Blog de Lêda Rezende

Janeiro 05 2010

 

Ao final do dia - o cheiro invadiu a casa.

 

Lembrei do livro. O autor - já bem vivido - explicava. O paladar começa pelo nariz. Perfeito. Nunca li nada mais adequado. Nem importam os dados da Fisiologia. Ou da Anatomia. Muito mais vale a Filosofia. Não existe órgão do sentido excludente. Eis uma táctil e aromática verdade.

 

Já acordei assim. Como guiada pela manufatura. Ou pela ansiedade das mãos.

 

O dia amanhecera um pouco silencioso. Diante de um frio insistente em ficar. E de uma garoa persistente em desobedecer. Nada de espaço primaveril. Mas as estações devem ter lá um próprio manual de instruções.

Que sigam - de acordo. E que nós daqui nos adaptemos – sem acordo.

 

Enfim esta não é a minha tarefa.

 

A minha daquele dia já havia sido definida. Há trinta e dois anos. Agora era uma questão apenas operacional.

 

E desde cedo comecei os preparativos. Mas não sem uma organização. Coloquei música. Em um sequência que surgiu de repente. Nada muito programado. Mas acatado. Como um ritual. Talvez seja assim a arte da manipulação dos alimentos. Muito mais que facas e pratinhos. Um ritual especial - por si só - se estabelece e se confirma. Alheios a nós. E tantas e tantas vezes sequer percebemos.

 

Desta vez foi especial. Fiz como que compactuando. Ao menos dentro do possível de uma racionalidade.

 

Corta. Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

 

A música se fez sábia. Sim. Nada do que foi será igual ou do jeito que já foi um dia.

 

As mãos e ingredientes se fizeram um só. Difícil até saber quem comandava quem. Ou o que.

 

Mas lá fiquei. Entre músicas e memórias. E aí foi impossível não lembrar a minha avó. Ela repetia com muita segurança. Cozinhar e viver - é a arte de saber dosar, menina, cozinhar e viver - é a arte de saber dosar. Procede.

 

Corta. Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

 

Olhei para o colorido dos ingredientes. Para a disposição deles em panelas e pratos. Parecia uma rosa dos ventos. Ri. Vai lá saber de onde saiu esta idéia.

 

Vai ver foi da música que tocava. Amanheceu o espetáculo. Como uma chuva de pétalas. Ri e continuei dando toques e retoques. Afinal – não é só de boa intenção que sobrevive o paladar.

 

A esta altura já estava misturando mais ingredientes que os da realidade culinária. Tentei me acalmar. Deve ser assim que se cozinha. Uma pitada de história. Uma ponta de saudade. Um ramo de alegria. Uma colher de nostalgia. Uma dose de contradição. E por aí vai. O importante é estar em sincronia com o processo. Um erro em cada parceria – uma pitada que seja – e lá se vai o doce sabor do proposto.

 

E foi em meio a tantos rituais e conclusões – que ao final do dia - o cheiro invadiu a casa.

 

Delicado. Independente. Intenso. Surpreendente. Delicioso.

 

Saiu de dentro dos continenti e se espalhou. Pela cozinha. Pela sala. Por todas as varandas. Subiu as escadas. Passou pelo terraço. Mexeu com os deuses.

Sorriu para o Banquete. E voltou – completo - para dentro de onde saíra.

 

Ao final da tarde – parei. O dia cabia dentro da noite que chegava.

 

Na cozinha os sinais de guerra estavam já apagados. Tudo parecia composto de magia. E não deixava de ser. Não havia sinal de ato braçal. E sim de ato manual. Pode parecer semelhante – mas não é.

 

Continuei. Agora caminhando e olhando em volta. Gostei do que vi. A mesa posta em tons suaves. Tudo em azul e branco. Num canto discreto orquídeas cor-de-rosa. Penduradinhas em seus cachos faziam o contraste mais belo. As taças altas pareciam sair de pedestais. A sala se enfeitava com efeitos múltiplos de um festejo conquistado.

 

A campainha tocou. Eles chegaram. Parecia até nome de filme. Seis à mesa.

 

Ri. Os brindes foram feitos. Votos renovados. Fotos atualizadas.

 

A música continuou. Parceira simbólica dos gestos e falas. Godiamo, la tazza e il cantico la notte abbella e il riso.

 

Estava confirmada a comemoração. E já parte da história de todos nós.

 

 


Dezembro 25 2009

 

Não há um só dia que não nos encontremos.

 

Os cumprimentos são rápidos e risonhos. Assim. De forma despretensiosa. E superficial. Ele sempre apressado. Eu sempre apressada. São muitos os horários a serem cumpridos. E muito mais agendas a serem atendidas.

 

Ele com um caminhar mais pesado. Mas sempre uma expressão alegre. O riso fácil emoldura os fortes traços orientais. Um sotaque marcado ainda denuncia a imigração não muito longínqua. 

 

Assim nos falávamos. Entre uma subida ou descida de escada. Os elevadores demoram muito. O jeito é caminhar. Ele sempre acrescentava. Faz bem à saúde. Este o máximo de diálogo.

 

Mas nesse dia falamos mais um pouco. Além das escadas. E dos cumprimentos superficiais.

 

Surgiu uma oportunidade. Um mesmo percurso. E lá fomos contando um pouco dos pontos biográficos. Ao menos os que pareciam mais destacados.  

 

Viera de muito longe. De uma travessia quase igual ao sol.

 

Começou pelo avô. O avô era como um personagem de um livro. Era o sábio da aldeia. Respeitado e reverenciado. Jovens e idosos de todas as idades o consultavam. Indicava poções ou dava conselhos.

 

Era um velhinho calmo. De olhar tranquilo. Mas de profundo conhecimento dos riscos do corpo mal compreendido – sob o peso da alma mal entendida. Enxergava a possibilidade da cura como uma exclusiva ação de equilíbrio entre os dois.   

 

Observara o avô - por toda a infância. Morara lá até os doze anos de idade.

 

Um dia o pai o avisara. Vamos nos mudar. Para lá. Será melhor para todos nós. Vou primeiro. Depois mando buscá-los.

 

Um ano depois estava se despedindo. Do avô. Deu-lhe - triste - o que seria de fato o último abraço. Dos amigos. Dos hábitos. Dos cheiros. Da terra. Até dos risos.

 

A mãe embalara o que tinha de importante. Privilegiou fotos e quadrinhos da casa. Entre roupas e sapatos abrigou o mais que pode da própria história.

 

Lembra dela entregando a chave da casa a um novo proprietário. Mas trancando ela mesma a porta – antes de entregar. Notou um tremor discreto das mãos dela.

 

Ele veio tão assustado que lembra a dor que sentia ao respirar. Nunca escutara falar deste país. Nem sabia em que lado da Geografia deveria olhar.

 

E nem olhou.

 

Aprendeu logo depois que as distâncias não são bem explicadas nos mapas.   

 

Nesta parte do relato riu. Um riso triste. No terceiro dia que aqui chegou – estava matriculado e frequentando uma escola pública.

 

Não sabia o idioma. Não entendia as brincadeiras dos colegas. Não compreendia as ordens dadas. Entrou em uma fase de silêncio profundo.

 

Talvez gestante de si mesmo. Nem em casa falava. E durante esse período teve um aprendizado especial.  Aprendeu a ler as expressões. Podia não entender o que falavam. Ou os chistes em volta dele. Mas já sabia ler muito bem as pequenas maldades e criticas negativas. Pela forma do olhar – sabia o pensamento de cada um.

 

Até hoje é grato a ela - uma professora. Talvez o tenha ajudado a nascer de si mesmo. Ficava com ele após as aulas. Todos os dias. Tentava ensinar um pouco mais. Os sons das letras. A forma de melhorar o sotaque. As rotinas da cidade. A compreensão de fusos e latitudes.

 

Não tinha o avô sábio por perto. Mas tinha uma sábia professora ao lado. Se sentiu mais tranqüilo.

 

Trinta e cinco anos se passaram. Desde aquele terceiro dia de imigrante. E primeiro dia de aula.

 

Em meio a esse tempo um diploma lhe foi entregue. Contou-me que escolheu esta especialidade por um motivo simples. A forma de se referir por si só já é bela. Dar a luz. A maioria vai até lá feliz. E de lá sai mais feliz ainda.

 

Até hoje se emociona com os nascimentos. E se encanta diante do tal milagre da vida. Quando dá algum conselho – lembra do avô. E se esforça para ensinar o equilíbrio.

 

Mas fez uma espécie de aspas na conversa.

 

Contou. Logo que se graduou – fez questão de retornar. Passaria lá um mês. Entre os seus de origem. Reconheceria o que deixara para trás. Apertaria as mãos dos amigos. Resgataria os hábitos. Sentiria os cheiros. Tocaria na terra. Esbanjaria os risos. Reveria os códigos.

 

Foi assim que aprendeu que as distâncias não são bem explicadas - nos mapas.

 

Viu-se estrangeiro. De lá. Concluiu com certa nostalgia. Ali não mais pertencia. Era um visitante – em desacordo. Voltou - sete quilos mais magro. Doente e em desequilíbrio - a alma e o corpo.

 

Entrou em sua casa do lado de cá. Sentou-se na primeira cadeira que encontrou. Deitou as malas no chão. Olhou em volta. Mais do que a captura de si mesmo - estava feito a sua re-integração. Talvez pela primeira vez na vida tenha compreendido as palavras do avô.

 

Recuperou rápido peso e saúde. E desta vez não esperou o terceiro dia. No dia seguinte já estava exercendo a sua função escolhida. Sorridente. Adequado. Com sotaque ainda marcado - mas com chistes compartilhados.

 

Nos despedimos com um até breve.

 

Entendi um pouco mais - o amplo milagre da Vida. Desde um avô que nunca conheci aos riscos no mapa - aprendi que uma história se compõe sempre além de si mesma.

 

Lembrei da frase. E a palavra uma vez lançada voa irrevogável.         

 

Procede.

 


publicado por Lêda Rezende às 20:21

Dezembro 15 2009

 

O jantar fora maravilhoso.

 

Eles vieram cedo. E desde cedo a alegria estivera instalada. E circulando. Nos sofás. Nas cadeiras. Nas poltronas. Pela varanda. Pelo terraço. Incrível como as sensações funcionam. A alegria é objeto de qualificação. Não de quantificação.

 

Alegria faz murmúrio, como um roçar de tecidos finos. Como o passar de dedos em cristais trabalhados.  Um doce e suave murmúrio. Só quem a sente - entende. Foi o que todos descobriram na noite. Feliz. Felizes.

 

Distância foi outra descoberta. A rapidez como ela se anula. Ele estava distante. Ela junto com ele. Entre serras. Mas na hora dos brindes estavam ali. Juntos. Mais uma vez não se pode negar. Viva a tecnologia. Que permite dar um som ao coração.

 

Não resistiu. Fez mais um brinde.  À inteligência que permitiu a evolução. Algo por aí. Depois do pipocar discreto de bolhinhas nas taças não se pode exigir muito mais. Até riu. O espaço incluído. Incluindo. A distância foi vencida pela alegria. Pela afetividade.

 

No dia seguinte tinha mais. E os da serra estariam presentes. Corporalmente.

 

Lembrou a avó da amiga mais uma vez. Toda festa tem as próprias cores, menina, toda festa tem as próprias cores.

 

E foi cuidar das cores da dela.

 

Arrumou a mesa. Organizou o serviço. Colocou os presentinhos no lugar. Catou papel. Dispensou o dispensável. Organizou o indispensável. Ele só elogiava. Notou uma sutil diferença no olhar dele. Como se estivesse vendo algo novo nela. Que não vira antes. Não decifrou muito bem. A etiologia como diziam alguns. Mas gostou do que viu. No olhar dele para ela. E ficou ainda mais feliz na elaboração.

 

Todos reunidos. Sempre quis assim. Reunião por união. Não por datas. Ou por prioridades outras. Mas por união. E assim eles eram. Todos. Por isso a alegria era tão delicada. E, ao mesmo tempo, tão exposta.

Começaram as surpresas. As trocas. Os beijos. Os abraços. As boas intenções. As pluralizadas idéias. O toque de cada um. No conjunto para todos. Olhou em volta e pensou. Palavras não dão conta. Fotos não explicam. Aquarelas não dimensionam. A real emoção.

 

A Arte tenta. A cada tentativa, uma nova busca. Passam-se os anos. Modificam-se os estilos. De cavernas para os museus. De clássico para cubismo. De impressionismo para expressionismo. Olho em testa. Gritos em pontes. Grafites. Textos antigos com roupagem nova. Textos novos com leitura antiga. Não importa. A procura é de literalidade. De decifração da emoção. Mas isso só existe mesmo dentro de cada um. Cada um tem sua leitura. E sua memória. Baseada em seus códigos. Por isso não se consegue a transcrição perfeita.

 

A coletividade na Arte é mais uma tentativa. De dar conta da falta de coletividade. Para que se torne sustentável. A existência de cada um.

 

Foi em meio a esse pensamento - vindo sabe-se lá de onde - que escutou seu nome e o dele.

 

E entregaram uma caixa. Verde. Linda. Toda de etiquetas. Com os nomes deles. Abriu.

Esqueceu da delicadeza da alegria. Nada mais de roçar de sedas ou cristais. Abandonou toda a recém criada teoria da Arte. O mais novo conceito de coletividade. Qual o que.

 

Tivesse um cristal perto e teria se espatifado o coitado. Com o grito de feliz surpresa que ela deu. Ali estava o que ela queria há tanto tempo. Havia até pesquisado nas lojas. Mas achou que ainda não era o momento adequado.

 

Tinha fila. E a fila tinha que andar. Aprendera esse controle. Em meio ao seu descontrole habitual. Na hora do controle nem se entendeu. Mas se obedeceu. Pode-se assim dizer.

 

E agora estava ali. Nas mãos deles. Nas mãos dela. Adorou. Muito. Repetiu tanto isso. Até avisou que só conseguia pensar nisso. A partir daquele momento. A única coisa que falou com objetividade foi da cor. Do objeto desejado e recebido. Vermelha. E brincou. Adorou. Estava numa fase rubra.

 

Todos riam com a expressão dela. Porque ela só falava e repetia. Que maravilha. Adorei. Adorei. E repetia.

 

Colocou no lugar devido. Era uma preciosidade. Pela forma da entrega. Pelo critério da escolha. Todos eles se juntaram. Combinaram. Decidiram. Fizeram acontecer. E ela ali. Feliz. Repetindo. Adorei. Adorei. Ele olhava para ela e ria. Compreendia. O pensamento por trás do pensamento dela.

 

Ela sempre carinhosa. Ela que colocara os adesivos. Com tanto cuidado. Eles todos assinaram. Era muito mais que um presente. Era toda uma composição. Todo um trajeto. Até que chegasse às mãos deles.

 

E o mesmo foi feito entre eles. Cada um recebia sua caixa elaborada. Uma troca. Com a surpresa-do-desejado dentro. Mais um pouco e nasceria outra teoria sobre a Arte. Ou sobre a Coletividade.

 

Riu meio de cantinho. Mas não explicou.  

 

Eis o valor. Entendeu a fala da avó. É verdade. Toda festa tem mesmo cores próprias.E repetiu mais uma vez. Adorei. Ele existe.

 

 


Dezembro 10 2009

 

Começou a contar de repente. Tão de repente quanto a lembrança veio.


Pelo menos assim conclui. Como dizia a minha avó. Jamais perca a chance de escutar as lembranças, menina, jamais perca a chance de escutar as lembranças.


Lembrança é coisa séria. E muito mais séria se da infância. Porque é uma lembrança constituída. Construída. Esclarecida. E, principalmente, não compromissada.


Assim são as lembranças da infância. Não nos deixa dúvida. E nos deixa em dívida. Com a nossa memória. Com os nossos prazeres. Que depois até se multiplicam. Ou podem se multiplicar. Mas nunca igual como na infância. Com aquela sensação plena de prazer. Que toda a infância envolve. Seja de que forma for. Não tem preço. Nem taxa cambial. Muito menos selo de made in. Tem que ver com entrega. Com aceitação. Com riso. Estes sim. Os indicadores do afeto. Como um mercado de afeto sem nota fiscal. Mas com o aval do olhar.


E ele contou.


Quando se sentiu familiado. Assim mesmo. Familiado. Que nada tem que ver com familiarizado. Estava certo. Familiado é integrado. Juntado. Compartilhado. Familiado diz muito mais. Mesmo que não se fale assim. Não importa. Sente-se assim. E explica-se bem melhor. Pela primeira vez estava entre tios e primos. Lembrava da voz dela. Melhor dizendo. Lembrava das palavras dela .Porque do rosto esquecera. Perfeito.


A voz dela orientava a olharem para o céu. Lá veriam uma barba branca esvoaçada. Uma mão esticada segurando uma cordinha. Do trenó. E muita cor. No meio da noite. Que estava já chegando a hora.


Lembrou de várias cabecinhas viradas para cima. Como devem ser os bons sonhos.


Lembrou que olhou. Nem precisou se esforçar muito. Porque logo viu. E feliz riu. Era verdade. Exatamente como a voz descrevia. Viu tudo isso. Viu até barulho. Viu o vento na barba. Viu que os presentes meio que se batiam uns nos outros. Muitas caixas. Mal cabiam naquele espaço. Mas cabiam. E nem caíam. Escutou os sinos. Escutou risos. E muitas cores. Muito brilho. Uma luz toda especial. Em cima dos presentes. Das fitas e da barba.


Alguém os mandou dormir. Para que pela manhã estivesse já tudo arrumado.


Obedeceram. Obedeceu. Foi dormir pensando no céu. No vento. Nas cores. Na barba. Dormiu em meio a esses quadros. A essas imagens. Mágicas.


Quando acordou pela manhã teve que segurar o rosto. Com as duas mãozinhas.


Em volta da enorme árvore estava uma montanha maior ainda. De presentes. Muitas caixas coloridas. Sentiu-se de novo familiado.  Ele vira o percurso. Enxergara no céu. Sabia como tinham chegado ali. E como fora difícil com o vento que fazia.


E eles ali. Descabeladinhos. Descalços. Com uma pressa que jamais sentira de novo pela vida a fora. Com tamanha urgência e ansiedade. Era preciso abrir logo. E cada um tinha um nome. Era preciso ver seu nome. Alguém tinha que ler seu nome no pacotinho. Para tomar posse como destinatário. Engraçado como isso depois se torna comum. E sem brilho. Ou sem aquele brilho.


Não lembrava a comida. Não lembrava o depois. Lembrava do seu presentinho. Uma imensa carruagem. Com lona. Com cavalinhos. Com rodinhas que giravam. Olhou encantado. E cada um deles abriu o que era seu. Em nome e - por conseqüência - em direito.


Passaram o dia brincando. De vez em quando ele olhava para o céu. Queria poder agradecer. Mas não via o dono da barba.


Achou que nunca mais o veria. Depois daquela noite.


Em meio ao relato da lembrança riu. Riu mesmo. Não devia ser uma montanha de presentes. Não devia ser enorme a árvore. Nem devia ser tão grande a carruagem.


E fez um gestual imaginário. Um muito obrigado. A quem não teve a idéia - de fotografar.


A criatividade na descrição de uma lembrança dá muito mais realidade do que uma foto. Uma foto apenas expõe uma cena. Congelada. Nada mais que isso. Não revela a dimensão do que se vive - no instante da foto.


E ele, que vivia em volta de papéis, pela primeira vez ficou feliz com a falta de documentação histórica.


Riu. 


Deu um salto da poltrona. Assim. Sem mais nem por que. Olhou atentamente para o céu. Teve uma súbita impressão. De ver um sorriso cúmplice. Dirigindo-se a ele. E meio encoberto. Por uma barba branca.


Tranquilo, sentou de volta na poltrona. E com uma suave sensação - de agradecimento cumprido.

 

 


Dezembro 01 2009

 

Lembrara do sábio Poetinha camarada. Era claro e objetivo. Por isso mesmo um Poeta.

 

Nada como o tempo para passar.

 

Esta frase ficou guiando o amanhecer. Repetiu-se muitas vezes. Autoritária. Persistente.

Procedia. Já se fazia quinze dias. Desde aquela tarde.

 

Ficou com alguns lapsos solidários aos lapsos da consciência. Lembrava da injeção. Lembrava das mãos dele apertando as dela. Lembrava que nevara no sétimo andar. Riu. Aquela risadinha lúdica por entre os lábios. Por isso adorava as defesas da emoção. A neve fora muito companheira. O local era frio. Melhor um deslocamento. Correto.

 

Passara estes dias em casa.

 

Deitada - no início. Parecia que nunca mais se moveria. Devia ser algum Festival de Gemidos. Deveria estar participando de um deles. E vai ver não lembrava. Fora inscrita – sem autorização. Até sem solicitação. Mas enfim.

 

Não fugia ao estilo dela. Eis algo inegável. Era dramática - mas se divertia com o libreto. Ocasionalmente gemia. E deitada ficava.

 

Foi assim que lembrou o Poetinha.

 

Foi mais rápido do que o previsto. Se sentiu como renascida. Foi até o espelho. Se confirmou.  Daí em diante o ritmo mudou. Sentou. Caminhou. Desceu. Subiu. Participou.

 

Viu a chuva do terraço. A cor cinza dominava a paisagem. Enevoava a visão. Obstaculizava os detalhes. Encobria as mil e tantas janelinhas. Desordenava os mil e tantos prédios. À sua frente apenas uma cortina de água.

 

Teve de tudo. De garoa a temporal. Raios e trovões. Depois o céu azul. O calor. A brisa. O clima parecia seguir uma ordenação. Dentro do caos absoluto. Fosse um pouco mais paranóica e acharia que tudo era com ela. Mesmo que a favor. Riu de novo.

 

Mas o mundo gira na posição correta. Principalmente quando há um calor a mais. Como se as Leis da Física se tornassem viáveis. Quase compreensíveis. Tudo parece mais nobre. Nem sabia se este era o termo correto. Mas foi o primeiro que veio à mente. Obedeceu.

 

Recordou desde o dia da decisão. Desde o agendamento.

 

Ele acatara. Acolhera. Que seja assim então. Sem nenhum apesar de. E ela se sentiu bem. Muito bem.

 

Antes. Muito antes. Desde há dez anos. Ele sempre compactuando. Na singularidade das rotinas. Nas parcerias das definições. Presente. Mesmo – se - não corporalmente. Dedicado. Cuidadoso. Não faltavam mimos. Nem gracinhas. Nem ombro. Na ausência física - telefonava.

 

Mas a partir daquela tarde - ratificou. Entendeu letra por letra - o significado da palavra companheirismo.

 

Nada tem a ver com solidariedade. Com preocupação. Com certidão.

 

Companheirismo é uma atitude. Uma emoção. Maior que um ato. Menor que um fato. Acima de um contrato.  

 

Expõe-se no olhar. Na modulação da voz. Nas sugestões mais simples. Surge por inteiro. E compõe a própria tela – aos pedacinhos. Não é invasivo. Nem acidental. Pode até carregar alguma temeridade. Mas é pleno de afetuosidade. É sutil. Mas inflexível. É doce. Mas perspicaz. Não compartilha com nenhuma outra filosofia nem mandamento. Vive a exclusividade do gestual.

 

Companheirismo é da ordem da precedência. Antecedência. Tem um tempo particular. Que desarticula proposições e mediações. E vive num espaço próprio. Não questiona parcialidades.

 

Descobriu – surpresa - que não é uma opção. Não sabia bem o que era. Vai ver a chuva também interferia na nitidez. Das conclusões. Até riu.

 

Olhou para dentro do terraço. Viu a casa. Os quadros. Os móveis. As fotos nas mesinhas. Parecia tão iluminada. Perfumada. Entrou. Continuou consigo mesma. Quase numa dialética enviezada. Não achava a saída. Se fosse um mérito – era minimizar o ser. E fazer dele um estar. Não era bem isso. Era muito além - disso.

 

Teve enfim uma mágica sensação de percepção. Riu. O telefone tocou. Era ele. Perguntou pelo cansaço. Pelo descanso. Pelo dia. Pela rotina mudada. Pela planejada. Até pela dispensada. Riram.

 

Entendeu. Companheirismo é ligação. Ergueu um brinde metafórico – às metáforas tradutoras da Vida.

 

Jogou um beijo em direção a ele.


 


Novembro 29 2009

 

O acidente fora terrível.

 

Uma profissão onde o acidente era o oposto exato ao proposto. Foram cedo cumprir suas funções. Rotineiras. Tentavam colocar os pontos subterrâneos de ligação de luz. Dentro da terra. Submetidos ao mundo.

 

Na explosão – ficaram no escuro. Queimados. Lá embaixo. Os dois.

 

Retirados – foram encaminhados ao local de socorro. Desorientados. Gementes. Ainda sem compreensão. Os acidentes são rápidos. O entendimento é lento. Como uma defesa. Do corpo. Da emoção. Da sensação.

 

É preciso mais que uma explosão – para que o pensamento se adeque a uma situação súbita. Seja ela qual for. Assim eles estavam. Assim chegaram à Unidade de Emergência.

 

Corpos queimados. Retorcidos. Contaminados. Entre o que impede e o que invade – uma fronteira tinha se rompido.

 

Ela encerrara o período de especialização. Um dia avisara. Jamais voltaria a cuidar de queimados. Delicada - sentia o peso da dor já no atendimento. Rigorosa nos procedimentos – temia nem sempre ter acesso ao necessário. E diante de si mesma – assim decidiu. Não. Nunca. Atuaria em outras áreas.

 

Esta não cabia mais a ela. Em uma só modulação vocal - convenceu ao outro e a si mesma. Repetiu. Não. Nunca. Decisão exposta e imposta.

 

Escutei uma vez alguém comentar. O Universo é surdo diante de nãos e nuncas. Perfeito. Deve ser esta a explicação.

 

Eles chegaram. No momento exato em que ela chegava. Um encontro. O encontro. Inadiável. Irrecusável. Sim. Agora mesmo.

 

E a partir do encontro – quarenta dias se seguiram. Uma nova rotina se estabeleceu.

 

Durante este tempo - ambos inconscientes. Respiravam por tubos.

 

Alimentavam-se por tubos. Nada sabiam. Nada viam. Nada escutavam. Corpos presentes - nas ausências.

 

Cuidou deles no silêncio. Durante os quarenta dias seguintes acordou às seis horas da manhã. Pontualmente. Ia para a Unidade. E os operava. Todos os dias. Enxertos. Remoções. Composições. Fazia todos os procedimentos necessários. Silenciosa. Como eles.

 

E à medida que eles melhoravam – ela ia se transformando. Só descobriu isso um tempo depois.

 

Nem toda pele é externa.

Há sempre uma outra. Invisível. Intocável materialmente. Mas que também faz contornos. Que também pode ser ferida. Ou festejada. Que permeia as emoções. Reorganiza um novo corpo dentro do inconsciente de cada um. Vai se construindo junto com o amadurecimento. Não da idade. Mas da própria Vida.

 

Algumas vezes imaginava como seria o despertar. Deles.

 

O dela já acontecera. Desde o primeiro encontro. Agora restava o deles. Para complementar o dela. Mais ou menos assim - também - é a Vida. Enfim.

 

Imaginava a apresentação. A confirmação. Que diriam quando acordassem. Havia um conhecimento de um lado. O dela. E um desconhecimento do outro. O deles.

 

Às vezes até ria. Mulher. Magrinha. Com suaves traços orientais. Jovem. Não alta. Eles iriam se assustar. Mas seguia. Diariamente. Cumpria com integridade o que a si propusera.

 

Chegou o dia. Eles acordaram. Primeiro um. Logo depois o outro.

 

Se olharam. Se viram.  Se enxergaram. Assim. Pareciam se constituir pelo olhar. Primeiro individual. Depois a busca pela parceria. Numa sequência quase perfeita. Se re-conheceram.

 

Revistaram a pele externa. Iniciaram – solitários - a recomposição da pele interna. Lembraram o acidente. Escutaram a explosão. Foi um período complicado. Havia um passado não vivido para ser assimilado. Com uma etapa faltante. Qual um nascimento – só que com memória. E o resto seria composto pelo outro. Pelo relato do relato.

 

Há um ano eles a visitam nas datas ditas especiais. Gratos. Íntegros. As marcas que portam – não impedem a vida que tinham. Exercem suas atividades dentro do planejado.

 

Ela feliz - elogia. Não a ela. Mas à pele deles. À coragem deles. Mesmo que aparentemente ausentes. Venciam suas batalhas na Unidade - como na função profissional. O objetivo persistira - concluir com luz.

 

Há algo inegável. Eles chegaram. No momento exato em que ela chegava. Um encontro. O encontro. Inadiável. Irrecusável. Sim. Agora mesmo.

 

Semelhante à pele - nem toda Luz é a visível.

 


Novembro 14 2009

 

Por muito tempo na Vida fingiu que não via.

 

Assim era ela. Sempre dava um jeito de escapar. Parecia uma sábia diante dos impedimentos. Se fosse para cortar o prazer – agia com rapidez. Não faltavam críticas. Sobravam observações. Análises. Sugestões. Tinha uma auto-referência. Era pragmática. Nada de muitos rodeios. Direto ao assunto era seu estilo mais suave.

 

Recobria-se de marcas. Incrível. A roupa tinha nome e sobrenome. As bolsas e relógios também. Todos com registro em cartório. Não usava um brinco que não portasse uma assinatura. Recobria-se de nomes. E escondia-se em meio deles. Às vezes parecia que a própria nomeação não a sustentava. Mas enfim.

 

Assim seguia seu caminho. Talvez fosse mais um atalho. Uma trilha. Não é tarefa fácil entender as esquinas escolhidas. E a cada virada- nem sempre é possível esquecer o rastro. De onde se saiu. Ao menos é o que parece. Ou parecia.

 

Vai lá saber por que nesse dia me fez tanto relato. Cedo. Bem cedo. Já foi encontrando e dizendo bom dia. E sem esperar a contra proposta – desatou a falar.

 

Chegara a uma conclusão. Não importa se as fantasias se excedem. Fantasias são feitas justamente para os excessos. Seja de credulidade, de ingenuidade, de credibilidade, de eternidade. Não importa. Como um perfume. A intensidade é forte - mas tem prazo.

 

De realidade passamos toda a vida. A somar. A prever. A desistir. A ocultar. A permitir. A ceder. Ocupa tanto tempo da vida útil e muitas vezes só se percebe isso muito tarde. Foi o que entendi esta semana. Até de amar também se pode brincar. Assim falou.

 

Sentei. Estava com a agenda completa. Mas decidi escutá-la um pouco mais.

 

Concordei. E fiz um breve comentário. Bem breve. Ela preferia falar a escutar. E foi para isso que me sentei. Para deixá-la falar. E escutá-la contar.

 

Mas optei pelo breve comentário. E disse. Tudo se pode – quando há o amplo entendimento da solidão que uma fantasia expõe. Só isso.

 

Ela fez uma expressão facial que eu chamaria de interessante. Este me parece um termo que melhor esclarece. O que em absoluto se entendeu.

 

Fez a tal expressão e desconsiderou o comentário. Continuou falando. A fantasia deixa de fora um detalhe – o compromisso com a veracidade. Não envolve maiores nem menores riscos. Não assusta. Nada exige. Só fica ali. Fazendo seu percurso mágico por entre sonhos, estrelas, mares jardins, luares.

 

Levantei. Não era tema para escutar com o olhar no relógio. Era intenso. Longo. Um possível tratado estava sendo construído. Ficou até complicado entender. Onde estavam as diferenças. Ou as semelhanças.

 

De repente sorriu e disse. Ele a nomeara de heroína. Desta vez interpretei a surpresa. Então tem um ele. Mais uma vez desconsiderou. Ele a nomeara de heroína por ser tão responsável pelo dia-a-dia. Somente as heroínas se preocupam com a rotina. Assim ele falou.

 

E ela não só adorou – como incorporou de imediato a personagem sugerida. Já foi logo se sentindo mártir. Faltou fogueira e forca para tanta bravura assimilada.

 

O denominou de – meu ópio. Quando o encontrava ficava viajando nas palavras dele.

 

Impossível perder a oportunidade. Eis uma bela e bizarra dupla. Heroína e ópio.

 

Surgiu aquele silêncio. Um hiato. Onde o riso ficou pendente.  Até se dar conta do chiste. E rir. Muito. Ficou quase entorpecida. Mais um pouco e se faria realidade.

 

Começava a apreender os efeitos que as palavras podem causar.

 

O momento se fez delicado. Parecia feliz. Não sei se plena de fantasia. Ou plena de realidade. Estava numa espécie de completude. Principalmente com ela mesma.

 

Nunca a escutara falar daquele jeito. Nunca exaltara uma parceria. Sempre vivera em torno de si e dos próprios fantasmas. Estes sim. Sabiam acatar as ordens. E a estes ela privilegiava autoridade.

 

Rimos. Respondi que precisava de um tempo para pensar. Para reconhecê-la.

 

Desta vez ela que interpretou a surpresa. Mas sou a mesma. Fantasias existem para que se permaneça do mesmo jeito. Fantasia é terreno fértil – para se ficar inalterado.

 

Nos despedimos. Antes de subir as escadas vi que fez o gesto habitual. Com os dedos – colocou os cabelos por trás da orelha.

 

Voltamos à rotina. Ela – a heroína. Eu – a desavisada.

 

E ambas – atrasadas.

 

 


Outubro 29 2009

 

Lembro o dia em que a conheci.

 

Iniciava o trabalho no Projeto. Logo no primeiro dia. O grupo já estava há mais tempo. Não conhecia os membros da equipe. Mas fui lá. No local de encontro.

 

Assim me avisaram. Chegar a tal hora. Em tal lugar. Com seu material próprio para o atendimento. E lá se identifique com tal pessoa. Seu crachá estará já no local. De lá sairiam os profissionais para as áreas de atuação. Simples assim.

 

Compreendido.

 

Ela chegou - sorridente. Falando com todos. Caminhando apressadinha. Parecia ser muito delicada. Atenciosa. Todos ficavam em torno dela. Os que iam chegando – já iam fazendo círculo. E ela no meio do círculo. Sorridente.

 

Nesse dia específico falavam sobre postura. Uma observação sobre alguém do grupo. Ou sobre algum estilo. Nunca soube ao certo. Algo por aí. Lembro que respondeu. Num tom mais alto. Porém não ríspido. Quando se é carente – procura-se ser simpático. Eu sou carente. Trato todos muito bem. E riu.

 

Como se a carência fosse um adereço. E como tal devesse ser tratada.

Perfeito.

 

Me apresentei. Ficamos amigas.

 

Não eram daqui. Nem ela. Nem o marido. Estavam casados há pouco tempo. Viera por um convite profissional para ele. Parceira – aceitou. E estava se entendendo com a cidade. Já conhecia mais lugares que os nascidos e criados aqui. 

   

Continuamos em nosso trabalho. Um Projeto social. Nos reuníamos uma vez por semana - o dia todo. Contou sobre o projeto particular. Queriam um filho. Logo.

 

Sempre festejada – acabou reunindo torcida. Todos participavam. Se sim. Se ainda não. Alguns mais afoitos até do por que não. Outros mais discretos – aguardavam as mudanças que denunciassem.  Ela respondia. Acolhia. Escutava. Silenciava. Aguardava.

 

Era um tal de – este mês ainda não. Ou – não foi desta vez. Mais exames. Mais aconselhamentos. Mais pesquisas. A ciência e a tecnologia a serviço- da fertilização.

 

Não faltaram ideias. Ou sugestões. Ou indicações. Ou dados. Da Imunologia à Fisiologia – tudo visto e revisto.

 

Um dia tomou a decisão. Cansei. Chega de temperatura. De ciclos. De emergências. De privacidade alterada. De papel. De regras. De estatísticas. De relatos psicológicos. Cansei. Vai ser estilo artificial. Pragmático. Vamos dar uma força à natureza. Para isso existe a evolução. Da ciência. Da pesquisa. Dos resultados. Para ser utilizada. Vamos utilizar. Certo. Então em duas semanas.

 

Quando nasceu – já não trabalhávamos mais juntas.

 

Olhei para as fotos. Linda. Moreninha - como a mãe. Linda - como a mãe. Olhar decidido - exatamente igual à mãe. Mas ela foi logo avisando. É idêntica ao pai. Linda - como ele.

 

Contou rindo. Depois que marquei o artificial - ela veio natural. Nem conheci a equipe. Quando estava já agendado – desmarquei. Ela já estava fazendo parte da nossa vida. Da Vida. 

 

A torcida continuara. Desta vez de forma métrica. Está maior. Esta crescendo. Está sem cintura. Está com jeito de silicone. Cada um construindo nela uma nova anatomia. Com as palavras. Com o olhar. Até com a mímica.

 

E muitos risos. Sempre. A cada encontro do grupo. Todas as manhãs. 

   

Minha avó tinha uma ideia para o riso. Só é realmente feliz quem sabe compartilhar o riso, menina, só é realmente feliz quem sabe compartilhar o riso.

 

Procedia. Procede.

 

O riso compartilhado é uma das mais belas cenas de um grupo. E era assim com ela. Continuavam todos em volta. E ela feliz.

 

Lembrei o comentário sobre a carência. Transformara-se num adereço dispensável. Ou até ignorado. Não era mais uma questão. Nem um símbolo. Ou muito menos uma situação. Não importava se não era daqui. Ou se era de lá. Ela agora era duas.

 

Fiquei emocionada quando li o recadinho. Nasceu. É maravilhosa. Estamos muito bem.

 

E adivinhei o sorriso dela. O primeiro olhar para a filha desejada. O toque delicado na pele suave e rosada. O gestual protetor e acolhedor. As lágrimas fáceis da intensa atividade emocional.

 

As primeiras dificuldades para quem se inaugura - mãe. As pequenas dúvidas. Será que está certo. Será que é assim mesmo. Mas segura diante de uma certeza absoluta - o apaixonamento imediato. 

 

Lá estava. Na tela. Colorindo. Toda enfeitadinha para a foto – a Laurinha.

 

Bem vinda. Bem Vida.

 

 


Outubro 16 2009

 

É passional. Muito passional.

 

Sempre agiu assim. Já o conheci assim. Com o vermelho da emoção sobrecarregada – colorindo o rosto de linhas bem marcadas. Belo. Contrastando com o grisalho dos cabelos e o esverdeado do olhar. Um colorido explícito. Denunciava a alma – sem texto. Incrível. Foi a primeira palavra que me veio à mente.

 

Algumas vezes até o senso de justiça ficava um pouco de lado. Mas era atento. A injustiça lhe feria até a alma. Tentava sempre uma parceria. O passional com o racional. Nem sempre conseguia. Mas nunca desistia. E com o passar dos anos – foi ficando cada vez mais atento.

 

Tem um dom. Especial – como todo dom. Tem uma sensibilidade ímpar. Enxerga além do previsto. Ou até do malvisto. Mas só se expõe quando quer. Quando não – comporta-se como um trabalhador braçal. Enche-se de tarefas e silêncios. E age como se nada importasse. Assim se ampara. Assim se enfrenta.

 

Divide um estilo entre a timidez e a ousadia. Não sem alguma dificuldade na dosagem certa. A balança pode pender para um lado mais afoito. Ou menos objetivo. E – muitas vezes – o resultado foi negativo. Errou talvez mais do que acertou. Ou o contrário. Nunca se sabe mensurar com a certeza. Venceu grandes batalhas. Perdeu boas oportunidades. O tempo é autoritário.

 

Descobriu também depois. Mas aprendeu a conviver com o que não pode ser resgatado.

 

Este é mais um dos seus traços. Acata. Não se rebela se a luta é desleal. Lutar contra o Tempo – já se entra perdendo. Lutar contra as perdas – impede as novas conquistas. Nisso é um sábio. Nada de ficar correndo atrás de prejuízos. A vida caminha para frente.

 

Expõe a alegria pessoal com recato. Impõe solidão nos momentos de grande tristeza. Sobreviveu a dores e amores. Aos possíveis erros de avaliação. Às possíveis punições da credulidade da juventude. Agora – bem mais cuidadoso – se preserva. Melhor um pouco de charme bem dosado do que o coração aberto por inteiro.

 

Não perdeu um mínimo que fosse da característica sedutora. Ou da sensualidade. Sedução e sensualidade. Para ele – forças vitais.

 

Tem um olhar curioso sobre o Universo de uma forma geral. E um olhar disfarçado sobre as belas particularidades do mundo. Divide o que sente – com quem sabe escutar. Cala-se diante do desatento. Ou do seletivo. Não quer ser apenas instrutor. Quer mais. Quer talvez ser provocador. Provocar projetos. Provocar futuros.  

 

Tem ternura na alma. O desconforto do outro lhe causa dor. Enfim. É suave e forte. Como um poeta. Como um músico. Muito mais lhe importa a sonoridade das palavras. O brilho das cores. Ou o simbólico dos detalhes.

 

Aprendeu que nem tudo que é belo é real. E nem tudo que é triste é sofrimento.

 

E assim vai seguindo o caminho. Perseguindo os objetivos. Contornando as imperícias. Regozijando-se com as conquistas.

 

Foi o que pensei ao vê-lo hoje. Decidido. Já foi logo avisando. Desde cedo.

 

Não importa o Tempo. Muito menos a temperatura. Não importa se aquece. Não importa se esfria. Vou relaxar diante das águas. Vou ficar diante do vento. Vou buscar o equilíbrio. É só o que permite que se fique numa vertical. Assim. Entre o vento e a água. Vou dominar com os braços. Vou firmar com os pés.  Vou vencer sem contradizer. Vou entender a favor – estando contra. Ou vice-versa. Tanto faz. Vou aprender a ser. Muito mais do que a estar.

 

No começo pode-se cair. Músculos e pensamentos nem sempre andam de mãos dadas. Podem até se desentender. Mas assim é em qualquer aprendizado. Para cada código há uma leitura específica.

 

Por um segundo ainda olhou para trás. Ainda pensou em voltar. Mas este também não era o estilo dele. Uma vez diante de uma criação – seguia. Confirmava.

 

Quando uma ideia chegava de súbito – respeitava.

 

E esta viera assim. De repente. Num amanhecer cansado. Ou por um dormir angustiado. Vai lá saber. Mas viera. Isso o que importa. Iria sim. Buscaria os meios. Transformaria ideias em atitudes. Este outro dos seus traços.

 

E de traço em traço – como que deliberadamente – vai se compondo. Refinando a sinfonia interior. Tentando desenhar seu próprio destino. Cuidadoso. Como se utilizasse um pincel com um único pelinho. Pintando com delicadeza e sutileza. Mas com firmeza - e vontade própria - no risco.

Sempre fiel e leal – consigo mesmo. Com o vermelho no rosto. Ocasionalmente.

 

Inegável e proporcional. Além do sentimento afetuoso - o admiro tanto quanto o invejo.

 


Outubro 12 2009

 

Fiquei escutando o relato.

 

Ela falava de um acontecimento do passado. Da própria família. Ele escrevia. Muito. E lá um dia optou por publicar.

 

Lembrava da época. Não em relação ao tempo. Mas em relação às dificuldades. Estavam com dificuldade financeira. Era ainda muito pequena. Não tinha noção exata do significado. Mas tinha a sensação perfeita. De que estavam em período de contenção. A vida deles. A emoção. A rotina.

 

Lembrava da escola. De algumas contas que a mãe reclamava. De alguém um dia falando alto com ele. Parecia algum tipo de cobrança. Quis até defendê-lo. Mas sem saber bem o motivo - calou.

 

Entendia que estavam todos nervosos. E tristes. Procurava fazer sempre silêncio.  Quando estava em casa mal se mexia. Não fazia barulho. Era uma sequência quase militar. Poupava a si - e aos outros - de qualquer aborrecimento. Evitava confrontos. Desacertos. Demandas.

 

Aceitava o que vinha. Não pedia o que não tinha. Vai lá saber por que – mas a sua visão de criança a alertava. Como se a conduta exigida fosse essa. E acatava.

 

Riu quando assim falou. Como se tentasse entender a ela mesma. De frente para trás. Só adulta se deu conta. Riu de novo pela palavra dita. Achou pertinente e adequada. Ao relato. Continuara sempre assim. Diante de qualquer tensão. Silenciava. Movia-se o mínimo possível.

 

Houve um tempo que fez sessões de análise. Queria superar as barreiras erguidas. E lembrava que riu muito no dia que o analista lhe perguntou. Ou interpretou. Talvez para não acordar mais demônios. Riu porque não sabia. Ou porque sabia. Enfim.

 

Ele escreveu muito neste período. Muito. Como se pela mão correndo pelo papel – a angústia se fizesse menor. Chegava tarde da volta da rotina do trabalho. Mal jantava e lá ia para seu cantinho. Sentava diante de uma antiga mesa de madeira. Acomodava-se numa cadeira com uma almofada de tecido já estragado.

 

Dispensava os pequenos e médios confortos. Colocava uma música. E lá ficava. Escrevia por horas. Noite adentro. Algumas vezes reclamava dos dedos doloridos. Outras vezes das costas. Mas não parava.

 

Certa vez alguns dos papeis manuscritos caíram. Deviam ter caído. Estavam no chão. Como que abandonados. Ou descuidados. E amontoados.

 

Ele viu que ela o observava. E comentou com ela. Olha os papéis no chão. Nunca antes assim ficaram sobre o frio do mármore. Espalhados, misturados. Estes papéis falam de dor. De tristeza. Denunciam muita solidão.

 

Mas deu um sorriso. Acariciou os cabelinhos dela. E falou. Diante dos papéis assim. Caídos. Quase abandonados. Será que sou eu ali.

 

Juntou os papeis para ele. E os colocou sobre a mesa.

 

Não compreendeu muito bem. Mas lembrou que foi dormir muito triste naquela noite. E que evitou se mexer na cama. Acordou pela manhã quase na mesma posição que adormecera. Foi difícil até mover a perna.  

 

Ela não tinha ideia do tempo - que durou a escrita. Mas lembra do dia que ele disse. Vou publicar.

 

A mãe riu. Desconsiderou.

 

Fazia muito tempo que não era mais uma romântica sonhadora. Se é que algum dia foi. Comentou isso com uma pontinha de tristeza. Pela mãe.

 

Publicou.

 

Naquela noite ele chegou mais cedo. E a chamou. Pediu ajuda.

Tinha dentro do carro muitos volumes. Muitos. Para ela - milhões. Depois soube que foram cinquenta. Uma parte grande ficara na Editora - seriam distribuídos. Uma pequena quantidade trouxera para casa.

 

Olhou para ele. Viu que tinha um brilho mais feliz no olhar. Arrumava os livros sobre a mesa com cuidado. Passava a mão sobre a capa. Abria. Relia alguns trechinhos. Fechava. Passava de novo. Repetia. E ela repetia o gestual com ele. E lembra que eles dois sorriam.

 

Naquela noite ela se mexeu tanto na cama - que o cobertor amanheceu no chão.

 

De repente - mudou o tom de voz. Como se tivesse voltado. Ao presente do presente.

 

Nem acredito o quanto falei. E só por que vi os seus papeis no chão. E quis lhe ajudar.

 

Juntou. Colocou sobre a minha mesa e saiu. Não sem antes me dar um aviso. Cuidado para não se identificar. Com os papeis no chão. Sorriu. Leve e com mordacidade. Como os sorrisos na infância. Agradeci a ajuda e o aviso.

E contei que tinha um livro dele. Em casa.

 

Ficou muito surpresa. Tropeçou na saída da sala. Quase derrubou um copo que, sossegadinho, estava numa prateleira.

 

Rimos. Estava feliz. Talvez nem tenha se dado conta disso.

 

 


Outubro 07 2009

 

O ambiente estava tranquilo.

 

Uma ou outra mesinha ocupada. As pessoas conversavam com suavidade.

A Cafeteria ficava num falso subsolo. Dentro de um local de salas de cinema. Reservada e cultural. 

 

Uma parede de vidro ficava quase ao nível da calçada da Avenida. De um lado – as mesas dispostas para refeições maiores. Do outro lado – a Cafeteria. Um clima de acolhimento percorria com delicadeza o ambiente. O cheiro de café dava um toque de serenidade.

 

Pelo vidro se via o movimento da Avenida. Intenso. Uns passavam carregando agasalhos. Outros os tinham dobrados nos braços. Outros ainda, incautos ou incrédulos, tremiam diante do desacreditado.

 

Mas uma similaridade era geral. Social. Poderia até dizer - democrática.

 

Todos caminhavam apressados. Passadas firmes - e fortes.

 

Não se viravam para a vitrine. Não encaravam as pessoas. Só se desviavam e continuavam. Olhavam para frente. Objetivos.  

 

Lembro que foi uma das primeiras observações que fiz quando me mudei. Completamente imigrante – me sentava solitária em algum Café. Em geral numa específica esquina. Sempre levava um livro. Jamais era aberto. O livro dinâmico passava e virava as páginas ora com rapidez. Ora lentamente. Mas deixando um fio de continuidade implícito.

 

Nunca se sabe o caminho de uma metáfora. Enfim.

 

Eu observava. Sentada e presente. Mesmo despercebida - como se ausente. O ir e vir. Os casais. O comportamento dos casais. O exposto dos solitários. A forma como as pessoas caminhavam nas ruas. Como se dirigiam às mesas. Como percorriam corredores. Não importava a estação do ano. Não importava a roupa ou sapatos que portassem. O pisar era o mesmo. Forte. Decidido. Como uma marcha sem banda. Mas ritmada.

 

Impossível não lembrar aquele autor.

 

Ele dizia que se conhece a cidade onde se está pelo caminhar das pessoas. O caminhar do Homem. Como uma Qualidade. Ou uma falta dela. Sim. O autor conhecia realmente as cidades. E muito mais ainda - conhecia as pessoas.

 

Mas – escolhida a mesinha - sentamos.

 

Começamos a nos decodificar. Desfolhamos as idéias. Desvinculamos os roteiros. Desentendemos as formalidades. Rimos das dificuldades.

 

Enquanto ele também não chegava – fomos quase refazendo o percurso da Vida. De cada um. E de cada par.

 

De repente começou a falar das filhas. Duas. Pequenas. Bem pequenas. Cada uma com seu estilo. Com suas pequenas birrinhas. Com suas personalidades se compondo.

 

Nunca pensara em filhos por preferências. Meninos ou meninas. Era abrangente. Queria ser pai.

 

Estava esclarecida assim a sua posição diante do mundo. E se via agora pai de duas meninas. Falou os nomes. Falou dos tons de pele. Das nuances dos diálogos. Dos momentos de reflexões. Delas. Da importância dos limites. Da complicada dosagem equilibrada de limitar os limites. Do unificar - sem desvalorizar - sabedoria e autoridade.

 

Foi aí que compreendi. O que dizia o mestre Frances. Muito mais que um pai da realidade. Só funciona o pai real.

 

Tão de repente quanto começou a falar - fez um gesto. Brusco.

Virou a cabeça numa rapidez que nunca vi igual. Podia até ter problemas no joelho – como referiu. Mas o pescoço estava em absoluta ordem. Assim.

 

Virou. De uma vez. Como que procurando.

 

Olhou para o lado - como que tocado por um chamado.

 

Não da Avenida. Ou das pessoas que passavam apressadas. Ou do pisar forte de alguém apressado. Ou muito menos atraído pelo cheiro do café delicioso. Que desfilava numa bandeja esfumaçando a salinha. Nada disso.

 

Na mesa ao lado sentava numa cadeirinha uma menina. Bem pequena.

 

Enfeitava a sonoridade do local com sua vozinha suave. Cabelinhos pretinhos. Franjinha. Vestidinha de inverno. Sorridente. Foi sentando e falando. Ele foi escutando e virando. Assim. Sincrônico. Simultâneo.

 

Resgatado - continuou de onde tinha parado.

 

Mas comentou. Discreto. Saudoso. Parecia a voz da minha filha.

 

Talvez não fosse de expor as emoções. Vai ver por isso gostava de poesias. Poesia é o Lugar certo de disfarçar. É expondo versos que melhor se ocultam as sutilezas ou as certezas. Da alma. Nisso também os poetas são sábios. Quanto mais os identificamos, mais os perdemos de vista. Procede.

 

Mas enfim. Até me desconcentrei um pouco da conversa.

 

Pensei no virar brusco. Na lembrança da voz da filha. Que estava em outra cidade.

 

Pode ser esta - também - uma das formas de definir um pai. Uma definição possível. Ou – melhor ainda - uma tradução possível.

 

Assim. Sem frases de efeito. Sem frases sem efeito. Sem alegorias na Avenida. Pela certeza do Lugar - simplesmente e assumidamente - de pai.



Setembro 28 2009

 

Não esquecia um determinado comentário dela.

 

Escreveu dizendo. Achava muito bonito. Fazer uma festa apenas os seis. Tem quem discorde. Quem ache que festa tem que ter muito mais pessoas. Mais distantes. Ou mais sociais. Afins e sem fins. Elogiou isso. Fazer festa familiar. E ser tão divertido. Sempre.

 

Participara uma vez. De uma destas festas. Era o aniversário dela. Veio junto com a outra amiga para prestigiá-la. E se transformaram em oito. Foi muito bom. Não faltaram motivos para risos. A celebração se estendera pelo dia e entrara pela noite. Uma festa. Este o termo correto. E achara maravilhosa.

 

Códigos e referências sem explicações necessárias. Risos e dados rascunhados – passado a limpo. Sem aborrecimentos. Sem contratempos. Sem críticas maldosas. Sem mágoas.

 

Sim. Ela estava certa. Sempre era muito bom.

 

Nesta noite não foi diferente.

 

O convite partiu dele. O inverno chegou. Vamos celebrar antes que acabe. Com esta informação do aquecimento global nunca se sabe. Todos riram. Convite aceito.

 

A mesa estava em ordem. Tudo feito dentro do solicitado. Cada um poderia se servir diante da sua preferência. O frio circulava com tranqüilidade. Lá fora uma chuva leve dava um toque bucólico.

 

Ela riu. Sempre se divertiu com este termo.

 

A modernidade permitiu que fosse tudo feito à mesa. Com todos em volta. Como um banquete antigo diante das genialidades modernas. Não se precisou do ir e vir. Tudo ficou disposto e exposto. Aquecido. Aquecendo.

 

Não se fugiu à rotina. Como assim - acabou. Então substitui. Faz assim mesmo. Vai ficar bom. Ela não gosta de alho. Ela não come bem passada. Ela só quer mal passada.

 

Este queijo, não. Acha até bonito. Mas não gosta. Este sim. Sim. Deixa que sirvo. Ponha mais para cá. Agora ficou longe dela. Quase derramou. Não, não sujei nada.

 

Quem levantar vai ter que pegar também mais isso. A família denuncia de onde veio. Sim. Até ele. Veio do lado oposto. E já está igual. Ninguém quer levantar. Deixa - eu vou. Então ótimo.

 

O cheiro do queijo derretido se misturava aos cheiros dos molhos da carne e aos pães selecionados. O vinho circulava de mão em mão. Os lugares escolhidos indicavam as preferências de cada um.

 

Elas estavam lindas. Como sempre. Participativas. Integradas - muito mais do que integrantes.

 

Eles se compartilhavam e partilhavam da história de cada um - entrelaçada com a do outro.

 

A música escolhida fora nenhuma. A voz de cada um parecia fazer o coro perfeito. A batuta era erguida ao som de talheres e facas. Tudo em total harmonia com os estalinhos do óleo nos quadradinhos de carne.

 

O cheiro doce do chocolate veio fazer o contraponto. Deliciou. Acolheu. Fez o grand finale. Em alto estilo.

 

Foi ai que lembrou a observação dela. Da reunião a seis. Sem precisar de suportes para ter graça.

 

Olhando para eles – se sentiu orgulhosamente feliz. Muito feliz. E muito orgulhosa. De si mesma. Tivesse uma medalha por perto e já teria se atracado a ela. Assim estava se sentindo.

 

Orgulho. Eis mais um sentimento com múltiplas leituras. Não permite solidão. Ou isolamento. A vaidade até pode ser ato parcialmente isolado. Pode ser dividido apenas com o espelho. O orgulho, não. Em especial este tipo de orgulho. Sempre vem do outro. Ou pelo outro. Como um presente doado. Perseguido de forma direta, mas conquistado de forma indireta. Não vem de si para si.

 

Foi o que aprendeu naquele momento. Observando-os.

 

Sentindo a mistura de cheiros. Diante do riso festivo de cada um. Da intimidade positiva em volta de uma mesa. Onde o simbólico se fazia quase táctil de tão factual.

 

Compreendeu perfeitamente. A importância de códigos bem estabelecidos. Seja qual for a relação. Para que possam ser corretamente lidos. E espontaneamente respeitados.

 

Até lembrou a velha frase. In vino veritas. Podia ser. Mas era verdadeira a visão. A sensação. Não era fruto de uma embriaguês. Era fruto de uma realidade.

 

Eles eram adequados ao tempo e às funções. Felizes. Afetuosos. Éticos e bem sucedidos. Com a idéia coerente de ambiente. De presente.

 

Era uma noite fria de um sábado de inverno.

 

E o anunciado aquecimento global se fazia verdadeiro e instalado. Estava todo ali - na sala. Em volta da mesa.

 

Riu tranquilamente aquecida.

 

 


Setembro 18 2009

 

Chegou com aquele jeitinho dela.

 

Tranqüilo. Poderia até se dizer - sorrateira. Era sempre assim. Caminhava como se deslizasse. Nada fazia com rapidez. Ou esbarrões. Dava conta do assumido. Mas sempre do jeito mais suave. Era assim o estilo dela. E sempre bem humorada. Agradável. Decidida.

 

Não havia dia que atrasasse. Jamais. Nem na entrada nem na saída. Era a pontualidade e seus efeitos obsessivos. Detestava mudança na rotina. Até obedecia – mas reclamava. Resmungava. Falava do mesmo jeito que caminhava – como se em respeito a um especial  silêncio.

 

Se lhe era solicitada uma solução – encontrava. Se lhe era encaminhada uma tarefa – cumpria. E tudo sem comentários. Sem questionamentos. Era para fazer – fazia. Simples assim. Mas sempre dentro da própria metodologia. Disso não abria mão. Nem ninguém a convencia. De qualquer contrário.

 

Primeiro escutei o pisar leve nos degraus da escada.

 

Em geral não subia se me visse ocupada. Ou concentrada. Deveria ter um nobre motivo. Dentro da qualificação que ela mesma estabelecia. Depois vi que trazia um envelope nas mãos. E segurava com muita delicadeza.

 

Interrompi o que fazia e me virei de frente para ela.

 

Entregou-me o envelope. Amassadinho. Foi avisando. Estava no depósito. Deve ter sido na mudança. Ficou por lá. Hoje mexendo em busca de alguns documentos solicitados – as encontrei. Acho conveniente comprar mais porta-retratos.

 

Eram as fotos.

 

Não sabia que estavam lá. Havia procurado muito. Por muito tempo. Agora estava ela a me entregar. Num envelope meio amarrotadinho. Mas envolto num saco plástico. Como embalagem sem data de validade.

 

A mesa estava tão bonita. A toalha de renda branca sofisticava a arrumação de talheres e pratos. O arranjo de rosas vermelhas expunha a emoção forte da decisão.

 

As taças estavam dispostas na mesa quase em fileira dupla. Próximas à borda da mesa. As cadeiras estavam afastadas para possibilitar uma melhor circulação. Até ri. Nem lembrava que tinha feito esta organização.

 

Elas estavam sentadinhas juntas. Talvez um pouco tímidas – pela posição que colocavam as mãos.

 

Eles estavam lindos. Lindos. Lembro que chegaram mais cedo. Queriam prestigiar com toda a solenidade necessária. Consideravam importante - para eles – se era importante para mim. Sempre solidários.

 

Ele estava de branco. Deixara a barba espessa - crescer. Eu estava de branco. Deixara os cabelos longos – soltos.

 

Ri de novo. Também não lembrava que tinha fotografado os pés. A sandália vermelha dava seu toque mundano. Mas – sem dúvida - elegante.

 

Ela olhou. Uma por uma. Fez algumas observações sobre quem me ajudara. Depois desceu. Com o pisar suave de sempre. De volta para suas tarefas. Não podia se atrasar. Concordei. 

 

Fiquei sentada ali – sozinha.

 

Com as fotos nas mãos. E com um sorriso invasor que denunciava as boas lembranças. Assim. Entre o presente e o não presente. Passando e Repassando. Como se num ato de efeito atualizante.

 

Muitas das pessoas – das fotos - não via mais. Saíram do registro do cotidiano. Trocaram de rumo. Ou de atalho. Ou criaram novos caminhos. Não devem ter marcado o chão. Nunca mais voltaram.  

 

Os objetos permaneceram. A mesa. A toalha de renda. As taças. A sandália.

Acho que a vi dia desses numa arrumação - por busca e apreensão. Quase ri.

 

Pensando bem. Não só os objetos ficaram. Os risos ficaram. Os mesmos risos. A mesma alegria. A constante celebração por nos mantermos sempre unidos. Ligados.

 

No tempo das fotos – nem adivinhávamos que eles iriam casar. Que ela viria se integrar. Que mudaríamos para cá. O tempo fez suas gracinhas espaciais e afetuosas. Mas preservou tudo de melhor. Houve sustos. Choro. Tensões. Até abalos de saúde. Mas todas as etapas bem vencidas.

 

Na minha frente tinha um calendário. Estava circulada a data – dia dez.

 

O dia da festa das fotos. Quase nove anos. E era hoje - dia dez. Ele já me acordara - cedo -  com um beijo de comemoração.

 

Desta vez ri. Podia-se até estar amarrotadinhos - mais do que há quase nove anos. Ele tirou a barba. Cortei os cabelos. Mas algo se mantivera bem conservado – como se no tal saco plástico. Os afetos verdadeiros continuaram intactos.

 

Acariciei as fotos. Telefonei para ele. E para eles.

 

Hoje as taças vão sair dos seus cantinhos no armário. Quem sabe – até a sandália vermelha.

 


Setembro 02 2009

 

Fez absoluta questão. De acordar bem cedo.

 

Afinal – era uma opção. Não uma imposição. Assim ficava muito mais fácil lidar com as regras. Quando pudessem ser tiradas – mesmo que temporariamente - da linha de frente. Para depois então incorporá-las – diagonalmente disfarçadas.

 

Já acordou rindo e falando. Abriu a porta e deu uma espiadinha tímida para fora. A varanda estava aberta. O céu azul turquesa. Lindo. A luz invadia comemorativa. Um friozinho singelo dava um toque de elegância ao dia.  

 

Olhou para o peixinho em seu lar-água-lar. Passeava tranquilo entrando aqui e ali. Devia ser um mundo especial. Circular dentro da água. Dia e noite. Às vezes isso lhe dava aflição só de pensar. Agora não mais. Ele deve olhar e desentender. Este mundo de cá - onde se fica prisioneiro do ar.

 

Diante destas ditas reflexões - tomou outra decisão. Melhor voltar a dormir.

 

Não estava ainda acordada o suficiente. Coitado do peixinho.

 

Riu. Voltou para a cama.

 

Nem bem deitou - o telefone tocou. Achava que nem bem tinha deitado. Mas já devia estar a dormir de volta. Porque custou a entender. Achou até que já era um telefonema do aquário. Ou que estava no aquário. Ou que o aquário era ela. Ou que tinha pouco ar no aquário.

 

Uma atrapalhação total. Em fragmentos de segundos. Ou entre alguns toques de alerta do telefone.

 

Mas - resolvidas estas questões – atendeu.

 

Não sem antes derrubar o relógio. Procede. Eis um objeto que sempre merece ser derrubado. Por um segundo, um pedacinho de segundo, riu de si mesma. Devia ser hoje o Dia Nacional das Ditas Reflexões. Desejou aquela tecla pause. Sei lá. O Reino por uma tecla.

 

Finalmente atendeu ao telefone. Era ela. Ele mandava avisar. A entrevista fora publicada. Sim. E naquele jornal. Jornal.

 

Não acreditou. Achou de novo que era o peixinho fazendo gracinhas. De dentro do aquário. Que estava no aquário. Tudo de novo.

 

Até falou isso para ela. Que ria do outro lado da linha. E confirmava. Sim. A entrevista saíra.

 

Estava lá. E quem quisesse poderia manusear. Manusear as respostas. Achou incrível. Mal podia ficar parada. Trocava de sentada-levantada-deitada-de pé. Parecia uma maratona solitária.  

 

Tudo acontecera na véspera. Ela acabara de sair dos trilhos. Perfeito. Final da tarde. De uma sexta. Caminhava entre as pessoas. Desvia daqui. Atravessa dali. De volta para onde saíra.

 

O celular tocou. Atendeu.

 

Ele se identificou. Tinha uma voz atenciosa. Polida. Começaram a se qualificar. Estilo remessa sucinta de dados de arquivo. Lembrava que ele - o entrevistador - ria. Muito. Mas quando chegou o tema exato da entrevista - se fez sério. Ela também se fez séria. E foi aquela retórica e dialética comum nessas situações. Eu pergunto. Você responde. Eu desdobro. Você resume. Eu resumo. Você desdobra. Mas só eu pergunto. E assim foi. Sem rostos. Só vozes.

 

Em meio às perguntas e às respostas notou para onde olhava. Quase riu. Mas se conteve. Não seria adequado rir de súbito.

 

Parada. Falando ao celular. Estava em frente a uma vitrine - de uma óptica. Escutando a voz dele. Enviando a dela. Uma troca de idéias diante de uma vitrine de óculos. Muitos óculos. E só as vozes se apresentando. Incrível. Mas nem por isso imperfeito. Nem muito menos fora de lógica.

 

Concluiu. Nestes momentos é impossível não erguer um brinde ao mestre austríaco.

 

Agora estava ali. Mais uma vez entre vozes. Ela avisava. E ela sentava e levantava. Derrubava relógio. Compunha filosofias de aquário.

Mas feliz.

 

Quando desligou – ficou um tempo de pé. Olhando para o peixinho. Depois daquele quase exaustivo senta-levanta. Repensando a cena diante da vitrine dos óculos. Recuperando na memória as perguntas e respostas.

 

Vai lá saber por que - lembrou da amiga. Em especial da avó da amiga.

São as falas que organizam os cenários, menina, são as falas que organizam os cenários.

 

Ele levantou e resumiu. Pragmático. Vamos já para a Banca de Revistas. Desceram rindo.

 


Agosto 24 2009

 

A fila estava grande.

 

Um pouco de impaciência de um ou de outro. Pernas trocadas a cada minuto. Olhares solicitando cumplicidade se cruzavam e desviavam.

 

A responsável pelo registro saiu.  Assim. De repente. Levantou-se da cadeira giratória e saiu. Parecia em busca de algum auxilio. Não deu para saber. Só se sabia que demoraria ainda mais a espera.

 

Foi imediato. A responsável saiu e ela fez uma expressão de total desamparo.

 

Era a primeira da fila. Era bem jovem. Magrinha. Não muito alta. O cabelo amarrado para trás. A roupa despojada. Uma amiga a ajudava com os poucos pacotes que segurava.

 

No momento que a moça levantou e saiu - fez aquela expressão. De total desamparo. Virou-se para os lados. Para trás. As mãos continham o que comprara.

 

A amiga não sabia muito como agir. Ao menos parecia. Porque falava nada. Estava, talvez, um pouco assustada. Só isso.

 

Outra encarregada apareceu. Séria. Não se dirigiu a ninguém.

 

Ela falou quase como uma súplica. Curvou-se sobre si mesma. Como se dominada por alguma dor forte. Curvou-se. E falou para ela. Não podia demorar. Precisava pagar logo o que comprara.

 

A nova encarregada olhou para ela. Nada respondeu. Olhou para as pessoas da fila. Indiferente. Ia saindo quando ela repetiu. Ainda meio recurvada. E com a pele pálida.

 

Meu marido morreu. Esta roupa - vim comprar para enterrá-lo. Não posso demorar. Estão esperando. Preciso ser atendida rápido. A amiga colocou as mãos sobre o ombro dela. O gesto muito mais do que ampará-la parece que a deixou mais curvada.

 

Difícil um peso maior do que o de uma perda.

 

Olhei para as mãos dela. Segurava uma camisa lilás. Uma gravata roxa e uma calça preta se embaraçavam entre meia e roupa íntima por entre os braços dela.

 

Quando se sabe que uma roupa é para vestir um morto - a roupa parece ficar mais vazia ainda.

 

Deveria ser tão jovem quanto ela. E magro. A roupa era de tamanho pequeno. Falou algo sobre os sapatos. Precisava de sapatos. Mas era tudo sempre tão longe. Um departamento do outro. Estava agoniada. Angustiada. Talvez mais que isso. Parecia portadora de uma solidão imensa.

 

Todas as decisões pareciam ganhar a cada momento mais peso. E os ombros dela pareciam – a cada vez mais - suportar menos. E se curvava a cada gesto que fazia em direção ao que comprara.

 

A nova encarregada decidiu-se por ajudá-la. Quando começou a digitar os preços – ela olhou o relógio. Repetiu sobre a pressa.

 

E mais uma vez se curvou sobre si mesma.

 

Aquela cena era tão real que já sugeria uma irrealidade.

 

Olhei para as cores da roupa que ela escolheu.
Vestia o morto de morto.
Mas pedia pressa. Não podia demorar.
Talvez a pressa em atender ao morto o fizesse - temporariamente - vivo.

Olhei para as pessoas da fila. Ninguém mais falava. Sugeria um Teatro – não fosse a Vida.

 

Os que estavam sozinhos observavam – parecendo desprotegidos. Os casais talvez mais expostos - diante da perda exposta dela. Uns se tocaram. Outros ficaram mais próximos. Outros se afastaram. Outros ainda disfarçaram como se não fizessem parte daquela fragilidade universal. Ainda teve quem abandonasse as compras nos carrinhos e saísse. Fingindo afoiteza.

 

Cada um com sua verdade ou sua mentira. Cada um escapando da certeza única pelo viés que suportava.

 

O dia era sábado. Duas horas da tarde.

 

Não pude deixar de lembrar o poetinha. Falava da perspectivas do domingo em seu poema. Pensei no domingo dela. Quando o relógio não lhe pedisse mais a urgência. Quando as roupas ocupadas se fizessem vazias. Frias. Mais vazias. Mais frias.

 

Ela pagou e saiu. Saiu acompanhada pelo olhar de muitos.
E deixou para muitos a lembrança da perda - incorporada.

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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