Blog de Lêda Rezende

Março 22 2009

Quem será que teve a idéia. Como diria minha avó. Toda idéia tem que ter um motivo, menina, tem que ter um motivo. Falava algo mais ou menos por ai. Na realidade acho que se viva ela estivesse me daria um puxão nas orelhas. Onde já se viu. Ficar repetindo o que ela falava assim. Sem mais nem por que. Ela também adorava uma pilastra. Herdei dela. Agora estou saindo junto com ela. Da pilastra.

 

Mas enfim. Quem será que teve aquela idéia. Eu, de pé diante dele, tentava achar uma explicação. O tal motivo. Basculava se teria uma conotação terrena ou divina.

 

Um calor que poderia ser comparado a um outro, não fosse a impropriedade do termo em meio ao ambiente.

 

Colocaram um foco de luz. Um enorme foco de luz. Nos degraus da escada. Vai ver foi o mesmo decorador da enorme pedra.

 

E ficava atrás de mim. Também atrás dele que estava ao meu lado. Imaginei mil títulos de reportagem. O tule incendiado. Fogo na cerimônia. Cabelos tostados. Calças queimadas. Lembrei do filme. Paris está em chamas. Até uma mais trágica. Tochas humanas. De um outro filme. Por quem os sinos dobram. Não faltaram slogans.

Lembrei dos cílios. Do ventinho suave. Das ameaças da véspera. Do riso na cozinha. De nada resolveu. Podia piscar acelerado que não diminuía o calor. Olhar plumoso. Nada resolvido. E o calor aumentava.

 

Ainda tinham os fotógrafos. Com um foco de luz. Um carregava o foco. O outro a câmera. Acharam poucas as luzes. Olhei para baixo. E atrás. O enorme foco ficava aos pés. Nos calcanhares -  para dar uma precisão anatômica. Aquiles teria se sentido vingado. Ou solidarizado.  Nada de tendão cortado. Isso era coisa do passado. Tendão assado. Tostado. Incinerado. Nem precisei me esforçar para não rir. Não estava em condições locais e climáticas que permitissem o riso.

 

Ele me sussurrou. Sentia os pés queimando. Fiz que se faz nestes lugares. Para que fosse apenas uma metáfora. Depois informou. Nem sentia mais os pés. Já deviam estar necrosados. Novamente não precisei conter o riso.

 

Tentei piscar mais uma vez para diminuir o calor. Nada. Vou processar o fabricante. Dos cílios. Do foco vou pensar. Não pode ser nada assim. Sem muita reflexão. Até porque reflexão é o termo exato.

 

Mas como vivo agora entre sustos lá se veio mais um. Olhei, tranqüila, para as pessoas que estavam em frente ao grupo que eu estava. Havia, dentre eles, uma mocinha. Vestido azul claro. Longo. Cabelos longos. Pele clara. Uma franjinha. Não acreditei no que vi. Lembrei dos desenhos animados. Os meus emplumados olhos saindo da face com uma molinha. Fiquei mais atordoada do que pasma. Entendi até o ator-doado de tempos idos. Vai ver foi assim que começou. O atordoamento dele.

 

Os cabelos dela, a franjinha - voavam. Os fios até chegavam ao rosto. Ela, já com impaciente delicadeza, afastava da face. Olhei para todos os lados. Para cima. Para baixo. Queria descobrir. De onde vinha o vento. Pensei assustada. Seria dos meus cílios postiços. Testei. Mantive os olhos fixos. Como aquela brincadeira de criança. Nada. Eu fiquei catatônica e suada. Os cabelinhos dela voavam. Pensei de novo. Porque será que Ele só gosta dela. Faço nada de tão errado assim. Porque esse demérito. Ou seria uma forma divina de lembrar. As diferenças. As culpas. Lá me lembrei do russo novamente.

 

E suava. Suávamos. E o calor aumentava. Só conseguia pensar nos destaques das noticias. Já sentia até o cheiro do couro queimado. Dos sapatos dele. Ou dos pés. Olhei para o fotógrafo que se postou a minha frente. Imediatamente me veio à mente um termo cientifico. Sudorese profusa. Isso dá até UTI.

 

Mas acho que Ele se apiedou. Porque foi rápida a resposta aos meus pedidos. A lâmpada. O foco. A luz. Apagou. Apagou. Esta única luz apagou. As demais continuaram acesas. Desta vez foi diferente.  Me deu vontade de rir. Enfim. Tive que conter o riso. Olhei para cima. Pedi perdão pelo riso afoito. Pelo pensamento que insistia em se fazer notado. Porque pensei que podiam ter sido os meus cílios. Vai ver olhei séria para o foco. Ou pisquei para ele. E ele apagou. Assim nas costas. Contive o riso.

 

Um escuro se fez. Ao contrário do que se fala. Bem ao contrário. Foi quando a luz apagou que veio a esperança. E prosseguia a cerimônia. Sem interferências. Com menos risco de furo jornalístico. Os pés dele sobreviveram.

 

Olhei para ela mais uma vez. Continuava tranqüila. Os fios da franjinha dela, irreverentes, esnobes, ainda voavam.

 

Aceitei. Agradeci. Não ao Edson. Não ao fabricante.

 

Olhei para Cima. Agradeci!!!!!

 

 

publicado por Lêda Rezende às 14:44

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