Blog de Lêda Rezende

Maio 20 2010

 

Lembrei dele. Já faz tanto tempo. Nem sei como me ocorreu agora. Que ele veio fazer nessa confusão. Ri. Mas tinha mesmo que aparecer. Sempre foi na confusão que ele aparecia. Só na confusão ou pela confusão eu ia até ele. Ou fui até ele.

 

Ele era diferente. Não era linear. Nem tinha raciocínio horizontal. Trabalhava de forma especial. Hoje acho que mais se divertia. Porque ria sempre em meio às tragédias relatadas. Enquanto todos recomendavam a escuta sem emoção - ele ria. Entre significantes e significados ele escolhia o riso descombinado. Como um signo. Encerrado em si mesmo.

 

A sala não era iluminada. Era meia luz. Vinha de um pequeno abat-jour num canto escondido. Hoje acho que entendo porque. Ele deixava que cada um se confortasse no escuro. Ou buscasse a sua própria luz. Não queria saber de competição. Parece pobre a idéia, mas tinha ricos efeitos. Ou riscos e efeitos.

 

O sofá era preto. Como preta deveria ser a vida até ali. As cores iam surgindo nos discursos de cada um. Numa sala sem luz e sem cores. Engraçado. Fui lá tantos anos e só agora tudo isso me ocorre. Ele nem pode imaginar. Se soubesse iria fazer como sempre – riria.

 

Era passional. Não podia. Nem devia. Mas era. Não sabia ser totalmente técnico. Usava a técnica para se sustentar no Lugar. Mas tinha um estilo passional. Lembro que quando se sentia saindo muito do Lugar ele se mexia na cadeira. Para que a cadeira lhe lembrasse o Lugar. A cadeira como censor. E sensor. Falava mais do que devia. Preferia não seguir o manual.

 

Nessa época estudava sobre o desejo. Desejo ocupa muito espaço. Todo o espaço. Retira todo o oxigênio. Impede até a luz. Tudo permite e tudo impede. Desejo é autônomo, desobediente e irreverente. Mesmo parecendo caber no mínimo, é um invasor espacial. E atemporal. Sem terra e sem teto. Mas se abriga onde quer. Como uma figura da topologia. Está mas pode não estar. Sem bordas e sem fronteiras. Ri. E sempre achei que fosse o contrário. Cada riso com seu gozo. Ou cada gozo com seu riso. Desejo é coisa séria. Mas não deve ser levado a sério. E o sujeito está sempre oculto. Viva a gramática do desejo.

 

Quando ele me sentia muito angustiada me mandava escrever. Não mandava. Sugeria.

 

E muito me estimulou. Lembro de um dia em especial. Nesse dia falávamos sobre alternativas. Lamentávamos a Economia. A nossa Economia. Chorávamos as nossas pitangas. Como simplificaria sabiamente a minha avó. Mostrei a ele o primeiro escrito.Foi tão por acaso. Que escrevi. E que mostrei. Sabe-se lá por que, criei coragem. Abri a gaveta. Retirei o papel. Entreguei a ele. Leu em silêncio. Foi ficando sério. Mudava a expressão do rosto com o caminhar dos olhos pelo papel. Eu mal respirava. Já me via igual desenho animado. Jogada porta a fora e com os papeizinhos por cima. Por última vinha a bolsa.

 

Surpresa. Comparou-me a poetas. Coitado dos poetas.Mas ele ficou encantado. Leu e ficou encantado.

 

Abriram um concurso. Me inscreveu. Pôs meu nome e um codinome. Rimos muito do codinome. Também grego. Nome e codinome remetendo aos gregos. Vai ver mais um sintoma. A pobre deusa grega que tanto entendia de amor estava ali em meio a um concurso de amadores. Pelo menos era de ama-dores. Ri agora. Planejávamos o que iríamos comprar com o dinheiro do prêmio. Como era perto do Natal faríamos a festa do Tender.

 

Nem prêmio, nem dinheiro, nem compras. Muito menos o Tender. Ficou revoltado. Disse que não havia lisura no concurso. Desacreditou juízes e vencedores.

 

Os escritos ficaram. De um viraram muitos. Tantos que perdi a conta. Escrevia noite e dia naquela época. Lembro agora das noites inteiras escrevendo. A qualquer hora ia escrever. Muitas vezes acordava no meio da noite e ia escrever. Até que certa vez me encomendaram uma resenha. A autora do livro a ser resenhado escrevera sobre a feminilidade. Nunca havia feito algo parecido. Mas escrevi. E entreguei na Editora no prazo estipulado. Não vou esquecer o dia em que me telefonaram de volta. Seria publicada. Abri o livro de resenhas. Li o meu texto. Li o meu nome. Chorei. Lia e relia para acreditar que era eu mesma. Que era meu o nome.O nome da gente num impresso público parece tão alheio a nós. Causa certa estranheza. Nos excede. Como se fosse uma outra pessoa. Fora do próprio domínio.

 

No primeiro dia que fui lá cheguei arriscando. Carregada de coragem. Achava que já sabia tudo. Pior ainda. Achava que me lembrava de tudo. Ilusão. Descobri os hiatos. Os atos. Os falhos. As lembranças encobridoras. Perdi meus óculos de sol na primeira vez que sai de lá. Deixei num banheiro de um shopping.

 

Ali falei durante anos. No sofá preto. Na sala escura. Um dia calei. Não queria mais ir. Ele concordou. A porta se fechou. Não tinha janela. Segui para o mundo. Para um mundo onde rótulos não mais cabiam. Cada um se rotule quando puder. Porque há nada mais impossível que rotular. Parece simples. É prático. Mas os rótulos sempre escorregam. E vão parar onde nem se imagina.

 

Ele ficou lá. Eu vim para cá. Nos perdemos em meio às mudanças. Deixei-lhe as cadeiras. A marca do Lugar marcado. Repetitivo mas funcional.

 

Rio agora da conclusão. Entrei com uma valise de rótulos. Sai – feliz - com as mãos vazias.

 

 



publicado por Lêda Rezende às 15:22

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