Blog de Lêda Rezende

Fevereiro 05 2010

 

Por que será que me dá sempre vontade de escrever quando estou no trânsito. Um borbulhar de idéias.


E o pior é que o trânsito está mais que lento.

 

Não inventaram volante com micro acoplado. Apertava o botão e eis um teclado feliz aguardando ser tocado.


Teclado tocado foi até interessante. Não falei. Só tenho idéias no trânsito. Quando chego num lugar que posso expor some tudo. Parece mágica. Nem uma ideiazinha vem à mente.

 

E o teclado que poderia ser tocado fica solitário de dedos.

 

Ele pensa mesmo. Acredita. Que pode passar entre dois carros neste espaço tão exíguo. Desconsidera. O que falou que dois corpos não podem ocupar um mesmo espaço ao mesmo tempo. Não lembro. Mas quem falou se horrorizaria com o erro. Está me parecendo que não só dois corpos podem como três. Ao menos é o que procura demonstrar imediatamente. O rapaz da moto. Pronto. Lá se foi o retrovisor. Do carro ao lado. Odeio brigas.


Ele adora brigar no trânsito. Diz que não. Mas já vi de perto. Ergue os braços. Fala alto. Fica sério. Não fossem os vidros fechados e a dificuldade que ele tem em encontrar o botão elétrico certo, uma nova linhagem teria já sido publicada. Parece do juizado. São tantos os filhos que ele denuncia como de mães perdidas. Parece que a paternidade foi abolida de vez. E as Instituições para deficientes mentais. Muitas mais seriam construídas. Além do juizado ele também é do serviço de psiquiatria. Reconhece e dá o laudo em segundos. E isso dito em voz de tenor. Convence até ao relutante diagnosticado.


Sorri solta. Me arrependi. O motorista do lado me olhou. Temeroso e seduzido. Vai ver está pensando que sorri para ele.


E eu não quero sorrir para ninguém. Só quero um teclado acoplado ao volante. Para não perder a minha chance criativa.


Ele fala que sou criativa. Adoro quando ele fala isso. Me sinto genial. Vem rápido a vontade de escrever. De me publicar.


A fila está enorme para atravessar a avenida. Não entendo porque. O trânsito parado. Tantos esperar o sinal ficar verde.
As pessoas estão sempre esperando sinal. Para tudo. Para sentar. Para levantar. Para perguntar. Para responder.
Podem avançar, recuar. Mas vivem trocando os sinais.


Agora lembrei de mim. Costumo fazer isso. E ainda chamo de desobedecer ordens.
Me faço de rebelde em atividade. Ri de novo. Desde quando desobedecer ordens é trocar os sinais. Isso daria uma boa questão filosófica. Para ser escrita.


Como não tem micro aqui no carro vou acabar esquecendo.


Micro acoplado em volante nem opcional deveria ser. Deveria já fazer parte. Como pneus. Freios.


Ele me contou que dia desses estava dirigindo e pensando. Na auto-biografia. E em Inglês. Detalhava o passado em meio ao idioma estrangeiro. Talvez como estrangeiro se sentisse. Na revisão da própria vida.


Todos nós acabamos estrangeiros. Diante do nosso passado. Melhor pensar nisso com mais calma. Quem sabe está nascendo um novo texto. Que falta que está fazendo o micro no trânsito.


Que desperdício de pensamentos.


Comecei a rir de novo ao lembrar dele. E da auto-biografia. Nada a ver com a Lingua-mãe.
Essa coisa de rir no carro está ficando complicada. Ele me olhou de novo. Só falta agora pedir meu cartão. Ou me dar o dele.


Meu cartão agora tem o sobrenome dele. Deu para enganar ao mundo. É repetição. E agora me pego lendo o meu próprio cartão só para ver o nome dele ligado ao meu.

 

Acho que estou ficando com problema de lugar. Ri. Estou ficando. Quando foi que não tive. O problema. Não o lugar. Lugar sempre foi meu problema. Quanta confusão. Tudo porque não tenho micro aqui.


Ainda bem que o trânsito deu uma melhorada. Posso acelerar para chegar em casa. E ir correndo escrever. Todas as minha idéias.


Se elas se disfarçarem em silêncio, ou o silêncio se disfarçar em idéias, vou ficar muito brava.
Vou acender um incenso. Pode ser que o Universo me ilumine.


A conta da luz!


Acabo de lembrar. Não paguei. Pronto. Belo pulo que dei no carro. Ele agora deve estar pensando que faço sexo em banco vibratório. Já até me olhou diferente.


Estou no carro. Na rua. Com o trânsito parado. Vou querer trocar. Um banco vibratório em vez do volante ao micro, Serviria mais. Para esse outro tipo de idéia que está me ocorrendo.


Enfim o trânsito andou e ele sumiu. Deve ter virado a esquina. Hoje terá assunto para comentar com a mulher. Sim. Tinha a maior expressão de homem casado. Que busca assunto na rotina para se fazer novidade.
Coitado. E ela deve escutar pensando.
As novidades dela - ela não pode contar.
Sim. Ele também parecia com isso.


Ri de novo pelo pensamento maldoso.


Ri na hora errada.
Ou o pensamento é que estava errado.


Não fui eu quem estava desatenta. Foi ela. Veja bem o estrago que fez. Já é a terceira vez que fazem isso. Nestes dois meses.


Lógico que a senhora vai arcar com os custos. Ainda me chama de desaforada. Já me disseram, obrigada. Vou ligar sobre o orçamento.


Só me faltava essa.
Lá se vai agora uma semana de carro em oficina.
E eu sem as minhas idéias transitórias!

 

 

publicado por Lêda Rezende às 16:12

Então Pãozinho Quente com Manteiga. Tenho vindo a ler seus textos. Beijo
Caravaggio a 6 de Fevereiro de 2010 às 01:33

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