Blog de Lêda Rezende

Agosto 06 2009

 

Eis a questão inicial. O tempo passa muito rápido. Não dava para acreditar.

 

Lembrei o poetinha favorito. De um versinho breve. Tão breve quanto a Vida. Algo sobre quem é aquele envelhecido ali que me olha. No espelho.

 

Pode-se até amor-daçar o desperta-dor. Pode-se esconder o objeto. Só o objeto. Por que o tempo fica ali. Servindo-se de si mesmo. E servindo-se do outro.

 

Impossível não pensar.

 

Como dizia a minha avó.  Sempre parece que foi ontem, menina, sempre parece que foi ontem.

 

Foi assim que me senti – de repente. A  serviço do tempo. Como uma habitante do seu cárcere privado. 

 

Mas os planejamentos já se iniciavam. Dava para ler nas entrelinhas das comunicações. Dos olhares. Das frases ditas com rapidez. Estilo ao bom entendedor. Cada ano vem com uma novidade. Uma orgia de criatividades.

Cada um expondo seus afetos de forma especial.

 

Lembro de uma vez. Quando cheguei de volta em casa. Ele havia iluminado a sala toda com pequeninas velas. Muitas. Nem dava para saber quantas.

 

Pareciam estrelinhas contratadas. Ali. Em cada lado que virasse – um pontinho de luz delicada. Da cozinha rescendia um odor quase onírico. A música fora escolhida com total adequação – havia sido a primeira música.

Lembro quando entrei na sala. E vi os brilhos no escuro. A música. O cheiro.

 

Passei um tempo em posição de surpresa. De pé. As duas mãos no rosto. Um riso assanhadinho entre as mãos. A mais pura expressão de prazer.

 

Lembro da pergunta dele. Não vai entrar. Na mesinha muitos pacotinhos enrolados com laços e papeis brilhantes. O vinho no balde. A mesa posta. O olhar dele. O riso. Uma festa. Entrei. Sentei. O difícil foi tirar as duas mãos do rosto. O riso foi fácil. Ficou para sempre.

 

Até hoje – quando lembro sinto o cheiro e vejo as cores.

 

Uma outra vez caiu num domingo.

 

Ele levantou antes. Desceu. Da cama escutei uns barulhinhos. Perguntei se estava tudo bem. Sim.

 

De repente muitos barulhinhos. E pés pela escada acima. Estavam todos lá. Ela também estava do lado de cá do mar. E ali. Dentro de casa. Todos. Risos e risos.

 

Me convidaram a descer. Estava lá uma festa. De flores. Um pacote enorme enrolado de branco com fita vermelha - descansava seu peso no sofá.

 

A mesa. A mesa estava linda. Toda arrumada. Com tudo que agradaria aos deuses gregos. E eles todos felizes. Ela só ria. E apontava a sua parte na composição. Para destacar o – lhe conheço bem.

 

Tantos anos que ela não participava deste festejo. A comemoração passou a ser múltipla. Não faltaram motivos. Desta vez a música era mais comunitária. Regida apenas por risos e vozinhas.

 

Naquele dia deu para entender o que falam sobre a magia do afeto.

 

Agora escuto os burburinhos. Vejo olhares enviezados. Desta vez ela não virá. O além mar está mais além. Mas hoje cedo já se fez presente.

 

Informou da celebração. Antecipadamente. Como contagem regressiva. Sempre atenta. E delicada. Já acordei rindo.

 

Foi aí que veio o tal de repente. Aliás veio duas vezes.  Sempre explico a ele porque gosto de ópera. Acho que ele já entendeu. Se não entendeu vai entender. Quando ler.

 

De repente o Tempo passa. E passa mesmo. Ciente da sua função. Com absoluto desprezo por reclamações. Vai lá fazendo um percurso que nem sequer é planejado. Lida com tudo com total despropósito. Este é o Tempo.

 

Mas de repente também o Tempo traz as respostas. Os retornos. Os possíveis merecimentos.

 

Entre esses dois de repente – discordei de mim mesma. Depois me convenci de mim mesma. Para depois entrar em estado de dialética.  

 

Diferente do meu poetinha querido, me reconheci.  E,feliz, dei um beijinho no espelho.

 

Não fiquei tão-somente a serviço do Tempo.

Também o fiz existir a meu serviço.

 


Olá minha querida Lêda, Parabéns pelo seu reconhecimento que vou estar muito atenta no dia e na hora marcada, a ouvir.
Acho que tens uma profissão que se não tiveres amor pelo que fazes, sabes bem que é mesmo um sacrifico e depois também vermos que o que fazemos é recompensado, nem que seja com um sorriso lindo de uma criança, chega bem.
Quanto ao Tempo....sei lá....que te posso dizer sobre o Tempo ?? Que o meu passou e passa depressa demais e as coisas passam por mim rápido demais e essa "magia do afecto" para mim existiu muito pouco e é isso que me continua a fazer falta - sentir A MAGIA DO AFECTO.
Um beijo do tamanho deste Oceano que nos separa
lua_sem_sol a 11 de Agosto de 2009 às 08:56

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