Blog de Lêda Rezende

Julho 06 2009

Fiquei olhando para ele. Sentado próximo a mim. Quase em minha frente. Quase. Falando. Por horas.

 

Vi quando chegou. Foi pontual. Na hora agendada – estava lá. Era o que parecia. Estar lá. Deveria conviver com aquele grupo há muito tempo.

 

Havia uma certa desenvoltura no caminhar entre eles. E todos o conheciam. Mas poucos se dirigiam a ele. Ou poucos ofereciam um espaço a ele. Ele cumprimentava efusivo. Exagerado - até poderia se dizer. Recebia de volta um riso social. Formal e polido. Mais ou menos assim.

 

Não sentou. Circulava entre o ambiente. Os passos fortes e rápidos. Mais fortes e rápidos que a situação solicitava. Carregando, sobre os sapatos, o verniz escuro da ansiedade.

 

A postura lembrava a de uma emergência. Como se tivesse vivendo um prazo a expirar. Passava de um canto a outro. Da porta à janela. Da janela à porta. Seu corpo parecia saído de uma dança flamenca. Esguio – mas exausto.

 

Esta a idéia que sugeria. Girava sobre si mesmo. Olhava para os lados. Para cima. Para baixo. Dava uma idéia de agitação. Muito mais interna que externa. A externa apenas coreografava a interna.

 

O olhar seguia o ritmo dos passos. Da dança. Cansado. Mas curioso. Olhar ávido. Ávido por retorno. Ávido por espaço. Ávido – talvez muito mais - por espelho. Mas era um olhar ambíguo. Como os passos. A busca parecia já vir com a certeza. Parecia conformado. Como se soubesse desde sempre o acolhimento que teria.

 

Comecei a entender. Atuava para si mesmo.

 

Ainda tinha o riso. Vez ou outra escapulia. Um riso alto. Frenético. Mas parecia ter o fim determinado. Como se o riso não tivesse destinatário. Era apenas uma obrigação do remetente – para o remetente. Os lábios continham o riso com a mesma força e rapidez dos passos.

 

Por fim escolheu uma mesa. Fazia dos objetos - íntimos companheiros. Acariciava a caneta. Dobrava e desdobrava o guardanapo. Percorria os dedos pelo copo de cima a baixo. Passava de leve os dedos pela toalha sobre a mesa. Assim - também - se amparava. Muito mais que nos passos - alegóricos em sua rapidez. Ou no olhar - míope de si mesmo. Menos ainda no riso aleatório.

 

E tão rápido quanto a escolha - começou a falar. Começou a expor.

 

Sentou-se diante deles. Ofereceu-se como um totem. Desfilou tabus.

 

Lembrei o mestre austríaco. Teria se encantado. Ou se desiludido de uma vez. Vai lá saber. São muitas as nuances da interpretação. Cabem – sempre - todos os tipos e gêneros.

 

Falava a idéia e contrapunha – sozinho - a idéia adversária. Fez um diálogo monologado. Ou um monólogo dialogado. Diante de todos. Discutiu. Concordou. Discordou. Recitou. Foi enfático em alguns momentos. Depois eufêmico por poucos instantes. Em seguida alheio. E repetia – quase matematicamente - esta sequência.

 

Sugeriu grifes. Citou filósofos. Redesenhou telas. Criticou conceitos. Exortou preconceitos. Ofereceu banquetes. Em nome da audiência. Fez da retórica uma dialética. E vice-versa. Desafiou paradoxos. A dança parecia não mais ter fim.

 

Alguém tentou um aparte. Ia discordar. Começou a fala com a palavra não.

 

Incauto. Ou inocente. Não se desafia um totem. Corre-se o risco imediato de ser imolado.

 

E assim foi. Não acabou de registrar a primeira nota e a regência se fez violenta. Alterou o tom de voz. A salada quase saiu do espaço que a continha. Uma taça balançou. O guardanapo encolheu.  

 

A vítima se recolheu. Se acautelou.

 

Notei que a mulher que o acompanhava apertou-lhe o braço. Num sinal de alerta. Sempre atentas. As mulheres. Não deve ser à toa que a preservação da espécie gira em volta delas.

 

Olhei para ele mais uma vez. Desta vez de forma bem mais disfarçada. Temi por outra imolação.

 

Diante da fala. Dos gestos. Dos objetos acariciados. Da luz do sol que vinha da janela. Diante de tanta citação. De tanta teoria. Não me lembro. Jamais. De ter visto alguém mais triste e solitário.

 

E o imitei. Concordei comigo mesma. Igual a ele. E desta forma me fiz mais próxima. Mesmo silenciosa. Tentei diminuir a solidão dele. Ao menos diante de mim para mim. Novamente igual a ele.

 

Conclui. Melhor mudar de mesa. Levantei e ri. Desta vez de forma bem menos disfarçada.

 

Ele me olhou - não devolveu o riso. O almoço acabou. Sai pensando. Se a solidão tem culpa. Ou desculpa.

 

 


Lêda, adorei o seu texto e o título ... sabe que há três dias tive a analisar um texto de Freud do livro Totem e Tabu que fala precisamente de comer o animal totêmico! Sou uma fã da psicologia e da psicanálise, não fosse eu professora de Filosofia. Parabéns pelo blog e vou adicioná-la como amiga para não a perder!
Beijinhos
Maria Fragoso a 6 de Julho de 2009 às 08:13

Miga, obrigada pelas tuas palavras no meu blog... Fikei derretida (risos)
Tb tenho um exelente orgulho nos meus pais por tudo o que eles me ensinaram e por fazerem de mim a pessoa k dou hoje!
Bjxxx
Teresa Isabel Silva a 6 de Julho de 2009 às 11:49

Blog de Crônicas - situações do cotidiano vistas pelo olhar crítico, mas relatadas com toda a emoção que o cotidiano - disfarçadamente - injeta em cada um de nós.
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