Blog de Lêda Rezende

Julho 26 2009

 

Acordou com o dia já programado de véspera.


Adorava isso. A sua programação adiantada. Dormia sabendo o dia seguinte. Mais ou menos assim. Não era metódico. Nem obsessivo. Era programado. Palavras com sentido diverso. E funcionalidade ainda mais diversa.


E assim seguia seu estilo. Alguns até opinavam. Faziam elucubrações carregadas de teorias sobre o ato em si. Dava de ombros. Escutava mas não antagonizava.


Alguém um dia lá sugeriu. Vai ver é uma aposta na vida. No dia seguinte estará vivo. Vai ver é isso. Funciona como ordem prévia. De rotina a ser cumprida. Nada afastando a possibilidade da interrupção. Da já cuidada rotina. Desde a véspera.


Desta vez acatou. Não que estivesse em total acordo. Acordo era muito difícil de conseguir com ele. Sempre tinha um se ou um mas. Os mais próximos até se surpreenderam. Ela perguntou. Não vai falar que não. Riram. Ele não riu.


Ficou pensando. Não dizia refletindo porque cansara desta palavra. Deste verbo. Refletir passou a lhe sugerir uma observação superficial. Como uma leitura das primeiras linhas. Desconsiderando todo o parágrafo. Como uma alegoria. Sempre cabia mais imagem do que texto. Uma idéia particular. Mas não abria mão.


Assim fora mais aquela noite. A roupa da manhã já separada. A chave do carro sobre a mesa. O café da manhã já deliberado. E dormiu.


Pela manhã já se sentiu reconhecido. Tudo estava conforme o planejado. Logo era muito mais uma questão de reconhecimento. Do que de conhecimento. Assim acreditou. Tinha lá seus instantes de credulidade. Quase lúdica.


Saiu. Foi cumprir o já agendado.


Parece que alguém não entendeu muito bem. Ou se fez de desentendido.


Em meio ao rumo determinado – um susto.


Ela veio de lá. Desconsiderando listas. Projetos. Estilos. Ordens prévias. Obstáculos. Vai lá saber o que programara na véspera. Mas foi uma pancada só. E um estridente grito do metal com metal. Como uma cruel dor aguda e cortante.


Seu carro restava ali. Como diriam os poetas do além mar. E restava era a palavra mais correta. Uma parte se fora. E a que restara não se sustentava. Qual um doloroso divórcio. Onde um não sabia o que fazer sem o outro. Mas já se entendendo separados. As partes destacadas estavam bastante machucadas. Para fazer uma analogia - novamente - poética.


Olhou rapidamente para o relógio. Olhou com calma para si mesmo. A parte externa estava íntegra. Nada parecia ter sido perdido. De si mesmo.


Ela veio. Com um manual de explicações. Sim. Do jeito que falava parecia ler o Manual do Descontrole. Falava alto e ritmado. Fazia as pontuações de forma correta - mas desordenada. Explicava o por que do acidente.


Por um segundo o pensamento se deslocou. Achou maravilhoso. Que alguém soubesse explicar acidentes daquela forma.


Mas logo se recolocou. Respondeu com monossílabos. Objetivos. Claros. Talvez apenas não muito polidos. Mas para uma dama descontrolada – era o máximo que podia conter. Ela era a responsável por toda uma quebra. De metal a trato. Desconsiderando por total o dia seguinte - dele. 


Os meios de solução chegaram. Foi tudo resolvido protocolarmente. Protocolarmente.


Seguiu para a rotina. De taxi. Voltou para casa de noite. De taxi. Quando chegou informaram. Não tinha luz. Subiu as escadas. Muitas. Pela primeira vez se arrependeu. A vista era bela. Sim. Os braços abertos Dele pareciam mais próximos. E acolhedores.


Ficava mais lindo visto da sacada. Mas as escadas eram infinitas.


Superada mais esta etapa - entrou. Nada poderia mais ser feito. À falta da energia elétrica se agregaram muitas outras faltas.


Encontrou uma daquelas lanterninhas de página. Decidiu. Vou vencer mais este inesperado. Abriu um livro que recebera. Começou a ler. O texto falava sobre idéias num carro. Ou sobre a falta de micro num carro. Algo por aí. Na segunda palavra carro do texto – fechou o livro.


Precisava apenas repensar sobre o susto.  E todas as suas variantes. Sobre o evitável - previsto. Ou o inevitável - imprevisto. Ou o inevitável - previsto. Ou ainda sobre o evitável – imprevisto.


Riu. Concluiu. Foi tão somente uma discordância de tempo. Ou de espaço. Só isso. Nada tinha que ver com a véspera. Ou com o programado. Com a tal lanterninha – começou a organizar o dia seguinte. Agora com algumas novas adequações.


E foi dormir. Sem maiores nem menores - reflexões. 


 


Ola Amiga!!! Tens andado desaparecida! Já estava com saudades tuas!!!
Ainda bem que gostaste das minhas fotos... Mais uma vez o teu texto está fantastico!
Beijos
Teresa Isabel Silva a 28 de Julho de 2009 às 13:28

oi, buona sera...ado leggendo literatura ! bacio.
Peter a 28 de Julho de 2009 às 21:40

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