Blog de Lêda Rezende

Dezembro 14 2009

 

Ele pedira de uma forma muito cuidadosa.

 

Não é fácil pedir uma transferência de data. Mas pediu. Arriscou. Sempre arriscava. Eis uma coisa que nunca deixou esquecido. Os riscos. Ou as trocas de datas. Sempre. Até quando pode, arriscou. E trocou data. Muitas - adiou. Uma - antecipou.

 

Desta vez pedira para passar o Natal do modo habitual. Ela ainda com o mesmo sobrenome. Antes da cerimônia. Seria este então o último assim. E já estava tão perto.

 

Ela ponderou. Ele cedeu. Combinado. Transferiram. Adiaram.

 

Feliz, ele organizou uma festa particular. E cheia de surpresas. Foi uma noite de muitos risos. Em meio a muitas lágrimas. Incrível como um riso sempre atrai uma lágrima. E o inverso nunca é verdadeiro. E desta vez não foi diferente. A cada gracinha um riso e um choro contracenando. E simultâneos.

 

Ele solicitou mais um favor. Uma gentileza. Quase uma imposição. Não registrar em filmes. Nem fotos. Preferia que ficasse como registro apenas da memória. De cada um. E quando não existisse mais os “cada um” que o assunto então se encerrasse. Porque ninguém entenderia. Pelas fotos. Pelo filme. Todo o significado. Poderia minimizar a noite. As palavras. As lágrimas e os risos.

 

Tempos depois ela até discordou. Por ter aceitado. Gostaria das fotos. Filmes.

 

Quando tudo se modifica, as fotos nos levam de volta. Ao cenário. Ao que passou. Cada imagem vem com descrição. E isso funciona como um sonho. Imagens - primeiro. Palavras - depois. E por inteiro. Mas enfim. Não tinha as fotos.

 

Ele passara a véspera do Natal - o dia todo fora de casa. Ninguém sabia onde. Todos perguntaram. Quando finalmente voltou. Ele não explicou. Ninguém viu sacolas. Nem pacotes. Nem presentes.

 

Jantaram juntos. Todos. Muitos. Uma festa de Natal. Na sala ampla a mesa coloria. Com a toalha. Com a comida.  Com as taças. Na sala ao lado uma enorme e colorida árvore.

 

E a surpresa. Muitos pacotinhos novos em volta. E ninguém vira quem os colocara. Todos brincaram. Não tinha chaminé.

 

E veio o momento dos presentes. Troca daqui. Agradece dali. Surpresinha lá. Gritinho acolá. Papéis pelo chão. Aquele suave barulhinho de presentes sendo abertos. Como mistérios desvendados.

 

Ele caladinho. Esperando a sua própria vez. De entregar os que ele comprara. Aí começou a surpresa. Do Natal. Os tais pacotinhos até então sem dono. Eram dele.  

 

E iniciou a distribuição. Cada um ganhou o seu. Adequado ao estilo. Ou à função. Ou intenção. Colocou música. Fez discursinhos. Cada um ganhou seu texto.

 

Ela tropeçava e caía. Com facilidade. Quase caiu de rir. Quando abriu seu pacotinho do presente. Ganhou um protetor de joelhos. Com lacinhos e tudo para prender na perna.

 

Ele não passava um dia sem uma reclamação. Fosse do que fosse. Até da falta de motivo. Já acordava reclamando. Se queixando. Ganhou uma agenda de queixas. Com carinha de birra na frente.

 

Ela acreditava na relação perfeita. Que tudo sempre podia ser resolvido. Com uma palavrinha a mais. Ou a menos. Falava sempre numa certa condescendência amorosa. Confiava nisso. Vivia nas nuvens. Ganhou um tapete. Imitando um tapete voador.

 

Eles dois só brigavam. Não se desgrudavam. Mas brigavam. Não era preciso razão. Nem culpa. De repente lá estavam. Brigando. Discordando. Brigavam até quando concordavam. Já fazia parte da relação deles. As palavras atropeladas. Ganharam uma placa. Psiu. Silêncio.

 

E por ai seguiu a noite. A cada pacotinho aberto – risadas.

 

Nada com valor material. Só emocional. Não se importava com outro tipo de valor. Só com o valor da emoção. E era um adorador. De risos.

 

A data foi transferida. A alegria permaneceu. Com dia e hora inadiável. Na memória de quem ainda está. Na história recontada.

 

O cada um ficou menos. Ele se foi. Mas a cada "você lembra" - a ausência se transforma em presença. Eternizando a idéia dele que - apenas do modo habitual -  não mais participou.

 

 


Novembro 19 2009

 

Não podia ser denominada de decisão. Talvez nem de escolha.

 

Mas não. Discordava de si mesma. Foi uma escolha. Sim. E uma decisão. Sim. Era só uma questão de ordenação. E isso não é lá muito fácil. Enfim. Estava já ali. Deitada. Aguardando.

 

Procedimentos são assim. Uma vez deflagrados - seguem seus ritmos. E se tornam libertos. Independentes das vontades. Pelo menos das dela. Se de um lado sobrava autoridade - do outro sobrava – obediência.

 

Agora não era momento de rebeldia. Conclusão que a acalmou. Incrível. Mesmo sendo ela.

 

Lembrou da avó de uma amiga. Às vezes é preciso ceder para acceder, menina, às vezes é preciso ceder para acceder.

 

Não entendera esta frase antes. Naquele momento menos ainda. Sentia-se um pouco confusa. E o Tempo parecia se misturar. Mas apenas lembrou. E deixou lá. Estava realmente obediente.

 

Agora era enfrentar. E eis algo que sempre fez. Enfrentar. Poucos sabiam dos medos.

 

Muito se espantou quando ela comentou. Eu sei que você é frágil. E que tem pequenos e grandes medos.  Mas sei que finge bem – para muitos. E riu ao falar isso.  E com total e absoluta desenvoltura. Bem ao estilo. Sem preocupações eufêmicas.

 

Deve ter feito aqueles olhos de desenho animado. Devem ter saltado longe das órbitas. Se surpreendeu. Desde quando ficara transparente. Até se aconchegou com os cobertores. Assim. Como um reflexo medular. Mas não discordou. Ela a conhecia bem. Seria perda de tempo. E já estava com bastante problema de mistura de Tempos. Era suficiente.

 

Ela entrou. Foi avisando. Ordenando. Vai sim. Vai subir após este procedimento. São orientações a serem seguidas. Não um tema em discussão.

 

Aplicaram. Intramuscular. Doeu. Muito. Puxou para si o tal lençol branco. Avisou que ia ceder rápido. Sedada cedente. Este o último chiste. Para ele que a olhava – amorosamente - pálido. Muito pálido. E muito amorosamente.

 

Sentiu a mão dele - apertar a dela. Pensou no milésimo de segundo que restou. Há um especial “apiedamento” enlaçado com o amor. Ou o contrário.

 

Olhou para o lado. Tudo mudara.

 

Que terrível engano. Estava nos Alpes. O branquinho era da neve. Não tinha lençol. Que confusão que fizera. Deveria ser por causa da altitude.

Olhou para os pés. Os sapatos eram de solado grosso. Uma segurança. Evitaria que caísse. Estava com meias grossas. Sentia isso entre os dedos.

Olhou para baixo. Subira a três mil metros de altura.

E olhava o mundo do alto - envolta em silêncio. Absoluto. Sentiu uma paz enorme.

 

Quase reclamou. Foi um barulho forte.

 

Ali também se corrompia o silêncio. Surgiu um teleférico. Procurava ver de onde saíra. Mas não dava. Era longo. Percorria uma trilha estreita. A altitude tinha mesmo mexido com ela.

 

Agora estava dentro do teleférico. A cabine era ocupada por seis pessoas. Seis. Contou e recontou. Mas não sentavam. Ficavam de pé. Ela não conseguia ficar de pé. Somente ela. Obedeceu. A paisagem era linda.

 

Havia uma luz forte. Diante dela. A cada espaço branco – surgia um amontoado verde. As árvores brincavam na neve.

 

Estava há quatro mil metros. Mesmo não entendendo de números – sabia que estava muito distante. Do chão. Do lá embaixo. Mas se segurou numa gradinha. Como fora esquecer as luvas. A gradinha estava tão fria.

 

Sentiu um abalo. Alguém informou. Vai mudar de cabine. Não entendeu bem. Ia dizer que não queria. Sentiu que a mudaram. Ninguém parecia se importar com o querer dela. Enfim. Deve ser o estilo Alpino. Tentou rir.

 

Seu próximo texto seria sobre a altitude. Nunca imaginara sentir algo assim. E ainda disseram que era normal. Não sabia mais quem dissera. Mas registrara o comentário. E buscava entender o tal normal avisado.

 

Quase deu um pulo. O celular caiu. E junto com ele a câmera fotográfica. Que pena. Foi só o que pensou. Não teria como demonstrar. Não teria prova documental. Só das palavras.

 

Notou uma placa de cor marrom num ponto alto da montanha. Leu o que estava lá escrito. Este teleférico foi construído há cinqüenta anos. Alguém acrescentou - numa plaquinha ao lado. Em cinqüenta anos – apenas um acidente. Fatal. Para todos. Mais outro aviso. Este local está a quatro mil metros do nível do mar.

 

Ficou tentando compreender. Que mar. De que mar as pessoas falavam.

 

Sentiu um frio súbito. Escutou algumas vozes. Não compreendeu o que falavam. Devia ser algum idioma codificado. Coisas das alturas. Tentou rir. Ou riu. Não tinha certeza.

 

Viu que ele vinha de lá. Caminhando em direção a ela. E sorria - um riso solidário.Tentava lhe dar a mão mais uma vez. 

 

De repente - abriu os olhos. O lençol branco a envolvia. Ele a olhava - corado. E rindo.

 

Ela perguntou. Há quantos mil metros de altitude nós estamos.

 

Ele riu. Estamos no sétimo andar. Deixa de ser exagerada.

 

Deu-lhe um beijo. Ele disse. Com expressão de alívio conquistado. Ou Bem recebido. Felizmente acabou.

 

E aconchegou-lhe a mão – ainda um pouco fria – com carinho.

 

Ela nada contou. Ainda estava com muito sono. Mas sorriu ao ver um floquinho de neve passar - disfarçado - janela abaixo.

 


Outubro 08 2009

 

O dia amanheceu lindo. Só cores.

 

Céu azul. Brilhante. Desta vez nem era o habitual azul turquesa. Era azul brilhante. Intenso. Acolhedor. Ficou ali. Olhando e buscando adjetivos. Fazia tempo que não amanhecia assim. Ou vai ver ela que não amanhecia assim.

 

Aberta para o colorido do mundo. Enfim.

 

Debruçou-se na murada. E ficou em silêncio. Olhou para cima. Teve aquela boa impressão. O céu estava perto. Sentiu-se assim. Perto do céu. Até sorriu. Vai ver era assim no verão. Mas já não tinha certeza.

 

Quase concordou com a amiga que falou sobre o esquecimento do corpo. É verdade. O corpo vai se habituando. E passa a entender cada estação como única. Como se nunca tivesse conhecido outras. Incrível. Por isso de repente – o susto.

 

E diante do susto - fez o indicado. Vestiu o verão.

 

Deitou-se na cadeira. Deixou o sol aquecer a pele. Os cabelos soltos voavam com leveza. Estava sem compromisso nem temor.  Um calor calmo invadiu até os pensamentos. Mal respirou. Não queria que nada afugentasse aquele prazer. Ou se fosse um sonho – nada que causasse o despertar.

 

Bendisse o inverno. Pela amnésia. O inverno se esqueceu de lá naquele dia. E deixou que as cores do verão enfeitassem um pouco a cidade. O verde das árvores em frente ficou mais verde. O amarelo de alguns prédios- mais amarelos.

 

Tudo ia assim. Muito prosaico. Poético.

 

Ela teve uma idéia. Contaria a ele. Ele que vivia sob o sol. Que morava lá de onde ela viera. Que não sabia de cor cinza. Nem de casacos pretos. Nem de meias grossas. Contaria a ele. Mas de uma forma especial.

 

Avisou.

 

Hoje o dia aqui não parece inverno. Estou no terraço. Tomando sol. E decidi até fazer algo que nunca faço.

 

Decidi tomar uma cervezza. O zol eztá tão bonito. Eztá um dia de verão. E tive ezza ideia. Uma cervezza. Nunca bebo liquidoz com álcool. Hoje dezidi exxperimentar. E vozê não zabe o que acontezeu. Os Aztroz vieram pazzear aqui. Em meu terrazzo. Todos elez.

 

Vai ver devo beber líquidoz com álcool. Nunca havia vizto os aztroz. E eztão bem aqui. E não param de girar. É verdade. Como giram. Que aztros mais felizez. Tomara que não ze ezbarrem unz noz outroz. Seria uma tragédia cózmica. Ze forem dezastradoz.  Dezculpa. Interrompi o recado para rir. Aztro dezastrado é perfeito.

 

Ele de lá respondeu. Surpreso. Rindo. Assustado. Como assim. Deu conselhos. Informou dos riscos. Ordenou limites. Relembrou a ela – quem ela era.

 

Ela continuou. Um rezidente de Zaturno acabou de perguntar por vozê. Rezpondi que tudo bem. Que vozê eztá ótimo. Ze quizer alguma menzagem – aproveita que ainda eztão aqui. Não pararam de girar. Maz não zairam daqui do terrazzo. Imagina ze aquele fizico zoubezze dizzo.

 

E assim ficou nesse vai. Vem. Vai.

 

Enviou o último. Ele quer que eu deza para almozar. Falou que não quer converzar com o povo de Zaturno. Vou dezer. Até maiz.

 

Parou o recadinho. Encerrou a lista de z.

 

Sentada em sua cadeira. Olhou para o céu. Para aquele lindo céu azul brilhante. Tranqüilo. O terraço sem astros. E por um tempo ficou ali. Bem sentadinha. Bem longe das cervejas. Diante do sol.

 

Fez assim sua mais nova descoberta. E teve uma sensação maravilhosa.

 

Entendeu a muitos. E a si mesma. Ou vai ver sempre soube. Só não formalizara. Não importava. Não há lógica nas sensações. Nem ordem classificatória. Sensação procede - da desordem. Ainda bem.

 

Compreendeu as infinitas possibilidades da letra. Os surpreendentes caminhos das palavras. A magia de uma construção literária.

 

Pode-se ser o que quiser. Pode-se viajar por lugares nunca dantes imaginados. Pode-se ser quem escolher ser. A liberdade é irrestrita. Não tem um dono. Ou um tutor. Ou mentor. Também não importa.

 

Há o escrito. Há o leitor. Isso importa.

 

Lembrou-se daquele filme. Falava de escafandros e borboletas. E imobilizado – ele pensava. Não existe solidão para quem tem memória.

 

E ela ali. Sentadinha em seu terraço. Diante do sol. Sob o céu azul brilhante – concluiu.

 

A melhor embriaguês – é a composição de um texto.

 

 


Outubro 07 2009

 

O ambiente estava tranquilo.

 

Uma ou outra mesinha ocupada. As pessoas conversavam com suavidade.

A Cafeteria ficava num falso subsolo. Dentro de um local de salas de cinema. Reservada e cultural. 

 

Uma parede de vidro ficava quase ao nível da calçada da Avenida. De um lado – as mesas dispostas para refeições maiores. Do outro lado – a Cafeteria. Um clima de acolhimento percorria com delicadeza o ambiente. O cheiro de café dava um toque de serenidade.

 

Pelo vidro se via o movimento da Avenida. Intenso. Uns passavam carregando agasalhos. Outros os tinham dobrados nos braços. Outros ainda, incautos ou incrédulos, tremiam diante do desacreditado.

 

Mas uma similaridade era geral. Social. Poderia até dizer - democrática.

 

Todos caminhavam apressados. Passadas firmes - e fortes.

 

Não se viravam para a vitrine. Não encaravam as pessoas. Só se desviavam e continuavam. Olhavam para frente. Objetivos.  

 

Lembro que foi uma das primeiras observações que fiz quando me mudei. Completamente imigrante – me sentava solitária em algum Café. Em geral numa específica esquina. Sempre levava um livro. Jamais era aberto. O livro dinâmico passava e virava as páginas ora com rapidez. Ora lentamente. Mas deixando um fio de continuidade implícito.

 

Nunca se sabe o caminho de uma metáfora. Enfim.

 

Eu observava. Sentada e presente. Mesmo despercebida - como se ausente. O ir e vir. Os casais. O comportamento dos casais. O exposto dos solitários. A forma como as pessoas caminhavam nas ruas. Como se dirigiam às mesas. Como percorriam corredores. Não importava a estação do ano. Não importava a roupa ou sapatos que portassem. O pisar era o mesmo. Forte. Decidido. Como uma marcha sem banda. Mas ritmada.

 

Impossível não lembrar aquele autor.

 

Ele dizia que se conhece a cidade onde se está pelo caminhar das pessoas. O caminhar do Homem. Como uma Qualidade. Ou uma falta dela. Sim. O autor conhecia realmente as cidades. E muito mais ainda - conhecia as pessoas.

 

Mas – escolhida a mesinha - sentamos.

 

Começamos a nos decodificar. Desfolhamos as idéias. Desvinculamos os roteiros. Desentendemos as formalidades. Rimos das dificuldades.

 

Enquanto ele também não chegava – fomos quase refazendo o percurso da Vida. De cada um. E de cada par.

 

De repente começou a falar das filhas. Duas. Pequenas. Bem pequenas. Cada uma com seu estilo. Com suas pequenas birrinhas. Com suas personalidades se compondo.

 

Nunca pensara em filhos por preferências. Meninos ou meninas. Era abrangente. Queria ser pai.

 

Estava esclarecida assim a sua posição diante do mundo. E se via agora pai de duas meninas. Falou os nomes. Falou dos tons de pele. Das nuances dos diálogos. Dos momentos de reflexões. Delas. Da importância dos limites. Da complicada dosagem equilibrada de limitar os limites. Do unificar - sem desvalorizar - sabedoria e autoridade.

 

Foi aí que compreendi. O que dizia o mestre Frances. Muito mais que um pai da realidade. Só funciona o pai real.

 

Tão de repente quanto começou a falar - fez um gesto. Brusco.

Virou a cabeça numa rapidez que nunca vi igual. Podia até ter problemas no joelho – como referiu. Mas o pescoço estava em absoluta ordem. Assim.

 

Virou. De uma vez. Como que procurando.

 

Olhou para o lado - como que tocado por um chamado.

 

Não da Avenida. Ou das pessoas que passavam apressadas. Ou do pisar forte de alguém apressado. Ou muito menos atraído pelo cheiro do café delicioso. Que desfilava numa bandeja esfumaçando a salinha. Nada disso.

 

Na mesa ao lado sentava numa cadeirinha uma menina. Bem pequena.

 

Enfeitava a sonoridade do local com sua vozinha suave. Cabelinhos pretinhos. Franjinha. Vestidinha de inverno. Sorridente. Foi sentando e falando. Ele foi escutando e virando. Assim. Sincrônico. Simultâneo.

 

Resgatado - continuou de onde tinha parado.

 

Mas comentou. Discreto. Saudoso. Parecia a voz da minha filha.

 

Talvez não fosse de expor as emoções. Vai ver por isso gostava de poesias. Poesia é o Lugar certo de disfarçar. É expondo versos que melhor se ocultam as sutilezas ou as certezas. Da alma. Nisso também os poetas são sábios. Quanto mais os identificamos, mais os perdemos de vista. Procede.

 

Mas enfim. Até me desconcentrei um pouco da conversa.

 

Pensei no virar brusco. Na lembrança da voz da filha. Que estava em outra cidade.

 

Pode ser esta - também - uma das formas de definir um pai. Uma definição possível. Ou – melhor ainda - uma tradução possível.

 

Assim. Sem frases de efeito. Sem frases sem efeito. Sem alegorias na Avenida. Pela certeza do Lugar - simplesmente e assumidamente - de pai.



Outubro 01 2009

 

Decidiu. Será este final de semana.

 

Ganhara de presente. Os cinco se juntaram e deram a ela. Vai passar o dia lá. Sendo cuidada e mimada. É só escolher a data. Adorou.

 

Telefonou, agendou. Comemorou feliz. A decisão própria combinava com a vaga oferecida. Em acordo. Fuso horário acertado. Era só deixar acontecer. Não teria participação efetiva. Eles lá saberiam a sequência a ser cumprida. Enfim. Riu.

 

Acordou e já foi logo preparando a alma. O espírito. Ou o humor, para ser mais ampla. Do corpo eles lá dariam conta. Ao menos este era o combinado. Através do corpo - liberar a emoção.

 

Quase uma filosofia.

 

Um dia inteiro a fazer nada. E a aguardar as ordens.

 

O lugar era especial. Massagens de todos os tipos. Esfoliação. Relaxamento. Imersão em ofurô. Pétalas de rosas vermelhas. Margaridinhas. Chazinhos. Toalhas aquecidas. Uma delicadeza. Música transcendental. Perfeito.

 

Um aroma suave percorria desde a salinha de espera até os ambientes fechados. Qual um labirinto misterioso. Como devem mesmo ser os caminhos que liberam a emoção. Por um aroma, vai se chegando diante de portas - fechadas. Abertas – revelam o dinamismo a seguir. Interessante.

 

Foi esta a primeira palavra que pensou. Talvez desde o momento que acordou. Até se surpreendeu. Parecia mesmo há algum tempo sem pensar. Interessante de novo.

 

E de porta fechada a porta aberta - foi se descontraindo. Feixe muscular por feixe muscular. Ela até avisou. É muito tensa. Mas estou desfazendo os nós.

 

Desconsiderou.

 

Estava ali para ficar desconcentrada. E ia cumprir a proposta. A tal filosofia que a entrada sugeria.

 

Foi nesse vai e vem que notou a luz vermelha do celular. Mensagem à vista. Resolveu verificar. Que chamado, externo, a re-localizava no planeta.

 

Ele se desculpava. Queria ter falado ontem. Mas os afazeres práticos e nada agradáveis o tinham impedido.

 

Resolveu se divertir. A desconcentração permitia. Avisou. Desculpas mis. Plebe rude. Estou sendo esfoliada e me dirijo no momento para um ofurô. O mundo pode esperar. O ofurô não. Nem eu. Risos.

 

Assim. Objetiva. Divertida. Leve. Mas séria. Sem som. Só com as letras. E enviou a mensagem.

 

A massagem prosseguia. Novamente a luz vermelha. Mais uma vez decidiu ler o que de lá vinha. Afinal – o mundo não a esquecera lá dentro. Nem ela esquecera o mundo lá fora. Riu. A linha podia até ser tênue – mas existia. E se e quando existe - sempre pode ser pulada.

 

Já começou a se sentir incorporada ao Lugar. Estava se transformando numa verdadeira filósofa de esfoliações e ofurôs. Se parabenizou.

 

Mas desta vez foi impossível. Não conseguiu manter a seriedade absortiva. Expressar ausência de si mesma. Fingir que estava apenas ali. E que o mundo tinha acabado.

 

Ele respondeu. Desculpa a nobreza. Mas estou aqui também. Esfolado. Com um furuncô.

 

Riu. Alto. Assim. De repente.

 

As pétalas de rosa na água quase voaram. A mocinha que esfoliava tomou um susto. Perguntou por cócegas. Com a resposta negativa – iniciou alternativas. Se queria mais luz. Menos luz. Não sabia bem como lidar. Com o riso. Vai ver fosse um pranto e saberia o que fazer.

 

Isso é comum. Rir é incomum. Seja onde for. E muito mais numa esfoliação. Vai ver até culpou o Marquês. Mas enfim. Riu alto. Seguidas vezes.

 

A mocinha continuou o que fazia. Porém com mais cautela. Dava para sentir isso pela fala. Pelo gestual. E pela súbita pressa. Até temeu uma expulsão. Onde já se viu. Rir num lugar de silêncio. De faixa zen com alfa. Ai sim. Deu até mais vontade de rir. Mas se controlou. Ou tentou.

 

Avisou a ele. Você está desconcentrando a minha desconcentração.

 

Nova resposta. Novo riso.

 

Desistiu. Não ela. A mocinha. Encaminhou para outra sala. Mais uma porta fechada se abriu. Um divã estava lá em meio à meia luz. Orientou alguns momentos - sozinha. Escutando a música e sentindo o aroma. Colocara um aroma relaxante.

 

Ficou lá inspirando o tal aroma. E rindo. Quando acabou o dia – estava calma. Muito calma.

 

Vai lá saber. Qual das massagens foi benéfica. A de fora. Ou a de dentro.

 

Ele foi buscá-la. Desceu com ele de mãos dadas. Contou o que aconteceu. Riram juntos.

 

A chuva fina que caía lembrava que o mundo tem múltiplos e surpreendentes encantos.

 

 


Setembro 20 2009

 

Impossível negar. Foi uma surpresa.

 

Daquelas que pode até provocar aceleração do coração. Descoramento súbito da face. Ou o oposto. Rubor facial intenso.

 

Aquele recadinho me tirou da rotina. Liberou pensamentos. Fiquei muito tempo pensando nos poderes. Em todos os poderes. Mas em especial no poder da letra. Isso sem deixar de destacar a rapidez da comunicação. Mas naquele momento me pareceu o de menos. O poder da letra sim. Este o maior dos poderes.

 

A viagem dos caracteres mundo a fora – mal – ou bem - saídos de uma idéia.

 

Não importa a história pessoal. De quem escreve – ou de quem lê. Não importa o conhecimento físico. De quem escreve – ou de quem lê.

 

Nenhuma real materialização se faz necessária. Este é o mais belo poder de uma letra. O seu percurso é mais solitário do que a sua função. Mas nem por isso menos acolhido. Ou menos considerado.

 

E desde sempre. Há escritores antigos que não se tem sequer uma descrição do seu rosto. Há textos saídos dos lugares mais esquecidos do mundo. Há frases célebres de autores anônimos.

 

Mas o contrário não existe. É pela letra – seja qual for a intenção por trás dela- que uma atemporalidade se torna possível. E a espacialidade. A ligação entre o autor e sua letra só se torna forte pelo crivo do outro. É o leitor que cinzela o que foi esboçado. Este sempre o poder da letra. Alheio ao seu causador.

 

Mudam os idiomas. Mudam as tradições.  Trocam-se os terrenos. Ideologias. Convenções. Estilos se multiplicam. Mas a letra circula exercendo sua função de percorrer. Livre do idealizador. Desgarrada do autor.  Mais ou menos por aí.

 

Até lembrei dela. Uma vez se irritou. E avisou. Não quero saber de interpretação com esta pergunta. Qual a idéia do autor. A idéia do autor é mistério que não interessa. Muitas vezes até para ele. É pela idéia do leitor que um texto desperta e respira. O texto nasce e cresce nas mãos de quem o lê. A partir da avaliação de quem o lê. Procede.

 

Foi entre estes pensamentos que fiquei surpresa diante do recadinho. Um recadinho. Uma sugestão. Um esclarecimento.

 

Vinha d’além mar. Alguém de tão longe se apresentava. Sou seu leitor. Pedia permissão para opinar. Incrível. Como um poema. Ou uma poesia. Assim me veio a sensação na solicitação. Na opinião. Na delicadeza incluída na mensagem.

 

Por que não tenta. Se não tentou já prolongar suas  pequenas fotografias que são verdadeiros instantâneos - e dar-lhes  consequência.  Desculpe minha pretensão e arrojo em lhe estar a sugerir isso,  mas acho que seria capaz de fazer algo muito bom.

 

Vinha de tão longe a sugestão. Acrescentara uma pequena identificação pessoal. Lutara na guerra da Guiné.

 

Contou sobre o tempo de soldado na Guiné. Escrevia uns chamados aerogramas. Eram uns simples papeis azuis. Levezinhos por causa do avião.

 

Escrevia duma ponta à outra nos momentos vagos da guerra. Depois recomeçava a luta e parava o aerograma. Por vezes andava uns dias a escrever o mesmo - antes de ir ao correio.

 

Ele não me conhecia. Eu não o conhecia.

 

Sabia do meu estilo. Opinava de forma filosófica. Como filosófica tem que ser qualquer decifração de códigos. Só assim uma leitura se faz - por si só – uma tradução. Onde o que menos importa - é o idioma.

 

Apresentou-se pela opinião. Continuou pelas desculpas. Encerrou o aperto de mão com um trecho da história pessoal.

 

O texto instantâneo se unia ao texto histórico. Um relato por sobre o conto. E o conto por sobre o relato.

 

Escrever em instantâneos. Fiquei pensando nisso. No instantâneo da escrita. Isso sem falar em tantas consequências possíveis - do prolongamento de um texto. Adorei.

 

Foi ai que veio a real surpresa. Da magia da letra.

 

A Guiné ficou quase na esquina. Dava até para ver o soldado escritor – a pegar seus papeizinhos azuis. Consegui até vê-lo lendo os meus textos. Agora já numa outra etapa de vida. Onde a guerra e os aerogramas são tácteis apenas na memória.

 

Obrigada. Pelo retorno. Por me fazer - realmente - existir. Agradeço muito. Vou tentar. Já estou tentando. Se conseguir lhe envio. Algum dia.

 

Se possível em papeis azuis.

 


Setembro 08 2009

 

Ficou um tempo buscando uma palavra. Uma.

 

Mas que pudesse denunciar. Que funcionasse. Isso. Uma palavra funcional. Eis a qualificação perfeita.

 

Mas nada é perfeito. Faltava a palavra.

 

Era momento de comemoração. Sentia isso. E se desentendia.  Se sentia – por que não conseguia  decodificar.  Lembrou que fez um chiste para ele. E se a anestesia anestesiou as  minhas ideias. Sempre se corre qualquer tipo de risco. Diante de qualquer tipo de intervenção. E nem tudo no mundo é orgânico.

 

Ele - artista – sabe ler o avesso do avesso de um prisma. Não busca potes. Nem duendes. Cria o ouro de dentro das cores.  Já foi logo recusando a ideia proposta. Comparou até a resistência a cianetos.

 

Ela riu. Se sentiu medicada.

 

Queria muito poder esclarecer. Esclarecer nem sempre é prerrogativa de problema. Ou de formal. Pode ser apenas uma porta. Um portal. Exagerada do jeito que sempre foi - substituiu. Acrescentou.  Esclarecer é como um arco. Um arco de triunfo. Real.

 

Pensou em dicionários. Mas eles só contem verbetes. E não seria o caso. De verbetes o mundo está cheio. Deve mesmo estar faltando é palavra. Pode parecer uma mesma significação. Mas a tradução é diferente.

 

Um verbete explica. Ordena. Racionaliza.

 

Uma palavra implica. Desorganiza. Emociona.

 

Morava longe. Um mar além. Uma distância que se media em águas e espumas. Com ondas e com calmaria. De lá para cá muito se fez. E de cá para lá muito se refez.

 

Nem sabia mais quando começara. Muito menos como. Mas se comunicavam. Por isso ela avisara. Vou dar uma sumidinha. Desta vez a questão é corporal. Notaram um excesso. Vão localizar a possibilidade de falta. Quando puder retorno. Assim. Um recadinho para ele. E para os mais próximos. Sem importar quantas marés depois seria entregue a mensagem. Seria entregue.

 

Ele foi solidário. Escreveu. Ponderou. Gracejou. Reclamou. Até se auto intitulou. Neurastênico. Estou neurastênico. Onde já se viu. Um artista. Que doa cor a ouro. E o contrário também. Que entende de avesso. Se chamar de neurastênico. Assim.

 

Viu todos os recadinhos de uma vez. Quando os excessos foram retirados a e as faltas perdoadas.

 

Leu. Adorou. Festejou. Mas se sentiu menos. Continuava sem encontrar a palavra.

 

Até se revoltou. Quase praguejou. Já estava perdendo até a classe. Renegou a própria profissão. Queria mesmo era ser inventora. Não para construir máquinas. Queria criar uma retórica nova. Para o agradecimento exprimir.

 

Queria um poder. Uma magia. Fantasia. Inspiração.

 

Pediu tudo que vinha à mente. Olhou para cima. Até para baixo. Pegou uma caneta. Vai ver assim facilita. Caneta e papel à mão. Ficou ali. Parada.

Em busca da tal palavra. Que revelasse toda a emoção. Sem freios. Sem contenção. Mas nada aconteceu.

 

Teve uma ideia. Alternativa. Poderiam ser símbolos. Quem sabe. Um símbolo muitas vezes vale por muitas palavras. Muito mais que apenas uma.

 

Ainda sem solução. Nada entendia de símbolos. E símbolo lembrava matemática. Ela odiava matemática. Fingiu resignação.

 

Pensou. Outra alternativa. Quem sabe uma tela. Poderia desenhar com exatidão. E numa única aquarela fazer brilhar a verdade da gratidão.

 

Mas... impossível criar. Vai ver tem mais faltas que pensava.

 

Nem cores. Nem flores. Nem Semiologia nova. A criatividade não devia mesmo ser seu forte.

 

Lembrou da avó da amiga. Ela dizia. A repetição também tem as suas singularidades, menina, a repetição também tem as suas singularidades.

 
Aceitou. Andava bem obediente nos últimos dias.

 

Talvez uma só palavra. Há muito já inventada. Talvez - em sua simplicidade - resuma o desfecho. E permita todo esse difícil traduzir.

 

Mais tranqüila virou-se em direção ao mar de lá. Por cima de ondas e marés altas. Abaixou-se diante da leveza de um corajoso barquinho de papel. Colocou uma garrafinha com seu bilhetinho dentro. Manuscrito. Com cuidado. Letrinha por letrinha. Qual um bordado. Escreveu.

 

Obrigada.

 

 
 

Agosto 14 2009



Tem sido uma semana de muita emoção. Emoção feliz. Ainda bem. 

 

Não pude deixar de lembrar a letra daquela música. Sim. Tem que ser guardado debaixo de sete chaves. Dentro do coração.E assim está. Desde o primeiro contato.

 

Lembro que ele reclamou. Por escrito. Apresentou-se dizendo que gostaria de comentar um texto do meu blog. Mas devia haver algum problema com a plataforma. Nunca conseguia. No dia que publicou - festejou. Por escrito.

 

E do lado de cá – eu dava pulinhos de alegria.

 

E desde que nos conhecemos - mesmo sem a imagem real - uma gentil amizade se fez.

 

Uma noite surgiu uma possibilidade. Convidou. Aceitei. Lógico. Combinado. Íamos nos conhecer. Pessoalmente.

 

A amizade fez laço forte. Estendeu-se até a família. O riso selou o contato. Apertos de mão confirmaram o afeto. E a rotina não impediu a comunicação.
Perfeito.

 

Esta semana a surpresa. Me avisou. Seu blog vai para a Rádio. Assim. Com todo o carinho. E com o jeito atencioso de falar. 

 

Assim será.

 

Meu querido amigo Marcos Masini - do blog Divã do Masini - me dá a honra de oralizar o meu blog. Blog verbal. Direto. Sonoro. Maravilha. Vai ter um espaço na Rádio Unifran.

 

Nesta sexta (14/08), (às 13 horas em Portugal,) o blog da Lêda Rezende será a grande estrela do espaço que o Divã do Masini tem na Rádio Unifran FM - a ideia originou-se na promoção "Seu blog pode virar programa de rádio". Clique na figura (na data e horário sugeridos) e você vai ouvir a programação online e conhecer um pouco sobre a vida da Lêda e o seu blog

 

Nesta sexta, 14 de agosto, às 13:00 h - em horário de Portugal. Ouça o programa ao vivo, clicando aqui.

 

Como dizia minha avó. Quem quer ter surpresas felizes tem que ter amigos, menina, quem quer ter surpresas felizes tem que ter amigos.

 

Muito obrigada ao Jornalista/amigo que me concede este espaço. Muito obrigada ao Amigo/jornalista que me presenteia com esta enorme oportunidade.

 

Esta noite  - Morfeu vai se ausentar. Vai ser bem difícil dormir.
publicado por Lêda Rezende às 00:06
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Julho 25 2009

 

Os debates ficaram agendados. Os temas estabelecidos. O grupo se reuniu para o proposto.

 

A questão – naquele momento - era básica. Ele tentou formular com sobriedade. A traição está em que Lugar. Na emoção. Na omissão. Na materialização. Ou na obviedade da informação. Ou pior ainda. Na ambigüidade de um riso sorrateiro e explícito.

 

Ao final desta longa frase dita de forma entrecortada – um silêncio adequado se fez.

 

A cada um coube um pensar. Mas a ninguém parecia caber um responder. Pelo menos de imediato. Não houve um só já sei. Parecia que cada um se perguntava muito além da demanda.

 

Ela decidiu. Nada de tanto silêncio. Parecia indignada. Por que ninguém responde. Onde já se viu. Quem nunca se sentiu assim. Traída. Sofrida. Rejeitada. Revoltada. Quem nunca disse - eu que me dei tanto.

 

Surgiram alguns risinhos disfarçados. Parecia ser este exatamente o resumo das perguntas entrecortadas. Mas ninguém se atreveu a falar. Sequer a insinuar. Não era caso de gracejos. Era. Mas não para ela. Mais ou menos assim. Respeitaram a seriedade dela. Calaram-se e escutaram.

 

Traição é fato de escuta. Muito mais do que de fala.

 

Estava tensa. Mexia a colher do cafezinho como se cavasse a terra. Parecia querer exumar alguma mágoa antiga. Para vê-la – talvez - transformada em esqueleto. Ou em pó. Vai lá saber. Apertava a colherzinha com tanta força que os dedinhos até estavam esbranquiçados.

 

A voz começou rouca. Traição não é questão de Lugar. Nem de lugar. É mais uma questão de falta de assento. De falta de olhar. Traição é esvaziar uma pessoa. Totalmente. Expondo sua intimidade a outro. Traição é da ordem do visceral. Por isso dói tanto.

 

Parecia conversa de intelectual daquele país. Lá sim. Cada fala tinha uma total ausência de significado. E ampla plenitude de linguagem. Quem de fora estava - sempre concluía. Entendi nada. Mas sei que é importante. Muito importante. E não faltaram publicações e mais publicações sobre estes tão importantes- nada entendido.

 

Alguém teve uma idéia na sequência da escuta.  E expôs rapidamente a tal idéia. Aqui também tem vinho. Olharam para ele. Riram aliviados.

 

Optaram pelo vinho. Mesmo correndo o risco daquela frase em latim. A esta altura qualquer risco parecia menor que a exumação. Foi a sensação que deu.

 

Alguns se levantaram. Caminharam pesado. Como se cobrissem algum túmulo com os pés. Outros se recostaram na cadeira. Como se buscassem um conforto. Um ou outro olhou para fora da janela. O olhar parecia invejar quem passava isento.

 

Ela sentou. Dispensou o café. Fosse a colherzinha um ser vivo e estaria grata. Até poderia respirar de novo. Ergueu a mão. Firme. Quase todos a olharam. Menos os que observavam os isentos passando na calçada.

 

E calma, muito calma, se dirigiu para a bandeja das taças. No rosto estava uma expressão de falei o certo. Pegou uma taça de vinho branco. Bem gelado. O copo solidário suava o excesso.

 

Comentou. Que cada um exponha seu recato. Eu de minha parte, decidi enterrar o meu. Continuou. Acho que virá um temporal. Pegou mais uma taça da bandeja. Fez um quase ballet na volta. Sentou com uma expressão de falei forte. Falem vocês agora. Ordenou.

 

Vai lá saber por que – acabou de ordenar e sentar - a cadeira virou.

 

Virou e caiu. De costas. Com ela dentro. Colada nas costas da cadeira. Pernas não tão coladas assim. A saia confirmando a existência da lei da Gravidade. Uma nova maquillage inaugurava o rosto. Refrescado pela rápida colaboração do vinho. Um susto. Um grito. Um desacato.

 

Levantou-se com ajuda. Recolheu o mais exposto. Secou o rosto.

 

Quando riu – todos riram. E as respirações retomaram o ritmo correto.

 

Traição, traídos e traidores voltaram ao seu devido Lugar. Entre risos e piadinhas cada um revelou e disfarçou seu pudor. Houve uma inútil tentativa de falas e pequenas pontuações sobre gestos e atos.

 

Em meio ao ocorrido - ficou encerrada a temática. Mal solucionada pelas palavras. Mas muito bem explicada por um objeto. Procedia.

 

Muitas vezes uma súbita performance se faz  necessária. E elucidativa. Foi o que concluíram de mais imediato.

 

 


Julho 21 2009

 

Acordava sempre muito cedo. Não tinha um só dia que não reclamasse.

 

Lembrava dos tempos da graduação. A única matéria que tivera problema. A aula se iniciava quase com o nascer do sol. Não dava muito certo. Se faltava – era porque não conseguia acordar. E quando ia - passava todo o horário da aula dormindo. O professor até ria. Quando estava de bom humor.

 

Mas nem sempre ele estava. De solidário bom humor. Perdeu. Fez uma recuperação. Que - por sorte dela - começava depois do dia já normal. Assistiu todas as aulas. Foi aprovada. Com as boas notas de sempre.

 

Enfim. Sempre fora desse jeito. Podia emendar noite com dia. Em tarefas ou prazeres. Mas nunca acordar antes do sono já vencido. Quando isso acontecia o sono é que saía vencedor. Assim explicava. E assim ria. De si e da explicação. Podia até faltar disposição matutina. Mas bom humor nunca faltou. Fato verídico e comprovado.

 

Mas parece que é desta forma que o mundo rege. Ou é regido. Na contramão do desejo. Ou da vontade. Ou da idéia. Não importa.

 

Após a tal graduação não faltaram motivos. Ou imposições. Ou talvez ainda ocasião. Parecia que tudo para ela só começava cedo. Cedíssimo.

 

Aceitou. Se é para ser – aceito. Não adianta ir contra. Fui vencida.

 

Pior ainda do que no tempo da graduação. Agora acordava antes do sol. Enquanto ele se espreguiçava - ela já estava de saída.

 

Mas não era tão resignada. Fingia. Mas não era. Reclamava. Muito. Fez mil invenções. Inventou susto oriental. Afundou despertador. Toques de submarino. Da mitologia à tecnologia não faltou ameaça. Ameaçava tanto que já nem sabia mais a ordem.  

 

Mas uma coisa não se podia dizer dela. Que atrasava. Nunca. Nem uma só vez. Não atrasava. Ao contrário. Até se antecipava. O amadurecimento tem lá suas vantagens. Não se luta contra o óbvio. E aprende-se que minutos não compensam horas. Às vezes ela se atrapalhava e dizia o contrário.

 

Mas cumpria o que tinha que ser cumprido. E recebia elogios. Muitos perguntavam se vinha daquele país onde a pontualidade tem nome e sobrenome. Faziam piadinhas e gracinhas. Com a pontualidade antecipada dela.  Não se aborrecia. Ria. E se surpreendiam. Quando revelava a origem. Aprendeu a se divertir com isso também. Eis algo que o despertador não tirou. O entusiasmo pelo riso. Isso era factual. De relação profissional a particular. Ou de afetiva e amorosa. Sempre era esse o comentário. Estava sempre bem disposta. E procedia.

 

Neste amanhecer foi especial.

 

Desceu as escadas. Ainda estava escuro. Reclamava de si para si. Sim. Não tinha ninguém saudável àquela hora acordado. Tinha que reclamar e responder. Ela com ela mesma. Como uma esquizofrenia matutina. 

 

De repente escutou o aviso de mensagem no celular. Conferiu. Era dela. De lá. Além mar. Mandava um recadinho. Não imaginava que ia ser lido naquela hora exata. Outro fuso. Outro horário. Mas em tempo real.

 

Entendeu pela primeira vez o significado emocional disso. De tempo real.

 

Não resistiu. Respondeu. Ela retornou. Surpresa. E ficaram de conversinhas. De combinações. De comparações. Uma de cá - no escuro do dia recém amanhecido. A outra de lá - no escuro do dia já alto e enevoado. As duas no escuro. Clareando as idéias com o feliz riso solto.

 

O pão queimou. Ficou igual às duas auroras. Num momento de concentração na resposta se viu colocando manteiga dentro da xícara de café.  Informava a sequencia de erros. E riam. E trocavam as novidades. Rapidamente. Não podia se atrasar. Ela daqui. Nem ela de lá. Cada uma compromissada com a própria rotina.

 

Depois de pães queimados e leites derramados - não choraram. Riram. Ela – prática –avisou. Vamos tocar o dia. Boa sorte no seu. Ela de cá respondeu. Sim. Muito boa sorte no seu também. E no silêncio da comunicação teclada - se entenderam. E se despediram.

 

Pela primeira vez em tanto tempo – não reclamou. Estava feliz com o despertar cedinho. Achou até que já estava acordando tarde.

 

Riu. Imaginou o que diria o tal professor se tivesse assistido esta cena.

 

O dia seria muito bom. Sem dúvida. E imitou às avessas – e em homenagem – o conterrâneo dela.

Tudo fica bem – se começa bem.

 

Acabou a arrumação e saiu feliz.

 


Julho 16 2009

E de repente, aqui sentada, me deu um estalo.

Estalo.

A palavra certa. Tão rápida que a conclusão veio. Fez até um barulhinho.
Passei a mão nele. Senti. Pensei. Eis aqui um verdadeiro amigo. Fiel. Estável. Incondicional.

Comecei a lembrar. Das incontáveis vezes que fiquei com ele. Inúmeras lembranças me ocorreram. E sei que ainda estou sendo injusta. Muito mais deve ter me feito de companhia.

Lembro quando chegou. Foi logo se integrando ao novo conjunto.
Incluía todo tipo de perspectiva.
Fez-se de belo e esnobou o espaço. Ficou imenso. Mas ficou em seu quinhão. E dali só era movido em raros e especiais momentos. De busca. Digamos assim.

Escutou muitos risos. Risos de festa. De alegria. Lembro de algumas festas. Tão ativamente participou. Embora passivo parecesse.
Em uma estava de roupa nova. Cheirinho de talco.
Todos falaram dele. E falaram de si e dos outros. Diante dele.

Escutei alguém recomendar: não derrame o vinho nele. Cuidado. E o recomendado se ajeitou. De forma mais elegante. Para que tal transtorno não acontecesse.

Numa outra estava tão bonito. Todo branco. Muitos preferiram ficar de frente. Não se aproximarem muito. Sempre alguém cuidando para que não houvesse acidentes. Escutou histórias. Em vários sotaques e idiomas. Teve até briga em Inglês. Tudo diante dele.

Silencioso cedeu o espaço. A cada um dos conflitantes.

O tempo passou.
Com os risos e as lágrimas alternadas.
Tempos de mais risos.
Tempos de mais lágrimas.

Durante anos e anos. Mudou de aspecto. Mudou de espaço.
Mas sempre ali. Disponível.

Se na noite o quarto não permitia riso - era direto para ele que se caminhava.
Se os excessos acabavam com a certeza do percurso - ele era o primeiro a ser encontrado.
Se o caso era apenas um pouco de silêncio e penumbra - só junto dele existia esse lugar.

Não havia situação que ele não estivesse envolvido.

Negócios foram feitos diante dele. Ficou encoberto por fumaça. Cheirou a nicotina. Aceitou mãos tensas sobre ele. Até um tapa escapou certa vez.

Foi o único que sempre se manteve calmo.

Escutou promessas de todo tipo. Escutou desculpas. Desenganos. Enganos.

Foi daqui pra lá. De lá pra cá. Houve um tempo que esnobou o espaço. Outro em que se viu pequeno diante dele.

Conheceu gente que ficou por longo tempo e depois partiu.
Gente que ficou por pouco tempo e depois partiu.
E gente que chegou e jurou não partir.

Viu gente pequena crescer. Serviu de amparo para as perninhas que tentavam se deslocar. Trôpegas.

Entre idas e vindas. Continuou escutando. Todo tipo de emoção.

Foi aqui. Sentada. No meio da noite. No silêncio.
Que se deu então o tal estalo.
O que já falei antes. Não sei. Como nunca percebi isso.

Um fiel amigo. Viva o sofá da sala.

 


Julho 16 2009

 

Os anos passaram mesmo.

 

Ela nem se dera conta. Termo exato. Não contara o tempo. Os dias. As mudanças das estações. Não deu importância. Nem ao calendário lunar. Só ao que somasse ou multiplicasse. Esta uma forma segura. Ou uma tentativa bizarra. De não angustiar - pelo que não tem. Olhando apenas - para o que tem. Estava se sentindo adequada. Aprendera algo. Aprendera a seguir com os dias. Para a frente.

 

Se escolhera disfarçar a falta - nada melhor que viver de somar. E lá se ia.

 

Somava roteiros. Descobertas. Novidades. Até nomes de ruas.

Mas não é bem assim. Dias também se contam para trás. Porque são particulares. E cada um tem seu próprio calendário. Seu gregoriano de plantão. Como uma emergência providencial.

 

Ao abrir da porta - teve uma sensação estranha. Como se tivesse estado desmemoriada. Ou em estado de esquecimento. Durante muito tempo. Naquele momento se deu conta. Do tempo.

 

Estava bem mais atrás. Quando ela deu a ordem de saída. Seguiu a fila. Ainda no mesmo estado. Caminhava lenta. Compassada. Com olhar de rotina. Sem alardes. Sem manifestações. Não deu para negar um detalhe. Mínimo. Um súbito frio que escolhera o estômago. Dela. Como um posseiro. Impulsivo. Aqui vou estar.

 

Ela desconsiderou. Deveria ser o cansaço.

 

Chegou à porta. Diante da escada. Entendeu uma frase banal. Da tal luz no fim do túnel. Nunca viu tanta similaridade. E entendeu o tal friozinho posseiro.

 

Primeiro o cheiro.

 

O cheiro de mar. De maresia. De berço. De sereia. De fartura. Respirou forte. Como para despertar um sentido até já esquecido.

 

Naquele momento importava respirar. Respirar. Como o primeiro dos atos. Como o primeiro dos instintos. Lembrou de tudo. De tantos. De todos. De teorias. Isso numa única inspiração.

 

Até fechou os olhos. Os sentidos exigem – muitas vezes – privilégios. Concedeu.

 

Deu mais um passo. Sentiu a luz. Uma luz forte. Mas calma. Encheu todo o espaço. Os olhos não demoraram a se acostumar. Mas demoraram a acreditar. Como tinham conseguido compreender.  A distância da luz. E por tanto tempo.

 

Descendo a escada sentiu o calor. Na pele. Nos cabelos. Como um abraço. O calor contornava o corpo como uma manobra de revitalização. Emoldurando, despertava. Como uma aura festiva. Assim sentia.

 

Pareceu escutar um bem vinda.

 

Cercada pelo cheiro. Pela luz. Pelo calor. Decodificado todos os sinais. Na emoção. No corpo. Concluiu. Estou aqui. Como se a memória só naquele momento estivesse despertado. E aberto as suas gavetinhas. Expondo fotos. Marcas. Traços. A própria história. Desde sempre.

 

Obedeceu. Agradeceu.

 

Foi seguindo o percurso estabelecido. De vez em quando até fechava os olhos para sentir mais forte o cheiro. Depois abria os olhos com muito cuidado.

 

Como se assim pudesse separar cor por cor. Com lentidão. Para que nada escapasse. Ficara tomada de egoísmo. Egoísmo pelo puro prazer de quem retorna. Não sabia se havia esquecido aquela intensidade das cores. Ou se havia se defendido – acinzentando a tal intensidade daquelas cores. Tantas vezes o que parece - não é o que parece.

 

É muito mais fácil viver o prisma inteiro que um único ângulo.

 

Escutou sotaques. Regionalismos. Palavras que nunca mais dissera. Comportamentos que nunca mais tivera.

 

Recostou no carro. A cabeça um pouco para trás. E assim ficou. O tempo que o percurso durou. Virando com vagar para mais um detalhe. Ou para saber das ausências. Das mudanças. Das descrenças.

 

Foi retomando seu registro. Entendendo a própria presença. Se incluindo no estilo. Se re-compondo. Poderia sentir. Dizer. Repetir. Escutar. Sou daqui.

 

Olhou para todos os lados. Para todos os espaços. E respirou - tranqüila.

 

Por um período - estava de volta. Apertou forte a mão dele na dela. Sorriu.

 

 

 


Julho 06 2009

Fiquei olhando para ele. Sentado próximo a mim. Quase em minha frente. Quase. Falando. Por horas.

 

Vi quando chegou. Foi pontual. Na hora agendada – estava lá. Era o que parecia. Estar lá. Deveria conviver com aquele grupo há muito tempo.

 

Havia uma certa desenvoltura no caminhar entre eles. E todos o conheciam. Mas poucos se dirigiam a ele. Ou poucos ofereciam um espaço a ele. Ele cumprimentava efusivo. Exagerado - até poderia se dizer. Recebia de volta um riso social. Formal e polido. Mais ou menos assim.

 

Não sentou. Circulava entre o ambiente. Os passos fortes e rápidos. Mais fortes e rápidos que a situação solicitava. Carregando, sobre os sapatos, o verniz escuro da ansiedade.

 

A postura lembrava a de uma emergência. Como se tivesse vivendo um prazo a expirar. Passava de um canto a outro. Da porta à janela. Da janela à porta. Seu corpo parecia saído de uma dança flamenca. Esguio – mas exausto.

 

Esta a idéia que sugeria. Girava sobre si mesmo. Olhava para os lados. Para cima. Para baixo. Dava uma idéia de agitação. Muito mais interna que externa. A externa apenas coreografava a interna.

 

O olhar seguia o ritmo dos passos. Da dança. Cansado. Mas curioso. Olhar ávido. Ávido por retorno. Ávido por espaço. Ávido – talvez muito mais - por espelho. Mas era um olhar ambíguo. Como os passos. A busca parecia já vir com a certeza. Parecia conformado. Como se soubesse desde sempre o acolhimento que teria.

 

Comecei a entender. Atuava para si mesmo.

 

Ainda tinha o riso. Vez ou outra escapulia. Um riso alto. Frenético. Mas parecia ter o fim determinado. Como se o riso não tivesse destinatário. Era apenas uma obrigação do remetente – para o remetente. Os lábios continham o riso com a mesma força e rapidez dos passos.

 

Por fim escolheu uma mesa. Fazia dos objetos - íntimos companheiros. Acariciava a caneta. Dobrava e desdobrava o guardanapo. Percorria os dedos pelo copo de cima a baixo. Passava de leve os dedos pela toalha sobre a mesa. Assim - também - se amparava. Muito mais que nos passos - alegóricos em sua rapidez. Ou no olhar - míope de si mesmo. Menos ainda no riso aleatório.

 

E tão rápido quanto a escolha - começou a falar. Começou a expor.

 

Sentou-se diante deles. Ofereceu-se como um totem. Desfilou tabus.

 

Lembrei o mestre austríaco. Teria se encantado. Ou se desiludido de uma vez. Vai lá saber. São muitas as nuances da interpretação. Cabem – sempre - todos os tipos e gêneros.

 

Falava a idéia e contrapunha – sozinho - a idéia adversária. Fez um diálogo monologado. Ou um monólogo dialogado. Diante de todos. Discutiu. Concordou. Discordou. Recitou. Foi enfático em alguns momentos. Depois eufêmico por poucos instantes. Em seguida alheio. E repetia – quase matematicamente - esta sequência.

 

Sugeriu grifes. Citou filósofos. Redesenhou telas. Criticou conceitos. Exortou preconceitos. Ofereceu banquetes. Em nome da audiência. Fez da retórica uma dialética. E vice-versa. Desafiou paradoxos. A dança parecia não mais ter fim.

 

Alguém tentou um aparte. Ia discordar. Começou a fala com a palavra não.

 

Incauto. Ou inocente. Não se desafia um totem. Corre-se o risco imediato de ser imolado.

 

E assim foi. Não acabou de registrar a primeira nota e a regência se fez violenta. Alterou o tom de voz. A salada quase saiu do espaço que a continha. Uma taça balançou. O guardanapo encolheu.  

 

A vítima se recolheu. Se acautelou.

 

Notei que a mulher que o acompanhava apertou-lhe o braço. Num sinal de alerta. Sempre atentas. As mulheres. Não deve ser à toa que a preservação da espécie gira em volta delas.

 

Olhei para ele mais uma vez. Desta vez de forma bem mais disfarçada. Temi por outra imolação.

 

Diante da fala. Dos gestos. Dos objetos acariciados. Da luz do sol que vinha da janela. Diante de tanta citação. De tanta teoria. Não me lembro. Jamais. De ter visto alguém mais triste e solitário.

 

E o imitei. Concordei comigo mesma. Igual a ele. E desta forma me fiz mais próxima. Mesmo silenciosa. Tentei diminuir a solidão dele. Ao menos diante de mim para mim. Novamente igual a ele.

 

Conclui. Melhor mudar de mesa. Levantei e ri. Desta vez de forma bem menos disfarçada.

 

Ele me olhou - não devolveu o riso. O almoço acabou. Sai pensando. Se a solidão tem culpa. Ou desculpa.

 

 


Junho 29 2009

 

Estava calada. Aliás, nos últimos dias pouco falara. Algo estranho acontecia com o seu corpo. Sentia desânimo. Vontade de ficar na cama o dia todo. Já acordava assim. Nesse total desalento. Algumas pessoas mais próximas notaram a mudança dela. Até as mais distantes perceberam.

 

Justo ela.

 

Vivia em constante atividade. Nem bem acabava uma tarefa e já organizava outra. Fins de semana agitados. Ia ao cinema. Ao teatro. Ao parque. A Feirinha de Artesanato. Quando estava se sentindo sem opção ia até visitar canil. Mas parada - não ficava. Nada de ficar em casa deitada.

 

Alertava. Desativar a vida em Vida é ofender ao Universo. O Universo pretende ação. E lá se ia com suas idéias motoras em profusão.

 

Mas estava desse jeito. E sentia um mal estar ocasional. Em especial no final do dia. Atribuiu ao cansaço. Muito cansaço. Não sabia explicar do que. Ou contra o que. Com tudo isso acabara diminuindo o seu ritmo. Deveria estar descansada. Mas parecia esgotada.

 

Um dia acordou em absoluto mal estar. Não saiu da cama todo o final de semana.

 

Ele ficou apavorado. Ofereceu tudo. Negou tudo. Reclamou. Acarinhou. Fez sugestão de bom gosto. De mau gosto. Provocou. Ameaçou. Até comentou que devia ser coisa da idade. Aí ate se afastou um pouco. Achou que poderia sofrer uma agressão física. Mas nada a fez reagir. Ela só dormia e acordava. O esforço maior - foi mudar o lado do travesseiro.

 

Decidiu. Na segunda vamos ao médico. Ela respondeu. Nem pensar.

 

Estava com medo. Uma amiga sempre dizia. Depois que se descobre – o processo se acelera. Não. Ficaria assim. Era só cansaço mesmo. Vai ver acumulado. De muitos anos de atividade. Lá um dia o corpo cansou. Pronto. Foi isso. Mais um tempo deitada e o corpo esqueceria o cansaço.

 

Corpo tem memória fraca. Disso tinha certeza. Corpo esquece o que é frio – no verão. E o que é calor – no inverno. E vai ver o dela se atrapalhou. Confundiu agitação com inércia. E estava exercendo seu despreparo mnêmico. Isso. Até gostou deste diagnóstico.

 

Não fosse a pouca vontade de falar até teria dito isso a ele. Mas com uma certa tontura se aproximando e se afastando continuamente - achou melhor calar e pouco se mover.

 

Nada o convenceu. Na segunda foram para o hospital.

 

Ela pouco reclamou. Estava pálida. Sentia um desconforto no estômago daqueles que só se contava em filmes. Concluiu. O corpo deve estar se lembrando de algum filme. Deve ter esquecido que o final de semana acabou.

 

Foi para a sala do médico.

 

Entrou. Sentou diante dele. Ele ao lado. Apavorado. Olhava para o médico.

 

Ela explicava. Ou tentava explicar. Foi logo avisando sobre a teoria do esquecimento do corpo. Ou sobre o corpo confuso.

 

Solicitou alguns exames. De emergência. Já. Ela ainda tentou recusar. Mas a tontura a fez sentar de vez na cadeira.

 

Duas horas de espera - pelos resultados.

 

Enfim. O médico apareceu. Segurava alguns envelopes nas mãos. Avisou que precisava de mais um exame para confirmar a suspeita. Suspeita. Olhou para o marido que apertou a mão dela.

 

Entraram juntos. Ela deitou. Ele fazia o exame e olhava para a tela. Tudo que ela via era a cor sob muitas nuances. E movimentos. A esta altura já estava se sentindo mudando de espaço. E tão jovem. Quem diria.  

 

O médico sorriu. Para os dois. E falou. Não sei se o corpo esqueceu. Ou se o corpo lembrou. Mas são três. Três. Devem se lembrar em mais ou menos sete ou oito meses. Agora é seguir acompanhando.

 

O marido perdeu a voz.

 

Ela chorou.

 

Lembrou da amiga. A da teoria dos processos descobertos - e acelerados.

 

Riu. E todos riram juntos.

 

Estão lindos. Sim. Não param. Decidi comemorar. Quatro aninhos. E estão tão bem.

 

Ele está na natação. Ganhou uma medalha ontem.
Ele escolheu judô. Até incentivei. Para ver se sossega um pouco. Ele vive sob propulsão motora.  
Ele não. É tranqüilo. Adora ficar sem nada fazer. Adora uma cama e uma televisão no final de semana.

 

 

É verdade. Falou rindo. Eu nem lembrava mais disso.

 

 

 



Junho 28 2009

Nunca fizera algo sequer parecido. Sempre fora tímida. Recatada - como uma prima mais sarcástica a denominava. Quando queria ser mais cruel a chamava de recatadinha.

 

Estava sempre com expressão calma. Tão calma que até sugeria um conformismo. E devia ser. Porque de nada reclamava. Ou criticava. Enfim.

 

Vivia em um silêncio simples. Daqueles que nunca diz nada. Porque tem mesmo nada a dizer. Silêncio carregado de si mesmo.

 

Acordara cedo. Leu alguns jornais. Era um sábado chuvoso. Nublado. Cinza.

 

Ligou o computador.

 

Se alguém quisesse explicar o que seria um corte no tempo – ali estava. Materializado. Tudo mudara. Não o tempo. Estava ainda cinza e frio. Mas ela sim. Estava vermelha e acalorada.

 

Diante da tela. Agitada. Falando pelos dedinhos o que nunca falara pelos lábios. Pela vida toda. Na busca de encurtar o tédio usou a curiosidade. Nada melhor que a curiosidade para diagnosticar o tédio. E afastar as suas causas.  

Era uma sala de pessoas da mesma faixa de idade. Não do mesmo sexo. Nem da mesma disponibilidade. Mas estavam lá. Por certo com a mesma projeção que ela. Amparados pelos textos. Pelas palavras. Buscando mais semelhanças que diferenças. E encontrando mais diferenças que semelhanças.

 

Nem viu o tempo passar. Ele era mais objetivo. Perguntou o que queria saber. Respondeu o que queria ceder. Por horas ali ficaram. Tentando ler mais as entrelinhas que as linhas. Parecia um teste. Vocacional. Admissional.  Psico-social. Enfim passional.

 

Foi tudo tão rápido que já estavam até discutindo. Quase brigaram. Fizeram as pazes. Combinaram. Sim. Conheço. Vou lá ocasionalmente. Mas pode ser sim. O horário está perfeito. Até lá. Como assim. Vai ter que descobrir. Está certo. Saia vermelha. Só isso. Calça jeans não vale. Vou falar com todos lá.

 

Certo. Malha vermelha. Adorei. Combinado.

 

Desligou a tela. E parecia que ela se ligara. Numa voltagem alta. Porque começou a correr pela casa. Procurando saia. Blusa. Sandália. Sapato. Sandália. Alta. Baixa. Olhou para os dedos. Horríveis. Não os dedos. As unhas.

 

Telefonou para o salão. Não tinha mais reserva. Fez uma expressão de horror. A mocinha deve ter visto. Porque arrumou um horário em seguida.

 

Passou as mãos pelos cabelos. Não poderia ir assim. Telefonou de novo. Para o mesmo salão.  A esta altura a mocinha já estava permissiva. Foi um tal de pode sim. Claro. Pode deixar. Dá-se um jeito. Pode vir. Finalizou com um autoritário vem logo.

 

Obedeceu. Foi.

 

Sentiu um toque no braço. Você por aqui. Hoje. Que aconteceu. Você sempre tão sem vaidade. Decidiu assistir televisão de unhas pintadas. Riu.

 

Era a prima – a do recatada. Não poupava ironia. E se divertia. Parecia que nada mais tinha a fazer. A não ser perguntar e responder. Sim. Não aguardava por respostas. Satisfazia-se com as perguntas. Em parte. A outra parte era comentar a programação da noite. Não a convidaria porque sabia que ela não ia gostar. Poderia sentir sono cedo. E deixaria todos preocupados por voltar sozinha.

 

Por um segundo se calou. A prima do recatada. Talvez para buscar fôlego.

 

Procedimento correto. Porque foi nesta brecha que ela falou. E a prima quase- seriamente - perdeu o fôlego que – divertidamente - buscara.

 

Não iria. Obrigada. Por favor. Pinte de vermelho. Tenho um encontro. Hoje à noite. Pode deixar com cachos soltos. Não. Quero soltos. Nada de cabelos presos. Sim. Como ia dizendo. Tenho um encontro. Quando. Hoje. Pela manhã. Eu de camisola. Ele de cueca. Um encontro casual. Que deu certo.

 

Marcamos mais tarde. Para dar tempo de trocar a camisola. E ele cobrir a cueca. Depois explico com calma. Agora quero fazer uma massagem. E riu.

 

Riu mesmo.

 

Não desistiu. Não tremeu. Nem temeu. Escolheu a blusa. Colocou a saia vermelha. Combinado é combinado. Sandália. Fez o próprio reconhecimento diante do espelho. E saiu.

 

Ele chegou. Bela malha vermelha. Pensou mas não comentou. Ela se aproximou primeiro. Deu um beijo sorridente - mas cauteloso. Ele sorriu.

 

Falou qualquer coisa. Com o barulho do lugar ela não entendeu. Sorriu de volta. Ele indicou uma mesa. Ela aceitou. Escolheram bebidas. Ele fez um comentário. Você é sempre assim decidida. Ela negou. E se eu estivesse acompanhado. Ou esperando alguém. Por que você faria isso. Sabia que eu viria.  Ele fez um ar estranho. Ela notou. Mas desconsiderou.

 

De repente olhou para a porta de entrada. Do restaurante.

 

Lá estava. Bem ali. Um senhor. Com uma malha vermelha e um vasinho de flores. Pesquisava o ambiente por trás dos óculos.

 

Olhou para o seu parceiro de mesa. Entendeu as perguntas.

 

Riu. Só riu. Não tinha mesmo muito a fazer. Imaginou. Se a prima do recatada estivesse ali.

 

 

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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