado diz muito mais. Mesmo que não se fale assim. Não importa. Sente-se assim. E explica-se bem melhor. Pela primeira vez estava entre tios e primos. Lembrava da voz dela. Melhor dizendo. Lembrava das palavras dela .Porque do rosto esquecera. Perfeito.


A voz dela orientava a olharem para o céu. Lá veriam uma barba branca esvoaçada. Uma mão esticada segurando uma cordinha. Do trenó. E muita cor. No meio da noite. Que estava já chegando a hora.


Lembrou de várias cabecinhas viradas para cima. Como devem ser os bons sonhos.


Lembrou que olhou. Nem precisou se esforçar muito. Porque logo viu. E feliz riu. Era verdade. Exatamente como a voz descrevia. Viu tudo isso. Viu até barulho. Viu o vento na barba. Viu que os presentes meio que se batiam uns nos outros. Muitas caixas. Mal cabiam naquele espaço. Mas cabiam. E nem caíam. Escutou os sinos. Escutou risos. E muitas cores. Muito brilho. Uma luz toda especial. Em cima dos presentes. Das fitas e da barba.


Alguém os mandou dormir. Para que pela manhã estivesse já tudo arrumado.


Obedeceram. Obedeceu. Foi dormir pensando no céu. No vento. Nas cores. Na barba. Dormiu em meio a esses quadros. A essas imagens. Mágicas.


Quando acordou pela manhã teve que segurar o rosto. Com as duas mãozinhas.


Em volta da enorme árvore estava uma montanha maior ainda. De presentes. Muitas caixas coloridas. Sentiu-se de novo familiado.  Ele vira o percurso. Enxergara no céu. Sabia como tinham chegado ali. E como fora difícil com o vento que fazia.


E eles ali. Descabeladinhos. Descalços. Com uma pressa que jamais sentira de novo pela vida a fora. Com tamanha urgência e ansiedade. Era preciso abrir logo. E cada um tinha um nome. Era preciso ver seu nome. Alguém tinha que ler seu nome no pacotinho. Para tomar posse como destinatário. Engraçado como isso depois se torna comum. E sem brilho. Ou sem aquele brilho.


Não lembrava a comida. Não lembrava o depois. Lembrava do seu presentinho. Uma imensa carruagem. Com lona. Com cavalinhos. Com rodinhas que giravam. Olhou encantado. E cada um deles abriu o que era seu. Em nome e - por conseqüência - em direito.


Passaram o dia brincando. De vez em quando ele olhava para o céu. Queria poder agradecer. Mas não via o dono da barba.


Achou que nunca mais o veria. Depois daquela noite.


Em meio ao relato da lembrança riu. Riu mesmo. Não devia ser uma montanha de presentes. Não devia ser enorme a árvore. Nem devia ser tão grande a carruagem.


E fez um gestual imaginário. Um muito obrigado. A quem não teve a idéia - de fotografar.


A criatividade na descrição de uma lembrança dá muito mais realidade do que uma foto. Uma foto apenas expõe uma cena. Congelada. Nada mais que isso. Não revela a dimensão do que se vive - no instante da foto.


E ele, que vivia em volta de papéis, pela primeira vez ficou feliz com a falta de documentação histórica.


Riu. 


Deu um salto da poltrona. Assim. Sem mais nem por que. Olhou atentamente para o céu. Teve uma súbita impressão. De ver um sorriso cúmplice. Dirigindo-se a ele. E meio encoberto. Por uma barba branca.


Tranquilo, sentou de volta na poltrona. E com uma suave sensação - de agradecimento cumprido.

 

 


Dezembro 07 2009

 

Cedo já fui cuidar das organizações.

 

Mas antes o cuidado de conferir. Temperatura e chuva. Nada de alarmante. E hoje então. É a data de início da nova estação. Do ano. Esta sim. Desde ontem já bastante festejada.

 

Não pude deixar de lembrar a minha avó. Trate a véspera sempre como véspera, menina, trate a véspera sempre como véspera.

 

Afoita – fui logo festejando. Descrevendo. Nomeando. Vai lá mais saber o que. Passei a véspera adiantando o dia. Mais ou menos assim. Talvez um velho hábito. Ou uma tola pressa em viver. Mas só agora me apercebo deste meu estilo. Vai ver ofendi uma florzinha aqui ou ali. Enfim. O que está feito está feito.

 

Agora vou ficar mais atenta. Acho. Talvez.

 

Subimos juntos na ladeira. Os meus espirros e eu. Uma sociedade imbatível. Solidária. Nem sei quem era mais fielmente parceiro. Os espirros comigo. Ou eu com eles.

 

Sim. Lá vinha outra gripe com força total. Daquelas que já pulou a classificação 1. Já deve estar na 3.

 

Um horror. Ossinhos rebeldes. Nariz que humilharia qualquer plantador de tomate. Olhos piores do que a recomendação do colírio. Ou dos óculos escuros. Um pisar especialmente criado para a ocasião.

 

Lembrava um daqueles filmes onde a roda da carruagem girava em sentido contrário à direção que segue. Sim. Efeito caleidoscópico. Eis uma descrição verdadeira.  

 

E viva a segunda feira. Nada de reclamar.

 

Mas não encerrava aí. A chuva se fez presente. Uma chuva forte. Objetiva.

 

Se é para inundar – pode deixar comigo. Inundou. A temperatura caiu. O frio veio rápido fazer seu papel de figurante. E estava assim instalado o Teatro do Possível.

 

Tudo estava lento. As paradas se sucediam. O fino deslizar do freio sobre os trilhos dava arrepios intermináveis. Mal acabava um ramo dos arrepios – outro já se iniciava. Melhor ficar logo arrepiada de uma vez. Pensei num milésimo de aborrecimento.

 

Mas continuei. E o dia se fez dentro do mais ou menos programado. Entre espirros e tosses. Mas também não foi assim tão monótono. Teve febre. É preciso sempre acrescentar. Nada de minimizar.  

 

Incrível. Não podia ser diferente. Na saída. Ao termino da atividade – mais chuva. E o frio já se fez mais. Virou protagonista. O ventinho vinha certeiro cortando e atravessando a pele. Nunca tinha escutado sobre arrepio de ossos.

 

Mas existe. Vai ver não prestei atenção.

 

Mas estava na hora de por um fim. Resignada – vim feliz para casa. A cada pensamento – em pouco tempo já estarei aquecida - vinha um contraponto. A porta abria. E o frio entrava direto para me cumprimentar. Ou aos meus espirros. Enfim. Para evitar mais os tais contrapontos – parei de pensar. Pensando ou não – estaria em casa logo.

 

E assim aconteceu. Não sem tomar a minha dose correta de chuva.

 

Com a gripe fazendo um percurso nada sorrateiro – decidi por um chá quente. Um daqueles maravilhosos concentrados de chá verde. Um presente para um dia de transtorno. E completei com um banho fervente.

 

Água. Devo ter algum problema grave com água. E sobre isso nunca a minha avó falou. Lembrei do dia da banheira. Hoje foi o dia do chuveiro.

Até quis pesquisar. Quem inventou o chuveiro. Um gênio. Aquela água quente a descer pelo corpo - maravilhoso. Fiquei um pouco mais. Sai. Do Box.

 

Pisei. Na água. De novo – pensei.  Acho que já vivi isto antes. Não dá para rir no Teatro da Repetição.

 

Todo o banheiro estava inundado. A água saiu do chuveiro e aceitou o ralinho interno. Mas vai lá saber por que - desdenhou o ralo externo. E - farta de si mesma - transbordou.

 

Vi que nadava um desavisado fiozinho de cabelo. Um desgarrado. Merecido pensei. Alguém tinha que ser punido. Melhor punir o tal fio desgarrado. Quem mandou cair.

 

De repente - me preocupei. Estava eu ali espirrando e em meio a uma enchente doméstica – a brigar com um fiozinho de cabelo. E com o dedo em riste.

 

Dei ordem de calma. A mim mesma. E me obedeci. Desde o dia da banheira nasceu um aprendizado. O pescoço é giratório. Foi um presente anatômico divino. Pode-se sempre olhar em outra direção.

 

Foi o que fiz. Deixei fiozinho, tapetes e sandálias à própria sorte. Não sou Comandante. Ou Almirante. Posso – com tranqüilidade - ser a primeira a abandonar o navio.

 

E assim fiz. E me deitei. Optei por prestigiar meus espirros. Estes sim – não me deixaram nem um segundo.

 

Melhor dormir. E ceder ao Teatro do Onírico.

 

Amanhã tem mais.

 

 

publicado por Lêda Rezende às 14:50

Dezembro 03 2009

 

Lá se iam encerrando - os dias plenos de escrita.

 

Ou para a escrita. Com feliz dedicação total. O tempo se esgotava. Retomaria a atividade da rotina – dia seguinte.

 

Ficara afastada por quinze dias. Acordava cedo. E já se transferia para o teclado.

 

Até sonhava com os textos. Podia falar dela. Ou dele. Ou daquele ato. Ou colorir aquele fato. Podia se sentir dentro do mundo. Mesmo estando isolada de tudo. Só. No quarto. Caberia até uma placa na porta da frente. Em recuperação.

 

De pele ao olhar – percorria os encobrimentos da memória. Muito a ser explorado. E - talvez - conquistado.

 

Desconsiderara Oceanos. Turbulências. Aderências. Convenções. Se sentiu como pisando em uvas. E vendo o sumo do vinho se fazer. Escutou música. Trocou mensagens. Relatos. Contou um pouco da vida. Acolheu dores distantes. Recebeu flores. Cores. Até amores.

 

Riu quando leu um recadinho. Ela escrevera. Aliás, pelo que escreve, parece que acontecem mais coisas na sua vida do que na vida dos outros! Ou você observa melhor! Assim. Com duas exclamações. Sentiu-se emocionada. Era um elogio e tanto.

 

Os motivos causais poderiam fazer temer. Mas as consequências foram só prazer. Eis uma rima que deu certo. E outra que se perdeu. Ainda bem. Dor rimou com nada. A dor ficou para trás. Vencida e sem par. E ela ficou com flor. Com cor. E com um doce sabor de calor.

 

Inegável. Foi uma beleza de hiato.

 

Lá se iam e vinham as ideias. Sem hora marcada. Sem pressa na construção. Corrigidas. Emendadas. Procriadas. Malcriadas. Educadas. Estava a viver o tal ócio que sempre ameaçara.

 

Mas fez uma pergunta. Talvez - tola. Onde estaria o ócio. Precisava de uma definição lógica. Sobre a exata localização do ócio. E pode rir de si mesma. Afinal – se nem tudo é perfeito, nem tudo também é o que parece.

 

Estava até dedicada aos provérbios. Lembrou de uma frase dele. Crescera com a frase envelhecendo junto com ela. Quem está perto do fogo é que se esquenta.

 

Optou por uma pausa nas frases.

 

Como dizia a avó de uma amiga. Não são frases que formam textos, menina, não são frases que formam textos. Procedia.

 

E nesse estado de letras – concluiu. Navegar é Preciso.

 

Restavam ainda algumas horas. Poucas. Mas seriam bem aproveitadas. Até a última badalada. E nada de perder sapatinhos. Ou alucinar abóbora. Ou brotar caninos. Esta é umas das possibilidades fantásticas da escrita. As horas avisam as badaladas. E não o contrário.

 

E quando o tempo é marcado – a espontaneidade se acelera. Corre. Percorre. Fica até tonta.

 

Mas ainda há tanto a fazer. Como assim. Já tem que sair. Que ligar o despertador. Que sentar sobre os trilhos. Que caminhar apressada em corredores.

 

Riu.

 

Apressada em corredores já denunciava. As ideias estavam assustadas. Como se arrancadas de um doce balançar de uma redinha. De súbito. E – afoitas – atropelavam os últimos retoques.

 

Assim se sentia. Deu uma rápida olhada em direção ao Universo. Olhou de forma circular. Se é que isso é possível. Fez um leve ar de birra. Quase perguntou se não compreendera. Mas achou inconveniente. Duplamente. E se controlou.

 

Desceu. Iniciou o processo da retomada. Qual uma obediente comandada. Organizou o material. Carimbo. Caneta. Os funcionais. Os profissionais. Incluiu os ocasionais. Nesse sobe e desce - recordou uma música antiga. Uma Viola. Enluarada. Assim estava se sentindo. Quase como uma despedida. Sempre dramática.

 

Mas seguiu o que tinha que ser seguido.

 

Houve uma simultaneidade. Assim. Sem mais nem por que.

 

O telefone tocou. Era ela. Com a voz suave e pontual - informava. Sua agenda de amanhã está completa. Bom retorno. E no mesmo instante um aviso. Chegou via tecnologia. Escrito na tela. Leremos na mesma Rádio. Mais uma história da sua autoria. Em tal hora. Em tal data.

 

Olhou para o Universo. Repetiu o olhar circular. Até ergueu as mãos. Sorriu. Desta vez lembrou a canção italiana, Ma che bello questo amore.

 

E retomou – tranqüila – a reorganização da rotina. Quem quer passar além do Bojador...

 

 


Novembro 17 2009

 

Quase não acreditei.

 

Abri a porta do quarto. E fui em direção às escadas. Assim. Com a sequência reconhecida. No habitual da rotina. O ato em si. Mas desta vez fugia ao destino.

 

Desta vez um rumo novo. Uma direção escolhida. Uma data festiva a ser comemorada. E tinha hora certa para dar inicio. A hora da partida sendo a mesma do inicio. Perfeito.

 

Lembrei logo da minha avó. Ela afirmava com propriedade. Entre o que começa e o que termina não tem sequer uma linha, menina, entre o que começa e o que termina não tem sequer uma linha.

 

Foi pensando nisso que sai do quarto. Entre a alegria da novidade. E o pensamento já antigo.

 

Primeiro o susto.

 

Estava tudo branco. Não via a paisagem. Só a cor branca se fazia plena. Muitos pensamentos se enfileiraram. Talvez em auxilio. Lembrei do Ensaio. Lembrei do Disco. Fiquei tentando adivinhar as cores. Compreender o excesso. Parada. Antes mesmo de descer as escadas tudo já havia ocorrido.

 

Não faltaram ideias. Ou recordações. E tudo diante do branco de uma paisagem ocultada. Enfim.

 

Depois a decisão.

 

Desci as escadas. Do lado de dentro - sala estava envolta no branco. Do terraço não se via nem o gradil. Como se houvesse nada além da imensidão branca. Ocupando todo o espaço. Apagando obstáculos. Limites. Acessos. Coerente com o incompreensível.

 

Mas lá me fui dar conta do planejado. Sem filosofias. Sem construções literárias. Tinha que prosseguir em tempo. Pelo tempo. Dentro do tempo. Que o branco lá ficasse.

 

Pragmatismo em ação. Tudo resolvido.

 

O que sobrou em branco - sobrou em falta. Faltava teto. Esta a explicação lógica. Sem teto – sem pouso. Sem pouso – sem decolagem. Simples assim.

 

Podia-se olhar o branco pelo tempo que agradasse. Mas do solo. Só isso. Enfim. Várias parcerias se estabeleceram. E lá ficamos a aguardar que pelo menos uma delas se dissolvesse. Para que o projeto continuasse dentro de uma possível execução.

 

Quando o Disco iniciou sua decomposição – o azul foi se aproximando. Enfim.

 

Cores e nuances iniciaram as suas tarefas. Com o mundo colorido – voltou-se ao propósito inicial.

 

Já não era sem tempo - disseram alguns. Olha o tempo que perdi – comentaram outros. Agora não chegarei mais a tempo – falou alguém com tristeza na voz.

 

Alguns se olharam. Outros ficaram dentro dos seus pensamentos. Talvez nem tão brancos como antes a paisagem. As expressões eram bem tensas. Talvez estivessem no oposto do Disco. Vai lá saber as conseqüência de uma total brancura. E alheia a qualquer avanço tecnológico. Uma brancura por si só.

 

Uma cor – é uma cor. Apenas isso.

 

Quando todos se acomodaram – os avisos começaram.

 

Orientações sobre segurança. O que é proibido. O que é permitido. O que é impossível de ser transgredido. Seguidos de explicações. Situações independentes da nossa vontade. Assim explicavam. Como uma valiosa informação prestada.

 

Sentados e acalmados – houve uma sensação de tranqüilidade. Como se já afivelados – o tempo voltasse ao controle. Cada um com sua solução. Ou sua dificuldade. Mas com absoluta expectativa de aceitação.

 

Olhei para o infinito. Para os muitos tons de azul até o rosa. Mas abaixo se via um branco denso.

 

Optei por escutar uma música. Coloquei os fones. Foi instantâneo. Uma outra viagem se fez. Isolada da formal. Descompromissada com as técnicas. Ou com as coincidências. Quase deu uma confusão mental.

 

Ri. Tocava uma marcha. Nupcial. Uma bela orquestração. Belíssima. E no momento da subida do vôo. Assim. Como se uma regência de fora se fizesse presente. Como uma necessidade.

 

Acordei no branco. Sentei diante do azul. Em proximidade total com o Universo. Se assim se pode dizer.  Um casamento realmente se fazia.

 

O plano da partida e a vontade da chegada. O azul e o branco. As nuvens e o metálico do progresso. O plano e o ato. O gesto e o fato. O riso e a festa.

 

Não sei se foi um recadinho. Uma desculpa. Um sinal. Isso não se sabe jamais. Não tem provas. Nem documentos. E cabe a cada um fazer e desfazer os códigos. Muito mais internos do que externos. E conforme se apresentam.

 

Conclui. Perfeito. Assim devem ser as comemorações.

 

Olhei para ele. Apertei a mão. Sorri.

 

 


Novembro 02 2009

 

Ele veio de lá. Feliz.

 

Fazia já alguns anos que não nos víamos. Trabalhamos juntos por muito tempo. Saíra de repente. Mal nos despedimos. Questões burocrático-egóicas. Algo por aí.

Estas são sempre as grandes questões. Sempre nascem desta dupla. Mal explicada. Mal conjugada. Ou muito mal dissociada.  Mas imperiosa.

 

Quando sobra hífen - não há o corte no momento certo. E apagam um espaço. Mais ou menos assim.

 

Minha avó nunca deixou de avisar. Muito eu é sinal de pouco meu, menina, muito eu é sinal de pouco meu.

 

Acho que só hoje entendi o que ela falava. Foi preciso anos e anos para assimilar. A linha quase transparente entre o eu e o meu. Sábia - sempre.

Mas desci. Direto para o local indicado.

Tinha uns exames a fazer. Estava entre corajosa e temerosa. Exames nunca são da ordem do conforto. Ou da diversão.

Mesmo que alguns estudiosos digam o contrário. Ou os seguidores do Marquês. Não faltam teorias. Apologias. Tratados. Mestres de todo o mundo. Austríacos. Franceses. Portugueses. Italianos.

 

O mundo girando em volta de uma dolorosa teoria. Sobre dor e alegria. Sobre sofrimento e satisfação. O homem sendo apto para a dor. Muito mais do que para prazer. Até os poetas se manifestam - sofrer por amor.

 

Nem sei quem são esses. Os estudados.  Os aptos para a dor. Eu não. Detesto dor.

Foi assim que desci. Com este pensamento tentando ocupar o outro.  O dos exames. Brigar com estudiosos de nada resolve. Mas ocupa o espaço do medo. Para isso resolve. E muito.

 

Afinal nesses tempos de tantas contínuas e perigosas mutações – exame é indício de risco. Ou de contaminação.

Não era a situação do momento. Mas não tinha escolha. Era fazer os exames.  Anuais. Rotineiros. Necessários. Procede. Obrigatórios. E pronto. E assim continuei.  Me repetindo – para me ordenar. Obedeça. E pensar que sempre fui rebelde. Nada de temer agulhas. Onde já se viu.

 

Tudo bem. Obedeci.

Foi em meio ao local do exame que o avistei. Eu entrando na sala dos exames. Ele na sala do atendimento. Em frente.

Vi que abriu os olhos. E sem metáfora. Abriu mesmo. Se surpreendeu. Veio em minha direção. Passos apressados.  Com um sorriso. Expressão de confraternização. Desconsiderou as limitações.

 

Foi logo avisando. Em pé diante de mim. Voltei.

 

Como se a materialização não fosse confiável. Apenas suposta. Respondi com um chiste. O bom filho à casa torna.

E fiquei observando.

 

Por que – voltar - se transforma em ato. Muito mais do que em fato. Precisa de desculpas. Sempre. 

 

Cada um com suas demandas. E espelhos.

 

Informou. Esta é a primeira vez. Nunca voltei de onde sai. Repetiu muitas vezes. Esta é a primeira vez. Continuou se explicando. Devia ser importante para ele. Se sentir convidado. Ou aceito. Ou vai lá saber o que.

 

Eu até ri. E falei. De onde saiu – ou para onde saiu. Desconsiderou. Fez bem. 

E continuou desconsiderando. Estes exames vão resultar todos normais. Você está ótima. Agradeci. Um lorde em termos de gentileza.

 

Vamos lá. Tomar um cafezinho. E você me conta desse longo tempo - que você continuou aqui. E eu lhe conto do meu - que fiquei tão distante daqui.

 

Ela. Convidei mas não quis voltar. Casou. Neste último verão. Está feliz. Ele. Sim. Desde que saiu também está em outra Instituição. Ele. Não está bem. Acho que precisa voltar. Ele. Também não se acertou. Quem sabe também volta. Ele. Está feliz com o novo cargo.

Falamos em poucos minutos. Mas acho que nunca falamos tanto. Soubemos dos amigos. Contamos de nós mesmos. Rimos das consequências  - e até das causas.

 

Voltamos rápido para as nossas atividades. A rotina – digamos assim - estava lotada.

 

Olhamos um para o outro. De repente. Com expressão de susto-risonho.

 

Esquecemos o cafezinho. Intacto. Em cima da mesa. Rimos.

 

Não importa. Tem café em todas as estações do ano. E em todos os horários. Até qualquer outro intervalo. Qualquer dia.

 

Foi a primeira vez que voltei de onde sai. Repetiu. E completou. Mas estou feliz por isso.

Ri. Viva a sexta-feira.

 


Outubro 31 2009

 

O dia foi de surpresas. Aliás - de sustos. Dois sustos. Para ser exata.

 

Ficou pensando. No que os dois tinham de semelhante. Deveria ter um laço unindo os dois sustos. Afinal – foi o que fez. Contabilizou os dois - num só dia. Se mais teve – nem notou.

Enfim.

 

Se surpreendeu com ela. Ela que a convidara para jantar. Mas estava tão indiferente. Não sabia se num estilo novo. Ou numa abordagem nova. Vai lá saber. Sugeria uma pequena interpretação. O interior parecia se desestabilizar a cada tentativa de regularidade. Como se o valor fosse o rótulo e não o conteúdo.

 

Falava com certa contundência. Como se não importasse se a escutavam.

 

Não dava bem para definir. Ela apenas repetia as próprias opiniões. Desinteressada pela interlocução. Falava até mais baixo. E o riso se transformara em sorriso. Corriqueiro. Ou – menos ainda que corriqueiro. Indiferente – mas não inconseqüente.

 

Não havia espontaneidade. Como se falasse de si para si. Assim. Sem compartilhar. O jantar acabou. Se separaram. Cada uma para seu destino. E sua rotina.

 

Nem bem chegou em casa - ainda com este primeiro susto em evidência - encontrou um recadinho dele.

 

Fazia tempo que não falavam. Ela relatou um acontecimento. Assim. Aconteceu um destaque. Uma celebração.  Ele leu. E fez o que sempre fez. Interpretou. E com a sabedoria de sempre. Sem muitas delongas. Sem muita retórica. Objetivo.

 

Mandou um comentário. Quando se opera em sintonia com o desejo – coisas acontecem. Para o bem e para o mal.

 

Ela não se conteve. Riu. E fez também o que sempre fez. Quando diante de algum susto. Chistes por cima da interpretação. O desejo não era esse. Nunca foi esse. Deve ser o desejo do Banco. Com esta atividade é que se pagam contas. E enviou.

 

Aí compreendeu. Como se afastara do processo.

 

Há muito virara falsa pragmática. Passava aos atos. Se deu conta. E riu de novo deste pensamento. Não havia como fugir do mestre austríaco. E pensar que até o citou no tal chiste. Assim. Com total alheamento.

 

Recebeu de volta nova resposta. E aí enxergou o hiato. Como se aí tivesse acordado. Exagerada como sempre – abrira os olhos. Riu de novo.

 

Ele foi incisivo. Quase mortal. Não me referi à atividade profissional. Pensava que o desejo era o olhar do outro. Ai tanto faz – o sucesso vem. Porque exatamente se opera em sintonia com o desejo.

 

Repetiu. Procede.

 

Senão se entende de uma vez – quem sabe de duas dá certo. Depois de tanto tempo longe do pensamento analítico – tem mesmo que repetir. Até desenhar.

 

Foi difícil seguir a rotina.

 

Ela queria poder – dupla sempre também desejada. Mas desejou um tempo paradinha. Sem solicitações outras. Sem trabalho braçal. Queria na realidade o ócio. Um momento de entrega aos próprios pensamentos. Esta a vontade real naquele momento.

 

Sentar sozinha e pensar. Em algum cantinho. De preferência diante do mar. Sob o luar. Com os pés descalços. Tocando a areia. Passando as mãos pelos cabelos. Recostando. Quase se arrepiou. Sabia que estava – mais uma vez - fazendo o habitual. Se desconcentrando do objetivo. Já estava agora fazendo turismo. Até riu.

 

A avó da amiga sempre dizia. Não existe vitória contra o próprio estilo, menina, não existe vitória contra o próprio estilo. É verdade.

Mas enfim.

 

Ligar os dois sustos. Concluir porque um fato ficou ligado ao outro - no pensamento dela. Como se um fio condutor tivesse surgido. Muito mais de semelhanças do que de diferenças. Até pensou que poderia ser pelo contrário. Mas não se sentiu segura. Algo a fazia cobrar uma elaboração.

 

A resposta parecia uma só. O olhar.

 

Lembrou de tantos olhares. Há os contraditórios. Os perspicazes.  Os sorrateiros. Os defensivos. Os criadores. Até aquele famoso – oblíquo e dissimulado. Não faltou listagem qualificativa.

 

Mesmo sem mar e sem luar – optou por uma conclusão. Um pouco selvagem. Sem muito amparo teórico. E muito menos - prático. Não uma simbolização. Mas uma conclusão.

 

A união dos tais sustos era no olhar. Mas pelas diferenças. Por um fator bem simples. Para se entender um olhar – é preciso olhar.

 

E nisso estavam ligadas ao oposto. Uma prescindia do olhar do outro.

 

Bastava-lhe um espelho. A outra precisava do olhar alheio. Servia-lhe como um espelho.

 

Falaria sobre isso com ele. Algum dia.

 

 


Outubro 29 2009

 

Lembro o dia em que a conheci.

 

Iniciava o trabalho no Projeto. Logo no primeiro dia. O grupo já estava há mais tempo. Não conhecia os membros da equipe. Mas fui lá. No local de encontro.

 

Assim me avisaram. Chegar a tal hora. Em tal lugar. Com seu material próprio para o atendimento. E lá se identifique com tal pessoa. Seu crachá estará já no local. De lá sairiam os profissionais para as áreas de atuação. Simples assim.

 

Compreendido.

 

Ela chegou - sorridente. Falando com todos. Caminhando apressadinha. Parecia ser muito delicada. Atenciosa. Todos ficavam em torno dela. Os que iam chegando – já iam fazendo círculo. E ela no meio do círculo. Sorridente.

 

Nesse dia específico falavam sobre postura. Uma observação sobre alguém do grupo. Ou sobre algum estilo. Nunca soube ao certo. Algo por aí. Lembro que respondeu. Num tom mais alto. Porém não ríspido. Quando se é carente – procura-se ser simpático. Eu sou carente. Trato todos muito bem. E riu.

 

Como se a carência fosse um adereço. E como tal devesse ser tratada.

Perfeito.

 

Me apresentei. Ficamos amigas.

 

Não eram daqui. Nem ela. Nem o marido. Estavam casados há pouco tempo. Viera por um convite profissional para ele. Parceira – aceitou. E estava se entendendo com a cidade. Já conhecia mais lugares que os nascidos e criados aqui. 

   

Continuamos em nosso trabalho. Um Projeto social. Nos reuníamos uma vez por semana - o dia todo. Contou sobre o projeto particular. Queriam um filho. Logo.

 

Sempre festejada – acabou reunindo torcida. Todos participavam. Se sim. Se ainda não. Alguns mais afoitos até do por que não. Outros mais discretos – aguardavam as mudanças que denunciassem.  Ela respondia. Acolhia. Escutava. Silenciava. Aguardava.

 

Era um tal de – este mês ainda não. Ou – não foi desta vez. Mais exames. Mais aconselhamentos. Mais pesquisas. A ciência e a tecnologia a serviço- da fertilização.

 

Não faltaram ideias. Ou sugestões. Ou indicações. Ou dados. Da Imunologia à Fisiologia – tudo visto e revisto.

 

Um dia tomou a decisão. Cansei. Chega de temperatura. De ciclos. De emergências. De privacidade alterada. De papel. De regras. De estatísticas. De relatos psicológicos. Cansei. Vai ser estilo artificial. Pragmático. Vamos dar uma força à natureza. Para isso existe a evolução. Da ciência. Da pesquisa. Dos resultados. Para ser utilizada. Vamos utilizar. Certo. Então em duas semanas.

 

Quando nasceu – já não trabalhávamos mais juntas.

 

Olhei para as fotos. Linda. Moreninha - como a mãe. Linda - como a mãe. Olhar decidido - exatamente igual à mãe. Mas ela foi logo avisando. É idêntica ao pai. Linda - como ele.

 

Contou rindo. Depois que marquei o artificial - ela veio natural. Nem conheci a equipe. Quando estava já agendado – desmarquei. Ela já estava fazendo parte da nossa vida. Da Vida. 

 

A torcida continuara. Desta vez de forma métrica. Está maior. Esta crescendo. Está sem cintura. Está com jeito de silicone. Cada um construindo nela uma nova anatomia. Com as palavras. Com o olhar. Até com a mímica.

 

E muitos risos. Sempre. A cada encontro do grupo. Todas as manhãs. 

   

Minha avó tinha uma ideia para o riso. Só é realmente feliz quem sabe compartilhar o riso, menina, só é realmente feliz quem sabe compartilhar o riso.

 

Procedia. Procede.

 

O riso compartilhado é uma das mais belas cenas de um grupo. E era assim com ela. Continuavam todos em volta. E ela feliz.

 

Lembrei o comentário sobre a carência. Transformara-se num adereço dispensável. Ou até ignorado. Não era mais uma questão. Nem um símbolo. Ou muito menos uma situação. Não importava se não era daqui. Ou se era de lá. Ela agora era duas.

 

Fiquei emocionada quando li o recadinho. Nasceu. É maravilhosa. Estamos muito bem.

 

E adivinhei o sorriso dela. O primeiro olhar para a filha desejada. O toque delicado na pele suave e rosada. O gestual protetor e acolhedor. As lágrimas fáceis da intensa atividade emocional.

 

As primeiras dificuldades para quem se inaugura - mãe. As pequenas dúvidas. Será que está certo. Será que é assim mesmo. Mas segura diante de uma certeza absoluta - o apaixonamento imediato. 

 

Lá estava. Na tela. Colorindo. Toda enfeitadinha para a foto – a Laurinha.

 

Bem vinda. Bem Vida.

 

 


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