Blog de Lêda Rezende

Outubro 24 2009

 

O telefone me acordou. Um aviso protocolar. A rotina começava - já.

 

Nem sei bem como desci as escadas. Erro - sei. Rápido. Muito rápido.

 

Até lembrei o dia que dancei abraçada ao corrimão. Um ballet exótico. Nada sensual. Numa tentativa de não me fragmentar no chão da sala. Tentativa e êxito. Mesmo que durante uma semana negasse. Nada de estranho com o meu caminhar. Como se não vissem. Faz de conta que tenho nada. Faz de conta que acreditam. Assunto encerrado.

 

Enfim. Desci as escadas já informando. Estou com pressa. Tenho uma sequência a ser seguida. Antes de chegar lá. No trabalho. Onde mais seria.

 

Lógico. Você não tem que entender. Se eu não disser. Tudo bem. Depois discutimos semântica. Deixa para lá. Depois explico. É mal educado falar durante a mastigação.  Sim. Amanhã falamos.

 

E já fui quase empurrando o elevador. E reclamando com as correntes lentas.

 

Nestas horas me lembro de lá. Da brisa do mar serenando ânimos. Do cheiro de café da manhã com tapioca. Da relativa calma diante do inevitável. Até o barulhinho da rede no prendedor. Lembro tudo. Mesmo que em segundos. Como uma viagem da matéria. Transcendental. Dá até para suspirar.

 

Mas enfim. Estou cá. Foi para cá que vim. Melhor deixar de cheirar o carro. Nunca terá cheiro de maresia. Até ri.

 

Ainda bem que não é longe. Este o primeiro pensamento. Parada com o trânsito emperrado. Não andava para lado nenhum. E quase foi o último pensamento. A buzina delicada me fez virar para o lado.  Abri o vidro.

 

Pois não. Um simpático senhor sorria para mim. Até ai tudo bem. Vai ver queria se socializar. Mas não. Avisou com a fala e com o dedo. Apontou. Está muito baixo. Deve ter furado. Vá rápido a um posto.

 

Não sabia se ria. Se chorava. Ou se descia do carro e torcia o dedo dele. E a idéia dele de cidadania solidária. Como assim rápido. Não tinha saída. O trânsito parado. E ele vem me apontar um pneu furado de emergência. Não deveria ter família.

 

Mas agradeci. Muito obrigada. Muito gentil. Uma lady. E eu que dizia que não era nem lady nem santa. Contradição total. Exatamente o oposto. Uma verdadeira santa inglesa. Ou inglesa santa. Certo. Mais semântica. Hoje deve ser o dia Nacional da Semântica.

 

Mas consegui. Eis um posto.

 

Então tem um prego. Vai poder trocar. Espero sim. É verdade. Coincidência existe sim. Então ele chegou com o mesmo problema. E por um segundo eu seria primeira. Não faz mal. Espero. Sim. Sou bem calma. E ele deve ser cego. Pensei. Mas calei.

 

Não. Ela já foi. Sim. Ela achou que você chegaria no horário. E eu achei que chegaria a tempo. Opiniões combinadas em agendas descombinadas. Quase um poema.

 

Sim. Você é a segunda pessoa que me fala isso hoje. Sobre mim. Devo ser mesmo. Muito calma. Ou só tem cego por aqui. Nada. Deixa para lá. Sem problema. Entregue em meu nome. Não esqueça. Por favor.

 

Sim. Nem sei como consegui chegar. E na hora. Pode mandar entrar. Ainda bem. Se me chamasse de calma – eu ia descer. Como assim. Sou uma Lady. E Santa. E com letra maiúscula. Ia descer para me internar. Depois lhe conto o que foi. Esta manhã. Mas pode mandar entrar. Rimos.

 

Ele entrou junto com eles. Tinha uma covinha exposta por um mal disfarçado sorrisinho. As mãos estavam enfiadas no bolsinho da calça.

 

Eles avisaram. Ele estava todo feliz porque ia lhe ver hoje. Tem uma novidade para lhe contar. Verdade. Ele que quer falar.

 

Ele me olhou. Chegou mais perto. E disse como um segredinho. Mas com muita seriedade. E firmeza na voz.

 

Tirou a mão do bolsinho da calça e ergueu o dedinho para me informar.

- apendi a fasser cici em pé –

 

Olhei para ele. Lindo. Feliz. Envaidecido com seu aprendizado. Orgulhoso de si mesmo. Dei um beijo de parabéns. E celebramos na sala esta grande – e verdadeira – conquista.

 

Diante daquela frase - tudo o mais ficou tão banal. Pneus. Furos. Horários.

Ficou tudo isso tão superficializado. Diante da alegria de quem se entende crescendo – e sabe já fazer xixi em pé.

 

Pode parecer tão simples. Mas não é.

 

Poucas vezes entendi com tanta objetividade – o progresso. Ou me ensinaram com tanta suavidade - a evolução.

 

O crescimento. Isto sim - é importante.

 

Agradeci ao Universo o privilégio da escuta. E o dia se fez completamente válido.

 

 


Você não respondeu ao meu comentário, que deixei ao seu, pedindo para confirmar se recebeu o meu!
Caravaggio a 25 de Outubro de 2009 às 10:19

Quem é que disse que você não modificou a possibilidade nos seus comentários. Como soube que fui o visitante 5.000 se não está cá o meu comentário. Ontem estava aqui um local para se por um código numérico e alfabético (sem nenhum numero ou letra!!!!) Não precisa explicar.
Caravaggio a 25 de Outubro de 2009 às 13:02

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