Blog de Lêda Rezende

Dezembro 05 2010

 

Decidiu retomar de onde parara. Acordou um dia e avisou a si mesma – vou resgatar o Francês. Riu. Até parecia frase de filme de conspiração. E vai ver era. Não o filme – mas a conspiração.

 

Levantou – procurou as informações. Telefonou para ela. Confirmou. Agendou. Certo. Na quarta final da tarde vamos retomar em estilo conversação. Perfeito. Já se sentia uma estudante de pós-graduação de uma daquelas Universidades sofisticadas.

 

Mas retomou a parte um da realidade e foi cumprir a rotina habitual. Desta vez mais ansiosa. Na volta faria algo diferente. Falaria um idioma diferente. Quem sabe era um sinal de mudança próxima. Vai ver o inconsciente avisava alguma viagem que ainda não se dera por consciente.

 

E entre sinais e rotina – estava de volta em casa. Ainda sobrava um tempo para organizar a mesa da sala para receber a professora do idioma distante. Separou canetinhas e caderninhos. Até um livro antigo saiu da prateleira da estante e foi ficar parceiro do tal caderninho. Preparou um chá quentinho para combinar com o proposto. Considerou tudo adequado.

 

Tinha ele. O cachorrinho. Fosse qual fosse o idioma – ele não se interessava. Tinha os próprios códigos e os próprios leitores de códigos. Compartilhava o que interessava no momento. Assim. Um mundo regido por regras e vontades especiais. Domesticado só mesmo na ideia - nos atos nem tanto. Enfim. Deixou que ele circulasse pela sala.

 

Chegou o futuro – ou melhor - a professora. Era uma jovem de aspecto mais senhoril. Engordara um pouco mais do que a pele gostaria. Mas estava bem arrumada e tinha uma expressão de suavidade e um gestual de delicadeza.

 

Sentaram. Começaram a conversa. Erres e esses foram desencaixotados. Dobras na língua fizeram as vezes de mademoiselle. Tudo seguindo conforme o programado e esperado – pensou entre um erre e um esse dobrado.  E perfumado pelo doce aroma do chá nas xícaras brancas com florzinhas cor-de-rosa.

 

Pensou muito cedo.  Precoce – poderia se dizer.

 

O cachorrinho. Vai lá saber o motivo – agitou-se. Subiu e desceu do sofá. Latiu. Pulou. Latiu. Rodopiou. Latiu. De um salto só foi até a janela e se engalfinhou com a gradinha. Latiu. Voltou. Repetiu tudo de novo. Latiu. Identificada a causa – ocorreu o que sempre ocorre. Surge a conseqüência. Um colega da escala zoológica - mas não de raça se exibia caminhando pela calçada. E provocava o coitado que - contido por entre grades – não oferecia temor. Eis o resumo do momento tenso.

 

Ela se sentiu constrangida. Preocupada. Afinal a jovem de aspecto senhoril poderia ficar desconfortável com os latidos e pulos – e os erres e os esses ficarem num plano secundário. Parecia que – de repente - tudo fugia ao tal proposto.

 

Levantou-se. Pegou ele – o cachorrinho que na grade se pendurava e latia - pelas costas. Colocou de volta no sofá. Deu um tapinha daqueles educativos e ordenou- não saia daí. E fica calado. Entendeu bem – espero. Calado e ai.

 

Foi-se virando já com um dos erres em posição de dobra quando se assustou. Quase que ela sim que atravessava a grade da janela com o susto.

 

Diante dela – em pé - estava a jovem de aspecto senhoril. O dedo erguido. O tom da voz mais erguido ainda. E em bom e acessível idioma local foi avisando. Estúpida. Grosseira. Impaciente. Deveria contratar um encantador de cães já que não sabe lidar com o cãozinho.

Assim. Em excelente e objetiva linguagem. Sem necessidade alguma de tradução. Muito menos de caderninhos e canetinhas. Explícito.

 

Olhou para ela. Confundiu gestos e falas. Caras e bocas. Torres e arcos. E nada disse. O cachorrinho deitou sossegado. Vai ver pensou nos riscos internos muito mais imponentes do que os externos. O colega de escala parecia agora talvez menos interessante. Sábio.

 

O tempo de aula foi completado. A jovem de aspecto senhoril saiu. Ela olhou para a mesa com os caderninhos e canetinhas. Sentou numa poltroninha. Tentou se localizar e organizar os idiomas vigentes e ausentes – e impertinentes.

 

Acalmada enfim – optou por dar por encerrado o resgate do idioma. Quase riu lembrando o filme de conspiração que imaginara pela manhã. Pegadinha do inconsciente – concluiu. E de conclusão em conclusão – veio a decisão mais recente. E a retomada - desta vez - da parte dois da realidade.

 

Arrumou a mesa como habitual. Guardou os caderninhos e as canetinhas. O livro antigo voltou para a estante. As xícaras brancas de florzinhas cor-de-rosa foram para o armário. A noite chegou. E com ela mais uma decisão.

 

Sentou desta vez diante do computador. Mensagem virtual.

 

Informou com objetiva cordialidade.

 

Vamos suspender as aulas. Fiquei muito grata com seu gentil conselho e obedeci. Consegui contatar um encantador de cães. Ele começará na segunda feira. Mesmo esta despesa estando fora da previsão do orçamento – compreendi a necessidade pelo estilo objetivo como você apontou. E você nem imagina o quanto lhe estou agradecida. Minha querida - permita-me lhe chamar assim - você não imagina a sorte que sua doce sugestão me trouxe. O encantador de cães é um senhor francês. Francês. Olha só como você é uma pessoa de bons augúrios e cuidadosa. Agora além de me ensinar a lidar com o cachorrinho – ele vai me ensinar a conversar em francês. Eis a perfeição de uma situação que graças a você – minha querida – ficou duplamente resolvida. Queria saber mais idiomas para me expressar em todos eles. Mas vou usar o nacional para evitar equívocos - adeus.

 

Clicou na tecla enviar com a pontinha de uma unha afiada. Desligou o computador. Sorriu. Riu. Não dobrou os erres e esses – dobrou a risada. Acariciou o cachorrinho que ao lado parecia também sorrir. Imitou um latidinho. Ele olhou desconfiado. Conferiu a hora. Ça va bien. Falou alto e ainda sorrindo. Imaginou o que uma determinada amiga diria quando escutasse este relato.

 

Fez um brinde ao encantador pensamento criativo que tivera – isso sim.

 

publicado por Lêda Rezende às 00:21

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