Blog de Lêda Rezende

Abril 02 2009

Já foi logo falando. Contando todas as mudanças que estavam por vir. Avisava da coragem. Da certeza. Mas também da dúvida. Do impulso. Não sabia agir de outra forma. Estava tão longe. Mas queria que soubesse. Das continuidades. Do que a vida quase interrompera. Iam retomar. De onde pararam. E por mais de uma vez. Desta vez parece que ia. Ia ter a tal continuidade. Planos de verão. Veremos. Foi o que disse. Numa tentativa chistosa de se acalmar. Foi o que me pareceu na hora.

 

Lembrou do macarrão. Do macarrão do desjejum. Depois de uma noite na cozinha reativando fantasmas. In vino veritas. Rimos muito. Muito mesmo. Até a ligação caiu. Culpou as telecomunicações. Não gostavam de riso. Só de choro. Nunca caiu uma ligação quando ligava chorando. Só agora que estava rindo. A tecnologia também tem lá as suas crueldades.

 

Conhecera a cidade quando tinha nove anos. Viera com o pai. Para esta cidade grande. Enorme, aos seus olhos.

 

Pela primeira vez viu uma escada rolante. Ficou maravilhada. Tentou entender o mecanismo. Na sua ingênua criatividade de criança surgiram mil explicações. Tivesse um engenheiro tido a oportunidade de escutar alguma delas e as escadas seriam diferentes. Com um equipamento muito mais sofisticado. Que o desenhado numa prancheta de adulto. Como tudo na vida. Pranchetas de adultos não têm magia. Só matérias. Subiu. Desceu. Entendeu. A seu modo. Não repetiu. Mas sentiu medo. Pensou se acontecesse isso lá. E as ruas também rolassem. Onde iria parar. Segurou a mão do pai. Com muita força. Tanta força. Ele até perguntara o que houve.

 

Mas sempre foi cuidadosa. Não quis assustar o pai. E não contou dos riscos das ruas rolantes. Uma vendedora fez-lhe uma pergunta. Sobre onde morava. Se tinham onças. Cobras. Se ela tomava banho só nos rios. Ela pensou. Com um olhar fininho. Sempre tinha um olhar fininho diante de uma possível birra. Ou raiva. Não seria tão mal se as ruas ficassem rolantes. A vendedora saberia. E riu. Para o pensamento malcriado. Não para a vendedora. Esta já prestes a ser engolida por onças. Que subiriam também pelas escadas rolantes.

 

Fizera as compras com o pai. Sapatos. De saltos finos. Bicos finos. Inacreditável. Para serem vendidos lá. Em meio ao pantanal. Nas vilas e aldeias. Uma coisa descobriu cedo. Sexo tem nada a ver com etnia. Ou com endereço residencial. As índias compraram. Felizes. Os sapatos de saltos finos. De bico fino. Coloridos. Pretos. Brancos. O pai não tivera prejuízo. Só os sapatos masculinos não foram bem aceitos. Digamos assim.

 

Não entenderam a lógica. Da necessidade. A lógica masculina é sempre imediatista. A feminina é futurista. Por isso o sucesso das vendas. Teve até encomenda. Para mais futuro. Nunca soube se algum dia a expectativa delas aconteceu. Mas não importa. Expectativa não é objetivo.  É sensação. Por isso sempre tem uma saída favorável.

 

Cresceu e se certificou. Do pensamento da infância. Procedia. As ruas são rolantes mesmo. Só não vê quem não acredita. Ou teme. Saiu de lá ainda adolescente. Deixou o pantanal. Pegou uma rua rolante que passava por ela. Num daqueles dias de decisões. Foi parar numa capital do sul. Estudando a alma humana. Descobriu que nem tão humana assim é. A alma dos humanos. Algo por aí. Depois uma outra rua. Desta vez com endereço mais certo. Parou no nordeste. Numa cidade com mar em volta. E lá dobrou uma esquina. Saiu do caminho das ruas rolantes. Por enquanto.

 

Agora estava na expectativa. Da continuidade interrompida. Vai ver por isso ressuscitou os sapatos. Dos bicos finos. Do tempo das onças. Do eterno inadequado. Aos olhos de qualquer um. Mas nunca aos olhos de cada um. De quem entende. Porque sente.

 

Num dia de solidão lembrou as suas idas. Sempre sem vindas. Riu. Com o olhar fininho. Disso não se livrara. Não esquecera em nenhum banco das ruas rolantes. Assim riu ao lembrar a vendedora. A da loja dos sapatos. Da cidade enorme. Será que as ruas rolaram para ela também. Será que lá ficou na mesma função. Apenas ferina. E pensando num mundo com onças.

 

Rindo desatenta dos ímpetos de crianças. Ou dos seus olhinhos avaros pelo novo. Nunca soube. Quando as ruas e escadas rolam o que fica para trás não se sabe. Não existe um para trás nesta engrenagem. Não existe ré. É só subida ou descida. Pode-se até voltar. Mas já será um outro espaço. Ou um outro caminho. Com outras pessoas compartilhando. Ou até com as mesmas. Mas já não as anteriores.

 

O resto da engrenagem vira memória. Nas pranchetas. Dos adultos.

 

 

publicado por Lêda Rezende às 01:19

oh nem sempre é so memoria na cabeça dos adultos, ainda hoje adoro as escadas rolantes... Em modos de brincadeira custumo dizer que andar de escadas rolantes é o meu desporto preferido...

Beijão grande minha querida
Teresa Isabel Silva a 2 de Abril de 2009 às 14:07

so passei para te deixar um enorme beijo de bom fim de semana, e dizer que yupi o despertador nao toca hoje nem amanha
Beijos
Teresa Isabel Silva a 4 de Abril de 2009 às 15:53

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