Blog de Lêda Rezende

Setembro 18 2009

 

Chegou com aquele jeitinho dela.

 

Tranqüilo. Poderia até se dizer - sorrateira. Era sempre assim. Caminhava como se deslizasse. Nada fazia com rapidez. Ou esbarrões. Dava conta do assumido. Mas sempre do jeito mais suave. Era assim o estilo dela. E sempre bem humorada. Agradável. Decidida.

 

Não havia dia que atrasasse. Jamais. Nem na entrada nem na saída. Era a pontualidade e seus efeitos obsessivos. Detestava mudança na rotina. Até obedecia – mas reclamava. Resmungava. Falava do mesmo jeito que caminhava – como se em respeito a um especial  silêncio.

 

Se lhe era solicitada uma solução – encontrava. Se lhe era encaminhada uma tarefa – cumpria. E tudo sem comentários. Sem questionamentos. Era para fazer – fazia. Simples assim. Mas sempre dentro da própria metodologia. Disso não abria mão. Nem ninguém a convencia. De qualquer contrário.

 

Primeiro escutei o pisar leve nos degraus da escada.

 

Em geral não subia se me visse ocupada. Ou concentrada. Deveria ter um nobre motivo. Dentro da qualificação que ela mesma estabelecia. Depois vi que trazia um envelope nas mãos. E segurava com muita delicadeza.

 

Interrompi o que fazia e me virei de frente para ela.

 

Entregou-me o envelope. Amassadinho. Foi avisando. Estava no depósito. Deve ter sido na mudança. Ficou por lá. Hoje mexendo em busca de alguns documentos solicitados – as encontrei. Acho conveniente comprar mais porta-retratos.

 

Eram as fotos.

 

Não sabia que estavam lá. Havia procurado muito. Por muito tempo. Agora estava ela a me entregar. Num envelope meio amarrotadinho. Mas envolto num saco plástico. Como embalagem sem data de validade.

 

A mesa estava tão bonita. A toalha de renda branca sofisticava a arrumação de talheres e pratos. O arranjo de rosas vermelhas expunha a emoção forte da decisão.

 

As taças estavam dispostas na mesa quase em fileira dupla. Próximas à borda da mesa. As cadeiras estavam afastadas para possibilitar uma melhor circulação. Até ri. Nem lembrava que tinha feito esta organização.

 

Elas estavam sentadinhas juntas. Talvez um pouco tímidas – pela posição que colocavam as mãos.

 

Eles estavam lindos. Lindos. Lembro que chegaram mais cedo. Queriam prestigiar com toda a solenidade necessária. Consideravam importante - para eles – se era importante para mim. Sempre solidários.

 

Ele estava de branco. Deixara a barba espessa - crescer. Eu estava de branco. Deixara os cabelos longos – soltos.

 

Ri de novo. Também não lembrava que tinha fotografado os pés. A sandália vermelha dava seu toque mundano. Mas – sem dúvida - elegante.

 

Ela olhou. Uma por uma. Fez algumas observações sobre quem me ajudara. Depois desceu. Com o pisar suave de sempre. De volta para suas tarefas. Não podia se atrasar. Concordei. 

 

Fiquei sentada ali – sozinha.

 

Com as fotos nas mãos. E com um sorriso invasor que denunciava as boas lembranças. Assim. Entre o presente e o não presente. Passando e Repassando. Como se num ato de efeito atualizante.

 

Muitas das pessoas – das fotos - não via mais. Saíram do registro do cotidiano. Trocaram de rumo. Ou de atalho. Ou criaram novos caminhos. Não devem ter marcado o chão. Nunca mais voltaram.  

 

Os objetos permaneceram. A mesa. A toalha de renda. As taças. A sandália.

Acho que a vi dia desses numa arrumação - por busca e apreensão. Quase ri.

 

Pensando bem. Não só os objetos ficaram. Os risos ficaram. Os mesmos risos. A mesma alegria. A constante celebração por nos mantermos sempre unidos. Ligados.

 

No tempo das fotos – nem adivinhávamos que eles iriam casar. Que ela viria se integrar. Que mudaríamos para cá. O tempo fez suas gracinhas espaciais e afetuosas. Mas preservou tudo de melhor. Houve sustos. Choro. Tensões. Até abalos de saúde. Mas todas as etapas bem vencidas.

 

Na minha frente tinha um calendário. Estava circulada a data – dia dez.

 

O dia da festa das fotos. Quase nove anos. E era hoje - dia dez. Ele já me acordara - cedo -  com um beijo de comemoração.

 

Desta vez ri. Podia-se até estar amarrotadinhos - mais do que há quase nove anos. Ele tirou a barba. Cortei os cabelos. Mas algo se mantivera bem conservado – como se no tal saco plástico. Os afetos verdadeiros continuaram intactos.

 

Acariciei as fotos. Telefonei para ele. E para eles.

 

Hoje as taças vão sair dos seus cantinhos no armário. Quem sabe – até a sandália vermelha.

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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