Blog de Lêda Rezende

Setembro 13 2009

 

A discussão parecia séria.

 

Elas falavam e falavam. Não conseguiam atingir um acordo. Porque nem bem uma se calava – a outra retomava. Parecia que já estavam assim há um longo tempo.

 

Poderia se supor até desde sempre. As questões eram as mesmas. Comuns. Antigas. Seculares. Milenares. Parecia cena de déjà-vu.

 

Deviam regular entre três a quatro décadas - no máximo. Faziam expressões de intensa maturidade. De extensa profundidade. Gesticulavam com as certezas nas pontas dos dedos.

 

Viravam-se uma para a outra com ar de inspeção pessoal. Como se circulasse uma pré censura. Que cada uma pesasse bem o que fosse falar. Coisa difícil. Mas nunca impossível. Isso dava para acreditar só de olhar para elas.

 

De repente vi a expressão de uma delas.

 

Triste. Até submissa. Mais escutava que falava. Parecia que solicitava um aparte. Ou tentava erguer a mão. A pedir permissão. Ou talvez socorro. Como uma náufraga. Tentando chamar a atenção do navio. Para se expor. Menos. Ou quem sabe se impor. Mais.

 

A mão denunciava o pedido. Demonstrava o corpo por trás dela. Da mão. E todo o temor por trás do corpo. E a sempre possível solidão lá – emoldurando o temor. Ou o contrário.

 

Mas ficou ali. Tentando a permissão. Dava até a impressão de estar entediada. Mas não era uma avaliação fácil.

 

Era ela - o objeto da discussão.

 

A vida dela estava em acareação. Basculava entre o certo e o errado. Entre a culpa e a desculpa. Entre o feito e o desfeito.

 

Parecia um tribunal. Como se houvessem aberto uma sessão. Todos seguiam uma ordem. E obedeciam a uma desordem. Pela expressão que fazia - teria que ser a jurada de si mesma. A cada fala das incorporadas promotoras e defensoras. Sim. Porque elas alternavam. Mas não perdoavam. Nem a defesa perdoava. Era a defesa contrária. Não tinha juiz. Ou talvez tivesse. Mas ainda não se manifestara.

 

Havia algo ainda mais interessante naquela confusão.

 

Não olhavam para ela. Falavam dela. Isso estava claro pela sinalização dos dedos. Apontavam. Até diziam a palavra - ela. Ou – dela. Mas não olhavam para ela. Discutiam sobre ela. Mas a tratavam como ausente. Falavam-se entre si. Poderosas.

 

Mas nem tudo neste mundo é exclusivamente o que parece.

 

Ela começou a rir. Rir mesmo. Abaixou a tal mão supostamente erguida e começou a rir.  Até amparou a bolsa para que não caísse do colo com o riso. Segurar a bolsa para rir foi perfeito. Não vi nada mais adequado até aquele momento.

 

As outras silenciaram por um segundo. Depois um minuto. Depois caladas – mesmo - olharam para ela. Pela primeira vez. Desde que ali chegaram e se acomodaram - cada uma em seu Lugar de escolha.

 

A situação parecia se inverter.

 

Já não dava mais para saber quem era navio. Quem era náufrago. Muito menos onde estava o mar. Um riso modificou toda a cena. O cenário. Jurados e advogados. Como se fosse cada uma para um lado. Assim. De repente.

 

O riso se fez juiz.

 

Entre condenados e absolvidos - o riso bateu o martelo. Os do navio pareciam se debruçar sobre a murada. O náufrago parecia pensar se estava melhor com sua tábua. Ou sua bolsa. Uma cena cômica.

 

Elas fizeram um ar de irritação. Afinal. Só queriam ajudar. E estavam realmente preocupadas. E ela ria assim. Em meio a uma conversa sobre ela. Uma conversa dela.

 

Não respondeu objetivamente. Levantou. De um salto só. E já com a chave do carro na mão. A tal mão da bolsa e que parecia antes erguida. 

 

E disse. Assim. Despretensiosamente. Desculpem. Obrigada. Licença.

 

Usou todo este vocabulário polido. E continuou. Comecei a ficar com uma dúvida. De quem teria mais dó. De vocês. De mim. De nós todas. Foi ai que - vai lá saber por que - me lembrei. 

 

Achei que iríamos almoçar em casa. Daí vocês telefonaram e me convidaram para almoçar neste restaurante.

 

Havia já colocado um peixe para assar.  Esqueci de desligar o forno. Está lá já há mais de quatro horas. Ainda rindo completou. Por isso dizem que o peixe morre pela boca. Sorrindo - saiu.

 

Lembrei de uma fala da minha avó. Muitas vezes o auxílio vem do esquecimento, menina, muitas vezes o auxílio vem do esquecimento.

 

Estava - assim - encerrada a sessão.

 


Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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