Blog de Lêda Rezende

Dezembro 26 2011

 

III

 

Rotina é rotina. Uma vez alcançada – é um ritual como se com ela se tivesse xifopagamente nascido. Depois de tantas mudanças externas e internas – uma rotina realmente se fez necessária. Talvez a única e estreita forma de tentar que a sanidade não se mudasse de vez de mala e cuia sabe-se lá para onde.

 

Ou se faz a rotina – ou se faz a medicação. Tem que saber escolher e ceder. Até os ímpetos têm lá seus momentos marcados. Assim ela – a Leticia - falava em forma de chiste duplamente disfarçado.

 

Mas finalmente habituada à tal rotina que criara em prol desta Filosofia da Percepção – Leticia estabeleceu os novos vínculos com as novas atitudes e fantasias. Sentia-se bem. Aliás – nem sabia que estava se sentindo tão bem até o momento em que muitas pessoas começaram a apontar. Não havia um só dia que os que com ela conviviam no cotidiano não comentassem – está mais jovem e está diferente. Pessoas que nem a conheciam a chamavam e timidamente elogiavam – permita-me lhe dizer que você está muito bonita com esta roupa. Ou elogiavam a pele. E quem já a conhecia e não a via com frequência - exaltava a diferença de anos anteriores e avisavam – está mais nova do que antes. Que beleza. E sempre uma curiosa observação seguia a pergunta – o que estava acontecendo a ela.

 

Se Leticia não tinha ou não queria a resposta certa – ria e fazia qualquer comentário generalizante - como se tirasse dela e jogasse no Universo. Se estava com mais disponibilidade citava a Física Quântica e as trocas cósmicas de Energia. Mais ou menos assim. Mas o que importava é que tirava dela a interrogação do outro. Virava uma exclamação – podia-se assim dizer. Ser tão seguidamente elogiada era novo para ela. Não sabia como lidar com a súbita vaidade oferecida e anunciada. E mais ainda – não costumava falar sobre si mesma. 

 

Vai ver aprendera isso com o pai. Ele dizia - quem revela muito de si mesma acaba esvaziada da própria identidade e preenchida pelo pensamento do outro. Não que não gostasse do pensamento dos outros – longe disso - mas neste momento em especial estava gostando um pouco mais de si mesma. Qualquer invasão tinha que ser bem dosada. Custara muito estar ali tranquila no novo apartamentinho de cinquenta metros quadrados. Tinha medo de aborrecer a Fadinha. Principalmente por saber que a Fadinha dela – era ela mesma.

 

A cada volta para casa – brincava com a Fadinha que deixara a casa arrumada e cuidava das plantinhas. Na saída – organizava e regava. No retorno – conferia e se divertia. Tudo em ordem. Eis os motivos que não saia sem arrumar todos os cantinhos. A volta sempre parecia mais feliz – e o tempo continuado. Quando entrava de volta na outra casa – a de médios metros quadrados e encontrava tudo na desordem do amanhecer ou do anoitecer – sentia que o tempo não fluíra. E não gostava disso. Olhava para o Universo e tentava se desculpar com a tal Energia que ficara prisioneira.  

 

Agora vivia um presente em continuidade. Disso gostava. Muito. Vai ver era mais um detalhe que a fazia se sentir ou aparentar renovada. Pode-se não saber a causa exata mas bem se pode colher os bons frutos dos efeitos. Isso acontece se e quando a causa – mesmo misteriosa - é bem tratada. Os mistérios escrevem as emoções codificadas e tem as próprias traduções – também codificadas - a serviço. Algumas vezes a maturidade ajuda a decifrar uma ou outra emoção. Algumas vezes.

 

Havia dias que ia passear na Avenida ou nas ruas das grifes. Ocasionalmente ia encontrar com alguma amiga. Raramente estava frequentando o cinema – hábito que vai lá saber qual o motivo – estava negligenciado. Deveria fazer parte das mudanças e de um atual detalhe constitucional. Estou vivendo a minha própria protagonização – pensou enquanto afastava o pensamento de filmes. Acalmou-se tão logo inventou esta palavra como sinônimo da atitude recém-criada. Deveria ser isso – concluiu. E deu por encerrada a menor que fosse possibilidade de culpa em relação ao que quer que fosse visto como compromisso desnecessário.

 

Em situação de impacto eufórico – Leticia brindou ao espelho a nova fase e sorriu. Estou até inventando terminologias.

 

Agora era a nova lei. Pessoal e intrasferível. Ria quando assim pensava e agia. Iria ao cinema quando desse vontade. As pessoas estavam certas - ela estava diferente. E compreendeu uma parte da tal jovialidade apontada – estava com atitudes novas e isso provoca reais efeitos no físico e na expressão fisionômica. A circulação se completa – o sangue se oxigena. Riu.

 

Enfim. Estava bem

 

E lá chegou a esperada sexta feira. Voltou para os cinquenta metros quadrados cheia de alegria. Antes passou no supermercado - comprou vinhos e queijinhos e água especial. Mais uma plantinha com flores amarelas. Como ninguém é de ferro – numa rápida olhada numa lojinha no caminho de volta - um vestidinho a chamou e insistiu para ser comprado. Obediente – cedeu. Assim explicaria ao gerente do Banco – amigo de muito tempo.

 

Entrou em casa. Fadinhas e plantinhas devidamente saudadas. Arrumou a bancada com as comidinhas de sexta feira e se serviu como se numa ceia coletiva. Estava tão adequada já ao novo estilo que – acompanhada de si mesma – Leticia fazia suavemente a própria festa.

 

Descobriu de uma tacada só que nem sempre se vestir com a própria pele é sinal de solidão ou de abandono.  É sinal de quietude interior. Não que seja este o caminho mais desejado – mas se ele vem – é buscar o melhor. Funcionava para ela – nesse período da vida – como se tivesse feito uma reconstrução. Não como a reforma material feita pelo senhor maravilhoso que trocara pisos e derrubara as paredes do apartamentinho novo. Mas dela mesma. Numa noite de insônia – surpreendeu-se com este pensamento. Entendeu que também derrubara paredes e arrancara portas – de si própria. Uma metáfora que a fez se auto-orgulhar. Pensou assim durante a tal insônia – e o sono veio forte e sedutor.

 

Dormiu segura sob o comando do Morfeu.

 

O tempo de adaptação e recuperação era particular. Convivia muito em harmonia consigo mesma. Às vezes brincava com as plantinhas dizendo – eu me amo. E em seguida se desculpava – amo vocês também

 

Até riu lembrando o Francesco – o convidado do primeiro Natal logo após a decisão da vida nova sozinha. Parecia já tão distante. Lembrava ainda a voz da mocinha positiva da agência de encaminhamento de companhia quando a solidão não fosse conveniente. Riu de novo. Esta parte também gostava dela própria. Criava as situações mais bizarras – mas conseguia lidar de forma administrativamente correta. Nunca mais soubera dele – do Francesco - ou da tia Luiza que mais viajava do que aterrissava. Vivia nos ares e nos mares. Bom para a tia Luiza que sempre fora tão arraigada à solteirice dela. Não sabia se o Francesco a expusera à Vida ou se ela expusera a Vida ao Francesco. Esse sempre um caminho de ida e vinda carregado de justas incertezas. Enfim. Sempre que a encontrava evitava o assunto. Cada um sabe do que quer falar – é preciso respeitar. E respeitava. Mas a tia Luiza parecia sempre muito bem – sorria fácil – algo bem difícil em tempos idos. Que se apossasse do que tinha que ser apossado. Vez ou outra percebia-se uma pulseira ocultando a tatuagem no pulso direito em forma de chama e com a letra F no centro. Outras vezes ficava à mostra. Deveria ter uma relação estreita com o estágio da relação e das trocas afetivas.

Leticia achava impossível não recordar o Lacan. Vai lá saber quem ocupa - na realidade dos laços - a posição fálica.

 

Até arriscou a revisar mentalmente Platão e os tais Erasteis e Eromenos. 

 

Vai ver é assim – de décadas em décadas as posições são mudadas. Quando pensou sobre isso – já estava deitada.

 

A sexta feira era um dos dias mais complicados no trabalho dela. Acordava muito mais cedo do que nos outros dias da semana e não era poupado um só segundo em torno do tanto fazer. Quando encerrava a atividade – estava sempre exausta. Naquela sexta feira não fora diferente. Repassando – fora uma das piores.

 

Colocou a tacinha de vinho na mesinha de cabeceira – o pratinho com alguns queijinhos. Antes de deitar uma ducha quente a fez lembrar toda a pele e cabelos fio a fio. Relaxou.

 

Apagou a luz do teto. Ligou a televisão. Pensou em Platão – quase foi pegar o livro na estante – mas deixou O Banquete para outro momento.

 

Preciso verificar se fechei a porta da rua e passei a correntinha – pensou enquanto se abraçava ao edredom.

 

O barulho fora forte. Não entendia bem de onde viera. Mas fora um estrondo. Escutou o barulho da correntinha da porta – na parede e na madeira. Alguém tentava entrar – ou definitivamente entrara. Não sabia o que fazer. Estava deitada. Sentiu algo nos pés. Até gelou. Mas compreendeu. Na pressa de deitar não tirara os sapatos. Nem notara até aquele instante.

 

Ficou ainda mais paralisada. Se levantasse de sapatos poderia fazer ruído no piso e quem entrava poderia agredi-la. Temeu tirar os sapatos antes de levantar – e caírem do colchão e fazerem o mesmo barulho arriscado no piso. Olhou para o piso e não enxergou o tapete. Tinha certeza absoluta que tinha o tapete. Mas sumira. Desistiu de pensar no tapete. O barulho da correntinha se repetiu. Sentiu que estava suada. Passou as mãos nos cabelos que pareceram curtos. E eram longos. Mas estavam molhados.

 

Deitada imóvel – aguardava que fosse quem fosse que entrara – aparecesse.

 

Olhou para a cortina – a janela do quarto dava para o prédio do lado. Mas deitada - não via o prédio nem a cortina. Desistiu de entender a cortina – ou a arquitetura. Vai ver era o escuro e o susto. Não conseguia assimilar mesmo a arquitetura. De repente os cinquenta metros quadrados pareciam redimensionados.

 

Encheu-se de coragem. O barulho da correntinha continuava. Ficou de pé. Estava descalça no tal tapete. Nem sabia onde tinham ido parar os sapatos. Mas ao menos lá estava o tapete macio e vermelho. Por um segundo sentiu uma confusão – de onde saíra o tapete com esta cor - vermelha. Notou uma luzinha - vinha do corredor. Mas isso era impossível. Não tinha corredor. Mas nem acabou este pensamento escutou os passos. O Tempo ficou em desacordo. O escuro só confundia e não conseguia enxergar direito. Não sabia o que fazer e não tinha para onde correr. Estava de pé descalça num tapete vermelho enquanto alguém entrava no apartamento dela. Deveria ter ido verificar a corrente mais cedo. Ou ter trancado a porta. Teve uma ideia. A faca. Dos queijos. Olhou para a mesinha de cabeceira e em meio a mais confusão viu a faquinha de cabo rosa. Caso fosse necessário usaria a tal faquinha. Mas não conseguiu pegar. Olhava para a faquinha - mas não conseguia pegar. Algo como se as mãos tivessem paralisadas. Ou o braço. Só a respiração estava forte. E àquela hora da madrugada não deveria ter um só vizinho acordado. Lembrou o relógio que ficava na parede da cozinha – mas não conseguia enxergar de onde estava. Melhor não se mover mais.

 

Queria gritar – mas não gritou.

 

Tudo que queria – parecia não conseguir.

 

Falou sussurrando – mas daqui não saio e só entra quem eu deixo - é todo meu.

 

O – é todo meu – a fez abrir os olhos de uma vez. Estava deitada – suada e assustada. Num gesto por certo corriqueiro há algum tempo – estirou o braço para o lado para segurar o braço dele. Dele. Não tinha ele.

 

Estava sozinha – foi a mensagem que o braço trouxe de volta – vazio e esvaziado.

 

Concentrada – entendeu. O pesadelo fora real. Tão real quanto o tal esvaziado.

 

Estava sozinha. Deitada na cama. A televisão estava ainda ligada - mas sem som. A cortina do quarto - fechada. Passou a mão nos cabelos e os sentiu molhados nas pontinhas. Para ter certeza de que lado estava – olhou rápido para o tapete. Verde. Não era macio – era uma tecelagem. A luz dos carros entrava pelo vidro da janela da sala – não fechara as cortinas.

 

Recuperada – levantou. A corrente estava lá presinha na parede e a porta trancada. Acendeu as luzes. Todas as luzes. Bendisse os dois lustres do teto. Saiu acendendo tudo que podia ser aceso. Abriu as cortinas. A do quarto. A da sala. Abriu até as janelas amplas. Nem sabia muito bem porque fazia isso. Vai ver era para sair o intruso. Riu. Janela a fora. E janela para dentro só entraria a Noite e os múltiplos odores acumulados pelo dia.

 

Mas isso era o de menos. Estava no próprio apartamentinho e tentava se encontrar com a realidade. O pesadelo viera como um intruso oferecer as certezas.

 

Já que estava tão suada e ao olhar o tal relógio que lá estava na cozinha em posição de visibilidade fosse qual fosse o ângulo – verificou que ainda era cedo - resolveu voltar para o chuveiro. Um novo banho poderia apagar as marcas da angústia e dormiria como desejara.

 

Entrou no banheiro. Deixou a água morna do chuveiro fazer fumacinha até os espelhos ficarem cegos. Colocou gotas de Óleo de Lavanda nos cantinhos – o vapor faria que se difundisse pelo pequeno ambiente e daria um toque de suavidade. Suavidade. Era tudo o que precisava.

 

Separou uma roupa leve e até trocou lençóis e fronhas. Quase riu lembrando a piadinha do marido traído que vende a cama do casal. Estava trocando a roupa de cama – como se elas respondessem pelo pesadelo. Ou como se tivessem traído a confiança dela de uma noite de bom sono. Mas assim fez e se sentiu melhor.

 

Saiu recolhendo tudo que fora usado. Colocou na máquina de lavar e somente depois foi para o banheiro – já enfumaçado o suficiente e com um aroma delicado da Lavanda.

 

Nem a música ela deixou de fora. Valsas. Ficaria ao som de Valsas de Viena. Nada havia que a deixasse mais normocárdica do que escutar Valsas. E no momento pareceu uma ideia solidária. Colocou as Valsas. Sem falar num pequeno detalhe – ainda estava assustada. Muito assustada. A música abafaria os sons externos – que por duas ou três vezes a fizeram parar em meio aos preparativos e ir verificar a porta da saída e a correntinha. A música ajudaria também a resolver a sensação paranóica.

 

Não poderia demorar muito com a tal sessão de exorcismo onírico – dia seguinte teria que estar bem cedo já bem acordada.

 

Mas continuou mesmo que mais acelerada. Antes de entrar no banheiro – olhou para a cama vazia. Lembrou a informação do braço. Nunca imaginara que os braços dão as medidas das decisões de forma tão objetiva. Olhou para a cama. Para os braços. Para o relógio. Sentiu uma tristezinha. Entrou no chuveiro.

 

Lavou os cabelos. Passou todos os hidratantes capilares que há tempos não lembrava de usar. Sentou—se no banquinho que ficava no box e fez até esfoliação de pés e cotovelos. Estava mesmo indiferente ao horário e privilegiando o relaxamento. Ou querendo se separar do que sentira muito mais do que sonhara.

 

Mas a noite ainda tinha muito que oferecer.

 

Quando saiu do chuveiro – lembrou. Colocara as toalhas também para lavar logo depois que optou por descartar desta forma o tal pesadelo. A esta altura giravam na máquina entre lençóis e sabão.

As janelas estavam abertas em parceria com as cortinas. As luzes da casa acesas. E o local onde guardava as toalhas de banho ficava do outro lado do banheiro e de frente para as janelas. Benditos cinquenta metros quadrados e a arquitetura do prédio vizinho. E ainda era cedo – não havia vizinho dormindo. Isto aconteceu no pesadelo anterior. Neste agora e de olhos bem abertos – tinha até vizinho na varanda com a família.

E lá estava Leticia mais uma vez lembrada pelos braços que estava sozinha. Não tinha a quem pedir. Isso era fato. E contra os fatos não há argumentos. Frase antiga – mas vingativa.

 

Mas nada que não pudesse ser rastejado. Foi o que decidiu. Abaixou-se. Toda molhada – engatinhou. Veio à mente uma observação de uma amiga Neurologista – quem não engatinhou quando nenê – não sabe engatinhar quando adulto. Fica com a coordenação para sempre comprometida. Enfim agora sabia – engatinhara quando nenê. Não sabia a validade ou a funcionalidade da conclusão – mas ali estava ela. Engatinhando com perfeição. Pernas e braços – os tais braços apontadores de faltas e perdas – ritmados e perfeitamente coordenados. Os cabelos e cremes hidratantes capilares pingavam deixando as marcas da desatenção no piso trocado pelo senhor maravilhoso – e no tapete verde de artesanato.

 

Tudo isso pensava e ria. Ria. Muito. Devia ser consequência daquele sintoma antigo. Baixara o oxigênio cerebral mais uma vez. Era o mínimo que podia fazer diante de tal cena. E ria mais.

 

Mas conseguiu.

 

Quando finalmente se deitou – depois de ter ido algumas vezes se certificar da tal correntinha na porta – respirou fundo. Olhou as janelas e as cortinas fechadas. A roupa de cama trocada perfumada. Um cheirinho de Lavanda ainda enfeitava os cinquenta metros. Com a mão percorreu como numa carícia o espaço amplo do colchão.

 

Antes de se entregar aos cuidados de Morfeu e rir disso – pediu a ele um pouco de comiseração. E uma noite de sono restaurador e reparador.

 

Deve ter atendido. Na manhã seguinte nem bem entrou no local de trabalho e escutou de lá – bom dia – está sempre bonita e cada dia mais. Precisa me contar o segredo.

 

Sorriu - não para a amiga que assinalava a mudança – mas para Morfeu. Enfim pareceram ter se entendido. Ao menos por uma noite.

 

 

publicado por Lêda Rezende às 19:58

Dezembro 23 2011

 

II

 

Com a decisão pela nova vida Leticia conseguiu um apartamentinho como queria. Uma maravilha. Minúsculo. Não caberia o que armazenara pela vida a fora de material nos cinquenta metros ditos quadrados – mas caberia o que importava.

 

No dia de conhecer o espaço fez um ar de resignação. Sendo assim – assim é.

 

A vendedora era uma senhora viúva embora muito bem casada com a desconfiança. Temia a compradora. Temia a família da compradora. Temia o

Banco onde sairia o financiamento. Temia os documentos do Banco. Era uma temeridade que dava até para tocar de tão bem constituída. Ficara viúva há dez anos mas ainda seguia as orientações imaginárias do marido e as reais dos filhos.

 

E lá estava Leticia.  Em meio a tanta temeridade – atribuída de tanta coragem. E as duas em contraponto total iniciaram as negociações.

 

Caminhar em cinquenta metros quadrados e repletos de paredes foi como passear num estranho labirinto de só um caminho. Não tinha luz no teto. A luz era embutida na lateral de uma das paredes da salinha. A cozinha era um canto escuro por onde outra parede fazia um isolamento quase penitenciário. No quarto uma parede impedia que da sala e da cozinha soubessem que poderia haver vida útil ali dentro. Ou inútil.

Um banheirinho encerrava o percurso por onde se voltava por entre paredes.

 

Mas de frente para o que chamaria de excesso entre faltas – estavam dois janelões que abriam para um jardim do prédio vizinho. Um lindo jardim com uma fontezinha por onde circulava a água e o barulhinho dela. E a rua - a ampla avenida que ela sempre gostara.

Iria morar no bairro que adorava. Próxima de um dos filhos. Diante do local de trabalho e perto da outra avenida que também abrigava todos os caminhos do prazer. O cinema preferido. A Livraria preferida. As lojinhas preferidas.

 

Se descesse a rua - estaria diante das grifes e cafeterias.

 

Não seriam paredes em excesso e espaço em falta que a fariam desistir deste mundo lá fora. E já aprendera que fantasias e expectativas não se entendem muito bem com metragem. Tanto faz - o mundo lá fora é bem maior que esta bobagem de espaço interno.

 

E diante da viúva temerosa foi avisando com clara disposição - adorei. Vou comprar. A viúva até sorriu e comentou – assim fácil?

Não tem que ser difícil. Gostei. Quero. E se posso – vamos resolver a forma de trocas de domínio.

 

Lá se foi com papeis daqui e dali – e a sequencia se fez com a suavidade nem sempre habitual.

Assinou. Assinaram. Cada um com sua posse. Uma tinha teto. A outra tinha o pagamento.

E a viúva temerosa foi lá feliz ver a conta bancária – enfim encerrado.

 

Ai começou a etapa seguinte. Tirar o que tinha e criar o que não tinha.

 

As paredes foram as primeiras a sair do ambiente. Paredes e portas. Nunca na vida a Leticia havia lidado diretamente – ou indiretamente - com reformas. Sempre olhara de longe e com um temor parecido com o da viúva. Mas era chegada o instante. Parecia que atualmente este era o estilo. A chegada do instante. E mais uma vez acreditou que com instantes e com chegada não se menosprezam.

 

Enfrentou a reforma.

 

O senhor Everdson – nome que custou a entender e decorar – veio em auxilio. E a acalmou - fica tranquila – sou bom e pontual. Acreditou. Aliás - nada mais restava a fazer a não ser acreditar. Com todas as alterações de vida continuava trabalhando a semana toda e o dia todo. Ou confiava na palavra do senhor Everdson – ou confiava na palavra do senhor Everdson. Nada melhor que a falta de escolhas – deixa a decisão bem mais linear. Nada de gastar tempo com isso ou aquilo. Perfeito. E assim foi feito.

 

Nada de paredes. Nada de portas. Nada de iluminação indireta. Duas saídas para fios surgiram do teto. Um piso novo foi colocado. A casa se encheu de luz. Muita luz.

 

Cada dia que ia até lá – sorria. Está tão lindo. O senhor é tudo de maravilhoso senhor Elson – Evesio – Everdson. Ele ria por todos os motivos. Pelo elogio efusivo que não parecia habituado e pelos três nomes que sempre a Leticia o nomeava a cada encontro entre argamassas e fiação.

 

Até que no dia combinado ele avisou – pode trazer a mudança.

 

E ela levou. A mudança.

 

Lá estava a Leticia mais uma vez diante de caixas e caixas. Desta vez não ficou assustada – nem foi para o Hospital. Nesta parte já estava experiente desde a primeira mudança. O que repetia era apenas a questão espacial. A Leticia podia entender de tudo - menos de espaço. Sempre considerava o espaço visual bem maior do que o real - aquele que se mede em metros. Este era complicado. Pelo visto era um sintoma – sem cura.

 

Mas enfim. Uma parte do que não coube deu aos funcionários da transportadora. A porta fechou.

Ficou ela e as caixas.

 

Não bem assim. Eles estavam lá. Os filhos e as norinhas. E lembra em especial do filho mais novo – o Roberto e da Cecilia – que se abraçaram a ela e pulando diziam – é seu! É seu! É seu! E riam muito mesmo em meio às tais caixas.

 

Caixa é o de menos. Um dia elas todas são abertas e desaparecem. Só isso. Tudo se resume numa questão de tempo em boa relação com o espaço. Somando a esta relação - uma tesoura para cortar os adesivos e um latão de lixo para descartar as caixas. Acrescentando ainda a ajuda da amiga Lilian que chegara de viagem para uma temporada na cidade e que ia - todos os dias - ajudá-la. Junte-se também a metodologia do

Luciano que num domingo foi até lá e resolveu que caixas amontoadas e pouca metragem não fazem parceria agradável – e com boa vontade e força muscular dispensou as caixas esvaziadas. O resultado desta soma foi igual a - casa arrumada.

 

A acomodação final se resolveu com o caminhar pelo apartamentinho. E o que pode ser movido – por certo pode ser adequado. Numa casa sem paredes – tudo pode ser movido. O limite passou a ser apenas a casa do vizinho. Sorriu no dia que concluiu isso.

 

Eis algo que nunca conseguiram tirar da Leticia – o bom humor. Juntava este tracinho estrutural com o pragmatismo e a impulsividade inerentes e jamais se conseguiria – logicamente - fechar a conta.

 

Com os cinquenta metros quadrados bem preenchidos e sem labirintos estranhos para circulação – sem caixas mais à vista - a vida foi retomando o ritmo de sempre.

 

Acordava cedo. Muito cedo - para trabalhar. Entendeu que esta foi uma pirracinha do Universo. Toda a vida detestara acordar cedo. E agora se via prisioneira de um despertador – objeto que odiava tanto quanto o horário que ele alardeava aos quatro cantos dos cinquenta metros – centímetro por centímetro. Durante toda a semana – incluindo o sábado – trabalhava. Muito.

 

Mas inegável que estava feliz. Sentindo-se plena e sob a própria conta e autoria – sentia-se dona absoluta da própria vontade. Durante tantas décadas nunca se sentira tão independente. Das compras à música – selecionava o que queria. Dormia quando querida. Como queria. Jantava se quisesse e o que quisesse. Falava ao telefone ou se calava. Até as unhas decidiu pintar na hora que queria. Encerrou por um tempo as idas ao salão por conta desta sensação lúdica. Faço o que quero e quando quero. Estava se sentindo solta. Leve. Olhava até os pés – numa metáfora divertida. Agora eu comando.

 

Esse era o pensamento constante.

 

Estabeleceu algumas rotinas – também sob a própria voz de comando.

 

Deixava as janelas abertas – e cuidava das plantas. Esta uma novidade. Nunca fora atenta à plantas. Mas agora era. Cuidava com um carinho especial. Não havia dia que não as regasse com todo o cuidado. Quando uma delas ficou fraquinha – correu a uma floricultura perto e consultou a mocinha que se dizia entendedora e recomendou uma vitamininha especifica. Ameaçou – se algo de mal acontecer à minha plantinha vou procurar o conselho tutelar das plantas e lhe denunciar. A mocinha sorriu.

 

E a plantinha se recuperou verdinha de todo.

 

A outra das rotinas era sair de casa deixando tudo no lugar certo e perfumado. Organizava a cama. As roupas. Abria as tais janelas para as plantinhas receberam a luz do dia. Afastava as cortinas. A cozinha ficava impecável – sem paredes e sem objetos fora do lugar. Toalhinhas penduradinhas. Bancada organizada. Antes de fechar a porta para sair – mesmo tão cedinho – ainda dava uma última olhada para se certificar que deixava tudo na mais perfeita ordem. Ainda dava uma apertadinha no spray que colara numa das colunas sem paredes – para que o aroma de lavanda deixasse o ambiente saudável.

 

Quando voltasse – fingiria que uma fadinha fizera tudo isso – e encontraria a casa toda em ordem.

 

Fechava a porta e no caminho até o elevador – sentindo vontade de rir de si mesma. Nunca – jamais – em tempo algum - fora sequer parecida com o que era agora. Vai ver que a análise que fizera por dez anos causava os efeitos – dez anos depois. Nascera no lugar onde dizem que tudo é mais lento. Procedia.

 

Mas já deveria saber – quando tudo parece muito perfeito – uma falta tem que surgir.

 

Surgiu.

 

Nesta tarde a Leticia chegou mais cedo do trabalho. Nada a deixava mais em estado de euforia do que poder voltar logo para casa. Entrou. Tudo lindo e perfumado – pensou - esta fadinha é ótima.

 

Fez a outra parte da rotina. Deixou a pesada bolsa na cadeira da sala e foi à Padaria comprar o que seria o café da manhã do dia seguinte. Voltou. Preparou-se para o banho – ou ia se preparar.

 

Fazia parte do ritual separar as roupas do dia seguinte. Acordando tão cedo e tão revoltada com o despertador – seria um perigo estético deixar para escolher pela manhã. Corria o risco de sair com um sapato de cada par – no mínimo. A prudência foi uma boa conselheira.

 

Tudo resolvido – era entrar no chuveiro e depois se concentrar num filme. De repente – sempre é de repente – notou uma manchinha no chão que a fez olhar com mais atenção. Não vira antes e conhecia muito bem cada pedacinho do apartamento.

 

Mancha não seria o nome correto. Ela estava vendo mesmo. Não era sonho. Não era confusão óptica. Não era idealização de susto.

 

Era uma barata. Por certo entrara voando pela janela. Não se incomodara com a altura.

 

Uma barata sem neuroses – foi o que pensou enquanto tentava se acalmar. Um pouco de Freud quem sabe ajuda nestas situações. Mas não ajudou. A barata além de não ter neuroses de altura era muito bem resolvida. Ficou lá esparramada no meio da sala olhando as cores – vai lá saber. E tudo entre cinquenta metros quadrados. Quem sabe achou que estava diante de um castelo. Em tamanhos pequenos o mundo é vasto. Ou o mundo é vasto diante dos tamanhos pequenos.

 

Lembrou a viúva temerosa que lhe vendera os cinquenta metros quadrados. Sentiu-se quase uma alma gêmea. Deveria ter tido mais condescendência com aquela senhora.

 

Chega. Ordenou a si mesma. Está na hora de agir. Que Freud, por favor, se retire. Não. Que, por favor, Freud fique. Já era uma companhia. Pelo menos mais convincente do que a fadinha – que agora parecia completamente ausente. Deu até vontade de escrever um conto sobre A Fuga da

Fadinha. Mas enfim – voltou à realidade.

 

Decididamente Leticia não sabia o que fazer. Estava parada por trás do balcão da cozinha olhando para uma barata esparramada na sala. Discorria em pensamento sobre uma inexistente fadinha e não se movia. Nem ela nem a barata – ainda bem. Se a barata desse um passinho que fosse – faltariam metros quadrados para a pobre da Leticia correr em desespero.

 

Com a invocação pela presença do Freud – o inconsciente trouxe à tona uma cena acontecida há muitos anos. Era parecida com a atual – embora com algumas grifadas diferenças. Ainda durante o primeiro casamento e num apartamento de muitos mais metros quadrados do que o atual. Muitos mais. Não se interessava por plantas. O andar do tal apartamento era ainda mais alto. Chegou do trabalho e se sentou no sofá da sala nomeada como sala da frente. Olhou para a cortina balançando com o vento suave do final do dia. E viu uma mancha na cortina. Entre a cortina e o forro da cortina. Estranho – pensou. E se aproximou. Aproximou-se com calma – mas veio de volta ao sofá da tal sala da frente com uma rapidez de maratonista medalhada. Foi uma correria só. Lá estava aquecida e tranquila - entre os tecidos - uma barata.

Daquela vez resolveu de uma forma simples. Pegou o telefone. Pediu a ele que viesse logo para casa. Estava sozinha e tinha uma pendência que somente ele resolveria. Explicou. Detalhou. Acrescentou a própria imobilização para evitar que o motivo do telefonema dali saísse para local desconhecido. E os tantos metros quadrados teriam que ser milimetricamente vasculhados.

Ele riu. Mas encerrou o que fazia e voltou. E retirou do conforto da maciez dos tecidos – a barata. Ela já em cima do sofá – sem nenhum tipo de elegância – comemorou feliz o final do dia. Ele riu e acrescentou – desta vez pude vir – e quando eu não puder não sei o que você fará.

 

Ali estava ela agora diante da frase – não sei o que você fará.

 

Se ele não sabia – imagina ela. Não sabia mesmo.

 

Não tinha para quem ligar. Até poderia ligar – mas o ligado não iria até lá. Os cinquenta metros pareceram de repente uma imensidão. Até questionou por um segundo a retirada das tais paredes. Poderiam ter alguma utilidade agora – ao menos portas poderiam ser fechadas. Mas de portas só restaram duas – a da saída e a do banheiro. Se a barata resolvesse passear ou dar uma corridinha – estaria perdida. Ela. Não a barata.

 

Era uma questão agora dela. Aliás - muito mais dela do que da tal barata. Ainda pensou – deve ser da espécie este desconhecimento das neuroses de altura. A outra subiu ainda mais alto para ficar fazendo da cortina edredom. Sorte delas que nada temem. Corajosas em profusão.

Sem falar que de bomba atômica a era glacial – nada as extermina.

 

A esta altura – para repetir o termo – deveria estar mesmo assustada. Já estava elogiando barata.

 

Ainda tinha um outro detalhe. Espaço. Elas realmente não se interessam por arquitetura ou engenharia. São seres filosóficos. Restando algum cantinho – se espalham. E quem quiser que saia ou grite. Este mais um fato – elas não devem escutar. O que se grita em volta delas e elas nem se movem é de dar nos nervos. Algo como – quer gritar – pode gritar que daqui não sairei enquanto não me der vontade.

 

Agora estava invejando a barata. São históricas e não histéricas – pensou isso e quase sorriu. Quase. Não era situação para risos.

 

Olhou para as plantinhas. Verdes e saudáveis – que fantástico ser uma plantinha. Nem uma barata as faria correr. Só se viravam em direção ao Sol. Perfeito.

 

O que a Vida faz com as pessoas – pensou buscando recompor a sanidade.

 

Tentou lembrar as muitas formas de se livrar dela – a barata. Já haviam ensinado jogar álcool. Mas poderia tremer e a casa se inundar de álcool enquanto a barata corria feliz para outro cantinho. Poderia vaporizar com spray de inseticida. Este seria eficaz – caso ela tivesse algum em casa. Lógico – não tinha. O que não faltavam eram sprays – perfumadores. Não seria o caso de perfumar a barata. Podia chamar o zelador – mas até chegar ao interfone – ela poderia escolher outro metro quadrado além do que ela visualizava.  

Lembrou do maravilhoso senhor Elson – Evesio – Everdson. Mas até escolher o nome certo para pedir o tal socorro – a barata já teria aprendido tudo sobre metros quadrados.

 

Finalmente pareceu chegar a lembrança correta para a situação incorreta. Lembrou-se de uma amiga querida. Casara adolescente. Grávida. O casamento não deu certo. Numa noite o marido não tão adolescente quanto ela – avisou-lhe que havia se enganado. Não nascera para ser nem marido nem pai. Pegou os objetos que se considerava como proprietário - deixou as pessoas que considerava fora dos bens dele e saiu.

Ela foi morar sozinha num apartamentinho que o pai dela alugara avisando que era piedoso. A filha estava com quatro meses. Ela com dezesseis anos. Sozinhas e juntas. Numa manhã entrou no quarto da filha e encontrou uma barata. Telefonou para o pai pedindo ajuda. Falava com a filha num braço. A outra mão no telefone - e o olhar na barata. Ao ouvido chegou-lhe a resposta do pedido de ajuda. O pai dela foi lógico e específico – se você sabe fazer tantas coisas – deve saber o que fazer diante de uma barata. Resolva-se. Já aluguei o apartamento para você e já foi muito que fiz. Desligou. O olhar ficou encharcado. O telefone voltou silencioso para o devido lugar. A filha sorriu para ela. Ela deu-lhe um beijinho e a colocou com cuidado no berço. Com um sapato que estava caído num cantinho – matou a barata.

 

Nunca soube exatamente o que matara naquele dia. Mas nunca mais pediu ajuda a quem quer que fosse. Estudou. Formou-se em área de Ciências Humanas. Criou a filha que já tem vinte e oito anos. Casou mais uma vez. Nada teme – nem barata.   

 

Neste instante a Leticia jogou um beijo em direção ao nada. Mas pensava no Freud. Até sorriu. As lembranças realmente muito mais ajudam do que atrapalham.

 

Lá estava ela agora diante de si mesma. Os casamentos se foram. Os muitos numerosos metros com as cortinas ficaram para traz. Os médios numerosos metros também se desintegraram na posse. De quadrados sobraram apenas os tais cinquenta. Este - ela afirmava eufórica quando se referia ao apartamentinho – é todo meu.

 

É todo meu.

 

Por trás desta frase que acabou formulando em voz alta – repetiu para si mesma a que tinha escutado anos antes - quando eu não puder não sei o que você fará.

Igual às palavras mal saídas de dentro dela – Leticia saiu detrás do balcão da cozinha. Com uma vassoura dispensou para outro plano a barata invasora.

 

Voltou com calma. Limpou o piso com álcool. Tomou um banho como antes do fato havia planejado. Estava se sentindo bem. Muito bem. Deitou e dormiu.

 

Diferente da amiga que casara adolescente – ela sabia o que havia matado.

publicado por Lêda Rezende às 23:12

Dezembro 14 2011
I
Com os desentendimentos frequentes eles decidiram por uma separação amadurecida. Não que exista algo sequer parecido – mas entenderam ou declararam que a separação poderia ajudar na união. Mais ou menos assim. Uma Filosofia encobridora. Aliás - exatamente a função da Filosofia – sair encobrindo algumas verdades não muito suportáveis. Mas enfim. Assim decidiram.  O que não traz alegria ou ao menos não mantem a alegria – deve ser repensado. Ambos já experientes – era o segundo divórcio de cada um – compreenderam que havia chegado o instante. E com chegada e com instantes não se brinca nem se menospreza. Em geral o preço fica mais alto.
Que repensemos distantes no cotidiano. Assim falou a Leticia. Assim concordou o Luciano.
E diante de decisões só restam mesmo os atos. E os atos se fizeram presentes no dia marcado e na hora agendada.
A tristeza da listinha de pertences ficou na sombra das atividades. O trabalho foi cedendo espaço à emoção e quando notaram – já estavam os objetos em caminhões separados e eles em carros separados seguindo o que de material ficou etiquetado com o nome do proprietário. Cada um em direção ao novo suposto lar.
Esta uma sinopse que faz jus à etimologia da palavra. Pouca descrição e muita formalidade.
Na etapa posterior da separação – um passinho à frente – eles descobriram – ou ela descobriu - que algo não fora etiquetado. O que fazer nas festividades de família. Eles já não faziam parte – em dupla – das famílias opostas. Nem ela frequentava a dele – nem ele frequentava a dela. Eram células estanques sob esta óptica.
A primeira festa que os surpreendeu sob a nova Situação Civil - foi a do Natal.
Já estavam separados há muitos meses e o Natal a fez lembrar – de um modo abrupto – o tempo que passavam juntos. Lembrava o último Natal. Havia sido comemorado com toda a intensidade justificada. Até os familiares habitantes do exterior vieram se unir ao festejo. Fora um Natal dos mais felizes. As fotos eram tiradas em sequencia e por todos que tinham uma maquininha à mão. Leticia nem sabia da última festa que ficara tão feliz quanto naquela noite.
Agora estava feita a diferença.
Sim. Natal.
Todos viriam para a festa na casa do filho mais velho – inclusive ele - o protagonista do primeiro divórcio - com a atual esposa. Viriam casais e casais. Simples assim.
Somente ela estaria no singular. E pior. Combinaram presentes de casal. Um presente para o par. Perfeito. Economia em tempos de consumo sempre é bem vinda. Mas não para ela.
Leticia ficou - dias e noites - imaginando todas as opções de viagem que poderia fazer. Nem a Turquia escapou. Das excursões excêntricas às pequenas vilas na praia – todas foram passando na fantasia de escape. Viu-se de casaco e bota caminhando sob o luar oculto de alguma cidade mediterrânea. Depois no estilo intelectual por entre os bancos da Universidade de Salamanca. Descalça numa vilazinha do nordeste sem pé nem cabeça. Ou talvez no próprio apartamento servindo-se de si mesma com champagne.
Nada.
Eles não permitiriam e ainda seria maldoso deixá-los preocupados com ela.
Não tinha opção. Era encarar os casais e o casal formado pelo fruto do primeiro divórcio.
A Leticia tinha um traço estrutural interessante. Um não – dois. Era imediatista e pragmática. Dois traços maravilhosos - ou perigosos - dependendo das situações.
Interessante – pensou ela. É época de consumo. Tudo se vende. Tudo se aluga. E silenciosa deu uns passinhos em direção à varanda da sala. Olhou para o Universo. Para a terra. Apropriou-se do ar e concluiu.
Vou alugar uma companhia. Perfeito. Um par.
Os pés e as mãos foram mais rápidos que qualquer bom senso seria – no caso de – o tal bom senso - querer se intrometer.
Foi o pensamento e o ato. Bom senso de fora e os dedos já dentro do teclado digitando a Agência.
Achou uma já na primeira teclada. Parecia elegante. Desde o nome até a localização. Ótimo. E ainda garantiam a integridade moral do contratado. Riu quando pensou qual a forma da garantia ou se ofereciam a mesma garantia em relação aos contratantes. Mas deixou a parte protocolar de segurança para um segundo momento. Este também outro tracinho estrutural da Leticia. Algo tipo – agir primeiro e refletir depois.
Telefonou ainda deixando que os dedos decidissem. Ia até pensar duas vezes quando escutou o alô – sim pode falar.
Já gostou. Maravilhoso o que se começa com o Sim.  
Ia explicar à atendente positivista os motivos da comunicação. Mas desistiu. Preferiu fazer logo as perguntas. As palavras também se adiantaram ao bom senso. Pelo visto – nesta maratona de final de ano - o bom senso iria perder. Era lento.
Bom senso é sempre lento. Vagaroso - ela diria num risinho irritado. A maioria até o invoca – mas ele sempre se atrasa. E o mais impressionante é que acaba levando os louros. Sempre haverá quem diga – se tivesse mais paciência o bom senso não permitiria. E o bom senso lento que deveria ser acusado – acaba elogiado e intitulado como – bom senso.
Enfim.
Afastando com a mão a tal espera pela chegada do lento bom senso - avisou o dia da contratação – ou melhor - a noite. O estilo. Até a roupa e o idioma ela pontuou. Não queria deixar dúvidas. Era um caso de vida ou desastre. 
Assim mesmo explicou para a atendente positivista.
Ela parecia tranquila do outro lado da linha. A cada pré requisito ela respondia o Sim. Não havia dúvidas. Ela receberia exatamente o que alugasse. E o pagamento seria em etapas. A primeira quando se decidisse. E a segunda no momento do encontro. Nada de sexual fazia parte da tal contratação – que esta observação ficasse bem assimilada. Era fundamental. Era uma Agência idônea – nesta palavra ela pareceu notar uma certa gagueira se antecipando à positividade – não sabia se pelo pouco uso desta palavra ou se pela pouca utilidade para a situação em questão.
Mas a atendente continuou com tom de voz objetivo.
Somos um grupo que entende que nem sempre a solidão é conveniente. E quando não for - temos a companhia intelectual correta. Assim. Claro como dois pontos. Sem reticências nem meias palavras. Ele será seu partner – e se despedirão tão logo os efeitos adequados estejam encerrados. Nada tem de ilícito. Muito menos de atentado à moral e pudor. São contratações de companhia e diálogos. Trabalhamos com pessoas sérias e de excelente passado e presente.
E acrescentou uma observação. Ainda bem que ligara tão antes da data. Nesta época as contratações se avolumam – e quem demora não consegue mais a companhia. Em datas de congraçamento a Agência tem o trabalho triplicado.
Por um segundo sentiu-se em Estado de Ambiguidade. Tanto se sentiu enturmada – como imensamente solitária. E pensou nas pessoas que fariam o mesmo que ela. Nem pode terminar o tal pensamento ou a tal sensação de se sentir nua na neve. Assim pareceu sentir. Nua na neve. Do outro lado da linha a mocinha positivista continuou a fala e a trouxe de volta da tal neve. Ou da tal nudez. Algo a mocinha positivista se empenhava em cobrir e aquecer. Devia ser antiga na função.
Já tinha o candidato que preenchia a solicitação. Enviaria a foto de corpo inteiro e de rosto. E os dados sobre idade e preferencias intelectuais. Assim fez. Assim Leticia concordou.
Um par. Perfeito.
Falaram pelo telefone. Depois pela webcam. Francesco era o nome dele. Além do Português - falava também Inglês e Italiano. Viera para esta cidade muito garoto ainda com os pais - de uma região da Itália que avistava o mar pela janelinha da casa. Era o que de mais forte ficara gravado na memória. Crescera e estudara nesta mesma cidade – distante do mar. Trabalhava fixo numa Empresa multinacional. Nas horas de folga fazia o serviço requisitado. Entendia de cidade grande e de gente solitária. Ou de gente grande e de cidade solitária. Fez ele este chiste mas sem muita convicção que estivesse agradando. Leticia optou por deixar de lado – tanto o chiste como a convicção ou falta dela.
Mas o achou decidido e verdadeiro. Nada de falinhas moles ou tons de sedução. Agia como contratado para um evento público. Ótimo. Ficou concluído – combinado e acertado.
A noite chegou.
O mês que antecedeu a chegada da tal noite foi de pura preparação. Inegável que estava ansiosa e insegura e não necessariamente nesta ordem. Escolher a roupa que usaria foi muito mais complicado que o ímpeto de ligar para a Agência. Não havia um só dia que não ficasse diante do próprio armário ou diante de alguma vitrine implorando por inspiração.
Isso era novo nela. Quando ia às festas com ele – o Luciano – pouco se preocupava com as roupas. Até riu diante de uma vitrine mais sofisticada. Vai ver me vestia dele – e era o suficiente para me sentir linda. Agora sim. Estou em busca da minha pele. Mais ou menos assim. Os pensamentos eram tão contraditórios que vez ou outra se preocupava mais com a sanidade da mente do que com a arrumação do corpo.
O encontro foi marcado na esquina do prédio. Ele avisou que iria de moto. Uma Harley. Ela sorriu. De onde saíra a Harley. Já deu vontade de aguardar com mais paciência o bom senso chegar. Mas nada. Tocou o plano.
Na hora certa e quase sincronicamente – os dois chegaram.
Ele desceu da Harley com ares de Apolo. Realmente era mais bonito do que na foto e na webcam. Bonito e com uma elegância que acentuava ora um lado forçado ora um lado displicente. Mas não era natural. Adquirida – pensou ela. Talvez num cursinho de médio padrão. Ele a cumprimentou. Fez um elogio e beijou—lhe a mão. 
Bom. Já não tinha mais como modificar a situação. Enfrentou.
Subiram um trechinho da ladeira de mãos dadas. Como um treino de última hora. Ou a última olhada no texto que poderá cair numa prova. Francesco era alto. Ombros largos deixavam a camisa preta em queda suave. Cabelos castanhos alternavam uns poucos fios brancos. Pele clara. Barba bem feita. Observou uma pequena tatuagem no punho direito. Uma chama. Gostou. Combinaram as apresentações.
Haviam se conhecido há alguns meses numa Livraria na disputa por um único livro. Ele gentil – cedera. Ela grata – lera e emprestara a ele. E assim nasceu um afeto especial. A família dele viajara e escolheram passar o Natal juntos com a família dela. Descreveu as pessoas que estariam presentes. Falou dos filhos e enfim revelou os motivos exatos da tal contratação. Francesco parecia achar tudo obviamente natural. Como se isso fosse o comum – o rotineiro em qualquer vivente. Diferente seria algo diferente. Foi o que comentou – numa segunda tentativa de chiste. Ela entregou a ele um presentinho enrolado num delicado papel prateado. Avisou – você me entrega como meu presente de Natal. Coloca na árvore e me entrega na troca de presentes. Combinadíssimo.
Ele a incentivou a relaxar. Esqueci de lhe contar - estudei teatro por três anos. Fica tranquila.
A porta do apartamento de Aline já estava aberta. Todos já haviam chegado. Renato – marido da Aline veio recebê-la e pareceu se divertir com a apresentação do Francesco. Deu um riso de bom entendedor que não precisa nem de meia palavra. Ela riu de volta. Roberto se aproximou com a Cecilia e pareceu menos entusiasmado. Mas nada comentou. Francesco ao ser apresentado disse a ele num tom de gracejo – pode me chamar de papai.
Neste exato instante todos que conversavam – calaram. Nunca vira algo tão imediato. Nem sabia explicar quem nascera primeiro. Se a palavra papai ou se o silêncio. Mas ecoou. O silêncio permitiu a palavra papai voar pela sala e se aproximar de todos. Não faltou um só par de olhos que não tivesse girado em direção ao Francesco e em seguida ao Roberto – que educadamente apertou-lhe a mão.
Neste instante a Leticia tremeu de leve. Lembrou de imediato da tal nudez na neve.
Mas Renato veio em seu auxílio e disse sorrindo – certo papai – vamos entrando. Desta vez um novo som – riram. 
E aos poucos os olhares foram – não sem pouco esforço – girando para outros contornos.
Clóvis estava sentado num sofá mais ao fundo da sala. Parecia – como de hábito – alheio ao ambiente. Talvez tenha sido o único que olhou sem ter escutado o tal papai. Virou como num coral. Seguiu os outros. E justo ele – a tal consequência do primeiro divórcio e causa da contratação do partner intelectual. Ao lado dele estava a atual esposa – a Carmem. Vestida num longo de tom roxo escuro e justo - recostava lânguida a cabeça no ombro dele a cada vez que se dirigia à Leticia. Mas abriu um pouco mais os olhos ao ser apresentada ao Francesco.
Em cadeiras unidas sentavam-se espigadinhos e algo tímidos os pais da Cecilia. Cumprimentaram o Francesco com uma pouco de interrogação. Não pareciam entender tão rápida reintegração de dupla da Leticia.
Os pais da Aline agiam como se o Francesco fosse um velho amigo da família. Convidaram a sentar e ficar à vontade. Lilian – a mãe da Aline - não se deteve em detalhes nem em generalidades. Álvaro o pai – sempre desatento – o tratou como acreditou ser a verdade – um amigo antigo da família.
Havia ainda a tia Luiza solteira e adaptada ao Estado Civil como se um sobrenome fosse. Ou um título. Pareceu mais surpresa do que recriminadora. E a prima Camila - que morando há pouco tempo na cidade - e sem os familiares próximos - fora convidada. Não tinha um cotidiano com aquela parte da família mas mesmo assim aceitara o convite.
Leticia entendeu – num fragmento de tempo. Estar só em datas festivas abre novas socializações. Cada um busca um agrupamento – seja adequado ou não. Como se o importante fosse muito mais a agregação do que o compartilhamento. Ou o afeto e suas incontáveis formas de demonstração. Mas dispensou as ideias conceituais. Não era momento para estabelecer conceitos novos nem repensar os velhos.
A Camila era de uma beleza especial. Morena. Alta. Altíssima. Magra. Cabelos e olhos negros. Destacou os contornos da anatomia com um longo preto – sem costas. Onde passava provocava alguns olhares – mas agia como se cega fosse. Não registrava. A expressão oscilava entre o tédio e o riso social. Não sabendo bem como agir já que não era habitual entre os participantes – se refugiava numa bandejinha de pequenos aperitivos e fazia da tacinha de champagne um convidado com quem conversava sem parar. Sim. A tacinha nunca se esvaziava – ou nunca se enchia - de todo. Havia sempre a complementação que ela permitia com prazer. Segurava a tacinha com um jeitinho especial – como se estivesse de mãos dadas com ela.
Enfim. Assim estava o ambiente. Ao aroma do banquete quase totêmico se misturavam o perfume das pessoas. Todos circulavam e vez ou outra um se aproximava de algum outro para uma suposta conversinha mais codificada.
A linda árvore de Natal acesa em todo o seu esplendor dava uma sensação de boa energia ao ambiente. Os filhos e as norinhas eram todos efetivamente alegres e bem humorados.
Francesco cumpria o papel a que fora requisitado com desenvoltura. A cada gentileza a Leticia agradecia – obrigada vida. Ele sorria e complementava com um forte sotaque italiano – prego Gioconda mia. E circulava com o estilo oposto ao da Camila - como se de lá ele nunca tivesse saído. Como se nascido e criado naquele ambiente e em convívio estreito com aquelas pessoas.
Se num minuto Francesco conversava com a tia solteira – no seguinte já estava com o Clóvis comentando a própria felicidade no relacionamento com a Leticia. La mia Gioconda é una principesa. Carmem com a cabeça sempre recostada no ombro do Clóvis – buscava entender as rápidas mudanças das cidades grandes. Clóvis parecia nem saber sobre quem ele falava. E vez ou outra repetia a pergunta – de onde ele viera e com quem viera. Até o confundiu com um parente que não via há muito tempo.
Assim estava a sala. Tudo em perfeita sintonia. Comidas. Aromas. Perfumes. Música. Roberto e Renato – sempre próximos. As meninas em torno deles e dos pais. Leticia bem servida e a esta altura já relaxada com a companhia contratada. Afinal não tinha compromisso com ninguém e era apenas uma forma de se sentir menos cobrada. Nada além de uma necessidade pueril de pouca explicação. E como tudo seguia como planejado – sentia-se bem à vontade. Os filhos a tratavam com o carinho de sempre e acabaram por se divertir com a nova companhia. Mas nada sabiam sobre alugueis e contratações. Achou desnecessário. A historinha do conhecimento na Livraria fora contada de forma tão enfática que já estava até acreditando ela mesma que assim acontecera.
Par. Perfeito. Perfeitamente - não fosse a prima Camila resolver separar as mãos dadas com a tacinha.
De repente a Leticia viu uma tacinha abandonada num cantinho da mesa. A chama do punho do Francesco desaparecida. E as costas da Camila fora de circulação.
Algo acontecera. Ou estava acontecendo.
Escutou um riso vindo do salão de entrada do prédio. Um riso não. Dois. Dois risos e um silêncio. Depois dois risos e outro silêncio – este já mais longo. E mais longo o próximo e já sem riso intercalando.
Lá se sentiu de novo nua na neve. Olhou em volta. Todos pareciam estar envoltos com a festa muito mais do que com os convidados. Não pareceram notar as ausências. Sentiu um mínimo alívio.
Mas não era mulher de meias palavras. Subiu um calor tão intenso no rosto que a neve – mesmo inexistente derreteu e ferveu. Por certo em algum lugar do Alasca teve uma geleira despencada. Aguardou. Continuou agindo dentro da festividade – embora grudada ao aparelho de ar condicionado. E quando olhava para a tacinha na borda da mesa abandonada – voltava flamejante o tal calorão.
Virou para a porta. Lá estavam. Camila sorria e acomodava os cabelos atrás da orelha. Puxou de volta uns fiozinhos rebeldes que estava por entre os olhos. A camisa preta do Francesco já não caia tão suave sobre os ombros largos como no começo da festa. Pareciam descompassados.
Leticia deslizou pela sala. Chegou junto deles. Avisou – que você prossiga com a segunda parte do pagamento.
Camila – que a esta altura estava ao lado do Clóvis e já de mãos dadas com a tacinha – avisou em bom som. Ele não é mesmo seu. É alugado para que este aqui – apontou para o Clóvis - não pense que você está só. Quem aluga não é proprietário. Nem pense em me dar lições de moral. Era o que faltava. Eu pelo menos não alugo companhia para fingir parceria diante de ex-marido. E apontou mais uma vez para o Clóvis.
Carmem ergueu de um golpe só a cabeça do ombro do Clóvis.
Clóvis – como de hábito alheio ao ambiente - virou-se assustado e repetiu algumas perguntas. Isso é comigo? Por que? Eu a conheço? Eu o conheço? Alugaram o que? Eu nem moro aqui. Ele não é o pai da Cecilia?
O melhor era mesmo seguir com a festa. Aline – sábia – aumentou a música e vários tons se misturavam com a orquestra. A tia solteira avisou que estava no momento de troca dos presentes. A tacinha voltou a ser abandonada na mesa. Escutou-se um agradecimento e um beijo jogado a todos. Camila saiu deixando a imagem das costas nuas nas retinas que a olhavam. Avisou que recebera um comunicado do Hospital onde trabalhava e teria que sair. Que o Natal fosse feliz para todos. Olhou para o Francesco e arriscou uma piscadinha e um gratisima amore mio.
Francesco devia ser um bom entendedor de contas a pagar. Ainda bem. Viva os financiamentos bancários. Rápido e por certo relembrando a cara do gerente do próprio Banco e das prestações da tal Harley - Francesco fez-se de Clóvis. Não sei o que aquela moça falou. O sotaque dela é tão estranho. Deve ser devido a tantas doses do champagne. Pediu para ir até o carro dela porque iria pegar os óculos. Comentou algo sobre lentes de contato e queimor em olhos. Não entendi bem. Coitada. Tão nova.
Andiamo mia Gioconda. Vamos trocar os presentes. O seu está aqui comigo. Mas vou por na árvore. Assim você ficará surpresa ao lado de todos da famiglia.
Leticia fez-se de Carmem. Recostou a cabeça no ombro de Francesco e numa pose que tendia à própria Gioconda, cruzou os braços - e por entre os braços cruzados escaparam as unhas. As unhas.
As unhas se anteciparam e lá foram se enfiar em meio à chama tatuada no punho do Francesco.
A chama esquentou. Francesco suspirou um gemidinho. Mas nada fez. Sorriu para a Carmem que percebendo levantou mais uma vez a cabeça do ombro do Clovis – que nada notou. Controladamente Francesco comentou - ela adora aumentar minha chama. La mia Gioconda é uma regazza cheia de surpresas.
Novamente tudo parecia sob controle. Mas aquele jamais seria um Natal comum.
Quando todos sentaram em torno da Árvore para a entrega dos presentes – ouviu-se um barulhinho na maçaneta da porta. Era ele. Luciano. Contrariando qualquer possibilidade e expectativa. Viera para desejar um Feliz Natal a todos e a ela em especial. Entre um beijo e um olhar acrescentou que saíra da festa da própria família e viera até lá compartilhar o restante da noite. Com ela e com eles.
Que noite.
Francesco – experiente – foi se afastando como se lá nem estivesse. Carmem – ao ver o Luciano - de um pulo só ergueu a cabeça do ombro do Clóvis e gaguejou um boa noite segurando a nuca. Cumprimentado – Clóvis perguntou se estava tudo bem na Itália. Os pais da Cecilia se recusaram a dar continuidade a qualquer tipo de diálogo. O pai em especial se recolheu diante dos próprios pensamentos. Nada mais falou – já que nada mais entendeu.
Lilian e Álvaro se mantiveram como devem se manter numa festa de Natal – participantes e socialmente compartilhantes. O acolheram como de costume.
A tia solteira suspirou forte em direção ao Universo – comentou em seguida ao longo suspiro que o melhor presente de Natal foi descobrir como a vida pode ser sobressaltante – e foi-se para entre os braços que o Francesco abriu em direção a ela. Francesco a aconchegou e sussurrou algo no ouvido dela que a fez rir e apontar para a própria bolsa.
Quando os presentes foram abertos e a tia solteira recebeu das mãos quentes do Francesco a caixinha como se para ela tivesse sido comprada – a voz dela surgiu doce e rouca por entre o barulhinho dos papeis rasgados. Falou em suave tonalidade - foi preciso crescer para ter a certeza da existência do Papai Noel. E em seguida um estalido. Este o real comentário da tia agradecendo a bela correntinha de ouro com o pingentinho de brilhante que o Francesco sensualmente colocava no pescoço dela.
Desta vez foi a vez da Leticia olhar a própria bolsa. Quanta despesa. Mas enfim. Quem não tem paciência não aguarda o bom senso chegar. Pensou e olhou de ladinho para o Luciano que conversava com os meninos – há tempos não se viam. Desde que o caminhão levara a parte etiquetada de cada um.
Lembrou uma frase que escutava quando criança de alguma professora mal humorada. Aqui se faz – aqui se paga. Ou seria o contrário. Aqui se paga – aqui se faz. Enfim.
Em seguida ao barulho da porta se fechando – veio o barulho da moto roncando. A tia avisou que sairia mais cedo. Francesco se dispôs a acompanhá-la e não mais retornou. Do hall do elevador pareceu vir o som da voz dela – rouca - falando algo como lo sole mio.
O Clóvis levantou e foi em direção a um espelho. Parecia se sentir envaidecido por ter ocupado um lugar de tamanho destaque. A prima Camila antes de sair tinha sido bem clara quando avisou que o tal Francesco era alugado para ser exibido a ele. Não entendeu bem as razões nem os porquês – muito menos o alugado. Mas foi se olhar narcisicamente. Pena que no caminho até o espelho esqueceu o motivo. Apenas arrumou os cabelos enquanto Carmem o chamava para a sala e colocava a cabeça no ombro dele.
Encerradas as trocas de presentes e após a muito alegre e afetuosa confraternização – foram se despedindo e saindo. Clóvis cumprimentou Luciano e comentou que iria a Itália em dois meses por uns dias de férias. Ofereceu-se para levar algo que quisesse para alguns parentes que porventura ele quisesse agradar. Uns livros talvez – já que ele gostava de ir a Livraria.
Luciano não entendeu muito bem – mas dispensou a gentileza avisando que era do Brasil – não tinha parentes na Itália. Clóvis nem piscou – mas observei que você fala todo o tempo em italiano. Que interessante.
Leticia ainda deu uma última olhada para a caixinha aveludada da joalheria – vazia – que ficara num canto. Comprara aquela correntinha que tanto queria e agora brilhava no pescoço da tia Luiza – que por certo percorria a cidade sobre a Harley.  
Os meninos felizes olhavam os presentes que deram e receberam e riam ainda das ideias da mãe. Só Roberto ainda fazia uma birra leve pelo - pode me chamar de papai. Renato somente ria. Aline foi reorganizar a mesa das comidinhas. Cecilia tentava explicar aos pais que o importante mesmo é deixar circular o amor que a noite de Natal reforça.
Depois do último brinde - Leticia voltou para a casa dela. Luciano para a casa dele. Ao abraço da saída ele acrescentou para ela - vamos seguir nos falando. Ela concordou sorrindo. E num gestual impetuoso – passou as mãos sobre si mesma – e gostou de começar a se vestir com a própria pele.  
Numa noite de muita chuva - a tia Luiza veio para uma visitinha rápida. Havia muitos meses que não aparecia. Desculpava-se por muita ocupação. Viera se despedir por motivo de uma viagem não planejada mas desejada.
Ao erguer o braço para um cumprimento mais afetivo – viu-se no punho dela - da tia Luiza - uma tatuagem. Uma chama. E dentro da chama vermelha uma letra. F.

 

 
publicado por Lêda Rezende às 22:59

Janeiro 18 2011

 

Como é difícil lidar com o Tempo. Tanta ansiedade. Tanta espera. E o Tempo lá.

 

Faltavam seis semanas.

 

Pensou - qualquer um diria que passa rápido. Respondeu a si mesma em tom irônico - qualquer um inexperiente ou comprometido no racional e emocional. Porque o tempo só passa rápido quando ninguém se importa com ele. Aí ele acelera. Mas se alguém passa a medi-lo - ele se diverte. E quando chega o durante - ele se prepara para correr. O antes é sempre lento. Eis uma relação verdadeira quando vista de frente para trás. Teve uma súbita compreensão do pensamento do mestre francês. Ele que falava em todos os seminários da questão do - logo depois. Procedia. Foi o que concluiu numa tarde de temporal.

 

E o que não faltava neste período era tarde de temporal. Se as conclusões dependessem do temporal – teria muito em breve um livro publicado só sobre conclusões. Todos os dias ao final do dia o céu escurecia. Os raios cruzavam com intimidade de um lado ao outro – qual um passeio familiar dominical. Os trovões pareciam sempre a postos - amontoados e espremidos em fila de espera. Apressados - nem davam o devido respeito à lei do som e da luz.

 

E numa tarde de forte temporal – sob raios e trovões – discorreu sobre o Tempo. Criou até uma nova terminologia. Com nome e sobrenome. Há o Tempo Preguiçoso. O Tempo Maratonista. O Tempo Indiferente. E o pior de todos - o Tempo Sádico.

 

Inventava e recriava com uma facilidade impressionante em situações de ansiedade ou de temor. Não que tivesse algum valor as tais invenções ou recriações. Era um estilo de defesa. E desta vez usava para suportar a espera da viagem com toda a fleuma possível. Fingia-se de desentendida consigo mesma. Eis uma guerra que tentava vencer batalha a batalha. Nem deixava a memória se espalhar. Ficasse pensando o quanto teria de prazer quando lá chegasse diante do mar – entraria em estado letárgico. E a rotina dela exigia concentração. Só nas idas e vindas é que inventava as tais terminologias. Sobre trilhos e sob temporal.

 

E assim apontava uma despreocupação com o Tempo. Talvez uma vingancinha no estilo esquizofrênico. Vá lá que fosse. Mas persistia. Cada um sabe por onde – e como – se defende.

 

A parte do batismo do Tempo foi numa manhã de aflição. Em meio ao percurso os trilhos pareceram segurar os vagões. E tudo parou. Nomeou de Tempo Torturador. O relógio não se fazia solidário e o risco do problema técnico aumentava a tensão de quem ficara retido dentro das portas lacradas. E lá estava ela. Fisicamente lacrada - mas ainda bem - mentalmente dispersa. Ainda bem. Decidiu que pensar em nomear o Tempo podia acalmar. E entre a Gramática e a prisão metálica – ficou confundindo o Tempo.

 

Quando finalmente foi liberada dos tais trilhos naquela manhã - todo um novo roteiro Linguístico havia sido criado. Descobriu aliviada que não há medo ou solidão que vença o poder da imaginação. Eis o Tempo Privatizado. Deve ter sido a única que desceu sorrindo quando as portas foram abertas e o aprisionamento desfeito.

 

Enfim. Nada a fazer.  E muito a fazer. Eis a ambiguidades do tempo de espera. Se fosse imediato - a liberdade seria lida de forma até precária. Vai lá saber.

 

Optou por prosseguir com o cotidiano de forma asséptica. Sem permitir muitos delírios. Se tudo já estava acertado – agora era apenas o caso de aguardar. Esta decisão surgiu enquanto caminhava de volta. Já se despira dos trilhos. Agora descia caminhando por uma pequena ladeira no sentido de casa. Com as nuvens escuras sombreando os prédios coloridos.

 

Simples. Concluiu enquanto descia mais pulando do que andando.

 

Mas era a fase de muito pensar. E um pensamento sempre arrasta outro. Sem dúvida. Este também tinha um nome e sobrenome. Pensamento Encobridor. E era o que mais tinha como alternativa para não se angustiar muito. Evitava contar as tais seis semanas que a separavam do prazer garantido.

 

E a palavra – simples – veio em auxílio do propósito. A palavra – simples – remeteu a um amigo antigo. Nunca mais o vira. Uma noite ele brigara com ela e se despedira. Foi objetivo. Você simplifica tudo. E simplificar nada tem que ver com a realidade da Vida. Não combinamos. A princípio acreditou ser uma observação filosófica. Depois viu que era verdadeira e material. Ele disse adeus. Ela disse – que seja. E nunca mais se viram. Lembrava que ele era muito tenso. Fumava. Reclamava tanto do trânsito que um dia deixou de dirigir. Contratou um serviço de taxi para atendê-lo a qualquer hora e em qualquer dia. Quando o taxi demorava – ele se irritava. Riu. Ele tinha razão - não parecia tão simples.

 

Enfim. Retomou de onde parou. Simples ou não – era o que tinha a fazer. Aguardar.

 

Quando entrou em casa o telefone tocou. Era a amiga de lá. Queria saber se ela gostaria de passar o Ano Novo lá. Viajaria para o velho e bom continente e o apartamento estaria à disposição deles. Ficaria feliz se aceitassem.

 

Deve ter feito um instante de silêncio. Deveria agora ser o Tempo Iluminador. Em toda esta etapa de decisão e passagens - esquecera de contatar os hotéis. Mesmo com uma distância de seis semanas - na época que iriam seria bem complicado hospedagem.

 

Ela continuou falando de lá – já que não tinha resposta de cá. Ofereceu. Confirmou. Avisou das facilidades. Convidou a todos que estivessem com ela. Espaço não faltava. E ficariam tranquilos quanto à locomoção. O carro também ficaria à disposição deles.

 

Desta vez foi um Tempo Santo.

 

Só não se beliscou porque odiava sentir dor. Mas custou a crer que tudo estivesse tão bem selecionado. Como se um destino uma vez estabelecido – o resto funcionasse sozinho. Independente. Destino com piloto automático. Parecia coisa de novela. De opereta. De – sabia mais lá o que. Mas era uma mágica favorável.

 

Ela de cá - aceitou. Agradeceu. Adorou.

 

Ela de lá respondeu – ótimo.  Estamos combinadas. Não nos encontraremos fisicamente. Quando vocês chegarem – eu já fui. Quando eu voltar – vocês já foram. Mas estaremos presentes de uma outra forma..E fico muito feliz por recebê-los em casa.

 

Desligou. Parecia a manhã que conseguira as passagens. Só que desta vez estava sozinha em casa. Caminhou para todos os lados. Sorrindo. E com uma mão apertando a outra. Desta vez não foi o habitual auto abraço. Desta vez se deu as mãos. Estava se sentindo acolhida. Esta era a sensação mais forte. Acolhida.

 

Telefonou para eles e contou. Riram. Concordaram com a sensação de acolhimento dela. Do mais místico deles ao mais pragmático – acharam uma comunhão de coincidências. E ratificaram a positividade da escolha. Entenderam como o momento certo no Lugar certo. Perfeito.

 

Ainda caminhando e organizando a rotina para o dia seguinte – fez mais uma nomeação. A do nome e sobrenome. Desta vez riu leve e sentou-se no sofá da sala. Soltou as mãos e os ombros relaxaram simultâneos.

 

Era um Tempo Altruísta.

 

publicado por Lêda Rezende às 22:05

Janeiro 17 2011

 

Quando todos combinaram ir para lá para o Ano Novo – apenas escutou. Desta vez não iria. Questões de ordem prática e funcional. Assim explicou.

 

A reclamação foi ampla e geral. Todos se amotinaram. Como assim não iria. Todos estariam lá. E justo ela que amava a festa e forma de festejo dos de lá. Ela estaria lá também. A amiga d’além mar. Viria para o Natal e depois todos viajariam para a cidade de origem – onde dizem até que é doce morrer no mar. Ou cantada em versos lentos a beleza de passar uma tarde ao som do mar. Insistiram. Mas ela confirmava. Desta vez não irei.

 

Estava firme na decisão. De inicio até optou pelos opostos. Iria para o Sul. Todos se espantaram mais uma vez – mas ajudaram. Se era o que desejava – que assim fosse. Indicaram agências confiáveis. Ela telefonou. Explicou. Sugeriu. Avisou. E de consulta a agente de viagem a consulta a agente de viagem – o Sul ficou rapidamente para trás.

 

Concluiu carregada de nova suposta sabedoria. Ficarei em casa. Aqui mesmo onde moro.  Ou quem sabe em algum restaurante de hotel. Vou me cercar de urbanidade. Gosto do que é concreto. E deu o assunto – por encerrado.

 

Descobriu que há nada melhor do que uma manhã chuvosa de domingo cercada pela referida urbanidade – para que uma decisão se faça totalmente desperdiçada.

 

Acordou e viu nuvens. Muitas nuvens. O céu acinzentado sugeria que o dia já estava avançado. Confirmou a hora com o relógio. Nada. Era meio de uma manhã de domingo. O dia mal começara e as nuvens já quase o davam por finalizado. Uma chuva forte complementava a paisagem.

 

A cortina natural que oscilava entre o branco e o cinza - a fez virar-se para ele de um golpe só.

 

Ele – calmo lia as noticias do dia. Recostado na poltrona digitava as páginas dos jornais e escutava música. Uma tranquilidade serena – para ser bem enfática. O dia parecia seguir uma rotina sem maiores novidades. A chuva se servia do terraço como posseira. O barulhinho das gotas volumosas no vidro da escada fazia um eco com a sala. E parecia só aumentar. Uma música invasiva desafinada que não atendia a controles remotos. Ela se aproximou da porta da varanda. Olhou a chuva. Ficou um pouco na pontinha dos pés para ver algo mais adiante. Olhou o céu. A rua deserta. Os prédios mais distantes ficaram com os contornos apagados. Tudo parecia uma massa só. E um ventinho mais frio entrou pelas frestas das portas e janelas que a fez sentir um súbito arrepio. Abraçou a si mesma – percorrendo os braços dos ombros até os dedos e refazendo o trajeto no corpo. Talvez em busca de algum calor mais externo do que interno.

 

Quem a visse e a conhecesse saberia que algo mudara. Cada vez que surgia este auto-abraço, podia-se assim denominar – uma mudança interna se operava. E muito mais intensa do que quando apertava apenas uma mão contra a outra. Mas enfim. Não estava sob análise - fez o gestual. E deve ter se compreendido. Ou incompreendido. Vai lá saber as leituras que um domingo de chuva possibilita.

 

Foi assim que a cortina natural que oscilava entre o branco e o cinza - a fez virar-se para ele de um golpe só.

 

Caminhou até ele sem formalidades ou pisar sorrateiro. Olhou para a varanda mais uma vez e virou-se para dentro da sala. De costas para a chuva. Sob o barulho das gotas volumosas no vidro da escada. De pé - falou em alto e claro som. Teria que vencer o tal barulho do vidro da escada. Não queria equívocos – desta vez. Já bastava o inicial da decisão entre o Sul e o urbano.  Não que desgostasse de um ou de outro. Mas era verão. Festas de final de ano. Era sobre o mar de lá que falavam. E todos estariam lá.

 

Com o uso pleno e resgatado - na íntegra - do sotaque do destino a ser solicitado falou objetiva. Fina como um estilete cortou o barulho na escada e a chuva com a frase - todos vão para lá menos nós dois. Gostaria de ir. Muito. É onde quero mudar o Ano.

 

Habituado ao estilo dela – ele riu. Só questionou superficialmente o por quê de não ter falado antes. Mas não aguardou a resposta. Não considerou mais necessário. E os dedos já trocaram notícias por companhias aéreas.

 

Ela aguardou. Silenciosa. Ia e vinha de sala a quarto. De varanda a cozinha. De livros a filmes. A exposição máxima da ansiedade quase pueril. Temeu por não conseguir. Estava já em cima da alta temporada. Deixou que ele resolvesse. E cuidou de se acalmar olhando a chuva. Mas só piorava. Alinhou e realinhou até os enfeites da mesinha de centro. Mais um pouco e teria pintado a sala. Ou escovado os tapetes.

 

Riu quando ele ergueu os olhos da tela para ela. Disfarçou um desinteresse. Um tanto faz. Uma precaução – talvez.

 

Ele rindo confirmou - fica tranquila. Já temos nossas passagens. Vamos logo depois do Natal.

 

Ficou feliz. Exultante talvez fosse o termo mais coerente com a expressão dela. Deu pulinhos. Beijinhos. Organizou horários. Reviu a agenda profissional. Fez e refez o calendário muito mais vezes do que deve ter feito o gregoriano criador da divisão dos meses e ano.

Telefonou para todos. Avisou que também iriam. Que já estava com passagens compradas e datas fixadas. Tudo resolvido. Comemoraram. Avisaram imediatamente à amiga d’além mar que de lá riu numa surpresa não muito convincente. Conhecia bem o funcionamento dela. Não negava que se surpreendera apenas pela demora na retirada de uma decisão e na tomada da outra. Até brincou. Deve ser o resultado dos anos passando.

 

Só conseguiu dormir muito tarde. A emoção estava maior que a razão. Desconsiderou a rígida hora de despertar - na manhã da segunda. Quando por fim o cansaço venceu - dormiu e sonhou com o mar. Com a areia. Com o sol quente na pele. Com letras de música. Com o dourado das comidas. Sonolenta - afastou na madrugada lençóis e edredons. Jurou sentir o calor de um vento morno com cheiro de maresia durante a noite – mesmo com a insistência da chuva ainda batendo no vidro da escada.

 

Acordou com o toque do despertador. Ainda chovia. Estava escuro.  Foi logo refazendo a véspera. Estava tudo correto. Não fora um sonho. Iria logo depois do Natal. Desceu as escadas cantarolando sobre coqueiros e pescadores – e seguiu o ritmo habitual.

 

Ainda faltavam três semanas.

 

 

 

publicado por Lêda Rezende às 23:09

Janeiro 16 2011

 



Já estava ficando até interessante. Não sabia se este era um termo pertinente. Mas não encontrava outro por absoluta falta de raciocínio. Estava em Estado de Abstraída. Vai lá saber se existe este recém criado estado - mas estava se sentindo assim.

 

Tudo começou quando recebeu um recadinho dele - assista ao vídeo da Mensagem de Natal da Empresa.

 

Ele criara o estilo. O texto. Escolhera a música. A sequência. Os escritores. Uma homenagem a quem se dedica ao ato da escrita. A lembrança dos caminhos que constroem a imortalidade. Quando ele explicou de forma sintética – ela entendeu de forma analítica. Quando ele explicou de forma analítica – ela entendeu de forma sintética. Riram.

 

Voltou para casa – foi imediatamente assistir ao vídeo. Deixou bolsas e chaves em qualquer lugar e se preparou para opinar. Assim pensou. Como são perversos os pensamentos desobrigados de convicção. Sentadinha – como quem assiste a um vídeo sem maiores euforias ou menores obstáculos – recostou-se no sofá da sala. Com a simplicidade exata que o ato em si requer e permite. E com a frívola curiosidade que o domínio do controle sequer questiona. Percorreu os caminhos indicados e com o cansaço do dia se fazendo vencedor – colocou uma almofadinha nas costas para aguardar o início.

 

Quando a tela abriu - achou maravilhoso. Narcisicamente inflou-se de orgulho dele.- e por ele.

 

O cansaço de vencedor passou a perdedor. A almofada foi a primeira a ser dispensada. Levantou-se reta – quase como diante de um hino. Ou diante de um chamado interior. Este sim – muito mais forte do que um hino. Recordou uma frase da avó de uma amiga. Se a captura não for mais interna do que externa não há emoção, menina, se a captura não for mais interna do que externa não há emoção. Procedia.  Quando esta ordem é invertida – é tarefa ou instinto.

 

O vídeo compunha-se de música e imagens. E um texto percorria as imagens ao som da música. A escolha fora perfeita. A letra falava da falta absoluta de arrependimento diante do bem feito ou mal feito na Vida. A voz dela – como um pardal - ia além dos decibéis ou da afinação correta. Era a voz de quem sabe o que canta muito mais do que por que canta. E era envolto pelas belas frases do texto que ele criara – uma celebração à comunicação escrita que dispensa e anula a vã temporalidade. Eis por onde se delineava a Imortalidade.

 

Chorou. A emoção foi maior do que a compreensão. Não entendia com racionalização o motivo das lágrimas. Mesmo que tantas vezes tivesse repetido que lágrimas e motivos fogem a qualquer coerência. E finalizasse esta frase sempre com um - ainda bem. Desta vez se interessou por um motivo. Uma causa. Uma conseqüência. Um intermezzo.

 

Nada.

 

Escutou repetidas vezes. Chorou na mesma proporção. A cada vez que assistia – chorava. Não um pranto. Mas um lacrimejar fino - espontâneo. Mais invasor do que dominador.

 

O Natal passou mais esta vez. Os festejos se encerraram. Aromas e sabores restantes ensacados e congelados. Enfeites retirados e enviados para o local de sempre. Papéis e laços de presentes amontoados e dispensados. A casa voltou à decoração cotidiana. Pouco depois os que vieram – voltaram. Os que ficaram – retomaram a rotina. Novos arquivos empurraram para trás a Mensagem de Natal da Empresa.

 

Num momento de rara desocupação resolveu ver os arquivos do computador. Faria uma espécie de faxina. Ao menos esta era a intenção consciente. Foi aí que apertou uma tecla e surgiu lá o caminho de acesso virtual – ao tal vídeo.

Arriscou. Vou assistir. Está tudo calmo e ordenado. Os pensamentos alinhados. A emoção navegando em águas doces. Vai ver fora o período. Ninguém passa incólume aos apelos da confraternização. Era uma explicação - senão objetiva – lógica. Ou o contrário.

 

Desta vez riu de si própria. Nada de cura. As lágrimas vieram desde a primeira imagem. Desde o primeiro acorde. E antes do canto começar.

 

Sentiu uma necessidade exagerada de compreender. Precisava saber o por quê. Entendia a letra da música – mesmo que o idioma fosse alheio. Reconhecia as imagens. Deteve-se no tal texto. Vai ver a resposta do mistério estava na leitura - e não na audição. Releu com calma toda a mensagem. Repetiu. Claro que com uma mão nas teclas e outra no rosto. Uma secava e outra apontava. Uma dança de mãos em meio a uma outra dança – qual uma sombra chinesa. Sabia que estava ali. Mas não conseguia ver a realidade. Sentia o que se passava – mas não conseguia contornar ou preencher o contorno.

 

Assim devem ser as des-orientações do inconsciente.

 

Telefonou para ele e contou. Até hoje choro com aquele vídeo e tanto tempo já se passou. Sei bem que só se chora pelas faltas despertadas em si mesmo. Tudo isso é óbvio. Nada de novo sob o céu. Mas a que falta remetia a choradeira diante do vídeo – eis a questão filosófica particular do momento. Até o inglês surgiu como possível ajudante. Entre o ser e o não ser – sempre repousa qualquer obscura questão.

Ele riu. Comentou sobre a reação analítica e a sintética. Sobre as trocas e os opostos. Sobre os muitos tempos que se misturam quando - uma música ou um texto - colocam as lembranças e a memória em Estado de Presença.

 

E entre o conflito do Ser ou Não Ser – optou decididamente pelo Ter.

 

Sem questão. Tinha o absoluto direito de chorar e se descabelar diante do tal vídeo. Quando quisesse se emocionar - ou discutir os contrários e os mistérios consigo mesma – tocaria na seta de iniciar. E que a memória ou a lembrança fizessem a parte delas. Por certo uma impede o que a outra não suporta enfrentar. Mais ou menos assim.

 

No final de tanto pensar e pesquisar a conclusão veio mais fácil. É assim que a Vida se faz demonstrativa. Muito mais pelo nada saber do que pelo saber. Muito mais ainda pelo esquecer do que pelo lembrar. Ou pelo excesso de mistérios em relação à escassez de soluções. Só o Tempo se diverte – sem marcas. Eis a Vida.

 

Despediu-se da fase inicial de abstraída. Com tranquilidade assistiu mais uma vez. Secou as lágrimas e deu continuidade ao dia.

 

publicado por Lêda Rezende às 01:05

Dezembro 05 2010

 

Decidiu retomar de onde parara. Acordou um dia e avisou a si mesma – vou resgatar o Francês. Riu. Até parecia frase de filme de conspiração. E vai ver era. Não o filme – mas a conspiração.

 

Levantou – procurou as informações. Telefonou para ela. Confirmou. Agendou. Certo. Na quarta final da tarde vamos retomar em estilo conversação. Perfeito. Já se sentia uma estudante de pós-graduação de uma daquelas Universidades sofisticadas.

 

Mas retomou a parte um da realidade e foi cumprir a rotina habitual. Desta vez mais ansiosa. Na volta faria algo diferente. Falaria um idioma diferente. Quem sabe era um sinal de mudança próxima. Vai ver o inconsciente avisava alguma viagem que ainda não se dera por consciente.

 

E entre sinais e rotina – estava de volta em casa. Ainda sobrava um tempo para organizar a mesa da sala para receber a professora do idioma distante. Separou canetinhas e caderninhos. Até um livro antigo saiu da prateleira da estante e foi ficar parceiro do tal caderninho. Preparou um chá quentinho para combinar com o proposto. Considerou tudo adequado.

 

Tinha ele. O cachorrinho. Fosse qual fosse o idioma – ele não se interessava. Tinha os próprios códigos e os próprios leitores de códigos. Compartilhava o que interessava no momento. Assim. Um mundo regido por regras e vontades especiais. Domesticado só mesmo na ideia - nos atos nem tanto. Enfim. Deixou que ele circulasse pela sala.

 

Chegou o futuro – ou melhor - a professora. Era uma jovem de aspecto mais senhoril. Engordara um pouco mais do que a pele gostaria. Mas estava bem arrumada e tinha uma expressão de suavidade e um gestual de delicadeza.

 

Sentaram. Começaram a conversa. Erres e esses foram desencaixotados. Dobras na língua fizeram as vezes de mademoiselle. Tudo seguindo conforme o programado e esperado – pensou entre um erre e um esse dobrado.  E perfumado pelo doce aroma do chá nas xícaras brancas com florzinhas cor-de-rosa.

 

Pensou muito cedo.  Precoce – poderia se dizer.

 

O cachorrinho. Vai lá saber o motivo – agitou-se. Subiu e desceu do sofá. Latiu. Pulou. Latiu. Rodopiou. Latiu. De um salto só foi até a janela e se engalfinhou com a gradinha. Latiu. Voltou. Repetiu tudo de novo. Latiu. Identificada a causa – ocorreu o que sempre ocorre. Surge a conseqüência. Um colega da escala zoológica - mas não de raça se exibia caminhando pela calçada. E provocava o coitado que - contido por entre grades – não oferecia temor. Eis o resumo do momento tenso.

 

Ela se sentiu constrangida. Preocupada. Afinal a jovem de aspecto senhoril poderia ficar desconfortável com os latidos e pulos – e os erres e os esses ficarem num plano secundário. Parecia que – de repente - tudo fugia ao tal proposto.

 

Levantou-se. Pegou ele – o cachorrinho que na grade se pendurava e latia - pelas costas. Colocou de volta no sofá. Deu um tapinha daqueles educativos e ordenou- não saia daí. E fica calado. Entendeu bem – espero. Calado e ai.

 

Foi-se virando já com um dos erres em posição de dobra quando se assustou. Quase que ela sim que atravessava a grade da janela com o susto.

 

Diante dela – em pé - estava a jovem de aspecto senhoril. O dedo erguido. O tom da voz mais erguido ainda. E em bom e acessível idioma local foi avisando. Estúpida. Grosseira. Impaciente. Deveria contratar um encantador de cães já que não sabe lidar com o cãozinho.

Assim. Em excelente e objetiva linguagem. Sem necessidade alguma de tradução. Muito menos de caderninhos e canetinhas. Explícito.

 

Olhou para ela. Confundiu gestos e falas. Caras e bocas. Torres e arcos. E nada disse. O cachorrinho deitou sossegado. Vai ver pensou nos riscos internos muito mais imponentes do que os externos. O colega de escala parecia agora talvez menos interessante. Sábio.

 

O tempo de aula foi completado. A jovem de aspecto senhoril saiu. Ela olhou para a mesa com os caderninhos e canetinhas. Sentou numa poltroninha. Tentou se localizar e organizar os idiomas vigentes e ausentes – e impertinentes.

 

Acalmada enfim – optou por dar por encerrado o resgate do idioma. Quase riu lembrando o filme de conspiração que imaginara pela manhã. Pegadinha do inconsciente – concluiu. E de conclusão em conclusão – veio a decisão mais recente. E a retomada - desta vez - da parte dois da realidade.

 

Arrumou a mesa como habitual. Guardou os caderninhos e as canetinhas. O livro antigo voltou para a estante. As xícaras brancas de florzinhas cor-de-rosa foram para o armário. A noite chegou. E com ela mais uma decisão.

 

Sentou desta vez diante do computador. Mensagem virtual.

 

Informou com objetiva cordialidade.

 

Vamos suspender as aulas. Fiquei muito grata com seu gentil conselho e obedeci. Consegui contatar um encantador de cães. Ele começará na segunda feira. Mesmo esta despesa estando fora da previsão do orçamento – compreendi a necessidade pelo estilo objetivo como você apontou. E você nem imagina o quanto lhe estou agradecida. Minha querida - permita-me lhe chamar assim - você não imagina a sorte que sua doce sugestão me trouxe. O encantador de cães é um senhor francês. Francês. Olha só como você é uma pessoa de bons augúrios e cuidadosa. Agora além de me ensinar a lidar com o cachorrinho – ele vai me ensinar a conversar em francês. Eis a perfeição de uma situação que graças a você – minha querida – ficou duplamente resolvida. Queria saber mais idiomas para me expressar em todos eles. Mas vou usar o nacional para evitar equívocos - adeus.

 

Clicou na tecla enviar com a pontinha de uma unha afiada. Desligou o computador. Sorriu. Riu. Não dobrou os erres e esses – dobrou a risada. Acariciou o cachorrinho que ao lado parecia também sorrir. Imitou um latidinho. Ele olhou desconfiado. Conferiu a hora. Ça va bien. Falou alto e ainda sorrindo. Imaginou o que uma determinada amiga diria quando escutasse este relato.

 

Fez um brinde ao encantador pensamento criativo que tivera – isso sim.

 

publicado por Lêda Rezende às 00:21

Outubro 11 2010

 

"Não é a fala que denuncia - mas o ato. Cada um é o que age - e não o que diz."

 

 

publicado por Lêda Rezende às 17:29

Outubro 11 2010

Acordar todos os dias na mesma prematura hora – era um ato que já beirava e ultrapassava a cota dela de sobrevivência – há muito tempo. Mas responsável aceitava - o que tem que ser feito – que seja.

O atendimento era preciso e pontual. Não faltava um só agendado. E se começava tão deliberadamente cedo - se encerrava sempre objetivamente tarde.Os anos passaram como as páginas do calendário – sem interferência da vontade.

Mas neste dia foi diferente. O amanhecer se fez diferente. O relógio não despertou. Vai lá saber onde estava o erro – mas não despertou. Não fosse uma força recém conhecida - a Força do Hábito - e teria ocorrido um confronto de alto risco entre o horário e a rotina. Enfim. Já se foi pulando cama afora. Escada abaixo. Armário a dentro.

Nem sabe bem como se vestiu. Estava tão assustada que conferiu os pés de sapatos já no elevador. Sim. Eram gêmeos na cor e no estilo. Ainda bem.

Quando pisou na rua – olhou para o céu. Nem acreditou. Com toda aquela correria – olhou para o céu. Mas olhou como quem olha para um outro céu. Foi o que pareceu - porque foi em outro céu que foi parar.

Assim recriou o mar de lá de onde viera. Há muito tempo.

Morava de frente para o mar. Acordava diante das muitas cores. Escolhia as roupas sob as mil nuances da água. Azul - mais próximo. Esverdeada - mais para longe. Azul escuro - mais no horizonte. A luminosidade era tanta que desde cedo - já era dia avançado. Seguia para a atividade profissional margeando – ou sendo margeada - por ondas quebrando na areia. O olhar pulava entre o asfalto - os barcos e as pedras. Abria o vidro do carro e servia-se do vento morno e do aroma - para aquecer com suavidade os sentidos.

Assim recordou o mar de lá de onde viera. Há muito tempo.

Subiu a ladeira que ainda se sentindo nem lá nem cá. Tentou fazer contas. Nunca fora boa nisso em outra situação - quanto mais diante desta nostalgia aguda que fora acometida de repente. Mas fez e refez as contas. Muitos anos. Muitos.

Tentou lembrar o cheiro do mar. Um carro apressado que passou por ela cortou de imediato o aceno para a Memória. Tentou sentir o calor na pele. O vento frio da esquina por pouco não levou a pele tremulada. Tentou recompor a imagem dos pontinhos de luz dançando nas ondinhas. Uma garoa fina a fez cobrir a cabeça.

Assim despediu-se do mar de lá de onde viera. Há muito tempo.

Mas antes de descer as escadas para o percurso sobre os trilhos – parou. Deu uma piscadinha para cima. Para o céu de cá que estava encoberto. Para as gotinhas finas que caiam sobre o rosto. Acomodou com delicadeza a bolsa pesada sobre os ombros - e concluiu.

Ah! Como eu gostaria de caminhar na praia - pisar na areia. Olhou para os sapatos gêmeos na cor e no estilo – merecem descansar um pouco. Riu. Preciso sentir o gosto salgado na pele depois do mergulho. Preciso renovar – para continuar. Preciso de fantasia para que a realidade se mantenha. Até ousou arriscar se não seria o contrário. Mas afastou o pensamento controverso. Já fora muito para uma manhã de atraso e correria. Quase falou isso alto em direção aos sapatos.

Deixou o pedido aos cuidados do Universo. Correndo – desceu para os tais trilhos e seguiu em direção ao já cotidiano – há muito tempo.

Mas repetiu. Ah! Como eu gostaria de caminhar na praia - pisar na areia.



publicado por Lêda Rezende às 15:51

Outubro 11 2010

 

Texto vencedor do Primeiro Concurso Cultural da Folha/UOL- Catraca Livre
http://catracalivre.folha.uol.com.br/2010/10/vencedores-da-primeira-edicao-do-concurso-cultural-da-rede-catraca-livre/


A noite estava calma. Dentro do que se consegue de calma – numa noite em meio a tanta urbanidade. Passara o dia entre carros e metrôs. O clima estava seco. Muito seco. Lacrimejava com facilidade. De onde viera isso era um acontecimento da ordem do impossível. Até do inacreditável. Mas não era momento para saudosismos ou comparações. Afinal mudara-se para onde escolhera bem lúcida e orientada – caso algum curioso Legal a questionasse.

 

Enfim. Prosseguiu o dia da rotina do jeito que a rotina se estabelecera – nem lembrava mais desde quando. E assim ficara. Apressada e lacrimejando. Já estava tão habituada que – por onde quer que colocasse a mão – já encontrava um lencinho descartável. Nomeara de “lágrimas químicas”. Sempre falava de si para si – melhor estas do que as emocionais. Deixa estar. E seguia o proposto.

 

A sala do atendimento onde trabalhava não tinha janelas. Não tinha janelas. Simples. Mas fora outra escolha lúcida. Ele avisara. Ou fica em sala com janelas e calor – ou sem janelas e ar condicionado. Não houve espera na decisão. Foi logo respondendo. Acho melhor sem janelas. E passava as horas funcionais dos dias ditos úteis – sem calor – envolvida por quatro assépticas paredes brancas. Muitas vezes fazia chistes consigo mesma. Lá vou eu para o meu lençol de concreto.

Era o oposto de lá de onde viera. A sala onde trabalhara por tantos anos – tinha uma janela imensa. A vidraça expunha a ausência da parede. Olhava para um azul sem tamanho. Do céu. Do mar. Sentia-se como num convés de um navio. Sentada para o atendimento – se girasse um pouco que fosse olhar – já via a água azul enfeitando mundo afora e mundo a dentro. Era lindo.

Em meio aos insistentes apelos da Memória – chegou em casa. Já no final do dia. Pingando o colírio. Os olhos estavam uma lástima. Lembrou a amiga de lá. Quase escutou a voz dela com o sotaque lento. Diria em explícito tom dramático – você está uma lástima. Falaria isso colocando com delicadeza os cabelos por trás da orelha. Até riu. Não tinha como discutir. Estava mesmo uma lástima. Ainda bem que era só a lembrança – a amiga estava bem longe. Dispensava àquela altura qualquer comentário de fundo negativo. Mesmo que compatível com a realidade.

Cansada – dormiu mais cedo. Dia seguinte era o tal dia mal falado como inútil.

Acrescentou um novo aprendizado. Começou a acreditar numa determinada força – sempre citada. A Força do Hábito. Assim. Merecidamente com destaque em maiúscula. A tal Força a fez levantar cedo – bem diferente do planejado.

O sono se foi de um golpe só. Nem acreditou quando viu o mostrador do relógio. Sacudiu. Olhou de novo. Quase se revoltou. Mas – obediente – levantou.

Abriu a porta do quarto com especial sensação saudosista. Vai ver sonhara com mar e navios. Ou com janelas e vidraças. Vai lá saber. Estava sem o registro exato do que se passara com uma parte dela – enquanto a outra parte dela dormia.

Abriu a porta.

O passo seguinte – não foi um passo. Foi uma espécie de parada. E um gritinho. Mão na boca. Olhar de criança. Sorriso feliz – disfarçado pelos dedinhos.

Na varandinha da sala estava uma flor. Uma flor. Nascera na noite. Uma linda flor brilhava toda sedutora num galhinho verde. Até o vasinho parecia exibido. Falou alto – a primeira flor da Primavera. Aqui na minha varanda.

Dispensou janelas. Desprezou paredes. Saudosismos. Tocou os navios Porto a fora. Abandonou o Colírio. Já foi respondendo à amiga – de lá totalmente inocente – estou muito bem obrigada. Olhou para a ladeira em frente à varanda e viu – surpresa – as árvores pesadas de tantas folhinhas verdes.

É Setembro. Nem lembrava.

Jogou um beijo em direção ao relógio. Regou a plantinha. Elogiou a florzinha. Agradeceu à Força do Hábito. Arrumou-se. Saiu.

O Parque estava cheio – mesmo tão cedo. As pessoas caminhavam de todo jeito. Crianças corriam livres. Vozes e risinhos davam uma sonoridade de prazer por onde se passasse.

Não resistiu. Dirigiu-se para um espaço ainda vazio – sob uma árvore. Sentou-se. Sentou-se com vagar. Como que pedindo licença. Primeiro olhou. Depois foi descendo a mão com suavidade. Expôs a  palma das mãos. Assim. Como um toque assintótico. Sentiu a proximidade. Depois repetiu o mesmo com a pontinha dos dedos. E com a mesma suavidade – acariciou o verde da grama ainda úmida da noite. Sentiu as gotinhas nas folhinhas já mornas pelo sol – que aquecia e iluminava com generosa cumplicidade.

Sentiu a beleza. Sorriu para o calendário. Sim. Setembro. Primavera. Parecia a primeira Primavera que assistia. Lembrou do compositor das Estações do Ano. Sentiu-se tão universalmente pequena. Ele sim. Um sábio. Festejava com acordes de violinos. Perfeito. Perfeito.

Acima os galhos das árvores balançavam com as folhas frescas e juvenis. Havia flores para todo lado que virasse. Havia cheiro de festa. Havia cor de alegria. Uma emoção só.

Em torno do lago o verde – fortalecido – o emoldurava. O gramado e as árvores pareciam se utilizar da água como um espelho. Fosse feita aquela perguntinha do existir alguém mais belo – a resposta seria fácil desta vez. E plural. Não. Existe nada mais belo do que vocês.

Em mil formas a água – ondulando com o vento – desenhava galhos e cores. Um ballet no ar e um ballet na água. Alguns gansos deslizavam com total intimidade – compondo mais imagens com as ondinhas provocadas pela passagem deles. Todos branquinhos. Pareciam tão altaneiros. Vaidosos. Dava gosto olhar para eles.

Sentiu o cheiro. Desta vez nem respirou forte. Com toda a delicadeza deixou aquele aroma bom de terra e árvores entrar pelo corpo. Escolheu fechar os olhos por um instante. Não como se numa economia de sentidos – mas para que se multiplicassem numa ordenação espontânea. Sentiu até um festejar nas veias e artérias.

Passou o dia assim. Pelo verde. Com o verde. Através do verde.

Voltou para casa já no final da tarde. E foi óbvia. Correu para colocar a música dos tais violinos do sábio compositor. Assim regou a flor. Sob os lindos acordes. A primeira flor da Primavera. Assim falou para ela enquanto molhava com respeitosa alegria as pétalas – e as folhas do pequeno galhinho onde ela se amparava. Você é a mais linda e a primeira flor desta Primavera.

Lembrou por um momento da sala sem janelas. Deu de ombros. Já não importava tanto. Tudo tem o valor que cada um gradua. Enxergou – sem o colírio. Riu. Havia mais do que paredes brancas dentro dela – e no mundo lá fora. Estivesse onde estivesse. Há um eterno que não se pode interferir – como a beleza de um Setembro verde.

Organizou a rotina do dia seguinte.

 

publicado por Lêda Rezende às 15:20

Outubro 11 2010



Diante do espelho

inventa

mascara

recorda

cicatriza.

 

Diante da palavra

recria

rima

esconde

duvida.

 

Diante do gesto

enxerga

discorda

desafia

nega.

 

O Tempo-é

sem lente

sem-ente

sem flor.

 

Alheio.

 

Entre a presença e a ausência

entre o real e a história

entre o mortal e a memória

sem acerto

sem coerência

habita silenciosa-mente

a Existência.

 

publicado por Lêda Rezende às 15:09

Setembro 18 2010

 

O despertar fora da ordem do pós-folga. Nem bem sabia por onde começar. Não decidira se reclamava ou se agradecia. Parecia uma questão fácil de resolver – à primeira vista. Ou ao primeiro des-piscar de olhos. Mas não era.

 

Os quatro dias passaram. Assim. Passaram. Como o Tempo é sádico. Só demora no que não interessa. Lembrou o dia da banheira. O dia que chegou cedo em casa e foi imergir na água quente. Fez uma brincadeira - Tempo de fora. Aqui só será aceito o espaço. E quando saiu da banheira a água não tinha descido pelo ralinho. Tinha saído para o piso do banheiro. E correu para secar e salvar toda a decoração que fizera de mesinhas e música e velas e incensos. Correu apressada antes que a inundação se fosse escada abaixo. E o Tempo comandou - destituindo o espaço.

 

A avó da amiga não cansava de repetir. O espaço é de todos e o Tempo é dono dele mesmo, menina, o espaço é de todos e o Tempo é dono dele mesmo.

 

Aprendeu como sempre se aprende – no logo depois.

 

Mas fora cautelosa. Desta vez absteve-se de comparações ou deliberações. Quando a noite chegou e trouxe com ela a véspera da rotina – obedeceu. Colocou todos os ponteiros em dia. Despertador ativado. Roupas escolhidas. Bolsa arrumada. Material revisado. Tickets e chaves em locais visíveis. Até o pãozinho já ficara espremido no espaço exíguo da torradeira. Tudo facilitado para que a volta do tal pós-folga se fizesse sem transtornos. Uma metodologia que beirava já - a insanidade. Sim. Só possuída pela insanidade seria alguém tão detalhista de véspera. Mas se conhecia. Sabia que seria adequada esta facilitação. E fez o que o coração mandou. Pensou esta frase e recusou. Fez o que a razão mandou. Recusou de novo. Fez o que tinha que ser feito. Deixou.

 

Acordou com o aviso do despertador. Passeou a mão pelo rosto. Sim. A pele continuava lá. Macia. Leve. Ainda estava dentro da validade. Ela. A pele. A massagem com desincrustação. Torceu para que assim continuasse depois da volta. Depois da retomada do cotidiano sem tréguas. Nada de bandeira branca nem de – daqui a pouco. Era retomar e retomar. Simples assim. Enfim desceu as escadas para por em prática - o teorizado na noite anterior. Desceu. Ligou a torradeira. Fez o café da manhã. Em seguida deu uma passadinha na varanda - olhou para a ladeirinha. Talvez em busca de alguma interdição. Sempre há uma esperança em algum cantinho da fantasia. Mas nada. Algumas pessoas subiam abraçadas a si mesmas na tentativa de aquecer o corpo. Outros mais displicentes deixavam os braços nadarem no vai e vem do caminhar rápido. E como se num espelho – virou-se para si mesma.

 

Até ai nada de inesperado.

 

Olhou para a toalha do banheiro. Vai lá saber por que – olhou. E lá estava – o inesperado.

 

Descansando feliz nas malhas da toalha estava uma abelha. Listinha quase dourada no corpo encurvadinho. Anteninhas. Asinhas. Lindinha. Uma abelhinha por inteiro. No banheiro dela. Na toalha dela. E no horário dela.

 

O tempo é dono dele mesmo. Falou alto - já enxergando o relógio e o aviso de – anda logo.

 

Não fosse ela absolutamente alérgica a picada de abelha – e não haveria um problema. Até faria uma saudação à madrugadora abelhinha. Mas ela era. Absolutamente e perigosamente alérgica a picada de abelha. E vai lá saber o humor da abelha. Vai lá saber se voltava de alguns dias de folga. Afinal – operárias são operárias. Não importa a escala zoológica. E nem sempre é aconselhável intervenções bruscas em quem retorna de um pós-folga.

 

Escolheu – cautela.

 

Não sabia o que fazer. Mas as ideias não faltaram. Vieram – em auxilio – aos borbotões.

 

Foi até perto dela. Vai ver era tímida e sairia. Não deu certo. Ela continuou na toalha. Voltou. Acendeu a luz. Abriu mais a janela. Vai ver – a abelhinha - usava algum creme facial que a luz artificial era contra indicada. Nada. Também sem resultado.

 

Teve a mais brilhante das ideias. Ao menos assim considerou. Foi em passos rápidos até a varandinha. As pessoas - agora mais numerosas - subiam e desciam. Pegou um vaso que sossegado estava na mesinha. Acolhia uma florzinha branca - linda e refrescada pelo orvalho da manhã.

Foi com o vasinho e a florzinha até perto da toalha. Acenou para a abelhinha. Até falou - olha quem veio lhe buscar. Lá fora o dia está perfeito. E olha só que perfume tem esta florzinha. Nada. Nem se virou para olhar a florzinha – que por certo abandonada e magoada – foi levada de volta para a mesinha na varandinha. Notou que o número de pessoas que subiam e desciam havia diminuído.

 

O Tempo é dono dele mesmo. Falou mais alto - já olhando forte para o relógio e o aviso mais contundente de – anda logo.

 

Outra ideia iluminada. Pegou o vidrinho do perfume. Daquele que ela tanto exigia que não faltasse. Fez uma espécie de rastro de perto da toalha até a janela do quarto. Assim. Como um atalho etéreo digno dos deuses. A casa se encheu de perfume. Até espirrou. Ela. Porque a abelhinha não moveu uma listinha que fosse.

 

Foi o suficiente. Se ela tem péssimo humor depois de dias de folga – eu também tenho. Armou-se de coragem. De necessidade. De horário. De Tempo e de relógio. Pegou uma toalhinha de papel e dobrou três vezes.

 

Com delicadeza e com a firmeza que só a decisão impõe – a segurou. Certificou-se de escapar da picada – caso ela também tivesse tomado alguma decisão com firmeza. Vai lá saber as atitudes idiossincrásicas de uma abelha numa manhã de volta ao trabalho.

Assim. Com prudência mas com cuidado. A ideia era  – operárias – voltem ao trabalho. Sentiu-se até vingada. Não seria somente ela. Não era certo. Vamos ao trabalho – nós duas. Falou alto.

 

E foi até a varanda com o papelzinho dobrado três vezes. A abelhinha aconchegadinha dentro dele. Antes mostrou a florzinha a ela - e ela à florzinha. Abriu o papelzinho com suavidade – e ela voou.

 

Não somente ela – a abelhinha. Ela também quase repetiu o mesmo ato. Correndo pela casa atrás do Tempo-dono-dele-mesmo.  Arrumou-se de um passo só. Saiu pegando e colocando o tão tranquilamente projetado na véspera - com tanta rapidez que até conferiu os sapatos no elevador. Ainda bem. Não estava com um pé de cada par.

 

Chegou – atrasada.

 

Alguém fez um comentário rindo. Pensou que hoje estava de folga. Por certo acordou tarde achando que era uma Madame. Esqueceu que é uma operária. Falou assim esta palavra. Operária.

 

Temeu pela pele. Pela massagem. Pelo desincrustamento. Lembrou dos dias de folga. Lembrou da florzinha rejeitada. Da abelhinha mal humorada. Controlou-se. Sorriu. E passando a mão por segurança no rosto disse um sorridente – e discreto entre os dentes - bom dia.

 

E – assim iniciou o primeiro dia de volta - à operária.

 

 



publicado por Lêda Rezende às 17:16

Setembro 11 2010

 

Considerando uma sábia decisão – efetivou a ideia. Com um dia útil recheando o domingo e o feriado optou transformá-lo num dia útil para si mesma.

 

A tal efetivação foi oficializada dois meses antes. Com total precaução e prudência – como lhe ensinara a avó de uma amiga. Muitas vezes a escutou afirmar. Prudência e precaução são atitudes menina, prudência e precaução são atitudes.

 

E agiu cheia de boas intenções. Fechou a agenda. Organizou os atendimentos. Distribuiu os horários. Tudo feito com muito cuidado e rigor. Devidamente protocolado.  Assim era o estilo dela. E assim fez.

 

Celebrou os dias de folga com a antecedência que os planos bem elaborados permitem. Cada vez que se sentia cansada – lembrava. Dias tais e tais – estarei de folga. E se animava de volta à rotina estabelecida. Era uma otimista profissional.

 

Com o caminhar das semanas descobriu que mais longe parece mais perto. E que mais perto parece mais longe. Quase fundou uma nova filosofia - A Filosofia da Expectativa. Ou um texto - O Oposto do Cronológico. Ou uma tese - Dissertação sobre as Horas Estagnadas. Ou ainda um ensaio – Ensaio sobre a Antevisão. Até ria das próprias ideias. Mas nada expunha. Ninguém sabia do tamanho da aflição. Sossegada e discreta – fantasiava a teoria e aguardava a prática.

 

Quando parecia mais perto – sentia aquela aflição de nem rotação nem translação existiam mais. Mas continuou como se nada fosse com ela.

Venceu. Com parcimônia. Com paciência. Com lucidez. E os dias chegaram. Até enviou recadinhos. A partir das cinco horas da tarde do dia tal – estarei de folga por quatro dias. E riu. Riu sozinha. Digitando a mensagem - e rindo.

 

E o primeiro momento se fez existir. Saiu na hora certa do atendimento. Entrou no carro. Feliz. Colocou as músicas de lá de onde viera. Não existia música melhor para escutar diante do planejado e alcançado. Lembrou de redes balançando. De tardes na praia. De areia morna.De água de côco no final do dia.

 

Mas voltou para onde estava – e lembrou  uma banal compra já adiada por falta de tempo inútil. Uma compra cosmética. Procedia.

 

O trânsito àquela hora do dia e em véspera de feriado - se apresentava em Estado de Acúmulo.

Era o que sugeria aquela interminável fila de luzinhas vermelhas à frente.  Avisou a si mesma. Nada de reclamações. Escuta a música e cantarola que o tempo passa. Obediente a tantos – não foi difícil obedecer a si mesma. Fez o exigido para a situação.

 

E entre um cantarolar e outro - olhou para o lado. Os olhos se anteciparam ao raciocínio. Grudaram na placa da loja. Lá estava paradinha numa esquina bem alegrinha e iluminada - a lojinha dos cosméticos. Assim. Em paredes brancas e azuis. O raciocínio virou-se para o trânsito. Os olhos para a lojinha. Trocaram de posição. E nesta de um orientar o outro – o raciocínio e o olhar - venceram as mãos. Girou o volante.

 

Um simpático e sorridente senhor se aproximou de imediato e se ofereceu para manobrar o carro. Já foi entregando a chave e o sorriso junto com um - muito obrigada.

 

Entrou tímida. Circulou entre as prateleiras que prometiam pele de recém nascidos. Cabelos de virgens romanas. Perfumes de deusas olímpicas. Estava assim nesse caminhar quase etéreo quando uma voz delicada a chamou à razão. Ou ao terreno – melhor dizendo.

Posso ajudar em algo. Assim a voz veio até ela. Em suaves decibéis - por certo para não aterrar tão de súbito a esperança oferecida em caixinhas tão coloridas.

 

Avisou o que pretendia. Mas só pretendia. Queria dados concretos e práticos sobre o produto. Eficácia não seria questionada. Só a eficiência da conta bancária dela. Isso sim. Precisava de um certo controle – ou a pele se despencaria. Não a dela apenas. Incluiu a pele do gerente do Banco nisso. Era um rapaz tão jovem e sonhador. Tinha tantos planos futuros. Achou maldade envelhecer o coitado de um cheque só.

 

Fosse um filme e não teria direção melhor.

 

Na cena seguinte estava deitada numa poltrona maravilhosa. Serviço de oferta da casa – assim foram informando. Uma forma pragmática de demonstrar a eficácia do que vendemos. O mundo além das caixinhas. Complementou - e riram. Uma música suave percorria o ambiente. Uma mocinha delicada fazia limpeza e “desincrustamento” na pele dela. Assim. Este termo parecia imprescindível. A mocinha o repetiu inúmeras vezes. Precisa de um desincrustamento facial.

 

Que providencie então.

 

A pele foi desincrustada. Massageada. Hidratada. Firmada. Revitalizada. Este outro termo que a mocinha usou - também repetidas vezes - em seguida ao outro. Agora você está revitalizada.

 

Uma hora e meia depois e encerrada a sessão – assim nomeou – levantou-se. Controlou-se para não tomar atitudes impetuosas. Mas por pouco – muito pouco - não beijou ardorosamente o espelho. Adorou.

 

Pediu ao Universo que cuidasse do gerente. Do Banco. Da conta. E comprou o proposto inicial.

 

Por um milésimo de Realidade – lembrou. É sempre assim.  Uma Realidade sempre puxa outra. Eis um axioma. Uma verdade quase digna dos gregos. Encheu-se de súbita materialização. Perguntou à gentil mocinha desincrustadora. Por acaso vocês aqui tem manobrista.  Assim. Uma pergunta quase retórica. Lembrava vagamente que alguém lhe pedira as chaves. E vaga-mente deu até um frio na coluna. Mas não era momento de brincar com as palavras. Quase deu uma ordem cerebral. Mas comentou. Ofereceram uma manobra. E ela cedera sem desconfianças. Como de hábito. Este poderia até ser nomeado como Defeito. Diante do Conforto era Ingênua. Assim. Como um Título. Tudo em maiúscula.

 

Inegável a sensação. Escutar um sim fez - a tal revitalização da pele - funcionar na íntegra.

 

De volta ao – ainda bem – carro já manobrado em direção à saída – olhou-se no espelho. Sorriu. O trânsito fluía melhor. Voltou para casa pensando. Na pele. Na revitalização. Até na avó da amiga das prudências e precauções. Só desviou o pensamento do gerente do Banco. Ficaria para os dias úteis. Afinal - de nada serve se atormentar por um gerente em dias inúteis. Riu. Fácil.

 

Estavam deflagrados os tais – finalmente atingidos e alcançados – dias de folga. Desincrustados e revitalizados. Perfeito.

 

 

 

publicado por Lêda Rezende às 22:29

Julho 24 2010

 

 


Se quiser ler mais sobre mim vá ao meu site: www.ledarezende.com.br

 

 

publicado por Lêda Rezende às 15:12

Julho 09 2010

 

Desde que acordara sentia-se como num funil. Um funil especial. Funcionava em torno dos pensamentos. Um ia trazendo outro - e mais outro. E mais outro.  Como se a intenção fosse afunilar numa ideia única.

 

Até temeu. Vai lá saber onde consciente e consciente se juntam numa demonstração da existência. Mas prosseguiu.

 

Sentia-se tão cansada que custou a acreditar que já era a tal hora. Foi cumprindo o ritual que há tempos deixara de ser nomeado como rotina. Uma espécie de birra com o destino. Você segue por onde comanda e eu sigo por onde nomeio. No dia que concluiu este quase axioma – falou alto. Escutou a própria voz.  Daquela vez - não negava – temeu até pela própria sanidade. Imagina acordar e ir avisando as novas formulações ao... sabe-se lá quem.

 

Com o tempo afastou de si o temor. Insanidade vem sempre associada a uma certa euforia. O temor é o que chega por último – quando a sanidade já  está devidamente afastada. Ainda não se considerava neste outro extremo. Parecia conviver com uma certa imparcialidade com o extremo oposto. Enfim.

 

Fez o que tinha que fazer enquanto o tal funil ia lá se construindo por tijolinhos aparentemente aleatórios. Por um segundo o russo professor de dramaticidade entrou associado ao funil. E ao cone que tanto lhe ajudara.  Agora sim. Estava prisioneira - dos pensamentos. Um funil de frente e um cone de cima. Até soltou um pouco mais o cachecol que enrolava o pescoço.

 

Continuou nos atos. Persistiu nas atitudes. Conferiu as vicissitudes. Tudo feito. Desceu pelo elevador. Subiu a ladeirinha. Chegou ao caminho dos trilhos.

 

A manhã estava fria. Uma nevoazinha suave tonalizava em especial as pessoas e os prédios. Dava uma sensação de que o mundo todo estava sob fina e discreta levitação.

 

Entrou. Escolheu o assento. Acomodou-se dentro do que parecia confortável. Parecia.

 

Dispensou o funil quando sentiu a bolsa trepidar. Chegara um recadinho. Dela. De lá. Do além mar. Onde o verão parecia muito mais zangado do que a vã meteorologia previra. Um forte calor deixava a todos em posição de intimidade. Com o desejo de ser delineado apenas pela pele. E vontade compulsiva de tirar a roupa. Um verão audacioso – podia-se assim chamar.

 

Ela iniciou a comunicação avisando do calor. E ela de cá imaginando o horror. Sempre – sempre detestou calor. Era até cômico este horror. Afinal nascera e crescera na parte de cima do mapa. Lá sim - ou se tirava a roupa ou o calor tirava a pele. Riu ao lembrar. Mas voltou para o recadinho.

Haveria uma festa de aniversário. Na semana anterior havia sido uma festa de casamento. Bodas. Uma festança. Comidas. Bebidas. Danças. O que há de melhor – pelo melhor. Agora se organizavam para outra festa. Seria o aniversário dela. Da cunhada. Acordara para organizar o cardápio. Por certa sopa fria. Mas não faltariam os assados – nem os abrasados. E os doces. Aqueles maravilhosos doces que os de além mar sabem tão bem expressar a arte.

 

Neste momento da leitura – houve uma parada. Os trilhos estavam sob um enorme peso. Um pouco mais atenta e por certo teria escutado um gemido Todos pareceram ter a mesma ideia. Na mesma hora. E – no mesmo espaço que ela estava. Teve uma impressão persecutória. Será que os outros espaços estavam vazios. Será que aquele tumulto era somente no espaço que ela ocupava.

 

Assim ficou entre alguns – sim. Outros – não. E muitos – talvez.

 

Mas voltou para o recadinho. Leu letrinha por letrinha. Lá estava o recadinho.

 

Aqui está um calor infernal.  Passa bem dos 30 graus. Ai não dá vontade de fazer nada. Mas ela inventou de dar dois almoços.  Um sábado, para os colegas de uma viagem ano passado. Outro no Domingo para a família -  é aniversario dela.
E quem ajuda sou eu.  Estou aqui pensando nos aperitivos - saladas e sobremesas. Amanhã vamos lá arrumar as mesas e fazer o gaspacho. Como tem que ter sopa -  vai ser sopa gelada.
E assim vamos passando de festa em festa.Eta vida dura.
Beijos

 

Começou a se controlar para não rir. Assim então era o tal funil – aliado do cone russo. Acordara cedo. Lidara com rotinas e rituais. Subira ladeira. Entrara no caminho dos trilhos. E agora essa. Sentia-se já além mar. imaginou o calor de lá. As duas festas. O gaspacho. Se viu com ela – rindo uma da outra como habitual. Até relaxou e recostou

 

Olhou em volta. As pessoas se amontoavam. Algumas mãos buscavam os amparos para que nenhuma queda ocorresse. Bolsas e sacolas dançavam de um lado a outro. A maioria dos sentados - cochilavam. Outros atentos – observavam o vai-e-vem. Com a lotação esgotada – o calor começou a se infiltrar. E já se iam braços esticadinhos saindo de casacos e malhas. Dos pescoços desenrolavam rápidos - os cachecóis. Uma ou outra buscava rapidamente uma forma de prender os cabelos.

 

Resolveu responder ao recadinho. Acomodou-se o mais discreta possível. Segurou a alça da bolsa. Concentrou-se na resposta. Algo bem simples. E com a objetividade que o espaço e o desconforto permitiam.

 

Estou arrasada agora. Eu sobre os trilhos. Seguindo rumo às tarefas. Sonolenta ainda. Diante de uma temperatura flutuante – digamos assim. E você me esnobando. Aguarde. Aguarde. Risos tenebrosos.

 

Colocou de volta na bolsa. Estava perto do local da descida. Foi juntando alças e coragem. Ficara até com calor depois que leu o recadinho dela. Estava se divertindo – isso era inegável. Estava ali tão sozinha. Sentadinha. E de repente circulava entre duas festas e uma sopa gelada. E mal tinha acordado. Eis algo que ela adorava. A facilidade contemporânea da comunicação. A linha desfeita com rapidez entre mares e climas. Era fascinada.

 

Sentiu mais um trepidar na bolsa. Até duvidou. Repetiu. Sim. Alguma nova mensagem. Vai ver mais alguma festa em algum outro mar. Ia deixar para verificar depois. Mas não conseguiu. Curiosidade também é companhia em determinadas situações.

 

Abriu a bolsa rapidamente. Leu o recadinho.

 

Sorry. Mas agora sou a socialite da região.

 

O local de descida chegou. O final do caminho se fez. No local determinado – entrou rindo. Com expressão de festa. Na recepção uma delas notou e perguntou o que vira de tão maravilhoso. Ela respondeu.  Uma festa com sopa gelada e uma conversinha com uma socialite. E tudo num calor de mais de trinta graus. E com os trilhos carregados de tanto peso.

 

Elas não entenderam – por certo.  Mas riram.

 

Ela entrou para o atendimento. Nem notara o tempo de percurso. Estava feliz. A facilidade da comunicação de nada valeria sem uma amizade associada. Eis a verdadeira magia.

 

Num intervalinho que teve - escreveu avisando. Aguarde minha resposta. Fica atenta. E prosseguiu nas tarefas e decisões – com uma leveza suave e solidária.

 

O dia acabou. Refez o percurso de volta. Era véspera de feriado prolongado. Comemorara bem cedo. A véspera. O feriado. E o prolongado. E num fuso só.

 

Adorou.

 

 

publicado por Lêda Rezende às 20:22

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