Blog de Lêda Rezende

Abril 01 2009

Acordara muito cedo. Tinha mil afazeres antes de sair para a rotina profissional.

 

Com filhos pequenos muito cedo sempre já é atrasado.

 

Por mais que fosse organizada. Tinha um hábito. Planejava a vida de véspera. Escolhia a roupa. Organizava papéis. Separava documentos. Deixava a agenda já na página certa. Para o dia seguinte. Achava prático.

 

Neste dia não foi diferente. Acordou cedo. Mas algo saíra de fora da ordem.

 

Esquecera a janela aberta e a chuva molhara toda a salinha. Olhou resignada. Para o relógio primeiro. Para o chão depois. Fez um cálculo. Daria tempo. Com um pano e acessórios secou o chão. Sentiu que tomara a decisão certa e no tempo adequado. As crianças não escorregariam e na volta à noite tudo estaria em ordem. Se auto vangloriou. Sempre tomava decisões corretas. Riu. Guardou o paninho. Foi acordar as crianças.

 

A esta altura já mais apressada. O tempo não sorri para as boas ou más decisões. Fica lá. Só cuidando da função dele. As decisões correm por conta do autor. Exclusivamente.

As crianças levantaram. Duas. Duas crianças. Começaram a se arrumar. Não agiam iguais a ela. As crianças vivem o dia. Não se atentam a viver de véspera. Não antecipam o dia seguinte. Procede. E lá ficaram. Procura uma coisa dali. Outra daqui. Esquecem os dentes. Voltam. Escovam os dentes. Esquecem a torneira aberta. Voltam. Fecham a torneira. Não acham o material do dia. Procuram. Não encontram definitivamente. Solicitam ajuda. E por aí vai. E ela já olhando o relógio. Tinha uma reunião. Nem pensar em se atrasar. Imagina. Era A Pontualidade. Se alguém procurasse o significado desta palavra no dicionário -  encontraria a foto dela.

 

Tomou mais uma decisão. Já arrumada. Pensou. Imagina só. Para que tirar o liquidificador de cima do móvel. Para fazer o leite dos filhos. Que idéia. E passara anos fazendo a mesma atitude. Nada prática. Colocou o leite. O chocolate. Até bananas dentro. Exibida com sua nova idéia. E a idéia lhe fazia ganhar tempo. Tirar tudo do lugar. Bater. Recolocar. Isso já a faria perder preciosos minutos. Decidiu que acordara carregada de novas e boas decisões. Orgulhou-se de si própria.

 

Chamou as crianças. Já arrumadinhas. E ligou o liquidificador.

 

Voltou a si um tempo depois. Ficara ali. Catatônica. Olhos esbugalhados. Obviamente depois de limpá-los. Os olhos. As crianças a chamavam de volta a si. Assustados. Quase chorando.

 

Ligara o liquidificador. Sem querer, vai lá saber por que - ou o que – algo enroscara no fio. Que esticou o liquidificador ligado. Que desceu do alto do móvel. Cumprindo sua qualificação. Liquidificando. Sem a tampa e caindo. Caindo. De alto a baixo. E achocolatando tudo. E a todos. Com bananas enfeitando cabelos, roupas. Como pedacinhos decorativos. Do que não pôde ser totalmente liquidificado. Nada sobrara.Ou faltara. Nem a roupa dela. Nem o uniforme das crianças. Nem o cabelo. Os cabelos. Chão e paredes.

 

Nem todo decorador e sua sabedoria teriam conseguido aquele efeito.

 

Quando finalmente voltou a si, se é que o estado seguinte assim pode ser denominado, notou que perdera a visão de um olho. Por ele nada enxergava. Imaginou que a tampa devia ter batido em seu rosto. E com o trauma perdera a visão. Tinha lido há pouco um relato parecido. Estava tudo escuro. E frio. Com desespero informou que estava cega de um olho. Diante dos gritos das crianças. Passou a mão no rosto. Que tragédia. Justo ela. Que vivia de véspera. Que injustiça. E na passada de mão tirou dos olhos o leite com o chocolate e a banana grudada. Enxergou de volta. Estava curada. As crianças ainda choravam. Ela desatou a rir. E as crianças choraram mais alto ainda.    

 

Telefonou para o escritório. Nunca havia feito isso antes. Avisou que tivera um problema. De véspera. Que iria chegar muito atrasada. Pensaram que ela tinha sido seqüestrada. Que era um código. Um apelo. Qualquer coisa. Menos que ela se atrasasse. Isso nunca. Ela bateria até no sequestrador. Temeram. Pelo seqüestrador. Foi difícil convencê-los do fato. Mas conseguiu.

 

Quando a véspera se restabeleceu, saiu. Com as crianças.

 

Encontrou a vizinha no elevador. Que comentou. Está atrasada hoje.

 

Pensou em tudo. Cadeira elétrica. Enforcamento. Cabelos arrancados. Rosto riscado por unhas. Respondeu por entre os dentes. Coisas do liquidificador. Virou-se e saiu.

 

O salto do sapato exibia um pedacinho de banana.

 

A vizinha – se percebeu - não avisou.

 

 


bela cronica, ao seu melhor "stylo".
curioso: abordei temática semelhante.
J. Crimesalapis a 1 de Abril de 2009 às 08:42

Estou cheia de pressa, só passei para deixar um beijinho, mas voltarei para ler, pork adoro o teu blog, como tu sabes...
O despertador esta rouco? Pork nao fikar afónico??? lol é pena que ele nos fassas tanta falta
Beijos cara amiga
Teresa Isabel Silva a 1 de Abril de 2009 às 13:05

Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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