Blog de Lêda Rezende

Março 22 2009

A noite começara cedo. Logo depois das tarefas nossas de cada dia. Eram os últimos dias das férias dela nesta cidade. Apenas um mês de férias. As celebrações se repetiam Depois de tanto tempo, tudo que se podia pedir era mais comemoração. Ela estava feliz. Parecia ao menos bem feliz. Não sei se pelo passado. Não sei se pelo presente. Ou se pelo tempo que voava em meio ao tempo que ficava. Não importa. Importa que estávamos todos ali. Os amigos mais próximos. Felizes.

 

O cardápio exato. Qualificado. Menu com nome e sobrenome. E adjetivo. Espiritual. Procede. O espírito mais alimentado que o corpo. Embora este tivesse muito bem acariciado pelo sabor.

 

A sala linda. Belos tapetes aqueciam o ambiente envolto na noite fria. A luz morna desenhava os contornos na parede. Os bibelôs marcavam o tempo ido. Nas fotos as idas e vindas no tempo. Tudo em acordo com a idéia. De afeto. De festa. De acolhimento. A mesa colorida. O vinho sombreava o toque gentil dos excessos. Entre pratos, taças e talheres os risos abençoavam a cena. Lembrei daquele filme. Lindo.

Onde a beleza e os prazeres são cantados em volta da mesa. E todos erguem um brinde. Ao amor. Linda cena. Que me perdoem os que discordam. Direção de italiano é diferente. Mas deixemos os italianos. E a direção.

 

A festa é lusitana. Lusitana de estilo lusitano. Agora me confundi. Vai ver o espiritual está contorcendo meu espírito. Ou torcendo. Por causa do pensamento anterior. Ou do acontecido anterior. Melhor tomar mais cuidado.

 

Ela também estava. E surpreendia com seus comentários rápidos. Parecia bem à vontade. Embora com um jeito mais tímido.

 

Agora dava para ser tudo saboreado. Com parcimônia. Com suavidade. Bem diferente da minha chegada. Cheguei um pouco mais atrasada, mas nem por isso menos acelerada. Foi o que transpareceu. Explicitamente. Tivesse uma pilastra e teria também transparecido. Ri. Agora dá para rir. Na hora, não.

 

Parecia cena de filme. Esta por certo não seria do tal diretor italiano. Nada tinha de requintado. Tropecei. No tapete. No tal tapete que aquecia a sala.

 

Mas enfim. Sempre tenho algo a ver com os decoradores. Um dia é uma pedra. Outro, um foco de luz. Desta vez um tapete. Tropecei. Justo na hora que ia cumprimentá-la. A borda do tapete virou. Prendeu no salto da minha sandália. O que seria uma entrada elegante se transformou. Quase tragédia. Digo quase porque toda tragédia sempre poderia ser pior.

 

Lembrei mais uma vez de minha sábia avó. Veja onde pisa menina, veja onde pisa. Nada. Mais uma vez. E lá se foi meu educado cumprimento.

 

Tropecei. Fui de vez em cima dela. Lembro-me dos olhos dela. Esbugalhados. Um passinho para trás. A mão erguida tentando salvar o vinho. Ou a taça. Ou o tapete. Ou a vida. Não sei. Foi tudo muito rápido para tecer filosofia. Ou desenhar telas. Foi de uma só vez. Cai por cima dela. Que me sustentou. Salvou a taça. O vinho. O tapete. Juntas nos abraçamos naquele afã eufórico, diriam os desavisados. E acabamos de encontro dorsal ela, frontal eu, no aparador. Que graças-a-Deus-estava-ali. Bendito seja agora o decorador. Vou levar flores no sindicato. Vou postar mais textos. Tudo em homenagem aos decoradores. Até ao inventor do aparador. E lá nos estiramos. As duas atracadas. Uma de braço pro alto erguendo uma taça e a outra com as pernas trocadas tentando segurar a mesma taça. Amparadas pelo dito móvel. Que ainda bem assim não se entendeu. Ficou imóvel. Portava os bibelôs. Um murmúrio geral fazia a cena quase olímpica. Todos com respiração suspensa. E nós duas com pernas e braços trocados. Ela erguendo a taça.

 

Fosse presente o mestre austríaco e mais um volume seria escrito.

 

Enfim acabamos o tal cumprimento. No alvoroço. Senti que todos respiraram de volta. Quase faltou oxigênio. Na sala. No prédio. Nos recompomos. Ela mais que eu. Ela tentava colocar os olhos no espaço correto da face. Re-encaixar o braço no ombro. Pousar a taça no aparador. Dobrar os dedos para avaliar o funcionamento. Eu tentava – simplesmente - entender direito e esquerdo. Pensando em meus pés e pernas. Lembrei de um filme. A ajuda vem de cima. Algo por aí. Porque escutei uma vozinha delicada atrás de mim.  Oferecendo um vinho. Aceitei. Mas antes sentei. Acredito que por prudência, ela se sentou mais afastada. Bem mais afastada. Segurei minha taça.

 

Desta vez com os braços na posição correta. Prendi o riso. Com tanta força que até me vi com o mesmo esgar da moça ruiva dos lábios preenchidos. Acho que fiquei igual a ela. Só que menos orgulhosa. Mas me contive. Também era o mínimo. Depois de tanta expansão.

 

Voltamos ao proposto. Fomos para a mesa. Ela se sentou ao lado dele. E ficou meio espaço atrás. Vai ver ele também resolvia ser efusivo. Ficou mais atenta ainda.

 

Fomos para casa. Oferecemos carona. Ela nos olhou. Senti uma dúvida. Ia recusar, mas aceitou. Sentou atrás dele. Na descida fez um pedido. Não precisam descer para me acompanhar. Fiquem tranqüilos. Fiquem no carro.  Obrigada. Boa noite. Ordenou. Nos despedimos aqui dentro mesmo, do carro.

 

Na calçada, atrás dela, tinha uma árvore com galhos baixos. Vi um filme de terror. Obedeci.

 

Tirei as sandálias no carro. Relembrei a cena do encontro. Da despedida.

Enfim pude rir relaxada.

 

publicado por Lêda Rezende às 15:46

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