Blog de Lêda Rezende

Fevereiro 07 2010

 

Impossível. Algo deve estar errado. Deixa-me colocar outra vez.


É verdade. Confere. Pela quarta vez.


Nem boletim meteorológico seria tão rigoroso em relação à temperatura.
E ainda acrescento que a visibilidade está péssima.


Agora entendo o que significa não poder se mexer. Não consigo mover nem o globo ocular. Doeu só de pensar em globo. Lembrei daqueles globos giratórios. Girar é a última coisa que me arrisco a sequer imaginar.


E eu que me julgava tão imune. Agora aqui estou com esse calor todo. Vasodilatação acho que seria o termo correto. Quando me olho no espelho só esta palavra cabe. Vasodilatação. Doeu de novo. Porque dilatar implica em movimento.

 

Olhar no espelho. Até parece que tenho feito isso. Só se aqui tivesse um daqueles espelhos “motelianos”, no teto. Aí sim, eu poderia me ver. Com esse “motelianos” deu pra sentir que estou nada bem. Mas graças aos céus que pensar não precisa de movimento físico. Senão nem isso faria mais.


Pior é ficar aqui imóvel. Recordando todos os tipos de movimento existentes no mundo. Deve ter algo a ver com Sade essa situação toda. Lembrei dos malabaristas. Trapezistas. Comedores de fogo. Contorcionistas.


Acho que estou com delírio circense. Era só o que me faltava. E nunca gostei de circo.


Agora é só o que me ocorre. Nada mais interessante para pensar.


Ele está tão angustiado. Por me ver assim. Rubra-tórrida-imóvel.
Ele fica acordado quase toda a noite para ver se preciso de alguma ajuda. Está muito sem saber o que faz. Finge que está tudo bem. Até mais do que eu. Que estou fingindo que nem está acontecendo. Que a minha imobilidade é opcional. Ele nem sabe mais por onde começa o dia nem acaba a noite. Ou o contrário.


Sei lá mais eu.


E essa coisa de pensar em tempo também doeu. Lembrei dos movimentos dos ponteiros do relógio. Só não quero mesmo é ter que me mover. Estou fazendo agora um estilo hindu. Buda e eu estamos na mesma. Sorri meio amarelo. Mas - ao menos - sorri.


Lembrei do Egito. E pensar que sempre adorei o Egito. Região cheia de mistérios. Estilo megalomaníaco. A maior Biblioteca. Os maiores enfeites de deserto. O mais belo rio. A mais bela rainha. Tanta admiração. Tanta sabedoria. Não posso negar. Continuam na mesma linha. É verdade. Repensando. Nada mudou. Algo tão pequeno. Causando efeito tão estrondoso. E com sobrenome egípcio. Só pode mesmo ser da mesma linha de lá.


Acho que vou colocar de novo. Já estou viajando longe - e na imobilidade. Viva a memória e a imaginação. Quarenta. Quarenta graus. É. Agora está mais que explicado.


Temperatura e estilos egípcios. Só espero não virar múmia.
Consegui rir de novo. Essa de virar múmia foi terrível. Quarenta graus são mesmo complicados.


Nem vou contar a ele isso. Ele saiu tão preocupado. Melhor dizer que tudo está na mais perfeita e antitérmica ordem.


Estou mesmo preocupada comigo. Isso é lá metáfora que preste.


Mas como me dói tudo por aqui. Se me pedissem - mostrava um por um dos componentes do meu esqueleto. Todos estão a me dizer “estou aqui”. Os ossos. E como sinto. Sinto os músculos que os recobrem. Também um por um. Nem sabia que tinham tantos.


Agora até da mega-bela-rainha me lembrei. Ela e sua escrava fingida. Depois ela e sua escrava fiel. Depois ela e sua picada de cobra.


Melhor esquecer um pouco do Egito. Lá tem camelo. Não deve ter nada que sacuda do que subir num camelo. Agora sim. A dor não vai passar com este pensamento.


Tanto antagonismo é mesmo surpreendente. Uma letrinha e pronto. Mudança de dócil à dor. Um inseto. Um país inteiro ao dispor. Tantos músculos e ossos a compor um corpo. E a imobilidade é o que mais se consegue próximo a conforto. Isso está parecendo poesia de repentista.

 

De “repentista” aqui só o sono - que está chegando forte.


Já está na hora dele voltar para casa. Quando ele voltar vou estar acordada.


Vou me consertar na cama. Arrumar as ataduras. Digo - camisola. Guardar a tocha. Digo- termômetro. E sorrir bem tranqüila.


Quando ele voltar quero estar melhor. Bem melhor.


Com as letrinhas no lugar certo. E as idéias e a temperatura menos áridas. Digo - tórridas.


Ele odeia deserto. Gosta do mar. Quando ele voltar vou estar com jeito de praia.


Que barulho estranho.


Quando ele voltar... eu ... vou ...

 

 

publicado por Lêda Rezende às 13:51
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