Blog de Lêda Rezende

Janeiro 15 2010

 

Ela precisava de ajuda.

 

Morava em cidade de grande porte. E do referido Primeiro Mundo. Assim. Com iniciais em maiúscula. E ainda tinha uma função prioritária de chefia. Em um Banco só de alto e altíssimo escalão. Mundial. E de empréstimos concedidos a empréstimos impedidos – chegou a vez dela.

 

Não em termos de empréstimo material. Nada relacionado a juros. Muito menos a taxações. Sobre este aspecto ela sempre esteve do outro lado da mesa. Com outro tipo de caneta nas mãos. Até com outro rigor nas mãos. Longe de tremores e solicitações. Enfim. Disso ela estava acima.

 

Mas precisava. Eis o que não há dispensa em momento algum da vida. Seja em que número de mundo for. Não importa. Sempre há esse tal de precisar.

Fosse unir todos os avisos de - precisa-se - e mil volumes não dariam conta.

 

Neste momento parece que o teto desaba. Ao menos o teto da auto-suficiência. Desaba e expõe os pedacinhos. Ou em pedacinhos. Para que possa ser lido sem desculpas. Auto- suficiência não existe. Este aviso sim. Cabe na palma da mão. Não se faz necessário sequer um mínimo volume. Quando o aviso se pendura diante de algum incauto – o susto é proporcional.

 

Ela que nunca havia sentido a sensação – desta vez sentiu. Há sempre algum precisar. Daria até uma letra de música. Com refrão e tudo.  

Ficou pasma. Apavorada. Preocupada. Tivesse ela com uma daquelas canetas nobres nas mãos e teria - talvez – tremido. Talvez mais a caneta que as mãos. Vai lá saber.

 

Mas concluiu. Preciso. Se não – impossível continuar.

 

Mais uma vez deu de encontro com as ideias. Não o tão intelectualizado Mundo das Ideias. Este ela também dominava. Desde sempre.

Desta vez era mais conclusivo em atos e fatos que em pensamentos e elucubrações. Sem cavernas nem mitos. Sem ágapes e encômios. Eram simplesmente as ideias do mundo. Prático.  

 

Fosse um mundo de primeira. De segunda. Reciclado até. Não importa. Pode mudar a cor da pele dos habitantes. O idioma. O sotaque. Pode vir com o mais fino gestual. Ou o mais desavisado levantar de braço. Importa menos ainda.

 

Uma mulher. Um cargo. Uma função. Perfeita em tudo. E filhos. Claramente – duas filhas. E férias escolares. Alguém tem que ficar com as crianças. Este o primeiro postulado que entendeu de uma só tacada. Sem revisão de literatura. Sem mestrados ou doutorados. Precisa-se de.

 

Iniciou o processo reflexivo. De onde. Por onde. Até onde. Não faltaram interrogações. Desta vez do lado dela da mesa.

 

Para ela que vivia a responder interrogações com exclamações e pontos finais – eis uma etapa complicada a ser vencida. Poderia até dizer - aprendida. No sentido de aprendendo.

 

Mas conseguiu. Com todas as referências positivas - contatou com ela. Residente em um Mundo já com outra numeração.  

 

Como dizia uma certa avó amiga. Todo ato tem sempre duas faces, menina, todo ato tem sempre duas faces.

 

E ai foi a vez da face do outro lado.

 

Morava no tal Mundo de numeração desfavorável. A casa ficava num local que dificilmente chamariam de bairro. Tias. Primos. Todos disputando o pouco ou o muito de liberdade espacial. Nem tudo é realmente como parece. E lá nada parecia com o tal realmente.

 

Enfim. Foi convidada. Gostaria que viesse me ajudar com as meninas.

 

Aceitou.

 

Nunca havia escutado sequer outro idioma. Muito menos sentido frio. Frio de verdade. Com neve até os tornozelos. Assustaram. Imploraram. Falaram dos mil e um perigos daquele tal Mundo de numeração privilegiada.

 

Mas ela não era de se assustar muito fácil. Concluiu com a sabedoria do experiente.

 

Se lá tem gente viva – por que eu não poderei também viver.

 

E arrumou o pouco que tinha dentro de uma mala enorme. A única que conseguiu. Vai ver para caber um pouco da coragem. Esta sim – transbordava.

 

E lá foi. Trocou de avião três vezes. As escalas e conexões eram já no tal idioma desconhecido. Mostrou papeis com números e siglas. Apontou. Se fez de surda. Se fez de muda.

 

Se os surdos-mudos viajam – também poderia ser surda-muda por algumas horas.

 

E de conclusão em conclusão - chegou.

 

De um lado - lá estava ela em pé. Solta em meio ao saguão. Uma mala enorme. Vazia de pertences. Mas com excesso de feliz orgulho próprio. Vencera. Sozinha.

 

De outro lado – lá estava ela meio em pé. Encostada numa coluna. Uma pequena valise. Lotada de documentos. Mas com falta de feliz cumplicidade. Lutara. Sozinha.

 

Pela primeira vez ela se viu do outro lado da mesa. Da tal mesa do Banco. Onde ela passava todo o dito horário útil. E observava rapidamente as pessoas à espera de uma exclamação. Agora parecia uma troca. Sentiu-se do lado de quem pede. E reverenciando o lado de quem concede.

 

Apresentaram-se e abraçaram-se. Seguiram para casa. Antes encontrariam as meninas na escola.

 

Estava iniciada a nova função de uma. E a manutenção da antiga função da outra.

 

Nevava. Cada qual parecia em estado de tranquilidade com seus pensamentos e palavras. As obras - talvez estivessem por conta dos lados da mesa.

 

Uma precisou e pediu. A outra arriscou e concedeu. Ambas vivendo um inaugural em suas vidas. A ordenação dos Mundos desconsiderada. Uma nova compreensão - construída e assimilada.

 

E a mesa – subitamente – pareceu ficar redonda.

 

 

publicado por Lêda Rezende às 10:53
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