Blog de Lêda Rezende

Janeiro 07 2010


A decisão foi ótima.

 

Sim. Café da manhã ao estilo oriental. Nada do habitual ocidental. Sem horários e sem tarefas. Maravilhoso. Um contraponto à realidade da rotina. Com o passaporte imaginário de turistas. Pelo menos esta a intenção.

 

Perfeito. Viva a Liberdade. E com a cidade esvaziada. Tudo bem mais fácil e bizarro. Como uma excursão dentro de casa. Mais ou menos assim. Vamos ver os contornos como dificilmente o fazemos. Rimos. A Filosofia realmente é dependente do nada-braçal. Assim ele arrematou o discurso.

 

Já acordamos comemorando a temperatura. Sem mangas compridas. Sem botas. Sem casacos. Uma verdadeira libertação. Ao menos de braços e pernas. Rimos e saímos.

 

Já na descida sentimos o ambiente modificado. A ladeira vazia. Só um ou outro passinho provocava eco. Muitas lojinhas abertas. Poucos visitantes lá dentro.

 

Descemos para o nosso percurso sobre trilhos.

 

Desta vez não estava lotado. Assentos vazios se dispunham como ofertas simbólicas. Em todos os espaços. Era um final de feriado prolongado. Por certo muitos haviam saído da cidade. Trocas se fizeram. Lotaram as estradas. Os aeroportos. Os caminhos de subida e descida. E deixaram os da rotina esvaziados. Procede.

 

Tudo se passou com a rapidez de um virar de cabeça. E invejei ferozmente os artistas plásticos. Um mínimo de dom. E poderia repassar toda uma emoção.

 

Por que aquela composição merecia uma tela.  Até um óleo sobre tela.

 

Ela parecia bem envelhecida. Muito mais que a cronologia. Sentada - diante de si mesma. Uma sacola preta – parecendo pesada - estava aos pés dela.

Talvez amparando mais do que amparada. Usava óculos de lentes mais espessas. Os cabelos iam até os ombros. Lisos. Desalinhados. Fios brancos cruzavam através de fios tingidos. Sem maquillage. Não parecia sofrer deste dito grande problema. A mal falada vaidade.

 

Vez ou outra arrumava a bolsa preta - também envelhecida – no colo.

 

Desconfiada talvez do clima - portava um cachecol. Leve no tecido - mas pesado na cor. Azul escuro. Caia sobre uma blusa branca com botões pretos. A saia preta se unia ao preto gasto dos sapatos. Assim estava ela. Sentada.  

A expressão era misteriosa. Não sei se feliz. Se preocupada. Ou se até ausente em pensamento. Apenas estava sentada. E cuidava dos poucos pertences. Mas também de forma algo displicente. Não parecia cuidadosa. Nem consigo mesma. Nem com os objetos.

 

Ele estava sentadinho ao lado dela. Deveria ter talvez oito anos. Magrinho. Cabelos castanhos cortado bem curtinhos. Mas que não impedia que uma franjinha de raros fios lhe caísse pela testa. Talvez ainda não conhecesse a prudência da desconfiança. Estava com uma bermudinha vermelha. Uma camisetinha de mangas curtas branca. Um tênis. Meias curtas branquinhas.

 

Foi um instante especial.

 

Ele olhava em frente. Caladinho. Mas notei que ergueu um pouco os olhinhos. Como se uma lembrança boa o tivesse visitado. Um possível pensamento surpresa. Naquele especial instante.

 

Abriu mais os olhos. Acomodou-se melhor no assento. Virou-se para ela. Que continuava olhando para frente. Mesmo que na frente nada pudesse ver. Só uma janelinha que passeava pelo percurso escuro.

 

Mas ele a olhou. Deu um sorriso leve. Sorriso de criança. Feliz.

 

Passou o braço por dentro do braço dela. Se amparou um pouco. Fez uma expressão especial. Um sorriso. Um meio sorriso. Não sei. Como se a proteção do mundo estivesse definida. Ali. Com seu pequeno bracinho por entre o braço dela. Com a cabeça encostada nela. Numa diagonal de afeto encontrado.

 

De repente foi como se o mundo tivesse uma nova rotação. De paz. De tranqüilidade absoluta. De segurança. Impossível descrever em palavras uma emoção. Lembrei até o poeta. Ele estava certo. As verdadeiras emoções ocorrem em um terreno onde uma palavra jamais pisou.

 

Não sei se a palavra foi antes. Ou se viria depois. Ou se poderia ser dispensada. Nem importa.

 

Mas não lembro ter visto nada parecido. Com a expressão dele. Com o gesto do abraço lateral. Confiante no ombro certo. Sim. Tudo ali parecia certo. Perfeitamente certo.

 

E se há uma avaliação isenta de erros – é a avaliação da infância. Ao menos enquanto a infância é infância.

 

Ela parecia ter voltado. Olhou para ele. Deu um sorriso leve enquanto cedia o braço. E também se aconchegou. Já não dava mais para saber quem se sentia seguro com quem. De onde vinha o amparo.

 

Nossa parada chegou.  Antes da deles. Mas não resisti. Olhei para trás. Ela parecia rejuvenescida de repente. A atitude descuidada se modificara. Estava agora em parceria. Talvez assim reconhecida.

 

Sorri para ele. Que me devolveu o riso. Olhou mais uma vez para ela.

Apertou mais ainda o braço. Parecia orgulhoso. E ela parecia feliz.

 

Desci dispensando o tal passaporte imaginário de turista. 

 

 


Dezembro 31 2009

 

Nunca saíra daquela pequena cidade.

 

Nascera e se tornara adulta no mesmo bairro. Toda a vida circulara diante dos mesmos códigos.

 

O bairro onde nascera portava uma simbologia. Vinha de um tempo de escravos. Mas se chamava Liberdade. Havia música pelas esquinas. Havia danças. Rituais ecléticos preenchiam de esperanças os corações. A comida era vendida nas ruas – o que dava um cheiro peculiar.

 

Tudo funcionava como se fora um universo particular. Girando não sei se dentro ou fora – do universo social.

 

Ali fora alfabetizada. Orientada. Vinha de um núcleo familiar pequeno. Apenas mais uma irmã. Cedo conheceu o parceiro. Cedo casou. Mudaram-se com os poucos pertences e presentes para uma casa pequena. Próxima da família de ambos. E lá ficaram por toda a vida.

 

Um dia avisou. De um ímpeto só. Escolhera mais um outro futuro. Trabalharia na área da saúde. O marido se surpreendeu. Desde quando. Por que. Para que.  Melhor ficar a fazer o que tem em casa.

 

As perguntas foram muitas. As insinuações mais ainda. Desconsiderou uma por uma. Continuou apenas informando a composição da decisão.

 

Vai lá saber o que despertou nela. Nunca soube ao certo a causa. Mas lidou muito bem com as consequências.

 

Estudou com dificuldade. Precisava trabalhar para completar o curso. Precisava de livros. De roupas brancas. De material próprio. Mas na mesma proporção das dificuldades – encontrou soluções. Não tinha a quem solicitar. Se é assim – concluiu – solicito a mim mesma.  

 

Trabalhou. Noite e dia. Intercalando livros com cuidados da casa e do filho recém nascido. Amamentou com ele no colo e o livro na mesinha ao lado. Assim estudava. Lavou e passou roupa recitando nomes e técnicas de procedimentos.  

 

Decorou pequenas fórmulas. Revisou contas.  

 

Enfim concluiu o curso. Fez um concurso. Público. Aprovada- entrou para o seu primeiro emprego. Feliz. Conseguira.

 

E lá está há quarenta anos. Quarenta anos. Neste mesmo emprego. Sem faltas. Sem atrasos. Sem queixas. Muitos entraram e saíram. Muitos chefiaram. Muitos outros desistiram. Mas ela continuou.

 

Decisão é parceira da existência. Uma vez conquistada – para sempre priorizada.    

 

O filho cresceu. O marido mais apressado - se foi numa noite depois de algum sofrimento. Cuidou dele até o final. Chorou. E foi guardando as lembranças nas dobras do lencinho.  

 

Assim poderia ser contada a vida dela. Desse jeito linear. Mas nem sempre a vida entende que pode assim ser vivida. E surge uma contramão aqui ou ali. Um desvio.

 

De tanto cuidar – descuidou de si mesma. E o corpo não perdoa descuidos. Cobra. Aponta. Expõe.

 

Fez a cirurgia. Chorou quando lembrou o tempo que amamentava. Chorou pelo passado. Pelo presente. E pelas perdas. E duvidou – pela primeira vez - do futuro. E talvez pela primeira vez na vida toda – reclamou. Desaprovou.

Mas sabia fazer rimas. E continuou. Lutou.  

 

E durante essa poesia que inventou – surgiu uma oportunidade. Única. E para ela. Que nunca de lá saíra. Que nunca atravessara outros mares. Nem terras. Nem sotaques. Para ela o Mundo era muito maior que um globo. Ou um planeta. Era de uma imensidão que assustava. E quando pensava assim – segurava o portão da casa com força.

 

Mas recebeu um convite. Talvez até uma ordem. Vou mandar lhe buscar. Você ficará um mês aqui. Com todos nós. Desde que saímos daí sonhamos com esse dia.  Agora o dia chegou. Vai passear pela cidade. Vai descansar. Vai conhecer onde moramos. Vai escutar outros sons. Virá de avião. Nada de estrada.

 

Eis uma imagem inesquecível. Ela sozinha. Com uma roupa branca. Um casaquinho bege sobre os ombros. Uma pequena valise nas mãos. Um sorriso tão feliz que – incontido - saiu dela e iluminou todo o saguão.

 

Veio. Abraçou um por um que a aguardava. Escaparam lagriminhas emocionadas. E falou. Então é assim. Então estou aqui. E só demoraram duas horas e vinte minutos. Pensei que fosse tão longe.  

 

E o mês se fez alegre. Trocou de Liberdade. E celebrou também a nova. Fez-se de econômica a consumidora. De curiosa a integrada.

 

E como na Vida não existe Matemática nem lógica – quando retornou – repetiu os exames. Estava curada. Já não temia. Aprendera sobre distâncias e espaços. Sobre limites e infinitos.

 

E nunca mais segurou - assustada - o portão da casa com força.

 


 


Dezembro 24 2009

 

Ela leu e comentou. Não negou. A surpresa. Leu o texto.

Ler também é uma forma de simbolizar. Uma cena. Um pensamento. Uma idéia que seja. Não importa. Importa o que  fica simbolizado. Porque disso dependem as ações. Presentes. Futuras. Para que possa ser entendido até um passado. Muitas vezes ler cria mais possibilidades do que escrever. Tudo depende da forma que se permite que venha uma simbolização. Por isso depende de cada um. Da individualidade proposta.

 

Ler é muito mais difícil que escrever.

Como dizia minha avó. Desperdice nada do que ler, menina, desperdice nada do que ler. 

 

Fez um comentário. Ri. Para o comentário. Persistiu com o chiste. Precisava do número do telefone do amigo psiquiatra. Encontros imprevistos. Pensamentos semelhantes. Histórias parecidas. Amigos circulando. Estava tudo místico demais. Muito mais do que falou o inglês sábio. Estava parecendo que havia muito mais. E muito mais mesmo. Do que a vã filosofia previa. Daí brincou. Só agendando. Queria o número.

 

Nada de virada. Queria mesmo era uma coordenada. Isso sim. Estava parecendo imprescindível. Só não perguntei se isso estava na listinha. A tal listinha que ela estava organizando. De tarefas e sonhos para serem cumpridos. Na virada. Depois da virada. 

 

E lá estava ela de frente para o mar. Num recreio. Nome de desbravamento. Igualando a si mesma. Desbravamento. Do mundo. Do entorno. Do contorno. 

 

Sempre é bom se estar atento. Ondas remexem areias. De certa forma cimentadas. Na ilusão. Na solidão. Na aparência. Agora lembrei dela. Está certa. Podem virar pó. É sempre do pó que se chega na poesia. Sábia.

 

As ondas têm poder. Ou causam efeitos. Tanto faz. Efeito é como adereço. Cada um usa como quer. Utiliza onde prefere. Nega como agrada. Vê como consegue. A olho nu ninguém enxerga. É da própria história que constrói e se des-constrói as lentes do lidar com o efeito. Seja da onda. Seja do vento. Seja da turbulência. Tudo faz parte do interno. Embora pareça tão externo.   

É preciso coragem para ver o reflexo. Como um espelho. Das ondas interiores. Bem ali. Ao alcance de uma olhadinha que seja. Uma espiadinha de leve. Mas não vejo maior motivo para festejo. Para comemoração.

 

Lembrei que contou da sua posição. Só ela. Uma menina. Eles três. Meninos.

 

Depois falou. Que expunha as emoções. Com alguma facilidade. Não sei. Mas se falou – acredito. Procede. Se não aprendesse a expor – sumiria. E me pareceu que adotou esta mesma posição - diante da vida. 

 

E se fez. Se construiu com o que aprendeu. Uma emissão de voz - plástica - delicada e firme. Um olhar que não desviava - fosse qual fosse a situação. Um caminhar reto - que denunciava decisão. Mesmo que nao soubesse para onde ir. Ninguém nunca o saberia.  Caminhava. Decidida. Olhando para a frente. Séria e firme. Aprendeu isso também. E dera muito certo. Porque trocou de lugar. De conhecimento. Para um outro lugar. Com outro tipo de conhecimento.

 

Saiu dos que não sabem dizer o que sentem. Dos que dependem do outro para falar das suas dores. Ou dos seus amores. Dos que não estão na Linguagem. E foi para o lugar onde só se diz o que se sente. Para os que lidam justamente com a Linguagem. Mesmo que não se fale das dores. Nem dos amores.


Ela que tão bem lia as entrelinhas. Agora lê os entretantos.  

 

Em meio a tudo isso sabia levar um caderninho. Um lápis. E sabia ordenar pedidos. Perfeito. Escolheu ficar escrevendo a listinha. Só com um Participante. Só Ele leria. Ao menos é a pretensão. Ou intenção. Em tempos de virada – nada é definitivo. Por isso escreve-se com lápis. 

 

Que venha a virada. Sem consulta. Com consulta. Não importa. Mas com muita força. E muita alegria. Para os que pedem. Para os que esperam. Até para os que temem.

 

Que venha a virada. Com algumas certezas e muitas dúvidas. Para que se possa continuar. Em busca. Como as ondas.

 

 


Dezembro 21 2009

 

 

E lá estávamos a caminho do mar.  

 

Eles nos levaram. Também iriam para uma outra viagem. Seria a chance de desejar - mais uma vez - mais felicidades. Para o Novo que ia começar.   


Últimos atos – corretos. Horário - correto. Local – correto. Documentos – correto. Todos os corretos em ordem correta de aprovação.

 

Feito a parte protocolar. Com toda a calma. Direto para um cafezinho. Nada como um pouco de cafeína. Em cima da adrenalina. Rimos. Deliciosa aquela doce sensação. Do pré-embarque. Já superada a fase de preparatória. Agora já estávamos dentro. Do campo. Perfeito. 

 

Enquanto caminhava lembrei dela. Me avisou que iria para o mesmo lugar. Ver os fogos na praia. Ver a virada no mar. Sentir os grãos da areia na pele. A água espumante tocar a alma. Até imaginou se nos encontraríamos. Concluímos que seria não muito fácil.  

 

Ficaríamos em lados opostos. Da agulha da bússola. Até ri quando lembrei do chiste. Entre a mutante a a imitante. Muitas palavras se construíram.   

 

Lembrei da minha avó. Muitas vezes lembramos do que está bem perto, menina, muitas vezes lembramos do que está bem perto.  

 

Foi assim. Lembrei dela. Lembrei a minha avó. Virei e ela estava lá. Não a minha avó. Ela. Inacreditável.

 

Os mais místicos diriam – procede. Os mais incrédulos diriam – viável. Os mais tendenciosos diriam – possível. Os mais céticos diriam – invenção. Os mais alheios diriam – combinado. 

 

Não importa. Ela estava lá. Pela segunda vez. Ela sozinha. E nós ali. Como que para acolhê-la.  

 

Nos conhecemos num cenário parecido. Todos viajando. Também pelo ar. Um vôo dentro e fora de nós mesmos. Nas idéias. Pelas idéias. Na tecnologia. Da possibilidade virtual para quase impossibilidade de um real. Todos se identificando. Tímidos. Mas conscientes. Dos limites e da falta deles. Afinal há um mundo onde só idéias dominam.  

 

Em volta de um outro onde as imagens limitam. Assim foi nossa apresentação. Ela sozinha - a amiga faltara. Solitária em meio aos participantes. Não os conhecia. Juntou-se a nós. Aí começaram as surpresas. Descobrimos tantos amigos em comum. E tão queridos. Também em comum. Ele também se apresentou. Tinha vindo de longe. Também tímido. Eles dois ainda estavam juntos. Foi uma noite de solicitação.  

 

De um para outro. De todos para um. Até de um para todos. Embora nem nos déssemos conta disso na hora. Quase sempre é assim. Primeiro solicitamos. Depois nos apresentamos. Tolice pensar que é o inverso.  

 

Agora estava ali. No cafezinho. No lugar da tal cafeína por cima da adrenalina. Quando escutou seu nome levantou a cabeça. Quando nos viu, gritou. Abriu a boca. Abriu os olhos. Rimos. Nos abraçamos. Em meio aquela multidão. Aqueles inúmeros possíveis traslados. Estávamos na mesma hora. No mesmo lugar. Indo para o mesmo destino.  

 

Ela sozinha. A amiga estava em outro local. A mesma amiga da outra vez. A que faltou. Havia um chiste. Sensação mística pode dar em consulta. Com o psiquiatra. Rimos. Lembramos da consulta. Deveria ser agendada. O mais rápido possível. Rimos mais. De repente, a pergunta básica. Um pouco temerosa. Pela resposta. E a resposta veio certa. Certeira, como diriam de onde ele veio. Os mesmos números. Sequenciais. De assento. Vizinhos de assento. Quase ligamos para o psiquiatra ali mesmo. De imediato. Consulta de emergência. Antes da virada. Sem fogos. Sem ondas. Nada de alma resfriada. Rimos.   

 

Ela tranquila - questionava. Ele solidário - registrava. Eu atenta - aguardava. E nós todos  compreendemos. Assim são os permeios da vida. Lá um dia nos vemos diante de uma nova situação. De uma nova coincidência. Que não sabemos os motivos. Mas entendemos a  mensagem.  

 

E essa é a magia da vida. A magia que rege o Universo.   

 

Conversamos durante a travessia. Pela primeira vez todos nós falamos. De nós mesmos. De nossas histórias. Uma sinopse. De nossas vidas pessoais. Mas nem por isso menos particularizada. Das necessidades de mudanças. Das certezas dos pedidos. Da torcida pelo atendimento. Ela enfática. Iria fazer uma lista. De tudo que planejava. E ia seguir. À risca. Com ou sem risco. Rimos mais uma vez. Só não perguntei se tinha lembrado. Da tal agendinha. E do lápis.  

 

O tempo cumpriu seu prazo. Sentimos a terra firme. Seguimos as  nossas bússolas.  

Ou – vai lá saber - as nossas bússolas nos seguiram.

 


Dezembro 10 2009

 

Começou a contar de repente. Tão de repente quanto a lembrança veio.


Pelo menos assim conclui. Como dizia a minha avó. Jamais perca a chance de escutar as lembranças, menina, jamais perca a chance de escutar as lembranças.


Lembrança é coisa séria. E muito mais séria se da infância. Porque é uma lembrança constituída. Construída. Esclarecida. E, principalmente, não compromissada.


Assim são as lembranças da infância. Não nos deixa dúvida. E nos deixa em dívida. Com a nossa memória. Com os nossos prazeres. Que depois até se multiplicam. Ou podem se multiplicar. Mas nunca igual como na infância. Com aquela sensação plena de prazer. Que toda a infância envolve. Seja de que forma for. Não tem preço. Nem taxa cambial. Muito menos selo de made in. Tem que ver com entrega. Com aceitação. Com riso. Estes sim. Os indicadores do afeto. Como um mercado de afeto sem nota fiscal. Mas com o aval do olhar.


E ele contou.


Quando se sentiu familiado. Assim mesmo. Familiado. Que nada tem que ver com familiarizado. Estava certo. Familiado é integrado. Juntado. Compartilhado. Familiado diz muito mais. Mesmo que não se fale assim. Não importa. Sente-se assim. E explica-se bem melhor. Pela primeira vez estava entre tios e primos. Lembrava da voz dela. Melhor dizendo. Lembrava das palavras dela .Porque do rosto esquecera. Perfeito.


A voz dela orientava a olharem para o céu. Lá veriam uma barba branca esvoaçada. Uma mão esticada segurando uma cordinha. Do trenó. E muita cor. No meio da noite. Que estava já chegando a hora.


Lembrou de várias cabecinhas viradas para cima. Como devem ser os bons sonhos.


Lembrou que olhou. Nem precisou se esforçar muito. Porque logo viu. E feliz riu. Era verdade. Exatamente como a voz descrevia. Viu tudo isso. Viu até barulho. Viu o vento na barba. Viu que os presentes meio que se batiam uns nos outros. Muitas caixas. Mal cabiam naquele espaço. Mas cabiam. E nem caíam. Escutou os sinos. Escutou risos. E muitas cores. Muito brilho. Uma luz toda especial. Em cima dos presentes. Das fitas e da barba.


Alguém os mandou dormir. Para que pela manhã estivesse já tudo arrumado.


Obedeceram. Obedeceu. Foi dormir pensando no céu. No vento. Nas cores. Na barba. Dormiu em meio a esses quadros. A essas imagens. Mágicas.


Quando acordou pela manhã teve que segurar o rosto. Com as duas mãozinhas.


Em volta da enorme árvore estava uma montanha maior ainda. De presentes. Muitas caixas coloridas. Sentiu-se de novo familiado.  Ele vira o percurso. Enxergara no céu. Sabia como tinham chegado ali. E como fora difícil com o vento que fazia.


E eles ali. Descabeladinhos. Descalços. Com uma pressa que jamais sentira de novo pela vida a fora. Com tamanha urgência e ansiedade. Era preciso abrir logo. E cada um tinha um nome. Era preciso ver seu nome. Alguém tinha que ler seu nome no pacotinho. Para tomar posse como destinatário. Engraçado como isso depois se torna comum. E sem brilho. Ou sem aquele brilho.


Não lembrava a comida. Não lembrava o depois. Lembrava do seu presentinho. Uma imensa carruagem. Com lona. Com cavalinhos. Com rodinhas que giravam. Olhou encantado. E cada um deles abriu o que era seu. Em nome e - por conseqüência - em direito.


Passaram o dia brincando. De vez em quando ele olhava para o céu. Queria poder agradecer. Mas não via o dono da barba.


Achou que nunca mais o veria. Depois daquela noite.


Em meio ao relato da lembrança riu. Riu mesmo. Não devia ser uma montanha de presentes. Não devia ser enorme a árvore. Nem devia ser tão grande a carruagem.


E fez um gestual imaginário. Um muito obrigado. A quem não teve a idéia - de fotografar.


A criatividade na descrição de uma lembrança dá muito mais realidade do que uma foto. Uma foto apenas expõe uma cena. Congelada. Nada mais que isso. Não revela a dimensão do que se vive - no instante da foto.


E ele, que vivia em volta de papéis, pela primeira vez ficou feliz com a falta de documentação histórica.


Riu. 


Deu um salto da poltrona. Assim. Sem mais nem por que. Olhou atentamente para o céu. Teve uma súbita impressão. De ver um sorriso cúmplice. Dirigindo-se a ele. E meio encoberto. Por uma barba branca.


Tranquilo, sentou de volta na poltrona. E com uma suave sensação - de agradecimento cumprido.

 

 


Novembro 29 2009

 

O acidente fora terrível.

 

Uma profissão onde o acidente era o oposto exato ao proposto. Foram cedo cumprir suas funções. Rotineiras. Tentavam colocar os pontos subterrâneos de ligação de luz. Dentro da terra. Submetidos ao mundo.

 

Na explosão – ficaram no escuro. Queimados. Lá embaixo. Os dois.

 

Retirados – foram encaminhados ao local de socorro. Desorientados. Gementes. Ainda sem compreensão. Os acidentes são rápidos. O entendimento é lento. Como uma defesa. Do corpo. Da emoção. Da sensação.

 

É preciso mais que uma explosão – para que o pensamento se adeque a uma situação súbita. Seja ela qual for. Assim eles estavam. Assim chegaram à Unidade de Emergência.

 

Corpos queimados. Retorcidos. Contaminados. Entre o que impede e o que invade – uma fronteira tinha se rompido.

 

Ela encerrara o período de especialização. Um dia avisara. Jamais voltaria a cuidar de queimados. Delicada - sentia o peso da dor já no atendimento. Rigorosa nos procedimentos – temia nem sempre ter acesso ao necessário. E diante de si mesma – assim decidiu. Não. Nunca. Atuaria em outras áreas.

 

Esta não cabia mais a ela. Em uma só modulação vocal - convenceu ao outro e a si mesma. Repetiu. Não. Nunca. Decisão exposta e imposta.

 

Escutei uma vez alguém comentar. O Universo é surdo diante de nãos e nuncas. Perfeito. Deve ser esta a explicação.

 

Eles chegaram. No momento exato em que ela chegava. Um encontro. O encontro. Inadiável. Irrecusável. Sim. Agora mesmo.

 

E a partir do encontro – quarenta dias se seguiram. Uma nova rotina se estabeleceu.

 

Durante este tempo - ambos inconscientes. Respiravam por tubos.

 

Alimentavam-se por tubos. Nada sabiam. Nada viam. Nada escutavam. Corpos presentes - nas ausências.

 

Cuidou deles no silêncio. Durante os quarenta dias seguintes acordou às seis horas da manhã. Pontualmente. Ia para a Unidade. E os operava. Todos os dias. Enxertos. Remoções. Composições. Fazia todos os procedimentos necessários. Silenciosa. Como eles.

 

E à medida que eles melhoravam – ela ia se transformando. Só descobriu isso um tempo depois.

 

Nem toda pele é externa.

Há sempre uma outra. Invisível. Intocável materialmente. Mas que também faz contornos. Que também pode ser ferida. Ou festejada. Que permeia as emoções. Reorganiza um novo corpo dentro do inconsciente de cada um. Vai se construindo junto com o amadurecimento. Não da idade. Mas da própria Vida.

 

Algumas vezes imaginava como seria o despertar. Deles.

 

O dela já acontecera. Desde o primeiro encontro. Agora restava o deles. Para complementar o dela. Mais ou menos assim - também - é a Vida. Enfim.

 

Imaginava a apresentação. A confirmação. Que diriam quando acordassem. Havia um conhecimento de um lado. O dela. E um desconhecimento do outro. O deles.

 

Às vezes até ria. Mulher. Magrinha. Com suaves traços orientais. Jovem. Não alta. Eles iriam se assustar. Mas seguia. Diariamente. Cumpria com integridade o que a si propusera.

 

Chegou o dia. Eles acordaram. Primeiro um. Logo depois o outro.

 

Se olharam. Se viram.  Se enxergaram. Assim. Pareciam se constituir pelo olhar. Primeiro individual. Depois a busca pela parceria. Numa sequência quase perfeita. Se re-conheceram.

 

Revistaram a pele externa. Iniciaram – solitários - a recomposição da pele interna. Lembraram o acidente. Escutaram a explosão. Foi um período complicado. Havia um passado não vivido para ser assimilado. Com uma etapa faltante. Qual um nascimento – só que com memória. E o resto seria composto pelo outro. Pelo relato do relato.

 

Há um ano eles a visitam nas datas ditas especiais. Gratos. Íntegros. As marcas que portam – não impedem a vida que tinham. Exercem suas atividades dentro do planejado.

 

Ela feliz - elogia. Não a ela. Mas à pele deles. À coragem deles. Mesmo que aparentemente ausentes. Venciam suas batalhas na Unidade - como na função profissional. O objetivo persistira - concluir com luz.

 

Há algo inegável. Eles chegaram. No momento exato em que ela chegava. Um encontro. O encontro. Inadiável. Irrecusável. Sim. Agora mesmo.

 

Semelhante à pele - nem toda Luz é a visível.

 


Novembro 14 2009

 

Por muito tempo na Vida fingiu que não via.

 

Assim era ela. Sempre dava um jeito de escapar. Parecia uma sábia diante dos impedimentos. Se fosse para cortar o prazer – agia com rapidez. Não faltavam críticas. Sobravam observações. Análises. Sugestões. Tinha uma auto-referência. Era pragmática. Nada de muitos rodeios. Direto ao assunto era seu estilo mais suave.

 

Recobria-se de marcas. Incrível. A roupa tinha nome e sobrenome. As bolsas e relógios também. Todos com registro em cartório. Não usava um brinco que não portasse uma assinatura. Recobria-se de nomes. E escondia-se em meio deles. Às vezes parecia que a própria nomeação não a sustentava. Mas enfim.

 

Assim seguia seu caminho. Talvez fosse mais um atalho. Uma trilha. Não é tarefa fácil entender as esquinas escolhidas. E a cada virada- nem sempre é possível esquecer o rastro. De onde se saiu. Ao menos é o que parece. Ou parecia.

 

Vai lá saber por que nesse dia me fez tanto relato. Cedo. Bem cedo. Já foi encontrando e dizendo bom dia. E sem esperar a contra proposta – desatou a falar.

 

Chegara a uma conclusão. Não importa se as fantasias se excedem. Fantasias são feitas justamente para os excessos. Seja de credulidade, de ingenuidade, de credibilidade, de eternidade. Não importa. Como um perfume. A intensidade é forte - mas tem prazo.

 

De realidade passamos toda a vida. A somar. A prever. A desistir. A ocultar. A permitir. A ceder. Ocupa tanto tempo da vida útil e muitas vezes só se percebe isso muito tarde. Foi o que entendi esta semana. Até de amar também se pode brincar. Assim falou.

 

Sentei. Estava com a agenda completa. Mas decidi escutá-la um pouco mais.

 

Concordei. E fiz um breve comentário. Bem breve. Ela preferia falar a escutar. E foi para isso que me sentei. Para deixá-la falar. E escutá-la contar.

 

Mas optei pelo breve comentário. E disse. Tudo se pode – quando há o amplo entendimento da solidão que uma fantasia expõe. Só isso.

 

Ela fez uma expressão facial que eu chamaria de interessante. Este me parece um termo que melhor esclarece. O que em absoluto se entendeu.

 

Fez a tal expressão e desconsiderou o comentário. Continuou falando. A fantasia deixa de fora um detalhe – o compromisso com a veracidade. Não envolve maiores nem menores riscos. Não assusta. Nada exige. Só fica ali. Fazendo seu percurso mágico por entre sonhos, estrelas, mares jardins, luares.

 

Levantei. Não era tema para escutar com o olhar no relógio. Era intenso. Longo. Um possível tratado estava sendo construído. Ficou até complicado entender. Onde estavam as diferenças. Ou as semelhanças.

 

De repente sorriu e disse. Ele a nomeara de heroína. Desta vez interpretei a surpresa. Então tem um ele. Mais uma vez desconsiderou. Ele a nomeara de heroína por ser tão responsável pelo dia-a-dia. Somente as heroínas se preocupam com a rotina. Assim ele falou.

 

E ela não só adorou – como incorporou de imediato a personagem sugerida. Já foi logo se sentindo mártir. Faltou fogueira e forca para tanta bravura assimilada.

 

O denominou de – meu ópio. Quando o encontrava ficava viajando nas palavras dele.

 

Impossível perder a oportunidade. Eis uma bela e bizarra dupla. Heroína e ópio.

 

Surgiu aquele silêncio. Um hiato. Onde o riso ficou pendente.  Até se dar conta do chiste. E rir. Muito. Ficou quase entorpecida. Mais um pouco e se faria realidade.

 

Começava a apreender os efeitos que as palavras podem causar.

 

O momento se fez delicado. Parecia feliz. Não sei se plena de fantasia. Ou plena de realidade. Estava numa espécie de completude. Principalmente com ela mesma.

 

Nunca a escutara falar daquele jeito. Nunca exaltara uma parceria. Sempre vivera em torno de si e dos próprios fantasmas. Estes sim. Sabiam acatar as ordens. E a estes ela privilegiava autoridade.

 

Rimos. Respondi que precisava de um tempo para pensar. Para reconhecê-la.

 

Desta vez ela que interpretou a surpresa. Mas sou a mesma. Fantasias existem para que se permaneça do mesmo jeito. Fantasia é terreno fértil – para se ficar inalterado.

 

Nos despedimos. Antes de subir as escadas vi que fez o gesto habitual. Com os dedos – colocou os cabelos por trás da orelha.

 

Voltamos à rotina. Ela – a heroína. Eu – a desavisada.

 

E ambas – atrasadas.

 

 


Novembro 11 2009

 

Há um saber oculto nas obviedades.

 

Entendi ou descobri sem querer. Ou por muito querer. Enfim. São muitos os desvios que levam às conclusões. Conclusões nunca são lineares.

 

E não foi diferente em relação às obviedades. Elas podem ser tolas. Podem ser desacreditadas. Ou excessivamente criticadas. Muitas vezes transformam um assunto entediante em horas de risos. Ou servem quase de imolação para algum desavisado. E vítima e algoz - trocam de Lugar sem nem perceber.

 

Não importa. Há algo nelas que vai além. Há certa singularidade. Ou talvez um confortável amparo. Que muito acalma a quem se apóia – sabiamente - nas obviedades.

 

Assim fiquei hoje.

 

Há um ano estávamos em grande festejo. Era uma dupla comemoração. Melhor ser mais justa. Era uma multi-comemoração. Ela se libertava. De dores e temores. De choros e pudores. De tanta lágrima caída. De tanta solidão contida. De tanta razão exigida. Das noites mal dormidas. Dos dias exaustivos. Das breves pausas para retomar um fôlego - por si já esgotado.

 

A outra metade teve que ir mais cedo. Numa pressa sem explicação. Mas com a devida aceitação. Sim. Há sempre o que não pode ser mudado.

 

Fazia a primeira viagem por sua conta e autoria. Decidira assim. De um golpe só. Aliás - só - era o alter ego dela. Ela e só.  Até ri agora. Era verdade. Uma dupla unitária. Ou uma unidade dupla. Perfeito. Cada um se sustenta com os parâmetros que escolhe.

 

Mas assim foi. Decidiu. Vou sim. Vou me dar este presente. Aniversário é um precedente. Procedente.

 

Chegou num belo dia de sol. De céu azul. De brisa fresca. Já do avião começara a sorrir. Junto com seu alter ego. Conteve-se um pouco porque se sentiu observada. Mas só um pouco. Estava iniciada a temporada do riso. Quem quiser que duvidasse. Ou reclamasse. Mas não com ela. Nem a ela. Estava em paz.

 

Lembro que pôs as malas no chão com delicadeza. Olhou em volta do ambiente novo. Abriu a porta da varanda. Percorreu com o olhar a paisagem de inúmeros prédios e milhões de janelinhas. E sorriu.

 

Sentiu-se em terra firme. Sentiu um prazer que há muito esquecera. Ou arquivara.

 

O tempo do arquivo - acabou. Abriu cofres e gavetas. E se expôs.

 

Tinha se dado um habeas corpus. E ia usá-lo com todo o direito conquistado.

 

Teve de tudo. Excessos brotaram de todos os cantinhos. Vinho. Compras. Música. De escafandro a borboleta – circulou com sua alegria quase de criança.

 

No teatro a atriz desnudava o corpo para falar da alma. Na vida real ela desnudava a alma – para entender o corpo.

 

Espíritos de vivos e de mortos foram convocados numa cozinha. Uma festa se fez em torno das memórias. A noite permitiu o riso irônico. O vinho coloriu as narrativas. As concordâncias e discordâncias se entrelaçaram até se igualarem. O macarrão do desjejum fez o dia seguinte se estabelecer como – liberdade.

 

Chorou. Riu. Acreditou. Comemorou.

 

Já se vai um ano. Um ano.

 

Desta vez ela não virá. A comemoração será onde mora. Na cidade escolhida. Os amigos reunidos. Equalizado. Sim. Místico e profano. Só não sei se em igual percentual. Equalizado para ela nem sempre é igual a meio a meio. Esta é ela. E seu fiel alter ego. 

 

Já cedo enviou um recadinho. Há um ano estávamos todos em festejos aí. Nunca vou esquecer. Completou no final do recadinho. Estávamos fazendo a maior farra ... ah! que saudades!

 

Cinqüenta anos - de anos especiais. Um por um. Eis alguém que validou todo o registro. Valorizou todo o cartório. Considerou toda a ascendência. Compactuou com a descendência.

 

Assim faz. A cada dia. Respeita e cumpre o prometido.

 

Eis como descobri o valor das obviedades. E a tranquilidade que elas oferecem. Saber assimilar o que é óbvio - possibilita a continuidade da emoção. Mesmo que tantas vezes encoberta pela razão - sempre há por onde escapar.

 

Valorizar a alegria da Existência é sempre a melhor forma de festejar – mesmo que isso seja óbvio.

 

Por isso importa a comemoração. A cada ano. Não faz diferença onde. Há situações em que espaço é limite mais interno do que externo.

 

Saudade também é motivo de parabéns. Tristeza é festejo sem saudade.

 

Do lado de cá do Mapa todos nós erguemos as taças - pelo seu aniversário.

 

 


Novembro 04 2009

 

O espaço era grande.

 

Piso branco. Paredes brancas. As molduras das portas em madeira clara. Largas. Algumas cabines laterais avisavam um pouco do que se tratava. Era uma loja. Isso sem dúvida. Ficou claro tão logo olhei em volta.  Uma das paredes não fazia ângulo reto. Era arredondada. Dava ao lugar um aspecto mais sofisticado.

 

Nem sei se é essa a palavra certa. Mas enfim.  Se é a que me ocorreu – é a certa. Agora entendo desta forma as palavras. Elas comandam. Eu obedeço. Nada mais de rebeldias. Provocam mais – más - conseqüências que a objetiva e servil obediência. À letra.

 

Não era uma loja comum. Em absoluto.  Era uma loja de roupas femininas - turcas. Sim. Vendiam roupas femininas turcas. As cortinas de tecido fino branco davam a privacidade nas tais cabines.

 

Deviam ser sete. Isso. Sete cabines em ordem linear. E com as cortinas brancas. Eram bem espaçosas. Não entrei. Mas era o que parecia pela largura das cortinas.

 

Eram fartas em tecido. Faziam muitas pregas longitudinais. Repetiam a sofisticação e davam um ar suntuoso.

 

Um ventinho devia vir por algum lugar. Não identifiquei de onde. Mas fazia as cortinas balançarem com suavidade.

 

Uma porta branca ficava fechada. Localizava-se na lateral da sala. Esta porta sim. Formava um ângulo em relação às cabines. Avisava. Através de uma placa. Massagens.

 

Perguntei a alguém que passava se a massagem era possível. Sim. E que eu poderia escolher o tipo. Escolhi. Avisaram. Já tinha uma pessoa lá dentro. Assim que saísse - seria a minha vez.

 

A música percorria o ambiente – marcando o estilo. Uma música como se tocada por uma única flauta. Mas era deliciosa. Presenteava os ouvidos com sua tonalidade leve.

 

Estávamos juntas. Fazia tanto tempo que não saíamos juntas. Ela no além mar dela. E eu no aquém mar dela.  Mas enfim. Estávamos juntas.

 

Ela decidiu provar uma roupa. Saiu da cabine com as cortinas brancas - com uma capa longa vermelha. Por cima de um vestido branco. Também longo.

 

A roupa era linda. A capa vermelha toda rebordada de dourado. Entre fios e moedas. Tinha um capuz. Mas ela dispensou. Queria o rosto bem à mostra. Foi o que falou. 

 

Estava rindo muito. Nunca a tinha visto assim. Não nego que estranhei. Ria muito. E dançava segurando pelos lados a capa. Girava sobre si mesma. E ria. A expressão do rosto dela era de total alegria e felicidade.

 

De repente fez algo inimaginável.

 

Começou a dar berliscõezinhos. Nas pessoas que circulavam pela loja. Saia dançando com sua capa ao som da música. E dava os beliscões. Não importava se homem ou mulher. Era o que parecia. Mas ria - se divertia com o pulinho assustado das pessoas.

 

Um homem a viu – e se afastou. Sério. Era já um senhor – gordo. Barriga adiantando-se à imagem corporal. Cabelos castanhos. Alto. Roupa cinza escuro.

 

Ela foi em direção a ele. Rindo. Claro. Ela só ria. Para beliscá-lo. Não acreditei. Até pensei em impedir. Mas desisti. Melhor que ela fizesse o que quisesse. Vai ver é assim na Turquia. E ela estava incorporada aos hábitos do lugar. Achei melhor só observar.

 

E fiquei um pouco afastada – esperando o que aconteceria.

 

Ela continuou rodopiando. A moça veio me avisar que eu já podia entrar. Para a sala de massagem. Ela olhou para os meus tornozelos. Fez um comentário. Estão tão inchados. As pernas também. Melhor ficar assim. E riu alto. Olhei procedia. Estavam mesmo. Muito inchados.

 

A porta abriu. Uma mocinha vestida de branco apareceu. Era um vestido curto. Tinha uma marca escura na pele das costas. Avisou que já podia entrar. Olhei para a mesa de massagem. A sala era clara. Muito clara. Mas agradeci. Não quis mais. Talvez fosse hora de voltar. Mas não sabia bem para onde.

 

Por um tempo ainda ela continuou dançando com a capa. Ainda tentava beliscar as pessoas.

 

Depois a retirou e jogou numa cadeira que ficava perto das cabines. Uma bela cadeira. Ainda tive a oportunidade de notar. O tecido era azul claro. Espaldar alto. Contornado com dourado. A capa ali ficou. O vermelho contrastando com o azul.

 

A música aumentou de tom. Subitamente. Um som alto. Repetido. Irritante.

 

Em minha frente estava uma cadeira. Não forrada de azul. Não tinha espaldar alto. Muito menos uma capa vermelha com fios e moedas douradas - sobre ela. Não tinha local de massagens. Minhas pernas não estavam inchadas.

 

Ela - por certo - continuava além mar.

 

Sorri. E dei vivas às boas intenções do inconsciente.

 

O despertador avisava o início da rotina.

 

 


Novembro 02 2009

 

Ele veio de lá. Feliz.

 

Fazia já alguns anos que não nos víamos. Trabalhamos juntos por muito tempo. Saíra de repente. Mal nos despedimos. Questões burocrático-egóicas. Algo por aí.

Estas são sempre as grandes questões. Sempre nascem desta dupla. Mal explicada. Mal conjugada. Ou muito mal dissociada.  Mas imperiosa.

 

Quando sobra hífen - não há o corte no momento certo. E apagam um espaço. Mais ou menos assim.

 

Minha avó nunca deixou de avisar. Muito eu é sinal de pouco meu, menina, muito eu é sinal de pouco meu.

 

Acho que só hoje entendi o que ela falava. Foi preciso anos e anos para assimilar. A linha quase transparente entre o eu e o meu. Sábia - sempre.

Mas desci. Direto para o local indicado.

Tinha uns exames a fazer. Estava entre corajosa e temerosa. Exames nunca são da ordem do conforto. Ou da diversão.

Mesmo que alguns estudiosos digam o contrário. Ou os seguidores do Marquês. Não faltam teorias. Apologias. Tratados. Mestres de todo o mundo. Austríacos. Franceses. Portugueses. Italianos.

 

O mundo girando em volta de uma dolorosa teoria. Sobre dor e alegria. Sobre sofrimento e satisfação. O homem sendo apto para a dor. Muito mais do que para prazer. Até os poetas se manifestam - sofrer por amor.

 

Nem sei quem são esses. Os estudados.  Os aptos para a dor. Eu não. Detesto dor.

Foi assim que desci. Com este pensamento tentando ocupar o outro.  O dos exames. Brigar com estudiosos de nada resolve. Mas ocupa o espaço do medo. Para isso resolve. E muito.

 

Afinal nesses tempos de tantas contínuas e perigosas mutações – exame é indício de risco. Ou de contaminação.

Não era a situação do momento. Mas não tinha escolha. Era fazer os exames.  Anuais. Rotineiros. Necessários. Procede. Obrigatórios. E pronto. E assim continuei.  Me repetindo – para me ordenar. Obedeça. E pensar que sempre fui rebelde. Nada de temer agulhas. Onde já se viu.

 

Tudo bem. Obedeci.

Foi em meio ao local do exame que o avistei. Eu entrando na sala dos exames. Ele na sala do atendimento. Em frente.

Vi que abriu os olhos. E sem metáfora. Abriu mesmo. Se surpreendeu. Veio em minha direção. Passos apressados.  Com um sorriso. Expressão de confraternização. Desconsiderou as limitações.

 

Foi logo avisando. Em pé diante de mim. Voltei.

 

Como se a materialização não fosse confiável. Apenas suposta. Respondi com um chiste. O bom filho à casa torna.

E fiquei observando.

 

Por que – voltar - se transforma em ato. Muito mais do que em fato. Precisa de desculpas. Sempre. 

 

Cada um com suas demandas. E espelhos.

 

Informou. Esta é a primeira vez. Nunca voltei de onde sai. Repetiu muitas vezes. Esta é a primeira vez. Continuou se explicando. Devia ser importante para ele. Se sentir convidado. Ou aceito. Ou vai lá saber o que.

 

Eu até ri. E falei. De onde saiu – ou para onde saiu. Desconsiderou. Fez bem. 

E continuou desconsiderando. Estes exames vão resultar todos normais. Você está ótima. Agradeci. Um lorde em termos de gentileza.

 

Vamos lá. Tomar um cafezinho. E você me conta desse longo tempo - que você continuou aqui. E eu lhe conto do meu - que fiquei tão distante daqui.

 

Ela. Convidei mas não quis voltar. Casou. Neste último verão. Está feliz. Ele. Sim. Desde que saiu também está em outra Instituição. Ele. Não está bem. Acho que precisa voltar. Ele. Também não se acertou. Quem sabe também volta. Ele. Está feliz com o novo cargo.

Falamos em poucos minutos. Mas acho que nunca falamos tanto. Soubemos dos amigos. Contamos de nós mesmos. Rimos das consequências  - e até das causas.

 

Voltamos rápido para as nossas atividades. A rotina – digamos assim - estava lotada.

 

Olhamos um para o outro. De repente. Com expressão de susto-risonho.

 

Esquecemos o cafezinho. Intacto. Em cima da mesa. Rimos.

 

Não importa. Tem café em todas as estações do ano. E em todos os horários. Até qualquer outro intervalo. Qualquer dia.

 

Foi a primeira vez que voltei de onde sai. Repetiu. E completou. Mas estou feliz por isso.

Ri. Viva a sexta-feira.

 


Outubro 31 2009

 

O dia foi de surpresas. Aliás - de sustos. Dois sustos. Para ser exata.

 

Ficou pensando. No que os dois tinham de semelhante. Deveria ter um laço unindo os dois sustos. Afinal – foi o que fez. Contabilizou os dois - num só dia. Se mais teve – nem notou.

Enfim.

 

Se surpreendeu com ela. Ela que a convidara para jantar. Mas estava tão indiferente. Não sabia se num estilo novo. Ou numa abordagem nova. Vai lá saber. Sugeria uma pequena interpretação. O interior parecia se desestabilizar a cada tentativa de regularidade. Como se o valor fosse o rótulo e não o conteúdo.

 

Falava com certa contundência. Como se não importasse se a escutavam.

 

Não dava bem para definir. Ela apenas repetia as próprias opiniões. Desinteressada pela interlocução. Falava até mais baixo. E o riso se transformara em sorriso. Corriqueiro. Ou – menos ainda que corriqueiro. Indiferente – mas não inconseqüente.

 

Não havia espontaneidade. Como se falasse de si para si. Assim. Sem compartilhar. O jantar acabou. Se separaram. Cada uma para seu destino. E sua rotina.

 

Nem bem chegou em casa - ainda com este primeiro susto em evidência - encontrou um recadinho dele.

 

Fazia tempo que não falavam. Ela relatou um acontecimento. Assim. Aconteceu um destaque. Uma celebração.  Ele leu. E fez o que sempre fez. Interpretou. E com a sabedoria de sempre. Sem muitas delongas. Sem muita retórica. Objetivo.

 

Mandou um comentário. Quando se opera em sintonia com o desejo – coisas acontecem. Para o bem e para o mal.

 

Ela não se conteve. Riu. E fez também o que sempre fez. Quando diante de algum susto. Chistes por cima da interpretação. O desejo não era esse. Nunca foi esse. Deve ser o desejo do Banco. Com esta atividade é que se pagam contas. E enviou.

 

Aí compreendeu. Como se afastara do processo.

 

Há muito virara falsa pragmática. Passava aos atos. Se deu conta. E riu de novo deste pensamento. Não havia como fugir do mestre austríaco. E pensar que até o citou no tal chiste. Assim. Com total alheamento.

 

Recebeu de volta nova resposta. E aí enxergou o hiato. Como se aí tivesse acordado. Exagerada como sempre – abrira os olhos. Riu de novo.

 

Ele foi incisivo. Quase mortal. Não me referi à atividade profissional. Pensava que o desejo era o olhar do outro. Ai tanto faz – o sucesso vem. Porque exatamente se opera em sintonia com o desejo.

 

Repetiu. Procede.

 

Senão se entende de uma vez – quem sabe de duas dá certo. Depois de tanto tempo longe do pensamento analítico – tem mesmo que repetir. Até desenhar.

 

Foi difícil seguir a rotina.

 

Ela queria poder – dupla sempre também desejada. Mas desejou um tempo paradinha. Sem solicitações outras. Sem trabalho braçal. Queria na realidade o ócio. Um momento de entrega aos próprios pensamentos. Esta a vontade real naquele momento.

 

Sentar sozinha e pensar. Em algum cantinho. De preferência diante do mar. Sob o luar. Com os pés descalços. Tocando a areia. Passando as mãos pelos cabelos. Recostando. Quase se arrepiou. Sabia que estava – mais uma vez - fazendo o habitual. Se desconcentrando do objetivo. Já estava agora fazendo turismo. Até riu.

 

A avó da amiga sempre dizia. Não existe vitória contra o próprio estilo, menina, não existe vitória contra o próprio estilo. É verdade.

Mas enfim.

 

Ligar os dois sustos. Concluir porque um fato ficou ligado ao outro - no pensamento dela. Como se um fio condutor tivesse surgido. Muito mais de semelhanças do que de diferenças. Até pensou que poderia ser pelo contrário. Mas não se sentiu segura. Algo a fazia cobrar uma elaboração.

 

A resposta parecia uma só. O olhar.

 

Lembrou de tantos olhares. Há os contraditórios. Os perspicazes.  Os sorrateiros. Os defensivos. Os criadores. Até aquele famoso – oblíquo e dissimulado. Não faltou listagem qualificativa.

 

Mesmo sem mar e sem luar – optou por uma conclusão. Um pouco selvagem. Sem muito amparo teórico. E muito menos - prático. Não uma simbolização. Mas uma conclusão.

 

A união dos tais sustos era no olhar. Mas pelas diferenças. Por um fator bem simples. Para se entender um olhar – é preciso olhar.

 

E nisso estavam ligadas ao oposto. Uma prescindia do olhar do outro.

 

Bastava-lhe um espelho. A outra precisava do olhar alheio. Servia-lhe como um espelho.

 

Falaria sobre isso com ele. Algum dia.

 

 


Outubro 29 2009

 

Lembro o dia em que a conheci.

 

Iniciava o trabalho no Projeto. Logo no primeiro dia. O grupo já estava há mais tempo. Não conhecia os membros da equipe. Mas fui lá. No local de encontro.

 

Assim me avisaram. Chegar a tal hora. Em tal lugar. Com seu material próprio para o atendimento. E lá se identifique com tal pessoa. Seu crachá estará já no local. De lá sairiam os profissionais para as áreas de atuação. Simples assim.

 

Compreendido.

 

Ela chegou - sorridente. Falando com todos. Caminhando apressadinha. Parecia ser muito delicada. Atenciosa. Todos ficavam em torno dela. Os que iam chegando – já iam fazendo círculo. E ela no meio do círculo. Sorridente.

 

Nesse dia específico falavam sobre postura. Uma observação sobre alguém do grupo. Ou sobre algum estilo. Nunca soube ao certo. Algo por aí. Lembro que respondeu. Num tom mais alto. Porém não ríspido. Quando se é carente – procura-se ser simpático. Eu sou carente. Trato todos muito bem. E riu.

 

Como se a carência fosse um adereço. E como tal devesse ser tratada.

Perfeito.

 

Me apresentei. Ficamos amigas.

 

Não eram daqui. Nem ela. Nem o marido. Estavam casados há pouco tempo. Viera por um convite profissional para ele. Parceira – aceitou. E estava se entendendo com a cidade. Já conhecia mais lugares que os nascidos e criados aqui. 

   

Continuamos em nosso trabalho. Um Projeto social. Nos reuníamos uma vez por semana - o dia todo. Contou sobre o projeto particular. Queriam um filho. Logo.

 

Sempre festejada – acabou reunindo torcida. Todos participavam. Se sim. Se ainda não. Alguns mais afoitos até do por que não. Outros mais discretos – aguardavam as mudanças que denunciassem.  Ela respondia. Acolhia. Escutava. Silenciava. Aguardava.

 

Era um tal de – este mês ainda não. Ou – não foi desta vez. Mais exames. Mais aconselhamentos. Mais pesquisas. A ciência e a tecnologia a serviço- da fertilização.

 

Não faltaram ideias. Ou sugestões. Ou indicações. Ou dados. Da Imunologia à Fisiologia – tudo visto e revisto.

 

Um dia tomou a decisão. Cansei. Chega de temperatura. De ciclos. De emergências. De privacidade alterada. De papel. De regras. De estatísticas. De relatos psicológicos. Cansei. Vai ser estilo artificial. Pragmático. Vamos dar uma força à natureza. Para isso existe a evolução. Da ciência. Da pesquisa. Dos resultados. Para ser utilizada. Vamos utilizar. Certo. Então em duas semanas.

 

Quando nasceu – já não trabalhávamos mais juntas.

 

Olhei para as fotos. Linda. Moreninha - como a mãe. Linda - como a mãe. Olhar decidido - exatamente igual à mãe. Mas ela foi logo avisando. É idêntica ao pai. Linda - como ele.

 

Contou rindo. Depois que marquei o artificial - ela veio natural. Nem conheci a equipe. Quando estava já agendado – desmarquei. Ela já estava fazendo parte da nossa vida. Da Vida. 

 

A torcida continuara. Desta vez de forma métrica. Está maior. Esta crescendo. Está sem cintura. Está com jeito de silicone. Cada um construindo nela uma nova anatomia. Com as palavras. Com o olhar. Até com a mímica.

 

E muitos risos. Sempre. A cada encontro do grupo. Todas as manhãs. 

   

Minha avó tinha uma ideia para o riso. Só é realmente feliz quem sabe compartilhar o riso, menina, só é realmente feliz quem sabe compartilhar o riso.

 

Procedia. Procede.

 

O riso compartilhado é uma das mais belas cenas de um grupo. E era assim com ela. Continuavam todos em volta. E ela feliz.

 

Lembrei o comentário sobre a carência. Transformara-se num adereço dispensável. Ou até ignorado. Não era mais uma questão. Nem um símbolo. Ou muito menos uma situação. Não importava se não era daqui. Ou se era de lá. Ela agora era duas.

 

Fiquei emocionada quando li o recadinho. Nasceu. É maravilhosa. Estamos muito bem.

 

E adivinhei o sorriso dela. O primeiro olhar para a filha desejada. O toque delicado na pele suave e rosada. O gestual protetor e acolhedor. As lágrimas fáceis da intensa atividade emocional.

 

As primeiras dificuldades para quem se inaugura - mãe. As pequenas dúvidas. Será que está certo. Será que é assim mesmo. Mas segura diante de uma certeza absoluta - o apaixonamento imediato. 

 

Lá estava. Na tela. Colorindo. Toda enfeitadinha para a foto – a Laurinha.

 

Bem vinda. Bem Vida.

 

 


Outubro 25 2009

 

Olhei o relógio.

 

Pela diferença de fuso já é aniversário dela. Lá. Além mar.

 

Fiquei pensando o que dizer a ela. Como explicar em palavras escritas - toda a nossa cumplicidade. Como dar entonação à letra. Todos esses anos que participamos de nossos aniversários. E os outros tantos que deixamos de compartilhar a data.

 

Desde que ela se mudou para lá. Há muitos anos. Nunca mais parabéns para você de pertinho. Cantado. Abraçado. E que agora estou eu aqui. Lembrando. Saudando. Num silêncio de um teclado. Ou - na musicalidade que o teclado também permite. Como uma sinfonia particular. Onde o ritmo acelera ou acalma – de acordo com a emoção a ser descrita.Um Allegro e um pianissimo simultâneos.

 

Ultimamente está virando rotina. Comemorando de cá. E os aniversariantes de lá.

 

Ri. Impossível conter o riso. Festejo é assim. Sempre um riso vem conjugado. Um pretérito perfeito.

 

Lembrei a última vez. Ela estava aqui. Morávamos perto. A casa dela se preencheu de amigos. Ninguém sabe organizar uma festa do jeito dela. Prática. E linda. A festa. Ela também. Lógico.

 

E as comidas. Maravilhosas. Descobri que manga em cubinhos entrelaçada com couve refogada em tirinhas é quase um símbolo. Ou uma natureza bem viva. De prazerosa refeição. Nacionalista. Ingredientes combinados. Adequados ao paladar e à digestão. Perfeito.

 

E o bacalhau. A linha entre o espiritual e o material fica tão apagada.

 

E as sobremesas. Inesquecíveis.

 

Às vezes disfarçava. Burlava a confiabilidade alheia. Tudo que ela fazia era perfeito. Portanto podia transgredir. De vez em quando falsificava. E - de um bolo qualquer comprado – uma obra de arte surgia. E negava a receita. Coisas da minha mãe. Ela quem me ensinou. E ria da própria transgressão.

 

A mesa impecável. Toalhas lindas recebiam a louça delicada. Compunham uma vista alegre. As taças. Os vinhos. O champagne. Um banquete para os amigos queridos. E a energia afetiva a fazia parecer descansada. Como se num SPA estivesse toda a tarde. Para receber os convidados na noite.

 

E o riso - sempre feliz. E os braços - sempre acolhedores.

 

Lembro de uma vez em especial. Logo que vim morar aqui. Ela tranquila me apresentava. Aos mais supostamente esquecidos. E desconsiderava perguntas indelicadas. Ou impedia que chegassem até a mim. Não queria saber de constrangimentos. O período era difícil. Ela sabia. Não possibilitaria mais dor. Ou invasões de privacidade.

 

Sempre respeitou. Nunca questionou. Não iria permitir o contrário. Fosse de quem fosse.

 

E todos acatavam. E acataram. Sempre. Até que desistiram de questionamentos.

 

E o tempo passou.

 

O último aniversário dela aqui.

 

Sabíamos que seria um longo tempo assim. Ela além mar. E nós todos aqui. Comemorando o dia dela – sem ela.

 

Mas deixou para nós muita sabedoria.

 

 

Na delicadeza do trato. Na organização de uma reunião informal. Na formalidade de afetos. Na disposição emocional de acarinhar.

 

Premiava a cada um com seu sabor preferido. Separava até os lugares. Sabia onde cada um gostava de sentar. E deixava o espaço já quase que nomeado. Deixa para ela este cantinho. É mais tímida. Ela não gosta de calor. Deixa perto da janela. E por ai seguia.  

 

 

Ensinou que as festas são para os amigos. Importa o que eles gostam. Não entendia festa com egoísmo. Festa não é para o dono da casa. É para os convidados.

 

Hoje. Não estou lá. Mas sei exatamente como está seguindo. A programação. O festejo. O cardápio. As flores. O cheiro percorrendo a sala.

 

E mesmo com muitas pontinhas de inveja – fico feliz por todos eles.

 

Estão diante dela. Podendo conviver na rotina. Cantando os votos da data querida de lá. Que são diferentes dos cantados de cá. Mas com a mesma intenção. Por certo. Ora, pois.

 

E adivinho o riso dela. Os agradecimentos.

 

O olharzinho sorrateiro de vez em quando esticado - em direção a todos nós. Que aqui estamos. Deste lado de cá do descobrimento. Celebrando e cantando de dentro do nosso coração. Enviando para alguma estrelinha que passe. Para que ela receba de lá.

 

Parabéns - Lia querida. Muitas saudades. Muitas felicidades. 

 

 


Outubro 17 2009

 

O almoço fora programado com antecedência.

 

Os convites distribuídos em tempo dito hábil.  As agendas adequando-se a uma quebra da rotina.

 

Assim foi durante a semana. A comemoração antecipada visava uma homenagem. Aos que lá trabalham. Cumprindo suas funções. Minimizando dores. Provocando risos. Acalmando angústias. Acolhendo aflições.

 

Sejam quais forem as incertezas. Partindo de onde partirem. Há toda uma metodologia para diminuir ou impedir sofrimentos.

 

Um almoço comemorativo. Assim ficou acertado. Em tal dia. Em tal hora.

 

O salão foi aberto pontualmente. Como deve ser. Uma disciplina é sempre requerida. Seja no festejo. Seja no cotidiano. Não importa. Disciplina também é uma das formas de expor respeito. E dispor hierarquia. Enfim. Na hora exata - abriram o salão.

 

As mesas estavam lindas. Toalhas vermelhas sobre forro branco davam um brilho de alegria. As taças avisavam cores e sabores. Os mais próximos se agrupavam em volta de lugares escolhidos. O riso e o murmurinho lembravam que nem só de pão.

 

A camerata se postava em frente. E ao suave e doce som dos acordes – foi iniciado o ato festivo. E daqui e de lá se escutavam cumprimentos e confraternizações.

 

Convidado – ele subiu para o pronunciamento.

 

Lembrei dos milhares de discursos que já escutei. Das inúmeras falsas analogias e eufemismos que sempre os discursos carregam. E das muitas e muitas delongas que tanto desconfortam.

 

Mas não desta vez.

 

Assim começou. Com citação em Latim. Primo non nocere. Primeiro não prejudicar. Primeiro não ferir. A frase atribuída ao primeiro de todos – foi repetida diante de todos nós. Seguidores no juramento e no trabalho.

 

Foi um belo discurso. Adequado ao fato. Identificado com o ato. Qual um recordatório. Mas sem demandas.

 

Fiquei pensando na frase de abertura.

 

Nos que ali estavam. Ocupando e agilizando o próprio Lugar. E nos que já se foram. Mas que de vazio deixaram apenas o espaço. A memória preenche muitas falas. Como disse o poeta. Ressuscitar começa pela palavra – do outro. E ao escutar os nomes dos que se foram – senti uma presença não da matéria. Essa já não importa. Mas do contexto. Do trabalho exercido. Sem a nítida separação de dia e noite. De casa e trabalho. De segunda ou feriado.

 

Convocados em seus nomes – deixavam a força do seu profissionalismo exposto. Perfeito.   

 

Enfim. Passeei pelos caminhos das escolhas. Olhei para ela que estava ao meu lado. Vi que – emocionada com a escuta- disfarçava uma lágrima afoita.

 

As expressões mudavam. Cada um convivendo com o próprio registro.  Com a vocação descoberta sabe-se lá como. Por isso mesmo - misteriosa. Não há resposta satisfatória para quando alguém requer uma explicação objetiva. Um porque.

 

Não se sabe exatamente a época. Não se entende perfeitamente os motivos. Vai muito além do pragmático. E de repente a decisão surge. E uma elaboração prossegue. E todo um novo equilíbrio se faz necessário. Desde a primeira aula. Desde o primeiro aviso. Desde o primeiro morto que ensina.

 

E uma vez diante de quem pede alívio – nunca mais se desprende do ato em si.  

 

Lembrei de um comentário que ele me fez. Há muitos anos. Num daqueles dias de final exaustivo de trabalho que se ameaça um – para mim chega. Ri. Ele me viu organizando um jantar. Um simples jantar.

 

Olhou para mim. E muito sério falou. Ou, melhor, fez uma observação. Com tom de voz calma. Uma vez pertencente a esta categoria – jamais se libera. Você está arrumando um jantar. Mas não apenas organizando pratos e talheres. Você está organizando como quem cuida. É isso que faz de você – a sua escolha.

 

Lembro que fiquei em silêncio. Uma espécie de siga a seta. Mas me senti acalmada. E feliz.

 

Primeiro não ferir. Primeiro não prejudicar. Seja no que for. Seja da forma que for. Mas é preciso estar em estado de - para entender. Para introjetar. E acatar. Há todo um sentimento não esclarecido. Mas nem por isso menos estabelecido.

 

Aplaudi a fala do colega que discursou – com batimentos felizes de aurículas e ventrículos. E sinceras sístoles e diástoles.

 

Voltei na hora certa para cuidar da agenda. Subi rindo as escadas. Foi uma bela comemoração.

 

 


Outubro 12 2009

 

Fiquei escutando o relato.

 

Ela falava de um acontecimento do passado. Da própria família. Ele escrevia. Muito. E lá um dia optou por publicar.

 

Lembrava da época. Não em relação ao tempo. Mas em relação às dificuldades. Estavam com dificuldade financeira. Era ainda muito pequena. Não tinha noção exata do significado. Mas tinha a sensação perfeita. De que estavam em período de contenção. A vida deles. A emoção. A rotina.

 

Lembrava da escola. De algumas contas que a mãe reclamava. De alguém um dia falando alto com ele. Parecia algum tipo de cobrança. Quis até defendê-lo. Mas sem saber bem o motivo - calou.

 

Entendia que estavam todos nervosos. E tristes. Procurava fazer sempre silêncio.  Quando estava em casa mal se mexia. Não fazia barulho. Era uma sequência quase militar. Poupava a si - e aos outros - de qualquer aborrecimento. Evitava confrontos. Desacertos. Demandas.

 

Aceitava o que vinha. Não pedia o que não tinha. Vai lá saber por que – mas a sua visão de criança a alertava. Como se a conduta exigida fosse essa. E acatava.

 

Riu quando assim falou. Como se tentasse entender a ela mesma. De frente para trás. Só adulta se deu conta. Riu de novo pela palavra dita. Achou pertinente e adequada. Ao relato. Continuara sempre assim. Diante de qualquer tensão. Silenciava. Movia-se o mínimo possível.

 

Houve um tempo que fez sessões de análise. Queria superar as barreiras erguidas. E lembrava que riu muito no dia que o analista lhe perguntou. Ou interpretou. Talvez para não acordar mais demônios. Riu porque não sabia. Ou porque sabia. Enfim.

 

Ele escreveu muito neste período. Muito. Como se pela mão correndo pelo papel – a angústia se fizesse menor. Chegava tarde da volta da rotina do trabalho. Mal jantava e lá ia para seu cantinho. Sentava diante de uma antiga mesa de madeira. Acomodava-se numa cadeira com uma almofada de tecido já estragado.

 

Dispensava os pequenos e médios confortos. Colocava uma música. E lá ficava. Escrevia por horas. Noite adentro. Algumas vezes reclamava dos dedos doloridos. Outras vezes das costas. Mas não parava.

 

Certa vez alguns dos papeis manuscritos caíram. Deviam ter caído. Estavam no chão. Como que abandonados. Ou descuidados. E amontoados.

 

Ele viu que ela o observava. E comentou com ela. Olha os papéis no chão. Nunca antes assim ficaram sobre o frio do mármore. Espalhados, misturados. Estes papéis falam de dor. De tristeza. Denunciam muita solidão.

 

Mas deu um sorriso. Acariciou os cabelinhos dela. E falou. Diante dos papéis assim. Caídos. Quase abandonados. Será que sou eu ali.

 

Juntou os papeis para ele. E os colocou sobre a mesa.

 

Não compreendeu muito bem. Mas lembrou que foi dormir muito triste naquela noite. E que evitou se mexer na cama. Acordou pela manhã quase na mesma posição que adormecera. Foi difícil até mover a perna.  

 

Ela não tinha ideia do tempo - que durou a escrita. Mas lembra do dia que ele disse. Vou publicar.

 

A mãe riu. Desconsiderou.

 

Fazia muito tempo que não era mais uma romântica sonhadora. Se é que algum dia foi. Comentou isso com uma pontinha de tristeza. Pela mãe.

 

Publicou.

 

Naquela noite ele chegou mais cedo. E a chamou. Pediu ajuda.

Tinha dentro do carro muitos volumes. Muitos. Para ela - milhões. Depois soube que foram cinquenta. Uma parte grande ficara na Editora - seriam distribuídos. Uma pequena quantidade trouxera para casa.

 

Olhou para ele. Viu que tinha um brilho mais feliz no olhar. Arrumava os livros sobre a mesa com cuidado. Passava a mão sobre a capa. Abria. Relia alguns trechinhos. Fechava. Passava de novo. Repetia. E ela repetia o gestual com ele. E lembra que eles dois sorriam.

 

Naquela noite ela se mexeu tanto na cama - que o cobertor amanheceu no chão.

 

De repente - mudou o tom de voz. Como se tivesse voltado. Ao presente do presente.

 

Nem acredito o quanto falei. E só por que vi os seus papeis no chão. E quis lhe ajudar.

 

Juntou. Colocou sobre a minha mesa e saiu. Não sem antes me dar um aviso. Cuidado para não se identificar. Com os papeis no chão. Sorriu. Leve e com mordacidade. Como os sorrisos na infância. Agradeci a ajuda e o aviso.

E contei que tinha um livro dele. Em casa.

 

Ficou muito surpresa. Tropeçou na saída da sala. Quase derrubou um copo que, sossegadinho, estava numa prateleira.

 

Rimos. Estava feliz. Talvez nem tenha se dado conta disso.

 

 


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