Blog de Lêda Rezende

Março 22 2009

 É verdade. Nem notei. Dez anos. Agora a dúvida. Logo eu que detesto dúvida. Tinha que surgir uma justo agora. Justo hoje.
Aconteceu muita coisa? Aconteceu pouca coisa? Só me vem à mente perguntas.
Ri.
Se eu soubesse respondê-las - nem teriam surgido.
Conclusão à moda austríaca.

E ainda nem me decidi se parece. Se parece pouco tempo ou muito tempo.

Ele quando soube, comemorou. Depois a pergunta. Arrependeu? Assim. Pergunta solta. Ele sempre faz pergunta solta. Quando quer fingir que não tem importância. A pergunta. Mas sei que é quando tem. Perguntou e se pôs a fazer alguma coisa. Disfarçou. Barbas de molho. Esta expressão sempre me lembra ele. Também tem outra. Pulga atrás da orelha.
Ri.
Ele percebeu. Mas preferiu não comentar. Discreto em tudo.  Por tudo.

Aquele dia foi incrível.

Sai de lá. Chega aqui. Em menos de doze horas o Universo trocado. Cenário trocado. Paredes trocadas. Rostos apagados. Rostos apresentados.
Cento e noventa e seis caixas.  Não esqueço este número. Cento e noventa e seis.
Entraram por uma porta. Eu saí pela outra. Para o Hospital.

Caixa sempre é questão. Uma já é. Mas cento e noventa e seis é terremoto.
Ri de novo.
Era mesmo o que parecia.  Meu coração. Parecia um terremoto. Batia de todo o jeito. E de toda falta de jeito.
Acabei no Hospital.

Caixa entrando e eu saindo. Ele que me levou. O mais velho. O mais novo ficou. Angustiado. Rimos muito no caminho. O motorista do táxi não entendia. Era urgente porque era mortal. Como poderia se rir tanto disso. Nem nós sabíamos.

O médico até desconsiderou. Avisou ríspido. Quem está morrendo não ri. Conclui rápido. Ele não entendia nada de morte. Muito menos de riso.
Mas acatei.

Voltei. No mesmo dia. Voltou o compasso. Do coração. Eu sempre fui descompassada.Sempre tive problema de conteúdo e continenti. Não cabia. Nada cabia. Empurrava daqui. Ajeitava dali. Fiz doação. No final: casa arrumada. Casa montada - como diziam de onde vim.
A posse se renovava a cada trinta dias.

Lembrei que tinha um fantasma. Ri agora. Todos o viram. Mudava até as coisas do lugar. Um dia ele sumiu.
Deixou que a integração de posse ficasse para mim. Ou minha.

Ele brinca que sou desorientada. Descompassada pode ser. Desorientada não. Não sei. Talvez sim. Nunca entendi de bússola. Nem sequer compreendo os pontos cardeais. Seguia as setas. Foi por uma dessas setas que nos conhecemos. Uma história simples. Ou uma simples história.
Não parece filme. Não parece do outro mundo. Um encontro. Começa com o olhar. O dele. O olhar sempre traz o impossível de ser dito.
Continua com as palavras. As minhas. Se organizam com o ato. Conjunto.

Eles ainda moravam comigo. Eles chegavam das aulas à noite. Jantávamos juntos. Sempre rindo. Nos divertíamos com qualquer coisa.
Tinha um frigobar. No vestíbulo. Passinhos na noite.
Não era o fantasma. Farra no frigobar. Farra de chocolate.
E pela manhã só embalagens vazias.
Ninguém dizia de quem foi o ataque maior.
Ri mais uma vez.

Lembrei do frio. Aquecedor pela casa toda.
Eram tantos que possibilitava a idéia de usar protetor solar.

Ri quase alto.

Nem sabia as ruas. A cada nova esquina um susto. Benditas placas. Ou bendito seja o inventor das placas. Minha vida pendurada num fio.  Olhava para cima e descobria os rumos.  Me sentia numa nau. Arrecifes de um lado. Tubarões do outro. Icebergs mais adiante.

A Nau dos Insensatos. Ou da insensata solitária.  Gostei da analogia.

Ele não entendia como eu gostava do trânsito. Transito. As ruas eram mais minhas a cada dia. Se eram minhas, não faziam mal. Podia demorar nelas. Até hoje gosto das ruas. Gosto da intimidade conquistada.

Ele me achava corajosa. Inteligente disse um dia.
Quase dei um pulo.
Esta palavra sempre me soou tão alheia a mim.  Lembro do dia em que contei isso a ele. O motivo do tal alheiamento. Tive um diagnóstico de retardo de raciocínio. Algo por aí. Ele riu. Negou. Até se irritou. Falava sempre que eu era inteligente.
E a palavra começou a me soar mais próxima e menos verbete.

Muitas vezes ele ria ao me ver sair. Todos já me conheciam. O jornaleiro. A mocinha da livraria. O segurança do estacionamento. Até o judeu mal humorado da lavanderia. Era mal humorado. Mas quando me via sorria. Tinha um neto. Escutei todas as gracinhas dele. Mas nunca o conheci.

A cidade me incorporou. E eu ela. Não sou natural daqui. Mas escolho. Sou artificial daqui.
Ri.
Vou escrever isso em meus registros.

E tinha ela. Era ótimo. Ela vinha todos os dias no final da tarde. Tomávamos chá e comíamos bolo. Ríamos muito. Ajudamos a saúde financeira da fábrica dos bolos
Não sei qual de nós duas era a mais solitária. Talvez as duas. Ou nenhuma das duas.
Só sei que ríamos e comíamos. Quando estava frio era café com conhaque. Poucas vezes choramos.
Agora caiu uma lágrima. Ela se mudou para bem longe. Depois do mar. Quem sabe um dia uma de nós escreve um livro. O Banquete na Cozinha. Perdão Platão. Mas o nosso era mais divertido. E nunca chegou o Alcebíades bêbado. Agora ri mesmo e ele viu.

Me olhou. Viu que estava rindo. Acho que viu que escondi a lágrima. Deve saber tudo que estou pensando. Ele sabe tudo de mim. Sempre. Às vezes tem ciúme. Do tempo que não encontramos a seta. A seta que nos encontrou. Nega. Diz que não se incomoda. Mas sei bem que se incomoda.

Bobagem. Pare com isso. Que abraço gostoso. Sim. Como poderia estar arrependida? Muito bom.

Sim, é verdade. A ignorância é que permite a coragem. Eu tinha as duas. Que sorte a minha.

Concordo. Tudo deu certo. Dez anos. Sim. Sem dúvidas. Aconteceu muita coisa.

Muita coisa boa, maravilhosa.

Viva a artificialidade. Também amo você. Muito.


publicado por Lêda Rezende às 00:42

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